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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Cortiço - Parte 2 de 5 - Aluísio Azevedo

O Cortiço - Parte 2 de 5 - Aluísio Azevedo

O Cortiço - Aluísio Azevedo





fregueses de roupa, apesar daquela mudança para Botafogo, não a 
deixaram quase todos.


    Jerônimo, ainda na cidade nova, logo que principiara a ganhar 
melhor, fizera-se irmão de uma ordem terceira e tratara de ir pondo 
alguma coisinha de parte. Meteu a filha em um colégio, "que a queria 
com outro saber que não ele, a quem os pais não mandaram ensinar 
nada". Por último, no cortiço em que então moravam, a sua casinha era 
a mais decente, a mais respeitada e a mais confortável; porém, com a 
morte do seu patrão e com uma reforma estúpida que os sucessores dele 
realizaram em todo o serviço da pedreira, o colono desgostou-se dela e 
resolveu passar para outra.

    Foi então que lhe indicaram a do João Romão, que, depois do 
desastre do seu melhor empregado, andava justamente à procura de um 
homem nas condições de Jerônimo.
    Tomou conta da direção de todo o serviço, e em boa hora o fez, 
porque dia a dia a sua influência se foi sentindo no progresso do 
trabalho. Com o seu exemplo os companheiros tornavam-se igualmente 
sérios e zelosos. Ele não admitia relaxamentos, nem podia consentir que 
um preguiçoso se demorasse ali tomando o lagar de quem precisava 
ganhar o pão. E alterou o pessoal da pedreira, despediu alguns 
trabalhadores, admitiu novos, aumentou o ordenado dos que ficaram, 
estabelecendo-lhes novas obrigações e reformando tudo para melhor. 
No fim de dois meses já o vendeiro esfregava as mãos de contente e 
via, radiante, quanto lucrara com a aquisição de Jerônimo; tanto assim 
que estava disposto a aumentar-lhe o ordenado para conservá-lo em sua 
companhia. "Valia a pena! Aquele homem era um achado precioso! 
Abençoado fosse o Machucas que lho enviara!" E começou a 
distingui-lo e respeitá-lo como não fazia a ninguém.
    O prestigio e a consideração de que Jerônimo gozava entre os 
moradores da outra estalagem donde vinha, foi a pouco e pouco se 
reproduzindo entre os seus novos companheiros de cortiço. Ao cabo de 
algum tempo era consultado e ouvido, quando qualquer questão difícil 
os preocupava. Descobriam-se defronte dele, como defronte de um 
superior, até o próprio Alexandre abria uma exceção nos seus hábitos e 
fazia-lhe uma ligeira continência com a mão no boné, ao atravessar o 
pátio, todo fardado, por ocasião de vir ou ir para o serviço. Os dois 
caixeiros da venda, o Domingos e o Manuel, tinham entusiasmo por ele. 
"Aquele é que devia ser o patrão, diziam. É um homem sério e 
destemido! Com aquele ninguém brinca!" E, sempre que a Piedade de 
Jesus ia lá à taverna fazer as suas compras, a fazenda que lhe davam era 
bem escolhida, bem medida ou bem pesada. Muitas lavadeiras 
tomavam inveja dela, mas Piedade era de natural tão bom e benfazejo 
que não deva por isso e a maledicência murchava antes de amadurecer.
    Jerônimo acordava todos os dias às quatro horas da manhã, fazia 
antes dos outros a sua lavagem à bica do pátio, socava-se depois com 
uma boa palangana de caldo de unto, acompanhada de um pão de 
quatro; e, em mangas de camisa de riscado, a cabeça ao vento, os 
grossos pés sem meias metidos em um formidável par de chinelos de 
couro cru, seguia para a pedreira.
    A sua picareta era para os companheiros o toque de reunir. Aquela 
ferramenta movida por um pulso de Hércules valia bem os clarins de 
um regimento tocando alvorada. Ao seu retinir vibrante surgiam do 
caos opalino das neblinas vultos cor de cinza, que lá iam, como 
sombras, galgando a montanha, para cavar na pedra o pão nosso de 
cada dia. E, quando o sol desfechava sobre o píncaro da rocha os seus 
primeiros raios, já encontrava de pé, a bater-se contra o gigante de 
granito, aquele mísero grupo de obscuros batalhadores.
    Jerônimo só voltava a casa ao descair da tarde, morto de fome e de 
fadiga. A mulher preparava-lhe sempre para o jantar alguma das 


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comidas da terra deles. E ali, naquela estreita salinha, sossegada e 
humilde, gozavam os dois, ao lado um do outro, a paz feliz dos simples, 
o voluptuoso prazer do descanso após um dia inteiro de canseiras ao 
sol. E, defronte do candeeiro de querosene, conversavam sobre a sua 
vida e sobre a sua Marianita, a filhinha que estava no colégio e que só os 
visitava aos domingos e dias santos.
    Depois, até às horas de dormir, que nunca passavam das nove, ele 
tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta, junto com a mulher, 
dedilhar os fados da sua terra. Era nesses momentos que dava plena 
expansão às saudades da pátria, com aquelas cantigas melancólicas em 
que a sua alma de desterrado voava das zonas abrasadas da América 
para as aldeias tristes da sua infância.
E o canto daquela guitarra estrangeira era um lamento choroso e 
dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em 
alto-mar, quando a tempestade agita as negras asas homicidas, e as 
gaivotas doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos 
pressagos, tontas como se estivessem fechadas dentro de uma abóbada 
de chumbo.


VI

    
    Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. 
Muita luz e pouco calor.
    As tinas estavam abandonadas; os coradouros despidos. 
Tabuleiros e tabuleiros de roupa engomada saiam das casinhas, 
carregados na maior parte pelos filhos das próprias lavadeiras que se 
mostravam agora quase todas de fato limpo; os casaquinhos brancos 
avultavam por cima das saias de chita de cor. Desprezavam-se os 
grandes chapéus de palha e os aventais de aniagem; agora as 
portuguesas tinham na cabeça um lenço novo de ramagens vistosas e as 
brasileiras haviam penteado o cabelo e pregado nos cachos negros um 
ramalhete de dois vinténs; aquelas trancavam no ombro xales de lã 
vermelha, e estas de crochê, de um amarelo desbotado. Viam-se 
homens de corpo nu, jogando a placa, com grande algazarra. Um grupo 
de italianos, assentado debaixo de uma árvore, conversava 
ruidosamente, fumando cachimbo. Mulheres ensaboavam os filhos 
pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a darem-lhes murros, a 
praguejar, e as crianças berravam, de olhos fechados, esperneando. A 
casa da Machona estava num rebuliço, porque a família ia sair a passeio; 
a velha gritava, gritava Nenen, gritava o Agostinho. De muitas outras 
saiam cantos ou sons de instrumentos; ouviam-se harmônicas e 
ouviam-se guitarras, cuja discreta melodia era de vez em quando 
interrompida por um ronco forte de trombone.
    Os papagaios pareciam também mais alegres com o domingo e 
lançavam das gaiolas frases inteiras, entre gargalhadas e assobios. À 
porta de diversos cômodos, trabalhadores descansavam, de calça limpa 
e camisa de meia lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando 
jornais ou livros; um declamava em voz alta versos de "Os Lusíadas:, 


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com um empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia neles o prazer 
da roupa mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas 
fumegavam um cheiro bom de refogados de carne fresca fervendo ao 
fogo. Do sobrado do Miranda só as duas últimas janelas já estavam 
abertas e, pela escada que descia para o quintal, passava uma criada 
carregando baldes de águas servidas. Sentia-se naquela quietação de 
dia inútil a falta do resfolegar aflito das máquinas da vizinhança, com 
que todos estavam habituados. Para além do solitário capinzal do 
fundo a pedreira parecia dormir em paz o seu sono de pedra; mas, em 
compensação, o movimento era agora extraordinário à frente da 
estalagem e à entrada da venda. Muitas lavadeiras tinham ido para o 
portão, olhar quem passava; ao lado delas o Albino, vestido de branco, 
com o seu lenço engomado ao pescoço, entretinha-se a chupar balas de 
açúcar, que comprara ali mesmo ao tabuleiro de um baleiro freguês do 
cortiço.
    Dentro da taverna, os martelos de vinho branco, os copos de 
cerveja nacional e os dois vinténs de parati ou laranjinha  sucediam-se 
por cima do balcão, passando das mãos do Domingos e do Manuel para 
as mãos ávidas dos operários e dos trabalhadores, que os recebiam com 
estrondosas exclamações de pândega. A Isaura, que fora num pulo 
tomar o seu primeiro capilé, via-se tonta com os apalpões que lhe 
davam. Leonor não tinha um instante de sossego, saltando de um lado 
para outro, com uma agilidade de mono, a fugir dos punhos calosos dos 
cavouqueiros que, entre risadas, tentavam agarrá-la; e insistia na sua 
ameaça do costume: "que se queixava ao juiz de orfe", mas não se ia 
embora, porque defronte da venda viera estacionar um homem que 
tocava cinco instrumentos ao mesmo tempo, com um acompanhamento 
desafinado de bombo, pratos e guizos.
    Eram apenas oito horas e já muita gente comia e palavreava na 
casa de pasto ao lado da venda. João Romão, de roupa mudada como 
os outros, mas sempre em mangas de camisa, aparecia de espaço em 
espaço, servindo os comensais; e a Bertoleza, sempre suja e tisnada, 
sempre sem domingo nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as 
panelas e enchendo os pratos.
    Um acontecimento, porém, veio revolucionar alegremente toda 
aquela confederação da estalagem. Foi a chegada da Rita Baiana, que 
voltava depois de uma ausência de meses, durante a qual só dera 
noticias suas nas ocasiões de pagar o aluguei do cômodo.
    Vinha acompanhada por um moleque, que trazia na cabeça um 
enorme samburá carregado de compras feitas no mercado; um grande 
peixe espiava por entre folhas de alface com o seu olhar embaciado e 
triste, contrastando com as risonhas cores dos rabanetes, das cenouras e 
das talhadas de abóbora vermelha.
    - Põe isso tudo ai nessa porta. Ai no número 9, pequeno! gritou 
ela ao moleque, indicando-lhe a sua casa, e depois pagou-lhe o carreto. 
- Podes ir embora, carapeta!
    Desde que do portão a bisparam na rua, levantou-se logo um coro 
de saudações.
    - Olha! quem ai vem!
    - Olé! Bravo! É a Rita Baiana!


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    - Já te fazíamos morta e enterrada!
    - E não é que o demo da mulata está cada vez mais sacudida?...
    - Então, coisa-ruim! por onde andaste atirando esses quartos?
    - Desta vez a coisa foi de esticar, hein?!
    Rita havia parado em meio do pátio.
    Cercavam-na homens, mulheres e crianças; todos queriam novas 
dela. Não vinha em traje de domingo; trazia casaquinho branco, uma 
saia que lhe deixava ver o pé sem meia num chinelo de polimento com 
enfeites de marroquim de diversas cores. No seu farto cabelo, crespo e 
reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um 
pedaço de baunilha espetado por um gancho. E toda ela respirava o 
asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. 
Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril baiano, respondia para 
a direita e para a esquerda, pondo à mostra um fio de dentes claros e 
brilhantes que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador.
    Acudiu quase todo o cortiço para recebê-la. Choveram abraços e 
as chufas do bom acolhimento.
    Por onde andara aquele diabo, que não aparecia para mais de três 
meses?
    - Ora, nem me fales, coração! Sabe? pagode de roga! Que hei de 
fazer? é a minha cachaça velha!...
    - Mas onde estiveste tu enterrada tanto tempo, criatura?
    - Em Jacarepaguá.
    - Com quem?
    - Com o Firmo...
    - Oh! Ainda dura isso?
    - Cala a boca! A coisa agora é séria!
    - Qual! Quem mesmo? Tu? Passa fora!
    - Paixões da Rita! exclamou o Bruno com uma risada. Uma por 
ano! Não contando as miúdas!
    - Não! isso é que não! Quando estou com um homem não olho 
pra outro!
    Leocádia, que era perdida pela mulata, saltara-lhe ao pescoço ao 
primeiro encontro, e agora, defronte dela, com as mãos nas cadeiras, os 
olhos úmidos de comoção, rindo, sem se fartar de vê-la, fazia-lhe 
perguntas sobre perguntas:
    - Mas por que não te metes tu logo por uma vez com o Firmo? 
por que não te casas com ele?
    - Casar? protestou a Rita. Nessa não cai a filha de meu pai! 
Casar? Livra! Para quê? para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o 
diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! qual! Deus te livre! Não 
há como viver cada um senhor e dono do que é seu!
    E sacudiu todo o corpo num movimento de desdém que lhe era 
peculiar.
    - Olha só que peste! considerou Augusta, rindo, muito mole, na 
sua honestidade preguiçosa.
    Esta também achava infinita graça na Rita Baiana e seria capaz de 
levar um dia inteiro a vê-la dançar o chorado.
    Florinda ajudava a mãe a preparar o almoço, quando lhe cheirou 
que chegara a mulata, e veio logo correndo, a rir-se desde longe, 


