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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Cortiço - Parte 5 de 5 - Aluísio Azevedo


O Cortiço - Parte 5 de 5 - Aluísio Azevedo

O Cortiço - Aluísio Azevedo





Pátio, disformes, horrorosos, e jaziam entre duas velas acesas, ao 
relento, à espera do carro da Misericórdia. Entrava gente da rua para os 
ver; descobriam-se defronte deles, e alguns curiosos lançavam 
piedosamente uma moeda de cobre no prato que, aos pés dos dois 
defuntos, recebia a esmola para a mortalha. 

(SEGUE ABAIXO A PARTE FINAL DESTA OBRA COMPLETA)



Em casa de Augusta, sobre uma mesa coberta por uma cerimoniosa toalha de rendas, estava o 
cadaverzinho da filha morta, todo enfeitado de flores, com um Cristo 
de latão à cabeceira e dois círios que ardiam tristemente. Alexandre, 
assentado a um canto da sala, com o rosto escondido nas mãos, 
chorava, aguardando o pêsame das visitas; fardara-se, só para isso, com 
o seu melhor uniforme, coitado!
    O enterro da pequenita foi feito à custa de Léonie, que apareceu às 
três da tarde, vestida de cetineta cor de creme, num carrinho dirigido 
por um cocheiro de calção de flanela branca e libré agaloada de ouro.
    O Miranda apresentou-se na estalagem logo pela manhã, o ar 
compungido, porém superior. Deu um ligeiro abraço em João Romão, 
falou-lhe em voz baixa, lamentando aquela catástrofe, mas felicitou-o 
porque tudo estava no seguro.
    O vendeiro, com efeito, impressionado com a primeira tentativa 
de incêndio, tratara de segurar todas as suas propriedades; e, com 
tamanha inspiração o fez que, agora, em vez de lhe trazer o fogo 
prejuízo, até lhe deixaria lucros.
    - Ah, ah, meu caro! Cautela e caldo de galinha nunca fizeram 
mal a doente!... segredou o dono do cortiço, a rir. Olhe, aqueles é que 
com certeza não gostaram da brincadeira! acrescentou, apontando para 
o lado em que maior era o grupo dos infelizes que tomavam conta dos 
restos de seus tarecos atirados em montão.
    - Ah, mas esses, que diabo! nada têm que perder!... considerou o 
outro.
    E os dois vizinhos foram até o fim do pátio, conversando em voz 
baixa.
    - Vou reedificar tudo isto! declarou João Romão, com um gesto 
enérgico que abrangia toda aquela Babilônia desmantelada.
    E expôs o seu projeto: tencionava alargar a estalagem, entrando 
um pouco pelo capinzal. Levantaria do lado esquerdo, encostado ao 
muro do Miranda, um novo correr de casinhas, aproveitando assim 
parte do pátio, que não precisava ser tão grande; sobre as outras 
levantaria um segundo andar, com uma longa varanda na frente toda 
gradeada. Negociozinho para ter ali, a dar dinheiro, em vez de um 


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centena de cômodos, nada menos de quatrocentos a quinhentos, de 
doze a vinte e cinco mil-réis cada um!
    Ah! ele havia de mostrar como se fazem as coisas bem feitas.
    O Miranda escutava-o calado, fitando-o com respeito.
    - Você é um homem dos diabos! disse afinal, batendo-lhe no 
ombro.
    E, ao sair de lá, no seu coração vulgar de homem que nunca 
produziu e levou a vida, como todo o mercador, a explorar a boa-fé de 
uns e o trabalho intelectual de outros, trazia uma grande admiração pelo 
vizinho. O que ainda lhe restava da primitiva inveja transformou-se 
nesse instante num entusiasmo ilimitado e cego.
    - É um filho da mãe! resmungava ele pela rua, em caminho do 
seu armazém. É de muita força! Pena é estar metido com a peste 
daquela crioula! Nem sei como um homem tão esperto caiu em 
semelhante asneira!
    Só lá pelas dez e tanto da noite foi que João Romão, depois de 
certificar-se de que Bertoleza ferrara num sono de pedra, resolveu dar 
balanço às garrafas de Libório. O diabo é que ele também quase que 
não se agüentava nas pernas e sentia os olhos a fecharem-se-lhe de 
cansaço. Mas não podia sossegar sem saber quanto ao certo apanhara 
do avarento.
    Acendeu uma vela, foi buscar a imunda e preciosa trouxa, e 
carregou com esta para a casa de pasto ao lado da cozinha.
    Depôs tudo sobre uma das mesas, assentou-se, e principiou a 
tarefa. Tomou a primeira garrafa, tentou despejá-la, batendo-lhe no 
fundo; foi-lhe, porém, necessário extrair as notas, uma por uma, porque 
estavam muito socadas e peganhentas de bolor. À proporção que as 
fisgava, ia logo as desenrolando e estendendo cuidadosamente em 
maço, depois de secar-lhes a umidade no calor das mãos e da vela. E o 
prazer que ele desfrutava neste serviço punha-lhe em jogo todos os 
sentidos e afugentava-lhe o sono e as fadigas. Mas, ao passar à segunda 
garrafa, sofreu uma dolorosa decepção: quase todas as cédulas estavam 
já prescritas pelo Tesouro; veio-lhe então o receio de que a melhor parte 
do bolo se achasse inutilizada: restava-lhe todavia a esperança de que 
fosse aquela garrafa a mais antiga de todas e a pior por conseguinte.
    E continuou com mais ardor o seu delicioso trabalho.
    Tinha já esvaziado seis, quando notou que a vela, consumida até o 
fim, bruxuleava a extinguir-se; foi buscar outra nova e viu ao mesmo 
tempo que horas eram. "Oh! como a noite correra depressa!..." Três e 
meia da madrugada. "Parecia impossível!" "
    Ao terminar a contagem, as primeiras carroças passavam lá fora na 
rua.
    - Quinze contos, quatrocentos e tantos mil-réis!... disse João 
Romão entre dentes, sem se fartar de olhar para as pilhas de cédulas 
que tinha defronte dos olhos.
    Mais oito contos e seiscentos eram em notas já prescritas. E o 
vendeiro, à vista de tão bela soma, assim tão estupidamente 
comprometida, sentiu a indignação de um roubado. Amaldiçoou 
aquele maldito velho Libório por tamanho relaxamento; amaldiçoou o 
governo porque limitava, com intenções velhacas, o prazo da circulação 


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dos seus títulos; chegou até a sentir remorsos por não se ter apoderado 
do tesouro do avarento, logo que este, um dos primeiros moradores do 
cortiço, lhe apareceu com o colchão às costas, a pedir chorando que lhe 
dessem de esmola um cantinho onde ele se metesse com sua miséria. 
João Romão tivera sempre uma vidente cobiça sobre aquele dinheiro 
engarrafado; fariscara-o desde que fitou de perto os olhinhos vivos e 
redondos do abutre decrépito, e convenceu-se de todo, notando que o 
miserável dava pronto sumiço a qualquer moedinha que lhe caia nas 
garras.
    - Seria um ato de justiça! concluiu João Romão; pelo menos seria 
impedir que todo este pobre dinheiro apodrecesse tão barbaramente!
    Ora adeus! mas sete ricos continhos quase inteiros ficavam-lhe nas 
unhas. "E depois, que diabo! os outros assim mesmo haviam de ir com 
jeito... Hoje impingiam-se dois mil-réis, amanhã cinco. Não nas 
compras, mas nos trocos... Por que não? Alguém reclamaria, mas 
muitos engoliriam a bucha... Para isso não faltavam estrangeiros e 
caipiras!... E demais, não era crime!... Sim! se havia nisso ladroeira, 
queixassem-se do governo! o governo é que era o ladrão!"
    - Em todo caso, rematou ele, guardando o dinheiro bom e mau e 
dispondo-se a descansar; isto já serve para principiar as obras! Deixem 
estar, que daqui a dias eu lhes mostrarei para quanto presto!



XIX


    Daí a dias, com efeito, a estalagem metia-se em obras. À 
desordem do desentulho do incêndio sucedia a do trabalho dos 
pedreiros; martelava-se ali de pela manhã até à noite, o que aliás não 
impedia que as lavadeiras continuassem a bater roupa e as 
engomadeiras reunissem ao barulho das ferramentas o choroso falsete 
das suas eternas cantigas.
    Os que ficaram sem casa foram aboletados a trouxe e mouxe por 
todos os cantos, à espera dos novos cômodos. Ninguém se mudou para 
o "Cabeça-de-Gato".
    As obras principiaram pelo lado esquerdo do cortiço, o lado do 
Miranda; os antigos moradores tinham preferência e vantagens nos 
preços. Um dos italianos feridos morreu na Misericórdia e o outro, 
também lá, continuava ainda em risco de vida. Bruno recolhera-se à 
Ordem de que era irmão, e Leocádia, que não quis atender àquela carta 
escrita por Pombinha, resolveu-se a ir visitar o seu homem no hospital. 
Que alegrão para o infeliz a volta da mulher, aquela mulher levada dos 
diabos, mas de carne dura, a quem ele, apesar de tudo, queria muito. 
Com a visita reconciliaram-se, chorando ambos, e Leocádia decidiu 
tornar para o São Romão e viver de novo com o marido. Agora fazia-se 
muito séria e ameaçava com pancada a quem lhe propunha brejeirices.
    Piedade, essa e que se levantou das febres completamente 
transformada. Não parecia a mesma depois do abandono de Jerônimo; 
emagrecera em extremo, perdera as cores do rosto, ficara feia, triste e 


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resmungona; mas não se queixava, e ninguém lhe ouvia falar no nome 
do esposo.
    Esses meses, durante as obras, foram uma época especial para a 
estalagem. O cortiço não dava idéia do seu antigo caráter, tão 
acentuado e, no entanto, tão misto: aquilo agora parecia uma grande 
oficina improvisada, um arsenal, em cujo fragor a gente só se entende 
por sinais. As lavadeiras fugiram para o capinzal dos fundos, porque o 
pó da terra e da madeira sujava-lhes a roupa lavada. Mas, dentro de 
pouco tempo, estava tudo pronto; e, com imenso pasmo, viram que a 
venda, a sebosa bodega, onde João Romão se fez gente, ia também 
entrar em obras. O vendeiro resolvera aproveitar dela somente algumas 
das paredes, que eram de um metro de largura, talhadas à portuguesa; 
abriria as portas em arco, suspenderia o teto e levantaria um sobrado, 
mais alto que o do Miranda e, com toda a certeza, mais vistoso. Prédio 
para meter o do outro no chinelo; quatro janelas de frente, oito de lado, 
com um terraço ao fundo. O lugar em que ele dormia com Bertoleza, a 
cozinha e a casa de pasto seriam abobadadas, formando, com a parte de 
taverna, um grande armazém, em que o seu comércio iria fortalecer-se e 
alargar-se.
    O Barão e o Botelho apareciam por lá quase todos os dias, ambos 
muito interessados pela prosperidade do vizinho; examinavam os 
materiais escolhidos para a construção, batiam com a biqueira do 
chapéu de sol no pinho-de-riga destinado ao assoalho, e afetando-se 
bons entendedores, tomavam na palma da mão e esfarelavam entre os 
dedos um punhado da terra e da cal com que os operários faziam barro. 
Às vezes chegavam a ralhar com os trabalhadores, quando lhes parecia 
que não iam bem no serviço! João Romão, agora sempre de paletó, 
engravatado, calças brancas, colete e corrente de relógio, já não parava 
na venda, e só acompanhava as obras na folga das ocupações da rua. 
Principiava a tomar tino no jogo da Bolsa; comia em hotéis caros e 
bebia cerveja em larga camaradagem com capitalistas nos cafés do 
comércio.
    E a crioula? Como havia de ser?
    Era isto justamente o que, tanto o Barão como o Botelho, morriam 
por que lhe dissessem. Sim, porque aquela boa casa que se estava 
fazendo, e os ricos móveis encomendados, e mais as pratas e as 
porcelanas que haviam de vir, não seriam decerto para os beiços da 
negra velha! Conservá-la-ia como criada? Impossível! Todo Botafogo 
sabia que eles até ai fizeram vida comum!
    Todavia, tanto o Miranda, como o outro, não se animavam a abrir 
o bico a esse respeito com o vizinho e contentavam-se em boquejar 
entre si misteriosamente, palpitando ambos por ver a saída que o 
vendeiro acharia para semelhante situação.
    Maldita preta dos diabos! Era ela o único defeito, o senão de um 
homem tão importante e tão digno.
    Agora, não se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza 
fosse jantar à casa do Miranda. Iam juntos ao teatro. João Romão dava 
o braço à Zulmira, e, procurando galanteá-la e mais ao resto da família, 
desfazia-se em obséquios brutais e dispendiosos, com uma franqueza 
exagerada que não olhava gastos. Se tinham de tomar alguma coisa, ele 


