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terça-feira, 20 de novembro de 2018

Clara dos Anjos - Parte 2 de 3 - Lima Barreto


Clara dos Anjos - Parte 2 de 3 - Lima Barreto



Não saía quase. Era regra que só o fizesse duas vezes por ano: no dia 15 de agosto, 
em que subia o outeiro da Glória, a fim de deixar uma espórtula à Nossa Senhora de sua íntima 
devoção; e, no dia de Nossa Senhora da Conceição, em que se confessava. 


Levava sempre a filha e não a largava de a vigiar. Tinha um enorme temor que sua filha errasse, se perdesse...  

A não ser com ela, Clara, muito a contragosto da mãe, saía de casa para ir ao cinema, no Méier 
e Engenho de Dentro, e outras vezes -- poucas  -- para fazer compras nas lojas de fazendas, de 
sapatos e outras congêneres, acreditadas nos subúrbios.
Essa reclusão e, mais do que isso, a constante vigilância com que sua mãe seguia os 
seus passos, longe de fazê-la fugir aos perigos a que estava exposta a sua honestidade de 
donzela, já pela sua condição, já pela sua cor, fustigava-lhe a curiosidade em descobrir a razão 
do procedimento de sua mãe.
Clara via todas as moças saírem com seus pais, com suas mães, com suas amigas, 
passearem e divertirem-se, por que seria então que ela não o podia fazer?
A pergunta ficava sempre sem resposta, porque não havia meio, naquele isolamento 
em que vivia, de tudo e de todos, de encontrar a que cabia.
Engrácia, cujos cuidados maternos eram louváveis e meritórios, era incapaz do que é 
verdadeiramente educação. Ela não sabia apontar, comentar exemplos e fatos que iluminassem 
a consciência da filha e reforçassem-lhe o caráter, de forma que ela mesma pudesse resistir aos 
perigos que corria.
A mulher de Joaquim dos Anjos tinha a superstição dos processos mecânicos, daí o 
seu proceder monástico em relação à Clara.
Enganava-se com a eficiência dela; porque, reclusa, sem convivência, sem relações, a 
filha não podia adquirir uma pequena experiência da vida e notícia das abjeções de que está 
cheia, como também a sua pequenina alma de mulher, por demais comprimida, havia de se 
extravasar em sonhos, em sonhos de amor, de um amor extra-real, com estranhas reações 
físicas e psíquicas.
Acresce, ainda, que era geral em sua casa o gosto de modinhas. Sua mãe gostava, seu 
pai e seu padrinho também. Quase sempre havia sessões de modinhas e violão na sua 
residência. Esse gosto é contagioso e encontrava, no estado sentimental e moral de Clara, 
terreno propício para propagar-se, As modinhas falam muito de amor, algumas delas são 
lúbricas até; e ela, aos poucos, foi organizando uma teoria do amor, com os descantes do pai e 
de seus amigos. O amor tudo pode, para ele não há obstáculos de raça, de fortuna, de 
condição; ele vence, com ou sem pretor, zomba da Igreja e da Fortuna, e o estado amoroso é a 
maior delicia da nossa existência, que se deve procurar gozá-lo e sofrê-lo, seja como for. O 
martírio até dá-lhe mais requinte...          
As emolientes modinhas e as suas adequadas reações mentais ao áspero proceder da 
mãe tiraram-lhe muito da firmeza de caráter e de vontade que podia ter, tornando-a uma alma 
amolecida, capaz de render-se às lábias de um qualquer perverso, mais ou menos ousado, 
farsante e ignorante, que tivesse a animá-lo o conceito que os bordelengos fazem das raparigas 
de sua cor.
Cassi era dessa laia: entretanto, Clara, na sua justificável ignorância do mecanismo da 
nossa vida social, julgava que seus pais eram com ele injustos e grosseiros.
Depois do baile de seu aniversário, quinze ou vinte dias depois, num domingo, Cassi 
bateu à porta da casa de seus pais. Engrácia estava justamente arrumando a sala de visitas; 
recebeu-o com visível desgosto e gritou ara a cozinha, onde estava Clara:
-- Chama teu pai, que está ai "Seu" Cassi.
A moça ia se aproximar para falar ao modinheiro, quando a mãe lhe disse 
rapidamente:
-- Vá chamar seu pai! Ande!


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Joaquim não custou a vir; e, após os cumprimentos, dirigiu-se ao rapaz:
-- Que é que manda nesta casa, meu caro senhor?
-- Nada. Fui visitar um amigo e, passando pela sua porta, resolvi cumprimentá-lo.
-- Muito obrigado. A partida de solo está fervendo e eu não me posso demorar.
Cassi olhou um instante, com seu olhar mau, o velho mulato; mas a nada se atreveu. 
Estiveram calados dois ou três minutos um diante do outro, até que o famoso violeiro tomou o 
alvitre de despedir-se. Clara veio saber da cena, pela narração que seu pai fez à sua mãe, e 
ficou aborrecida, cheia de desgostos com eles e com a situação em que estava, imposta por 
eles, para o seu sofrimento.
Avaliou em algum ressaibo de revolta o procedimento dos pais. O que queriam fazer 
dela? Deixá-la ficar para "tia" ou fazê-la freira? E ela precisava casar-se? Era evidente; sua mãe 
e seu pai tinham, pela força das coisas, que morrer antes dela; e, então, ela ficaria pelo mundo 
desamparada? Cochichavam que Cassi era isto e era aquilo, Dona Margarida e o padrinho 
eram os que mais mal falavam dele; que era um devasso, um malvado, um desencaminhador 
de donzelas e senhoras casadas. Como ele poderia ser tanta coisa ruim, se freqüentava casas de 
doutores, de coronéis, de políticos? Naturalmente havia nisso muita inveja dos méritos do 
rapaz, em que ela não via senão delicadeza e modéstia e, também, os suspiros e os dengues de 
violeiro consumado.
Uma dúvida lhe veio; ele era branco; e ela, mulata. Mas que tinha isso? Havia tantos 
casos... Lembra-se de alguns... E ela estava tão convencida de haver uma paixão sincera no 
valdevinos, que, ao fazer esse inquérito, já recolhida, ofegava, suspirava, chorava; e os seus 
seios duros quase estouravam de virgindade e ansiedade de amar.
De resto, era preciso libertar-se, passear, conhecer a cidade, teatros, cinemas... Ela 
não conhecia nada disso. Até ir de um pulo à venda do "Seu" Nascimento não tinha licença. 
Um dia, por inadvertência, faltou sal para preparar o jantar; pois, nem mesmo assim, teve 
licença de ir à venda, e sua mãe não foi, para não deixá-la só, Tiveram de esperar uma hora, até 
que o caixeiro passasse. Entretanto, o armazém do "Seu" Nascimento não era mal freqüentado, 
e todos que lá paravam eram pessoas de certa consideração e sem pecha alguma. Esta última 
observação de Clara era inteiramente verdadeira.
Mesmo a Rosalina, mais conhecida pelo apelido pejorativo de Mme. Bacamarte, 
apesar da vida má e desgraçada que levava, no armazém se portava com todo o rigor. Era 
verdadeiramente infeliz, essa rapariga. Seduzida em tenra idade, a polícia obrigou o sedutor a 
casar-se com ela. Nos três primeiros anos, as coisas correram mais ou menos naturalmente. Ao 
fim deles, devido a reveses, o marido começou a embirrar com ela, a atribuir-lhe toda a sua 
desgraça, a espancá-la, mas dando alguma coisa com que ela se sustentasse e aos filhos. Já 
bebia, o marido dela; e, por esse tempo, fazia-o sem método nem medida. Bebia a mais não 
poder, em casa, nos botequins, em toda a parte. Faltava à oficina para beber. Rosalina "pegou" 
o vicio do marido e, do pouco dinheiro que ele lhe dava ou com o seu trabalho obtinha, 
comprava parati. O marido devia seis meses de casa --  um modesto barracão de madeira, com 
uma sala, um quarto e um pequeno adendo para a cozinha. O senhorio perseguia-o; ele fugia e 
deixava com a mulher o encargo de explicar os atrasos. Um belo dia, ela vê entrar o 
proprietário com dois homens. Nada dizem. Encostam sua escada no telhado e destelham a 
choupana. Deixou tudo o que tinha na mão dos desalmados. Pede a uma vizinha que fique 
com um filho; e uma outra, que fique com o mais moço, e correu a atirar-se debaixo do 
primeiro trem que passou. Sofreu escoriações e fraturas em um braço e uma perna; mas os 
médicos da Santa Casa conseguiram salvá-la. Saiu renovada, e o seu rostinho de mulatinha 
sapeca tinha recuperado um pouco o viço e a petulância que devia ter pela puberdade.
Os filhos, a mãe -- uma pobre lavadeira -- os tinha recolhido; e o marido nunca mais o 
vira. Em começo, portou-se bem; mas bem depressa foi correndo de mão em mão, até que as 
moléstias venéreas a tomaram de todo, obrigando-a a visitas constantes à Santa Casa, para 


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levar injeções e sofrer operações. Proibida de beber, não obedecia à prescrição médica. 
Quando não tinha dinheiro, obtido de que maneira fosse, esperava pacientemente que as suas 
galinhas ou as de sua mãe, com quem morava, "pusessem", e logo corria à venda a trocá-los, 
por duzentos ou trezentos réis de parati.
Ela, porém, não fazia "ponto" no armazém do "Seu" Nascimento. Educado e criado 
na roça, tendo negociado no interior do Estado do Rio, onde ainda tinha fazenda, ele gostava 
que pessoas de certa ordem fossem ao seu negócio ler os jornais e conversar -- hábito do 
interior, como todos sabemos.  A sua venda tinha até aqueles tradicionais tamboretes de abrir 
e fechar das antigas vendas e ainda são conservados nos armazéns roceiros. Demais, a sua casa 
de negócio ficava num lugar pitoresco, calmo, pouco transitado, diante das velhas árvores da 
chácara de Mr. Quick Shays e olhando para uns cumes caprichosos de montanhas distantes. 
Compravam muitas pessoas, para as quais tinha freguesia certa.
Um deles era o Alípio, um tipo curioso de rapaz que, conquanto pobre e ter amor à 
cachaça, não deixava de ser delicado e conveniente de maneiras, gestos e palavras. Tinha um 
aspecto de galo de briga; entretanto, estava longe de possuir a ferocidade repugnante desses 
galos malaios de rinhadeiro, não possuindo -- convém saber-se -- nenhuma. Sem ser instruído, 
não era ignorante; mas era inteligente e curioso de invenções e aperfeiçoamentos mecânicos.
O velho Valentim era um outro freqüentador da venda, muito curioso e pitoresco. 
Português, com muito mais de sessenta anos, não deixava de trabalhar, chovesse ou fizesse sol. 
Era chacareiro e, devido talvez ao ofício, que ele o devia exercer há bem perto de quarenta 
anos, tinha o corpo curvado de modo interessante. Não se sabia se era para trás ou para diante; 
fazia uma espécie de S, em que faltassem as extremidades.
Contava longos "casos" que não se acabavam mais, especialmente o João de 
Calais  -- como ele pronunciava --, pontilhando a sua longa e enfadonha narração, com rifões 
portugueses de uma graça saborosa e uma filosofia saloia. Era o que se aproveitava da sua 
conversa.
Aparecia, também, em certas ocasiões, o Leonardo Flores, poeta, um verdadeiro 
poeta, que tivera o seu momento de celebridade no Brasil inteiro e cuja influência havia sido 
grande na geração de poetas que se lhe seguiram. Naquela época, porém, devido ao álcool e 
desgostos íntimos, nos quais predominava a loucura irremediável de um irmão, não era mais 
que uma triste ruína de homem, amnésico, semi-imbecilizado, a ponto de não poder seguir o 
fio da mais simples conversa. Havia publicado cerca de dez volumes, dez sucessos, com os 
quais todos ganharam dinheiro, menos ele, tanto assim que, muito pobremente, ele, mulher e 
filhos agora viviam com o produto de uma mesquinha aposentadoria sua, do governo federal.
Raro era sair, porque a mulher punha todo o esforço em que ele o não fizesse. 
Mandava buscar parati, comprava-lhe os jornais de sua estimação, a fim de que ele 
permanecesse em casa. As mais das vezes, ele obedecia; mas, em algumas raras, recalcitrava, 
saia, com quinhentos réis em cobre, na algibeira, bebia aqui, ali, dormia debaixo das árvores 
das estradas e ruas pouco freqüentadas, e, mesmo, quando o delírio alcoólico o tornava forte, 
despia-se todo e gritava heroicamente numa doentia e vaidosa manifestação de personalidade:
-- Eu sou Leonardo Flores.
O povo sabia vagamente que ele tinha celebridade. Chamava-o -- o poeta. No 
começo, caçoava com ele, mas ao saber de sua reputação, deram em cercá-lo de uma piedosa 
curiosidade.
-- Um homem desses acabar assim -- que castigo! -- dizia um.
-- É "cosa" feita! Foi inveja da "inteligença" dele! -- dizia uma preta velha. -- Gentes 
da nossa "cô" não pode "tê inteligença"! Chega logo os "marvado" e lá vai reza e "fetiço", "pá 
perdê" o homem -- rematava a preta velha.
Aparecia um circunstante mais prático na sua piedade, vestia novamente o poeta e 
levava-o para a casa.