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cair-lhe nos braços. A própria Marciana, de seu natural sempre triste e 
metida consigo, apareceu à janela, para saudá-la. A das Dores, com as 
saias arrepanhadas no quadril e uma toalha por cima amarrada pela 
parte de trás e servindo de avental, o cabelo ainda por pentear, mas 
entrouxado no alto da cabeça, abandonou a limpeza que fazia em casa e 
veio ter com a Rita, para dar-lhe uma palmada e gritar-lhe no nariz: 
    - Desta vez tomaste um fartão, hein, mulata assanhada?...
    E, ambas a caírem de riso, abraçaram-se em intimidade de amigas, 
que não têm segredos de amor uma para a outra.
    A Bruxa veio em silêncio apertar a mão de Rita e retirou-se logo.
    - Olha a feiticeira! bradou esta última, batendo no ombro da 
idiota. Que diabo você tanto reza, tia Paula? Eu quero que você me dê 
um feitiço para prender meu homem!
    E tinha uma frase para cada um que se aproximasse. Ao ver Dona 
Isabel, que apareceu toda cerimoniosa na sua saia da missa e com o seu 
velho xale de Macau, abraçou-a e pediu-lhe uma pitada, que a senhora 
recusou, resmungando:
    - Sai daí diabo!
    - Cadê Pombinha? perguntou a mulata.
    Mas, nessa ocasião, Pombinha acabava justamente de sair de casa, 
muito bonita e asseada com um vestido novo de cetineta. As mãos 
ocupadas com o livro de rezas, o lenço e a sombrinha.
    - Ah! Como está chique! exclamou a Rita, meneando a cabeça. É 
mesmo uma flor! - e logo que Pombinha se pôs ao seu alcance, 
abraçou-lhe a cintura e deu-lhe um beijo. - O João Costa se não te 
fizer feliz como os anjos sou capaz de abrir-lhe o casco com o salto do 
chinelo! Juro pelos cabelos do meu homem! - E depois, tornando-se 
séria, perguntou muito em voz baixa a Dona Isabel: - Já veio?... ao que 
a velha respondeu negativamente com um desconsolado e mudo abanar 
de orelhas.
    O circunspecto Alexandre, sem querer declinar da sua gravidade, 
pois que estava fardado e pronto para sair, contentou-se em fazer com a 
mão um cumprimento à mulata, ao qual retrucou esta com uma 
continência militar e uma gargalhada que o desconcertaram.
    Iam fazer comentários sobre o caso, mas a Rita, voltando-se para o 
outro lado, gritou:
    - Olha o velho Libório! Como está cada vez mais duro!... Não se 
entrega por nada o demônio do judeu!
    E correu para o lugar, onde estava, aquecendo-se ao belo sol de 
abril, um octogenário, seco, que parecia mumificado pela idade, a 
fumar num resto de cachimbo, cujo pipo desaparecia na sua boca já sem 
lábios.
    - Êh! êh! fez ele, quando a mulata se aproximou.
    - Então? perguntou Rita, abaixando-se para tocar-lhe no ombro. 
Quando é o nosso negócio?... Mas você há de deixar-me primeiro abrir 
o bauzinho de folha!...
    Libório riu-se com as gengivas, tentando apalpar as coxas da 
Baiana, por caçoada, afetando luxúria.
    Todos acharam graça nesta pantomimice do velhinho, e então, a 
mulata, para completar a brincadeira, deu uma volta entufando as saias 


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e sacudiu-as depois sobre a cabeça dele, que se fingiu indignado, a 
fungar exageradamente.
    E entre a alegria levantada pela sua reaparição no cortiço, a Rita 
deu conta de que pintara na sua ausência; disse o muito que festou em 
Jacarepaguá; o entrudo que fizera pelo carnaval. Três meses de folia! E, 
afinal abaixando a voz, segredou às companheiras que à noite teriam 
um pagodinho de violão. Podiam contar como certo!
    Esta última noticia causou verdadeiro júbilo no auditório. As 
patuscadas da Rita Baiana eram sempre as melhores da estalagem. 
Ninguém como o diabo da mulata para armar uma função que ia pelas 
tantas da madrugada, sem saber a gente como foi que a noite se passou 
tão depressa. Além de que "era aquela franqueza! enquanto houvesse 
dinheiro ou crédito, ninguém morria com a tripa marcha ou com a goela 
seca!"
    - Diz-me cá, ó Leocadinha! quem são aqueles jururus que estão 
agora no 35? indagou ela, vendo o Jerônimo à porta da casa com a 
mulher.
    - Ah! explicou a interrogada, é o Jeromo e mais a Piedade, um 
casal que inda não conheces. Entrou ao depois que arribaste. Boa gente, 
coitados!
    Rita carregou para dentro do seu cômodo as provisões que 
trouxera; abriu logo a janela e pôs-se a cantar. Sua presença enchia de 
alegria a estalagem toda.
    O Firmo, o mulato com quem ela agora vivia metida, o demônio 
que a desencabeçara para aquela maluqueira, de Jacarepaguá, ia lá 
jantar esse dia com um amigo. Rita declarava isto às companheiras, 
amolando uma faquinha no tijolo da sua porta, para escamar o peixe; 
enquanto os gatos, aqueles mesmos que perseguiam o sardinheiro, 
vinham, um a um, chegando-se todos só com o ruído da afiação do 
ferro.
    Ao lado direito da casinha da mulata, no número 8, a das Dores 
preparava-se também para receber nesse dia o seu amigo e dispunha-se 
a fazer uma limpeza geral nas paredes, nos tetos, no chão e nos móveis, 
antes de meter-se na cozinha. Descalça, com a saia levantada até ao 
joelho, uma toalha na cabeça, os braços arregaçados, viam-na passar de 
carreira, de casa para a bica e da bica outra vez para casa, carregando 
pesados baldes cheios de água. E daí a pouco apareciam ajudantes 
gratuitos para os arranjos do jantar, tanto do lado da das Dores, como 
do lado da Rita Baiana. O Albino encarregou-se de varrer e arrumar a 
casa desta, entretanto que a mulata ia para o fogão preparar os seus 
quitutes do Norte. E veio a Florinda, e veio a Leocádia, e veio a 
Augusta, impacientes todas elas pelo pagode que havia de sair à noite, 
depois do jantar. Pombinha não apareceu durante o dia, porque estava 
muito ocupada, aviando a correspondência dos trabalhadores e das 
lavadeiras: serviço este que ela deixava para os domingos.
    Numa pequena mesa, coberta por um pedaço de chita, com o 
tinteiro ao lado da caixinha de papel, a menina escrevia, enquanto o 
dono ou dona da carta ditava em voz alta o que queria mandar dizer à 
família. ou a algum mau devedor de roupa lavada. E ia lançando tudo 
no papel, apenas com algumas ligeiras modificações, para melhor, no 


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modo de exprimir a idéia. Pronta uma carta, sobrescritava-a, 
entregava-a ao dono e chamava por outro, ficando a sós com um de 
cada vez, pois que nenhum deles queria dar o seu recado em presença 
de mais ninguém senão de Pombinha. De sorte que a pobre rapariga ia 
acumulando no seu coração de donzela toda a súmula daquelas paixões 
e daqueles ressentimentos, às vezes mais fétidos do que a evaporação 
de um lameiro em dias de grande calor.
    - Escreva lá, Nhã Pombinha! disse junto dela um cavouqueiro, 
coçando a cabeça; mas faça letra grande, que é pra mulher entender! 
Diga-lhe que não mando desta feita o dinheiro que me pediu, porque 
agora não o tenho e estou muito acossado de apertos; mas que lho 
prometo pro mês. Ela que se vá arranjando por lá, que eu cá sabe Deus 
como me coço; e que, se o Luís, o irmão, resolver de vir, que mo mande 
dizer com tempo, para ver se se lhe dá furo à vida por aqui; que isto de 
vir sem inda ter p'ronde, é fraco negócio, porque as coisas por cá não 
correm lá para que digamos!
    E depois que a Pombinha escreveu, acrescentou:
    - Que eu tenho sentido muito a sua falta dela; mas também sou o 
mesmo e não me meto em porcarias e relaxamento; e que tenciono 
mandar buscá-la, logo que Deus me ajude, e a Virgem! Que ela não tem 
de que se arreliar por mor do dinheiro não ir desta; que, como lá diz o 
outro: quando não há el-rei o perde! Ah! (ia esquecendo!) quanto à 
Libânia, é tirar daí o juízo! que a Libânia se atirou aos cães e faz hoje má 
vida na Rua de São Jorge; que se esqueça dela por vez e perca o amor às 
duas coroas que lhe emprestou!
    E a menina escrevia tudo, tudo, apenas interrompendo o seu 
trabalho para fitar, com a mão no queixo, o cavouqueiro, à espera de 
nova frase.



VII


    E assim ia correndo o domingo no cortiço até às três da tarde, 
horas em que chegou mestre Firmo, acompanhado pelo seu amigo 
Porfiro, trazendo aquele o violão e o outro o cavaquinho.
    Firmo, o atual amante de Rita Baiana, era um mulato pachola, 
delgado de corpo e ágil como um cabrito; capadócio de marca, 
pernóstico, só de maçadas, e todo ele se quebrando nos seus 
movimentos de capoeira. Teria seus trinta e tantos anos, mas não 
parecia ter mais de vinte e poucos. Pernas e braços finos, pescoço 
estreito, porém forte; não tinha músculos, tinha nervos. A respeito de 
barba, nada mais que um bigodinho crespo, petulante, onde reluzia 
cheirosa a brilhantina do barbeiro; grande cabeleira encaracolada, 
negra, e bem negra, dividida ao meio da cabeça, escondendo parte da 
testa e estufando em grande gaforina por debaixo da aba do chapéu de 
palha, que ele punha de banda, derreado sobre a orelha esquerda.
    Vestia, como de costume, um paletó de lustrina preta já bastante 
usado, calças apertadas nos joelhos, mas tão largas na bainha que lhe 


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engoliam os pezinhos secos e ligeiros. Não trazia gravata, nem colete, 
sim uma camisa de chita nova e ao pescoço, resguardando o colarinho, 
um lenço alvo e perfumado; à boca um enorme charuto de dois vinténs 
e na mão um grosso porrete de Petrópolis, que nunca sossegava, tantas 
voltas lhe dava ele a um tempo por entre os dedos magros e nervosos.
    Era oficial de torneiro, oficial perito e vadio; ganhava uma semana 
para gastar num dia; às vezes, porém, os dados ou a roleta 
multiplicavam-lhe o dinheiro, e então ele fazia como naqueles últimos 
três meses: afogava-se numa boa pândega com a Rita Baiana. A Rita ou 
outra. "O que não faltava por aí eram saias para ajudar um homem a 
cuspir o cobre na boca do diabo!" Nascera no Rio de Janeiro, na Corte; 
militara dos doze aos vinte anos em diversas maltas de capoeiras; 
chegara a decidir eleições nos tempos do voto indireto. Deixou nome 
em várias freguesias e mereceu abraços, presentes e palavras de 
gratidão de alguns importantes chefes de partido. Chamava a isso a sua 
época de paixão política; mas depois desgostou-se com o sistema de 
governo e renunciou às lutas eleitorais, pois não conseguira nunca o 
lugar de continuo numa repartição pública - o seu ideal! -Setenta 
mil-réis mensais: trabalho das nove às três.
    Aquela amigação com a Rita Baiana era uma coisa muito 
complicada e vinha de longe; vinha do tempo em que ela ainda estava 
chegadinha de fresco da Bahia, em companhia da mãe, uma cafuza 
dura, capaz de arrancar as tripas ao Manduca da Praia. A cafuza morreu 
e o Firmo tomou conta da mulata; mas pouco depois se separaram por 
ciúmes, o que aliás não impediu que se tornassem a unir mais tarde, e 
que de novo brigassem e de novo se procurassem. Ele tinha "paixa" 
pela Rita, e ela, apesar de volúvel como toda a mestiça, não podia 
esquecê-lo por uma vez; metia-se com outros, é certo, de quando em 
quando, e o Firmo então pintava o caneco, dava por paus e por pedras, 
enchia-a de bofetadas, mas, afinal, ia procurá-la, ou ela a ele, e 
ferravam-se de novo, cada vez mais ardentes, como se aquelas turras 
constantes reforçassem o combustível dos seus amores.
    O amigo que Firmo trazia aquele domingo em sua companhia, o 
Porfiro, era mais velho do que ele e mais escuro. Tinha o cabelo 
encarapinhado. Tipógrafo. Afinavam-se muito os dois tipos com as 
suas calças de boca larga e com os seus chapéus ao lado; mas o Porfiro 
tinha outra linha: não dispensava a sua gravata de cor saltando em laço 
frouxo sobre o peito da camisa; fazia questão da sua bengalinha com 
cabeça de prata e da sua piteira de âmbar e espuma, em que ele 
equilibrava um cigarro de palha.
    Desde a entrada dos dois, a casa de Rita esquentou. Ambos 
tiraram os paletós e mandaram vir parati, "a abrideira para muqueca 
baiana". E não tardou que se ouvissem gemer o cavaquinho e o violão.
    Ao lado chegava também o homem da das Dores, com um 
companheiro do comércio; vinham vestidos de fraque e chapéu alto. A 
Machona, Nenen e o Agostinho, já de volta do seu passeio à cidade, lá 
estavam ajudando. Ficariam para o rega-bofe.
    Um rumor quente, de dia de festa, ia-se formando naquele ponto 
da estalagem.
    Tanto numa casa, como na outra, o jantar seria às cinco horas. Rita 