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fazia vir logo três, quatro garrafas ao mesmo tempo, pedindo sempre o 
triplo do necessário e acumulando compras inúteis de doces, flores e 
tudo o que aparecia. Nos leilões das festas de arraial era tão feroz a sua 
febre de obsequiar a gente do Miranda, que nunca voltava para casa 
sem um homem atrás, carregado com os mimos que o vendeiro 
arrematava.
    E Bertoleza bem que compreendia tudo isso e bem que estranhava 
a transformação do amigo. Ele ultimamente mal se chegava para ela e, 
quando o fazia, era com tal repugnância, que antes não o fizesse. A 
desgraçada muita vez sentia-lhe cheiro de outras mulheres, perfumes 
de cocotes estrangeiras e chorava em segredo, sem animo de reclamar 
os seus direitos. Na sua obscura condição de animal de trabalho, já não 
era amor o que a mísera desejava, era somente confiança no amparo da 
sua velhice quando de todo lhe faltassem as forças para ganhar a vida. 
E contentava-se em suspirar no meio de grandes silêncios durante o 
serviço de todo o dia, covarde e resignada, como seus pais que a 
deixaram nascer e crescer no cativeiro. Escondia-se de todos, mesmo 
da gentalha do frege e da estalagem, envergonhada de si própria, 
amaldiçoando-se por ser quem era, triste de sentir-se a mancha negra, a 
indecorosa nódoa daquela prosperidade brilhante e clara.
    E, no entanto, adorava o amigo, tinha por ele o fanatismo 
irracional das caboclas do Amazonas pelo branco a que se escravizam, 
dessas que morrem de ciúmes, mas que também são capazes de 
matar-se para poupar ao seu ídolo a vergonha do seu amor. O que 
custava aquele homem consentir que ela, uma vez por outra, se 
chegasse para junto dele? Todo o dono, nos momentos de bom humor, 
afaga o seu cão... Mas qual! o destino de Bertoleza fazia-se cada vez 
mais estrito e mais sombrio; pouco a pouco deixara totalmente de ser a 
amante do vendeiro, para ficar sendo só uma sua escrava. Como 
sempre, era a primeira a erguer-se e a ultima a deitar-se; de manhã 
escamando peixe, à noite vendendo-o à porta, para descansar da 
trabalheira grossa das horas de sol; sempre sem domingo nem dia santo, 
sem tempo para cuidar de si, feia, gasta, imunda, repugnante, com o 
coração eternamente emprenhado de desgostos que nunca vinham à 
luz. Afinal, convencendo-se de que ela, sem ter ainda morrido, já não 
vivia para ninguém, nem tampouco para si, desabou num fundo 
entorpecimento apático, estagnado como um charco podre que causa 
nojo. Fizera-se áspera, desconfiada, sobrolho carrancudo, uma linha 
dura de um canto ao outro da boca. E durante dias inteiros, sem 
interromper o serviço, que ela fazia agora automaticamente, por um 
hábito de muitos anos, gesticulava e mexia com os lábios, 
monologando sem pronunciar as palavras. Parecia indiferente a tudo, a 
tudo que a cercava.
    Não obstante, certo dia em que João Romão conversou muito com 
Botelho, as lágrimas saltaram dos olhos da infeliz, e ela teve de 
abandonar a obrigação, porque o pranto e os soluços não lhe deixavam 
fazer nada.
    Botelho havia dito ao vendeiro:
    - Faça o pedido! É ocasião.
    - Hein?


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    - Pode pedir a mão da pequena. Está tudo pronto!
    - O Barão dá-ma?
    - Dá.
    - Tem certeza disso?
    - Ora! se não tivesse não lho diria deste modo!
    - Ele prometeu?
    - Falei-lhe; fiz-lhe o pedido em seu nome. Disse que estava 
autorizado por você. Fiz mal?
    - Mal? Fez muito bem. Creio até que não é preciso mais nada!
    - Não, se o Miranda não vier logo ao seu encontro é bom você lhe 
falar, compreende?
    - Ou escrever.
    - Também!
    - E a menina?
    - Respondo por ela. Você não tem continuado a receber as 
flores?
    - Tenho.
    - Pois então não deixe pelo seu lado de ir mandando também as 
suas e faça o que lhe disse. Atire-se, seu João, atire-se enquanto o angu 
está quente!
    Por outro lado, Jerônimo empregara-se na pedreira de São Diogo, 
onde trabalhava dantes, e morava agora com a Rita numa estalagem da 
Cidade Nova.
    Tiveram de fazer muita despesa para se instalarem; foi-lhes preciso 
comprar de novo todos os arranjos de casa, porque do São Romão 
Jerônimo só levou dinheiro, dinheiro que ele já não sabia poupar. Com o 
asseio da mulata a sua casinha ficou, todavia, que era um regalo; tinham 
cortinado na cama, lençóis de linho, fronhas de renda, muita roupa 
branca, para mudar todos os dias, toalhas de mesa, guardanapos; 
comiam em pratos de porcelana e usavam sabonetes finos. Plantaram à 
porta uma trepadeira que subia para o telhado, abrindo pela manhã 
flores escarlates, de que as abelhas gostavam muito; penduraram 
gaiolas de passarinho na sala de jantar; sortiram a despensa de tudo que 
mais gostavam; compraram galinhas e marrecos e fizeram um banheiro 
só para eles, porque o da estalagem repugnou à baiana que, nesse ponto, 
era muito escrupulosa.
    A primeira parte da sua lua-de-mel foi uma cadeia de delicias 
continuas; tanto ele como ela, pouco ou nada trabalharam; a vida dos 
dois resumira-se, quase que exclusivamente, nos oitos palmos de 
colchão novo, que nunca chegava a esfriar de todo. Jamais a existência 
pareceu tão boa e corredia para o português; aqueles primeiros dias 
fugiram-lhe como estrofes seguidas de uma deliciosa canção de amor, 
apenas espacejada pelo estribilho dos beijos em dueto; foi um prazer 
prolongado e amplo, bebido sem respirar, sem abrir os olhos, naquele 
colo carnudo e dourado da mulata, a que o cavouqueiro se abandonara 
como um bêbedo que adormece abraçado a um garrafão inesgotável de 
vinho gostoso.
    Estava completamente mudado. Rita apagara-lhe a última réstia 
das recordações da pátria; secou, ao calor dos seus lábios grossos e 
vermelhos, a derradeira lágrima de saudade, que o desterrado lançou 


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do coração com o extremo arpejo que a sua guitarra suspirou!
    A guitarra! substituiu-a ela pelo violão baiano, e deu-lhe a ele uma 
rede, um cachimbo, e embebedou-lhe os sonhos de amante prostrado 
com as suas cantigas do norte, tristes, deleitosas, em que há caboclinhos 
curupiras, que no sertão vêm pitar à beira das estradas em noites de lua 
clara, e querem que todo o viajante que vai passando lhes ceda fumo e 
cachaça, sem o que, ai deles! o curupira transforma-os em 
bicho-do-mato. E deu-lhe do seu comer da Bahia, temperado com 
fogoso azeite-de-dendê, cor de brasa; deu-lhe das suas muquecas 
escandescentes, de fazer chorar, habituou-lhe a carne ao cheiro sensual 
daquele seu corpo de cobra, lavado três vezes ao dia e três vezes 
perfumado com ervas aromáticas.
    O português abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo 
das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fora-se-lhe de 
vez o espírito da economia e da ordem; perdeu a esperança de 
enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, à felicidade de possuir a mulata 
e ser possuído só por ela, só ela, e mais ninguém.
    A morte do Firmo não vinha nunca a toldar-lhes o gozo da vida; 
quer ele, quer a amiga, achavam a coisa muito natural. "O facínora 
matara tanta gente; fizera tanta maldade; devia, pois, acabar como 
acabou! Nada mais justo! Se não fosse Jerônimo, seria outro! Ele assim 
o quis- bem feito!"
    Por esse tempo, Piedade de Jesus, sem se conformar com a 
ausência do marido, chorava o seu abandono e ia também agora se 
transformando de dia para dia, vencida por um desmazelo de chumbo, 
uma dura desesperança, a que nem as lágrimas bastavam para adoçar as 
agruras. A principio, ainda a pobre de Cristo tentou resistir com 
coragem àquela viuvez pior que essa outra, em que há, para elemento de 
resignação, a certeza de que a pessoa amada nunca mais terá olhos para 
cobiçar mulheres, nem boca para pedir amores; mas depois começou a 
afundar sem resistência na lama do seu desgosto, covardemente, sem 
forcas para iludir-se com uma esperança fátua, abandonando-se ao 
abandono, desistindo dos seus princípios, do seu próprio caráter, sem 
se ter já neste mundo na conta de alguma coisa e continuando a viver 
somente porque a vida era teimosa e não queria deixá-la ir apodrecer lá 
embaixo, por uma vez. Deu para desleixar-se no serviço; as suas 
freguesas de roupa começaram a reclamar; foi-lhe fugindo o trabalho 
pouco a pouco; fez-se madraça e moleirona, precisando já empregar 
grande esforço para não bulir nas economias que Jerônimo lhe deixara, 
porque isso devia ser para a filha, aquela pobrezita orfanada antes da 
morte dos pais.
    Um dia, Piedade levantou-se queixando-se de dores de cabeça, 
zoada nos ouvidos e o estômago embrulhado; aconselharam-lhe que 
tomasse um trago de parati. Ela aceitou o conselho e passou melhor. No 
dia seguinte repetiu a dose; deu-se bem com a perturbação em que a 
punha o álcool, esquecia-se um pouco durante algum tempo das 
amofinações da sua vida; e, gole a gole, habituara-se a beber todos os 
dias o seu meio martelo de aguardente, para enganar os pesares. 
    Agora, que o marido já não estava ali para impedir que a filha 
pusesse os pés no cortiço, e agora que Piedade precisava de consolo, a 


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pequena ia passar os domingos com ela. Saíra uma criança forte e 
bonita; puxara do pai o vigor físico e da mãe a expressão bondosa da 
fisionomia. Já tinha nove anos.
    Eram esses agora os únicos bons momentos da pobre mulher, esses 
que ela passava ao lado da filha. Os antigos moradores da estalagem 
principiavam a distinguir a menina com a mesma predileção com que 
amavam Pombinha, porque em toda aquela gente havia uma 
necessidade moral de eleger para mimoso da sua ternura um entezinho 
delicado e superior, a que eles privilegiavam respeitosamente, como 
súditos a um príncipe. Crismaram-na logo com o cognome de 
"Senhorinha".
    Piedade, apesar do procedimento do marido, ainda no intimo se 
impressionava com a idéia de que não devia contrariá-lo nas suas 
disposições de pai. "Mas que mal tinha que a pequena fosse ali? Era 
uma esmola que fazia à mãe! Lá pelo risco de perder-se... Ora adeus, só 
se perdia quem mesmo já nascera para a perdição! A outra não se 
conservara sã e pura? não achara noivo? não casara e não vivia 
dignamente com o seu marido? Então?!" E Senhorinha continuou a ir à 
estalagem, a principio nos domingos pela manhã, para voltar à tarde, 
depois já de véspera, nos sábados, para só tornar ao colégio na 
segunda-feira.
    Jerônimo ao saber disto, por intermédio da professora, revoltou-se 
no primeiro ímpeto, mas, pensando bem no caso, achou que era justo 
deixar à mulher aquele consolo. "Coitada! devia viver bem aborrecida 
da sorte!" Tinha ainda por ela um sentimento compassivo, em que a 
melhor parte nascera com o remorso. "Era justo, era! que a pequena aos 
domingos e dias santos lhe fizesse companhia!" E então, para ver a 
filha, tinha que ir ao colégio nos dias de semana. Quase sempre 
levava-lhe presentes de doce, frutas, e perguntava-lhe se precisava de 
roupa ou de calçado. Mas, um belo dia, apresentou-se tão ébrio, que a 
diretora lhe negou a entrada. Desde essa ocasião, Jerônimo teve 
vergonha de lá voltar, e as suas visitas à filha tornaram-se muito raras.
    Tempos depois, Senhorinha entregou à mãe uma conta de seis 
meses da pensão do colégio, com uma carta em que a diretora 
negava-se a conservar a menina, no caso que não liquidassem 
prontamente a divida. Piedade levou as mãos à cabeça: "Pois o homem 
já nem o ensino da pequena queria dar?! Que lhe valesse Deus! onde 
iria ela fazer dinheiro para educar a filha?! "
    Foi à procura do marido; já sabia onde ele morava. Jerônimo 
recusou-se, por vexame; mandou dizer que não estava em casa. Ela 
insistiu; declarou que não arredaria dali sem lhe falar; disse em voz bem 
alta que não ia lá por ele, mas pela filha, que estava arriscada a ser 
expulsa do colégio; ia para saber que destino lhe havia de dar, porque 
agora a pequena estava muito taluda para ser enjeitada na roda!
    Jerônimo apareceu afinal, com um ar triste de vicioso 
envergonhado que não tem animo de deixar o vicio. A mulher, ao vê-lo, 
perdeu logo toda a energia com que chegara e comoveu-se tanto, que as 
lágrimas lhe saltaram dos olhos às primeiras palavras que lhe dirigiu. E 
ele abaixou os seus e fez-se lívido defronte daquela figura avelhantada, 
de peles vazias, de cabelos sujos e encanecidos. Não lhe parecia a 