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Era justamente a ele, Leonardo Flores, que o doutor Meneses procurava, quando, 
naquela manhã de dia santo e não feriado, entrou na venda de "Seu" Nascimento, mancando, 
devido à inchação das pernas, e com as suas barbas brancas, abundantes, mas não cerradas, 
aparadas e tratadas à imitação do nosso último Imperador.
O doutor Meneses galgou a soleira da porta com esforço; parou um instante, logo que 
se viu no interior da venda, pôs as mãos nas cadeiras e respirou com força.
Após os cumprimentos, perguntou:
-- O Flores não tem aparecido?
-- Há muito tempo que não vem aqui -- fez o "Seu" Nascimento do interior do balcão.
-- Fui à casa dele, e disse-me a mulher que havia saído... Preciso tanto dele...
Ao dizer isto, sentava-se no tamborete que o caixeiro lhe abrira e o pusera onde ele 
estava, o dentista.
Descansou mais um pouco, sorveu mais uma forte dose de ar e, dirigindo-se ao 
Alípio, perguntou:
-- Como vai você, Alípio? 
Só estavam na venda Alípio e o velho Valentim, este em pé, encostado ao umbral de 
uma porta lateral; e aquele, sentado, lendo um jornal.
Alípio respondeu:
-- Vou bem; não tão bem como o senhor, que anda agora em companhia de 
"almofadinhas" artistas.
-- Como? -- fez espantado o dentista particular. 
-- É o que dizem. Corre aqui que o senhor está toda a noite com o mestre-violeiro 
Cassi e vários companheiros, num botequim do Engenho Novo.
-- É verdade. São todos rapazes decentes, que...
-- Então, o Cassi, este é de colete?
-- Dizem -- interveio "Seu" Nascimento -- que esse rapaz...
-- É um bandido -- acudiu Alípio. -- Ele merecia mais do que cadeia; merecia ser 
queimado vivo. Tem desgraçado mais de dez moças e não sei quantas senhoras casadas.
-- Isto é calúnia! -- protestou Meneses. -- Fala-se muito por aí...        
-- Que o quê! Os processos têm corrido, os jornais têm publicado, e ele arranja meios 
e modos, para livrar-se das penalidades e lançar na desgraça moças e senhoras -- confirmou 
Alípio.
-- Como ele consegue isso? -- indagou "Seu" Nascimento.
-- No começo, com a proteção do pai. Ao fim do segundo ou terceiro caso que veio a 
público, o pai não lhe falou mais e nunca mais se interessou pela sua liberdade. Sucederam-se 
outros, e, graças à intervenção da mãe junto a um irmão, médico do Exército, ele pôde arranjar 
rábulas sem escrúpulos, que, pelos meios mais nojentos, conseguiram retirá-lo das grades da 
detenção. Caluniava as vítimas com justificações em que eram testemunhas Timbó, Arnaldo e 
outros tais. Contou-me a Vicência -- o senhor não a conhece, "Seu" Nascimento? -- perguntou 
Alípio.
-- Quem é? -- perguntou por sua vez o taberneiro.
-- É aquela crioula velha que vem aqui, às vezes, fazer compras, para a casa do Maior 
Carvalho. Ela foi empregada na casa do pai de Cassi muito tempo. Um dia -- ela não sabe bem 
por quê -- o pai expulsou-o de casa. A mãe mandou-o para a casa do irmão em Guaratiba. Lá, 
ele fez ou pretendeu fazer uma das suas, mas o tio não esteve pelos autos; despachou-o para a 
irmã. A muito custo, a mãe conseguiu que ficasse num porão dos fundos, que mal tem a altura 
dele, Nesse "socavão" é que ele mora e come. Nunca  sobe nas dependências superiores da 
casa, com medo do pai. Se, por acaso, este tiver notícia dessa sua ousadia, põe-no 
definitivamente na rua.
-- Que diz a isso, doutor Meneses? -- chasqueou Nascimento.


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-- Não sei, porque pouco me preocupo com a vida dos outros -- tergiversou Meneses.
-- Não é da vida dos outros -- fez impetuosamente Alípio -- ; é com a vida de um 
pirata como Cassi, que não respeita família, nem amizades,  nem a miséria, nem a pobreza, 
para fazer das suas porcarias. É por isso que eu... 
"Seu" Nascimento interveio suasoriamente e pediu calma. Era um homem alto, claro, 
um tanto obeso, tipo do antigo agricultor patriarcal, das nossas velhas fazendas. Ele assim 
disse:
-- Não é necessário indignar-se, Alípio, fique calmo. O monstro não tem mais 
protetores, como você já disse.
-- Tem, "Seu" Nascimento -- afirmou Alípio. -- Ele é esperto, "é manata escovado".   
-- Quem é, Alípio? -- perguntou Nascimento, indo servir de açúcar a um pequeno.
Os fregueses continuavam a chegar; em geral, eram crianças e mulheres. As suas 
compras eram pobres: dois tostões disso, quatrocentos réis daquilo -- compras de gente pobre, 
em que raramente se via nelas incluído meio quilo de carne-seca ou um de feijão. Tudo não 
excedia a tostões. Mesmo atendendo aos fregueses, sozinho, pois os caixeiros tinham ido 
correr a clientela fixa do armazém, "Seu" Nascimento não perdia o fio da conversa, e ela 
continuava naturalmente.
Alípio, habituado a isso, não suspendeu a narração e deu a resposta pedida.
-- O protetor dele, agora, é um tal Capitão Barcelos, chefe político na estação de***. 
Tem influência e foi por saber disso que Cassi aderiu a ele. Já nessa última eleição para uma 
vaga de intendente, ele funcionou com o seu rancho ao lado de Barcelos. Não houve 
desordens, porque não apareceu outro candidato; mas ele queria fazer uma para ganhar 
prestígio. Assim e aos poucos, vai ganhando a confiança de Barcelos, a ponto do Freitas, que é 
o subcabo deste, sentir-se magoado e preterido.
-- Quem é esse Barcelos? -- fez Nascimento.
-- É um português, já com seus cinqüenta anos, bom, bom mesmo; mas, tendo ido 
para a detenção, pronunciado que estava devido a uns tiros que dera em um sujeito, por lhe ter 
insultado a mulher, produzindo no meliante ferimentos graves, isto há vinte anos, ganhou lá o 
gosto pela política e lá aprendeu as primeiras noções dessa difícil ciência. Foi na detenção 
que...
-- Ué! -- exclamou Nascimento.
-- Também você, Alípio... -- fez duvidoso Meneses.
Alípio continuou:
-- Lá, ele encontrou um político daqui da Capital, que estava na chácara, a responder 
processo, como mandante de um assassínio. O homem aproximou-se de Barcelos, e puseram-se 
a conversar. Não estavam no cubículo; estavam na enfermaria, ou na sala livre, ou em outro 
compartimento especial. Barcelos narrou sua vida, que, apesar daquele transtorno, não corria.
-- Mas, "Seu" Alípio, o senhor acredita que haja gente tão malvada, como esse Cassi?
-- Há, e não pouca. Sei de tudo que contei de fonte limpa. É a pura verdade.
O doutor Meneses tinha ficado aborrecido com o tom da conversa. Tinha ido à 
venda, procurar Leonardo Flores, para um negócio particular; e encontrara o Alípio a par das 
suas relações com Cassi e inteirado da vida deste. Diabo! Estaria se comprometendo? Havia já 
tomado quatro copitos de parati; mas, quando se despediu, tomou um grande. Caminhando 
pôs-se a pensar;
-- Que devia fazer?
Pegou diversas hipóteses e concluiu:
-- Ir até o fim.
A coisa não oferecia nenhum perigo para ele...
Isso não o contentou de todo. Procurou distrair-se.



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          VI

A recepção que tivera Cassi, na sua segunda visita, seca, hostil, quase sendo 
despedido à soleira da porta, ao contrário da primeira vez que fora à casa de Joaquim dos 
Anjos, fizera-o meditar e açulara-lhe o desejo de remover todos os obstáculos que se opunham 
à sua aproximação de Clara. Por exclusão, ele só viu duas pessoas capazes de lhe estarem 
atrasando seu "trabalho", começado com tanta rapidez e sem esforço. Quem eram? Só podiam 
ser Dona Margarida, por causa do "negócio" do Timbó; e o tal aleijado, que lhe lançara a 
indireta, em verso, de chamá-lo de burro.
Se na sedução, propriamente, ele não empregava absolutamente força, no que era o 
contrário dos conquistadores suburbanos, a ponto dos jornais noticiarem, de quando em 
quando, o desespero das vítimas que se fazem assassinas, para se defenderem de tão torpes 
sujeitos; Cassi, entretanto, quando no decorrer de suas conquistas, encontrava obstáculos, 
fosse mesmo da parte do próprio irmão da vítima em alvo, logo procurava empregar violência, 
para arredá-lo.
É bem de ver que ele sabia com quem se metia; mas, no caso, tratando-se de um 
quase inválido, a força a empregar seria mínima; e, no que toca a Dona Margarida, ele saberia 
enganá-la e embaí-la.
A sua força de valente e navalhista era mais fama do que realidade; mas tinha fama, 
e muitos se intimidavam. Dava-lhe isso um ascendente sobre os que, de boa fé e 
honestamente, podiam prevenir as moças que ele cobiçava, não as prevenindo, não as 
avisando, não o desmascarando totalmente. Cheios de temor, deixavam o caminho franco ao 
modinheiro.
A tal respeito, com o seu cinismo de sedutor de quinta ordem, tinha uma oportuna 
teoria, condensada numa sentença: "não se pode contrariar dois corações que se amam com 
sincera paixão."
Colocando ao lado dessa teoria, bem sua, a consideração de que não empregava 
violência nem ato de força de qualquer natureza, ele, na sua singular moral de 
amoroso-modinheiro, não se sentia absolutamente criminoso, por ter até ali seduzido cerca de 
dez donzelas e muito maior número de senhoras casadas. Os suicídios, os assassínios, o 
povoamento de bordéis de todo o gênero, que os seus torpes atos provocaram, no seu parecer, 
eram acontecimentos estranhos à sua ação e se haviam de dar de qualquer forma. Disso, ele 
não tinha culpa.
Para certificar-se quem era que, na casa do "carteiro", fermentava o seu descrédito, 
Cassi resolveu ir sondar Lafões, em sua casa.
Lafões morava bem próximo do reservatório do Engenho de Dentro. Uma tarde, 
Cassi tomou o bonde de Piedade, que, para ir a essa estação, logo após o Méier, interna-se para 
os lados da serra, toma ruas despovoadas e, por fim, a do Engenho de Dentro. O caminho era 
então pitoresco, não só pelos restos de capoeira grossa que ainda havia, mas também pelas 
casas roceiras de varanda e pequenas janelas de outros tempos. Caminho de "tropa", talvez, os 
engenheiros da Light só se deram ao trabalho de fazer sumários nivelamentos. Os altos e 
baixos, os atoleiros e atascadeiros, consolidados com gravetos e varreduras de capinas, 
transformaram o caminho do bonde, naquele trecho, numa montanha-russa, com a lembrança, 
de um lado e outro, do espetáculo do que seriam ou do que são os caminhos do nosso interior, 
pelos quais nos chegam os cereais e a carne que comemos.         
Às vezes, o bonde cruzava com uma tropa de carvoeiros de Jacarepaguá, da Serra do 
Mateus e outras localidades ainda com florestas aproveitáveis; e tínhamos uma imagem mais 
viva. Os tropeiros eram gente de sangue muito mesclado, ossudos, jarretes nervosos e finos, 
pés espalmados, às vezes de feições regulares, mas sempre cobertos de barbas maltratadas e de 
uma insondável tristeza. Não eram só homens feitos; havia crianças também, a guiar os burros em fila


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Quando o bonde apontava a sacolejar as suas ferragens, estourando que nem um 
besouro, avisando-os da sua presença próxima com o zunido contínuo do tímpano, ou, senão, 
com um apito, ao grito de locomotiva, aqueles homens, vivendo tão perto da terra e da 
natureza espontânea, não deixavam de se assustar e tomar precauções, para sua segurança e 
dos seus pacientes animalejos. Encostavam bem a tropa a uma ribanceira lateral da rua, quando 
na encosta; ou afastavam-se para o lado, se havia terreno baldio e sem cerca, quando ela era 
planície; e ficavam pasmos, diante daquele monstro zunidor que se movia por intermédio de 
um grosso fio de arame. Os burros, quer num, quer noutro caso, permaneciam indiferentes e 
punham-se a roer a erva escassa do campo ou a pastar a folhagem que lhes dava sombra e 
crescia no alto da chanfradura do corte.
Chegou Cassi Jones à casa de Lafões quase à noite, Era uma pequena casa, mas bem 
tratada e limpa. O pequeno jardim na frente merecia cuidados e, no quintal, aos fundos, 
cresciam couves e repolhos, a dar saudades de um bom caldo à portuguesa.
Lafões, por aquelas horas, após o jantar, tinha por hábito pôr-se em camisa de meia, 
tamancos e calça, e completar a leitura do jornal que iniciara pela manhã. Sentava-se a uma 
cadeira de balanço, austríaca, que a punha bem junto à janela, tendo, à esquerda, uma cadeira, 
em que repousavam o isqueiro (não usava fósforo) e os cigarros "Fuzileiros".
Estava assim, naquela postura, e enrolava melhor um cigarro pacientemente, quando 
lhe bateram no portão de ripas de madeira. Ergueu um tanto o busto e, pondo um pouco a 
cabeça à mostra, quase rente ao peitoril da janela, perguntou:
-- Quem é?
Reconheceu logo:
-- É o Senhor Cassi.
Ergueu-se e foi ao encontro dele, abrindo a porta de entrada. Tomou-lhe o chapéu 
pelintra, a bengala ultra-aperfeiçoada e foi dizendo prazenteiramente:
-- Por aqui? Sente-se, ora esta! Seja bem-vindo!
O rapaz sentou-se, respondendo:
-- Muito obrigado, meu caro "Seu" Lafões.
-- Por que não aparece mais vezes, Senhor Cassi? -- continuou Lafões com amizade.
-- Não tenho tido tempo. Nos dias da semana, são os negócios; nos domingos, não 
dou para os convites. Eu vinha aqui...
-- Para quê, Senhor Cassi?
-- Pedir-lhe uma informação.
-- Qual é, Senhor Cassi?
-- Disseram-me que, no seu escritório, o inspetor está admitindo escreventes, para não 
sei que serviço extraordinário. O senhor não podia saber se isto é verdade?
-- Pois não. Indago ao Braga, que é contínuo, vivo que nem azougue, e sabe de tudo 
que lá se passa -- explicou Lafões.
-- Quando posso vir buscar a resposta?
-- Olhe, Senhor Cassi: amanhã, à tarde, não, porque tenho que ir à sessão da minha 
sociedade; mas, se tem pressa, pode vir depois de amanhã, logo pelas sete ou oito horas.
-- Bem -- fez Cassi, simulando contentamento. -- Desde já agradecido. Como vão sua 
senhora e seus filhos?
-- Bem. A mulher saiu mais o mais moço; foram a não sei que ladainha por ai. É um 
inferno! Estes padres têm invadido estes subúrbios com mais rapidez que os "turcos" de 
prestações. É dinheiro para esse santo, é dinheiro para as obras da igreja... Não posso mais! 
Edméia, porém, está lá no fundo do quintal. Quer tomar café, Senhor Cassi?
-- É incômodo... Se a sua senhora estivesse, sim; mas...
-- Não há incômodo algum. Edméia o aquece no espírito... Só se o Senhor Cassi não 