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"botou" vestido branco, de cambraia, encanudado a ferro. Leocádia, 
Augusta, o Bruno, o Alexandre e o Albino jantariam com ela no 
número 9; e no número 8, com a das Dores, ficariam, além dos parentes 
desta, Dona Isabel, Pombinha, Marciana e Florinda.
    Jerônimo e sua mulher foram convidados para ambas as mesas, 
mas não aceitaram o convite para nenhuma, dispostos a passar a tarde 
ao lado um do outro, tranqüilamente como sempre, comendo em boa 
paz o seu cozido à moda da terra e bebendo o seu quartilho de verde 
pela mesma infusa.
    Entretanto, os dois jantares vizinhos principiaram ruidosos logo 
desde a sopa e assanharam-se progressivamente.
    Meia hora depois vinha das duas casas uma algazarra infernal. 
Falavam e riam todos ao mesmo tempo; tilintavam os talheres e os 
copos. Cá de fora sentia-se perfeitamente o prazer que aquela gente 
punha em comer e beber à farta, com a boca cheia, os beiços 
envernizados de molho gordo. Alguns cães rosnavam à porta, roendo 
os ossos que traziam lá de dentro. De vez em quando, da janela de uma 
das casas aparecia uma das moradoras, chamando a vizinha, para 
entregar um prato cheio, permutando as duas entre si os quitutes e as 
petisqueiras em que eram mais peritas.
    - Olha! gritava a das Dores para o número 9, diz à Rita que prove 
deste zorô, pra ver que tal o acha, e que o vatapá estava muito gostoso! 
Se ela tem pimentas, que me mande algumas!
    Do meio para o fim do jantar o baralho em ambas as casas era 
medonho. No número 8 berravam-se brindes e cantos desafinados. O 
português amigo da das Dores, já desengravatado e com os braços à 
mostra, vermelho, lustroso de suor, intumescido de vinho virgem e 
leitão de forno, repotreava-se na sua cadeira, a rir forte, sem calar a 
boca, com a camisa a espipar-lhe pela braguilha aberta. O sujeito que a 
acompanhara fazia fosquinhas a Nenen, protegido no seu namoro por 
toda a roda, desde a respeitável Machona até ao endemoninhado 
Agostinho, que não ficava quieto um instante, nem deixava sossegar a 
mãe, gritando um contra o outro como dois possessos. Florinda, sempre 
muito risonha e esperta, divertia-se a valer e, de vez em quando, 
levantava-se da mesa, para ir de carreira levar lá fora ao número 12 um 
prato de comida à sua velha que, à última hora, vindo-lhe o 
aborrecimento, resolvera não ir ao jantar. À sobremesa o esfogueado 
amigo da dona da casa exigiu que a amante se lhe assentasse nas coxas 
e dava-lhe beijos em presença de toda a companhia, o que fez com que 
Dona Isabel, impaciente por afastar a filha daquele inferno, declarasse 
que sentia muito calor e que ia lá para a porta esperar mais à fresca o 
café. 
    Em casa de Rita Baiana a animação era inda maior. Firmo e 
Porfiro faziam o diabo, cantando, tocando bestialógicos, arremedando 
a fala dos pretos cassanges. Aquele não largava a cintura da mulata e só 
bebia no mesmo copo com ela; o outro divertia-se a perseguir o Albino, 
galanteando-o afetadamente, para fazer rir à sociedade. O lavadeiro 
indignava-se, dava o cavaco". Leocádia, a quem o vinho produzira 
delírios hilaridade, torcia-se em gargalhadas, tão fortes e sacudidas que 
desconjuntavam a cadeira em que ela estava; e, muito lubrificada pela 


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bebedeira, punha os pesados pés sobre os de Porfiro, roçando as pernas 
contra as dele e deixando-se apalpar pelo capadócio. O Bruno, 
defronte dela, rubro e suado como se estivesse a trabalhar na forja, 
falava e gesticulava sem se levantar, praguejando ninguém sabia contra 
quem. O Alexandre, à paisana, assentado ao lado da mulher, 
conservava quase toda a sua seriedade e pedia que não fizessem tanto 
barulho porque podiam ouvir da rua. E notou, em voz misteriosa, que o 
Miranda tinha vindo já espiar por várias vezes da janela do sobrado.
    - Que espie as vezes que quiser! bradou a Rita. Pois então a gente 
não é senhora de estar um domingo em casa a seu gosto e com os 
amigos que entender?!... Que vá pro diabo que o lixe! Eu não como 
nem bebo do que é dele!
    Os dois mulatos e o Bruno também eram da mesma opinião. "Pois 
então! Desde que se não ofendia, nem prejudicava a safardana nenhum 
com aquele divertimento, não havia de que falar!"
    - E que não entiquem muito, ameaçou o Firmo, que comigo é 
nove! E o trunfo é paus!
    O Porfiro exclamou:
    - Se se incomodam com a gente... os incomodados são os que se 
mudam! Ora pistolas!
    - O domingo fez-se pra gozar!... resmungou o Bruno, deixando 
cair a cabeça nos braços cruzados sobre a mesa.
    Mas ergueu-se logo, cambaleando, e acrescentou, despindo o 
braço direito até o ombro:
    - Eles que se façam finos, que os racho!
    O Alexandre procurou acalmá-lo, dando-lhe um charuto.
    Em uma outra casinha do cortiço acabava de estalar uma nova 
sobremesa, engrossando o barulho geral: era o jantar de um grupo de 
italianos mascates, onde o Delporto, o Pompeo, o Francesco e o Andréa 
representavam as principais figuras. Todos eles cantavam em coro, mais 
afinados que nas outras duas casas; quase, porém, que se lhes não podia 
ouvir as vozes, tantas e tão estrondosas eram as pragas que soltavam ao 
mesmo tempo. De quando em quando, de entre o grosso e macho 
vozear dos homens, esguichava um falsete feminino, tão estridente que 
provocava réplica aos papagaios e aos perus da vizinhança. E, daqui e 
dali, iam rebentando novas algazarras em grupos formados cá e lá pela 
estalagem. Havia nos operários e nos trabalhadores decidida disposição 
para pandegar, para aproveitar bem, até ao fim, aquele dia de folga. A 
casa de pasto fermentava revolucionada, como um estômago de 
bêbedo depois de grande bródio, e arrotava sobre o pátio uma baforada 
quente e ruidosa que entontecia.
    O Miranda apareceu furioso à janela, com o seu tipo de 
comendador, a barriga empinada para a frente, de paletó branco, um 
guardanapo ao pescoço e um trinchante empunhado na destra, como 
uma espada.
    - Vão gritar pra o inferno, com um milhão de raios! berrou ele, 
ameaçando para baixo. Isto também já é demais! Se não se calam, vou 
daqui direito chamar a policia! Súcia de brutos!
    Com os berros do Miranda muita gente chegou à porta de casa, e o 
coro de gargalhadas, que ninguém podia conter naquele momento de 


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alegria, ainda mais o pôs fora de si.
    - Ah, canalhas! O que eu devia fazer era atirar-lhes daqui, como 
a cães danados!
    Uma vaia uníssona ecoou em todo o pátio da estalagem, enquanto 
em volta do negociante surgiam várias pessoas, puxando-o para dentro 
de casa.
    - Que é isso, Miranda! Então! Estás agora a dar palha?...
    - O que eles querem é que encordoes!...
    - Saia daí papai!
    - Olhe alguma pedrada, esta gente é capaz de tudo!
    E via-se de relance Dona Estela, com a sua palidez de flor meia 
fanada, e Zulmira, lívida, um ar de fastio a fazê-la feia, e o 
Henriquinho, cada vez mais bonito, e o velho Botelho, indiferente, a 
olhar para toda esta porcaria do mundo com o profundo desprezo dos 
que já não esperam nada dos outros, nem de si próprios.
    - Canalhas! repisava o Miranda.
    O Alexandre, que fora de carreira enfiar a sua farda, apresentou-se 
então e disse ao negociante que não era prudente atirar insultos cá pra 
baixo. Ninguém o tinha provocado! Se os moradores da estalagem 
jantavam em companhia de amigos, lá em cima o Miranda também 
estava comendo com os seus convidados! Era mau insultar, porque 
palavra puxa palavra, e, em caso de ter de depor na policia, ele, 
Alexandre, deporia a favor de quem tivesse razão!...
    - Fomente-se! respondeu o negociante, voltando-lhe as costas.
    - Já se viu chubregas mais atrevido?! exclamou Firmo, que até ai 
estivera calado, à porta da Rita, com as mãos nas cadeiras, a fitar 
provocadoramente o Miranda.
    E gritando mais alto, para ser bem ouvido:
    - Facilita muito, meu boi manso, que te escorvo os galhos na 
primeira ocasião!
    O Miranda foi arrancado com violência da janela, e esta fechada 
logo em seguida com estrondo.
    - Deixa lá esse labrego! resmungou Porfiro, tomando o amigo 
pelo braço e fazendo-o recolher-se à casa da mulata. Vamos ao café, é o 
que é, antes que esfrie!
    Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se diversos 
moradores do cortiço, jornaleiros de baixo salário, pobre gente 
miserável, que mal podia matar a fome com o que ganhava. Ainda 
assim não havia entre eles um só triste. A mulata convidou-os logo a 
comer um bocado e beber um trago. A proposta foi aceita alegremente.
    E a casa dela nunca se esvaziava.
    Anoitecia já.
    O velho Libório, que jamais ninguém sabia ao certo onde 
almoçava ou jantava, surgiu do seu buraco, que nem jabuti quando vê 
chuva.
    Um tipão, o velho Libório! Ocupava o pior canto do cortiço e 
andava sempre a fariscar os sobejos alheios, filando aqui, filando ali, 
pedindo a um e a outro, como um mendigo, chorando misérias 
eternamente, apanhando pontas de cigarro para fumar no cachimbo, 
cachimbo que o sumítico roubara de um pobre cego decrépito. Na 


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estalagem diziam todavia que Libório tinha dinheiro aferrolhado, 
contra o que ele protestava ressentido, jurando a sua extrema penaria. E 
era tão feroz o demônio naquela fome de cão sem dono, que as mães 
recomendavam às suas crianças todo o cuidado com ele, porque o 
diabo do velho, quando via algum pequeno desacompanhado, 
punha-se logo a rondá-lo, a cercá-lo de festas e a fazer-lhe ratices para o 
engabelar, até conseguir furtar-lhe o doce ou o vintenzinho que o 
pobrezito trazia fechado na mão.
    Rita fê-lo entrar e deu-lhe de comer e de beber; mas sob condição 
de que o esfomeado não se socasse demais, para não rebentar ali 
mesmo.
    Se queria estourar, fosse estourar para longe!
    Ele pôs-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os 
lados, como se temesse que alguém lhe roubasse a comida da boca. 
Engolia sem mastigar, empurrando os bocados com os dedos, 
agarrando-se ao prato e escondendo nas algibeiras o que não podia de 
uma só vez meter para dentro do corpo.
    Causava terror aquela sua implacável mandíbula, assanhada e 
devoradora; aquele enorme queixo, ávido, ossudo e sem um dente, que 
parecia ir engolir tudo, tudo, principiando pela própria cara, desde a 
imensa batata vermelha que ameaçava já entrar-lhe na boca, até as duas 
bochechinhas engelhadas, os olhos, as orelhas, a cabeça inteira, 
inclusive a sua grande calva, lisa como um queijo e guarnecida em redor 
por uns pêlos puídos e ralos como farripas de coco.
    Firmo propôs embebedá-lo, só para ver a sorte que ele daria. O 
Alexandre e a mulher opuseram-se, mas rindo muito; nem se podia 
deixar de rir, apesar do espanto, vendo aquele resto de gente, aquele 
esqueleto velho, coberto por uma pele seca, a devorar, a devorar sem 
tréguas, como se quisesse fazer provisão para uma outra vida.
    De repente, um pedaço de carne, grande demais para ser ingerido 
de uma vez, engasgou-o seriamente. Libório começou a tossir, aflito, 
com os olhos sumidos, a cara tingida de uma vermelhidão apoplética. A 
Leocádia, que era quem lhe ficava mais perto, soltou-lhe um murro nas 
costas.
    O glutão arremessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne já 
meio triturado.
    Foi um nojo geral. 
    - Porco! gritou Rita, arredando-se.
    - Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo! disse Porfiro. 
Parece que nunca viu comida, este animal!
    E notando que ele continuava ainda mais sôfrego por ter perdido 
um instante:
    - Espere um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Há 
muito ai com que te fartares por uma vez! Com efeito!
    - Beba água, tio Libório! aconselhou Augusta.
    E, boa, foi buscar um copo de água e levou-lho a boca.
    O velho bebeu, sem despregar os olhos do prato.
    Arre diabo! resmungou Porfiro, cuspindo para o lado. Este é 
mesmo capaz de comer-nos a todos nós, sem achar espinhas!
    Albino, esse, coitado! é que não comia quase nada e o pouco que 