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mesma! Como estava mudada! E tratou-a com brandura, quase a 
pedir-lhe perdão, a voz muito espremida no aperto da garganta.
    - Minha pobre velha... balbuciou, pousando-lhe a mão larga na 
cabeça.
    E os dois emudeceram um defronte do outro, arquejantes. 
Piedade sentiu ânsias de atirar-se-lhe nos braços, possuída de 
imprevista ternura com aquele simples afago do seu homem. Um súbito 
raio de esperança iluminou-a toda por dentro, dissolvendo de relance 
os negrumes acumulados ultimamente no seu coração. Contava não 
ouvir ali senão palavras duras e ásperas, ser talvez repelida 
grosseiramente, insultada pela outra e coberta de ridículo pelos novos 
companheiros do marido; mas, ao encontrá-lo também triste e 
desgostoso, sua alma prostrou-se reconhecida; e, assim que Jerônimo, 
cujas lágrimas corriam já silenciosamente, deixou que a sua mão fosse 
descendo da cabeça ao ombro e depois à cintura da esposa, ela 
desabou, escondendo o rosto contra o peito dele, numa explosão de 
soluços que lhe faziam vibrar o corpo inteiro.
    Por algum tempo choraram ambos abraçados.
    - Consola-te! que queres tu?... São desgraças!... disse o 
cavouqueiro afinal, limpando os olhos. Foi como se eu tivesse te 
morrido... mas podes ficar certa de que te estimo e nunca te quis mal!... 
Volta para casa; eu irei pagar o colégio de nossa filhinha e hei de olhar 
por ti. Vai, e pede a Deus Nosso Senhor que me perdoe os desgostos 
que te tenho eu dado!
    E acompanhou-a até o portão da estalagem.
    Ela, sem poder pronunciar palavra, saiu cabisbaixa, a enxugar os 
olhos no xale de lã, sacudida ainda de vez em quando por um soluço 
retardado.
    Entretanto, Jerônimo não mandou saldar a conta do colégio, no 
dia seguinte, nem no outro, nem durante todo o resto do mês; e ele, 
coitado! bem que se mortificou por isso; mas onde ia buscar dinheiro 
naquela ocasião? o seu trabalho mal lhe dava agora para viver junto com 
a mulata; estava já alcançado nos seus ordenados e devia ao padeiro e 
ao homem da venda. Rita era desperdiçada e amiga de gastar à larga; 
não podia passar sem uns tantos regalos de barriga e gostava de fazer 
presentes. Ele, receoso de contrariá-la e quebrar o ovo da sua paz, até ai 
tão completo com respeito à baiana, subordinava-se calado e afetando 
até satisfação; no intimo, porém, o infeliz sofria deveras. A lembrança 
constante da filha e da mulher apoquentava-o com pontas de remorso, 
que dia a dia alastravam na sua consciência, à proporção que esta ia 
acordando daquela cegueira. O desgraçado sentia e compreendia 
perfeitamente todo o mal da sua conduta; mas só a idéia de separar-se 
da amante punha-lhe logo o sangue doido e apagava-se-lhe de novo a 
luz dos raciocínios. "Não! não!! tudo que quisessem, menos isso!"
    E então, para fugir àquela voz irrefutável, que estava sempre a 
serrazinar dentro dele, bebia em camaradagem com os companheiros e 
habituara-se, dentro em pouco, à embriaguez. Quando Piedade, quinze 
dias depois da sua primeira visita, tornou lá, um domingo, 
acompanhada pela filha, encontrou-o bêbedo, numa roda de amigos.
    Jerônimo recebeu-as com grande escarcéu de alegria. Fê-las entrar. 


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Beijou a pequena repetidas vezes e suspendeu-a pela cintura, soltando 
exclamações de entusiasmo.
    Com um milhão de raios! que linda estava a sua morgadinha!
    Obrigou-as logo a tomar alguma coisa e foi chamar a mulata; 
queria que as duas mulheres fizessem as pazes no mesmo instante. Era 
questão decidida!
    Houve uma cena de constrangimentos, quando a portuguesa se viu 
defronte da baiana.
    - Vamos! vamos! Abracem-se! Acabem com isso por uma vez! 
bradava Jerônimo, a empurrá-las uma contra a outra. Não quero aqui 
caras fechadas!
    As duas trocaram um aperto de mão, sem se fitarem. Piedade 
estava escarlate de vergonha.
    - Ora muito bem! acrescentou o cavouqueiro. Agora para a coisa 
ser completa, hão de jantar conosco!
    A portuguesa opôs-se, resmungando desculpas, que o 
cavouqueiro não aceitou.
    - Não as deixo sair! É boa! Pois hei de deixar ir minha filha sem 
matar as saudades?
    Piedade assentou-se a um canto, impaciente pela ocasião de 
entender-se com o marido sobre o negócio do colégio. Rita, volúvel 
como toda a mestiça, não guardava rancores, e, pois, desfez-se em 
obséquios com a família do amigo. As outras visitas saíram antes do 
jantar.
    Puseram-se à mesa às quatro horas e principiaram a comer com boa 
disposição, carregando no virgem logo desde a sopa. Senhorinha 
destacava-se do grupo; na sua timidez de menina de colégio parecia, 
entre aquela gente, triste e assustada ao mesmo tempo. O pai 
acabrunhava-a com as suas solicitudes brutais e com as suas perguntas 
sobre os estudos. À exceção dela, todos os outros estavam, antes da 
sobremesa, mais ou menos chumbados pelo vinho. Jerônimo, esse 
estava de todo. Piedade, instigada por ele, esvaziara freqüentes vezes o 
seu copo e, ao fim do jantar, dera para queixar-se amargamente da vida; 
foi então que ela, já com azedume na voz, falou na divida do colégio e 
nas ameaças da diretora.
    - Ora, filha! disse-lhe o cavouqueiro. Agora estás tu também 
pr'aí com essa mastigação! Deixa as tristezas pr'outra vez! Não nos 
amargures o jantar!
    - Triste sorte a minha!
    - Ai, ai! que temos lamúria!
    - Como não me hei de queixar, se tudo me corre mal?!
    - Sim! Pois se é para isso que aqui vens, melhor será não tornares 
cá!... resmungou Jerônimo, franzindo o sobrolho. Que diabo! com 
choradeiras nada se endireita! Tenho eu culpa de que sejas infeliz?... 
Também o sou e não me queixo de Deus!
    Piedade abriu a soluçar.
    - Aí temos! berrou o marido, erguendo-se e dando urna punhada 
forte sobre a mesa. E aturem-na! Por mais que um homem se não queira 
zangar, há de estourar por força! Ora bolas!
    Senhorinha correu para junto do pai, procurando contê-lo.


[Linha 7050 de 8202 - Parte 5 de 5]


    - Sebo! berrou ele, desviando-a. Sempre a mesma coisa! Pois não 
estou disposto a aturar isto! Arre!
    - Eu não vim cá por passeio!... prosseguiu Piedade entre 
lágrimas!. Vim cá para saber da conta do colégio!...
    - Pague-a você, que tem lá o dinheiro que lhe deixei! Eu é que 
não tenho nenhum!
    - Ah! então com que não pagas?!
    - Não! Com um milhão de raios! 
    - É que és muito pior do que eu supunha!
    - Sim, hein?! Pois então deixe-me cá com toda a minha ruindade 
e despache o beco! Despache-o, antes que eu faça alguma asneira!
    - Minha pobre filha! Quem olhará por ela, Senhor dos Aflitos?!
    - A pequena já não precisa de colégio! deixe-a cá comigo, que 
nada lhe faltará!
    - Separar-me de minha filha? a única pessoa que me resta?!
    - Ó mulher! você não está separada dela a semana inteira?... Pois 
a pequena, em vez de ficar no colégio, fica aqui, e aos domingos irá 
vê-la. Ora aí tem!
    - Eu quero antes ficar com minha mãe!... balbuciou a menina, 
abraçando-se a Piedade.
    - Ah! também tu, ingrata, já me fazes guerra?! Pois vão com 
todos os diabos! e não me tornem cá para me ferver o sangue, que já 
tenho de sobra com que arreliar-me!
    - Vamos daqui! gritou a portuguesa, travando da filha pelo 
braço. Maldita a hora em que vim cá!
    E as duas, mãe e filha, desapareceram; enquanto Jerônimo, 
passeando de um para outro lado, monologava, furioso sob a 
fermentação do vinho.
    Rita não se metera na contenda, nem se mostrara a favor de 
nenhuma das partes. "O homem, se quisesse voltar para junto da 
mulher, que voltasse! Ela não o prenderia, porque amor não era 
obrigado!"
    Depois de falar só por muito espaço, o cavouqueiro atirou-se a 
uma cadeira, despejou sombrio dois dedos de laranjinha num copo e 
bebeu-os de um trago.
    - Arre! Assim também não!
    A mulata então aproximou-se dele, por detrás; segurou-lhe a 
cabeça entre as mãos e beijou-o na boca, arredando com os lábios a 
espessura dos bigodes.
    Jerônimo voltou-se para a amante, tomou-a pelos quadris e 
assentou-a em cheio sobre as suas coxas.
    - Não te rales, meu bem! disse ela, afagando-lhe os cabelos. Já 
passou!
    - Tens razão! besta fui eu em deixá-la pôr pé cá dentro de casa!
    E abraçaram-se com ímpeto, como se o breve tempo roubado pelas 
visitas fosse uma interrupção nos seus amores.
    Lá fora, junto ao portão da estalagem, Piedade, com o rosto 
escondido no ombro da filha, esperava que as lágrimas cedessem um 
pouco, para as duas seguirem o seu destino de enxotadas.



[Linha 7100 de 8202 - Parte 5 de 5]




XX


    Chegaram a casa às nove horas da noite. Piedade levava o coração 
feito em lama; não dera palavra por todo o caminho e logo que recolheu 
a pequena, encostou-se à cômoda, soluçando.
    Estava tudo acabado! Tudo acabado!
    Foi à garrafa de aguardente, bebeu uma boa porção; chorou ainda, 
tornou a beber, e depois saiu ao pátio, disposta a parasitar a alegria dos 
que se divertiam lá fora.
    A das Dores tivera jantar de festa; ouviam-se as risadas dela e a 
voz avinhada e grossa do seu homem, o tal sujeito do comércio, 
abafadas de vez em quando pelos berros da Machona, que ralhava com 
Agostinho. Em diversos pontos cantavam e tocavam a viola.
    Mas o cortiço já não era o mesmo; estava muito diferente; mal 
dava idéia do que fora. O pátio, como João Romão havia prometido, 
estreitara-se com as edificações novas; agora parecia uma rua, todo 
calçado por igual e iluminado por três lampiões grandes simetricamente 
dispostos. Fizeram-se seis latrinas, seis torneiras de água e três 
banheiros. Desapareceram as pequenas hortas, os jardins de quatro a 
oito palmos e os imensos depósitos de garrafas vazias. À esquerda, até 
onde acabava o prédio do Miranda, estendia-se um novo correr de 
casinhas de porta e janela, e daí por diante, acompanhando todo o lado 
do fundo e dobrando depois para a direita até esbarrar no sobrado de 
João Romão, erguia-se um segundo andar, fechado em cima do 
primeiro por uma estreita e extensa varanda de grades de madeira, para 
a qual se subia por duas escadas, uma em cada extremidade. De cento e 
tantos, a numeração dos cômodos elevou-se a mais de quatrocentos; e 
tudo caiadinho e pintado de fresco; paredes brancas, portas verdes e 
goteiras encarnadas. Poucos lugares havia desocupados. Alguns 
moradores puseram plantas à porta e à janela, em meias tinas serradas 
ou em vasos de barro. Albino levou o seu capricho até à cortina de 
labirinto e chão forrado de esteira. A casa dele destacava-se das outras; 
era no andar de baixo, e cá de fora via-se-lhe o papel vermelho da sala, 
a mobília muito brunida, jarras de flores sobre a cômoda, um lavatório 
com espelho todo cercado de rosas artificiais, um oratório grande, 
resplandecente de palmas douradas e prateadas, toalhas de renda por 
toda a parte, num luxo de igreja, casquilho e defumado. E ele, o pálido 
lavadeiro, sempre com o seu lenço cheiroso à volta do pescocinho, a sua 
calça branca de boca larga, o seu cabelo mole caldo por detrás das 
orelhas bambas, preocupava-se muito em arrumar tudo isso, 
eternamente, como se esperasse a cada instante a visita de um estranho. 
Os companheiros de estalagem elogiavam-lhe aquela ordem e aquele 
asseio; pena era que lhe dessem as formigas na cama! Em verdade, 
ninguém sabia por que, mas a cama de Albino estava sempre coberta de 
formigas. Ele a destruí-las, e o demônio do bichinho a multiplicar-se 
cada vez mais e mais todos os dias. Uma campanha desesperadora, que 
o trazia triste, aborrecido da vida. Defronte justamente ficava a casa do 


[Linha 7150 de 8202 - Parte 5 de 5]