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gosta aquecido?
-- Gosto.
-- Pois bem, vamos a ele -- e gritou pela filha, com possante voz de homem 
são: -- Edméia! Edméia!
Não tardou em aparecer a filha. Era uma gentil menina de doze anos, risonha, com 
uma fisionomia redonda de traços firmes e finos, cabelos tirando para o louro, cortados à 
inglesa. Entrando, exclamou logo:
-- Oh! Estava aqui "Seu" Cassi. Que surpresa! Não sabia...
Falou ao rapaz e este lhe disse a esmo;
-- Há muito que não a via.
-- É verdade, desde o dia de anos de Clarinha... Tem ido lá?
-- Não tenho podido.
-- Por quê? Parece que lá não gostam do senhor... Principalmente aquele "pé-pe"...
-- Menina -- ralhou-lhe o pai. -- Não te metas a intrigar os outros... Vá aquecer o café 
e traze-nos duas xícaras. Vá.
Saindo a menina, Cassi julgou de bom alvitre, para preencher o fim verdadeiro de sua 
visita, dizer;
-- Podem não gostar de mim. Mas a implicância é sem motivo. Nunca...
-- Ora, Senhor Cassi, o senhor vai dar ouvido a crianças. Elas não sabem o que 
dizem.
-- Agora, meu caro "Seu" Lafões, eu notei no dia da festa que o compadre do Senhor 
Joaquim dos Anjos não me tragava -- disse Cassi.
-- Isto se explica. Ele foi ou é poeta e tem em conta de coisa nenhuma os cantadores 
de modinhas. Lá na minha terra, os poetas fidalgos e das idalgas não tragam os fadistas do 
campo, aos quais chamam de rústicos e outras coisas piores. Em cada ofício, há sempre disso. 
O senhor não vê como os cocheiros desprezam os barbeiros? Cocheiro que não presta é 
barbeiro. Marramaque, velho, doente, não sabe disfarçar o seu mau juízo pelos que apreciam o 
violão e o tocam, cantando modinhas.
-- Mas... o "Seu" Joaquim?
-- É que eles são compadres e amigos, meu caro Senhor Cassi, Está explicado.
Vieram as xícaras de café e a conversa tomou outro rumo. Falaram sobre as festas 
próximas do centenário da Independência, sobre o crise financeira, mas Cassi em nada disso 
pensava. Pensava em Marramaque, o audacioso aleijado, que queria se intrometer no seu amor 
por Clara. Pagaria bem caro. Despediu-se em breve e, lentamente, deixou-se ir a pé subúrbios 
abaixo. Eram estranhos aquele ódio e aquela obstinação. Cassi não era absolutamente, nem 
mesmo de forma elementar, um amoroso. A atração por uma  qualquer mulher não lhe 
desdobrava em sentimentos outros, às vezes contraditórios, em sonhos, em anseios e 
depressões desta ou daquela natureza. O seu sentimento ficava reduzido ao mais simples 
elemento do Amor -- a posse. Obtida esta, bem cedo se enfarava, desprezava a vítima, com a 
qual não sentia ter mais nenhuma ligação especial; e procurava outra.
A sua instrução era mais que rudimentar; mas, assim mesmo, talvez devido a uma 
necessidade íntima de desculpar-se, gostava de ler versos líricos, principalmente os de amor. 
Não lia jornais, nem coisa alguma; mas, num retalho apanhado aqui, num almanaque acolá, 
num livro que lhe ia ter às mãos, sem saber como, conseguia ler alguns e os entender pela 
metade. Deles, desses sonetos e mais poesias que, por acaso, iam parar em seu poder, ele 
concluía, com a sua estupidez congênita, com a sua perversidade inata, que tinha o direito de 
fazer o que fazia, porque os poetas proclamam o dever de amar e dão ao Amor todos os 
direitos, e estava acima de tudo a Paixão. Vê-se bem que ele não sentia nada do que, poetas 
medíocres que o guiavam nas suas torpezas, falavam; e, sem querer apelar para grandes ou 
pequenos poetas, percebia-se perfeitamente que nele não havia Amor de nenhuma natureza e 


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em nenhum grau. Era concupiscência aliada à sórdida economia, com uma falta de senso moral 
digna de um criminoso nato -- o que havia nele.
O verdadeiro estado amoroso supõe um estado de semiloucura correspondente, de 
obsessão, determinando uma desordem emocional que vai da mais intensa alegria até à mais 
cruciante dor, que dá entusiasmo e abatimento, que encoraja e entibia; que faz esperar e 
desesperar, isto tudo, quase a um tempo, sem que a causa mude de qualquer forma.
Em Cassi, nunca se dava disso. Escolhida a vítima de sua concupiscência, se, de 
antemão, já não as sabia, procurava inteirar-se da situação dos pais, das suas posses e das suas 
relações. Em seguida, tratava de encontrar-se com ela num baile ou uma sala de festas e 
impressioná-la com os seus dengues no violão. Se percebia que tinha obtido algum sucesso, 
esforçava-se em reiterar os encontros nos cinemas, nos bondes, nas estações, e, na ocasião 
propícia, pespegava-lhe a carta fatal. Isto tudo era feito com muita calma e discernimento, 
pacientemente, sem ser perturbado em nenhum movimento de impaciência ou arrebatamento. 
Se a moça ou a senhora aceitava-lhe os galanteios e as cartas, ele tinha o final como certo; se 
não, ele não perdia tempo, abandonava os esforços preliminares e  esperava que outra mais 
suasória aparecesse.
No caso de Clara, ele não estava disposto a acreditar que se houvesse dado a 
primeira hipótese, porquanto lhe davam certeza disso o embevecimento com que o ouvira 
cantar, na noite da festa dos anos dela, e a insistência que mostrara em vir falar com ele, 
quando lhe foi à casa do pai pela segunda e última vez. O que lhe parecia, por indícios aqui e 
ali, é que alguém se havia interposto entre ele e ela, "entre dois corações que se amam", 
denunciando aos pais dela os seus maus precedentes de conquistador contumaz, de forma a 
trancarem-lhe aqueles as portas de sua casa, a ele, Cassi.
Agora mesmo, tivera a confirmação dessa suspeita com a ingênua denúncia de 
Edméia, a filha de Lafões, de que Marramaque, padrinho de Clara, não gostava dele. Era, 
portanto, prevenir-se contra as "intrigas" do aleijado e arredá-lo de vez. Cassi sabia que, quase 
sempre, Marramaque parava na venda do "Seu" Nascimento, quando vinha do trabalho. Lá 
ficava bebericando com outros, até que o negócio se fechasse. A ele, Cassi, não convinha ir 
por todos os motivos; Timbó não podia também, por ser muito conhecido na localidade, 
devido à surra que levara; Zezé Mateus era um idiota. Quem iria, então, sondar aquele terreno? 
O Arnaldo, que não era conhecido no local, nem sabidas eram as suas relações com ele. Muito 
a contragosto, dirigiu-se para a casa dos pais. Não tinha dinheiro que prestasse, para "escorvar" 
o jogo.
O seu "socavão" doméstico ficava bem debaixo da sala de jantar da casa, que aí 
acabava o seu corpo principal. As dependências restantes ocupavam um puxado longo. 
Quando ele entrou, percebeu que na sala de jantar, além do pai, mãe e irmãs, havia alguém que 
não era de hábito e dissera, ouvindo-lhe os passos:
-- Há alguém aí?
-- É Cassi -- dissera a mãe.
-- Ele não sobe aqui? -- perguntou a visita.
Todos se calaram e se entreolharam, enquanto o velho Manuel de Azevedo explicava 
o fato em quatro palavras:
-- Você queria, Augusto, que eu, chefe de família, que prezo a honra das filhas dos 
outros como a das minhas, deixasse semelhante miserável sentar-se ao meu lado? Se não o pus 
de todo para a rua, foi devido à mãe.
-- Você tem razão, mano; mas tudo isto que se diz dele pode ser calúnia.
-- É também o meu pensamento, Augusto -- falou Dona Salustiana. 
As moças se haviam calado por pudor, mas o velho Azevedo cortou de vez o 
argumento da mulher e do irmão:
-- Você não leu esses papéis escritos a máquina, que mandaram a você, dois dias após 


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você chegar, para o hotel?
-- Li.
-- Leu as datas, a narração dos fatos, as cartas?
-- Li, também, mas o tempo... 
-- Pois tudo é verdade; e ninguém mais do que eu, infelizmente, pode assegurar isso. 
Em menos de dez anos, esse meu indigno filho fez tudo isso. Não o posso negar em sã 
consciência. Se não posso... 
Ao entrar, Cassi, tendo percebido que a conversa ia versar sobre ele, colocou-se de 
ouvido atento, embaixo da janela, nada perdendo e conseguindo ouvir esse trecho em que 
tomava parte o seu tio Augusto, irmão de seu pai, que, havia muito tempo, andava destacado 
numa alfândega do Norte. Quando o velho Manuel de Azevedo falou em papéis escritos a 
máquina, trazendo indicações de datas e a narração dos fatos de suas complicações com a 
polícia e a justiça, Cassi assustou-se. Quem estaria fazendo aquele trabalho surdo? Não era a 
primeira vez que tivera notícia da existência desse caderno misterioso e misteriosamente 
distribuído pelo correio. Dissera-lhe um investigador de uma delegacia suburbana que, logo 
que havia mudança de delegado ou de comissário, numa delas, o novo delegado ou o novo 
comissário recebia o tal caderno. Apavorava-lhe essa perseguição nas trevas, talvez segura, 
que, aos poucos, o ia minando. Tão indiferente era ele pela sorte de suas vitimas e tão estúpido 
se mostrara sempre em não compreendê-las, que não podia encadear raciocínios seguros, para 
ter a procedência, mais ou menos provável, da remessa de tais cadernos.
Precisava fugir -- era o que concluía; e ele se sentia ameaçado, não por duendes, mas 
por alçapões, homens mascarados, cárceres privados, suplícios, etc. -- todo o arsenal do 
maravilhoso das fitas de cinema.
Entretanto, queria antes resolver o caso de Clara, que, apesar de tudo, considerava 
em meio.
Deitou-se e dormiu regaladamente, até o alvorecer do dia. Logo que a luz do sol 
ganhou uma relativa nitidez, ele foi passar revista nas suas gaiolas de galos de briga. Estava 
tudo a postos, e foi lhes dando milho, tirado de uma lata que tinha em uma das mãos, e 
olhando todos aqueles bichos hediondos, com a ternura de um honesto criador, que revê o seu 
trabalho nas travessas pesquisas ou na doçura de olhar de seus cordeiros. Aos pintos, deu 
milho moído, triguilho, e só não deu ovo picado porque não era dia. O seu embevecimento por 
aquelas horrendas aves era sincero: elas lhe faziam ganhar dinheiro. Olhou-as e perguntou de si 
para si:
-- Quanto valeriam ao todo?       
Alguns já lhe haviam oferecido quinhentos mil-réis e ele estava disposto a vendê-las, 
por esse preço, depois que a "coisa" estivesse acabada...
Veio tomar café no "socavão", onde a velha Romualda lho trazia todas as manhãs. 
Era velha, e a sua velhice a defendia perfeitamente contra qualquer assalto de Cassi. 
Perguntou-lhe este:
-- Meu tio ainda está aí?
-- Quem é seu tio, nhonhô?
-- Aquele moço que esteve ontem, à noite.
-- Ah! Foi embora logo depois do chá.
Não trocaram mais palavras. Depois de servido o café e comido o pão com manteiga, 
a velha Romualda levou a bandeja com a xícara, e Cassi tratou de vestir-se e sair.
Quase nunca parava em casa. Temia encontrar-se com o pai, que, por isto ou por 
aquilo, houvesse resolvido ficar no lar, e também por não poder suportar o desdém de suas 
irmãs. A casa era-lhe mais penosa do que os xadrezes, por onde passara dezenas de vezes.
Ia à procura de Arnaldo, que, morando na Estrada Real, vinha no bonde de 
Cascadura, para tomar o trem no Méier. Arnaldo não deixava de um só dia ir "lá embaixo". 