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conseguia meter no estômago fazia-lhe mal. Rita, para bolir com ele, 
disse que semelhante fastio era gravidez com certeza.
    - Você já começa, hein?... balbuciou o pobre moço, 
esgueirando-se com a sua xícara de café.
    - Olha, cuidado! gritou-lhe a mulata. Pouco café, que faz mal ao 
leite, e a criança pode sair trigueira!
    O Albino voltou para dizer muito sério à Rita que não gostava 
dessas brincadeiras.
    Alexandre, que havia acendido um charuto, depois de  oferecer 
outros, galantemente, aos companheiros, arriscou, para também fazer a 
sua pilhéria, que o sonso do Albino fora pilhado às voltas com a Bruxa 
no capinzal dos fundos da estalagem, debaixo das mangueiras.
    Só a Leocádia achou graça nisto e riu a bandeiras despregadas. 
Albino declarou, quase chorando, que ele não mexia com pessoa 
alguma, e que ninguém, por conseguinte, devia mexer com ele.
    - Mas afinal, perguntou Porfiro, é mesmo exato que este 
pamonha não conhece mulher?...
    - Ele é quem pode responder! acudiu a mulata. E esta história vai 
ficar hoje liquidada! Vamos lá, ó Albino! confessa-nos tudo, ou mal te 
terás de haver com a gente!
    - Se eu soubesse que era para isto que me chamaram não tinha 
vindo cá, sabe? gaguejou o lavadeiro, amuado. Eu não sirvo de palito!
    E ter-se-ia retirado chorando, se a Rita não lhe cortasse a saída, 
dizendo, como se falasse a uma criatura do seu sexo, mais fraca do que 
ela:
    - Ora não sejas tolo! Deixa-te ficar ai! Se deres o cavaco é pior!
    Albino limpou as lágrimas e foi sentar-se de novo.
    Entretanto, a noite fechava-se, refrescando a tarde com o 
sudoeste. Bruno roncava no lugar em que tinha jantado. A Leocádia 
passara livremente a perna para cima da de Porfiro, que a abraçava, 
bebendo parati aos cálices.
    Mas o Firmo lembrou que seria melhor irem lá para fora; e todos, 
menos o Bruno, dispuseram-se a deixar a sala, enquanto o velho 
Libório! pedia a Alexandre um cigarro para despejar no cachimbo. 
Servido, o filante desapareceu logo, correndo ao faro de outros 
jantares. Rita, Augusta e Albino ficaram lavando a louça e arrumando a 
casa.
    Lá fora o coro dos italianos se prolongava numa cadência 
monótona e arrastada, em que havia muito peso de embriaguez. Junto à 
porta de várias casas faziam-se grupos de pessoas assentadas em 
cadeiras ou no chão; mas a roda da Rita Baiana era a maior, porque fora 
engrossada pelos convivas da das Dores. O fumo dos cachimbos e dos 
charutos elevava-se de toda a parte. Decrescera o ruído geral; fazia-se a 
digestão; já ninguém discutia e todos conversavam.
    Acendeu-se o lampião do pátio. Iluminaram-se diversas janelas 
das casinhas.
    Agora, no sobrado do Miranda é que era o maior barulho. Saia de 
lá uma terrível gritaria de hipes e hurras, virgulada pelo desarrolhar de 
garrafas de champanha.
    - Como eles atacam!... observou Alexandre, já de novo sem 


[Linha 2300 de 8202 - Parte 2 de 5]


farda.
    - E, no entanto, reprovam que a gente coma o que é seu com um 
pouco mais de alegria! comentou a Rita. Uma súcia!
    Falou-se então largamente a respeito da família do Miranda, 
principalmente de Dona Estela e do Henrique. A Leocádia afiançou 
que, numa ocasião, espiando por cima do muro, trepada num montão 
de garrafas vazias que havia no pátio do cortiço, vira a sirigaita com a 
cara agarrada à do estudante, aos beijos e aos abraços, que era obra; e 
assim que os dois deram fé que ela os espreitava, deitaram a fugir que 
nem cães apedrejados.
    A Augusta Carne-Mole benzeu-se, com uma invocação à Virgem 
Santíssima, e o companheiro do amigo da das Dores, que insistia no seu 
namoro com a Nenen, mostrou-se muito admirado com a noticia, 
"supunha Dona Estela um modelo de seriedade".
    - Qual! negou Alexandre. Isso por ai é tudo uma 
pouca-vergonha, que faz descrer um homem de si mesmo! Eu também 
já vi de uma feita bem boas coisas pela sombra dela na parede; mas não 
era com o estudante, era com um sujeito que lá ia às vezes, um barbado, 
careca e comido de bexigas. E a pequena vai pelo mesmo conseguinte...
    Esta novidade produziu grande surpresa no grupo inteiro. 
Quiseram os pormenores e o Alexandre não se fez de rogado: o namoro 
da Zulmira era com um rapazola magro, de lunetas, bigode louro, bem 
vestido, que lhe rondava a casa à noite e às vezes de madrugada. 
Parecia estudante!
    - O que eles têm feito? inquiriu a das Dores.
    - Por enquanto a coisa não passa de namorico da janela para a 
rua. Conversam sempre naquela última do lado de lá de fora. Já os 
tenho apreciado quando estou de serviço. Ele fala muito em casamento 
e a pequena o quer; mas, pelo jeito, o velho é que lhe corta as asas.
    - Ele não tem entrada na casa?
    - Não! Pois isso é que eu acho feio...! Se ele quer casar com a 
menina, devia entender-se com a família e não estar agora daqui 
debaixo a fazer-lhe fosquinhas!
    - Sim, intrometeu-se o Firmo; mas não vê que aquele mesmo, o 
Miranda, vai dar a filha a um estudante! Guarda-a para um dos seus... 
Quem sabe até se o bruto não tem já de olho por ai algum cafezista 
pé-de-boi!... Eu sei o que é essa gente!
    - Por isso é que se vê tanta porcaria por esse mundo de Cristo! 
disse a Augusta. Filha minha só se casará com quem ela bem quiser; que 
isto de casamentos empurrados à força acabam sempre desgraçando 
tanto a mulher como o homem! Meu marido é pobre e é de cor, mas eu 
sou feliz, porque casei por meu gosto!
    - Ora! Mais vale um gosto que quatro vinténs!
    Nisto começou a gemer à porta do 35 uma guitarra; era de 
Jerônimo. Depois da ruidosa alegria e do bom humor, em que palpitara 
àquela tarde toda a república do cortiço, ela parecia ainda mais triste e 
mais saudosa do que nunca:

"Minha vida tem desgostos,
Que só eu sei compreender...


[Linha 2350 de 8202 - Parte 2 de 5]


Quando me lembro da terra
Parece que vou morrer..."

    E, com o exemplo da primeira, novas guitarras foram acordando. 
E, por fim, a monótona cantiga dos portugueses enchia de uma alma 
desconsolada o vasto arraial da estalagem, contrastando com a 
barulhenta alacridade que vinha lá de cima, do sobrado do Miranda.

"Terra minha, que te adoro,
Quando é que eu te torno a ver?
Leva-me deste desterro;
Basta já de padecer."

    Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, 
iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em 
tristeza; mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo 
violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado baiano. 
Nada mais que os primeiros acordes da música crioula para que o 
sangue de toda aquela gente despertasse logo, como se alguém lhe 
fustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras notas, e 
outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram dois 
instrumentos que soavam, eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em 
torrente, a correrem serpenteando, como cobras numa floresta 
incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenesi de amor; música 
feita de beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, 
fazendo estalar de gozo.
    E aquela música de fogo doidejava no ar como um aroma quente 
de plantas brasileiras, em torno das quais se nutrem, girando, 
moscardos sensuais e besouros venenosos, freneticamente, bêbedos do 
delicioso perfume que os mata de volúpia.
    E à viva crepitação da música baiana calaram-se as melancólicas 
toadas dos de além-mar. Assim à refulgente luz do trópicos amortece a 
fresca e doce claridade dos céus da Europa, como se o próprio sol 
americano, vermelho e esbraseado, viesse, na sua luxúria de sultão, 
beber a lágrima medrosa da decaída rainha dos mares velhos.
    Jerônimo alheou-se de sua guitarra e ficou com as mãos 
esquecidas sobre as cordas, todo atento para aquela música estranha, 
que vinha dentro dele continuar uma revolução começada desde a 
primeira vez em que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada 
de desafio, a luz deste sol orgulhoso e selvagem, e lhe cantou no ouvido 
o estribilho da primeira cigarra, e lhe acidulou a garganta o suco da 
primeira fruta provada nestas terras de brasa, e lhe entonteceu a alma o 
aroma do primeiro bogari, e lhe transtornou o sangue o cheiro animal da 
primeira mulher, da primeira mestiça, que junto dele sacudiu as saias e 
os cabelos.
    - Que tens tu, Jeromo?... perguntou-lhe a companheira, 
estranhando-o.
    - Espera, respondeu ele, em voz baixa: deixa ouvir!
    Firmo principiava a cantar o chorado, seguido por um 
acompanhamento de palmas.


[Linha 2400 de 8202 - Parte 2 de 5]


    Jerônimo levantou-se, quase que maquinalmente, e seguido por 
Piedade, aproximou-se da grande roda que se formara em torno dos 
dois mulatos. Ai, de queixo grudado às costas das mãos contra uma 
cerca de jardim, permaneceu, sem tugir nem mugir, entregue de corpo e 
alma àquela cantiga sedutora e voluptuosa que o enleava e tolhia, como 
à robusta gameleira brava o cipó flexível, carinhoso e traiçoeiro.
    E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir 
de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse 
momento, envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os 
meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça 
irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, 
com muito de serpente e muito de mulher.
    Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as 
ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, 
como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que 
a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de 
braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse afundando num 
prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se 
encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido 
prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, 
subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, 
miúdo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os braços, que 
dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia 
toda, fibra por fibra, tirilando.
    Em torno o entusiasmo tocava ao delírio; um grito de aplausos 
explodia de vez em quando, rubro e quente como deve ser um grito 
saído do sangue. E as palmas insistiam, cadentes, certas, num ritmo 
nervoso, numa persistência de loucura. E, arrastado por ela, pulou à 
arena o Firmo, ágil, de borracha, a fazer coisas fantásticas com as 
pernas, a derreter-se todo, a sumir-se no chão, a ressurgir inteiro com 
um pulo, os pés no espaço, batendo os calcanhares, os braços a querer 
fugirem-lhe dos ombros, a cabeça a querer saltar-lhe. E depois, surgiu 
também a Florinda, e logo o Albino e até, quem diria! o grave e 
circunspecto Alexandre.
    O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando 
aos que não sabiam dançar. Mas, ninguém como a Rita; só ela, só aquele 
demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra 
amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a 
mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, 
arrogante, meiga e suplicante.
    E Jerônimo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos 
olhos enamorados.
    Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões 
que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era 
o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e 
das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira 
virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno 
e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha 
do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde 
e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia 


