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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Cortiço - Parte 4 de 5 - Aluísio Azevedo


O Cortiço - Parte 4 de 5 - Aluísio Azevedo

O Cortiço - Aluísio Azevedo




Que nunca daria de si ao marido que ia ter uma companheira amiga, leal 
e dedicada; pressentiu que nunca o respeitaria sinceramente como a um 
ser superior por quem damos a vida; que nunca lhe votaria entusiasmo, 
e por conseguinte nunca lhe teria amor; desse de que ela se sentia capaz 
de amar alguém, se na terra houvera homens dignos disso. 


Ah! não o amaria decerto, porque o Costa era como os outros, passivo e 
resignado, aceitando a existência que lhe impunham as circunstâncias, 
sem ideais próprios, sem temeridades de revolta, sem atrevimentos de 
ambição, sem vícios trágicos, sem capacidade para grandes crimes; era 
mais um animal que viera ao mundo para propagar a espécie; um 
pobre-diabo enfim que já a adorava cegamente e que mais tarde, com 
ou sem razão, derramaria aquelas mesmas lágrimas, ridículas e 
vergonhosas, que ela vira decorrendo em quentes camarinhas pelas 
ásperas e maltratadas barbas do marido de Leocádia.
    E não obstante, até então, aquele matrimônio era o seu sonho 
dourado. Pois agora, nas vésperas de obtê-lo, sentia repugnância em 
dar-se ao noivo, e, se não fora a mãe, seria muito capaz de dissolver o 
ajuste.
    Mas, daí a uma semana, a estalagem era toda em rebuliço desde 
logo pela manhã. Só se falava em casamento; havia em cada olhar um 
sangüíneo reflexo de noites nupciais. Desfolharam-se rosas à porta da 
Pombinha. Às onze horas parou um carro à entrada do cortiço com uma 
senhora gorda, vestida de seda cor de pérola. Era a madrinha que vinha 
buscar a noiva para a igreja de São João Batista. A cerimônia estava 
marcada para o meio-dia. Toda esta formalidade embatucava os 
circunstantes, que se alinhavam imóveis defronte do número 15, com as 
mãos cruzadas atrás, o rosto paralisado por uma comoção respeitosa; 
alguns sorriam enternecidos; quase todos tinham os olhos 
ressumbrados d'água.


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    Pombinha surgiu à porta de casa, já pronta para desferir o grande 
vôo; de véu e grinalda, toda de branco, vaporosa, linda. Parecia 
comovida; despedia-se dos companheiros atirando-lhes beijos com o 
seu ramalhete de flores artificiais. Dona Isabel chorava como criança, 
abraçando as amigas, uma por uma.
    - Deus lhe ponha virtude! exclamou a Machona. E que lhe dê um 
bom parto, quando vier a primeira barriga.
    A noiva sorria, de olhos baixas. Uma fímbria de desdém 
toldava-lhe a rosada candura de seus lábios. Encaminhou-se para o 
portão, cercada pela bênção de toda aquela gente, cujas lágrimas 
rebentaram afinal, feliz cada um por vê-la feliz e em caminho da 
posição que lhe competia na sociedade.
    - Não! aquela não nascera para isto!... sentenciou o Alexandre, 
retorcendo o reluzente bigode. Seria lástima se a deixassem ficar aqui!
    O velho Libório, cascalhando uma risada decrépita, queixou-se de 
que o maganão do Costa lhe passara a perna roubando-lhe a namorada.
    Ingrata! Ele que estava disposto a fazer uma asneira!
    Nenen deu uma corrida até à noiva, na ocasião em que esta 
chegava à carruagem e, estalando-lhe um beijo na boca, pediu-lhe com 
empenho que se não esquecesse de mandar-lhe um botão da sua 
grinalda de flores de laranjeira.
    - Diz que é muito bom para quem deseja casar!... e eu tenho tanto 
medo de ficar solteira!... É todo o meu susto!



XIII


    À proporção que alguns locatários abandonavam a estalagem, 
muitos pretendentes surgiam disputando os cômodos desalugados. 
Delporto e Pompeo foram varridos pela febre amarela e três outros 
italianos estiveram em risco de vida. O número dos hóspedes crescia; os 
casulos subdividiam-se em cubículos do tamanho de sepulturas; e as 
mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado 
procriador. Uma família; composta de mãe viúva e cinco filhas 
solteiras, das quais destas a mais velha tinha trinta anos e a mais moça 
quinze, veio ocupar a casa que Dona Isabel esvaziou poucos dias depois 
do casamento de Pombinha.
    Agora, na mesma rua, germinava outro cortiço ali perto, o 
"Cabeça-de-Gato". Figurava como seu dono um português que 
também tinha venda, mas o legitimo proprietário era um abastado 
conselheiro, homem de gravata lavada, a quem não convinha, por 
decoro social, aparecer em semelhante gênero de especulações. E João 
Romão, estalando de raiva, viu que aquela nova república da miséria 
prometia ir adiante e ameaçava fazer-lhe à sua, perigosa concorrência. 
Pôs-se logo em campo, disposto à luta, e começou a perseguir o rival 
por todos os modos, peitando fiscais e guardas municipais, para que o 
não deixassem respirar um instante com multas e exigências vexatórias; 
enquanto pela sorrelfa plantava no espírito dos seus inquilinos um 


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verdadeiro ódio de partido, que os incompatibilizava com a gente do 
"Cabeça-de-Gato". Aquele que não estivesse disposto a isso ia 
direitinho para a rua, "que ali se não admitiam meias medidas a tal 
respeito! Ali: ou bem peixe ou bem carne! Nada de embrulho!" É inútil 
dizer que a parte contrária lançou mão igualmente de todos os meios 
para guerrear o inimigo, não tardando que entre os moradores da duas 
estalagens rebentasse uma tremenda rivalidade, dia a dia agravada por 
pequenas brigas e rezingas, em que as lavadeiras se destacavam sempre 
com questões de freguesia de roupa. No fim de pouco tempo os dois 
partidos estavam já perfeitamente determinados; os habitantes do 
"Cabeça-de-Gato" tomaram por alcunha o titulo do seu cortiço, e os de 
"São Romão", tirando o nome do peixe que a Bertoleza mais vendia à 
porta da taverna, foram batizados por "Carapicus". Quem se desse com 
um carapicu não podia entreter a mais ligeira amizade com um 
cabeça-de-gato; mudar-se alguém de uma estalagem para outra era 
renegar idéias e princípios e ficava apontado a dedo; denunciar a um 
contrário o que se passava, fosse o que fosse, dentro do circulo oposto, 
era cometer traição tamanha, que os companheiros a puniam a pau. Um 
vendedor de peixe, que caiu na asneira de falar a um cabeça-de-gato a 
respeito de uma briga entre a Machona e sua filha, a das Dores, foi 
encontrado quase morto perto do cemitério de São João Batista. 
Alexandre, esse então não cochilava com os adversários: nas suas 
partes policiais figurava sempre o nome de um deles pelo menos, mas 
entre os próprios polícias havia adeptos de um e de outro partido; o 
urbano que entrava na venda do João Romão tinha escrúpulo de tomar 
qualquer coisa ao balcão da outra venda. Em meio do pátio do 
"Cabeça-de-Gato" arvorara-se uma bandeira amarela; os carapicus 
responderam logo levantando um pavilhão vermelho. E as duas cores 
olhavam-se no ar como um desafio de guerra.
    A batalha era inevitável. Questão de tempo.
    Firmo, assim que se instaurara a nova estalagem, abandonou o 
quarto na oficina e meteu-se lá de súcia com o Porfiro, apesar da 
oposição de Rita, que mais depressa o deixaria a ele do que aos seus 
velhos camaradas de cortiço. Daí nasceu certa ponta de discórdia entre 
os dois amantes; as suas entrevistas tornavam-se agora mais raras e mais 
difíceis. A baiana, por coisa alguma desta vida, poria os pés no 
"Cabeça-de-Gato" e o Firmo achava-se, como nunca, 
incompatibilizado com os carapicus. Para estarem juntos tinham 
encontros misteriosos num caloji de uma velha miserável da Rua de São 
João Batista, que lhe cedia a cama mediante esmolas. O capoeira fazia 
questão de ficar no "Cabeça-de-Gato", porque ai se sentia resguardado 
contra qualquer perseguição que o seu delito motivasse; de resto, 
Jerônimo não estava morto e, uma vez bem curado, podia vir sobre ele 
com gana. No "Cabeça-de-Gato", o Firmo conquistara rápidas 
simpatias e constituíra-se chefe de malta. Era querido e venerado; os 
companheiros tinham entusiasmo pela sua destreza e pela sua coragem; 
sabiam-lhe de cor a legenda rica de façanhas e vitórias. O Porfiro 
secundava-o sem lhe disputar a primazia, e estes dois, só por si, 
impunham respeito aos carapicus, entre os quais, não obstante, havia 
muito boa gente para o que desse e viesse.


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    Mas ao cabo de três meses, João Romão, notando que os seus 
interesses nada sofriam com a existência da nova estalagem e, até pelo 
contrário, lucravam com o progressivo movimento de povo que se ia 
fazendo no bairro, retornou à sua primitiva preocupação com o 
Miranda, única rivalidade que verdadeiramente o estimulava.
    Desde que o vizinho surgiu com o baronato, o vendeiro 
transformava-se por dentro e por fora a causar pasmo. Mandou fazer 
boas roupas e aos domingos refestelava-se de casaco branco e de meias, 
assentado defronte da venda, a ler jornais. Depois deu para sair a 
passeio, vestido de casimira, calçado e de gravata. Deixou de tosquiar o 
cabelo à escovinha; pôs a barba abaixo, conservando apenas o bigode, 
que ele agora tratava com brilhantina todas as vezes que ia ao barbeiro. 
Já não era o mesmo lambuzão! E não parou aí: fez-se sócio de um clube 
de dança e, duas noites por semana, ia aprender a dançar; começou a 
usar relógio e cadeia de ouro; correu uma limpeza no seu quarto de 
dormir, mandou soalhá-lo, forrou-o e pintou-o; comprou alguns móveis 
em segunda mão; arranjou um chuveiro ao lado da retrete; principiou a 
comer com guardanapo e a ter toalha e copos sobre a mesa; entrou a 
tomar vinho, não do ordinário que vendia aos trabalhadores, mas de um 
especial que guardava para seu gasto. Nos dias de folga atirava-se para 
o Passeio Público depois do jantar ou ia ao teatro São Pedro de 
Alcântara assistir aos espetáculos da tarde; do "Jornal do Comércio", 
que era o único que ele assinava havia já três anos e tanto, passou a 
receber mais dois outros e a tomar fascículos de romances franceses 
traduzidos, que o ambicioso lia de cabo a rabo, com uma paciência de 
santo, na doce convicção de que se instruía.
    Admitiu mais três caixeiros; já não se prestava muito a servir 
pessoalmente à negralhada da vizinhança, agora até mal chegava ao 
balcão. E em breve o seu tipo começou a ser visto com freqüência na 
Rua Direita, na praça do comércio e nos bancos, o chapéu alto derreado 
para a nuca e o guarda-chuva debaixo do braço. Principiava a meter-se 
em altas especulações, aceitava ações de companhias de títulos ingleses 
e só emprestava dinheiro com garantias de boas hipotecas.
    O Miranda tratava-o já de outro modo, tirava-lhe o chapéu, parava 
risonho para lhe falar quando se encontravam na rua, e às vezes trocava 
com ele dois dedos de palestra à porta da venda. Acabou por 
oferecer-lhe a casa e convidá-lo para o dia de anos da mulher, que era 
daí a pouco tempo. João Romão agradeceu o obséquio, desfazendo-se 
em demonstrações de reconhecimento, mas não foi lá.
    Bertoleza é que continuava na cepa torta, sempre a mesma crioula 
suja, sempre atrapalhada de serviço, sem domingo nem dia santo; essa, 
em nada, em nada absolutamente, participava das novas regalias do 
amigo; pelo contrário, à medida que ele galgava posição social, a 
desgraçada fazia-se mais e mais escrava e rasteira. João Romão subia e 
ela ficava cá embaixo, abandonada como uma cavalgadura de que já 
não precisamos para continuar a viagem. Começou a cair em tristeza.
    O velho Botelho chegava-se também para o vendeiro, e ainda mais 
do que o próprio Miranda. O parasita não saia agora depois do almoço 
para a sua prosa na charutaria, nem voltava à tarde para o jantar, sem 
deter-se um instante à porta do vizinho ou, pelo menos, sem lhe gritar lá 


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de dentro: "Então, seu João, isso vai ou não vai?..." E tinha sempre uma 
frase amigável para lhe atirar cá de fora. Em geral o taverneiro acudia a 
apertar-lhe a mão, de cara alegre, e propunha-lhe que bebesse alguma 
coisa.
    Sim, João Romão já convidava para beber alguma coisa. Mas não 
era à loa que o fazia, que aquele mesmo não metia prego sem estopa! 
Tanto assim que uma vez, em que os dois saíram à tardinha para dar um 
giro até à praia, Botelho, depois de falar com o costumado entusiasmo 
do seu belo amigo Barão e da virtuosíssima família deste, acrescentou 
com o olhar fito:
    - Aquela pequena é que lhe estava a calhar, seu João!...
    - Como? Que pequena?
    - Ora morda aqui! Pensa que já não dei pelo namoro?... 
Maganão! O vendeiro quis negar, mas o outro atalhou:

    - É um bom partido, é! Excelente menina... tem um gênio de 
pomba... uma educação de princesa: até o francês sabe! Toca piano 
como você tem ouvido... canta o seu bocado... aprendeu desenho... 
muito boa mão de agulha!... e...
    Abaixou a voz e segredou grosso no ouvido do interlocutor:
    - Ali, tudo aquilo é sólido!... Prédios e ações do banco!...
    - Você tem certeza disso? Já viu?
    - Já! Palavra d'honra!
    Calaram-se um instante.
    Botelho continuou depois:
    - O Miranda é bom homem, coitado! tem lá as suas fumaças de 
grandeza, mas não o podemos criminar... são coisas pegadas da mulher; 
no entanto acho-o com boas disposições a seu respeito... e, se você 
souber levá-lo, apanha-lhe a filha...
    - Ela talvez não queira...
    - Qual o quê! Pois uma menina daquelas, criada a obedecer aos 
pais, sabe lá o que é não querer? Tenha você uma pessoa, de intimidade 
com a família; que de dentro empurre o negócio e verá se consegue ou 
não! Eu, por exemplo!
    - Ah! se você se metesse nisso, que dúvida! Dizem que o 
Miranda só faz o que você quer...
    - Dizem com razão.
    - E você está resolvido a... ?
    - A protegê-lo?... Sim, decerto: neste mundo estamos nós para 
servir uns aos outros!... apenas, como não sou rico...
    - Ah! Isso é dos livros! Arranje-me você o negócio e não se 
arrependerá...
    - Conforme, conforme...
    - Creio que não me supõe um velhaco!...
    - Pelo amor de Deus! Sou incapaz de semelhante sacrilégio!
    - Então!...
    - Sim, sim... em todo o caso falaremos depois, com mais vagar... 
Não é sangria desatada!
    E desde então, com efeito, sempre que os dois se pilhavam a sós 
discutiam o seu plano de ataque à filha do Miranda. Botelho queria 


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vinte contos de réis, e com papel passado a prazo de casamento; o outro 
oferecia dez.
    - Bom! então não temos nada feito... resumiu o velho. Trate você 
do negócio só por si; mas já lhe vou prevenindo de que não conte 
comigo absolutamente... Compreende?
    - Quer dizer que me fará guerra...
    - Valha-me Deus, criatura! não faço guerra a ninguém! guerra 
está você a fazer-me, que não me quer deixar comer uma migalha da 
bela fatia que lhe vou meter no papo!... O Miranda hoje tem para mais 
de mil contos de réis! Agora, fique sabendo que a coisa não é assim 
também tão fácil, como lhe parece talvez...
    - Paciência!
    - O Barão há de sonhar com um genro de certa ordem!... Ai 
algum deputado... algum homem que faça figura na política aqui da 
terra!
    - Não! melhor seria um príncipe!...
    - E mesmo a pequena tem um doutorzinho de boa família; que 
lhe ronda muito a porta... E ela, ao que parece, não lhe faz má cara...
    - Ah! nesse caso é deixá-los lá arranjar a vida!
    - É melhor, é! Creio até que com ele será mais fácil qualquer 
transação...
    - Então não falemos mais nisso! Está acabado!
    - Pois não falemos!
    Mas no dia seguinte voltaram à questão:
    - Homem! disse o vendeiro; para decidir, dou-lhe quinze!
    - Vinte!
    - Vinte, não!
    - Por menos não me serve!
    - E eu vinte não dou!
    - Nem ninguém o obriga... Adeuzinho!
    - Até mais ver.
    Quando se encontraram de novo, João Romão riu-se para o outro, 
sem dizer palavra. O Botelho, em resposta, fez um gesto de quem não 
quer intrometer-se com o que não é da sua conta.
    - Você é o diabo!... faceteou aquele, dando-lhe no ombro uma 
palmada amigável. Então não há meio de chegarmos a um acordo?...
    - Vinte!
    - E, caso esteja eu pelos vinte, posso contar que...?
    - Caso o meu nobre amigo se decida pelos vinte, receberá do 
Barão um chamado para lá ir jantar ao primeiro domingo; aceita o 
convite, vai, e encontrará o terreno preparado.
    - Pois seja lá como você quer! mais vale um gosto do que quatro 
vinténs!
    O Botelho não faltou ao prometido: dias depois do contrato 
selado e assinado, João Romão recebeu uma carta do vizinho, 
solicitando-lhe a fineza de ir jantar com ele mais a família;
    Ah! que revolução não se feriu no espírito do vendeiro! passou 
dias a estudar aquela visita; ensaiou o que tinha que dizer, conversando 
sozinho defronte do espelho do seu lavatório; afinal, no dia marcado, 
banhou-se em varias águas, areou os dentes até fazê-los bem limpos, 


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perfumou-se todo dos pés à cabeça, escanhoou-se com esmero, aparou 
e bruniu as unhas, vestiu-se de roupa nova em folha, e às quatro e meia 
da tarde apresentou-se, risonho e cheio de timidez, no espelhado e 
pretensioso salão de Sua Excelência.
    Aos primeiros passos que dera sobre o tapete, onde seus grandes 
pés, afeitos por toda vida à independência do chinelo e do tamanco, se 
destacavam como um par de tartarugas, sentiu logo o suor dos grandes 
apuros inundar-lhe o corpo e correr-lhe em bagada pela fronte e pelo 
pescoço, nem que se o desgraçado acabasse de vencer naquele instante 
uma légua de carreira ao sol. As suas mãos vermelhas e redondas 
gotejavam, e ele não sabia o que fazer delas, depois que o Barão, muito 
solicito, lhe tomou o chapéu e o guarda-chuva.
    Arrependia-se já de ter lá ido.
    - Fique a gosto, homem! bradou-lhe o dono da casa. Se tem calor 
venha antes aqui para a janela. Não faça cerimônia! Ó Leonor! traz o 
vermute! Ou o amigo prefere tomar um copinho de cerveja?
    João Romão aceitava tudo, com sorrisos de acanhamento, sem 
animo de arriscar palavra. A cerveja fê-lo suar ainda mais e, quando 
apareceram na sala Dona Estela e a filha, o pobre-diabo chegava a 
causar dó de tão atrapalhado que se via Por duas vezes escorregou, e 
numa delas foi apoiar-se a uma cadeira que tinha rodízios; a cadeira 
afastou-se e ele quase vai ao chão.
    Zulmira riu-se, mas disfarçou logo a sua hilaridade pondo-se a 
conversar com a mãe em voz baixa. Agora, refeita nos seus dezessete 
anos, não parecia tão anêmica e deslavada; vieram-lhe os seios e 
engrossara-lhe o quadril. Estava melhor assim. Dona Estela, coitada! é 
que se precipitava, a passos de granadeiro, para a velhice, a despeito da 
resistência com que se rendia; tinha já dois dentes postiços, pintava o 
cabelo, e dos cantos da boca duas rugas serpenteavam-lhe pelo queixo 
abaixo, desfazendo-lhe a primitiva graça maliciosa dos lábios; ainda 
assim, porém, conservava o pescoço branco, liso e grosso, e os seus 
braços não desmereciam dos antigos créditos.
    À mesa, a visita comeu tão pouco e tão pouco bebeu, que os donos 
da casa a censuraram jovialmente, fingindo aceitar o fato como prova 
segura de que o jantar não prestava; o obsequiado pedia por amor de 
Deus que não acreditassem em tal e jurava sob palavra de honra que se 
sentia satisfeito e que nunca outra comida lhe soubera tão bem. Botelho 
lá estava, ao lado de um velhote fazendeiro, que por essa ocasião 
hospedava-se com o Miranda. Henrique, aprovado no seu primeiro ano 
de Medicina, fora visitar a família; em Minas. Isaura e Leonor serviam 
aos comensais, rindo ambas à socapa por verem ali o João da venda 
engravatado e com piegas de visita.
    Depois do jantar apareceu uma família; conhecida, trazendo um 
rancho de moças; vieram também alguns rapazes; formaram-se jogos de 
prendas, e João Romão, pela primeira vez em sua vida, viu-se metido 
em tais funduras. Não se saiu mal todavia.
    O chá das dez e meia correu sem novidade; e, quando enfim o 
neófito se pilhou na rua, respirou com independência, remexendo o 
pescoço dentro do colarinho engomado e soprando com alívio. Uma 
alegria de vitória transbordava-lhe do coração e fazia-o feliz nesse 


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momento. Bebeu o ar fresco da noite com uma volúpia nova para ele e, 
muito satisfeito consigo mesmo, entrou em casa e recolheu-se, 
rejubilando com a idéia de que ia descalçar aquelas botas, desfazer-se 
de toda aquela roupa e atirar-se à cama, para pensar mais à vontade no 
seu futuro, cujos horizontes se rasgavam agora iluminados de 
esperança.
    Mas a bolha do seu desvanecimento engelhou logo à vista de 
Bertoleza que, estendida na cama, roncava, de papo para o ar, com a 
boca aberta, a camisa soerguida sobre o ventre, deixando ver o negrume 
das pernas gordas e lustrosas.
    E tinha de estirar-se ali, ao lado daquela preta fedorenta a cozinha 
e bodum de peixe! Pois, tão cheiroso e radiante como se sentia, havia 
de pôr a cabeça naquele mesmo travesseiro sujo em que se enterrava a 
hedionda carapinha da crioula?...
    - Ai! ai! gemeu o vendeiro, resignando-se.
    E despiu-se.
    Uma vez deitado, sem animo de afastar-se da beira da cama, para 
não se encostar com a amiga, surgiu-lhe nítida ao espírito a 
compreensão do estorvo que o diabo daquela negra seria para o seu 
casamento.
    E ele que até aí não pensara nisso!... Ora o demo!
    Não pôde dormir; pôs-se a malucar:
    Ainda bem que não tinham filhos! Abençoadas drogas que a 
Bruxa dera à Bertoleza nas duas vezes em que esta se sentiu grávida! 
Mas, afinal, de que modo se veria livre daquele trambolho? E não se ter 
lembrado disso há mais tempo!... parecia incrível!
    João Romão, com efeito, tão ligado vivera com a crioula e tanto se 
habituara a vê-la ao seu lado, que nos seus devaneios de ambição 
pensou em tudo, menos nela.
    E agora?
    E malucou no caso até às duas da madrugada, sem achar furo. Só 
no dia seguinte, a contemplá-la de cócoras à porta da venda, abrindo e 
destripando peixe, foi que, por associação de idéias, lhe acudiu esta 
hipótese:
    - E se ela morresse?...



XIV

    
    Iam-se assim os dias, e assim mais de três meses se passaram 
depois da noite da navalhada. Firmo continuava a encontrar-se com a 
baiana na Rua de São João Batista, mas a mulata já não era a mesma 
para ele: apresentava-se fria, distraída, às vezes impertinente, puxando 
questão por dá cá aquela palha.
    - Hum! hum! temos mouro na costa! rosnava o capadócio com 
ciúmes. Ora queira Deus que eu me engane!
    Nas entrevistas apresentava-se ela agora sempre um pouco depois 
da hora marcada, e sua primeira frase era para dizer que tinha pressa e 


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não podia demorar-se.
    - Estou muito apertada de serviço! acrescentava à réplica do 
amante. Uma roupa de uma família que embarca amanhã para o Norte! 
Tem de ficar pronta esta noite! Já ontem fiz serão!
    - Agora estás sempre apertada de serviço!... resmungava o 
Firmo.
    - E que é preciso puxar por ele, filho! Ponha-me eu a dormir e 
quero ver do que como e com que pago a casa! Não há de ser com o que 
levo daqui!
    - Or'essa! Tens coragem de dizer que não te dou nada? E quem 
foi que te deu esse vestido que tens no corpo?!
    - Não disse que nunca me desse nada, mas com o que você me dá 
não pago a casa e não ponho a panela no fogo! Também não lhe estou 
pedindo coisa alguma! Oh!
    Azedavam-se deste modo as suas entrevistas, esfriando as poucas 
horas que os dois tinham para o amor. Um domingo, Firmo esperou 
bastante tempo e Rita não apareceu. O quarto era acanhado e sombrio, 
sem janelas, com um cheiro mau de bafio e umidade. Ele havia levado 
um embrulho de peixe frito, pão e vinho, para almoçarem juntos. Deu 
meio-dia e Firmo esperou ainda, passeando na estreiteza da miserável 
alcova, como um onça enjaulada, rosnando pragas obscenas; o sobrolho 
intumescido, os dentes cerrados. "Se aquela safada lhe aparecesse 
naquele momento, ele seria capaz de torcê-la nas mãos!"
    À vista do embrulho da comida estourou-lhe a raiva. Deu um 
pontapé numa bacia de louça que havia no chão, perto da cama, e soltou 
um marro na cabeça.
    - Diabo!
    Depois assentou-se no leito, esperou ainda algum tempo, 
fungando forte, sacudindo as pernas cruzadas, e afinal saiu, atirando 
para dentro do quarto uma palavra porca.
    Pela rua, durante o caminho, jurava que "aquela caro pagaria a 
mulata!" Um sôfrego desejo de castigá-la, no mesmo instante, o atraía 
ao cortiço de São Romão, mas não se sentiu com animo de lá ir, e 
contentou-se em rondar a estalagem. Não conseguiu vê-la; resolveu 
esperar até à noite para lhe mandar um recado. E vagou aborrecido pelo 
bairro, arrastando o seu desgosto por aquele domingo sem pagode. Às 
duas horas da tarde entrou no botequim do Garnisé, uma espelunca, 
perto da praia, onde ele costumava beber de súcia com o Porfiro. O 
amigo não estava lá. Firmo atirou-se numa cadeira, pediu um martelo 
de parati e acendeu um charuto, a pensar. Um mulatinho, morador no 
"Cabeça-de-Gato", veio assentar-se na mesma mesa e, sem rodeios, 
deu-lhe a noticia de que na véspera o Jerônimo, tivera alta do hospital.
    Firmo acordou com um sobressalto.
    - O Jerônimo?!
    - Apresentou-se hoje pela manhã na estalagem.
    - Como soubeste?
    - Disse-me o Pataca.
    - Ora ai está o que é! exclamou o capoeira, soltando um murro na 
mesa.
    - Que é o quê? interrogou o outro.