Bruno e da mulher, toda mobiliada de novo, com um grande candeeiro 
de querosene em frente à entrada, cujo revérbero parecia olhar 
desconfiado lá de dentro para quem passava cá no pátio. Agora, 
entretanto, o casal vivia em santa paz. Leocádia estava discreta; 
sabia-se que ela dava ainda muito que fazer ao corpo sem o concurso do 
marido, mas ninguém dizia quando, nem onde. O Alexandre jurava 
que, ao entrar ou sair fora de horas, nunca a pilhara no vicio; e a esposa, 
a Augusta Carne-Mole, ia mais longe na defesa, porque sempre tivera 
pena de Leocádia, pois entendia que aquele assanhamento por homem 
não era maldade dela; era praga de algum boca do diabo que a quis e a 
pobrezinha não deixou. - Estava-se vendo disso todos os dias!- 
tanto que ultimamente, depois que a criatura pediu a um padre um 
pouco de água benta e benzeu-se com esta em certos lugares, o fogo 
desaparecera logo, e ela ai vivia direita e séria que não dava que falar a 
ninguém! Augusta ficara com a família numa das casinhas do segundo 
andar, à direita; estava grávida outra vez; e à noite via-se o Alexandre, 
sempre muito circunspecto, a passear ao comprido da varanda, 
acalentando uma criancinha ao colo, enquanto a mulher dentro de casa 
cuidava de outras. A filharada crescia-lhes, que metia medo. "Era um 
no papo outro no saco!" Moravam agora também desse lado os dois 
cúmplices de Jerônimo, o Pataca e o Zé Carlos, ocupando juntos o 
mesmo cômodo; defronte da porta tinham um fogãozinho e um 
fogareiro, em que preparavam eles mesmos a sua comida. Logo adiante 
era o quarto de um empregado do correio, pessoa muito calada, bem 
vestida e pontual no pagamento; saia todas as manhãs e voltava às dez 
da noite invariavelmente; aos domingos só ia à rua para comer, e depois 
fechava-se em casa e, houvesse o que houvesse no cortiço, não punha 
mais o nariz de fora. E, assim como este, notavam-se por último na 
estalagem muitos inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata e 
sem meias. A feroz engrenagem daquela máquina terrível, que nunca 
parava, ia já lançando os dentes a uma nova camada social que, pouco a 
pouco, se deixaria arrastar inteira lá para dentro. Começavam a vir 
estudantes pobres, com os seus chapéus desabados, o paletó fouveiro, 
uma pontinha de cigarro a queimar-lhes a penugem do buço, e as 
algibeiras muito cheias, mas só de versos e jornais; surgiram contínuos 
de repartições públicas, caixeiros de botequim, artistas de teatro, 
condutores de bondes, e vendedores de bilhetes de loteria. Do lado 
esquerdo, toda a parte em que havia varanda foi monopolizada pelos 
italianos; habitavam cinco a cinco, seis a seis no mesmo quarto, e 
notava-se que nesse ponto a estalagem estava já muito mais suja que 
nos outros. Por melhor que João Romão reclamasse, formava-se ai 
todos os dias uma esterqueira de cascas de melancia e laranja. Era uma 
comuna ruidosa e porca a dos demônios dos mascates! Quase que se 
não podia passar lá, tal a acumulação de tabuleiros de louça e objetos de 
vidro, caixas de quinquilharia, molhos e molhos de vasilhame de 
folha-de-flandres, bonecos e castelos de gesso, realejos, macacos, o 
diabo! E tudo isso no meio de um fedor nauseabundo de coisas podres, 
que empesteava todo o cortiço. A parte do fundo da varanda era 
asseada felizmente e destacava-se pela profusão de pássaros que lá 
tinham, entre os quais sobressaia uma arara enorme que, de espaço a 


[Linha 7200 de 8202 - Parte 5 de 5]


espaço, soltava um formidável sibilo estridente e rouco. Por debaixo 
ficava a casa da Machona, cuja porta, como a janela, Nenen trazia 
sempre enfeitada de tinhorões e begônias. O prédio do Miranda parecia 
ter recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da 
esquerda, e agora olhava a medo, por cima dos telhados, para a casa do 
vendeiro, que lá defronte erguia-se altiva, desassombrada, o ar 
sobranceiro e triunfante. João Romão conseguira meter o sobrado do 
vizinho no chinelo; o seu era mais alto e mais nobre, e então com as 
cortinas e com a mobília nova impunha respeito. Foi abaixo aquele 
grosso e velho muro da frente com o seu largo portão de cocheira, e a 
entrada da estalagem era agora dez braças mais para dentro, tendo 
entre ela e a rua um pequeno jardim com bancos e um modesto repuxo 
ao meio, de cimento, imitando pedra. Fora-se a pitoresca lanterna de 
vidros vermelhos; foram-se as iscas de fígado e as sardinhas preparadas 
ali mesmo à porta da venda sobre as brasas; e na tabuleta nova, muito 
maior que a primeira, em vez de "Estalagem de São Romão" lia-se em 
letras caprichosas:

"AVENIDA SÃO ROMÃO"

    O "Cabeça-de-Gato" estava vencido finalmente, vencido para 
sempre; nem já ninguém se animava a comparar as duas estalagens. À 
medida que a de João Romão prosperava daquele modo, a outra decaía 
de todo; raro era o dia em que a polícia não entrava lá e baldeava tudo 
aquilo a espadeirada de cego. Uma desmoralização completa! Muitos 
cabeças-de-gato viraram casaca, passando-se para os carapicus, entre os 
quais um homem podia até arranjar a vida, se soubesse trabalhar com 
jeito em tempo de eleições. Exemplos não faltavam!
    Depois da partida de Rita, já se não faziam sambas ao relento com 
o choradinho da Bahia, e mesmo o cana-verde 35 pouco se dançava e 
cantava; agora o forte eram os forrobodós dentro de casa, com três ou 
quatro músicos, ceia de café com pão; muita calça branca e muito 
vestido engomado. - E toca a enfiar para ai quadrilhas e polcas ate 
romper a manhã!
    Mas naquele domingo o cortiço estava banzeiro; havia apenas uns 
grupos magros, que se divertiam com a viola à porta de casa. O melhor, 
ainda assim, era o da das Dores. Piedade dirigiu-se logo para lá, 
sombria e cabisbaixa.
    - Com o demo! você anda agora que nem o boi castrado! 
exclamou-lhe o Pataca, assentando-se ao lado dela. As tristezas 
atiram-se para trás das costas, criatura de Deus! A vida não dá para 
tanto! O homem deixou-te? Ora sebo! mete-se com outro e põe o 
coração à larga!
    Ela suspirou em resposta, ainda triste; porém, a garrafa de parati 
correu a roda, de mão em mão, e, à segunda volta, Piedade já parecia 
outra. Começou a conversar e a tomar interesse no pagode. Daí a pouco 
era, de todos, a mais animada, falando pelos cotovelos, criticando e 
arremedando as figuras ratonas da estalagem. O Pataca ria-se, a quebrar 
a espinha, caindo por cima dela e passando-lhe o braço na cintura.
    - Você ainda é mulher pr'um homem fazer uma asneira!


[Linha 7250 de 8202 - Parte 5 de 5]


    - Olha pra que lhe deu o ébrio! Solta-me a perna, estupor!
    O grupo achava graça nos dois e aplaudia-os com gargalhadas. E o 
parati a circular sempre de mão em mão. A das Dores não descansava 
um momento; mal vinha de encher a garrafa lá dentro de casa, tinha de 
voltar outra vez para enchê-la de novo. "Olha que estafa! Vão beber pro 
diabo!" Afinal apareceu com o garrafão e pousou-o no meio da roda.
    - Querem saber! Empinem por aí mesmo, que já estou com os 
quartos doendo de tanto andar de lá pra cá!
    Essa noite, a bebedeira de Piedade foi completa. Quando João 
Romão entrou, de volta da casa do Miranda, encontrou-a a dançar ao 
som de palmas, gritos e risadas, no meio de uma grande troça, a saia 
levantada, os olhos requebrados, a pretender arremedar a Rita no seu 
choradinho da Bahia. Era a boba da roda. Batiam-lhe palmadas no 
traseiro e com o pé embaraçavam-lhe as pernas, para a ver cair e 
rebolar-se no chão.
    O vendeiro, de fraque e chapéu alto, foi direito ao grupo, então 
muito mais reforçado de gente, e intimou a todos que se recolhessem. 
Aquilo já não eram horas para semelhante algazarra!
    - Vamos! Vamos! Cada um para a sua casa!
    Piedade foi a única que protestou, reclamando o seu direito de 
brincar um pouco com os amigos.
    Que diabo! não estava fazendo mal a ninguém!
    - Ora vá mas é pra cama cozer a mona! vituperou-lhe João 
Romão, repelindo-a. Você, com uma filha quase mulher, não tem 
vergonha de estar aqui a servir de palhaço?! Forte bêbada!
    Piedade assomou-se com a descompostura, quis despicar-se, 
chegou a arregaçar as mangas e sungar a saia; mas o Pataca meteu-se no 
meio e conteve-a, pedindo a João Romão que não levasse aquilo em 
conta, porque era tudo cachaça.
    - Bom, bom, bom! mas aviem-se! Aviem-se!
    E não se retirou sem ver a roda dissolvida, e cada qual procurando 
a casa.
    Recolheram-se todos em silêncio; só o Pataca e Piedade 
deixaram-se ficar ainda no pátio, a discutir o ato do vendeiro. O Pataca 
também estava bastante tocado. Ambos reconheciam que lhes não 
convinha demorar-se ali, porém nenhum dos dois se sentia disposto a 
meter-se no quarto.
    - Você tem lá alguma coisa que beber em casa?... perguntou ele 
afinal.
    Ela não sabia ao certo; foi ver. Havia meia garrafa de parati e um 
resto de vinho. Mas era preciso não fazer barulho, por'mor da pequena 
que estava dormindo.
    Entraram em ponta de pés, a falar surdamente. Piedade deu mais 
luz ao candeeiro.
    - Olha agora! Vamos ficar às escuras! Acabou-se o gás!
    O Pataca saiu, para ir a casa buscar uma vela, e de volta trouxe 
também um pedaço de queijo e dois peixes fritos, que levou ao nariz da 
lavadeira, sem dizer nada. Piedade, aos bordos, desocupou a mesa do 
engomado e serviu dois pratos. O outro reclamou vinagre e pimenta e 
perguntou se havia pão.


[Linha 7300 de 8202 - Parte 5 de 5]


    - Pão há. O vinho é que é pouco!
    - Não faz mal! Vai mesmo com a caninha!
    E assentaram-se. O cortiço dormia já e só se ouviam, no silêncio da 
noite, cães que ladravam lá fora na rua, tristemente. Piedade começou a 
queixar-se da vida; veio-lhe uma crise de lágrimas e soluços. Quando 
pôde falar contou o que lhe sucedera essa tarde, narrou os pormenores 
da sua ida com a filha à procura do marido, o jantar em comum com a 
peste da mulata, e afinal a sua humilhação de vir de lá enxovalhada e 
corrida.
    Pataca revoltou-se, não com o procedimento de Jerônimo, mas 
com o dela.
    Rebaixar-se àquele ponto! com efeito!... Ir procurar o homem lá na 
casa da outra!... Oh!
    - Ele tratou-me bem, quando lá fui da primeira vez... Hoje é que 
não sei o que tinha: só faltou pôr-me na rua aos pontapés!
    - Foi bem feito! Ainda acho pouco! Devia ter-lhe metido o pau, 
para você não ser tola!
    - É mesmo!
    - Pois não! O que não falta são homens, filha! O mundo é 
grande! Para um pé doente há sempre um chinelo velho!- E ferrou-lhe 
a mão nas pernas:- Chega-te para mim, que te esqueceras do outro!
    Piedade repeliu-o. Que se deixasse de asneiras!
    - Asneiras! É o que se leva desta vida!
    A pequena acordara lá no quarto e viera descalça até à porta da 
sala de jantar, para espiar o que faziam os dois.
    Não deram por ela.
    E a conversa prosseguiu, esquentando a medida que a garrafa de 
parati se esvaziava. Piedade deu de mão aos seus desgostos, pôs-se a 
papaguear um pouco; as lágrimas foram-se-lhe; e ela manducou então 
com apetite, rindo já das pilhérias do companheiro, que continuava a 
apalpar-lhe de vez em quando as coxas.
    Aquelas coisas, assim, sem se esperar, é que tinham graça!... dizia 
ele, excitado e vermelho, comendo com a mão, a embeber pedaços de 
peixe no molho das pimentas. Bem tolo era quem se matava!
    Depois lembrou que não viria fora de propósito uma xicrinha de 
café.
    - Não sei se há, vou ver, respondeu a lavadeira, erguendo-se 
agarrada à mesa.
    E bordejou até à cozinha, a dar esbarrões pela direita e pela 
esquerda.
    - Tento no leme, que o mar está forte! exclamou Pataca, 
levantando-se também, para ir ajudá-la.
    Lá perto do fogão agarrou-a de súbito, como um galo abafando 
uma galinha.
    - Larga! repreendeu a mulher, sem forças para se defender.
    Ele apanhou-lhe as fraldas.
    - Espera! Deixa!
    - Não quero!
    E ria-se por ver a atitude cômica do Pataca vergado defronte dela.
    - Que mal faz?.. Deixa!


[Linha 7350 de 8202 - Parte 5 de 5]


    - Sai daí, diabo!
    E, cambaleando, amparados um no outro, foram ambos ao chão.
    - Olha que peste! resmungou a desgraçada, quando o adversário 
conseguiu saciar-se nela. Marraios te partam!
    E deixou-se ficar por terra. Ele pôs-se de pé e, ao encaminhar-se 
para a sala de jantar, sentiu uma ligeira sombra fugir em sua frente. Era 
a pequena, que fora espiar à porta da cozinha.
    Pataca assustara-se.
    - Quem anda aqui a correr como gato?... perguntou voltando a 
ter com Piedade, que permanecia no mesmo lugar, agora quase 
adormecida.
    Sacudiu-a.
    - Olá! Queres ficar ai, ó criatura! Levanta-te! Anda a ver o café!
    E, tentando erguê-la, suspendeu-a por debaixo dos braços. 
Piedade, mal mudou a posição da cabeça, vomitou sobre o peito e a 
barriga uma golfada fétida.
    - Olha o demo! resmungou Pataca. Está que se não pode lamber!
    E foi preciso arrastá-la até a cama, que nem uma trouxa de roupa 
suja. A infeliz não dava acordo de si.
    Senhorinha acudira, perguntando aflita o que tinha a mãe.
    - Não é nada, filha! explicou o Pataca. Deixe-a dormir, que isso 
passa! Olha! se há limão em casa passa-lhe um pouco atrás da orelha, e 
veras que amanhã acorda fina e pronta pra outra!
    A menina desatou a soluçar.
    E o Pataca retirou-se, a dar encontrões nos trastes, furioso, porque, 
afinal, não tomara café.
    Sebo!