[Linha 2450 de 8202 - Parte 2 de 5]


muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, 
acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, 
picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha 
daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos 
de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em 
torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência 
afrodisíaca.
    Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto não podia 
conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo só lhe 
ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, 
não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de flores americanas, 
dessas muito alvas, cheirosas e úmidas, que ele na fazenda via 
debruçadas confidencialmente sobre os limosos pântanos sombrios, 
onde as oiticicas trescalam um aroma que entristece de saudade.
    E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas dançaram, mas o 
português só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fora cair nos 
braços do amigo. Piedade, a cabecear de sono, chamara-o várias vezes 
para se recolherem; ele respondeu com um resmungo e não deu pela 
retirada da mulher.
    Passaram-se horas, e ele também não deu pelas horas que fugiram.
    O circulo do pagode aumentou: vieram de lá defronte a Isaura e a 
Leonor, o João Romão e a Bertoleza, desembaraçados da sua faina, 
quiseram dar fé da patuscada um instante antes de caírem na cama; a 
família do Miranda pusera-se à janela, divertindo-se com a gentalha da 
estalagem; reunira povo lá fora na rua; mas Jerônimo nada vira de tudo 
isso; nada vira senão uma coisa, que lhe persistia no espírito: a mulata  
ofegante a resvalar voluptuosamente nos braços do Firmo.
    Só deu por si, quando, já pela madrugada, se calaram de todo os 
instrumentos e cada um dos folgadores se recolheu à casa.
    E viu a Rita levada para o quarto pelo seu homem, que a arrastava 
pela cintura.
    Jerônimo ficou sozinho no meio da estalagem. A lua, agora 
inteiramente livre das nuvens que a perseguiam, lá ia caminhando em 
silêncio na sua viagem misteriosa. As janelas do Miranda fecharam-se. 
A pedreira, ao longe, por detrás da última parede do cortiço, erguia-se 
como um monstro iluminado na sua paz. Uma quietação densa pairava 
já sobre tudo; só se distinguiam o bruxulear dos pirilampos na sombra 
das hortas e dos jardins, e os murmúrios das árvores que sonhavam.
    Mas Jerônimo nada mais sentia, nem ouvia, do que aquela música 
embalsamada de baunilha, que lhe entontecera a alma; e compreendeu 
perfeitamente que dentro dele aqueles cabelos crespos, brilhantes e 
cheirosos, da mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras 
e venenosas, que lhe iam devorar o coração.
    E, erguendo a cabeça, notou no mesmo céu, que ele nunca vira 
senão depois de sete horas de sono, que era já quase ocasião de entrar 
para o seu serviço, e resolveu não dormir, porque valia a pena esperar de 
pé.





[Linha 2500 de 8202 - Parte 2 de 5]


VIII


    No dia seguinte, Jerônimo largou o trabalho à hora de almoçar e, 
em vez de comer lá mesmo na pedreira com os companheiros, foi para 
casa. Mal tocou no que a mulher lhe apresentou à mesa e meteu-se logo 
depois na cama, ordenando-lhe que fosse ter com João Romão e lhe 
dissesse que ele estava incomodado e ficava de descanso aquele dia.
    - Que tens tu, Jeromo?...
    - Morrinhento, filha... Vai, anda!
    - Mas sentes-te mal?
    -  Ó mulher! vai fazer o que te disse e ao depois então darás à 
língua!
    - Valha-me a Virgem! Não sei se haverá chá preto na venda!
    E ela saiu, aflita. Qualquer novidade no marido, por menor que 
fosse, punha-a doida. "Pois um homem rijo, que nunca caia doente? 
Seria a febre amarela?... Jesus, Santo Filho de Maria, que nem pensar 
nisso era bom! Credo!"
    A notícia espalhou-se logo ali entre as lavadeiras.
    - Foi da friagem da noite, afirmou a Bruxa, e deu um pulo à casa 
do trabalhador para receitar.
    O doente repeliu-a, pedindo-lhe que o deixasse em paz; que ele do 
que precisava era de dormir. Mas não o conseguiu: atrás da Bruxa 
correu a segunda mulher, e a terceira, e a quarta; e, afinal, fez-se 
durante muito tempo em sua casa um entrar e sair de saias. Jerônimo 
perdeu a paciência e ia protestar brutalmente contra semelhante 
invasão, quando, pelo cheiro, sentiu que a Rita se aproximava também.
    - Ah!
    E desfranziu-se-lhe o rosto.
    - Bons dias! Então que é isso, vizinho? Você caiu doente com a 
minha chegada? Se tal soubera não vinha!
    Ele riu-se. E era a primeira vez que ria desde a véspera
    A mulata aproximou-se da cama.
    Como principiara a trabalhar esse dia, tinha as saias apanhadas na 
cintura e os braços completamente nus e frios da lavagem. O seu 
casaquinho branco abria-lhe no pescoço, mostrando parte do peito cor 
de canela.
    Jerônimo apertou-lhe a mão.
    - Gostei de vê-la ontem dançar, disse, muito mais animado.
    - Já tomou algum remédio?...
    - A mulher falou ai em chá preto...
    -  Chá! Que asneira! Chá é água morna! Isso que você tem é uma 
resfriagem. Vou-lhe fazer uma xícara de café bem forte para você beber 
com um gole de parati, e me dirá se sua ou não, e fica depois fino e 
pronto para outra! Espera ai!
    E saiu logo, deixando todo quarto impregnado dela.
    Jerônimo, só com respirar aquele almíscar, parecia melhor. 
Quando Piedade tornou, pesada, triste, resmungando consigo mesma, 
ele sentiu que principiava a enfará-lo; e, quando a infeliz se aproximou 
do marido, este, fora do costume, notou-lhe o cheiro azedo do corpo. 


[Linha 2550 de 8202 - Parte 2 de 5]


Voltou-lhe então o mal-estar e desapareceu o último vestígio do sorriso 
que ele tivera havia pouco.
    - Mas que sentes tu, Jeromo?... Fala, homem! Não me dizes 
nada! Assim m'assustas... Que tens, diz'-lo!
    - Não cozas o chá. Vou tomar outra coisa...
    - Não queres o chá? Mas é o remédio, filhinho de Deus!
    - Já te disse que tomo outra mezinha. Oh!
    Piedade não insistiu.
    - Queres tu um escalda-pés?...
    - Toma-lo tu!
    Ela calou-se. Ia a dizer que nunca o vira assim tão áspero e seco, 
mas receou importuná-lo. "Era naturalmente a moléstia que o punha 
rezinguento."
    Jerônimo fechara os olhos, para a não ver, e ter-se-ia, se pudesse, 
fechado por dentro, para a não sentir. Ela, porém, coitada! fora 
assentar-se à beira da cama, humilde e solicita, a suspirar, vivendo 
naquele instante, para e exclusivamente, para o seu homem, fazendo-se 
muito escrava dele, sem vontade própria, acompanhando-lhe os 
menores gestos com o olhar, inquieta, que nem um cão que, ao lado do 
dono, procura adivinhar-lhe as intenções.
    - 'Stá bem, filha, não vais tratar do teu serviço?...
    - Não te dê isso cuidado! Não parou o trabalho! Pedi à Leocádia 
que me esfregasse a roupa. Ela hoje tinha pouco que fazer e...
    - Andaste mal...
    - Ora! Não há três dias que fiz outro tanto por ela... E demais, 
não foi que tivesse o homem doente, era a calaçaria do capinzal!
    - Bom, bom, filha! não digas mal da vida alheia! Melhor seria 
que estivesses à tua tina em vez de ficar ai a murmurar do próximo... 
Anda! vai tomar conta das tuas obrigações.
    - Mas estou-te a dizer que não há transtorno!...
    - Transtorno já é estar eu parado; e o pior será pararem os dois!
    - Eu queria ficar a teu lado, Jeromo!
    - E eu acho que isso é tolice! Vai! anda!
    Ela ia retirar-se, como um animal enxotado, quando deu com a 
Rita, que entrava muito ligeira e sacudida, trazendo na mão a 
fumegante palangana de café com parati e no ombro um cobertor 
grosso para dar um suadouro ao doente.
    - Ah! fez Piedade, sem encontrar uma palavra para a mulata.
    E deixou-se ficar.
    Rita, despreocupadamente, alegre e benfazeja como sempre, 
pousou a vasilha sobre a cômoda do oratório e abriu o cobertor.
    - Isso é que o vai pôr fino! disse. Vocês também, seus 
portugueses, por qualquer coisinha ficam logo pra morrer, com uma 
cara da última hora! E ai, ai, Jesus, meu Deus! Ora esperte-se! Não me 
seja maricas!
    Ele riu-se assentando-se na cama.
    - Pois não é assim mesmo? perguntou ela a Piedade, apontando 
para o carão barbado de Jerônimo. Olhe só pr'aquela cara e diga-me se 
não está a pedir que o enterrem!
    A portuguesa não dizia nada, sorria contrafeita, no intimo, 


[Linha 2600 de 8202 - Parte 2 de 5]


ressentida contra aquela invasão de uma estranha nos cuidados pelo seu 
homem. Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, 
mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda a fêmea pelas outras, 
quando sente o seu ninho exposto.
    - Está-me a parecer que agora te achas melhor, hein?... 
desembuchou afinal, procurando o olhar do marido, sem conseguir 
disfarçar de todo o seu descontentamento.
    - Só com o cheiro! reforçou a mulata, apresentando o café ao 
doente. Beba, ande! beba tudo e abafe-se! Quero, quando voltar logo, 
encontrá-lo pronto, ouviu? - E acrescentou, falando à Piedade, em 
tom mais baixo e pousando-lhe a mão no ombro carnudo: - Ele daqui 
a nada deve estar ensopado de suor; mude-lhe toda a roupa e dê-lhe 
dois dedos de parati, logo que peça água. Cuidado com o vento!
    E saiu expedida, agitando as saias, de onde se evolavam eflúvios 
de manjerona.
    Piedade chegou-se então para o cavouqueiro, que já tinha sobre as 
pernas o cobertor oferecido pela Rita, e, ajudando-o a levar a tigela à 
boca, resmungou:
    - Deus queira que isto não te vá fazer mal em vez de bem!... 
Nunca tomas café, nem gostas!...
    - Isto não é por gosto, filha, é remédio!
    Ele com efeito nunca entrara com o café e ainda menos com a 
cachaça; mas engoliu de uma assentada o conteúdo da tigela, puxando 
em seguida o cobertor até às ventas.
    A mulher tratou de abafar-lhe bem os pés e foi buscar um xale para 
lhe cobrir a cabeça.
    - Trata de sossegar! Não te mexas!
    E dispôs-se a ficar junto da cama, a vigiá-lo, só andando na ponta 
dos pés, abafando a respiração, correndo a cada instante à porta de casa 
para pedir que não fizessem tanta bulha lá fora; toda ela 
desassossegada, numa aflição quase supersticiosa por aquele incômodo 
de seu homem. Mas Jerônimo não levou muito que a não chamasse para 
lhe mudar a roupa. O suor inundava-o.
    - Ainda bem! exclamou ela, radiante.
    E, depois de fechar hermeticamente a porta do quarto e meter um 
punhado de roupa suja numa fresta que havia numa das paredes, 
sacou-lhe fora a camisa molhada, enfiando-lhe logo outra pela cabeça; 
em seguida tirou-lhe as ceroulas e começou, munida de uma toalha, a 
enxugar-lhe todo o corpo, principiando pelas costas, passando depois 
ao peito e aos sovacos, descendo logo às nádegas, ao ventre e às pernas, 
e esfregando sempre com tamanho vigor de pulso, que era antes uma 
massagem que lhe dava; e tanto assim que o sangue do cavouqueiro se 
revolucionou.
    E a mulher, a rir-se, lisonjeada, ralhava:
    - Tem juízo! Acomoda-te! Não vês que estás doente?...
    Ele não insistiu. Agasalhou-se de novo e pediu água. Piedade foi 
buscar o parati.
    - Bebe isto, não bebas a água agora.
    - Isto é cachaça!
    - Foi a Rita que disse para te dar...