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    - Nada! É cá comigo. Toma alguma coisa?
    Veio novo copo, e Firmo resmungou no fim de uma pausa:
    - É! não há dúvida! Por isto é que a perua ultimamente me anda 
de vento mudado!...
    E um ciúme doido, um desespero feroz rebentou-lhe por dentro e 
cresceu logo como a sede de um ferido. "Oh! precisava vingar-se dela! 
dela e dele! O amaldiçoado resistiu à primeira, mas não lhe escaparia da 
segunda!"
    - Veja mais um martelo de parati! gritou para o portuguesinho da 
espelunca. E acrescentou, batendo com toda a força o seu petrópolis no 
chão:
    - E não passa de hoje mesmo!
    Com o chapéu à ré, a gaforina mais assanhada que de costume, os 
olhos vermelhos, a boca espumando pelos cantos, todo ele respirava 
uma febre de vingança e de ódio.
    - Olha! disse ao companheiro de mesa. Disto, nem pio lá com os 
carapicus! Se abrires o bico dou-te cabo da pele! Já me conheces!
    - Tenho nada que falar! Pra quê?
    - Bom!
    E ficaram ainda a beber.
    Jerônimo, com efeito, tivera alta e tornara aquele domingo ao 
cortiço, pela primeira vez depois da doença. Vinha magro, pálido, 
desfigurado, apoiando-se a um pedaço de bambu. Crescera-lhe a barba 
e o cabelo, que ele não queria cortar sem ter cumprido certo juramento 
feito aos seus brios. A mulher fora buscá-lo ao hospital e caminhava ao 
seu lado, igualmente abatida com a moléstia do marido e com as causas 
que a determinaram. Os companheiros receberam-no compungidos, 
tomados de uma tristeza respeitosa; um silêncio fez-se em torno do 
convalescente; ninguém falava senão a meia voz; a Rita Baiana tinha os 
olhos arrasados d'água.
    Piedade levou o seu homem para o quarto.
    - Queres tomar um caldinho? perguntou-lhe. Creio que ainda não 
estás de todo pronto...
    - Estou! contrapôs ele. Diz o doutor que preciso é de andar, para 
ir chamando força às pernas. Também estive tanto tempo preso à cama! 
Só de uma semana pra cá é que encostei os pés no chão!
    Deu alguns passos na sua pequena sala e disse depois, tornando 
junto da mulher:
    - O que me saberia bem agora era uma xicrinha de café, mas 
queria-o bom como o faz a Rita... Olha! pede-lhe que o arranje.
    Piedade soltou um suspiro e saiu vagarosamente, para ir pedir o 
obséquio à mulata. Aquela preferência pelo café da outra doía-lhe duro 
que nem uma infidelidade.
    - Lá o meu homem quer do seu café e torceu nariz ao de casa... 
Manda pedir-lhe que lhe faça uma xícara. Pode ser? perguntou a 
portuguesa à baiana.
    - Não custa nada! respondeu esta. Com poucas está lá!
    Mas não foi preciso que o levasse, porque daí a um instante, 
Jerônimo, com o seu ar tranqüilo e passivo de quem ainda se não refez 
de todo depois de uma longa moléstia, surgiu-lhe à porta.


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    - Não vale a pena estorvar-se em lá ir... Se me dá licença, bebo o 
cafezinho aqui mesmo...
    - Entra, seu Jerônimo.
    - Aqui ele sabe melhor...
    - Você pega já com partes! Olha, sua mulher anda de pé atrás 
comigo! E eu não quero histórias!...
    Jerônimo sacudiu os ombros com desdém.
    - Coitada!... resmungou depois. Muito boa criatura, mas...
    - Cala a boca, diabo! Toma o café e deixa de maldizência! É 
mesmo vicio de Portugal: comendo e dizendo mal!
    O português sorveu com delícia um gole de café.
    - Não digo mal, mas confesso que não encontro nela umas tantas 
coisas que desejava...
    E chupou os bigodes.
    - Vocês são tudo a mesma súcia! Bem tola é quem vai atrás de 
lábia de homem! Eu cá não quero mais saber disso... Ao outro 
despachei já!
    O cavouqueiro teve um tremor de todo o corpo.
    - Outro quem?! O Firmo?
    Rita arrependeu-se do que dissera, e gaguejou:
    - É um coisa-ruim! Não quero saber mais dele!... Um traste!
    - Ele ainda vem cá? perguntou o cavouqueiro.
    - Aqui? Qual! Nessa não caio! E se vier não lhe abro a porta! Ah! 
quando embirro com uma pessoa é que embirro mesmo!
    - Isso é verdade, Rita?
    - Quê? Que não quero saber mais dele? Esta que aqui está nunca 
mais fará vida com semelhante cábula! Juro por esta luz!
    - Ele fez-lhe alguma?
    - Não sei! não quero! acabou-se!
    - É que então você tem outro agora...
    - Que esperança! Não tenho, nem quero mais ter homem!
    - Por que, Rita?
    - Ora! não paga a pena!
    - E... se você encontrasse um... que a quisesse deveras... para 
sempre?...
    - Não é com essas!...
    - Pois sei de um que a quer como Deus aos seus!...
    - Pois diga-lhe que siga outro oficio!
    Ela se chegou para recolher a xícara, e ele apalpou-lhe a cintura.
    - Olha! Escuta!
    Rita fugiu com uma rabanada, e disse rápido, muito a sério:
    - Deixa disso. Pode tua mulher ver!
    - Vem cá!
    - Logo.
    - Quando?
    - Logo mais.
    - Onde?
    - Não sei.
    - Preciso muito te falar...
    - Pois sim, mas aqui fica feio.


[Linha 5450 de 8202 - Parte 4 de 5]


    - Onde nos encontramos então?
    - Sei cá!
    E, vendo que Piedade entrava, ela disfarçou, dizendo sem 
transição:
    - Os banhos frios é que são bons para isso. Põem duro o corpo!
    A outra, embesourada, atravessou em silêncio a pequena sala, foi 
ter com o marido e comunicou-lhe que o Zé Carlos queria falar-lhe, 
junto com o Pataca.
    - Ah! fez Jerônimo. Já sei o que é. Até logo, Nhá Rita. Obrigado. 
Quando quiser qualquer coisa de nós, lá estamos.
    Ao sair no pátio, aqueles dois vieram ao seu encontro. O 
cavouqueiro levou-os para casa, onde a mulher havia posto já a mesa do 
almoço, e com um sinal preveniu-os de que não falassem por enquanto 
sobre o assunto que os trouxera ali. Jerônimo comeu às pressas e 
convidou as visitas a darem um giro lá fora.
    Na rua, perguntou-lhes em tom misterioso:
    - Onde poderemos falar à vontade?
    O Pataca lembrou a venda do Manuel Pepé, defronte do 
cemitério. - Bem achado! confirmou Zé Carlos. Há lá bons fundos 
para se conversar.
    E os três puseram-se a caminho, sem trocar mais palavras até à 
esquina.
    - Então está de pé o que dissemos?... indagou afinal aquele 
último. - De pedra e cal! respondeu o cavouqueiro.
    - E o que é que se faz?
    - Ainda não sei... Preciso antes de tudo saber onde o cabra é 
encontrado à noite.
    - No Garnisé, afirmou o Pataca.
    - Garnisé?
    - Aquele botequim ali ao entrar da Rua da Passagem, onde está 
um galo à tabuleta.
    - Ah! Defronte da farmácia nova...
    - Justo! Ele vai lá agora todas as noites, e lá esteve ontem, que o 
vi, por sinal que num gole...
    - Muito bêbado, hein?
    - Como um gambá! Aquilo foi alguma, que a Rita Baiana lhe 
pregou de fresco!
    Tinham chegado à venda. Entraram pelos fundos e assentaram-se 
sobre caixas de sabão vazias, em volta de uma mesa de pinho. Pediram 
parati com açúcar.
    - Onde é que eles se encontravam?... informou-se Jerônimo, 
afetando que fazia esta pergunta sem interesse especial. Lá mesmo no 
São Romão?...
    - Quem? A Rita mais ele? Ora o quê! Pois se ele agora é todo 
cabeça-de-gato!...
    - Ela ia lá?
    - Duvido! Então logo aquela! Aquela é carapicu até o sabugo das 
unhas!
    - Nem sei como ainda não romperam! interveio Zé Carlos, que 
continuou a falar a respeito da mulata, enquanto Jerônimo o escutava 


[Linha 5500 de 8202 - Parte 4 de 5]


abstrato, sem tirar os olhos de um ponto.
    O Pataca, como se acompanhasse o pensamento do cavouqueiro, 
disse-lhe emborcando o resto do copo:
    - Talvez o melhor fosse liquidar a coisa hoje mesmo!...
    - Ainda estou muito fraco... observou lastimoso o convalescente.
    - Mas o teu pau está forte! E além disso cá estamos nós dois. Tu 
podes até ficar em casa, se quiseres...
    - Isso é que não! atalhou aquele. Não dou o meu quinhão pelos 
dentes da boca!
    - Eu cá também vou que o melhor seria pespegar-lhe hoje mesmo 
a sova... declarou o outro. Pão de um dia para outro fica duro!
    - E eu estou-lhe com uma gana!... acrescentou o Pataca.
    - Pois seja hoje mesmo! resolveu Jerônimo. E o dinheiro lá está 
em casa, quarenta pra cada um! Em seguida à mela corre logo o cobre! 
E ao depois vai a gente tomar uma fartadela de vinho fino!
    - A que horas nos juntamos? perguntou Zé Carlos.
    - Logo ao cair da noite, aqui mesmo. Está dito?
    - E será feito, se Deus quiser!
    O Pataca acendeu o cachimbo, e os três puseram-se a cavaquear 
animadamente sobre o efeito que aquela sova havia de produzir; a cara 
que o cabra faria entre três bons cacetes. "Então é que queriam ver até 
onde ia a impostura da navalha! Diabo de um calhorda que, por um - 
vai tu, irei eu - arrancava logo pelo ferro!..."
    Dois trabalhadores, em camisa de meia, entraram na tasca e o 
grupo calou-se. Jerônimo fogueou um cigarro no cachimbo do Pataca e 
despediu-se, relembrando aos companheiros a hora da entrevista e 
atirando sobre a mesa um níquel de duzentos réis.
    Foi direito para o cortiço.
    - Fazes mal em andar por ai com este sol!... repreendeu Piedade, 
ao vê-lo entrar.
    - Pois se o doutor me disse que andasse quanto pudesse...
    Mas recolheu-se à casa, estirou-se na cama e ferrou logo no sono. 
A mulher, que o acompanhara até lá, assim que o viu dormindo, 
enxotou as moscas de junto dele, cobriu-lhe a cara com uma cambraia 
que servia para os tabuleiros de roupa engomada, e saiu na ponta dos 
pés, deixando a porta encostada.
    Jantaram daí a duas horas. Jerônimo comeu com apetite, bebeu 
uma garrafa de vinho, e a tarde passaram-na os dois de palestra, 
assentados à frente de casa, formando grupo com a Rita e a gente da 
Machona. Em torno deles a liberdade feliz do domingo punha alegrias 
naquela tarde. Mulheres amamentavam o filhinho ali mesmo, ao ar 
livre, mostrando a uberdade das tetas cheias. Havia muito riso, muito 
parolar de papagaios; pequenos travessavam, tão depressa rindo como 
chorando; os italianos faziam a ruidosa digestão dos seus jantares de 
festa; ouviam-se cantigas e pragas entre gargalhadas. A Augusta, que 
estava grávida de sete meses, passeava solenemente o seu bandulho, 
levando um outro filho ao colo. O Albino, instalado defronte de uma 
mesinha em frente à sua porta, fazia, à força de paciência, um quadro, 
composto de figurinhas de caixa de fósforos, recortadas a tesoura e 
grudadas em papelão com goma-arábica. E lá em cima, numa das 