XXI


    Ao mesmo tempo, João Romão, em chinelas e camisola, passeava 
de um para outro lado no seu quarto novo. Um aposento largo e forrado 
de azul e branco com florinhas amarelas fingindo ouro; havia um tapete 
aos pés da cama, e sobre a peniqueira um despertador de níquel, e a 
mobília toda era já de casados, porque o esperto não estava para 
comprar móveis duas vezes.
    Parecia muito preocupado; pensava em Bertoleza que, a essas 
horas, dormia lá embaixo num vão de escada, aos fundos do armazém, 
perto da comua.
    Mas que diabo havia ele de fazer afinal daquela peste?
    E coçava a cabeça, impaciente por descobrir um meio de ver-se 
livre dela.
    É que nessa noite o Miranda lhe falara abertamente sobre o que 
ouvira de Botelho, e estava tudo decidido: Zulmira aceitava-o para 
marido e Dona Estela ia marcar o dia do casamento.
    O diabo era a Bertoleza!...
    E o vendeiro ia e vinha no quarto, sem achar uma boa solução para 


[Linha 7400 de 8202 - Parte 5 de 5]


o problema.
    Ora, que raio de dificuldade armara ele próprio para se coser!... 
Como poderia agora mandá-la passear assim, de um momento para 
outro, se o demônio da crioula o acompanhava já havia tanto tempo e 
toda a gente na estalagem sabia disso?
    E sentia-se revoltado e impotente defronte daquele tranqüilo 
obstáculo que lá estava embaixo, a dormir, fazendo-lhe em silêncio um 
mal horrível, perturbando-lhe estupidamente o curso da sua felicidade, 
retardando-lhe, talvez sem consciência, a chegada desse belo futuro 
conquistado à força de tamanhas privações e sacrifícios! Que ferro!
    Mas, só com lembrar-se da sua união com aquela brasileirinha fina 
e aristocrática, um largo quadro de vitórias rasgava-se defronte da 
desensofrida avidez da sua vaidade. Em primeiro lagar fazia-se 
membro de uma família tradicionalmente orgulhosa, como era, dito por 
todos, a de Dona Estela; em segundo lagar aumentava 
consideravelmente os seus bens com o dote da noiva, que era rica e, em 
terceiro, afinal, caber-lhe-ia mais tarde tudo o que o Miranda possuía, 
realizando-se deste modo um velho sonho que o vendeiro afagava 
desde o nascimento da sua rivalidade com o vizinho.
    E via-se já na brilhante posição que o esperava: uma vez de dentro, 
associava-se logo com o sogro e iria pouco a pouco, como quem não 
quer a coisa, o empurrando para o lado, até empolgar-lhe o lagar e fazer 
de si um verdadeiro chefe da colônia portuguesa no Brasil; depois, 
quando o barco estivesse navegando ao largo a todo o pano - tome lá 
alguns pares de contos de réis e passe-me para cá o titulo de Visconde!
    Sim, sim, Visconde! Por que não? e mais tarde, com certeza, 
Conde! Eram favas contadas!
    Ah! ele, posto nunca o dissera a ninguém, sustentava de si para si 
nos últimos anos o firme propósito de fazer-se um titular mais graduado 
que o Miranda. E, só depois de ter o titulo nas unhas, é que iria à 
Europa, de passeio, sustentando grandeza, metendo invejas, cercado 
de adulações, liberal, pródigo, brasileiro, atordoando o mundo velho 
com o seu ouro novo americano!
    E a Bertoleza? gritava-lhe do interior uma voz impertinente.
    - É exato! E a Bertoleza?... repetia o infeliz, sem interromper o 
seu vaivém ao comprido da alcova.
    Diabo! E não poder arredar logo da vida aquele ponto negro; 
apagá-lo rapidamente, como quem tira da pele uma nódoa de lama! 
Que raiva ter de reunir aos vôos mais fulgurosos da sua ambição a idéia 
mesquinha e ridícula daquela inconfessável concubinagem! E não 
podia deixar de pensar no demônio da negra, porque a maldita ali 
estava perto, a rondá-lo ameaçadora e sombria; ali estava como o 
documento vivo das suas misérias, já passadas mas ainda palpitantes. 
Bertoleza devia ser esmagada, devia ser suprimida, porque era tudo que 
havia de mau na vida dele! Seria um crime conservá-la a seu lado! Ela 
era o torpe balcão da primitiva bodega; era o aladroado vintenzinho de 
manteiga em papel pardo; era o peixe trazido da praia e vendido à noite 
ao lado do fogareiro à porta da taberna; era o frege imundo e a lista 
cantada das comezainas à portuguesa; era o sono roncado num colchão 
fétido, cheio de bichos; ela era a sua cúmplice e era todo seu mal- 


[Linha 7450 de 8202 - Parte 5 de 5]


devia, pois, extinguir-se! Devia ceder o lagar à pálida mocinha de mãos 
delicadas e cabelos perfumados, que era o bem, porque era o que ria e 
alegrava, porque era a vida nova, o romance solfejado ao piano, as 
flores nas jarras, as sedas e as rendas, o chá servido em porcelanas caras; 
era enfim a doce existência dos ricos, dos felizes e dos fortes, dos que 
herdaram sem trabalho ou dos que, a puro esforço, conseguiram 
acumular dinheiro, rompendo e subindo por entre o rebanho dos 
escrupulosos ou dos fracos. E o vendeiro tinha defronte dos olhos o 
namorado sorriso da filha do Miranda, sentia ainda a leve pressão do 
braço melindroso que se apoiara ao seu, algumas horas antes, em 
passeio pela praia de Botafogo; respirava ainda os perfumes da menina, 
suaves, escolhidos e penetrantes como palavras de amor; nos seus 
dedos grossos, curtos, ásperos e vermelhos, conservava a impressão da 
tépida carícia daquela mãozinha enluvada que, dentro em pouco, nos 
prazeres garantidos do matrimônio, afagar-lhe-ia as carnes e os cabelos.
    Mas, e a Bertoleza?...
    Sim! era preciso acabar com ela! despachá-la! sumi-la por uma 
vez!
    Deu meia-noite no relógio do armazém. João Romão tomou uma 
vela e desceu aos fundos da casa, onde Bertoleza dormia. 
Aproximou-se dela, pé ante pé, como um criminoso que leva uma idéia 
homicida.
    A crioula estava imóvel sobre o enxergão, deitada de lado, com a 
cara escondida no braço direito, que ela dobrara por debaixo da cabeça. 
Aparecia-lhe uma parte do corpo nua.
    João Romão contemplou-a por algum tempo, com asco.
    E era aquilo, aquela miserável preta que ali dormia 
indiferentemente, o grande estorvo da sua ventura!... Parecia 
impossível!
    - E se ela morresse?...
    Esta frase, que ele tivera, quando pensou pela primeira vez 
naquele obstáculo à sua felicidade, tornava-lhe agora ao espírito, porém 
já amadurecida e transformada nesta outra:
    - E se eu a matasse?
    Mas logo um calafrio de pavor correu-lhe por todos os nervos.
    Além disso, como?... Sim, como poderia despachá-la, sem deixar 
sinais comprometedores do crime?... Envenenando-a?... Dariam logo 
pela coisa!... Matá-la a tiro?... Pior! Levá-la a um passeio fora da 
cidade, bem longe e, no melhor da festa, atirá-la ao mar ou por um 
despenhadeiro, onde a morte fosse infalível?... Mas como arranjar tudo 
isso, se eles nunca passeavam juntos?...
    Diabo!
    E o desgraçado ficou a pensar, abstrato, de castiçal na mão, sem 
despregar os olhos de cima de Bertoleza, que continuava imóvel, com o 
rosto escondido no braço.
    - E se eu a esganasse aqui mesmo?...
    E deu, na ponta dos pés, alguns passos para frente, parando logo, 
sem deixar nunca de contemplá-la.
    Mas a crioula ergueu de improviso a cabeça e fitou-o com os olhos 
de quem não estava dormindo.


[Linha 7500 de 8202 - Parte 5 de 5]


    - Ah! fez ele.
    - Que é, seu João?
    - Nada. Vim só ver-te... Cheguei ainda não há muito... Como 
vais tu? Passou-te a dor do lado?...
    Ela meneou os ombros, sem responder ao certo. Houve um 
silêncio entre os dois. João Romão não sabia o que dizer e saiu afinal, 
escoltado pelo imperturbável olhar da crioula, que o intimava mesmo 
pelas costas.
    - Teria desconfiado? pensou o miserável, subindo de novo para o 
quarto. Qual! Desconfiar de quê?...
    E meteu-se logo na cama, disposto a não pensar mais nisso e 
dormir incontinenti. Mas o seu pensamento continuou rebelde a 
parafusar sobre o mesmo assunto.
    - É preciso despachá-la! É preciso despachá-la quanto antes, seja 
lá como for! Ela, até agora, não deu ainda sinal de si; não abriu o bico a 
respeito da questão; mas, Dona Estela está a marcar o dia do 
casamento; não levará muito tempo para isso... o Miranda naturalmente 
comunica a noticia aos amigos... o fato corre de boca em boca... chega 
aos ouvidos da crioula e esta, vendo-se abandonada, estoura! estoura 
com certeza! E agora o verás! Como deve ser bonito, hein?... Ir tão bem 
até aqui e esbarrar na oposição da negra!... E os comentários depois!... 
O que não dirão os invejosos lá da praça?... "Ah, ah! ele tinha em casa 
uma amiga, uma preta imunda com quem vivia! Que tipo! Sempre há de 
mostrar que e gentinha de laia muito baixa!... E aqui a engazopar-nos 
com uns ares de capitalista que se trata à vela de libra! Olha o carapicu 
pra que havia de dar. Sai sujo!" E, então, a família da menina, com 
medo de cair também na boca do mundo, volta atrás e dá o dito por não 
dito! Bem sei que ela está a par de tudo; isso, olé, se está! mas finge-se 
desentendida, porque conta, e com razão, que eu não serei tão parvo 
que espere o dia do casamento sem ter dado sumiço à negra! contam 
que a coisa correrá sem o menor escândalo! E eu, no entanto, tão besta 
que nada fiz! E a peste da crioula está ai senhora do terreiro como 
dantes, e não descubro meio de ver-me livre dela!... Ora já se viu como 
arranjei semelhante entalação?... Isto contado não se acredita!
    E pisava e repisava o caso, sem achar meio de dar-lhe saída!
    Diabo!
    - Ela há muito que devia estar longe de mim... fiz mal em não 
cuidar logo disso antes de mais nada!... Fui um pedaço d'asno! Se eu a 
tivesse despachado logo, quando ainda se não falava no meu 
casamento, ninguém desconfiaria da história: "Por que diabo iria o 
pobre homem dar cabo de uma mulher, com quem vivia na melhor paz e 
que era até, dentro de casa, o seu braço direito?..." Mas agora, depois 
de todas aquelas reformas de vida; depois da separação das camas, e 
principalmente depois que corresse a noticia do casamento, não faltaria 
decerto quem o acusasse, se a negra aparecesse morta de repente!
    Diabo!
    Deram quatro horas, e o desgraçado nada de pregar olho; 
continuava a matutar sobre o assunto, virando-se de um para outro lado 
da sua larga e rangedora cama de casados. Só pelo abrir da aurora, 
conseguiu passar pelo sono; mas, logo às sete da manhã, teve de pôr-se 