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Esperava sempre fazer um biscate e, quando não o fizesse, arranjar algum "magote" no trem.
Não se enganara. Às nove e pouco, Arnaldo, com o seu nariz de tromba de tapir, os 
seus olhos arredios e catadores, chegara; Cassi disse-lhe que dele precisava, às cinco horas, ali; 
e pagou-lhe o café.
-- Pois não, Cassi; nas ocasiões é que se vêem os amigos. Cá estarei.
Fazendo o sacrifício de perder uma tarde de colheita, Arnaldo chegou na hora 
marcada, ao ponto ajustado.
Cassi explicou-lhe então que devia ir, naquela tarde, à venda do Nascimento, cuja rua 
e cujo número lhe deu. Chegando lá, simularia ter ido procurar por "Seu" Meneses, que ele 
conhecia.
-- Se ele não estiver? -- indagou Arnaldo.
-- Você diz que fica à espera e ouve o que se conversa lá. Nela, devem estar, entre 
outros, o aleijadinho que anda sempre fardado. Ele não conhece você, como os outros, 
conforme espero. O que você ouvir, guarda e me conte. Se Meneses aparecer, você diz que 
quero falar com ele, negócio de interesse dele.
Cassi deu-lhe dois mil-réis e ele se pôs a caminho, mas a pé, para poupar o tostão do 
bonde. Chegou à venda de "Seu" Nascimento, teve duas decepções. Encontrara dois sujeitos, 
que o conheciam perfeitamente: um era um engenheiro inglês, Mr. Persons, de quem "abafara" 
uma capa de borracha, e o outro era o Alípio, que até o sabia da roda de Cassi.
Não se deu por vencido e, atravessando por entre Alípio e o velho Marramaque, que 
conversavam, foi direto ao balcão e perguntou naturalmente:
-- O senhor não conhece um velho dentista, por nome Meneses?
E acrescentou:
-- Ele tem vindo aqui?
O taverneiro respondeu:
-- Há dias que não -- e, dirigindo-se aos circunstantes, por sua vez indagou: -- vocês 
têm visto o doutor Meneses?
Todos, porém, responderam: não.
Arnaldo ia dizer obrigado, para retirar-se, quando Mr. Persons perguntou-lhe:
-- Sinhor, vem cá!   
Arnaldo fez-se jovial.
-- Oh! "Seu" mister como vai?
-- Não diga "Seu" mister, é "error". Bem... Onde está mia capa?
-- Trago por esses dias, tenho me esquecido.
-- Já é duas vezes que "sinhor" diz isso. Eu precisa da capa.
-- Não me esquecerei.
E saiu apressado. O negócio da capa fora simples. Persons não viera da cidade são de 
seu juízo e deixara a capa descansando no banco, ao lado, recostando-se na parede do carro. 
Pouco antes de certa estação, Arnaldo sentou-se a seu lado, no intento de carregar-lhe a capa. 
Ao pôr em prática o seu propósito, Persons despertou, mas só pôde dar com o furto, quando 
Arnaldo ia saindo do carro. Gritou: "minha capa". Um condutor ainda agarrou Arnaldo com a 
carga, mas, quando o Persons deu com o lugar em que estavam ambos, já o auxiliar o tinha 
largado e o trem se pusera em movimento. Guardara, porém, a fisionomia do gatuno; e, vindo 
a encontrar-se com ele, perguntara-lhe por essa peça de vestuário, e Arnaldo lhe dissera que a 
havia levado por engano.
Ele saiu corrido de vergonha; mas, vendo que ninguém vinha até às portas da venda, 
ele voltou e se pôs a ouvir o que diziam.
O mister já acabara de contar a história da capa, quando Alípio, em tom de 
comentário, dissera:
-- Isto que saiu daí é uma peste. Não sabia dessa história de furtos nos trens; mas 


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basta ele ser do bando do tal Cassi, para não prestar.
Marramaque acudiu:
-- Eu ainda não conhecia este. Vou indicá-lo ao compadre. O tal Trembó ou Tipó, 
como é?
-- Timbó, fez Alípio.
-- O tal de Timbó já conheço e já o apontei ao compadre. Por falar nisto, o senhor 
sabe, "Seu" Nascimento e meus senhores, o que recebi, há dias, pelo correio, na secretaria?
-- Não -- responderam todos, por sinais ou por palavras.
-- A vida desse Cassi.
-- Impressa?
-- Não. Copiada a máquina de escrever, com fotografias dele, cópias de notícias dos 
jornais do tempo, indicação das datas dos processos e dos juízes e delegados -- tudo!
-- Quem lhe mandou? -- perguntou Alípio.
-- Não sei. Recebi a coisa na secretaria, lá a li e dei-a ao compadre, para se prevenir.
-- Com uma boa garrucha -- observou Nascimento.
-- Ou revólver -- obtemperou Marramaque.
Ouvindo tudo isto e percebendo que alguém se dirigia à venda, cuja hora de fechar 
não tardaria, Arnaldo deixou o lugar em que estava e correu ao encontro de Cassi, que devia 
estar no Engenho Novo.
Encontraram-se, e ele, no que não tinha o menor hábito, contou-lhe toda a verdade 
vista e ouvida.
Cassi nem Arnaldo não eram dados à bebida; mas o momento a pedia. Aquele 
convidou o seu dedicado companheiro a tomar uma garrafa de cerveja, o que fizeram quase 
sem conversar.
Acabada, pagaram e levantaram-se. Arnaldo procurou o seu rumo e Cassi meteu-se 
pela sombria rua do Barão de Bom Retiro.
Embora não fosse tarde, já se ouviam os tiros que os suburbanos dão, de quando em 
quando, para afugentar os ladrões dos seus galinheiros.
Um estourou bem perto dele, e Cassi, fingindo-se calmo e sem apreensões, disse à 
meia voz:
-- Ainda não foi desta vez.

 VII

O subúrbio propriamente dito é uma longa faixa de terra que se alonga, desde o 
Rocha ou São Francisco Xavier, até Sapopemba, tendo para eixo a linha férrea da Central.
Para os lados, não se aprofunda muito, sobretudo quando encontra colinas e 
montanhas que tenham a sua expansão; mas, assim mesmo, o subúrbio continua invadindo, 
com as suas azinhagas e trilhos, charnecas e morrotes. Passamos por um lugar que supomos 
deserto, e olhamos, por acaso, o fundo de uma grota, donde brotam ainda árvores de capoeira, 
lá damos com um casebre tosco, que, para ser alcançado, torna-se preciso descer uma ladeirota 
quase a prumo; andamos mais e levantamos o olhar para um canto do horizonte e lá  vemos, 
em cima de uma elevação, um ou mais barracões, para os quais não topamos logo da primeira 
vista com a ladeira de acesso.
Há casas, casinhas, casebres, barracões, choças, por toda a parte onde se possa fincar 
quatro estacas de pau e uni-las por paredes duvidosas. Todo o material para essas construções 
serve: são latas de fósforos distendidas, telhas velhas, folhas de zinco, e, para as nervuras das 
paredes de taipa, o bambu, que não é barato.
Há verdadeiros aldeamentos dessas barracas, nas coroas dos morros, que as árvores e 
os bambuais escondem aos olhos dos transeuntes. Nelas, há quase sempre uma bica para todos 


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os habitantes e nenhuma espécie de esgoto. Toda essa população, pobríssima, vive sob a 
ameaça constante da varíola e, quando ela dá para aquelas bandas, é um verdadeiro flagelo.
Afastando-nos do eixo da zona suburbana, logo o aspecto das ruas muda. Não há 
mais gradis de ferros, nem casas com tendências aristocráticas: há o barracão, a choça e uma 
ou outra casa que tal. Tudo isto muito espaçado e separado; entretanto, encontram-se, por 
vezes, "correres" de pequenas casas, de duas janelas e porta ao centro, formando o que 
chamamos "avenida".   
As ruas distantes da linha da Central vivem cheias de tabuleiros de grama e de 
capim, que são aproveitados pelas famílias para coradouro. De manhã até à noite, ficam 
povoadas de toda a espécie de pequenos animais domésticos: galinhas, patos, marrecos, 
cabritos, carneiros e porcos, sem esquecer os cães, que, com todos aqueles, fraternizam.
Quando chega a tardinha, de cada portão se ouve o "toque de reunir": "Mimoso"! É 
um bode que a dona chama. "Sereia"! É uma leitoa que uma criança faz entrar em casa; e assim 
por diante.
Carneiros, cabritos, marrecos, galinhas, perus -- tudo entra pela porta principal, 
atravessa a casa toda e vai se recolher ao quintalejo aos fundos.
Se acontece faltar um dos seus "bichos", a dona da casa faz um barulho de todos os 
diabos, descompõe os filhos e filhas, atribui o furto à vizinha tal. Esta vem a saber, e eis um 
bate-boca formado, que às vezes desanda em pugilato entre os maridos.
A gente pobre é difícil de se suportar mutuamente; por qualquer ninharia, 
encontrando ponto de honra, brigando, especialmente as mulheres. O estado de irritabilidade, 
provindo das constantes dificuldades por que passam, a incapacidade de encontrar fora de seu 
habitual campo de visão motivo para explicar o seu mal-estar, fazem-nas descarregar as suas 
queixas, em forma de desaforos velados, nas vizinhas com que antipatizam por lhes parecer 
mais felizes. Todas elas se têm na mais alta conta, provindas da mais alta prosápia; mas são 
pobríssimas e necessitadas. Uma diferença acidental de cor é causa para que possa se julgar 
superior à vizinha; o fato do marido desta ganhar mais do que o daquela é outro. Um 
"belchior" de mesquinharias açula-lhes a vaidade e alimenta-lhes o despeito.
Em geral, essas brigas duram pouco. Lá vem uma moléstia num dos pequenos desta, 
e logo aquela a socorre com os seus vidros de homeopatia.
Por esse intrincado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da 
população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes 
impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro.
Nem lhes facilita a morte, isto é, o acesso aos cemitérios locais.
Para o de Inhaúma, procurado por uma vasta zona suburbana, os caminhos são maus, 
e pior do que isto: dão voltas inúteis, que poderiam ser evitadas sem grandes despesas. Os 
enterros da gente mais pobre são feitos a pé, e é fácil imaginar como chegam, os que carregam 
o morto, no campo-santo municipal. Quem passa por aqueles caminhos, quase sempre topa 
com um. Os de "anjos" são carregados por moças e os destas também pelas da sua idade. Não 
há, para elas, nenhuma toilette especial. Levam a mesma que para os bailes e mafuás; e lá vão 
de rosa, de azul-celeste, de branco, carregando a pobre amiga, debaixo de um sol inclemente, e 
respirando uma poeira de sufocar; quando chove, ou choveu recentemente, carregam o caixão 
aos saltos, para evitar atoleiros e poças d'água.
Os de adultos são carregados por adultos. Nestes, porém, há sempre uma 
modificação do indumento dos que acompanham. Os cavalheiros procuram roupas escuras, se 
não pretas; mas, às vezes, surge o escândalo da sua calça branca. Vão muito pouco tristes e, em 
cada venda que passam, "quebram o corpo", isto é, bebem uma boa dose de parati. Ao 
chegarem ao cemitério, aquelas cabeças não regulam bem, mas o defunto é enterrado.
Houve, porém, uma ocasião, que o corpo não chegou a seu destino. Beberam tanto, 
que o esqueceram no caminho. Cada qual que saía da venda, olhava o caixão e dizia: Eles que 


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estão lá dentro, que o carreguem. Chegaram ao cemitério e deram por falta do defunto. "Mas 
não era você que o vinha carregando?" -- perguntava um. "Era você" -- respondia o outro; e, 
assim, cada um empurrava a culpa para o outro. Estavam cansadíssimos e semi-embriagados. 
Resolveram alugar uma carroça e ir buscar o camarada falecido, que já tinha duas velas 
piedosas a arder-lhe à cabeceira. E o pobre homem, que devia receber dos amigos aquela 
tocante homenagem, dos camaradas levarem-no a pé ao cemitério, só a recebeu a meio, pois, o 
resto do caminho para a última morada, ele a fez graças aos esforços de dois burros, que 
estavam habituados a puxar carga bem diferente e muito menos respeitável.
Mais ou menos é assim o subúrbio, na sua pobreza e no abandono em que os poderes 
públicos o deixam. Pelas primeiras horas da manhã, de todas aquelas bibocas, alforjas, trilhos, 
morros, travessas, grotas, ruas, sai gente, que se encaminha para a estação mais próxima; 
alguns, morando mais longe, em Inhaúma, em Caxambi, em Jacarepaguá, perdem amor a 
alguns níqueis e tomam bondes que chegam cheios às estações. Esse movimento dura até às 
dez horas da manhã e há toda uma população de certo ponto da cidade no número dos que 
nele tomam parte. São operários, pequenos empregados, militares de todas as patentes, 
inferiores de milícias prestantes, funcionários públicos e gente que, apesar de honesta, vive de 
pequenas transações, do dia a dia, em que ganham penosamente alguns mil-réis. O subúrbio é 
o refúgio dos infelizes. Os que perderam o emprego, as fortunas; os que faliram nos negócios, 
enfim, todos os que perderam a sua situação normal vão se aninhar lá; e todos os dias, bem 
cedo, lá descem à procura de amigos fiéis que os amparem, que lhes dêem alguma coisa, para o 
sustento seu e dos filhos.
Nessas horas, as estações se enchem e os trens descem cheios. Mais cheios, porém, 
descem os que vêm do limite do Distrito com o Estado do Rio. Esses são os expressos. Há 
gente por toda a parte. O interior dos carros está apinhado e os vãos entre eles como que 
trazem quase a metade da lotação de um deles. Muitos viajam com um pé num carro e o outro 
no imediato, agarrando-se com as mãos às grades das plataformas. Outros descem para a 
cidade sentados na escada de acesso para o interior do vagão; e alguns, mais ousados, 
dependurados no corrimão de ferro, com um único pé no estribo do veículo.
Toda essa gente que vai morar para as bandas de Maxambomba e adjacências, só é 
levada a isso pela relativa modicidade do aluguel de casa. Aquela zona não lhes oferece outra 
vantagem. Tudo é tão caro como no subúrbio, propriamente. Não há água, ou, onde há, é ainda 
nos lugarejos do Distrito Federal que o governo federal caridosamente supre em algumas bicas 
públicas; não há esgotos; não há médicos, não há farmácias. Ainda dentro do Rio de Janeiro, 
há algumas estradas construídas pela Prefeitura, que se podem considerar como tal; mas, logo 
que se chega ao Estado, tudo falta, nem nada há embrionário.
O viajante que se detém um pouco a olhar aqueles campos de vegetação rala e 
amarelada, aqueles morros escalavrados, cobertos de intrincados carrascais, onde pasta um 
gado magro e ossudo, fica confrangido e triste. Não há nenhuma cultura; as árvores de porte 
são raras; nas casas, é raro uma laranjeira virente, nem um mamoeiro semi-espontâneo 
desce-lhes à entrada.
Os córregos são em geral vales de lama pútrida, que, quando chegam as grandes 
chuvas, se transformam em torrentes, a carregar os mais nauseabundos detritos. A tabatinga 
impermeável, o barro compacto e a falta d'água não permitem a existência de hortas; e um 
repolho é lá mais raro que na avenida Central.
O Rio de Janeiro, que tem, na fronte, na parte anterior, um tão lindo diadema de 
montanhas e árvores, não consegue fazê-lo coroa a cingi-lo todo em roda. A parte posterior, 
como se vê, não chega a ser um neobarbante que prenda dignamente o diadema que lhe cinge 
a testa olímpica...
Cassi Jones, em pé, na estação do Méier, via passar aqueles trens cheios de homens 
de trabalho, sem considerar que, quase com trinta anos, até ali, na verdade, não havia nunca 