[Linha 5550 de 8202 - Parte 4 de 5]


janelas do Miranda, João Romão, vestido de casimira clara, uma 
gravata à moda, já familiarizado com a roupa e com a gente fina, 
conversava com Zulmira que, ao lado dele, sorrindo de olhos baixos, 
atirava migalhas de pão para as galinhas do cortiço; ao passo que o 
vendeiro lançava para baixo olhares de desprezo sobre aquela gentalha 
sensual, que o enriquecera, e que continuava a mourejar estupidamente, 
de sol a sol, sem outro ideal senão comer, dormir e procriar.
    Ao cair da noite, Jerônimo foi, como ficara combinado, à venda 
do Pepé. Os outros dois já lá estavam. Infelizmente, havia mais alguém 
na tasca. Tomaram juntos, pelo mesmo copo, um martelo de parati e 
conversaram em voz surda numa conspiração sombria em que as suas 
barbas roçavam umas com as outras.
    - Os paus onde estão?... perguntou o cavouqueiro.
    - Ali, junto às pipas... segredou o Pataca, apontando com 
disfarce para uma esteira velha enrolada. Preparei-os ainda há pouco... 
Não os quis muito grandes... Deste tamanho.
    E abriu a mão contra a terra no lugar do peito.
    - Estiveram de molho até agora... acrescentou, piscando o olho.
    - Bom! aprovou Jerônimo, esgotando o copo com um último 
gole. Agora onde vamos nós! Parece-me ainda cedo para o Garnisé.
    - Ainda! confirmou o Pataca. Deixemo-nos ficar por aqui mais 
um pouco e ao depois então seguiremos. Eu entro no botequim e vocês 
me esperam fora no lugar que marcamos... Se o cabra não estiver lá, 
volto logo a dizer-lhes, e, caso esteja, fico... chego-me para ele, procuro 
entrar em conversa, puxo discussão e afinal desafio-o pra rua; ele cai na 
esparrela, e então vocês dois surgem e metem-se na dança, como quem 
não quer a coisa! Que acham?
    - Perfeito! aplaudiu Jerônimo, e gritou para dentro: - Olha mais 
um martelo de parati!
    Em seguida enterrou a mão no bolso da calça e sacou um rolo 
grosso de notas.
    - Podem enxugar à vontade! disse. Aqui ainda há muito com 
quê!
    E, ordenando as notas, separou oitenta mil-réis, em cédulas de 
vinte.
    - Isto é o do ajuste! Este é sagrado! acrescentou, guardando-as 
na algibeira do lado esquerdo.
    Depois separou ainda vinte mil-réis, que atirou sobre a mesa.
    - Esse aí é para festejarmos a nossa vitória!
    E fazendo do resto do seu dinheiro um bolo, que ele, um pouco 
ébrio, apertava nos dedos, agora, claros e quase descalejados, socou-o 
na algibeira do lado direito explicando entre dentes que ali ficava ainda 
bastante para o que desse e viesse, no caso de algum contratempo.
    - Bravo! exclamou Zé Carlos. Isto é o que se chama fazer as 
coisas à fidalga! Haja contar comigo pra vida e pra morte!
    O Pataca entendia que podiam tomar agora um pouco de cerveja.
    - Cá por mim não quero, mas bebam-na vocês, acudiu Jerônimo.
    - Preferia um trago de vinho branco, contraveio o terceiro.
    - Tudo o que quiserem! franqueou aquele. Eu tomo também um 
pouco de vinho. Não! que o que estamos a beber não é dinheiro de 


[Linha 5600 de 8202 - Parte 4 de 5]


navalhista, foi ganho ao sol e à chuva com o suor do meu rosto! É 
entornar pra baixo sem caretas, que este não pesa na consciência de 
ninguém!
    - Então, à sua! brindou Zé Carlos, logo que veio o novo reforço. 
Pra que não torne você a dar que fazer à má casta dos boticários!
    - À sua, mestre Jerônimo! concorreu o outro.
    Jerônimo agradeceu e disse, depois de mandar encher os copos:
    - Aos amigos e patrícios com quem me achei para o meu 
desforço!
    E bebeu.
    - À da S'ora Piedade de Jesus! reclamou o Pataca.
    - Obrigado! respondeu o cavouqueiro, erguendo-se. Bem! Não 
nos deixemos agora ficar aqui toda a noite; mãos a obra! São quase oito 
horas.
    Os outros dois esvaziaram de um trago o que ainda havia no fundo 
dos copos e levantaram-se também.
    - É muito cedo ainda... obtemperou Zé Carlos, cuspindo de 
esguelha e limpando o bigode nas costas da mão.
    - Mas talvez tenhamos alguma demora pelo caminho, advertiu o 
companheiro, indo buscar junto às pipas o embrulho dos cacetes.
    - Em todo o caso vamos seguindo, resolveu Jerônimo, 
impaciente, nem se temesse que a noite lhe fugisse de súbito.
    Pagou a despesa, e os três saíram, não cambaleando, mas como 
que empurrados por um vento forte, que os fazia de vez em quando dar 
para a frente alguns passos mais rápidos. Seguiram pela Rua de 
Sorocaba e tomaram depois a direção da praia, conversando em voz 
baixa, muito excitados. Só pararam perto do Garnisé.
    - Vais tu então, não é? perguntou o cavouqueiro ao Pataca.
    Este respondeu entregando-lhe o embrulho dos paus e 
afastando-se de mãos nas algibeiras, a olhar para os pés, fingindo-se 
mais bêbedo do que realmente estava.



XV

    
    O Garnisé tinha bastante gente essa noite. Em volta de umas doze 
mesinhas toscas, de pau, com uma coberta de folha-de-flandres pintada 
de branco fingindo mármore, viam-se grupos de três e quatro homens, 
quase todos em mangas de camisa, fumando e bebendo no meio de 
grande algazarra. Fazia-se largo consumo de cerveja nacional, vinho 
virgem, parati e laranjinha. No chão coberto de areia havia cascas de 
queijo-de-minas, restos de iscas de fígado, espinhas de peixe, dando 
idéia de que ali não só se enxugava como também se comia. Com 
efeito, mais para dentro, num engordurado bufete, junto ao balcão e 
entre as prateleiras de garrafas cheias e arrolhadas, estava um travessão 
de assado com batatas, um osso de presunto e vários pratos de 
sardinhas fritas. Dois candeeiros de querosene lumiavam, encarvoando 
o teto. E de uma porta ao fundo, que escondia o interior da casa com 


[Linha 5650 de 8202 - Parte 4 de 5]


uma cortina de chita vermelha, vinha de vez em quando uma baforada 
de vozes roucas, que parecia morrer em caminho, vencida por aquela 
densa atmosfera cor de opala.
    O Pataca estacou a entrada, afetando grande bebedeira e 
procurando, com disfarce, em todos os grupos, ver se descobria o 
Firmo. Não o conseguiu; mas alguém, em certa mesa, lhe chamara a 
atenção, porque ele se dirigiu para lá. Era uma mulatinha magra, mal 
vestida, acompanhada por uma velha quase cega e mais um homem, 
inteiramente calvo, que sofria de asma e, de quando em quando, 
abalava a mesa com um frouxo de tosse, fazendo dançar os copos.
    O Pataca bateu no ombro da rapariga.
    - Como vais tu, Florinda?
    Ela olhou para ele, rindo; disse que ia bem, e perguntou-lhe como 
passava.
    - Rola-se, filha. Tu que fim levaste? Há um par de quinze dias 
que te não vejo!
    - E mesmo. Desde que estou com seu Bento não tenho saído 
quase.
    - Ah! disse o Pataca, estás amigada? Bom!...
    - Sempre estive!
    E ela então, muito expansiva com a sua folga daquele domingo e 
com o seu bocado de cerveja, contou que, no dia em que fugiu da 
estalagem, ficou na rua e dormiu numas obras de uma casa em 
construção na Travessa da Passagem, e que no seguinte oferecendo-se 
de porta em porta, para alugar-se de criada ou de ama-seca, encontrou 
um velho solteiro e agimbado que a tomou ao seu serviço e meteu-se 
com ela.
    - Bom! muito bom! anuiu Pataca.
    Mas o diabo do velho era um safado; dava-lhe muita coisa, 
dinheiro até, trazia-a sempre limpa e de barriga cheia, sim senhor! mas 
queria que ela se prestasse a tudo! Brigaram. E, como o vendeiro da 
esquina estava sempre a chamá-la para casa, um belo dia arribou, 
levando o que apanhara ao velho.
    - Estás então agora com o da venda?
    Não! O tratante, a pretexto de que desconfiava dela com o Bento 
marceneiro, pô-la na rua, chamando a si o que a pobre de Cristo 
trouxera da casa do outro e deixando-a só com a roupa do corpo e ainda 
por cima doente por causa de um aborto que tivera logo que se metera 
com semelhante peste. O Bento tomara-a então à sua conta, e ela, 
graças a Deus, por enquanto não tinha razões de queixa.
    O Pataca olhou em torno de si com o ar de quem procura alguém, 
e Florinda, supondo que se tratava do seu homem, acrescentou:
    - Não está cá, está lá dentro. Ele, quando joga, não gosta que eu 
fique perto; diz que encabula.
    - E tua mãe?
    - Coitada! foi pro hospício...
    E passou logo a falar a respeito da velha Marciana; o Pataca, 
porém, já lhe não prestava atenção, porque nesse momento acabava de 
abrir-se a cortina vermelha, e Firmo surgia muito ébrio, a dar bordos, 
contando, sem conseguir, uma massagada de dinheiro, em notas 


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pequenas, que ele afinal entrouxou num bolo e recolheu na algibeira das 
calças.
    - Ó Porfiro! não vens? gritou lá para dentro, arrastando a voz.
    E, depois de esperar inutilmente pela resposta, fez alguns passos 
na sala.
    O Pataca deu à Florinda um "até logo" rápido e, fingindo-se de 
novo muito bêbedo, encaminhou-se na direção em que vinha o mulato.
    Esbarraram-se.
    - Oh! Oh! exclamou o Pataca. Desculpe!
    Firmo levantou a cabeça e encarou-o com arrogância; mas 
desfranziu o rosto logo que o reconheceu.
    - Ah! és tu, seu galego? Como vai isso? A ladroeira corre?
    - Ladroeira tinha a avó na cuia! Anda a tomar alguma coisa. 
Queres?
    - Que há de ser?
    - Cerveja. Vai?
    - Vá lá.
    Chegaram-se para o balcão.
    - Uma Guarda-Velha, ó pequeno! gritou o Pataca.
    Firmo puxou logo dinheiro para pagar.
    - Deixa! disse o outro. A lembrança foi minha!
    Mas, como Firmo insistisse, consentiu-lhe que fizesse a despesa.
    E os níqueis do troco rolaram no chão, fugindo por entre os dedos 
do mulato, que os tinha duros na tensão muscular da sua embriaguez.
    - Que horas são? perguntou Pataca, olhando quase de olhos 
fechados o relógio da parede. Oito e meia. Vamos a outra garrafa, mas 
agora pago eu!
    Beberam de novo, e o coadjutor de Jerônimo observou depois:
    - Você hoje ferrou-a deveras! Estás que te não podes lamber!
    - Desgostos... resmungou o capoeira, sem conseguir lançar da 
boca a saliva que se lhe grudava à língua.
    - Limpa o queixo que estás cuspido. Desgostos de quê? 
Negócios de mulher, aposto!
    - A Rita não me apareceu hoje, sabes? Não foi e eu bem calculo 
por quê!
    - Por quê?
    - Porque a peste do Jerônimo voltou hoje à estalagem!
    - Ahn! não sabia!... A Rita está então com ele?...
    - Não está, nem nunca há de estar, que eu daqui mesmo vou à 
procura daquele galego ordinário e ferro-lhe a sardinha no pandulho!
    - Vieste armado?
    Firmo sacou da camisa uma navalha.
    - Esconde! não deves mostrar isso aqui! Aquela gente ali da 
outra mesa já não nos tira os olhos de cima!
    - Estou-me ninando pra eles! E que não olhem muito, que lhes 
dou uma de amostra!
    - Entrou um urbano! Passa-me a navalha!
    O capadócio fitou o companheiro, estranhando o pedido.
    - É que, explicou aquele, se te prenderem não te encontram 
ferro...