[Linha 7550 de 8202 - Parte 5 de 5]


a pé: o cortiço estava todo alvoroçado com um desastre.
    A Machona lavava à sua tina, ralhando e discutindo como sempre, 
quando dois trabalhadores, acompanhados de um ruidoso grupo de 
curiosos, trouxeram-lhe sobre uma tábua o cadáver ensangüentado do 
filho. Agostinho havia ido, segundo o costume, brincar à pedreira com 
outros dois rapazitos da estalagem; tinham, cabritando pelas arestas do 
precipício, subido a uma altura superior a duzentos metros do chão e, 
de repente, faltara-lhe o equilíbrio e o infeliz rolou de lá abaixo, 
partindo os ossos e atassalhando as carnes.
    Todo ele, coitadinho, era uma só massa vermelha; as canelas, 
quebradas no joelho, dobravam moles para debaixo das coxas; a 
cabeça, desarticulada, abrira no casco e despejava o pirão dos miolos; 
numa das mãos faltavam-lhe todos os dedos e no quadril esquerdo 
via-se-lhe sair uma ponta de osso ralado pela pedra.
    Foi um alarma no pátio quando ele chegou.
    Cruzes! que desgraça!
    Albino, que lavava ao lado da Machona, teve uma síncope; Nenen 
ficou que nem doida, porque ela queria muito àquele irmão; a das Dores 
imprecou contra os trabalhadores, que deixavam um filho alheio 
matar-se daquele modo em presença deles; a mãe, essa apenas soltou 
um bramido de monstro apunhalado no coração e caiu mesquinha junto 
do cadáver, a beijá-lo, vagindo como uma criança. Não parecia a 
mesma!
    As mães dos outros dois rapazitos esperavam imóveis e lívidas 
pela volta dos filhos, e, mal estes chegaram à estalagem, cada uma se 
apoderou logo do seu e caiu-lhe em cima, a sová-los ambos que metia 
medo.
    - Mira-te naquele espelho, tentação do diabo! exclamava uma 
delas, com o pequeno seguro entre as pernas a encher-lhe a bunda de 
chineladas. Não era aquele que devia ir, eras tu, peste! aquele, coitado! 
ao menos ajudava a mãe, ganhava dois mil-réis por mês regando as 
plantas do Comendador, e tu, coisa-ruim, só serves para me dar 
consumições! Toma! Toma! Toma!
    E o chinelo cantava entre o berreiro feroz dos dois rapazes.
    João Romão chegou ao terraço de sua casa, ainda em mangas de 
camisa, e de lá mesmo tomou conhecimento do que acontecera. Contra 
todos os seus hábitos impressionou-se com a morte de Agostinho; 
lamentou-a no intimo, tomado de estranhas condolências.
    Pobre pequeno! tão novo... tão esperto... e cuja vida não 
prejudicava a ninguém, morrer assim, desastradamente!... ao passo que 
aquele diabo velho da Bertoleza continuava agarrado à existência, 
envenenando-lhe a felicidade, sem se decidir a despachar o beco!
    E o demônio da crioula parecia mesmo não estar disposta a ir só 
com duas razões; apesar de triste e acabrunhada, mostrava-se forte e 
rija. Suas pernas curtas e lustrosas eram duas peças de ferro unidas pela 
culatra, das quais ela trazia um par de balas penduradas em saco contra 
o peito; as róseas lustrosas do seu cachaço lembravam grossos 
chouriços de sangue, e na sua carapinha compacta ainda não havia um 
fio branco. Aquilo, arre! tinha vida para o resto do século!
    - Mas deixa estar, que eu te despacho bonito e asseado!... disse o 


[Linha 7600 de 8202 - Parte 5 de 5]


vendeiro de si para si, voltando ao quarto para acabar de vestir-se.
    Enfiava o colete quando bateram pancadas familiares na porta do 
corredor.
    - Então?! Ainda se está em val de lençóis?...
    Era a voz do Botelho.
    O vendeiro foi abrir e fê-lo entrar ali mesmo para a alcova.
    - Ponha-se a gosto. Como vai você?
    - Assim. Não tenho passado lá essas coisas...
    João Romão deu-lhe noticia da morte do Agostinho e declarou 
que estava com dor de cabeça. Não sabia que diabo tinha ele aquela 
noite, que não houve meio de pegar direito no sono.
    - Calor... explicou o outro. E prosseguiu depois de uma pausa, 
acendendo um cigarro: pois eu vinha cá falar-lhe... Você não repare, 
mas...
    João Romão supôs que o parasita ia pedir-lhe dinheiro e 
preparou-se para a defesa, queixando-se inopinadamente de que os 
negócios não lhe corriam bem; mas calou-se, porque o Botelho 
acrescentou com o olhar fito nas unhas:
    - Não devia falar nisto... são coisas suas lá particulares, em que a 
gente não se mete, mas...
    O taberneiro compreendeu logo onde a visita queria chegar e 
aproximou-se dele, dizendo confidencialmente:
    - Não! Ao contrário! fale com franqueza... Nada de receios...
    - É que... sim, você sabe que eu tenho tratado do seu casamento 
com a Zulmirinha... Lá em casa não se fala agora noutra coisa... até a 
própria Dona Estela já está muito bem disposta a seu favor... mas...
    - Desembuche, homem de Deus!
    - É que há um pontinho que é preciso pôr a limpo... Coisa 
insignificante, mas...
    - Mas, mas! você não desembuchará por uma vez?... Fale, que 
diabo!
    Um caixeiro do armazém apareceu à porta, prevenindo de que o 
almoço estava na mesa.
    - Vamos comer, disse João Romão. Você já almoçou?
    - Ainda não, mas lá em casa contam comigo...
    O vendeiro mandou o seu empregado dizer lá defronte à família 
do Barão que seu Botelho não ia ao almoço. E, sem tomar o casaco, 
passou com a visita à sala de jantar.
    O cheiro ativo dos móveis, polidos ainda de fresco, dava ao 
aposento um caráter insociável de lagar desabitado e por alagar. Os 
trastes, tão nus como as paredes, entristeciam com a sua fria nitidez de 
coisa nova.
    - Mas vamos lá! Que temos então?... inquiriu o dono da casa, 
assentando-se à cabeceira da mesa, enquanto o outro, junto dele, 
tomava lugar à extremidade de um dos lados.
    - É que, respondeu o velho em tom de mistério, você tem cá em 
sua companhia uma... uma crioula, que... Eu não creio, note-se, mas...
    - Adiante!
    - É! Dizem que ela é coisa sua... Lá em casa rosnou!... O Miranda 
defende-o, afirma que não... Ah! aquilo é uma grande alma! mas Dona 


[Linha 7650 de 8202 - Parte 5 de 5]


Estela, você sabe o que são as mulheres!... torce o nariz e... Em uma 
palavra: receio que esta história nos traga qualquer embaraço!...
    Calou-se, porque acabava de entrar um portuguesinho, trazendo 
uma travessa de carne ensopada com batatas.
    João Romão não respondeu, mesmo depois que o pequeno saiu; 
ficou abstrato, a bater com a faca entre os dentes.
    - Por que você a não manda embora?... arriscou o Botelho, 
despejando vinho no seu e no copo do companheiro.
    Ainda desta vez não obteve logo resposta; mas o outro tomando, 
afinal, uma resolução, declarou confidencialmente:
    - Vou dizer-lhe toda coisa como ela é... e talvez que você até me 
possa auxiliar!...
    Olhou para os lados, chegou mais a sua cadeira para junto da de 
Botelho e acrescentou em voz baixa:
    - Esta mulher meteu-se comigo, quando eu principiava minha 
vida... Então, confesso... precisava de alguém nos casos dela, que me 
ajudasse... e ajudou-me muito, não nego! Devo-lhe isso! não! 
ajudar-me ajudou! mas...
    - E depois?
    - Depois, ela foi ficando para ai; foi ficando... e agora...
    - Agora é um trambolho que lhe pode escangalhar a igrejinha! É 
o que é!
    - Sim, que dúvida! pode ser um obstáculo sério ao meu 
casamento! Mas, que diabo! eu também, você compreende, não a posso 
pôr na rua, assim, sem mais aquelas!... Seria ingratidão, não lhe 
parece?...
    - Ela já sabe em que pé está o negócio?...
    - Deve desconfiar de alguma coisa, que não é tola!... Eu, cá por 
mim, não lhe toquei em nada...
    - E você ainda faz vida com ela?
    - Qual! há muito tempo que nem sombras disso...
    - Pois, então, meu amigo, é arranjar-lhe uma quitanda em outro 
bairro; dar-lhe algum dinheiro e... Boa viagem! O dente que já não 
presta arranca-se fora!
    João Romão ia responder, mas Bertoleza assomou à entrada da 
sala. Vinha tão transformada e tão lívida que só com a sua presença 
intimidou profundamente os dois. A indignação tirava-lhe faíscas dos 
olhos e os lábios tremiam-lhe de raiva. Logo que falou veio-lhe espuma 
aos cantos da boca.
    - Você está muito enganado, seu João, se cuida que se casa e me 
atira a toa! exclamou ela. Sou negra, sim, mas tenho sentimentos! Quem 
me comeu a carne tem de roer-me os ossos! Então há de uma criatura 
ver entrar ano e sair ano, a puxar pelo corpo todo o santo dia que Deus 
manda ao mundo, desde pela manhãzinha até pelas tantas da noite, 
para ao depois ser jogada no meio da rua, como galinha podre?! Não! 
Não há de ser assim, seu João!
    - Mas, filha de Deus, quem te disse que eu quero atirar-te à 
toa?... perguntou o capitalista.
    - Eu escutei o que você conversava, seu João! A mim não me 
cegam assim só! Você é fino, mas eu também sou! Você está armando 


[Linha 7700 de 8202 - Parte 5 de 5]


casamento com a menina de seu Miranda!
    - Sim, estou. Um dia havia de cuidar de meu casamento!... Não 
hei de ficar solteiro toda a vida, que não nasci para podengo. Mas 
também não te sacudo na rua, como disseste; ao contrário agora mesmo 
tratava aqui com o seu Botelho de arranjar-te uma quitanda e... 
    - Não! Com quitanda principiei; não hei de ser quitandeira até 
morrer! Preciso de um descanso! Para isso mourejei junto de você 
enquanto Deus Nosso Senhor me deu força e saúde!
    - Mas afinal que diabo queres tu?!
    - Ora essa! Quero ficar a seu lado! Quero desfrutar o que nós 
dois ganhamos juntos! quero a minha parte no que fizemos com o nosso 
trabalho! quero o meu regalo, como você quer o seu!
    - Mas não vês que isso é um disparate?... Tu não te conheces?... 
Eu te estimo, filha; mas por ti farei o que for bem entendido e não 
loucuras! Descansa que nada te há de faltar!... Tinha graça, com efeito, 
que ficássemos vivendo juntos! Não sei como não me propões 
casamento!
    - Ah! agora não me enxergo! agora eu não presto para nada! 
Porém, quando você precisou de mim não lhe ficava mal servir-se de 
meu corpo e agüentar a sua casa com o meu trabalho! Então a negra 
servia pra um tudo; agora não presta pra mais nada, e atira-se com ela no 
monturo do cisco! Não! assim também Deus não manda! Pois se aos 
cães velhos não se enxotam, por que me hão de pôr fora desta casa, em 
que meti muito suor do meu rosto?... Quer casar, espere então que eu 
feche primeiro os olhos; não seja ingrato!
    João Romão perdeu por fim a paciência e retirou-se da sala, 
atirando à amante uma palavrada porca.
    - Não vale a pena encanzinar-se... segredou-lhe o Botelho, 
acompanhando-o até a alcova, onde o vendeiro enterrou com toda a 
força o chapéu na cabeça e enfiou o paletó com a mão fechada em 
murro.
    - Arre! Não a posso aturar nem mais um instante! Que vá para o 
diabo que a carregue! em casa é que não me fica!
    - Calma, homem de Deus! Calma!
    - Se não quiser ir por bem, ira por mal! Sou eu quem o diz!
    E o vendeiro esfuziou pela escada, levando atrás de si o velhote, 
que mal podia acompanhá-lo na carreira. Já na esquina da rua parou e, 
fitando no outro o seu olhar flamejante, perguntou-lhe:
    - Você viu?!
    - É... resmungou o parasita, de cabeça baixa, sem interromper os 
passos.
    E seguiram em silêncio, andando agora mais devagar; ambos 
preocupados.
    No fim de uma boa pausa, Botelho perguntou se Bertoleza era 
escrava quando João Romão tomou conta dela.
    Esta pergunta trouxe uma inspiração ao vendeiro. Ia pensando em 
metê-la como idiota no Hospício de Pedro 11, mas acudia-lhe agora 
coisa muito melhor: entregá-la ao seu senhor, restituí-la legalmente à 
escravidão.
    Não seria difícil... considerou ele; era só procurar o dono da 


[Linha 7750 de 8202 - Parte 5 de 5]


escrava, dizer-lhe onde esta se achava refugiada e aquele ir logo 
buscá-la com a polícia.
    E respondeu ao Botelho:
    - Era e é!
    - Ah! Ela é escrava? De quem?
    - De um tal Freitas de Melo. O primeiro nome não sei. Gente de 
fora. Em casa tenho as notas.
    - Ora! então a coisa é simples!... Mande-a p'ro dono!
    - E se ela não quiser ir?...
    - Como não?! A polícia a obrigará! É boa!
    - Ela há de querer comprar a liberdade...
    - Pois que a compre, se o dono consentir!... Você com isso nada 
mais tem que ver! E se ela voltar à sua procura, despache-a logo; se 
insistir, vá então à autoridade e queixe-se! Ah, meu caro, estas coisas, 
para serem bem feiras, fazem-se assim ou não se fazem! Olhe que 
aquele modo com que ela lhe falou há pouco é o bastante para você ver 
que semelhante estupor não lhe convém dentro de casa nem mais um 
instante! Digo-lhe até: já não só pelo fato do casamento, mas por tudo! 
Não seja mole!
    João Romão escutava, caminhando calado, sem mais vislumbres 
de agitação. Tinham chegado à praia.
    - Você quer encarregar-se disto? propôs ele ao companheiro, 
parando ambos à espera do bonde; se quiser pode tratar, que lhe darei 
uma gratificação menos má...
    - De quanto?...
    - Cem mil-réis!
    - Não! dobre!
    - Terás os duzentos!
    - Está dito! Eu cá, pra tudo que for pôr cobro a relaxamento de 
negro, estou sempre pronto!
    - Pois então logo mais à tarde lhe darei, ao certo, o nome do 
dono, o lugar em que ele residia quando ela veio para mim e o mais que 
encontrar a respeito.
    - E o resto fica a meu cuidado! Pode dá-la por despachada!