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trabalhado. O seu pensamento ia para outra parte.
Desde que Arnaldo lhe trouxera notícias do que ouvira na venda, ele se sentia um 
pouco desanimado nos seus propósitos, em relação à filha do carteiro. Ao mesmo tempo, 
porém, ele percebia que todas aquelas precauções contra ele eram tomadas porque a rapariga 
não lhe era indiferente. De modo que -- concluía ele -- precisava saber ao certo os sentimentos 
de Clara, para então agir. Era necessário ouvir-lhe a palavra; mas como? A ele, não convinha 
rondar a casa da filha do carteiro. Era conhecido, seria denunciado ao pai, que, naturalmente, 
lhe tomaria satisfações. Qualquer que fosse o desfecho do pugilato, ele só teria a perder. A sua 
fama, a sua má fama, se tinha corporificado naquele fantástico caderno que ia ter a todas as 
mãos. Não era mais formada de boquejos daqui e dali, em geral anônimos; agora, vinha 
documentada, com todas as indicações e referências precisas.
Havia nele com o que se pudesse condenar um santo: e, se ele agredisse o carteiro 
Joaquim, toda a simpatia iria para o pai, que defendia até à última extremidade a honra de sua 
filha, e não para ele, um contumaz e cínico sedutor. Até ali, ele contava com a benevolência 
secreta de juízes e delegados, que, no íntimo, julgavam absurdo o casamento dele com as suas 
vítimas, devido à diferença de educação, de nascimento, de cor, de instrução. Quanto à 
segunda e terceira causa, embora nem sempre se verificasse a segunda, podia-se admitir; mas, 
quanto às duas outras considerações, eram errôneas, porque ele era tão ignorante e tão 
mal-educado como eram, em geral, as humildes raparigas que ele desgraçava 
irremediavelmente.
De resto, ele já não contava com proteção alguma. 
No começo, foi seu pai; depois, seu tio, o capitão-médico -- ambos solicitados 
tenazmente por sua mãe; mas agora? Agora, ele estava certo de que nenhum deles se abalaria e 
gastaria um ceitil por causa dele. Restava o Capitão Barcelos. Neste, porém, ele não 
depositava grande confiança. Fosse coisa pequena em que nada se gastasse, o capitão 
mover-se-ia; no caso contrário, porém, fugiria com o corpo. Era preciso cautela, senão...
Cassi continuou a pesar os meios que podia encontrar para entender-se com Clara. 
Com Lafões, ele já não contava. Vira, na última visita que lhe fizera, que o velho português era 
matreiro. Com ele, não levaria vantagem alguma. Como havia de ser?
Dos bondes continuava a descer gente aos magotes, que se encaminhava 
apressadamente para a plataforma da estrada de ferro. Alguns iam tomar um café, antes de se 
encaminharem, definitivamente, para os "varais" da repartição; outros iam até às casas de 
"bicho" e deixavam lá o jogo; mas todos iam afinal trabalhar, fazer alguma coisa para ganhar 
dinheiro. Só o Senhor Cassi Jones de Azevedo ficava...
-- Oh! "Seu" Cassi, como vai essa força? 
O menestrel suburbano da modinha lânguida e acompanhamento luxurioso de olhares 
revirados voltou-se e reconheceu quem falava:
-- Como vai você, Praxedes?
-- Eu, "Seu" Cassi, vou bem. Mas esse negócio de foro... Ontem, apresentei uma 
exceção de incompetência; pensei que fosse julgada logo, mas o juiz transformou o julgamento 
em diligência... Borrou-me a pintura... Hoje, vou ver se uns embargos meus são recebidos. 
Tenho que ir lá embaixo... Às vezes, dá-se uma penada e lá vêm vinte, trinta e mesmo 
cinqüenta...
Vendo que a conversa não interessava Cassi, mudou-a de sentido e perguntou:
-- Tem ido à casa do carteiro, lá na rua Teresina?
-- Há muito tempo que não; e você?
-- Eu só fui lá a convite de um dos músicos. Não tenho relações particulares com a 
família. Por falar nisso: sabe quem saiu agora mesmo daqui?
-- Não.
-- O doutor Meneses, aquele velho barbado, que sabe muito -- não conhece?


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Correu alguma coisa na cabeça de Cassi, que o fez perguntar com pressa, antes de 
responder:
-- Para onde ele foi?
-- Foi para a casa do carteiro. Está tratando dos dentes da filha e almoça quase 
sempre lá. Ele precisava, coitado do doutor Meneses! -- um homem ilustrado, velho, 
doente -- quase não comia; era só beber. Isso lhe fazia mal, estava requeimando "ele" por 
dentro... Pode-se beber; mas é preciso comer -- não acha?
Praxedes não deixava, durante toda a conversa, de mover com os braços, sem 
medida nem compasso, e esticar a medonha cabeça, que teimava cada vez mais em se enterrar 
pelos ombros adentro.
-- É um achado para ele -- fez Cassi, reprimindo a alegria. -- Tenho também um 
trabalho para o Meneses... Se você o encontrar, diga-lhe que eu quero falar com ele.
-- Não me esquecerei; mas, caso o senhor tenha pressa, pode procurá-lo à noite, ali, 
no botequim do Fagundes, perto do posto de bombeiros. Até logo, que tenho que chegar cedo 
à cidade!
Cassi despediu-se também e encaminhou toda a sua esperança de entender-se 
diretamente com Clara, por intermédio de Meneses, Ele sabia-o velho, alquebrado, 
necessitado, viciado na bebida, sem dinheiro -- seria fácil vencer as suas repugnâncias. Pela 
primeira vez, pensou o modinheiro, tinha que gastar algum...
Em parte ele se enganava, porquanto, embora Meneses estivesse nas últimas 
extremidades, até agora não fizera ato menos liso na sua vida. Podia-se classificá-lo de puro, 
Meneses, José Castanho de Meneses, nascera de pais portugueses, numa cidade do litoral -- sul 
do Estado do Rio de Janeiro. Naqueles tempos, essas cidades eram prósperas; mas, 
atualmente, têm, para demonstrar a sua irremediável decadência, o fato de não se ter notícia 
de haver sido construída em qualquer delas, de quarenta anos a esta parte, uma única casa.
O pai tinha uma loja, um bazar, que ia próspero; mas, com a decadência da 
localidade, de que foi um dos fatores a construção da Central, o estabelecimento comercial foi 
decaindo. O pai viu-se obrigado a suprimir despesas, uma das quais era a da educação e 
instrução dos filhos. O José, que já tinha dezessete anos, veio para a loja, os outros foram 
colocados aqui e ali, nas pescarias de "currais", que o pai tinha, e na salga de peixe, levada a 
efeito muito rudimentarmente, também do velho Meneses.
Aos vinte e dois anos, José, que se aborrecia com aquela vida, pôs o pé no mundo e 
correu, durante uns trinta, o interior das antigas províncias do Rio, Minas e São Paulo. Tudo 
ele foi; tudo sofreu, mas sempre inquebrantavelmente honesto. Aqui, foi guarda-livros de um 
armazém; numa fazenda, administrador; num vilarejo, professor das primeiras letras; em certa 
idade, encontrou um boticário simpático, que se fez seu amigo, ensinou-lhe a manipular 
drogas, também a obturar e limpar dentes, e a passar pequenas receitas. Foi onde se demorou 
mais; mas isto se veio a dar já no fim da sua carreira vagabunda, quando já não podia mudar 
de rumo. Na vizinhança da cidade, construía-se um depósito e modestas oficinas de pequenos 
reparos, para as máquinas de um ramal férreo que lá ia ter. José, que seguia as obras e via as 
máquinas, ficou assombrado com aquelas maravilhas de caldeiras, fornalhas, bielas, manivelas, 
alavancas, que se coordenavam para mover e parar aqueles hediondos monstros de ferro -- as 
locomotivas. Quis entrar no segredo de tudo aquilo e fazia perguntas sobre perguntas. No 
começo, os operários explicavam; mas as perguntas eram tais e tantas, que eles acabaram por se 
aborrecer com elas e com o velho perguntador. Meneses não se aborreceu, pois se sentia com a 
vocação de engenharia e de engenheiro. Ali, porém, não tinha onde estudar. Convinha descer 
para o Rio de Janeiro, freqüentar aulas teóricas e aperfeiçoar-se em oficinas adequadas. O 
dinheiro que tinha era pouco, mas o boticão sempre dava alguma coisa, e a renda tinha 
aumentado, graças à afluência de operários para acabamento da estradinha local. Demais, 
também receitava. Fazia alguma coisa: a questão era economizar. Assim fez e, durante um ano, 


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poupou o dinheiro necessário para ir estabelecer-se no Rio e esperar uma colocação qualquer.
O seu amigo farmacêutico não o quis dissuadir, mas disse-lhe:
-- Se você fosse mais moço, aconselharia até, porque se projetam grandes obras, no 
Rio; mas, já tendo passado dos cinqüenta, é fazer o que parecer melhor a você. Em todo o 
caso, vou pedir ao Coronel Carvalho uma recomendação.
Durante esse longo lapso de tempo que vivera fora da família, recebera vagas notícias 
de seus pais e irmãos. Sabia que os pais tinham morrido e quase todos os irmãos; e que o único 
que lhe restava era remador da Capitania do Porto e mantinha a irmã solteira, a única que 
tivera. Moravam lá para a Saúde.
Meneses embarcou contente; ia afinal realizar a sua vocação. Até agora, não a tinha 
encontrado; mas, desde que vira aquelas máquinas e maquinismos, sentira outra coisa dentro 
de si. Não deixou, entretanto, de levar a mala dos ferros de dentista e a carta de 
recomendação.
No dia seguinte, depois de uma noite insípida no hotel, foi, indagando daqui, 
informando-se dali, até à Capitania do Porto.
Perguntou pelo remador seu irmão e, sem dificuldades, lhe informaram que, em 
breve, ele viria. Não esperou muito. Um homenzarrão forte, tostado, com um vestuário de 
marinheiro, chegou-se ao porteiro e perguntou:
-- Quem é que me procura?  
O porteiro apontou Meneses, sentado a um banco, e disse:
-- É aquele senhor ali.
O irmão não deu muitos passos em sua direção; Meneses ergueu-se logo, correu-lhe 
ao encontro, perguntando:
-- Você não me conhece mais?
-- Não, senhor.
-- Sou o seu irmão Juca.
Abraçaram-se muito, e o irmão Leopoldo foi dizer ao porteiro quem era e o que 
havia.
-- Há trinta anos! -- exclamou o porteiro. -- Você devia ser muito criança -- hein, 
Leopoldo?
O marinheiro respondeu:
-- Devia ter cinco anos.
-- É verdade -- informou Meneses.
Leopoldo foi arranjar licença para acompanhar o irmão que não via há trinta anos; e 
Meneses ficou a conversar com o porteiro sobre coisas da roça.
-- Ah! Então o Senhor é engenheiro?
-- Sim, mas mecânico. Trabalho, porém, com o nível e com o trânsito.
-- Agora, deve haver muito trabalho para engenheiro; vão-se fazer grandes obras... 
Aproveite, doutor!
-- Trago aqui uma carta para o Deputado Sepúlveda. Tem influência?
-- Muita! É o pensamento da política mineira... Não lhe deixe a aba do fraque, 
doutor!
A conversa foi interrompida pela chegada de Leopoldo, que obtivera a licença. Pelo 
caminho, porém, contou a Meneses como todos morreram; como ele se empregara na Capitania 
e casara a irmã com um colega, o Pedro Rocha, rapaz bom, bem comportado, do qual tinha um 
sobrinho, Edmundo, com seis anos, e com o qual morava, na rua do Livramento.
Chegando à casa do cunhado e do irmão, a sua irmã Etelvina, que ele deixara com 
sete ou oito anos, não o reconheceu; e, em breve, tendo-lhe chegado o marido, foi uma festa 
de que só não participou o sobrinho de seis anos, sempre de nariz sujo e vestes rotas, arredio e 
agarrado às saias da mãe, mas sem querer tornar a bênção ao tio.