[Linha 2650 de 8202 - Parte 2 de 5]


    Jerônimo não precisou de mais nada para beber de um trago os 
dois dedos de restilo que havia no copo.
    Sóbrio como era, e depois daquele dispêndio de suor, o álcool 
produziu-lhe logo de pronto o efeito voluptuoso e agradável da 
embriaguez nos que não são bêbedos: um delicioso desfalecer de todo 
o corpo; alguma coisa do longo espreguiçamento que antecede à 
satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar por ela 
algum tempo, aproxima-se afinal de nós, numa avidez gulosa de beijos. 
Agora, no conforto da sua cama, na doce penumbra do quarto, com a 
roupa fresca sobre a pele, Jerônimo sentia-se bem, feliz por ver-se longe 
da pedreira ardente e do sol cáustico; ouvindo, de olhos fechados, o 
ronrom monótono da máquina de massas, arfando ao longe, e o zunzum 
das lavadeiras a trabalharem, e, mais distante, um interminável cantar 
de galos a porfia, enquanto um dobre de sinos rolava no ar, tristemente, 
anunciando um defunto da paróquia.
    Quando Piedade chegou lá fora, dando parte do bom resultado do 
remédio, a Rita correu de novo ao quarto do doente.
    - Então, que me diz agora? Sente-se ou não melhorzinho?
    Ele voltou para a rapariga o seu olhar de animal prostrado e, por 
única resposta, passou-lhe o braço esquerdo na cintura e procurou com 
a mão direita segurar a dela. Queria com isto traduzir o seu 
reconhecimento, e a mulata assim o entendeu, tanto que consentiu: mal, 
porém, a sua carne lhe tocou na carne, um desejo ardente apossou-se 
dele; uma vontade desensofrida de senhorear-se no mesmo instante 
daquela mulher e possuí-la inteira, devorá-la num só hausto de luxúria, 
trincá-la como um caju.
    Rita, ao sentir-se empolgar pelo cavouqueiro, escapou-lhe das 
garras com um pulo.
    - Olhe que peste! Faça-se de tolo, que digo à sua mulher, hein? 
Ora vamos lá!
    Mas, como a Piedade entrava na salinha ao lado, disfarçou logo, 
acrescentando noutro tom:
    - Agora é tratar de dormir e mudar de roupa, se suar outra vez 
Até logo!
    E saiu.
    Jerônimo ouviu as suas ultimas palavras já de olhos fechados e, 
quando Piedade entrou no quarto, parecia sucumbido de fraqueza. A 
lavadeira aproximou-se da cama do marido em ponta de pés, puxou-lhe 
o lençol mais para cima do peito e afastou-se de novo, abafando os 
passos. À porta da entrada a Augusta, que fora fazer uma visita ao 
enfermo, perguntou-lhe por este com um gesto interrogativo; Piedade 
respondeu sem falar, pondo a mão no rosto e vergando desse lado a 
cabeça, para exprimir que ele agora estava dormindo.
    As duas saíram para falar à vontade; mas, nessa ocasião, lá fora no 
pátio da estalagem, acabava de armar-se um escândalo medonho. Era o 
caso que o Henriquinho da casa do Miranda ficava às vezes à janela do 
sobrado, nas horas de preguiça, entre o almoço e o jantar, entretido a 
ver a Leocádia lavar, seguindo-lhe os movimentos uniformes do grosso 
quadril e o tremular das redondas tetas à larga dentro do cabeção de 
chita. E, quando a pilhava sozinha, fazia-lhe sinais brejeiros, 


[Linha 2700 de 8202 - Parte 2 de 5]


piscava-lhe o olho, batendo com a mão direita aberta sobre a mão 
esquerda fechada. Ela respondia, indicando com o polegar o interior do 
sobrado, como se dissesse que fosse procurar a mulher do dono da casa.
    Naquele dia, porém, o estudante apareceu à janela, trazendo nos 
braços um coelhinho todo branco, que ele na véspera arrematara num 
leilão de festa. Leocádia cobiçou o bichinho e, correndo para o 
depósito de garrafas vazias, que ficava por debaixo do sobrado, pediu 
com muito empenho ao Henrique que lho desse. Este, sempre com seu 
sistema de conversar por mímica, declarou com um gesto qual era a 
condição da dádiva.
    Ela meneou a cabeça afirmativamente, e ele fez-lhe sinal de que o 
esperasse por detrás do cortiço, no capinzal dos fundos.
    A família do Miranda havia saído. Henrique, mesmo com a roupa 
de andar em casa e sem chapéu, desceu à rua, ganhou um terreno que 
existia à esquerda do sobrado e, com o seu coelho debaixo do braço, 
atirou-se para o capinzal. Leocádia esperava por ele debaixo das 
mangueiras.
    - Aqui não! disse ela, logo que o viu chegar. Aqui agora podem 
dar com a gente!...
    - Então onde?
    - Vem cá!
    E tomou à sua direita, andando ligeira e meio vergada por entre as 
plantas. Henrique seguiu-a no mesmo passo, sempre com o coelho 
sobraçado. O calor fazia-o suar e esfogueava-lhe as faces. Ouvia-se o 
martelar dos ferreiros e dos trabalhadores da pedreira.
    Depois de alguns minutos, ela parou num lugar plantado de 
bambus e bananeiras, onde havia o resto de um telheiro em ruínas.
    - Aqui!
    E Leocádia olhou para os lados, assegurando-se de que estavam a 
sós. Henrique, sem largar o coelho, atirou-se sobre ela, que o conteve:
    - Espera! preciso tirar a saia; está encharcada!
    -  Não faz mal! segredou ele, impaciente no seu desejo.
    - Pode-me vir um corrimento!
    E sacou fora a saia de lã grossa, deixando ver duas pernas, que a 
camisa a custo só cobria até o joelho, grossas, maciças, de uma brancura 
levemente rósea e toda marcada de mordeduras de pulgas e mosquitos.
    - Avia-te! Anda! apressou ela, lançando-se de costas ao chão e 
arregaçando a fralda até a cintura; as coxas abertas.
    O estudante atirou-se, sôfrego, sentindo-lhe a frescura da sua 
carne de lavadeira, mas sem largar as pernas do coelho.
    Passou-se um instante de silêncio entre os dois, em que as folhas 
secas do chão rangeram e farfalharam.
    - Olha! pediu ela, faz-me um filho, que eu preciso alugar-me de 
ama-de-leite... Agora estão pagando muito bem as amas! A Augusta 
Carne-Mole, nesta última barriga, tomou conta de um pequeno ai na 
casa de uma família de tratamento, que lhe dava setenta mil-réis por 
mês!... E muito bom passadio!... Sua garrafa de vinho todos os dias!... 
Se me arranjares um filho dou-te outra vez o coelho!
    E o pobre brutinho, cujas pernas o estudante não largava, começou 
a queixar-se dos repelões que recebia cada vez mais acelerados.


[Linha 2750 de 8202 - Parte 2 de 5]


    - Olha que matas o bichinho! reclamou a lavadeira. Não batas 
assim com ele! mas não o soltes, hein!
    Ia dizer ainda alguma coisa, mas acudiu-lhe o espasmo e ela 
fechou os olhos e pôs-se a dar com a cabeça de um lado para o outro, 
rilhando os dentes.
    Nisto, passos rápidos fizeram-se sentir galgando as plantas, na 
direção em que os dois estavam; e Henrique, antes de ser visto, lobrigou 
a certa distancia a insociável figura do Bruno.
    Não lhe deu tempo a que se aproximasse; de um salto galgou por 
detrás das bananeiras e desapareceu por entre o matagal de bambus, tão 
rápido como o coelho que, vendo-se livre, ganhara pela outra banda o 
caminho do capinzal.
    Quando o ferreiro, logo em seguida, chegou perto da mulher, esta 
ainda não tinha acabado de vestir a saia molhada.
    - Com quem te esfregavas tu, sua vaca?! bradou ele, a botar os 
bofes pela boca.
    E, antes que ela respondesse, já uma formidável punhada a fazia 
rolar por terra.
    Leocádia abriu num berreiro. E foi debaixo de uma chuva de 
bofetadas e pontapés que acabou de amarrar a roupa.
    - Agora eu vi! sabes! Nega se fores capaz!
    - Vá à pata que o pôs! exclamou ela, com a cara que era um 
tomate. Já lhe disse que não quero saber de você pra nada, seu bêbedo!
    E, vendo que ele ia recomeçar a dança, abaixou-se depressa, 
segurou com ambas as mãos um matacão de granito que encontrou a 
seus pés, e gritou, erguendo-o sobre a cabeça:
    - Chega-te pra cá e verás se te abro aqui mesmo ou não o casco!
    O ferreiro compreendeu que ela era capaz de fazer o que dizia e 
estacou lívido e ofegante.
    - Arme a trouxa e rua! sabe?
    - Olha a desgraça! Tinha de muito assentado de ir! Queria era 
uma ocasião! Nem preciso de você pra nada, fique sabendo!
    E, para meter-lhe mais raiva, acrescentou, empinando a barriga:
    - Já cá está dentro com que hei de ganhar a vida! Alugo-me de 
ama! Ou pensará que todos são como você, que nem para fazer um filho 
serve, diabo do sem-préstimo?
    - Mas não me hás de levar nada de casa! Isso te juro eu, biraia!
    - Ah, descanse! que não levarei nada do que é seu, nem preciso!
    - Põe essa pedra no chão!
    - Um corno! Eu arrumo-ta na cabeça se te chegas pra cá!
    - Sim, sim, sim, contanto que te musques por uma vez!
    - Pois então despache o beco!
    Ele virou-lhe as costas e tornou lentamente por onde viera, de 
cabeça pendida, as mãos nas algibeiras das calças, aparentando agora 
um soberano desprezo pelo que se passava.
    Só então foi que ela se lembrou do coelho.
    - Ora gaitas! disse, endireitando-se e tomando direção contrária 
à do marido.
    Este fora ai direito ao cortiço narrar, a quem quisesse ouvir, o que 
se acabava de dar. O escândalo assanhou a estalagem inteira, como um 


[Linha 2800 de 8202 - Parte 2 de 5]


jato de água quente sobre um formigueiro. "Ora, aquilo tinha de 
acontecer mais hoje mais amanhã! - Um belo dia a casa vinha abaixo! 
- A Leocádia parecia não desejar senão isso mesmo!" Mas ninguém 
atinava com quem diabo pilhara o Bruno a mulher no capinzal. 
Fizeram-se mil hipóteses; lembrando-se nomes e nomes, sem se chegar 
a nenhum resultado satisfatório. O Albino tentou logo arranjar a 
reconciliação do casal, jurando que o Bruno estava enganado com 
certeza e que vira mal. "Leocádia era uma excelente rapariga, incapaz 
de tamanha safadagem!" O ferreiro tapou-lhe a boca com uma bolacha, 
e ninguém mais se meteu a congraçá-los.
    Entretanto, o Bruno entrara em casa e lançava pela janela cá para 
fora tudo o que ia encontrando pertencente à mulher. Uma cadeira 
fez-se pedaços contra as pedras, depois veio um candeeiro de 
querosene, uma trouxa de roupas, saias e casaquinhos de chita, caixas 
de chapéus cheias de trapos, uma gaiola de pássaros, uma chaleira; e 
tudo era arremessado com fúria ao meio da área, entre o silêncio 
comovido dos que assistiam ao despejo. Um chim, que entrara para 
vender camarões e parara distraído perto da janela do ferreiro, levou na 
cabeça com uma bilha da Bahia e berrava como criança que acaba de ser 
esbordoada. A Machona, que não podia ouvir ninguém gritar mais alto 
do que ela, caiu-lhe em cima aos murros e o pôs fora do portão com 
tremenda descompostura. "Era o que faltava que viesse também aquele 
salamaleque do inferno para azoinar uma criatura mais do que já 
estava!" Dona Isabel, com as mãos cruzadas sobre o ventre, tinha para 
aquela destruição um profundo olhar de lástima. Augusta meneava a 
cabeça tristemente sem conceber como havia mulheres que procuravam 
homem, tendo um que lhes pertencia. A Bruxa, indiferente, não 
interrompera sequer o seu trabalho; ao passo que a das Dores, de mãos 
nas cadeiras, a sala pelo meio das canelas, um cigarro no canto da boca, 
encarava desdenhosa a sanha daquele marido, tão brutal como o dela o 
fora.
    - Sempre os mesmos pedaços de asno!... comentava franzindo o 
nariz. Se a tola da mulher só lhes procura agradar e fazer-lhes o gosto, 
ficam enjoados, e, se ela não toma a sério a borracheira do casamento, 
dão por paus e por pedras, como esta besta! Uma súcia, todos eles!
    Florinda ria, como de tudo, e a velha Marciana queixava-se de que 
lhe respingaram querosene na roupa estendida ao sol. Nessa ocasião 
justamente, um saco de café, cheio de borra, deu duas voltas no ar e 
espalhou o seu conteúdo, pintalgando de pontos negros os coradouros. 
Fez-se logo um alarido entre as lavadeiras. "Aquilo não tinha jeito, que 
diabo! Armavam lá as suas turras e os outros é que haviam de aturar?!... 
Sebo! que os mais não estavam dispostos a suportar as fúrias de cada 
um! Quem parira Mateus que o embalasse! Se agora, todas as vezes que 
a Leocádia se fosse espojar no capinzal, o bruto do marido tinha de 
sujar daquele modo o trabalho da gente, ninguém mais poderia ganhar 
ali a sua vida! Que espiga!" Pombinha chegara à porta do número 15, 
dando fé do barulho, com uma costura na mão, e Nenen, toda 
afogueada do ferro de engomar, perguntava, com um frouxo riso, se o 
Bruno ia reformar a mobília da casa. A Rita fingia não ligar importância 
ao fato e continuava a lavar à sua tina. "Não faziam tanta festa ao tal 