[Linha 5750 de 8202 - Parte 4 de 5]


    - Prender a quem? a mim? Ora, vai-te catar!
    - E ela é boa? Deixa ver!
    - Isto não é coisa que se deixe ver!
    - Bem sabes que não me entendo com armas de barbeiro!
    - Não sei! Esta é que não me sai das unhas, nem para meu pai, 
que a pedisse!
    - E porque não tens confiança em mim!
    - Confio nos meus dentes, e esses mesmo me mordem a língua!
    - Sabes quem vi ainda há pouco? Não és capaz de adivinhar!...
    - Quem?
    - A Rita.
    - Onde?
    - Ali na Praia da Saudade.
    - Com quem?
    - Com um tipo que não conheço...
    Firmo levantou-se de improviso e cambaleou para o lado da saída.
    - Espera! rosnou o outro, detendo-o. Se queres vou contigo; mas 
é preciso ir com jeito, porque, se ela nos bispa, foge!
    O mulato não fez caso desta observação e saiu a esbarrar-se por 
todas as mesas. Pataca alcançou-o já na rua e passou-lhe o braço na 
cintura, amigavelmente.
    - Vamos devagar... disse; se não o pássaro se arisca!
    A praia estava deserta. Caia um chuvisco. Ventos frios sopravam 
do mar. O céu era um fundo negro, de uma só tinta; do lado oposto da 
bala os lampiões pareciam surgir d'água, como algas de fogo, 
mergulhando bem fundo as suas trêmulas raízes luminosas.
    - Onde está ela? perguntou o Firmo, sem se agüentar nas pernas.
    - Ali mais adiante, perto da pedreira. Caminha, que hás de ver!
    E continuaram a andar para as bandas do hospício. Mas dois 
vultos surdiram da treva; o Pataca reconheceu-os e abraçou-se de 
improviso ao mulato.
    - Segurem-lhe as pernas! gritou para os outros.
    Os dois vultos, pondo o cacete entre os dentes, apoderaram-se de 
Firmo, que bracejava seguro pelo tronco.
    Deixara-se agarrar - estava perdido.
    Quando o Pataca o viu preso pelos sovacos e pela dobra dos 
joelhos, sacou-lhe fora a navalha.
    - Pronto! Está desarmado!
    E tomou também o seu pau.
    Soltaram-no então. O capoeira, mal tocou com os pés em terra, 
desferiu um golpe com a cabeça, ao mesmo tempo que a primeira 
cacetada lhe abria a nuca. Deu um grito e voltou-se cambaleando. Uma 
nova paulada cantou-lhe nos ombros, e outra em seguida nos rins, e 
outra nas coxas, outra mais violenta quebrou-lhe a clavícula, enquanto 
outra logo lhe rachava a testa e outra lhe apanhava a espinha, e outras, 
cada vez mais rápidas, batiam de novo nos pontos já espancados, até 
que se converteram numa carga continua de porretadas, a que o infeliz 
não resistiu, rolando no chão, a gotejar sangue de todo o corpo.
    A chuva engrossava. Ele agora, assim debaixo daquele bate-bate 
sem tréguas, parecia muito menor, minguava como se estivesse ao fogo. 


[Linha 5800 de 8202 - Parte 4 de 5]


Lembrava um rato morrendo a pau. Um ligeiro tremor convulsivo era 
apenas o que ainda lhe denunciava um resto de vida. Os outros três não 
diziam palavra, arfavam, a bater sempre, tomados de uma irresistível 
vertigem de pisar bem a cacete aquela trouxa de carne mole e 
ensangüentada, que grunhia frouxamente a seus pés. Afinal, quando de 
todo já não tinham forças para bater ainda, arrastaram a trouxa até a 
ribanceira da praia e lançaram-na ao mar. Depois, arquejantes, deitaram 
a fugir, à toa, para os lados da cidade.
    Chovia agora muito forte. Só pararam no Catete, ao pé de um 
quiosque; estavam encharcados; pediram parati e beberam como quem 
bebe água. Passava já de onze horas. Desceram pela Praia da Lapa; ao 
chegarem debaixo de um lampião, Jerônimo parou suando apesar do 
aguaceiro que cala.
    - Aqui têm vocês, disse, tirando do bolso as quatro notas de 
vinte mil-réis. Duas para cada um! E agora vamos tomar qualquer coisa 
quente em lugar seco.
    - Ali há um botequim, indicou o Pataca, apontando a Rua da 
Glória.
    Subiram por uma das escadinhas que ligam essa rua à praia, e daí a 
pouco instalavam-se em volta de uma mesa de ferro. Pediram de comer 
e de beber e puseram-se a conversar em voz soturna, muito cansados.
    A uma hora da madrugada o dono do café pô-los fora. Felizmente 
chovia menos. Os três tomaram de novo a direção de Botafogo; em 
caminho Jerônimo perguntou ao Pataca se ainda tinha consigo a 
navalha do Firmo e pediu-lha, ao que o companheiro cedeu sem 
objeção.
    - É para conservar uma lembrança daquele bisbórria! explicou o 
cavouqueiro, guardando a arma.
    Separaram-se defronte da estalagem. Jerônimo entrou sem ruído; 
foi até à casa, espiou pelo buraco da fechadura; havia luz no quarto de 
dormir; compreendeu que a mulher estava à sua espera, acordada 
talvez; pensou sentir, vindo lá de dentro, o bodum azedo que ela punha 
de si, fez uma careta de nojo e encaminhou-se resolutamente para a casa 
da mulata, em cuja porta bateu devagarinho.
    Rita, essa noite, recolhera-se aflita e assustada. Deixara de ir ter 
com o amante e mais tarde admirava-se como fizera semelhante 
imprudência; como tivera coragem de pôr em prática, justamente no 
momento mais perigoso, uma coisa que ela, até ai, não se sentira com 
animo de praticar. No intimo respeitava o capoeira; tinha-lhe medo. 
Amara-o a principio por afinidade de temperamento, pela irresistível 
conexão do instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos, 
depois continuou a estar com ele por hábito, por uma espécie de vicio 
que amaldiçoamos sem poder largá-lo; mas desde que Jerônimo 
propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranqüila seriedade de 
animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de 
apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior. O 
cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às imposições mesológicas, 
enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata, porque a mulata era 
o prazer, era a volúpia, era o fruto dourado e acre destes sertões 
americanos, onde a alma de Jerônimo aprendeu lascívias de macaco e 


[Linha 5850 de 8202 - Parte 4 de 5]


onde seu corpo porejou o cheiro sensual dos bodes.
    Amavam-se brutalmente, e ambos sabiam disso. Esse amor 
irracional e empírico carregara-se muito mais, de parte a parte, com o 
trágico incidente da luta, em que o português fora vitima Jerônimo 
aureolou-se aos olhos dela com uma simpatia de mártir sacrificado à 
mulher que ama; cresceu com aquela navalhada; iluminou-se com o seu 
próprio sangue derramado, e, depois, a ausência no hospital veio a 
completar a cristalização do seu prestigio, como se o cavouqueiro 
houvera baixado a uma sepultura, arrastando atrás de si a saudade dos 
que o choravam.
    Entretanto, o mesmo fenômeno se operava no espírito de 
Jerônimo com relação à Rita: arriscar espontaneamente a vida por 
alguém é aceitar um compromisso de ternura, em que empenhamos 
alma e coração; a mulher por quem fazemos tamanho sacrifício, sela ela 
quem for assume de um só vôo em nossa fantasia as proporções de um 
ideal. O desterrado, à primeira troca de olhares com a baiana, amou-a 
logo, porque sentiu nela o resumo de todos os quentes mistérios que os 
enlearam voluptuosamente nestas terras da luxúria; amou-a muito mais 
quando teve ocasião de jogar a existência por esse amor, e amou-a 
loucamente durante a triste e dolorosa solidão da enfermaria, em que os 
seus gemidos e suspiros eram todos para ela.
    A mulata bem que o compreendeu, mas não teve animo de 
confessar-lhe que também morria de amores por ele; receou 
prejudicá-lo. Agora, com aquela loucura de faltar à entrevista 
justamente no dia em que Jerônimo voltava à estalagem, a situação 
parecia-lhe muito melindrosa. Firmo, desesperado com a ausência dela, 
embebedava-se naturalmente e vinha ao cortiço provocar o 
cavouqueiro; a briga rebentaria de novo, fatal para um dos dois, se é 
que não seria para ambos. Do que ela sentira pelo navalhista persistia 
agora apenas o medo, não como ele era dantes, indeterminado e frouxo, 
mas ao contrário, sobressaltado, nervoso, cheio de apreensões que a 
punham aflita. Firmo já não lhe aparecia no espírito como um amante 
ciumento e perigoso, mas como um simples facínora, armado de uma 
velha navalha desleal e homicida. O seu medo transformava-se em uma 
mistura de asco e terror. E sem achar sossego na cama, deixava-se 
atordoar pelos seus pressentimentos, quando ouviu bater na porta.
    - É ele! disse, com o coração a saltar.
    E via já defronte de si o Firmo, bêbado, a reclamar o Jerônimo aos 
berros, para esfaqueá-lo ali mesmo. Não respondeu ao primeiro 
chamado; ficou escutando.
    Depois de uma pausa bateram de novo.
    Ela estranhou o modo pelo qual batiam. Não era natural que o 
facínora procedesse com tanta prudência. Ergueu-se, foi a janela, abriu 
uma das folhas e espreitou pelas rótulas.
    - Quem está ai?... perguntou a meia voz.
    - Sou eu... disse Jerônimo, chegando-se.
    Reconheceu-o logo e correu a abrir.
    - Como?! É você, Jeromo?
    - Chit! fez ele, pondo o dedo na boca. Fala baixo.
    Rita começou a tremer: no olhar do português, nas suas mãos 


[Linha 5900 de 8202 - Parte 4 de 5]


encardidas de sangue, no seu todo de homem ébrio, encharcado e sujo, 
havia uma terrível expressão de crime.
    - Donde vens tu?... segredou ela.
    - De cuidar da nossa vida... Ai tens a navalha com que fui ferido!
    E atirou-lhe sobre a mesa a navalha de Firmo, que a mulata 
conhecia como as palmas da mão.
    - E ele?
    - Está morto.
    - Quem o matou?
    - Eu.
    Calaram-se ambos.
    - Agora... acrescentou o cavouqueiro, no fim de um silêncio 
arquejado por ambos; estou disposto a tudo para ficar contigo. 
Sairemos os dois daqui para onde melhor for... Que dizes tu?
    - E tua mulher?...
    - Deixo-lhe as minhas economias de muito tempo e continuarei a 
pagar o colégio à pequena. Sei que não devia abandoná-la, mas podes 
ter como certo que, ainda que não queiras vir comigo, não ficarei com 
ela! Não sei! já não a posso suportar! Um homem enfara-se! Felizmente 
minha caixa de roupa está ainda na Ordem e posso ir buscá-la pela 
manhã.
    - E para onde iremos?
    - O que não falta é p'r'onde ir! Em qualquer parte estaremos 
bem. Tenho aqui sobre mim uns quinhentos mil-réis, para as primeiras 
despesas. Posso ficar cá até às cinco horas; são duas e meia; saio sem ser 
visto por Piedade; mando-te ao depois dizer o que arranjei, e tu irás ter 
comigo... Está dito? Queres?
    Rita, em resposta, atirou-se ao pescoço dele e pendurou-se-lhe nos 
lábios, devorando-o de beijos.
    Aquele novo sacrifício do português; aquela dedicação extrema 
que o levava a arremessar para o lado família, dignidade, futuro, tudo, 
tudo por ela, entusiasmou-a loucamente. Depois dos sobressaltos desse 
dia e dessa noite, seus nervos estavam afiados e toda ela elétrica.
    Ah! não se tinha enganado! Aquele homenzarrão hercúleo, de 
músculos de touro, era capaz de todas as meiguices do carinho.
    - Então? insistiu ele.
    - Sim, sim, meu cativeiro! respondeu a baiana, falando-lhe na 
boca; eu quero ir contigo; quero ser a tua mulata, o bem do teu coração! 
Tu és os meus feitiços! - E apalpando-lhe o corpo:- Mas como estas 
ensopado! Espera! espera! o que não falta aqui e roupa de homem pra 
mudar!... Podias ter uma recaída, cruzes! Tira tudo isso que está 
alagado! Eu vou acender o fogareiro e estende-se em cima o que é 
casimira, para te poderes vestir às cinco horas. Tira as botas! Olha o 
chapéu como está! Tudo isto seca! Tudo isto seca! Mira, toma já um 
gole de parati p'r'atalhar a friagem! Depois passa em todo o corpo! Eu 
vou fazer café!
    Jerônimo bebeu um bom trago de parati, mudou de roupa e 
deitou-se na cama de Rita.
    - Vem pra cá... disse, um pouco rouco.
    - Espera! espera! O café está quase pronto!


[Linha 5950 de 8202 - Parte 4 de 5]


    E ela só foi ter com ele, levando-lhe a chávena fumegante da 
perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores; 
assentou-se ao rebordo da cama e, segurando com uma das mãos o 
pires, e com a outra a xícara, ajudava-o a beber, gole por gole, enquanto 
seus olhos o acarinhavam, cintilantes de impaciência no antegozo 
daquele primeiro enlace.
    Depois, atirou fora a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu 
amado, num frenesi de desejo doido.
    Jerônimo, ao senti-la inteira nos seus braços; ao sentir na sua pele a 
carne quente daquela brasileira; ao sentir inundar-lhe o rosto e as 
espáduas, num eflúvio de baunilha e cumaru, a onda negra e fria da 
cabeleira da mulata; ao sentir esmagarem-se no seu largo e pelado colo 
de cavouqueiro os dois globos túmidos e macios, e nas suas coxas as 
coxas dela; sua alma derreteu-se, fervendo e borbulhando como um 
metal ao fogo, e saiu-lhe pela boca, pelos olhos, por todos os poros do 
corpo, escandescente, em brasa, queimando-lhe as próprias carnes e 
arrancando-lhe gemidos surdos, soluços irreprimíveis, que lhe 
sacudiam os membros, fibra por fibra, numa agonia extrema, 
sobrenatural, uma agonia de anjos violentados por diabos, entre a 
vermelhidão cruenta das labaredas do inferno.
    E com um arranco de besta-fera caíram ambos prostrados, 
arquejando. Ela tinha a boca aberta, a língua fora, os braços duros, os 
dedos inteiriçados, e o corpo todo a tremer-lhe da cabeça aos pés, 
continuamente, como se estivesse morrendo; ao passo que ele, de 
súbito arremessado longe da vida por aquela explosão inesperada dos 
seus sentidos, deixava-se mergulhar numa embriaguez deliciosa, 
através da qual o mundo inteiro e todo o seu passado fugiam como 
sombras fátuas. E, sem consciência de nada que o cercava, nem 
memória de si próprio, sem olhos, sem tino, sem ouvidos, apenas 
conservava em todo o seu ser uma impressão bem clara, viva, 
inextinguível: o atrito daquela carne quente e palpitante, que ele em 
delírio apertou contra o corpo, e que ele ainda sentia latejar-lhe debaixo 
das mãos, e que ele continuava a comprimir maquinalmente, como a 
criança que, já dormindo, afaga ainda as tetas em que matou ao mesmo 
tempo a fome e a sede com que veio ao mundo.