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A irmã logo convidou o irmão mais velho a ficar com eles. Havia um barracão no 
quintal, que, bem reparado, podia servir para Leopoldo, e o quarto deste ficaria para o Juca. 
Enquanto não estivesse em estado, ele teria a paciência de dormir com Leopoldo. Meneses 
aceitou o alvitre, dizendo:
-- Se eu tenho que gastar em outra parte...
Logo foi interrompido por todos:
-- Oh! Não, não Juca!
-- Não é esse motivo! -- fez o cunhado.
-- Não seja essa a dúvida, mano Juca.
Meneses ficou muito agradecido e acrescentou:
-- Mesmo porque quero que um de vocês consiga meios e modos de falar ao doutor 
Sarmento Sepúlveda, na Câmara. Tenho uma carta para ele.
O cunhado logo exclamou:
-- O quê! É um bicho.
Combinado tudo isto, Meneses instalou-se na casa dos parentes, com a sua mala e os 
seus ferros de dentista. Levou a carta do Coronel Carvalho ao deputado, que o atendeu muito 
bem, perguntou-lhe pelas pessoas gradas do lugar onde estivera e deu-lhe outra para o chefe 
da construção da avenida. No dia seguinte, estava admitido. Ganhou dinheiro, não o guardou, 
mas, se assim foi, motivo não houve em desperdício de sua parte. O irmão em breve adoecia e 
morria; o cunhado seguia-se-lhe logo. Custeou o tratamento de ambos; e, quando foi 
dispensado da comissão da avenida, pouco após a morte de ambos, pouco ou nada tinha. A 
irmã ficara com uma pequena pensão mensal da Caixa dos Remadores, cerca de trinta mil-réis, 
e um filho; e ele, com seus ferros de dentista. É verdade que fizera uma pequena biblioteca de 
engenharia mecânica: As Grandes Invenções, de Luís Figuier; As Maravilhas da Ciência, de 
Tirrandier; manuais de toda a sorte de ofícios e recortes de jornais que tratavam de coisas 
científicas ou parecidas, colados em cadernos encadernados. Dessa biblioteca, nunca se 
separou; e, conquanto já bebesse, com o tempo, os desgostos e a miséria atraíram-no mais para 
o álcool, e o furor de beber o tomou inteiramente. A toda hora, naquele casebre dos subúrbios, 
onde morava com a irmã e o palerma do sobrinho, ele esperava, adivinhava, construía uma 
catástrofe que lhe devia cair sobre os ombros; e essa visão de uma próxima catástrofe na sua 
vida entibiava-lhe o ânimo, descoroçoava-o e pedia-lhe para afastar -- a bebida. Na rua, se só, 
era a mesma coisa. Só a tinha longe dos olhos, quando de súcia com outros.
Contudo, apesar das duras necessidades que curtia, com a irmã e o filho desta, jamais 
ato algum de sua vida incidira na censura de sua consciência. O pouco dinheiro que os ferros 
lhe davam ou os amigos, era empregado no sustento deles, pois a casa era paga com a pensão 
de Etelvina, a irmã.
Cassi, para vencê-lo, para ladeá-lo, tinha imaginado o plano de, aos poucos, pô-lo a 
seu dispor, prendê-lo de pés e mãos, como se diz, sem ele perceber.
Sabendo onde encontrá-lo à noite, nessa mesma do dia em que soube, procurou-o, 
Meneses estava triste a um canto, lendo um jornal, com um cálice vazio ao lado.
O homem das modinhas chegou-se e, sem dizer palavra, foi se abancando:
-- Boa noite, doutor!
-- Boa noite, "Seu" Cassi -- fez Meneses, erguendo a cabeça do periódico.
-- Que há de novo, por aí? Trabalha-se muito?
-- Alguma coisa. Agora, as coisas me correm melhor. O Joaquim dos Anjos deu-me 
os dentes da filha a tratar, e ele, embora pouco, sempre me paga pontualmente. É um alívio!
-- O doutor é um sonhador. Tem sido explorado...
-- Nem tanto. Quando fiz aquele trabalho para uma de suas irmãs, fui muito bem 
pago. A minha dificuldade é não ser formado; demais, não tenho roupas... Às vezes, "Seu" 
Cassi, para arranjar esses sapatos de duraque que uso, por não poder usar outros, suo sangue e 


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faço das tripas coração...
-- Paciência, doutor. Tome alguma coisa -- fez Cassi amável.
Meneses aceitou e disse amargamente:
-- Estou com setenta anos e não sei o que fiz na vida.
Cassi regozijava-se, intimamente pensando: o homem está cheio de dificuldades.
-- Não desanime. O Capitão Sebastião, aquele da Prefeitura, há  dias me disse que ia 
precisar de um dentista modesto para consertar os dentes de um filho, que, na "muda", deixou 
acavalar. É pouca coisa, mas, talvez, daí...
-- Aceito tudo...
-- Outra coisa, doutor Meneses.
-- Que há?
-- O senhor se dá muito com o Leonardo Flores, o poeta?
-- Muito. Por quê?
-- É que eu queria uns versos...
Meneses não escondeu o espanto, que Cassi percebeu, e, sem dissimular, procurou 
explicar-se melhor:
-- É coisa séria. Não há compromisso nenhum para os senhores... Eu daria alguma 
coisa até!...
-- É que o senhor não sabe como o Flores é orgulhoso. Dentro daquela sujeira toda, 
esfarrapado, alagado de cachaça, ele é um Deus; e não lhe toque em coisas de poesia, porque 
senão...
-- Sei bem; mas sei também que o senhor tem grande influência sobre ele. Veja se me 
arranja? Olhe, doutor, não é para afrontar; tem aqui dez mil-réis para as primeiras despesas. 
Cinco são para o senhor e cinco para ele.
-- Não é preciso -- disse Meneses, já um tanto convertido.
A sua miséria lhe falava. Não havia quebra de honestidade, tanto mais que não se 
tratava de injúrias e insultos a ninguém.
-- Não, doutor; leve, leve! Tudo deve ser pago. Não é preciso grande coisa; bastam 
uns versos amorosos, mas delicados e finos, morais -- está ouvindo, doutor?
Cassi foi-se, depois que Meneses prometeu arranjar a versalhada. Já passavam das 
sete horas, e, logo que o violeiro desapareceu, o dentista levantou, foi a um ângulo do balcão e 
disse para o caixeiro, dando-lhe a nota de dez mil-réis que havia recebido das mãos de Cassi:
-- Paga aqueles seiscentos réis que estou devendo e me dá mais outra "lambada".
Tomou-a e voltou a sentar-se na mesa. Comprou num jornaleiro os jornais da noite e 
foi se deixando ficar, levantando-se, de quando em quando, para sorver às escondidas um 
"calisto". Aí, pelas proximidades das dez horas, sobraçando um maço de jornais, 
encaminhou-se para casa, no firme intuito de dar cumprimento à promessa que fizera a Cassi. 
A casa era um tanto longe, pelos bons caminhos; mas, cortando-se caminhos desertos, subindo 
e descendo morros, chegava-se a ela com mais presteza.
Não hesitou e tomou os atalhos, que conhecia bem; e, quase por instinto, os seguia 
até à sua residência. Ficava esta numa campina nua; e só era cercada na frente, toscamente, e, 
do lado direito, graças ao vizinho. Tinha um cajueiro mofino, que disfarçava a casinha e dava 
uma escassa sombra à torneira d'água, onde a irmã lavava roupa, de casa e de fora. De onde 
em onde, Meneses cismava em plantar algumas árvores de rápido crescimento, para sombra; 
mas lá vinham os cabritos da vizinhança e matavam-lhe os brotos. A muito custo, conseguiu 
fazer um caramanchão tosco com que ensombrasse a sala de jantar, onde dormia, e que se 
prestasse a cozinha, nos dias normais. A casa só tinha dois aposentos iguais, que se 
comunicavam por uma porta. Não fora a rua, não teria frente nem fundos, tão semelhantes 
eram essas extremidades dela. A irmã habitava o aposento da frente, dividido por uma cortina, 
que corria do portal da porta interior até ao da que dava para a rua. Era de telha-vã e de chão.


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Chegou em casa e comeu o feijão e arroz com pirão de fubá de milho, que a irmã lhe 
guardava sempre. Fez isto à luz de um "vagabundo", espécie de lanterna, de querosene, 
reduzida aos seus últimos elementos. Bebeu dois ou três cálices de parati, pois sempre o tinha 
em casa; e estirou-se num velho canapé, com um fundo de tábuas de caixões, acolchoado com 
jornais. A roupa, ele a tinha tirado com todo o cuidado e com todo o cuidado depositado na 
guarda de uma cadeira de pau, a única existente na casa. A mesa de pinho, uma carcomida 
velha mesa de cozinha, tomava o resto do aposento; e, nela, roncava o palerma do sobrinho. 
Cobriu-se com uma manta, feita de metades de duas outras, e dormiu serenamente.
Logo pela manhã, no dia seguinte, a irmã despertou-o assustada:
-- Juca! Juca!
-- Que é mulher? Não se pode dormir mais nesta casa...
Depois, mudando de tom:
-- Que há, Etelvina?
-- Precisamos de açúcar, café, e já devemos ao padeiro seiscentos réis.
-- Você vai até o bolso do colete e tira de lá todas as pratas e níqueis que encontrares. 
Deixa só quatrocentos réis. Julgo que deve haver uns três mil e tantos a quatro mil-réis. Fica 
com tudo. Dá-me um cálice, ai!
A irmã não parecia mais moça do que ele quinze anos. Era velha, encarquilhada, 
magra, quase desdentada, cabelos completamente brancos, toda ela respirando cansaço e 
desânimo.
Ela chamou o filho -- Edmundo! -- que logo apareceu. Mole, bambo, a muito custo 
aprendera a ler e a rabiscar, a esforços do tio; mas não ficava em lugar nenhum. Tal era a sua 
inércia e moleza, que logo era despedido. O seu ofício era caçar preás, rãs, para vender aos 
estrangeiros da "fábrica", apanhar passarinhos e, de onde em onde, ajudar a fazer pescarias, no 
porto de Inhaúma.
A mãe, com o produto de suas pobres lavagens para fora, era afinal quem o vestia, 
porque ele bebia tudo o que ganhava, mas raramente tocava na garrafa que o tio tinha em casa 
e não trazia bebida para casa, absolutamente.
Tendo Etelvina servido o irmão de parati, este verificou que a garrafa continha pouco 
e, à nota das compras a fazer, mandou que juntasse mais meia garrafa de aguardente. A que 
restava, passou-a para um vidro de farmácia.
A irmã não se conteve, que não exclamasse:
-- Ah! Santo Deus! Esse parati é uma desgraça...
-- Não há dúvida, mana; mas, agora, não posso mais parar, senão morro... Olha o 
jornal! -- gritou ele para Edmundo.
-- Sim, titio -- respondeu-lhe o sobrinho, do meio da rua.
Como também tivesse pressa em tomar café, Edmundo fez prestamente as compras. 
A fogo de gravetos, em breve o café estava pronto. Meneses, a irmã e o sobrinho tomaram-no 
em redor da mesa; ela, sentada na cadeira, e eles, no velho canapé.
Bebericando e lendo o jornal, o velho dentista deixou-se ficar deitado. Era dia santo, 
quase feriado, dia de ponto facultativo -- que iria fazer? Lembrou-se de procurar Leonardo 
Flores. Era a sua obrigação. Almoçaria e iria até à casa dele. Assim fez. Encaminhou-se 
imediatamente para a casa de Leonardo Flores, que não ficava muito longe, pela Estrada Real, 
em cujas margens residiam ele e sua irmã Etelvina com o filho.
Em lá chegando, foi recebido pela mulher, Dona Castorina, que o fez entrar. Estava 
avelhantada, gasta, já não pela idade, que não podia ser ainda de cinqüenta anos, mas pelos 
trabalhos por que tinha passado com o marido, mais do que com os próprios filhos. Nunca se 
lhe ouvia um queixume, nunca articulou uma acusação contra Flores. Sofria todos os 
desmandos do marido com resignação e longanimidade. Esse seu gênio, esse seu 
temperamento de doçura e perdão em face da exaltação, da exacerbação, até quase delírio, do 