XXII


    Desde esse dia Bertoleza fez-se ainda mais concentrada e 
resmungona e só trocava com o amigo um ou outro monossílabo 
inevitável no serviço da casa. Entre os dois havia agora desses olhares 
de desconfiança, que são abismos de constrangimento entre pessoas 
que moram juntas. A infeliz vivia num sobressalto constante; cheia de 
apreensões, com medo de ser assassinada; só comia do que ela própria 
preparava para si e não dormia senão depois de fechar-se a chave. À 
noite o mais ligeiro rumor a punha de pé, olhos arregalados, respiração 
convulsa, boca aberta e pronta para pedir socorro ao primeiro assalto.
    No entanto, em redor do seu desassossego e do seu mal-estar, 


[Linha 7800 de 8202 - Parte 5 de 5]


tudo ali prosperava forte em grosso, aos contos de réis, com a mesma 
febre com que dantes, em torno da sua atividade de escrava 
trabalhadeira, os vinténs choviam dentro da gaveta da venda. Durante 
o dia paravam agora em frente do armazém carroças e carroças com 
fardos e caixas trazidos da alfândega, em que se liam as iniciais de João 
Romão; e rodavam-se pipas e mais pipas de vinho e de vinagre, e 
grandes partidas de barricas de cerveja e de barris de manteiga e de 
sacos de pimenta. E o armazém, com as suas portas escancaradas sobre 
o público, engolia tudo de um trago, para depois ir deixando sair de 
novo, aos poucos, com um lucro lindíssimo, que no fim do ano causava 
assombros. João Romão fizera-se o fornecedor de todas as tabernas e 
armarinhos de Botafogo; o pequeno comércio sortia-se lá para vender a 
retalho. A sua casa tinha agora um pessoal complicado de primeiros, 
segundos e terceiros caixeiros, além do guarda-livros, do comprador, 
do despachante e do caixa; do seu escritório saiam correspondências 
em várias línguas e, por dentro das grades de madeira polida, onde 
havia um bufete sempre servido com presunto, queijo e cerveja, 
faziam-se largos contratos comerciais, transações em que se arriscavam 
fortunas; e propunham-se negociações de empresas e privilégios 
obtidos do governo; e realizavam-se vendas e compras de papéis; e 
concluíam-se empréstimos de juros fortes sobre hipotecas de grande 
valor. E ali ia de tudo: o alto e o baixo negociante; capitalistas adulados 
e mercadores falidos; corretores de praça, zangões, cambistas; 
empregados públicos, que passavam procuração contra o seu ordenado; 
empresários de teatro e fundadores de jornais, em aparos de dinheiro; 
viúvas, que negociavam o seu montepio; estudantes, que iam receber a 
sua mesada; e capatazes de vários grupos de trabalhadores pagos pela 
casa; e, destacando-se de todos, pela quantidade, os advogados e a 
gente miúda do foro, sempre inquieta, farisqueira, a meter o nariz em 
tudo, feia, a papelada debaixo do braço, a barba por fazer, o cigarro 
babado e apagado a um canto da boca.
    E, como a casa comercial de João Romão, prosperava igualmente a 
sua avenida. Já lá se não admitia assim qualquer pé-rapado: para entrar 
era preciso carta de fiança e uma recomendação especial. Os preços dos 
cômodos subiam, e muitos dos antigos hóspedes, italianos 
principalmente, iam, por economia, desertando para o 
"Cabeça-de-Gato" e sendo substituídos por gente mais limpa. 
Decrescia também o número das lavadeiras, e a maior parte das 
casinhas eram ocupadas agora por pequenas famílias de operários, 
artistas e praticantes de secretaria. O cortiço aristocratizava-se. Havia 
um alfaiate logo à entrada, homem sério, de suíças que cosia na sua 
máquina entre oficiais, ajudado pela mulher, uma lisboeta cor de nabo, 
gorda, velhusca, com um principio de bigode e cavanhaque, mas 
extremamente circunspecta; em seguida um relojoeiro calvo, de óculos, 
que parecia mumificado atrás da vidraça em que ele, sem mudar de 
posição, trabalhava, da manhã até à tarde; depois um pintor de tetos e 
tabuletas, que levou a fantasia artística ao ponto de fazer, a pincel, uma 
trepadeira em volta da sua porta, onde se viam pássaros de várias cores 
e feitios, muito comprometedores para o crédito profissional do autor; 
mais adiante instalara-se um cigarreiro, que ocupava nada menos de 


[Linha 7850 de 8202 - Parte 5 de 5]


três números na estalagem e tinha quatro filhas e dois filhos a 
fabricarem cigarros, e mais três operárias que preparavam palha de 
milho e picavam e desfiavam tabaco. Florinda, metida agora com um 
despachante de estrada de ferro, voltara para o São Romão e trazia a 
sua casinha em muito bonito pé de limpeza e arranjo. Estava ainda de 
luto pela mãe, a pobre velha Marciana, que ultimamente havia morrido 
no hospício dos doidos. Aos domingos o despachante costumava 
receber alguns camaradas para jantar, e como a rapariga puxava os 
feitios da Rita Baiana, as suas noitadas acabavam sempre em pagode 
de dança e cantarola, mas tudo de portas adentro, que ali já se não 
admitiam sambas e chinfrinadas ao relento. A Machona quebrara um 
pouco de gênio depois da morte de Agostinho e era agora visitada por 
um grupo de moços do comércio, entre os quais havia um pretendente à 
mão de Nenen, que se mirrava já de tanto esperar a seco por marido. 
Alexandre fora promovido a sargento e empertigava-se ainda mais 
dentro da sua farda nova, de botões que cegavam; a mulher, sempre 
indiferentemente fecunda e honesta, parecia criar bolor na sua moleza 
úmida e tinha um ar triste de cogumelo; era vista com freqüência a dar 
de mamar a um pequerrucho de poucos meses, empinando muito a 
barriga para a frente, pelo hábito de andar sempre grávida. A sua 
comadre Léonie continuava a visitá-la de vez em quando, aturdindo a 
atual pacatez daquele cenóbio com as suas roupas gritadoras. Uma 
ocasião em que lá fora, um sábado à tarde, produzira grande alvoroço 
entre os decanos da estalagem, porque consigo levava Pombinha, que 
se atirara ao mundo e vivia agora em companhia dela.
    Pobre Pombinha! no fim dos seus primeiros dois anos de casada já 
não podia suportar o marido; todavia, a principio, para conservar-se 
mulher honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espírito, os gostos rasos e 
a sua risonha e fatigante palermice de homem sem ideal; ouviu-lhe, 
resignada, as confidências banais nas horas intimas do matrimônio; 
atendeu-o nas suas exigências mesquinhas de ciumento que chora; 
tratou-o com toda a solicitude, quando ele esteve a decidir com uma 
pneumonite aguda; procurou afinar em tudo com o pobre rapaz; não lhe 
falou nunca em coisas que cheirassem a luxo, a arte, a estética, a 
originalidade; escondeu a sua mal-educada e natural intuição pelo que é 
grande, ou belo, ou arrojado, e fingiu ligar interesse ao que ele fazia, ao 
que ele dizia, ao que ele ganhava, ao que ele pensava e ao que ele 
conseguia com paciência na sua vida estreita de negociante rotineiro; 
mas, de repente, zás! faltou-lhe o equilíbrio e a mísera escorregou, 
caindo nos braços de um boêmio de talento, libertino e poeta, jogador e 
capoeira. O marido não deu logo pela coisa, mas começou a estranhar a 
mulher, a desconfiar dela e a espreitá-la, até que um belo dia, 
seguindo-a na rua sem ser visto, o desgraçado teve a dura certeza de 
que era traído pela esposa, não mais com o poeta libertino, mas com um 
artista dramático que muitas vezes lhe arrancara, a ele, sinceras lágrimas 
de comoção, declamando no teatro em honra da moral triunfante e 
estigmatizando o adultério com a retórica mais veemente e indignada.
    Ah! não pôde iludir-se!... e, a despeito do muito que amava à 
ingrata, rompeu com ela e entregou-a à mãe, fugindo em seguida para 
São Paulo. Dona Isabel, que sabia já, não desta última falcatrua da 


[Linha 7900 de 8202 - Parte 5 de 5]


filha, mas das outras primeiras, que bem a mortificaram, coitada! 
desfez-se em lágrimas, aconselhou-a a que se arrependesse e mudasse 
de conduta; em seguida escreveu ao genro, intercedendo por 
Pombinha, jurando que agora respondia por ela e pedindo-lhe que 
esquecesse o passado e voltasse para junto de sua mulher. O rapaz não 
respondeu à carta, e, daí a meses, Pombinha desapareceu da casa da 
mãe. Dona Isabel quase morre de desgosto. Para onde teria ido a 
filha?... "Onde está? onde não está? Procura daqui! procura daí!" Só a 
descobriu semanas depois; estava morando num hotel com Léonie. A 
serpente vencia afinal: Pombinha foi, pelo seu próprio pé, atraída, 
meter-se-lhe na boca. A pobre mãe chorou a filha como morta; mas, 
visto que os desgostos não lhe tiraram a vida por uma vez e, como a 
desgraçada não tinha com que matar a fome, nem forças para trabalhar, 
aceitou de cabeça baixa o primeiro dinheiro que Pombinha lhe mandou. 
E, desde então, aceitou sempre, constituindo-se a rapariga no seu único 
amparo da velhice e sustentando-a com os ganhos da prostituição. 
Depois, como neste mundo uma criatura a tudo se acostuma, Dona 
Isabel mudou-se para a casa da filha. Mas não aparecia nunca na sala 
quando havia gente de fora, escondia-se; e, se algum dos 
freqüentadores de Pombinha a pilhava de improviso, a infeliz, com 
vergonha de si mesma, fingia-se criada ou dama de companhia. O que 
mais a desgostava, e o que ela não podia tolerar sem apertos de coração, 
era ver a pequena endemoninhar-se com champanha depois do jantar e 
pôr-se a dizer tolices e a estender-se ali mesmo no colo dos homens. 
Chorava sempre que a via entrar ébria, fora de horas, depois de uma 
orgia; e, de desgosto em desgosto, foi-se sentindo enfraquecer e 
enfermar, até cair de cama e mudar-se para uma casa de saúde, onde 
afinal morreu.
    Agora, as duas cocotes, amigas inseparáveis, terríveis naquela 
inquebrantável solidariedade, que fazia delas uma só cobra de duas 
cabeças, dominavam o alto e o baixo Rio de Janeiro. Eram vistas por 
toda a parte onde houvesse prazer; a tarde, antes do jantar, 
atravessavam o Catete em carro descoberto, com a Juju ao lado; à noite, 
no teatro, em um camarote de boca chamavam sobre si os velhos 
conselheiros desfibrados pela política e ávidos de sensações extremas, 
ou arrastavam para os gabinetes particulares dos hotéis os sensuais e 
gordos fazendeiros de café, que vinham à corte esbodegar o farto 
produto das safras do ano, trabalhadas pelos seus escravos. Por cima 
delas duas passara uma geração inteira de devassos. Pombinha, só com 
três meses de cama franca, fizera-se tão perita no ofício como a outra; a 
sua infeliz inteligência, nascida e criada no modesto lodo da estalagem, 
medrou logo admiravelmente na lama forte dos vícios de largo fôlego; 
fez maravilhas na arte; parecia adivinhar todos os segredos daquela 
vida; seus lábios não tocavam em ninguém sem tirar sangue; sabia 
beber, gota a gota, pela boca do homem mais avarento, todo o dinheiro 
que a vitima pudesse dar de si. Entretanto, lá na Avenida São Romão, 
era, como a mestra, cada vez mais adorada pelos seus velhos e fiéis 
companheiros de cortiço; quando lá iam, acompanhadas por Juju, a 
porta da Augusta ficava, como dantes, cheia de gente, que as 
abençoava com o seu estúpido sorriso de pobreza hereditária e humilde. 


[Linha 7950 de 8202 - Parte 5 de 5]


Pombinha abria muito a bolsa, principalmente com a mulher de 
Jerônimo, a cuja filha, sua protegida predileta, votava agora, por sua 
vez, uma simpatia toda especial, idêntica à que noutro tempo inspirara 
ela própria à Léonie. A cadeia continuava e continuaria 
interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta 
naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de 
uma infeliz mãe ébria.
    E era, ainda assim, com essas esmolas de Pombinha, que na casa 
de Piedade não faltava de todo o pão, porque já ninguém confiava 
roupa à desgraçada, e nem ela podia dar conta de qualquer trabalho.
    Pobre mulher! chegara ao extremo dos extremos. Coitada! já não 
causava dó, causava repugnância e nojo. Apagaram-se-lhe os últimos 
vestígios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre ébria, 
dessa embriaguez sombria e mórbida que se não dissipa nunca. O seu 
quarto era o mais imundo e o pior de toda a estalagem; homens 
malvados abusavam dela, muitos de uma vez, aproveitando-se da 
quase completa inconsciência da infeliz. Agora, o menor trago de 
aguardente a punha logo pronta; acordava todas as manhãs apatetada, 
muito triste, sem animo para viver esse dia, mas era só correr à garrafa e 
voltavam-lhe as risadas frouxas, de boca que já se não governa. Um 
empregado de João Romão, que ultimamente fazia as vezes dele na 
estalagem, por três vezes a enxotou, e ela, de todas, pediu que lhe 
dessem alguns dias de espera, para arranjar casa. Afinal, no dia seguinte 
ao último em que Pombinha apareceu por lá com Léonie e deixou-lhe 
algum dinheiro, despejaram-lhe os tarecos na rua.
    E a mísera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no 
"Cabeça-de-Gato" que, à proporção que o São Romão se engrandecia, 
mais e mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais 
torpe, mais abjeto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da 
salsugem que o outro rejeitava, como se todo o seu ideal fosse 
conservar inalterável, para sempre, o verdadeiro tipo da estalagem 
fluminense, a legitima, a legendária; aquela em que há um samba e um 
rolo por noite; aquela em que se matam homens sem a polícia descobrir 
os assassinos; viveiro de larvas sensuais em que irmãos dormem 
misturados com as irmãs na mesma lama; paraíso de vermes, brejo de 
lodo quente e fumegante, donde brota a vida brutalmente, como de 
uma podridão.