XVI


    A essas horas Piedade de Jesus ainda esperava pelo marido.
    Ouvira, assentada impaciente à porta de sua casa, darem oito 
horas, oito e meia; nove, nove e meia. "Que teria acontecido, Mãe 
Santíssima?... Pois o homem ainda não estava pronto de todo e 
punha-se ao fresco, mal engolira o jantar, para demorar-se daquele 
modo?... Ele que nunca fora capaz de semelhantes tonteiras!..."
    - Dez horas! Valha-me Nosso Senhor Jesus Cristo!
    Foi até o portão da estalagem, perguntou a conhecidos que 
passavam se tinham visto Jerônimo; ninguém dava noticias dele. Saiu, 


[Linha 6000 de 8202 - Parte 4 de 5]


correu à esquina da rua; um silêncio de cansaço bocejava naquele resto 
de domingo; às dez e meia recolheu-se sobressaltada, com o coração a 
sair-lhe pela garganta, o ouvido alerta, para que ela acudisse ao primeiro 
toque na porta; deitou-se sem tirar a saia, nem apagar de todo o 
candeeiro. A ceia frugal de leite fervido e queijo assado com açúcar e 
manteiga ficou intacta sobre a mesa.
    Não conseguiu dormir: trabalhava-lhe a cabeça, afastando para 
longe o sono. Começou a imaginar perigos, rolos, em que o seu homem 
recebia novas navalhadas; Firmo figurava em todas as cenas do delírio; 
em todas elas havia sangue. Afinal, quando, depois de muito virar de 
um para outro lado do colchão, a infeliz ia caindo em modorra, o mais 
leve rumor lá fora a fazia erguer-se de pulo e correr à rótula da janela. 
Mas não era o cavouqueiro, da primeira, nem da segunda, nem de 
nenhuma das vezes.
    Quando principiou a chover, Piedade ficou ainda mais aflita; na 
sua sobreexcitação afigurava-se-lhe agora que o marido estava sobre as 
águas do mar, embarcado, entregue unicamente à proteção da Virgem, 
em meio de um temporal medonho. Ajoelhou-se defronte do oratório e 
rezou com a voz emaranhada por uma agonia sufocadora. A cada 
trovão redobrava o seu sobressalto. E ela, de joelhos, os olhos fitos na 
imagem de Nossa Senhora, sem consciência do tempo que corria, 
arfava soluçando. De repente, ergueu-se, muito admirada de se ver 
sozinha, como se só naquele instante dera pela falta do marido a seu 
lado. Olhou em torno de si, espavorida, com vontade de chorar, de 
pedir socorro; as sombras espichadas em volta do candeeiro, tracejando 
trêmulas pelas paredes e pelo teto, pareciam querer dizer-lhe alguma 
coisa misteriosa. Um par de calças, dependurado à porta do quarto, 
com um paletó e um chapéu por cima, representou-lhe de relance o 
vulto de um enforcado, a mexer com as pernas. Benzeu-se. Quis saber 
que horas eram e não pôde; afigurava-se-lhe terem decorrido já três dias 
pelo menos durante aquela aflição. Calculou que não tardaria a 
amanhecer, se é que ainda amanheceria: se é que aquela noite infernal 
não se fosse prolongando infinitamente, sem nunca mais aparecer o sol! 
Bebeu um copo d'água, bem cheio, apesar de haver pouco antes 
tomado outro, e ficou imóvel, de ouvido atento, na expectativa de 
escutar as horas de algum relógio da vizinhança.
    A chuva diminuíra e os ventos principiavam a soprar com 
desespero. Lá de fora a noite dizia-lhe segredos pelo buraco da 
fechadura e pelas frinchas do telhado e das portas; a cada assobio a 
mísera julgava ver surgir um espectro que vinha contar-lhe a morte de 
Jerônimo. O desejo impaciente de saber que horas eram punha-a doida: 
foi à janela, abriu-a; uma rajada úmida entrou na sala, esfuziando, e 
apagou a luz. Piedade soltou um grito e começou a procurar a caixa de 
fósforos, aos esbarrões, sem conseguir reconhecer os objetos que 
tateava. Esteve a perder os sentidos; afinal achou os fósforos, acendeu 
de novo o candeeiro e fechou a janela. Entrara-lhe um pouco de chuva 
em casa; sentiu a roupa molhada no corpo; tomou um novo copo 
d'água; um calafrio de febre percorreu-lhe a espinha, e ela atirou-se 
para a cama, batendo o queixo, e meteu-se debaixo dos lençóis, a tiritar 
de febre. Veio de novo a modorra, fechou os olhos; mas ergueu-se logo, 


[Linha 6050 de 8202 - Parte 4 de 5]


assentando-se no colchão; parecia-lhe ter ouvido alguém falar lá fora, 
na rua; o calafrio voltou; ela, trêmula, procurava escutar. Se se não 
enganava, distinguira vozes abafadas, conversando, e as vozes eram de 
homem; deixou-se ficar à escuta, concheando a mão atrás da orelha; 
depois ouviu baterem, não na sua porta, mas lá muito mais para diante, 
na casa da das Dores, da Rita, ou da Augusta. "Devia ser o Alexandre 
que voltava do serviço..." Quis ir ter com ele e pedir-lhe notícias de 
Jerôrimo, o calafrio, porém, obrigou-a a ficar debaixo das cobertas.
    Às cinco horas levantou-se de novo com um salto. "Já havia gente 
lá fora com certeza!..." Ouvira ranger a primeira porta; abriu a janela, 
mas ainda estava tão escuro que se não distinguia patavina. Era uma 
preguiçosa madrugada de agosto, nebulosa, úmida; parecia disposta a 
resistir ao dia. "O senhores! aquela noite dos diachos não acabaria 
nunca mais?..." Entretanto, adivinhava-se que ia amanhecer. Piedade 
ouviu dentro do pátio, do lado contrário à sua casa, um zunzum de duas 
vozes cochichando com interesse. "Virgem do céu! dir-se-ia a voz do 
seu homem! e a outra era voz de mulher, credo! Ilusão sua com certeza! 
ela essa noite estava para ouvir o que não se dava..." Mas aqueles 
cochichos dialogados na escuridão causavam-lhe extremo alvoroço. 
"Não! Como poderia ser ele?... Que loucura! se o homem estivesse ali 
teria sem dúvida procurado a casa!..." E os cochichos persistiam, 
enquanto Piedade, toda ouvidos, estalava de agonia.
    - Jeromo! gritou ela.
    As vozes calaram-se logo, fazendo o silêncio completo: depois 
nada mais se ouviu.
    Piedade ficou à janela. As trevas dissolveram-se afinal; uma 
claridade triste formou-se no nascente e foi, a pouco e pouco, se 
derramando pelo espaço. O céu era uma argamassa cinzenta e gorda. O 
cortiço acordava com o remancho das segundas-feiras; ouviam-se os 
pigarros das ressacas de parati. As casinhas abriam-se; vultos 
espreguiçados vinham bocejando fazer a sua lavagem à bica; as 
chaminés principiavam a fumegar; recendia o cheiro do café torrado.
    Piedade atirou um xale em cima dos ombros e saiu ao pátio; a 
Machona, que acabava de aparecer à porta do número 7 com um berro 
para acordar a família de uma só vez, gritou-lhe:
    - Bons dias, vizinha! Seu marido como vai? melhor?
    Piedade soltou um suspiro.
    - Ai, não mo pergunte, S'ora Leandra! 
    - Piorou, filha?
    - Não veio esta noite pra casa...
    - Olha o demo! Como não veio? Onde ficou ele então?
    - Cá está quem não lho sabe responder.
    - Ora já se viu?!
    - Estou com o miolo que é água de bacalhau! Não preguei olho 
durante a noite! Forte desgraça a minha!
    - Teria a ele lhe sucedido alguma?...
    Piedade pôs-se a soluçar, enxugando as lágrimas no xale de lã; ao 
passo que a outra, com a sua voz rouca e forte, que nem o som de uma 
trompa enferrujada, passava adiante a nova de que o Jerônimo não se 
recolhera aquela noite à estalagem.


[Linha 6100 de 8202 - Parte 4 de 5]


    - Talvez voltasse pro hospital... obtemperou Augusta, que lavava 
junto a uma tina a gaiola do seu papagaio.
    - Mas ele ontem veio de muda... contrapôs Leandra.
    - E lá não se entra depois das oito horas da noite, acrescentou 
outra lavadeira.
    E os comentários multiplicavam-se, palpitando de todos os lados, 
numa boa disposição para fazer daquilo o escândalo do dia. Piedade 
respondia friamente às perguntas curiosas que lhe dirigiam as 
companheiras; estava triste e sucumbida; não se lavou, não mudou de 
roupa, não comeu nada, porque a comida lhe crescia na boca e não lhe 
passava da garganta; o que fazia só era chorar e lamentar-se.
    - Forte desgraça a minha! repetia a infeliz a cada instante.
    - Se vais assim, filha, estás bem arranjada! exclamou-lhe a 
Machona, chegando à porta de sua casa a dar dentadas num pão 
recheado de manteiga. Que diabo, criatura! O homem não te morreu, 
pra estares agora ai a carpir desse modo!
    - Sei-o eu lá se me morreu?... disse Piedade entre soluços. Vi 
tanta coisa esta noite!...
    - Ele te apareceu nos sonhos?... perguntou Leandra com 
assombro.
    - Nos sonhos não, que não dormi, mas vi a modos que 
fantasmas...
    E chorava.
    - Ai, credo, filha!
    - Estou desgraçada!
    - Se te apareceram almas, decerto; mas põe a fé em Deus, 
mulher! e não te rales desse modo, que a desgraça pode ser maior! O 
choro puxa muita coisa!
    - Ai, o meu rico homem!
    E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada 
antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de 
uma vaca chamando ao longe, perdida ao cair da noite num lagar 
desconhecido e agreste. Mas o trabalho aquecia já de uma ponta à outra 
da estalagem; ria-se, cantava-se, soltava-se a língua; o formigueiro 
assanhava-se com as compras para o almoço; os mercadores entravam e 
saiam: a máquina de massas principiava a bufar. E Piedade, assentada à 
soleira de sua porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo 
dono, maldizia a hora em que saíra da sua terra, e parecia disposta a 
morrer ali mesmo, naquele limiar de granito, onde ela, tantas vezes, com 
a cabeça encostada ao ombro do seu homem, suspirava feliz, ouvindo 
gemer na guitarra dele os queridos fados de além-mar.
    E Jerônimo não aparecia.
    Ela ergueu-se finalmente, foi lá fora ao capinzal, pôs-se a andar 
agitada, falando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de 
desespero, quando levantava para o céu os punhos fechados, dir-se-ia 
que não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquela 
amaldiçoada luz alucinadora, contra aquele sol crapuloso, que fazia 
ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode. 
Parecia rebelar-se contra aquela natureza alcoviteira, que lhe roubara o 
seu homem para dá-lo a outra, porque a outra era gente do seu peito e 


[Linha 6150 de 8202 - Parte 4 de 5]


ela não.
    E maldizia soluçando a hora em que saíra da sua terra; essa boa 
terra cansada, velha como que enferma; essa boa terra tranqüila, sem 
sobressaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios 
e melancólicos, de um verde alourado e quieto, e não ardentes e 
esmeraldinos e afogados em tanto sol e em tanto perfume como o deste 
inferno, onde em cada folha que se pisa há debaixo um réptil venenoso, 
como em cada flor que desabotoa e em cada moscardo que adeja há um 
vírus de lascívia. Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouvia em 
noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã, ao 
romper do dia, rilhava o bando truculento das queixadas; lá não varava 
pelas florestas a anta feia e terrível, quebrando árvores; lá a sucuruju 
não chocalhava a sua campainha fúnebre, anunciando a morte, nem a 
coral esperava traidora o viajante descuidado para lhe dar o bote 
certeiro e decisivo; lá o seu homem não seria anavalhado pelo ciúme de 
um capoeira; lá Jerônimo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e 
meigo; seria o mesmo lavrador triste e contemplativo, como o gado que 
à tarde levanta para o céu de opala o seu olhar humilde, compungido e 
bíblico.
    Maldita a hora em que ela veio! Maldita! mil vezes maldita!
    E tornando à casa, Piedade ainda mais se enraivecia, porque ali 
defronte, no número 9, a mulata baiana, a dançadeira de chorado, a 
cobra assanhada, cantava alegremente, chegando de vez em quando à 
janela para vir soprar fora a cinza da fornalha do seu ferro de engomar, 
olhando de passagem para a direita e para a esquerda, a afetar 
indiferença pelo que não era de sua conta, e desaparecendo logo, sem 
interromper a cantiga, muito embebida no seu serviço. Ah! essa não fez 
comentários sobre o estranho procedimento de mestre Jerônimo, nem 
mesmo quis ouvir noticias dele; pouco arredou o pé de dentro de casa e, 
nesse pouco que saiu, foi às pressas e sem dar trela a ninguém.
    Nada! que as penas e desgostos não punham a panela no fogo!
    Entretanto, ah! ah! ela estava bem preocupada. Apesar do alívio 
que lhe trouxera ao espírito a morte do Firmo e a despeito do seu 
contentamento de passar por uma vez aos braços do cavouqueiro, um 
sobressalto vago e opressivo esmagava-lhe o coração e matava-a de 
impaciência por atirar-se à procura de noticias sobre as ocorrências da 
noite; tanto assim que, às onze horas, mel percebeu que Piedade, depois 
de esperar em vão pelo marido, saia aflita em busca dele, disposta a ir 
ao hospital, à polícia, ao necrotério, ao diabo, contanto que não voltasse 
sem algum esclarecimento, ela atirou logo o trabalho p'ro canto, enfiou 
uma saia, cruzou o xale no ombro, e ganhou o mundo, também disposta 
a não voltar sem saber tintim por tintim o que havia de novo.
    Foi cada uma para seu lado e só voltaram à tarde, quase ao mesmo 
tempo, encontrando o cortiço cheio já e assanhado com a noticia da 
morte do Firmo e do terrível efeito que esta causara no 
"Cabeça-de-Gato", onde o crime era atribuído aos carapicus, contra os 
quais juravam-se extremas vinganças de desafronta. Soprava de lá, 
rosnando, um hálito morno de cólera malsofrida e sequiosa que crescia 
com a aproximação da noite e parecia sacudir no ar, ameaçadoramente, 
a irrequieta flâmula amarela.