[Linha 2850 de 8202 - Parte 2 de 5]


casamento? Pois que agüentassem! Ela estava bem livre de sofrer uma 
daquelas!" O velho Libório chegara-se para ver se, no meio da 
confusão, apanhava alguma coisa do despejo, e a Machona, notando 
que o Agostinho fazia o mesmo, berrou-lhe do lugar em que se achava:
    - Sai daí, safado! Toca lá no quer que seja, que te arranco a pele 
do rabo!
    Um irmão do santíssimo entrara na estalagem, com a sua capa 
encarnada, a sua vara de prata em uma das mãos, na outra a salva do 
dinheiro, e parara em meio do pátio, suplicando muito fanhoso: "Uma 
esmola para a cera do Sacramento!" As mulheres abandonaram por um 
instante as tinas e foram beijar devotamente a colombina imagem do 
Espírito Santo. Pingaram na salva moedinhas de vintém.
    Todavia, o Bruno acabava de despejar o que era da mulher e saia 
de novo de casa, dando uma volta feroz à fechadura. Atravessou por 
entre o murmurante grupo dos curiosos que permaneciam defronte de 
sua porta, mudo, com a cara fechada, jogando os braços, como quem, 
apesar de ter feito muito, não satisfizera ainda completamente a sua 
cólera.
    Leocádia apareceu pouco depois e, vendo por terra tudo que era 
seu, partido e inutilizado, apoderou-se de fúria e avançou sobre a porta, 
que o marido acabava de fechar, arremetendo com as nádegas contra as 
duas folhas, que cederam logo, indo ela cair lá dentro de barriga para 
cima.
    Mas ergueu-se, sem fazer caso das risadas que rebentaram cá fora 
e, escancarando a janela com arremesso, começou por sua vez a arrasar 
e a destruir tudo que ainda encontrara em casa.
    Então principiou a verdadeira devastação. E a cada objeto que ela 
varria para o pátio, gritava sempre: "Upa! Toma, diabo!"
    - Aí vai o relógio! Upa! Toma, diabo!
    E o relógio espatifou-se na calçada.
    - Aí vai o alguidar!
    - Aí vai o jarro!
    - Aí vão os copos!
    - O cabide!
    - O garrafão!
    - O bacio!
    Um riso geral, comunicativo, absoluto, abafava o baralho da louça 
quebrando-se contra as pedras. E Leocádia já não precisava 
acompanhar os objetos com a sua frase de imprecação, porque cada um 
deles era recebido cá fora com um coro que berrava:
    - Upa! Toma, diabo!
    E a limpeza prosseguia. João Romão acudiu de carreira, mas 
ninguém se incomodou com a presença dele. Já defronte da porta do 
Bruno havia uma montanha de cacos acumulados; e o destroço 
continuava ainda, quando o ferreiro reapareceu, vermelho como 
malagueta, e foi galgando a casa, com um raio de roda de carro na mão 
direita.
    Os circunstantes o seguiram, atropeladamente, num clamor.
    - Não dá!
    - Não pode!


[Linha 2900 de 8202 - Parte 2 de 5]


    - Prende!
    - Não deixa bater!
    - Larga o pau! 
    - Segura! 
    - Agüenta!
    - Cerca!
    - Toma o porrete!
    E Leocádia escapou afinal das pauladas do marido, a quem o 
povaréu desarmara num fecha-fecha.
    - Ordem! Ordem! Vá de rumor! exclamava o vendeiro, a quem, 
aproveitando a confusão, haviam já ferrado um pontapé por detrás.
    O Alexandre, que vinha chegando do serviço nesse momento, 
apressou-se a correr para o lugar do conflito e cheio de autoridade 
intimou o Bruno a que se contivesse e deixasse a mulher em paz, sob 
pena de seguir para a estação no mesmo instante.
    - Pois você não vê esta galinha, que apanhei hoje com a boca na 
botija, não me vem ainda por cima dar cabo de tudo?!... interrogou o 
Bruno, espumando de raiva e quase sem fôlego para falar.
    - Porque você pôs em cacos o que é meu! gritou Leocádia.
    - Está bom! está bom! disse o polícia, procurando dar à voz 
inflexões autoritárias e reconciliadoras. Fale cada um por sua vez! Seu 
marido... acrescentou ele, voltando-se para a acusada, diz que a 
senhora...
    - É mentira! interrompeu ela.
    - Mentira?! É boa! Tinhas a saia despida e um homem por cima!
    - Quem era? - Quem foi? - Quem era o homem? interrogaram 
todos a um só tempo.
    - Quem era ele, no fim de contas? inquiriu também Alexandre.
    - Não lhe pude ver as fuças!... respondeu o ferreiro; mas, se o 
apanho, arrancava-lhe o sangue pelas costas!
    Houve um coro de gargalhadas.
    - E mentira! repetiu Leocádia, agora sucumbida por uma reação 
de lágrimas. Há muito tempo que este malvado anda caçando pretexto 
para romper comigo e, como eu não lho dou...
    Uma explosão de soluços a interrompeu.
    Desta vez não riram, mas um bichanar de cochichos formou-se em 
torno do seu pranto.
    - Agora... continuou ela, enxugando os olhos na costa da mão; 
não sei o que será de mim, porque este homem, além de tudo, 
escangalhou-me até o que eu trouxe quando me casei com ele!...
    - Não disseste que já tinhas ai dentro com que ganhar a vida?... É 
andar!
    - É falso! soluçou Leocádia.
    - Bem, interveio Alexandre, embainhando o seu refle; está tudo 
terminado! Seu marido vai recebê-la em boa paz...
    - Eu?! esfuziou o ferreiro. Você não me conhece!
    - Nem eu queria! retorquiu a mulher. Prefiro meter-me com um 
cavalo de tílburi a ter de aturar este bruto!
    E, catando em casa alguma coisa sua que ainda havia, e 
recolhendo do montão dos cacos o que lhe pareceu aproveitável, fez de 


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tudo uma grande trouxa e foi chamar um carregador.
    A Rita saiu-lhe ao encontro.
    - Para onde vais tu?... perguntou-lhe em voz baixa.
    - Não sei, filha, por ai!... Hei de encontrar um furo!... Os cães 
não vivem?...
    - Espere um instante... disse a mulata. Olha, empurra a trouxa ai 
para dentro do meu cômodo. - E correndo ao Albino, que lavava: - 
Passa-me no sabão aquela roupa, ouviste? E, quando Firmo acordar, 
diz-lhe que precisei ir a rua.
    Depois, deu um pulo ao quarto, mudou a saia molhada, atirou nos 
ombros o seu xale de crochê e, batendo nas costas da companheira, 
segredou-lhe:
    - Anda cá comigo! não ficarás à toa!
    E as duas saíram, ambas sacudidas, deixando atrás de si suspensa 
a curiosidade do cortiço inteiro.



IX


    Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, 
uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois 
dedos de parati "pra cortar a friagem".
    Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, 
hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num 
trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava 
lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a 
natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e 
sedutores que o comoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de 
ambição; para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; 
tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de 
guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se 
preguiçoso resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor, 
muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último 
tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros.
    E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus 
hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. A sua 
casa perdeu aquele ar sombrio e concentrado que a entristecia; já 
apareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois 
dedos de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se 
gente para o jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de 
cana substituiu o vinho; a farinha de mandioca sucedeu à broa; a 
carne-seca e o feijão-preto ao bacalhau com batatas e cebolas cozidas; a 
pimenta-malagueta e a pimenta-de-cheiro invadiram vitoriosamente a 
sua mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repelidos 
pelos ruivos e gostosos quitutes baianos, pela muqueca, pelo vatapá e 
pelo caruru; a couve à mineira destronou a couve à portuguesa; o pirão 
de fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa com o seu 
aroma quente, Jerônimo principiou a achar graça no cheiro do fumo e 


[Linha 3000 de 8202 - Parte 2 de 5]


não tardou a fumar também com os amigos.
    E o curioso é que quanto mais ia ele caindo nos usos e costumes 
brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em 
detrimento das suas forças físicas. Tinha agora o ouvido menos 
grosseiro para a música, compreendia até as intenções poéticas dos 
sertanejos, quando cantam à viola os seus amores infelizes; seus olhos, 
dantes só voltados para a esperança de tornar à terra, agora, como os 
olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céu e 
mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do 
Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos 
despenhadeiros ilimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço 
a espaço, surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e ricas 
pedrarias refulgentes e as nuvens tocam de alvos turbantes de 
cambraia, num luxo oriental de arábicos príncipes voluptuosos.
    Ao passo que com a mulher, a S'ora Piedade de Jesus, o caso 
mudava muito de figura. Essa, feita de um só bloco, compacta, inteiriça 
e tapada, recebia a influência do meio só por fora, na maneira de viver, 
conservando-se inalterável quanto ao moral, sem conseguir, à 
semelhança do esposo, afinar a sua alma pela alma da nova pátria que 
adotaram. Cedia passivamente nos hábitos de existência, mas no intimo 
continuava a ser a mesma colona saudosa e desconsolada, tão fiel às 
suas tradições como a seu marido. Agora estava até mais triste; triste 
porque Jerônimo fazia-se outro; triste porque não se passava um dia que 
lhe não notasse uma nova transformação; triste, porque chegava a 
estranhá-lo, a desconhecê-lo, afigurando-se-lhe até que cometia um 
adultério, quando à noite acordava assustada ao lado daquele homem 
que não parecia o dela, aquele homem que se lavava todos os dias, 
aquele homem que aos domingos punha perfumes na barba e nos 
cabelos e tinha a boca cheirando a fumo. Que pesado desgosto não lhe 
apertou o coração a primeira vez em que o cavouqueiro, repelindo o 
caldo que ela lhe apresentava ao jantar, disse-lhe:
    - Ó filha! por que não experimentas tu fazer uns pitéus à moda 
de cá?...
    - Mas é que não sei... balbuciou a pobre mulher.
    - Pede então à Rita que to ensine... Aquilo não terá muito que 
aprender! Vê se me fazes por arranjar uns camarões, como ela preparou 
aqueles doutro dia. Souberam-me tão bem!
    Este resvalamento do Jerônimo para as coisas do Brasil penalizava 
profundamente a infeliz criatura. Era ainda o instinto feminil que lhe 
fazia prever que o marido, quando estivesse de todo brasileiro, não a 
queria para mais nada e havia de reformar a cama, assim como reformou 
a mesa.
    Jerônimo, com efeito, pertencia-lhe muito menos agora do que 
dantes. Mal se chegava para ela; os seus carinhos eram frios e 
distraídos, dados como por condescendência; já lhe não afagava os 
rins, quando os dois ficavam a sós, malucando na sua vida comum; 
agora nunca era ele que a procurava para o matrimônio, nunca; se ela 
sentia necessidade do marido, tinha de provocá-lo. E, uma noite, 
Piedade ficou com o coração ainda mais apertado, porque ele, a 
pretexto de que no quarto fazia muito calor, abandonou a cama e foi 


[Linha 3050 de 8202 - Parte 2 de 5]


deitar-se no sofá da salinha. Desde esse dia não dormiram mais ao lado 
um do outro. O cavouqueiro arranjou uma rede e armou-a defronte da 
porta de entrada, tal qual como havia em casa da Rita.
    Uma outra noite a coisa ainda foi pior. Piedade, certa de que o 
marido não se chegava, foi ter com ele; Jerônimo fingiu-se indisposto, 
negou-se, e terminou por dizer-lhe, repelindo-a brandamente:
    - Não te queria falar, mas... sabes? deves tomar banho todos os 
dias e... mudar de roupa... Isto aqui não é como lá! Isto aqui sua-se 
muito! É preciso trazer o corpo sempre lavado, que, ao se não, cheira-se 
mel!... Tem paciência!
    Ela desatou a soluçar. Foi uma explosão de ressentimentos e 
desgostos que se tinham acumulado no seu coração. Todas as suas 
mágoas rebentaram naquele momento.
    - Agora estás tu a chorar! Ora, filha, deixa-te disso!
    Ela continuou a soluçar, sem fôlego, dando arfadas com todo o 
corpo.
    O cavouqueiro acrescentou no fim de um intervalo:
    - Então, que é isto, mulher? Pões-te agora a fazer tamanho 
escarcéu, nem que se cuidasse de coisa séria!
    Piedade desabafou:
    - É que já não me queres! Já não és o mesmo homem para mim! 
Dantes não me achavas que pôr, e agora até já te cheiro mal!
    E os soluços recrudesciam.
    - Não digas asnices, filha!
    - Ah! eu bem sei o que isto é!...
    - E bobagem tua, é o que é!
    - Maldita hora em que viemos dar ao raio desta estalagem! Antes 
me tivera caldo um calhau na cabeça!
    - Estás a queixar-te da sorte sem razão! Que Deus te não 
castigue.
    Esta rezinga chamou outras que, com o correr do tempo, se foram 
amiudando. Ah! já não havia dúvida que mestre Jerônimo andava meio 
caldo para o lado da Rita Baiana; não passava pelo número 9, sempre 
que vinha à estalagem durante o dia, que não parasse à porta um 
instante, para perguntar-lhe pela "saudinha". O fato de haver a mulata 
lhe oferecido o remédio, quando ele esteve incomodado, foi pretexto 
para lhe fazer presentes amáveis; pôr os seus préstimos à disposição 
dela e obsequiá-la em extremo todas as vezes que a visitava. Tinha 
sempre qualquer coisa para saber da sua boca, a respeito da Leocádia, 
por exemplo; pois, desde que a Rita se arvorara em protetora da mulher 
do ferreiro, Jerônimo afetava grande interesse pela "pobrezinha de 
Cristo".
    - Fez bem, Nhá Rita, fez bem!... A se'ora mostrou com isso que 
tem bom coração...
    - Ah, meu amigo, neste mundo hoje por mim, amanha por ti!...
    Rita havia aboletado a amiga, a principio em casa de umas 
engomadeiras do Catete, muito suas camaradas, depois passou-a para 
uma família, a quem Leocádia se alagou como ama-seca; e agora sabia 
que ela acabava de descobrir um bom arranjo num colégio de meninas.
    - Muito bem! muito bem! aplaudia Jerônimo.