XXIII


    À porta de uma confeitaria da Rua do Ouvidor, João Romão, 
apurado num fato novo de casimira clara, esperava pela família do 
Miranda, que nesse dia andava em compras.
    Eram duas horas da tarde e um grande movimento fazia-se ali. O 
tempo estava magnífico; sentia-se pouco calor. Gente entrava e saia, a 
passo frouxo, da Casa Pascoal. Lá dentro janotas estacionavam de pé, 
soprando o fumo dos charutos, à espera que desocupassem uma das 


[Linha 8000 de 8202 - Parte 5 de 5]


mesinhas de mármore preto; grupos de senhoras, vestidas de seda, 
faziam lanche com vinho do Porto. Respirava-se um cheiro agradável 
de essências e vinagres aromáticos; havia um rumor quente e garrido, 
mas bem-educado; namorava-se forte, mas com disfarce, furtando-se 
olhares no complicado encontro dos espelhos; homens bebiam ao 
balcão e outros conversavam, comendo empadinhas junto às estufas; 
algumas pessoas liam já os primeiros jornais da tarde; serventes, muito 
atarefados, despachavam compras de doces e biscoitos e faziam, sem 
descansar, pacotes de papel de cor, que os compradores levavam 
pendurados num dedo. Ao fundo, de um dos lados do salão, 
aviavam-se grandes encomendas de banquetes para essa noite, 
traziam-se lá de dentro, já prontas, torres e castelos de balas e trouxas 
d'ovos e imponentes peças de cozinha caprichosamente enfeitadas; 
criados desciam das prateleiras as enormes baixelas de metal branco, 
que os companheiros iam embalando em caixões com papel fino 
picado. Os empregados das secretarias públicas vinham tomar o seu 
vermute com sifão; repórteres insinuavam-se por entre os grupos dos 
jornalistas e dos políticos, com o chapéu à ré, ávidos de noticias, uma 
curiosidade indiscreta nos olhos. João Romão, sem deixar a porta, 
apoiado no seu guarda-chuva de cabo de marfim, recebia 
cumprimentos de quem passava na rua; alguns paravam para lhe falar. 
Ele tinha sorrisos e oferecimentos para todos os lados; e consultava o 
relógio de vez em quando.
    Mas a família do Barão surgiu afinal. Zulmira vinha na frente, com 
um vestido cor de palha justo ao corpo, muito elegante no seu tipo de 
fluminense pálida e nervosa; logo depois Dona Estela, grave, toda de 
negro, passo firme e ar severo de quem se orgulha das suas virtudes e 
do bom cumprimento dos seus deveres. O Miranda acompanhava-as de 
sobrecasaca, fitinha ao peito, o colarinho até ao queixo, botas de verniz, 
chapéu alto e bigode cuidadosamente raspado. Ao darem com João 
Romão, ele sorriu e Zulmira também; só Dona Estela conservou 
inalterável a sua fria máscara de mulher que não dá verdadeira 
importância senão a si mesma.
    O ex-taverneiro e futuro visconde foi, todavia, ao encontro deles, 
cheio de solicitude, descobrindo-se desde logo e convidando-os com 
empenho a que tomassem alguma coisa.
    Entraram todos na confeitaria e apoderaram-se da primeira mesa 
que se esvaziou. Um criado acudiu logo e João Romão, depois de 
consultar Dona Estela, pediu sanduíches, doces e moscatel de Setúbal. 
Mas Zulmira reclamou sorvete e licor. E só esta falava; os outros 
estavam ainda à procura de um assunto para a conversa; afinal o 
Miranda que, durante esse tempo contemplava o teto e as paredes, fez 
algumas considerações sobre as reformas e novos adornos do salão da 
confeitaria. Dona Estela dirigiu, de má, a João Romão várias perguntas 
sobre a companhia lírica, o que confundiu por tal modo ao pobre do 
homem, que o pôs vermelho e o desnorteou de todo. Felizmente, nesse 
instante chegava o Botelho e trazia uma noticia: a morte de um sargento 
no quartel; questão entre inferior e superior. O sargento, insultado por 
um oficial do seu batalhão, levantara a mão contra ele, e o oficial então 
arrancara da espada e atravessara-o de lado a lado. Estava direito! Ah! 


[Linha 8050 de 8202 - Parte 5 de 5]


ele era rigoroso em pontos de disciplina militar! Um sargento levantara 
a mão para um oficial superior!... devia ficar estendido ali mesmo, que 
dúvida!
    E faiscavam-lhe os olhos no seu inveterado entusiasmo por tudo 
que cheirasse a farda. Vieram logo as anedotas análogas; o Miranda 
contou um fato idêntico que se dera vinte anos atrás e Botelho citou 
uma enfiada deles interminável.
    Quando se levantaram, João Romão deu o braço a Zulmira e o 
Barão à mulher, e seguiram todos para o Largo de São Francisco, 
lentamente, em andar de passeio, acompanhados pelo parasita. Lá 
chegados, Miranda queria que o vizinho aceitasse um lugar no seu 
carro, mas João Romão tinha ainda que fazer na cidade e pediu 
dispensa do obséquio. Botelho também ficou; e, mal a carruagem 
partiu, este disse ao ouvido do outro, sem tomar fôlego:
    - O homem vai hoje, sabe? Está tudo combinado!
    - Ah! vai? perguntou João Romão com interesse, estacando no 
meio do largo. Ora graças! Já não é sem tempo!
    - Sem tempo! Pois olhe, meu amigo, que tenho suado o topete! 
Foi uma campanha!
    - Há que tempo já tratamos disto!...
    - Mas que quer você, se o homem não aparecia?... Estava fora! 
Escrevi-lhe várias vezes, como sabe, e só agora consegui pilhá-lo. Fui 
também à polícia duas vezes e já lá voltei hoje; ficou tudo pronto! mas 
você deve estar em casa para entregar a crioula quando eles lá se 
apresentarem...
    - Isso é que seria bom se se pudesse dispensar... Desejava não 
estar presente...
    - Ora essa! Então com quem se entendem eles?... Não! tenha 
paciência! é preciso que você lá esteja!
    - Você podia fazer as minhas vezes...
    - Pior! Assim não arranjamos nada! Qualquer dúvida pode 
entornar o caldo! É melhor fazer as coisas bem feitas. Que diabo lhe 
custa isto?... Os homenzinhos chegam, reclamam a escrava em nome da 
lei, e você a entrega - pronto! Fica livre dela para sempre, e daqui a 
dias estoura o champanha do casório! Hein, não lhe parece?
    - Mas...
    - Ela há de choramingar, fazer lamúrias e coisas, mas você põe-se 
duro e deixe-a seguir lá o seu destino!... Bolas! não foi você que a fez 
negra!...
    - Pois vamos lá! creio que são horas.
    - Que horas são?
    - Três e vinte.
    - Vamos indo.
    E desceram de novo a Rua do Ouvidor até ao ponto dos bondes 
de Gonçalves Dias.
    - O de São Clemente não está agora, observou o velho. Vou 
tomar um copo d'água enquanto esperamos.
    Entraram no botequim do lugar e, para conversar assentados, 
pediram dois cálices de conhaque.
    - Olhe, acrescentou o Botelho; você nem precisa dizer palavra... 


[Linha 8100 de 8202 - Parte 5 de 5]


faça como coisa que não tem nada com isso, compreende?
    - E se o homem quiser os ordenados de todo o tempo em que ela 
esteve em minha companhia?...
    - Como, filho, se você não a alugou das mãos de ninguém?!... 
Você não sabe lá se a mulher é ou era escrava; tinha-a por livre 
naturalmente; agora aparece o dono, reclama-a e você a entrega, porque 
não quer ficar com o que lhe não pertence! Ela, sim, pode pedir o seu 
saldo de contas; mas para isso você lhe dará qualquer coisa...
    - Quanto devo dar-lhe?
    - Aí uns quinhentos mil-réis, para fazer a coisa à fidalga.
    - Pois dou-lhos.
    - E feito isso - acabou-se! O próprio Miranda vai logo, logo, ter 
com você! Verá!
    Iam falar ainda, mas o bonde de São Clemente acabava de chegar, 
assaltado por todos os lados pela gente que o esperava. Os dois só 
conseguiram lugar muito separados um do outro, de sorte que não 
puderam conversar durante a viagem.
    No Largo da Carioca uma vitória passou por eles, a todo o trote. 
Botelho vergou-se logo para trás, procurando os olhos do vendeiro, a 
rir-se com intenção. Dentro do carro ia Pombinha, coberta de jóias, ao 
lado de Henrique; ambos muito alegres, em pândega. O estudante, 
agora no seu quarto ano de medicina, vivia à solta com outros da 
mesma idade e pagava ao Rio de Janeiro o seu tributo de rapazola rico.
    Ao chegarem à casa, João Romão pediu ao cúmplice que entrasse e 
levou-o para o seu escritório.
    - Descanse um pouco... disse-lhe.
    - É, se eu soubesse que eles se não demoravam muito ficava para 
ajudá-lo.
    - Talvez só venham depois do jantar, tornou aquele, 
assentando-se à carteira.
    Um caixeiro aproximou-se dele respeitosamente e fez-lhe várias 
perguntas relativas ao serviço do armazém, ao que João Romão 
respondia por monossílabos de capitalista; interrogou-o por sua vez e, 
como não havia novidade, tomou Botelho pelo braço e convidou-o a 
sair.
    - Fique para jantar. São quatro e meia, segredou-lhe na escada.
    Já não era preciso prevenir lá defronte porque agora o velho 
parasita comia muitas vezes em casa do vizinho.
    O jantar correu frio e contrafeito; os dois sentiam-se ligeiramente 
dominados por um vago sobressalto. João Romão foi pouco além da 
sopa e quis logo a sobremesa.
    Tomavam café, quando um empregado subiu para dizer que lá 
embaixo estava um senhor, acompanhado de duas praças, e que 
desejava falar ao dono da casa.
    - Vou já, respondeu este. E acrescentou para o Botelho: - São 
eles!
    - Deve ser, confirmou o velho.
    E desceram logo.
    - Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce, 
chegando ao armazém.


[Linha 8150 de 8202 - Parte 5 de 5]


    Um homem alto, com ar de estróina, adiantou-se e entregou-lhe 
uma folha de papel.
    João Romão, um pouco trêmulo, abriu-a defronte dos olhos e leu-a 
demoradamente. Um silêncio formou-se em torno dele; os caixeiros 
pararam em meio do serviço, intimidados por aquela cena em que 
entrava a polícia.
    - Está aqui com efeito... disse afinal o negociante. Pensei que 
fosse livre...
    - É minha escrava, afirmou o outro. Quer entregar-ma?...
    - Mas imediatamente.
    - Onde está ela?
    - Deve estar lá dentro. Tenha a bondade de entrar...
    O sujeito fez sina! aos dois urbanos, que o acompanharam logo, e 
encaminharam-se todos para o interior da casa. Botelho, à frente deles, 
ensinava-lhes o caminho. João Romão ia atrás, pálido, com as mãos 
cruzadas nas costas.
    Atravessaram o armazém, depois um pequeno corredor que dava 
para um pátio calçado, chegaram finalmente à cozinha. Bertoleza, que 
havia já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cócoras, no chão, 
escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando viu parar defronte 
dela aquele grupo sinistro.
    Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um 
calafrio percorreu-lhe o corpo. Num relance de grande perigo 
compreendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê 
perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua 
carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo 
coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro.
    Seu primeiro impulso foi de fugir. Mal, porém, circunvagou os 
olhos em torno de si, procurando escapula, o senhor adiantou-se dela e 
segurou-lhe o ombro.
    - É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a 
desgraçada a segui-los. - Prendam-na! É escrava minha!
    A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma 
das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de 
cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.
    Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam 
os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, 
recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um 
só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado.
    E depois embarcou para a frente, rugindo e esfocinhando 
moribunda numa lameira de sangue.
    João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazém, tapando 
o rosto com as mãos.
    Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma 
comissão de abolicionistas que vinha, de casaca! trazer-lhe 
respeitosamente o diploma de sócio benemérito.
    Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas.


FIM --- FIM --- FIM



...


O Cortiço - Parte 1 de 5 - Aluísio Azevedo
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O Cortiço - Parte 3 de 5 - Aluísio Azevedo
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