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marido, fizera que este produzisse o que produziu. Não fora ela, aquela pequena mulata, 
magra, de olhos negros e tristes, rindo-se sempre com uma profunda expressão de melancolia; 
não fora aquela humilde mulatinha, que estava ali defronte de Meneses, talvez Flores não 
fizesse nada. Este sabia disso e a amava, apesar de tudo o que pudesse depor contra eles, e ela 
tinha, no fundo d'alma, apesar dos desregramentos do seu marido, um grande orgulho de sua 
Glória.
Dona Castorina informou-o que Leonardo havia saído, para visitar um amigo, em 
companhia de um filho; e talvez passasse o dia em casa dele. Meneses ainda conversou um 
pouco, tomou dois cálices de parati de Mangaratiba, que um filho seu, auxiliar de trem, 
trouxera para o pai.
Na hipótese -- e muito plausível, consoante o gênio de Leonardo -- de que ele 
houvesse parado na venda do "Seu" Nascimento, foi até lá. Não o encontrou e saiu com a 
consciência dolorida pelo que ouvira da boca de Marramaque, de Alípio e demais.
Teve remorso e vergonha do que estava fazendo? Para que iria ele, arranjando 
aqueles versos, contribuir? Dirigiu-se para o Engenho de Dentro, a ver se encontrava alguém 
com quem conversar e disfarçar aquele começo de acusação, que, à sua fraqueza, se debuxava 
na sua consciência. Encontrou um grupo de rapazes da estrada de ferro, que eram sempre 
generosos com ele. Estavam ruidosos e contentes. Meneses sentou-se na roda, mas não houve 
meio de despregar a língua.
-- Que é isto, Meneses? Bebe! -- fez um.
Ele bebia, mas o espinho não saía. Conversava afinal um pouco. Num dado 
momento, vendo que era demais na conversa com a sua tristeza e o seu arrependimento 
reprimido, despediu-se. Um lhe perguntou:
-- Vais para casa? Tens dinheiro?
Ele respondeu:
-- Vou já para casa; mas dinheiro não tenho.
Os rapazes fizeram-lhe um rateio, que perfez dois mil-réis; e, quando saía, um outro, 
levantando os braços, de um dos quais pendia uma antiquada bengala de cerejeira, gritou para 
o caixeiro:
-- Antunes, dá uma garrafa de "cachaça" -- "cachaça", estás 
ouvindo? -- "cachaça"! -- dá uma garrafa de "cachaça" para o nosso querido Meneses espantar 
as suas mágoas.
Quando Meneses apareceu em casa, a irmã foi-lhe logo dizendo: 
-- Juca, foi bom você aparecer. Estou sem dinheiro para carvão, farinha e querosene. 
O que você deu não chegou... Fui comprar carne-seca -- lá se foi todo o dinheiro.
O velho Meneses, semi-embriagado, já sem decidir perfeitamente, tirou os cinco 
mil-réis que estavam escondidos na algibeira e destinados a Flores, juntou mais dez tostões e 
disse para a irmã:
-- Tens aí seis mil-réis até segunda-feira, Mana, você até lá não tem direito de me 
pedir mais dinheiro. Hoje é sexta-feira, temos sábado e domingo garantidos.
Bebeu um cálice do parati que trouxera, deitou-se e tentou ler os jornais que os 
rapazes lhe deram; mas não pôde. O sono o tomou até à hora do jantar. Quando abriu os olhos 
e se lembrou de ter dado os cinco mil-réis, destinados a Flores, em troca de versos, 
aborreceu-se um pouco; mas pensou e fez de si para si: eu me arranjo. Comeu bem e, enquanto 
houve luz do sol, leu e releu os jornais que tinha; quando veio a noite, continuou a lê-los, 
sempre bebericando aguardente.
No dia seguinte, logo que amanheceu, ainda não se havia feito o dia totalmente, foi 
até à bica, lavou-se quase inteiramente, aproveitando a escuridão, preparou o café, tomou uma 
xícara, seguida de alguns cálices de parati, e pôs-se na rua antes das sete horas. Era ainda cedo 
para ir à casa de Leonardo Flores. Foi à estação, comprou um jornal, leu-o e seguiu para a 


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residência do amigo. Flores já se encontrava de pé e quase todos de casa. Recebeu-o vestido 
com uma calça velha e de camisa de meia. Estava escrevendo. Ao se lhe deparar o amigo, 
olhou-o muito demoradamente; e, em seguida, fazendo com os braços um gesto perfeitamente 
teatral, inclinando para trás a cabeça e estufando o peito, conforme o consagrado na ribalta 
para encontros sensacionais, falou com voz cava e solene:
-- Tu, Meneses! És tu, Pítias da minha alma! Notícias há muitos sóis que não hei 
recebido de ti. Entra neste solar amigo e repousa a fadiga da jornada naquela credência de 
Córdova que o Abd-El-Málek, caído do Atlas, me mandou de Marrocos e foi o último rei de 
Granada, Boabdil, que chorou...
-- Flores, estás discursivo demais... -- disse Meneses, sentado na tal credência de 
Córdova, que não era nada mais do que uma vulgar cadeira austríaca de palhinha.
-- Bebe tu agora o licor de boa amizade. É produto genuíno das minhas terras 
solarengas e avoengas de Mangaratiba.
Tomaram o "licor de boa amizade"; e, após, o poeta, falando em tom natural, 
perguntou ao amigo:
-- Como vais, Meneses?
-- Assim; e tu?
-- Às vezes, bem; às vezes, mal -- conforme a lua. Já tomaste café?
Embora dissesse que sim, Flores teimou em servir-lhe outra xícara, que foi buscar à 
cozinha. A sala de visitas era a mesma de há vinte anos. Tinha resistido a todas as mudanças e 
todas as despesas. Um sofá austríaco, velho, esburacado; duas cadeiras de braço da mesma 
marca, um trio de cadeiras de todos os feitios. Pela parede, além de outros, um magnífico 
retrato a óleo de pintor, feito por uma celebridade, quando nos seus começos. Uma velha 
estante de ferro com brochuras espandongadas e uma mesa furada com toalha de aniagem, 
bordada a lã de várias cores. Tinteiro, canetas e o mais para escrever.
Flores voltou com as xícaras cheias, pão e manteiga. Depositou tudo na mesa e 
sentou-se. Meneses notava com admiração que o amigo não dava nenhum sinal de 
desequilíbrio, nem de embriaguez, Isso fez-lhe prazer e, pondo-se a tomar café, perguntou-lhe:
-- Flores, tu ainda fazes versos?
-- Bárbaro que tu és! Pois então tu podes imaginar que eu, Leonardo Flores, deixe de 
fazer versos? Eu vivo de versos e no verso. Minha cabeça é um poema, interminável, que 
minh'alma ritma soberbamente. Não sei outra língua, senão a divina das Musas... Contraria-me 
falar como estou falando...
Calou-se um pouco e ambos sorveram o café a grandes goles, mastigando grandes 
pedaços de pão com manteiga. Flores cessou de mastigar e perguntou:
-- Por que tu me perguntaste se eu ainda fazia versos?
Ingenuamente, Meneses respondeu:
-- Tinha encomenda deles a fazer-te.
-- O quê? -- fez indignado Flores, erguendo-se, num só e rápido movimento, da 
cadeira, e deixando a xícara sobre a mesa. -- Pois tu não sabes quem sou eu, quem é Leonardo 
Flores? Pois tu não sabes que a poesia para mim é a minha dor e é a minha alegria, é a minha 
própria vida? Pois tu não sabes que tenho sofrido tudo, dores, humilhações, vexames, para 
atingir o meu ideal? Pois tu não sabes que abandonei todas as honrarias da vida, não dei o 
conforto que minha mulher merecia, não eduquei convenientemente meus filhos, unicamente 
para não desviar dos meus propósitos artísticos? Nasci pobre, nasci mulato, tive uma instrução 
rudimentar, sozinho completei-a conforme pude; dia e noite lia e relia versos e autores; dia e 
noite procurava na rudeza aparente das coisas achar a ordem oculta que as ligava, o 
pensamento que as unia; o perfume à cor, o som aos anseios de mudez de minha alma; a luz à 
alegoria dos pássaros pela manhã; o crepúsculo ao cicio melancólico das cigarras -- tudo isto eu 
fiz com sacrifícios de coisas mais proveitosas, não pensando em fortuna, em posição, em 


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respeitabilidade. Humilharam-me, ridicularizaram-me, e eu, que sou homem de combate, tudo 
sofri resignadamente. Meu nome afinal soou, correu todo este Brasil ingrato e mesquinho; e eu 
fiquei cada vez mais pobre, a viver de uma aposentadoria miserável, com a cabeça cheia de 
imagens de ouro e a alma iluminada pela luz imaterial dos espaços celestes. O fulgor do meu 
ideal me cegou; a vida, quando não me fosse traduzida em poesia, aborrecia-me. Pairei sempre 
no ideal; e se este me rebaixou aos olhos dos homens, por não compreender certos atos 
desarticulados da minha existência; entretanto, elevou-me aos meus próprios, perante a minha 
consciência, porque cumpri o meu dever, executei a minha missão: fui poeta! Para isto, fiz 
todo o sacrifício. A Arte só ama a quem a ama inteiramente, só e unicamente; e eu precisava 
amá-la, porque ela representava, não só a minha Redenção, mas toda a dos meus irmãos, na 
mesma dor. Louco?! Haverá cabeça cujo maquinismo impunemente possa resistir a tão 
inesperados embates, a tão fortes conflitos, a colisões com o meio tão bruscas e imprevistas? 
Haverá?
Flores havia falado até agora de pé, no meio da sala, sublinhando tudo com grandes 
e largos gestos e modulando a voz conforme a paixão lhe tocava. Fatigou-se, calou-se um 
pouco, cruzou os braços adiante do corpo, enterrou o queixo pontiagudo e barbado no peito e, 
assim, sempre calado, ficou instantes a sacudir levemente a cabeça, um tanto virada para a 
esquerda, olhando o amigo desoladamente. Era ele pardo-claro e cabelos negros e lisos, com 
abundantes fios brancos; tinha malares salientes e a boca bem-feita. Altura média. Diante da 
explosão do amigo, Meneses não encontrou nada que dizer. Calou-se prudentemente e evitou 
o olhar de Flores, onde este lhe censurava e, ao mesmo tempo, se apiedava pela incompreensão 
que não podia existir num velho amigo, tal como Meneses, pela verdadeira natureza e poder 
do seu estro e pelo seu ardor artístico.
Leonardo, com menos paixão e entusiasmo, continuou:
-- Sim, meu velho Meneses, fui poeta, só poeta! Por isso, nada tenho e nada me 
deram. Se tivesse feito alambicados jeitosos, colchas de retalhos de sedas da China ou do 
Japão, talvez fosse embaixador ou ministro; mas fiz o que a dor me imaginou e a mágoa me 
ditou. A saudade escreveu e eu translado, disse Camões; e eu transladei, nos meus versos, a 
dor, a mágoa, o sonho que as muitas gerações que resumo escreveram com sangue e lágrimas, 
no sangue que me corre nas veias. Quem sente isto, meu caro Meneses, pode vender versos? 
Dize, Meneses!
-- Não. Deve sempre assiná-los.
-- Pois eu não vendo, passe por que passar. Sofram, sonhem e bebam cachaça, se o 
quiserem fazer. Isto não será bastante -- disse ele com melancolia -- é preciso ter nascido como 
eu, ter perdido todos os seus irmãos na pobreza e ter um, há vinte anos, atacado da mais 
estúpida forma de loucura, para os poder fazer. Isto, porém, ninguém pode obter por sua 
própria vontade. Bendito seja Deus!
Sentou-se com os olhos úmidos, tomou uma "talagada" do "Mangaratiba" e dispôs-se 
a escrever, recomendando ao amigo:
-- Deita-te no sofá e lê os jornais, enquanto escrevo alguma coisa, até o "ajantarado".
Meneses assim fez. Veio a dormir e, quando despertou, ficou admirado da amplitude 
da sala e ter as pernas livres. Sonhara que estava preso e acorrentado...

          VIII

Um dos traços mais simpáticos do caráter de Joaquim dos Anjos era a confiança que 
depositava nos outros, e a boa fé. Ele não tinha, como diz o povo, malícia no coração. Não era 
inteligente, mas também não era peco; não era sagaz, mas também não era tolo; entretanto, não 
podia desconfiar de ninguém, porque isso lhe fazia mal à consciência. Não se diga que, às 
vezes, não recebesse certos conhecimentos com reservas e cautelas; tal coisa, porém, era rara, e 


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gracioso era estar já prevenido de antemão com o sujeito. Em geral, fosse quem fosse, ele 
acolhia com simpatia, de braços abertos. Na sua simplicidade, a maldade, a má fé, a 
perversidade, a duplicidade dos homens lhe pareciam coisas tão raras, tão difíceis de medrar 
numa criatura de Deus, que só topariam com elas os que lhes andassem à procura, para estudos 
e coleções.
A sua vida se havia desenvolvido até ali na maior boa fé e, como houvesse sido feliz, 
no seu ponto de vista, os seus cinqüenta anos julgavam o mundo como um reino de paz, de 
concórdia, de honestidade e lealdade, apesar das notícias de jornais.
Jamais lera jornais habitualmente. Se tomava um e tentava ler qualquer coisa, logo lhe 
vinha o sono. Tudo que não viesse ferir-lhe o ouvido, não suportava e não lhe ia à inteligência. 
Não compreendia um desenho, uma caricatura, por mais grosseira e elementar que fosse. Para 
que pudesse receber qualquer sensação duradoura e agradável, era-lhe preciso o "som", o 
"ouvido".
Música, desde que fosse aquela a que estava habituado, encantava-lhe; canto, mesmo 
acima da trivial modinha, arrebatava-o; versos, quando recitados, apreciava muito; e um 
grande discurso, cujos primeiros períodos ele não seria capaz de lê-los até o fim, 
entusiasmava-o, fosse qual fosse o assunto, desde que o dissesse grande orador. Era pobre de 
visão e o funcionamento do seu aparelho visual era limitado às necessidades rudimentares da 
vida.
Conquanto razoavelmente empregado, nunca deixara a música. Não tocava em 
bandas nem em orquestra; mas tirava partes, instrumentava, compunha de quando em quando, 
ganhando algum dinheiro com isso. Todas as tardes, após o serviço, reunia-se com outros 
músicos militantes, bebericavam, conversavam, falavam sobre a "Arte", as orquestras de 
cinemas, a música de tal peça ou daquela outra, relembravam colegas mortos; e, às seis horas, 
por aí assim, encaminhava-se para a casa, sempre com um rolo de papel de música.
Trabalhava nas encomendas, após o jantar. Punha-se de calças e camisa de meia, nos 
dias quentes, ou com um paletó velho, nos frios, e enfronhava-se nos compassos, nos 
sustenidos, nos acordes, até alta noite.
Tinha ensinado à filha os rudimentos da arte musical e a caligrafia respectiva. Não 
lhe ensinara um instrumento, porque só queria piano, Flauta não era próprio, para uma moça; 
violino era agourento, e o violão era desmoralizado e desmoralizava. Os outros que o 
tocassem, sem música ou com ela; sua filha, não. Só piano, mas não tinha posses para comprar 
um. Podia alugar, mas tinha que pagar professora para a filha. Eram duas despesas com que 
não poderia arcar. O rendimento da música não era coisa certa; e os seus vencimentos tinham 
emprego obrigado no vestuário seu, da mulher e da filha, no armazém, etc., etc.
Por isso, não levou avante os estudos musicais da filha, os quais, por falta de 
convivência e tempo, não passaram da pouca coisa que ele podia ensinar. Mesmo ela não tinha 
nenhum ardor musical, nem de repetir, de reproduzir, nem de criar; aprazia-lhe ouvir, e era o 
bastante para a sua natureza elementar. Nem a relativa independência que o ensino da música e 
piano lhe poderia fornecer, animava-a a aperfeiçoar os seus estudos. O seu ideal na vida não 
era adquirir uma personalidade, não era ser ela, mesmo ao lado do pai ou do futuro marido. 
Era constituir função do pai, enquanto solteira, e do marido, quando casada. Não imaginava as 
catástrofes imprevistas da vida, que nos empurram, às vezes, para onde nunca sonhamos ter de 
parar. Não via que, adquirida uma pequena profissão honesta e digna do seu sexo, auxiliaria 
seus pais e seu marido, quando casada fosse. Ela tinha bem perto o exemplo de Dona 
Margarida Pestana, que, enviuvando, sem ceitil, adquirira casa, fizera-se respeitada e ia 
criando e educando o filho, de progresso em progresso, fazendo tudo prever que chegaria à 
formatura ou a coisa parecida.
A muito custo, devido às insistências de Dona Margarida, consentira em ajudá-la nos 
bordados, trabalhados para fora, com o que ia ganhando algum dinheiro. Não que ela fosse 