[Linha 6200 de 8202 - Parte 4 de 5]


    O sol descambava para o ocaso, indefeso, e nu, tingindo o céu de 
uma vermelhidão pressaga e sinistra.
    Piedade entrou carrancuda na estalagem; não vinha triste, vinha 
enfurecida; soubera na rua a respeito do marido mais do que esperava. 
Soubera em primeiro lugar que ele estava vivo, perfeitamente vivo, pois 
fora visto aquele mesmo dia, mais de uma vez, no Garnisé e na Praia da 
Saudade, a vagar macambúzio; soubera, por intermédio de um 
rondante amigo de Alexandre, que Jerônimo surgira de manhãzinha do 
capinzal perto da pedreira de João Romão, o que fazia crer viesse ele 
naquele momento de casa, saindo pelos fundos do cortiço; soubera 
ainda que o cavouqueiro fora à Ordem buscar a sua caixa de roupa e 
que, na véspera, estivera a beber à farta na venda do Pepé, de súcia com 
o Zé Carlos e com o Pataca, e que depois seguiram para os lados da 
praia, todos três mais ou menos no gole. Sem a menor desconfiança do 
crime, a desgraçada ficou convencida de que o marido não se recolhera 
aquela noite à casa, porque ficara em grossa pândega com os amigos e 
que, voltando tarde e bêbedo, dera-lhe para meter-se com a mulata, que 
o aceitou logo. "Pudera! Pois se havia muito a deslambida não queria 
outra coisa!..." Com esta convicção inchou-lhe de súbito por dentro um 
novelo de ciúmes, e ela correu incontinenti para a estalagem, certa de 
que iria encontrar o homem e despejaria contra ele aquela tremenda 
tempestade de ressentimentos e despeitos acumulados, que 
ameaçavam sufocá-la se não rebentassem de vez. Atravessou o cortiço 
sem dar palavra a ninguém e foi direito à casa; contava encontrá-la 
aberta e a sua decepção foi cruel ao vê-la fechada como a deixara. 
Pediu a chave à Machona, que, ao entregá-la, inquiriu sobre Jerônimo e 
pespegou-lhe ao mesmo tempo a noticia do assassinato de Firmo.
    Com esta nova é que Piedade não contava. Ficou lívida; um 
pavoroso pressentimento varou-lhe o espírito como um raio. Afastou-se 
logo, com medo de falar, e foi trêmula e ofegante que abriu a porta e 
meteu-se no número 35.
    Atirou-se a uma cadeira. Estava morta de cansaço; não tinha 
comido nada esse dia e não sentia fome; a cabeça andava-lhe à roda, as 
pernas pareciam-lhe de chumbo.
    Seria ele?!... interrogou a si própria.
    E os raciocínios começaram a surdir-lhe em massa, ensarilhados, 
atropelando-lhe a razão. Não conseguia coordená-los; entre todas uma 
idéia insubordinava-se com mais teima, a perturbar as outras, ficando 
superior, como uma carta maior que o resto do baralho: "Se ele matou o 
Firmo, dormiu na estalagem e não veio ter comigo, é porque então 
deixou-me de feita pela Rita!"
    Tentou fugir a semelhante hipótese; repeliu-a indignada. Não! não 
era possível que o Jerônimo, seu marido de tanto tempo, o pai de sua 
filha, um homem a quem ela nunca dera razão de queixa e a quem 
sempre respeitara e quisera com o mesmo carinho e com a mesma 
dedicação, a abandonasse de um momento para outro; e por quem?! por 
uma não-sei-que-diga! um diabo de uma mulata assanhada, que tão 
depressa era de Pedro como de Paulo! uma sirigaita, que vivia mais para 
a folia do que para o trabalho! uma peste, que... Não! Qual! Era lá 
possível?! Mas então por que ele não viera?... por que não vinha?... por 


[Linha 6250 de 8202 - Parte 4 de 5]


que não dava noticias suas?... por que fora pela manhã à Ordem buscar 
a caixa da roupa?...
    O Roberto Papa-Defuntos dissera-lhe que o encontrara às duas da 
tarde ali perto, ao dobrar da Rua Bambina, e que até pararam um 
instante para conversar. Com mais alguns passos chegado à casa! Seria 
possível, santos do céu! que o seu homem estivesse disposto a nunca 
mais tornar para junto dela?
    Nisto entrou a outra, acompanhada por um pequeno descalço. 
Vinha satisfeita; estivera com Jerônimo, jantaram juntos, numa casa de 
pasto; ficara tudo combinado; arranjara-se o ninho. Não se mudaria 
logo para não dar que falar na estalagem, mas levaria alguma roupa e os 
objetos mais indispensáveis e que não dessem na vista por ocasião do 
transporte. Voltaria no dia seguinte ao cortiço, onde continuaria a 
trabalhar; à noite iria ter com o novo amante, e, no fim de uma semana 
- zás! fazia-se a mudança completa, e adeus coração! - Por aqui é o 
caminho! O cavouqueiro, pelo seu lado, mandaria uma carta a João 
Romão, despedindo-se do seu serviço, e outra à mulher, dizendo com 
boas palavras que, por uma dessas fatalidades de que nenhuma criatura 
está livre, deixava de viver em companhia dela, mas que lhe conservaria 
a mesma estima e continuaria a pagar o colégio da filha; e, feito isto, 
pronto! entraria em vida nova, senhor da sua mulata, livres e sozinhos, 
independentes, vivendo um para o outro, numa eterna embriaguez de 
gozos.
    Mas, na ocasião em que a baiana, seguida pelo pequeno, passava 
defronte da porta de Piedade, esta deu um salto da cadeira e gritou-lhe:
    - Faz favor?
    - Que é? resmungou Rita, parando sem voltar senão o rosto, e já 
a dizer no seu todo de impaciência que não estava disposta a muita 
conversa.
    - Diga-me uma coisa, inquiriu aquela; você muda-se?
    A mulata não contava com semelhante pergunta, assim à 
queima-roupa; ficou calada sem achar o que responder.
    - Muda-se, não é verdade? insistiu a outra, fazendo-se vermelha.
    - E o que tem você com isso? Mude-me ou não, não lhe tenho de 
dar satisfações! Meta-se com a sua vida! Ora esta!
    - Com a minha vida é que te meteste tu, cigana! exclamou a 
portuguesa, sem se conter e avançando para a porta com ímpeto.
    - Hein?! Repete, cutruca ordinária! berrou a mulata, dando um 
passo em frente.
    - Pensas que já não sei de tudo? Maleficiaste-me o homem e 
agora carregas-me com ele! Que a má coisa te saiba, cabra do inferno! 
Mas deixa estar que hás de amargar o que o diabo não quis! quem to 
jura sou eu!
    - Pula cá pra fora, perua choca, se és capaz!
    Em torno de Rita já o povaréu se reunia alvoroçado; as lavadeiras 
deixaram logo as tinas e vinham, com os braços nus, cheios de espuma 
de sabão, estacionar ali ao pé, formando roda, silenciosas, sem 
nenhuma delas querer meter-se no barulho. Os homens riam e atiravam 
chufas às duas contendoras, como sucedia sempre quando no cortiço 
qualquer mulher se disputava com outra.


[Linha 6300 de 8202 - Parte 4 de 5]


    - Isca! Isca! gritavam eles.
    Ao desafio da mulata, Piedade saltara ao pátio, armada com um 
dos seus tamancos. Uma pedrada recebeu-a em caminho, rachando-lhe 
a pele do queixo, ao que ela respondeu desfechando contra a adversária 
uma formidável pancada na cabeça.
    E pegaram-se logo a unhas e dentes.
    Por algum tempo lutaram de pé, engalfinhadas, no meio de grande 
algazarra dos circunstantes. João Romão acudiu e quis separá-las; todos 
protestaram. A família do Miranda assomou à janela, tomando ainda o 
café de depois do jantar, indiferente, já habituada àquelas cenas. Dois 
partidos todavia se formavam em torno das lutadoras; quase todos os 
brasileiros eram pela Rita e quase todos os portugueses pela outra. 
Discutia-se com febre a superioridade de cada qual delas; rebentavam 
gritos de entusiasmo a cada mossa que qualquer das duas recebia; e 
estas, sem se desunharem, tinham já arranhões e mordeduras por todo o 
busto.
    Quando menos se esperava, ouviu-se um baque pesado e viu-se 
Piedade de bruços no chão e a Rita por cima, escarranchada sobre as 
suas largas ancas, a socar-lhe o cachaço de murros contínuos, 
desgrenhada, rota, ofegante, os cabelos caldos sobre a cara, gritando 
vitoriosa, com a boca correndo sangue:
    - Toma pro teu tabaco! Toma, galinha podre! Toma, pra não te 
meteres comigo! Toma! Toma, baiacu da praia!
    Os portugueses precipitaram-se para tirar Piedade de debaixo da 
mulata. Os brasileiros opuseram-se ferozmente.
    - Não pode!
    - Enche!
    - Não deixa!
    - Não tira!
    - Entra! Entra!
    E as palavras "galego" e "cabra" cruzaram-se de todos os pontos, 
como bofetadas. Houve um vavau rápido e surdo, e logo em seguida 
um formidável rolo, um rolo a valer, não mais de duas mulheres, mas de 
uns quarenta e tantos homens de pulso, rebentou como um terremoto. 
As cercas e os jiraus desapareceram do chão e estilhaçaram-se no ar, 
estalando em descarga; ao passo que numa berraria infernal, num 
fecha-fecha de formigueiro em guerra, aquela onda viva ia arrastando o 
que topava no caminho; barracas e tinas, baldes, regadores e caixões de 
planta, tudo rolava entre aquela centena de pernas confundidas e 
doidas. Das janelas do Miranda apitava-se com fúria; da rua, em todo o 
quarteirão, novos apitos respondiam; dos fundos do cortiço e pela 
frente surgia povo e mais povo. O pátio estava quase cheio; ninguém 
mais se entendia; todos davam e todos apanhavam; mulheres e crianças 
berravam. João Romão, clamando furioso, sentia-se impotente para 
conter semelhantes demônios. "Fazer rolo aquela hora, que 
imprudência!" Não conseguiu fechar as portas da venda, nem o portão 
da estalagem; guardou às pressas na barra o que havia em dinheiro na 
gaveta, e, armando-se com uma tranca de ferro, pôs-se de sentinela às 
prateleiras, disposto a abrir o casco ao primeiro que se animasse a 
saltar-lhe o balcão. Bertoleza, lá dentro na cozinha, aprontava uma 


[Linha 6350 de 8202 - Parte 4 de 5]


grande chaleira de água quente, para defender com ela a propriedade 
do seu homem. E o rolo a ferver lá fora, cada vez mais inflamado com 
um terrível sopro de rivalidade nacional. Ouviam-se, num clamor de 
pragas e gemidos, vivas a Portugal e vivas ao Brasil. De vez em quando, 
o povaréu, que continuava a crescer, afastava-se em massa, rugindo de 
medo, mas tornava logo, como a onda no refluxo dos mares. A polícia 
apareceu e não se achou com animo de entrar, antes de vir um reforço 
de praças, que um permanente fora buscar a galope.
    E o rolo fervia.
    Mas, no melhor da lata, ouvia-se na rua um coro de vozes que se 
aproximavam das bandas do "Cabeça-de-Gato". Era o canto de guerra 
dos capoeiras do outro cortiço, que vinham dar batalha aos carapicus, 
pra vingar com sangue a morte de Firmo, seu chefe de malta.