[Linha 3100 de 8202 - Parte 2 de 5]


    - Ora, o quê! O mundo é largo! sentenciou a baiana. Há lugar pro 
gordo e há lugar pro magro! Bem tolo é quem se mata!
    Em uma das vezes em que o cavouqueiro perguntou-lhe, como de 
costume, pela pobrezinha de Cristo, a mulata disse que Leocádia estava 
grávida.
    - Grávida? mas então não é do marido!...
    - Pode bem ser que sim. Barriga de quatro meses...
    - Ah! mas ela não foi há mais tempo do que isso?...
    - Não. Vai fazer agora pelo São João quatro meses justamente.
    Jerônimo já nunca pegava na guitarra senão para procurar acertar 
com as modinhas que a Rita cantava. Em noites de samba era o primeiro 
a chegar-se e o último a ir embora; e durante o pagode ficava de queixo 
bambo, a ver dançar a mulata, abstrato, pateta, esquecido de tudo; 
babão. E ela, consciente do feitiço, que lhe punha, ainda mais se 
requebrava e remexia, dando-lhe embigadas ou fingindo que lhe 
limpava a baba no queixo com a barra da saia.
    E riam-se.
    Não! definitivamente estava caído!
    Piedade agarrou-se com a Bruxa para lhe arranjar um remédio que 
lhe restituísse o seu homem. A cabocla velha fechou-se com ela no 
quarto, acendeu velas de cera, queimou ervas aromáticas e tirou sorte 
nas cartas.
    E depois de um jogo complicado de reis, valetes e damas, que ela 
dispunha sobre a mesa caprichosamente, a resmungar a cada figura que 
saia do baralho uma frase cabalística, declarou convicta, muito calma, 
sem tirar os olhos das suas cartas:
    - Ele tem a cabeça virada por uma mulher trigueira.
    - É o diacho da Rita Baiana! exclamou a outra. Bem cá me 
palpitava por dentro! Ai, o meu rico homem!
    E a chorar, limpando, aflita, as lágrimas no avental de cânhamo, 
suplicou à Bruxa, pelas alminhas do purgatório, que lhe remediasse 
tamanha desgraça.
    - Ai, se perco aquela criatura, S'ora Paula, lamuriou a infeliz 
entre soluços; nem sei que virá a ser de mim neste mundo de Cristo!... 
Ensine-me alguma coisa que me puxe o Jeromo!
    A cabocla disse-lhe que se banhasse todos os dias e desse a beber 
ao seu homem, no café pela manhã, algumas gotas das águas da 
lavagem; e, se no fim de algum tempo, este regime não produzisse o 
desejado efeito, então cortasse um pouco dos cabelos do corpo, 
torrasse-os até os reduzir a pó e lhos ministrasse depois na comida.
    Piedade ouviu a receita com um silêncio respeitoso e atento, o ar 
compungido de quem recebe do médico uma sentença dolorosa para 
um doente que estimamos. Em seguida, meteu na mão da feiticeira uma 
moeda de prata, prometendo dar-lhe coisa melhor se o remédio tivesse 
bons resultados.
    Mas não era só a portuguesa quem se mordia com o descaimento 
do Jerônimo para a mulata, era também o Firmo. Havia muito já que 
este andava com a pulga atrás da orelha e, quando passava perto do 
cavouqueiro, olhava-o atravessado.



[Linha 3150 de 8202 - Parte 2 de 5]


    O capadócio ia dormir todas as noites com a Rita, mas não morava 
na estalagem; tinha o seu cômodo na oficina em que trabalhava. Só 
pelos domingos é que ficavam juntos durante o dia e então não 
relaxavam o seu jantar de pândega. Uma vez em que ele gazeara o 
serviço, o que não era raro, foi vê-la fora das horas do costume e 
encontrou-a a conversar junto à tina com o português. Passou sem dizer 
palavra e recolheu-se ao número 9, onde ela foi logo ter de carreira. 
Firmo não lhe disse nada a respeito das suas apreensões, mas também 
não escondeu o seu mau humor; esteve impertinente e rezingueiro toda 
a tarde. Jantou de cara amarrada e durante o parati, depois do café, só 
falou em rolos, em dar cabeçadas e navalhadas, pintando-se terrível, 
recordando façanhas de capoeiragem, nas quais sangrara tais e tais 
tipos de fama; "não contando dois galegos que mandara pras minhocas, 
porque isso para ele não era gente! - Com um par de cocadas boas 
ficavam de pés unidos para sempre!" Rita percebeu os ciúmes do amigo 
e fez que não dera por coisa alguma.
    No dia seguinte, às seis horas da manhã, quando ele saia da casa 
dela, encontrou-se com o português, que ia para o trabalho, e o olhar 
que os dois trocaram entre si era já um cartel de desafio. Entretanto, 
cada qual seguiu em silêncio para o seu lado.
    Rita deliberou prevenir Jerônimo de que se acautelasse. Conhecia 
bem o amante e sabia de quanto era ele capaz sob a influência dos 
ciúmes; mas, na ocasião em que o cavouqueiro desceu para almoçar, um 
novo escândalo acabava de explodir, agora no número 12, entre a velha 
Marciana e sua filha Florinda.
    Marciana andava já desconfiada com a pequena, porque o fluxo 
mensal desta se desregrara havia três meses, quando, nesse dia, não 
tendo as duas acabado ainda o almoço, Florinda se levantou da mesa e 
foi de carreira para o quarto. A velha seguiu-a. A rapariga fora vomitar 
ao bacio.
    - Que é isto?... perguntou-lhe a mãe, apalpando-a toda com um 
olhar inquiridor.
    - Não sei, mamãe...
    - Que sentes tu?...
    - Nada...
    - Nada, e estás lançando?... Hein?!
    - Não sinto nada, não senhora!...
    A mulata velha aproximou-se, desatou-lhe violentamente o 
vestido, levantou-lhe as saias e examinou-lhe todo o corpo, 
tateando-lhe o ventre, já zangada. Sem obter nenhum resultado das 
suas diligências, correu a chamar a Bruxa, que era mais que entendida 
no assunto. A cabocla, sem se alterar, largou o serviço, enxugou os 
braços no avental, e foi ao número 12; tenteou de novo a mulatinha, 
fez-lhe várias perguntas e mais à mãe, e depois disse friamente:
    - Está de barriga.
    E afastou-se, sem um gesto de surpresa, nem de censura.
    Marciana, trêmula de raiva, fechou a porta da casa, guardou a 
chave no seio e, furiosa, caiu aos murros em cima da filha. Esta, 
embalde tentando escapar-lhe, berrava como uma louca.
    Abandonaram-se logo todas as tinas do pátio e algumas das mesas 


[Linha 3200 de 8202 - Parte 2 de 5]


do frege, e o populacho, curioso e alvoroçado, precipitou-se para o 
número 12, batendo na porta e ameaçando entrar pela janela.
    Lá dentro, a velha escarranchada sobre a rapariga que se debatia 
no chão, perguntava-lhe gritando e repetindo:
    - Quem foi?! Quem foi?!
    E de cada vez desfechava-lhe um sopapo pelas ventas.
    - Quem foi?!
    A pequena berrava, mas não respondia.
    - Ah! não queres dizer por bem? Ora espera!
    E a velha ergueu-se para apanhar a vassoura no canto da sala.
    Florinda, vendo iminente o cacete, levantou-se de um pulo, 
ganhou a janela e caiu de um salto lá fora, entre o povo amotinado. 
Coisa de uns nove palmos de altura.
    As lavadeiras a apanharam, cuidando em defendê-la da mãe, que 
surgiu logo à porta, ameaçando para o grupo, terrível e armada de pau.
    Todos procuraram chamá-la à razão:
    - Então que é isso, tia Marciana?! Então que é isso?!
    - Que é isto?! É que esta assanhada está de barriga! Está ai o que 
é! Para tanto não lhe faltou jeito, nem foi preciso que a gente andasse 
atrás dela se matando, como sucede sempre que há um pouco mais de 
serviço e é necessário puxar pelo corpo! Ora está ai o que é!
    - Bem, disse a Augusta, mas não lhe bata agora, coitada! Assim 
você lhe dá cabo da pele!
    - Não! Eu quero saber quem lhe encheu o bandulho! E ela há de 
dizer quem foi ou quebro-lhe os ossos!
    - Então, Florinda, diz logo quem foi... É melhor! aconselhou a 
das Dores.
    Fez-se em torno da rapariga um silêncio ávido, cheio de 
curiosidade.
    - Estão vendo?... exclamou a mãe. Não responde, este diabo! 
Mas esperem, que eu lhes mostro se ela fala, ou não!
    E as lavadeiras tiveram de agarrar-lhe os braços e tirar-lhe o 
cacete, porque a velha queria crescer de novo para a filha.
    Ao redor desta a curiosidade assanhava-se cada vez mais. 
Estalavam todos por saber quem a tinha emprenhado. "Quem foi?! 
Quem foi?!" esta frase apertava-a num torniquete. Afinal, não houve 
outro remédio:
    - Foi seu Domingos... disse ela, chorando e cobrindo o rosto com 
a fralda do vestido, rasgado na luta.
    - O Domingos!...
    - O caixeiro da venda!...
    - Ah! foi aquele cara de nabo? gritou Marciana. Vem cá!
    E, agarrando a filha pela mão, arrastou-a até à venda.
    Os circunstantes acompanharam-na ruidosamente e de carreira.
    A taverna, como a casa de pasto, fervia de concorrência.
    Ao balcão daquela, o Domingos e o Manuel aviavam os fregueses, 
numa roda-viva. Havia muitos negros e negras. O baralho era enorme. 
A Leonor lá estava, sempre aos pulos, mexendo com um, mexendo com 
outro, mostrando a dupla fila de dentes brancos e grandes, e levando 
apalpões rudes de mãos de couro nas suas magras e escorridas nádegas 


[Linha 3250 de 8202 - Parte 2 de 5]


de negrinha virgem Três marujos ingleses bebiam gengibirra, cantando, 
ébrios, na sua língua e mascando tabaco.
    Marciana na frente do grande grupo e sem largar o braço da filha, 
que a seguia como um animal puxado pela coleira, ao chegar à porta 
lateral da venda, berrou:
    - Ó seu João Romão!
    - Que temos lá? perguntou de dentro o vendeiro, atrapalhado de 
serviço.
    Bertoleza, com uma grande colher de zinco gotejante de gordura, 
apareceu à porta, muito ensebada e suja de tisna; e, ao ver tanta gente 
reunida, gritou para seu homem:
    - Corre aqui, seu João, que não sei o que houve!
    Ele veio afinal.
    Que diabo era aquilo?
    - Venho entregar-lhe esta perdida! Seu caixeiro a cobriu, deve 
tomar conta dela!
    João Romão ficou perplexo.
    - Hein! Que é lá isso?!
    - Foi o Domingos! disseram muitas vozes.
    - O seu Domingos!
    O caixeiro respondeu: "Senhor..." com uma voz de delinqüente.
    - Chegue cá!
    E o criminoso apresentou-se, lívido de morte.
    - Que fez você com esta pequena?
    - Não fiz nada, não senhor!...
    - Foi ele, sim! desmentiu-o a Florinda. - O caixeiro desviou os 
olhos, para a não encarar. - Um dia de manhãzinha, às quatro horas, 
no capinzal, debaixo das mangueiras...
    O mulherio em massa recebeu estas palavras com um coro de 
gargalhadas.
    - Então o senhor anda-me aqui a fazer conquistas, hein?!... disse 


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O Cortiço - Parte 3 de 5 - Aluísio Azevedo
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...


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O Cortiço - Parte 2 de 5 - Aluísio Azevedo
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