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vadia, ao contrário; mas tinha um tolo escrúpulo de ganhar dinheiro por suas próprias mãos. 
Parecia feio a uma moça ou a uma mulher.
Clara era uma natureza amorfa, pastosa, que precisava mãos fortes que a modelassem 
e fixassem. Seus pais não seriam capazes disso. A mãe não tinha caráter, no bom sentido, para 
o fazer; limitava-se a vigiá-la caninamente; e o pai, devido aos seus afazeres, passava a maioria 
do tempo longe dela. E ela vivia toda entregue a um sonho lânguido de modinhas e descantes, 
entoadas por sestrosos cantores, como o tal Cassi e outros exploradores da morbidez do 
violão. O mundo se lhe representava como povoado de suas dúvidas, de queixumes de viola, a 
suspirar amor. Na sua cabeça, não entrava que a nossa vida tem muito de sério, de 
responsabilidade, qualquer que seja a nossa condição e o nosso sexo. Cada um de nós, por 
mais humilde que seja, tem que meditar, durante a sua vida, sobre o angustioso mistério da 
Morte, para poder responder cabalmente, se o tivermos que o fazer, sobre o emprego que 
demos a nossa existência. Não havia, em Clara, a representação, já não exata, mas aproximada, 
de sua individualidade social; e, concomitantemente, nenhum desejo de elevar-se, de reagir 
contra essa representação. A filha do carteiro, sem ser leviana, era, entretanto, de um poder 
reduzido de pensar, que não lhe permitia meditar um instante sobre o destino, observar os 
fatos e tirar ilações e conclusões. A idade, o sexo e a falsa educação que recebera, tinham 
muita culpa nisso tudo; mas a sua falta de individualidade não corrigia a sua obliquada visão 
da vida. Para ela, a oposição que, em casa, se fazia a Cassi, era sem base. Ele tinha feito isto e 
aquilo; mas -- interrogava ela -- quem diria que ele fizesse o mesmo em casa de seu pai?
Seu pai -- pensava ela -- estava bem empregado, relacionado, respeitado; ele, 
portanto, não seria tão tolo, que fosse desrespeitar uma família honesta, que tinha por chefe tal 
homem. De resto, esses rapazes não são culpados do que fazem; as moças são muito 
oferecidas...
Com raciocínios desse jaez e semelhantes, Clara, na ingenuidade de sua idade e com 
as pretensões que a sua falta de contato com o mundo e capacidade mental de observar e 
comparar justificavam, concluía que Cassi era um rapaz digno e podia bem amá-la 
sinceramente.
O padrinho, Marramaque, parecia-lhe seu inimigo. Sempre que podia, contava mais 
uma proeza, mais uma falcatrua de Cassi. Não lhe cansava o assunto.
Clara até tinha, às vezes, vontade de dizer a seu padrinho: "Padrinho, esse Cassi deve 
ser muito rico, porque compra a polícia, a justiça, para não ser preso. Olhe: se ele fosse 
condenado pela metade dos crimes que o senhor lhe atribui, estaria já na cadeia, por mais de 
trinta anos."
Ela se enganava, porque não conhecia a vida. Para se escapar aos crimes de Cassi, 
basta um pouco de proteção e que o acusado seja bastante cínico e ousado.
Vivia assim ansiosa e ofegante, querendo e não querendo ver o modinheiro; ora, 
convencendo-se de tudo que diziam dele; ora, não acreditando e apresentando ao seu próprio 
espírito dúvidas e objeções, quando Meneses veio tratar de seus dentes, após umas fortes 
dores que a prostraram de cama.
Um certo dia, o pai lhe havia dado, ao sair, pela manhã, um trabalho de música, para 
copiar, de forma que, à tarde, estivesse pronto. Não era longo, mas exigia atenção. Depois do 
almoço, aí pelas onze horas, pôs-se a copiar, mas, subitamente, deu-lhe uma dor de dentes que 
a fez gemer e até chorar.
Engrácia, sua mãe, correu a acudi-la. Como sempre, porém, ficou estonteada, sem 
saber o que fazer, que paliativo dar; Clara, mal falando, disse-lhe que mandasse chamar Dona 
Margarida.
Em vindo esta, aplicou remédios caseiros, mandou buscar malva, pela criada que 
tinha em sua casa; fez Clara bochechar e foi-se para a casa tratar dos seus bordados e costuras.
Engrácia, porém, não se acomodava, andava de um lado para outro, impaciente que o 


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marido chegasse. Todas as moléstias existentes, que a natureza cria, e os médicos, por 
desfastio, inventam, ela supunha poder ter sua filha.
Não havia nenhuma lucidez nos seus raciocínios, quando um acontecimento de 
aparência grave lhe tocava, e pior ficava, quando se tratava da filha.
O seu amor à Clara era um sentimento doentio, absorvente e mudo. Queria a filha 
sempre junto a si, mas quase não conversava com ela, não a elucidava sobre as coisas da vida, 
sobre os seus deveres de mulher e de moça. A não ser no caso de Cassi, que o seu instinto de 
mãe falara mais alto do que a sua inércia natural, nunca punha em prática uma medida eficaz 
que traduzisse amparo e direção de mãe na conduta da filha. Pensava, mas não chegava ao ato.
O dia inteiro, quase, passavam as duas mulheres metidas cada uma consigo mesma.
A mãe lavava a roupa no tanque, ao lado da casa; e a filha se encarregava dos 
arranjos domésticos. A cozinha era feita por ambas ou só por Clara, quando não tinha músicas 
do pai a copiar ou sua mãe tinha muita roupa na lavagem.
Joaquim, o Quincas, como o chamava a mulher, saía, nas primeiras horas da manhã, 
passava pela venda, fazia as encomendas, tomava um "calisto" e conversava um pouco com o 
"Seu" Nascimento.
-- Não acredito que "ele" venha, nem também que o outro se repimpe no Catete.
-- Seria bom para o senhor... -- dizia Nascimento.
-- O quê? Nem o conheço... Qual! Nada tenho com um nem com outro... 
-- Mas é seu patrício...
-- Como o senhor é, como o outro é também. Somos todos brasileiros... Eu, "Seu" 
Nascimento, só cuido da mulher e da filha e, um pouco, da música.
-- Por falar em música: que tal aquele Cassi?
-- Quer que lhe diga uma coisa? Como músico, não vale nada. Dá cada cincada... 
-- Mas tem fama...
-- A fama dele vem do dengoso, do meloso que ele põe no cantar, chegando a ser até 
uma indecência. Ele canta que parece estar num café-concerto, no meio de mulheres de vida 
airada...
-- Por aí, apreciam-no muito...
-- São essas meninas bobas, que não têm quem lhes abra os olhos... Olhe, "Seu" 
Nascimento, na minha casa ele não me põe mais os pés.
-- Marramaque, seu compadre, já me tinha dito isto e...
-- O compadre exagera muito. O compadre tem o seu ponto de honra de poeta... O 
senhor sabe; ele já figurou, escreveu em jornais e revistas, teve roda e convivência de certa 
ordem, não pode admitir que um quase analfabeto, como Cassi, tenha fama de artista... A 
culpa não é deste; é do nosso meio, que não tem instrução nem preparo.
-- "Seu" Joaquim, o senhor já viu o caderno que mandaram a seu compadre sobre o 
tal Cassi?
-- Já.
-- Que pensa daquilo tudo?
-- Se é verdade, ele merece a forca.
-- Pois dizem que é. O senhor não sabe quem é a tia Vicência, que mora por aqui, na 
rua da Redenção?
-- Não.
-- Conheço-a eu. Ela é pessoa da casa de Cassi e diz que tudo aquilo é verdade. 
Conta até mais detalhes.
-- E quem é que espalha o tal caderno?
-- É um oficial do Exército, homem preparado, parece que engenheiro, cuja mulher 
atual é aquela moça que Cassi desonrou, e a mãe matou-se por isso, há cinco anos.
-- Quem lhe disse isso?


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-- Vicência. Ela conhece não só a família do violeiro, como muitas das vítimas. Diz 
que o marido dessa moça só não lhe dá cabo do canastro, para não fazer escândalo; mas, na 
primeira em que se meter, toma a peito a causa da vítima, seja quem for.
Joaquim dos Anjos ouviu isso, calou-se um pouco e, sem nada responder, 
recomendou:
-- Não se esqueça de mandar, principalmente a lenha, que é precisa para o almoço. 
Estou na hora... Até logo!
Saiu, pensando nesse tal Cassi, que, por mais que quisesse esquecê-lo, sempre estava 
presente à sua memória, sempre estavam a relembrá-lo, como se fosse uma grande coisa, um 
homem notável e de posição. Que é que queriam dizer com isso? Preveni-lo? O carteiro sorriu 
intimamente: "Ele não ousará"! E pensou na sua garrucha de dois canos, com as quais se viaja 
em Minas, presente ainda do inglês, seu primeiro patrão.
Homem forte, leal, direito, Joaquim tanto tinha nos outros como em si uma confiança 
ilimitada. Não desconfiava, nem admitia que se desconfiasse; mas esse tal Cassi...
Estendia essa sua confiança à sua mulher, no que tinha razão; mas não à filha, como 
fazia, porque, no tocante a esta, precisava contar com a crise da idade, a estreiteza de sua 
educação doméstica e a atmosfera de corrupção com que o meio a envolvia, admitindo 
tacitamente que ela estava fadada ao destino das "outras". Joaquim dos Anjos não tinha 
capacidade intelectual para tanto...
Cessou de pensar em Cassi e pôs-se a cogitar no trabalho, nas gratificações e nos 
aumentos. Chegou à repartição, assinou o ponto, cumprimentou os colegas e chefes; e, à hora 
certa, tomou a correspondência a distribuir e lá correu para escritórios, casas de comércio, 
entregando cartas e pacotes.
Vinha tudo isto com nomes arrevesados: franceses, ingleses, alemães, italianos, etc.; 
mas, como eram sempre os mesmos, acabara decorando-os e pronunciando-os mais ou menos 
corretamente. Gostava de lidar com aqueles homens louros, rubicundos, robustos, de olhos cor 
do mar, entre os quais ele não distinguia os chefes e os subalternos. Quando havia brasileiros, 
no meio deles, logo adivinhava que não eram chefes. Almoçava frugalmente e até às cinco 
executava o serviço, isto é, as várias distribuições de correspondência.
Terminado o trabalho, procurava os seus colegas de arte e, aí pelas cinco, cinco e 
meia, metia-se no trem para a casa.
Naquele dia, conforme o seu costume, preencheu-o todo assim, sem nenhuma 
discrepância ou variante, como se obedecesse a um programa. Quando chegou em casa, já se 
fazia escuro, e os lampiões da iluminação pública estavam acesos e prontos a suceder, 
consoante o seu poder, à soberba luz do sol, que ia morrendo, num crepúsculo cambiante e 
lento, por detrás das montanhas, que se destacavam num fundo de prata, de ouro e de 
púrpura, na parte do horizonte em que ele se escondia.
Veio-lhe abrir a porta a mulher, que, antes de mais nada, lhe foi dizendo:
-- Ah! Quincas! Você não sabe como me vi atrapalhada, hoje, aqui... Se não fosse 
Dona Margarida...
-- Mas o que houve, Engrácia?
-- Clara ficou doente de repente, pôs-se a gemer, e eu, sem ninguém, não sabia o que 
fazer. Felizmente, gritei por Dona Margarida, que acudiu.
-- Que é que ela teve, mulher?
-- Dentes, Quincas; mas uma dor muito forte.
-- Ora, você mesmo! Você é uma pamonha. Então dor de dentes é moléstia que 
assuste ninguém?
-- É que você não viu.
-- Vamos ver o que há?

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