XVII


    Mal os carapicus sentiram a aproximação dos rivais, um grito de 
alarma ecoou por toda a estalagem e o rolo dissolveu-se de improviso, 
sem que a desordem cessasse. Cada qual correu à casa, rapidamente, 
em busca do ferro, do pau e de tudo que servisse para resistir e para 
matar. Um só impulso os impelia a todos; já não havia ali brasileiros e 
portugueses, havia um só partido que ia ser atacado pelo partido 
contrário; os que se batiam ainda há pouco emprestavam armas uns aos 
outros, limpando com as costas das mãos o sangue das feridas. 
Agostinho, encostado ao lampião do meio do cortiço, cantava em altos 
berros uma coisa que lhe parecia responder à música bárbara que 
entoavam lá fora os inimigos; a mãe dera-lhe licença, a pedido dele, 
para pôr um cinto de Nenen, em que o pequeno enfiou a faca da 
cozinha. Um mulatinho franzino, que até ai não fora notado por 
ninguém no São Romão, postou-se defronte da entrada, de mãos 
limpas, à espera dos invasores; e todos tiveram confiança nele porque o 
ladrão, além de tudo, estava rindo.
    Os cabeças-de-gato assomaram afinal ao portão. Uns cem 
homens, em que se não via a arma que traziam. Porfiro vinha na frente, 
a dançar, de braços abertos, bamboleando o corpo e dando rasteiras 
para que ninguém lhe estorvasse a entrada. Trazia o chapéu à ré, com 
um laço de fita amarela flutuando na copa.
    - Agüenta! Agüenta! Faz frente! clamavam de dentro os 
carapicus.
    E os outros, cantando o seu hino de guerra, entraram e 
aproximaram-se lentamente, a dançar como selvagens.
    As navalhas traziam-nas abertas e escondidas na palma da mão.
    Os carapicus enchiam a metade do cortiço. Um silêncio arquejado 
sucedia à estrepitosa vozeria do rolo que findara. Sentia-se o hausto 
impaciente da ferocidade que atirava aqueles dois bandos de capoeiras 
um contra o outro. E, no entanto, o sol, único causador de tudo aquilo, 
desaparecia de todo nos limbos do horizonte, indiferente, deixando 


[Linha 6400 de 8202 - Parte 4 de 5]


atrás de si as melancolias do crepúsculo, que é a saudade da terra 
quando ele se ausenta, levando consigo a alegria da luz e do calor.
    Lá na janela do Barão, o Botelho, entusiasmado como sempre por 
tudo que lhe cheirava a guerra, soltava gritos de aplauso e dava brados 
de comando militar.
    E os cabeças-de-gato aproximavam-se cantando, a dançar, 
rastejando alguns de costas para o chão, firmados nos pulsos e nos 
calcanhares.
    Dez carapicus saíram em frente; dez cabeças-de-gato se alinharam 
defronte deles.
    E a batalha principiou, não mais desordenada e cega, porém com 
método, sob o comando de Porfiro que, sempre a cantar ou assoviar, 
saltava em todas as direções, sem nunca ser alcançado por ninguém.
    Desferiram-se navalhas contra navalhas, jogaram-se as cabeçadas 
e os voa-pés. Par a par, todos os capoeiras tinham pela frente um 
adversário de igual destreza que respondia a cada investida com um 
salto de gato ou uma queda repentina que anulava o golpe. De parte a 
parte esperavam que o cansaço desequilibrasse as forças, abrindo furo à 
vitória; mas um fato veio neutralizar inda uma vez a campanha: imenso 
rebentão de fogo esgargalhava-se de uma das casas do fundo, o 
número 88. E agora o incêndio era a valer.
    Houve nas duas maltas um súbito espasmo de terror. 
Abaixaram-se os ferros e calou-se o hino de morte. Um clarão tremendo 
ensangüentou o ar, que se fechou logo de fumaça fulva.
    A Bruxa conseguira afinal realizar o seu sonho de louca: o cortiço 
ia arder; não haveria meio de reprimir aquele cruento devorar de 
labaredas. Os cabeças-de-gato, leais nas suas justas de partido, 
abandonaram o campo, sem voltar o rosto, desdenhosos de aceitar o 
auxilio de um sinistro e dispostos até a socorrer o inimigo, se assim 
fosse preciso. E nenhum dos carapicus os feriu pelas costas. A luta 
ficava para outra ocasião. E a cena transformou-se num relance; os 
mesmos que barateavam tão facilmente a vida, apressavam-se agora a 
salvar os miseráveis bens que possuíam sobre a terra. Fechou-se um 
entra-e-sai de maribondos defronte daquelas cem casinhas ameaçadas 
pelo fogo. Homens e mulheres corriam de cá para lá com os tarecos ao 
ombro, numa balbúrdia de doidos. O pátio e a rua enchiam-se agora de 
camas velhas e colchões espocados. Ninguém se conhecia naquela 
zumba de gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas 
arrancadas pela dor e pelo desespero. Da casa do Barão saiam clamores 
apopléticos; ouviam-se os guinchos de Zulmira que se espolinhava com 
um ataque. E começou a aparecer água. Quem a trouxe? Ninguém sabia 
dizê-lo; mas viam-se baldes e baldes que se despejavam sobre as 
chamas.
    Os sinos da vizinhança começaram a badalar.
    E tudo era um clamor.
    A Bruxa surgiu à janela da sua casa, como à boca de uma fornalha 
acesa. Estava horrível; nunca fora tão bruxa. O seu moreno trigueiro, de 
cabocla velha, reluzia que nem metal em brasa; a sua crina preta, 
desgrenhada, escorrida e abundante como as das éguas selvagens, 
dava-lhe um caráter fantástico de fúria saída do inferno. E ela ria-se, 


[Linha 6450 de 8202 - Parte 4 de 5]


ébria de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, vitoriosa no 
meio daquela orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em 
segredo a sua alma extravagante de maluca.
    Ia atirar-se cá para fora, quando se ouviu estalar o madeiramento 
da casa incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca num 
montão de brasas.
    Os sinos continuavam a badalar aflitos. Surgiam aguadeiros com 
as suas pipas em carroça, alvoroçados, fazendo cada qual maior 
empenho em chegar antes dos outros e apanhar os dez mil-réis da 
gratificação. A polícia defendia a passagem ao povo que queria entrar. 
A rua lá fora estava já atravancada com o despojo de quase toda a 
estalagem. E as labaredas iam galopando desembestadas para a direita 
e para a esquerda do número 88. Um papagaio, esquecido à parede de 
uma das casinhas e preso à gaiola, gritava furioso, como se pedisse 
socorro.
    Dentro de meia hora o cortiço tinha de ficar em cinzas. Mas um 
fragor de repiques de campainhas e estridente silvar de válvulas encheu 
de súbito todo o quarteirão, anunciando que chegava o corpo dos 
bombeiros.
    E logo em seguida apontaram carros à desfilada, e um bando de 
demônios de blusa clara, armados uns de archotes e outros de 
escadilhas de ferro, apoderaram-se do sinistro, dominando-o 
incontinenti, como uma expedição mágica, sem uma palavra, sem 
hesitações e sem atropelos. A um só tempo viram-se fartas mangas 
d'água chicoteando o fogo por todos os lados; enquanto, sem se saber 
como, homens, mais ágeis que macacos, escalavam os telhados 
abrasados por escadas que mal se distinguiam; e outros invadiam o 
coração vermelho do incêndio, a dardejar duchas em torno de si, 
rodando, saltando, piruetando, até estrangularem as chamas que se 
atiravam ferozes para cima deles, como dentro de um inferno; ao passo 
que outros, cá de fora, imperturbáveis, com uma limpeza de máquina 
moderna, fuzilavam de água toda a estalagem, número por número, 
resolvidos a não deixar uma só telha enxuta.
    O povo aplaudia-os entusiasmado, já esquecido do desastre e só 
atenção para aquele duelo contra o incêndio. Quando um bombeiro, de 
cima do telhado, conseguiu sufocar uma ninhada de labaredas, que 
surgia defronte dele, rebentou cá debaixo uma roda de palmas, e o 
herói voltou-se para a multidão, sorrindo e agradecendo.
    Algumas mulheres atiravam-lhe beijos, entre brados de ovação.


XVIII


    Por esse tempo, o amigo de Bertoleza, notando que o velho 
Libório, depois de escapar de morrer na confusão do incêndio, fugia 
agoniado para o seu esconderijo, seguiu-o com disfarce e observou que 
o miserável, mal deu luz à candeia, começou a tirar ofegante alguma 
coisa do seu colchão imundo.
    Eram garrafas. Tirou a primeira, a segunda, meia dúzia delas. 


[Linha 6500 de 8202 - Parte 4 de 5]


Depois puxou às pressas a coberta do catre e fez uma trouxa. Ia de novo 
ganhar a saída, mas soltou um gemido surdo e caiu no chão sem força, 
arrevessando uma golfada de sangue e cingindo contra o peito o 
misterioso embrulho.
    João Romão apareceu, e ele, assim que o viu, redobrou de aflição e 
torceu-se todo sobre as garrafas, defendendo-as com o corpo inteiro, a 
olhar aterrado e de esguelha para o seu interventor, como se dera cara a 
cara com um bandido. E, a cada passo que o vendeiro adiantava, o 
tremor e o sobressalto do velho recresciam, tirando-lhe da garganta 
grunhidos roucos de animal batido e assustado. Duas vezes tentou 
erguer-se; duas vezes rolou por terra moribundo. João Romão 
objurgou-lhe que qualquer demora ali seria morte certa: o incêndio 
avançava. Quis ajudá-lo a carregar o fardo. Libório, por única resposta, 
arregaçou os beiços, mostrando as gengivas sem dentes e tentando 
morder a mão que o vendeiro estendia já sobre as garrafas.
    Mas, lá de cima, a ponta de uma língua; de fogo varou o teto e 
iluminou de vermelho a miserável pocilga. Libório tentou ainda um 
esforço supremo, e nada pôde, começando a tremer da cabeça aos pés, 
a tremer, a tremer, grudando-se cada vez mais à sua trouxa, e já 
estrebuchava, quando o vendeiro lha arrancou das garras com 
violência. Também era tempo, porque, depois de insinuar a língua; o 
fogo mostrou a boca e escancarou afinal a goela devoradora.
    O tratante fugiu de carreira, abraçado à sua presa, enquanto o 
velho, sem conseguir pôr-se de pé, rastreava na pista dele, 
dificultosamente, estrangulado de desespero senil, já sem fala, 
rosnando uns vagidos de morte, os olhos turvos, todo ele roxo, os 
dedos enriçados como as unhas de abutre ferido.
    João Romão atravessou o pátio de carreira e meteu-se na sua toca 
para esconder o furto. Ao primeiro exame, de relance, reconheceu logo 
que era dinheiro em papel o que havia nas garrafas. Enterrou a trouxa na 
prateleira de um armário velho cheio de frascos e voltou lá fora para 
acompanhar o serviço dos bombeiros.
    À meia-noite estava já completamente extinto o fogo e quatro 
sentinelas rondavam a ruína das trinta e tantas casinhas que arderam. O 
vendeiro só pôde voltar à trouxa das garrafas às cinco horas da manhã, 
quando Bertoleza, que fizera prodígios contra o incêndio, passava pelo 
sono, encostada na cama, com a saia ainda encharcada de água, o corpo 
cheio de pequenas queimaduras. Verificou que as garrafas eram oito e 
estavam cheias até à boca de notas de todos os valores, que ai foram 
metidas, uma a uma, depois de cuidadosamente enroladas e dobradas à 
moda de bilhetes de rifa. Receoso, porém, de que a crioula não 
estivesse bem adormecida e desse pela coisa, João Romão resolveu 
adiar para mais tarde a contagem do dinheiro e guardou o tesouro 
noutro lugar mais seguro.
    No dia seguinte a polícia averiguou os destroços do incêndio e 
mandou proceder logo ao desentulho, para retirar os cadáveres que 
houvesse.
    Rita desaparecera da estalagem durante a confusão da noite; 
Piedade caíra de cama, com um febrão de quarenta graus; a Machona 
tinha uma orelha rachada e um pé torcido; a das Dores a cabeça partida; 


[Linha 6550 de 8202 - Parte 4 de 5]


o Bruno levara uma navalhada na coxa; dois trabalhadores da pedreira 
estavam gravemente feridos; um italiano perdera dois dentes da frente, 
e uma filhinha da Augusta Carne-Mole morrera esmagada pelo povo. E 
todos, todos se queixavam de danos recebidos e revoltaram-se contra 
os rigores da sorte. O dia passou-se inteiro na computação dos prejuízos 
e a dar-se balanço no que se salvara do incêndio. Sentia-se um fartum 
aborrecido de estorrilho e cinza molhada. Um duro silêncio de 
desconsolo embrutecia aquela pobre gente. Vultos sombrios, de mãos 
cruzadas atrás, permaneciam horas esquecidas, a olhar imóveis os 
esqueletos carbonizados e ainda úmidos das casinhas queimadas. Os 
cadáveres da Bruxa e do Libório foram carregados para o meio do 


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O Cortiço - Parte 5 de 5 - Aluísio Azevedo
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...


O Cortiço - Parte 1 de 5 - Aluísio Azevedo
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O Cortiço - Parte 2 de 5 - Aluísio Azevedo
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