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terça-feira, 20 de novembro de 2018

Clara dos Anjos - Parte 1 de 3 - Lima Barreto


Clara dos Anjos - Parte 1 de 3 - Lima Barreto



Concluído em 1922, ano da morte de Lima Barreto, o romance Clara dos Anjos é uma denúncia áspera do preconceito racial e social, vivenciado por uma jovem mulher do subúrbio carioca.

(SEGUE ABAIXO A OBRA COMPLETA DIVIDIDA EM 3 PARTES)



O Realismo-naturalismo, que tanto influenciou Lima Barreto na composição de Clara dos Anjos, é cientificista e determinista, considerando que as ações humanas são produtos de leis naturais: do meio, das características hereditárias e do momento histórico. Portanto, os romances naturalistas procuravam, através da representação literária, demonstrar teses extraídas de teorias científicas. Para isso, o Naturalismo buscou compor um registro implacável da realidade, incluindo seus aspectos repugnantes e grotescos. São exatamente esses os aspectos que mais chamam à atenção na narrativa exagerada de Clara dos Anjos.


         I

O carteiro Joaquim dos Anjos não era homem de serestas e serenatas; mas gostava de 
violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instrumento que já foi muito estimado em 
outras épocas, não o sendo atualmente como outrora. Os velhos do Rio de Janeiro, ainda hoje, 
se lembram do famoso Calado e das suas polcas, uma das quais  -- "Cruzes, minha prima!" -- é 
uma lembrança emocionante para os cariocas que estão a roçar pelos setenta. De uns tempos a 
esta parte, porém, a flauta caiu de importância, e só um único flautista dos nossos dias 
conseguiu, por instantes, reabilitar o mavioso instrumento -- delícia, que foi, dos nossos pais e 
avós. Quero falar do Patápio Silva. Com a morte dele a flauta voltou a ocupar um lugar 
secundário como instrumento musical, a que os doutores em música, quer executantes, quer os 
críticos eruditos, não dão nenhuma importância. Voltou a ser novamente plebeu.
Apesar disso, na sua simplicidade de nascimento, origem e condição, Joaquim dos 
Anjos acreditava-se músico de certa ordem, pois, além de tocar flauta, compunha valsas, 
tangos e acompanhamentos de modinhas.        
Uma polca sua  -- "Siri sem unha"  -- e uma valsa  --  "Mágoas do 
coração"  -- tiveram algum sucesso, a ponto de vender ele a propriedade de cada uma, por 
cinqüenta mil-réis, a uma casa de músicas e pianos da rua do Ouvidor.
O seu saber musical era fraco; adivinhava mais do que empregava noções teóricas 
que tivesse estudado.
Aprendeu a "artinha" musical na terra do seu nascimento, nos arredores de 
Diamantina, em cujas festas de igreja a sua flauta brilhara, e era tido por muitos como o 
primeiro flautista do lugar. Embora gozando desta fama animadora, nunca quis ampliar os seus 
conhecimentos musicais. Ficara na "artinha" de Francisco Manuel, que sabia de cor; mas não 
saíra dela, para ir além.       
Pouco ambicioso em musica, ele o era também nas demais manifestações de sua vida. 
Desgostoso com a existência medíocre na sua pequena cidade natal, um belo dia, aí pelos seus 
vinte e dois anos, aceitara o convite de um engenheiro inglês que, por aquelas bandas, andava, 
a explorar terras e terrenos diamantíferos. Todos julgavam que o "seu" mister andasse fazendo 
isso; a verdade, porém, é que o sábio inglês fazia estudos desinteressados. Fazia puras e 
platônicas pesquisas geológicas e mineralógicas. O diamante não era o fim dos seus trabalhos; 
mas o povo, que teimava em ver, pelos arredores da cidade, o ventre da terra cheio de 
diamantes, não podia supor que um inglês que levava a catar pedras, pela manhã e até à noite, 
tomando notas e com uns instrumentos rebarbativos, não estivesse com tais gatimonhas a caçar 
diamantes. Não havia meio do mister convencer à simplória gente do lugar que ele não queria 
saber de diamantes; e dia não havia em que o súdito de Sua Graciosa Majestade não recebesse 
uma proposta de venda de terrenos, em que forçosamente havia de existir a preciosa pedra 
abundantemente, por tais ou quais indícios, seguros aos olhos de "garimpeiro" experimentado.
Logo ao chegar o geólogo, Joaquim empregou-se como seu pajem, guia, 
encaixotador, servente, etc., e tanto foi obediente e serviu a contento o sábio, que este, ao dar 
por terminadas as suas pesquisas, convidou-o a vir ao Rio de Janeiro, encarregando-se de 


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movimentar a sua pedregulhenta ou pedregosa bagagem, até que ela fosse posta a bordo. O 
sábio comprometeu-se a pagar-lhe a estadia no Rio, o que fez, até embarcar-se para a Europa. 
Deu-lhe dinheiro para voltar, um chapéu de cortiça, umas perneiras, um cachimbo e uma lata 
de fumo "Navy Cut"; Joaquim já se havia habituado ao Rio de Janeiro, no mês e pouco em que 
estivera aqui, a serviço do Senhor John Herbert Brown, da Real Sociedade de Londres; e 
resolveu não voltar para Diamantina. Vendeu as perneiras num belchior e o chapéu de cortiça 
também; e pôs-se a fumar o saboroso fumo inglês no cachimbo que lhe fora ofertado, 
passeando pelo Rio, enquanto teve dinheiro. Quando acabou, procurou conhecidos que já 
tinha; e, em breve, entrou para o serviço de empregado de escritório de um grande advogado, 
seu patrício, isto é, mineiro.
-- Não te darei coisa que valha a pena -- disse-lhe logo o doutor --, mas aqui irás 
travando conhecimentos e podes arranjar coisa melhor mais tarde.
Viu bem que o "doutor" lhe falava a verdade, e toda sua ambição se cifrou em obter 
um pequeno emprego público que lhe desse direito a aposentadoria e a montepio, para a 
família que ia fundar. Conseguira, ao fim de dois anos de trabalho, aquele de carteiro, havia 
bem quatro lustros, com o qual estava muito contente e satisfeito da vida, tanto mais que 
merecera sucessivas promoções.   
Casara meses depois de nomeado; e, tendo morrido sua mãe, em Diamantina, como 
filho único, herdara-lhe a casa e umas poucas terras em Inhaí, uma freguesia daquela cidade 
mineira. Vendeu a modesta herança e tratou de adquirir aquela casita nos subúrbios em que 
ainda morava e era dele. O seu preço fora módico, mas, mesmo assim, o dinheiro da herança 
não chegara, e pagou o resto em prestações. Agora, porém, e mesmo há vários anos, estava em 
plena posse do seu "buraco", como ele chamava a sua humilde casucha. Era simples. Tinha dois 
quartos; um que dava para a sala de visitas e outro para a sala de jantar, aquele ficava à direita 
e este à esquerda de quem entrava nela. À de visitas, seguia-se imediatamente a sala de jantar. 
Correspondendo a pouco mais de um terço da largura total da casa, havia, nos fundos, um 
puxadito, onde estavam a cozinha e uma despensa minúscula. Comunicava-se esse puxadito 
com a sala de jantar por uma porta; e a despensa, à esquerda, apertava o puxado, a jeito de um 
curto corredor, até à cozinha, que se alargava em toda a largura dele. A porta que o ligava à 
sala de jantar ficava bem junto daquela, por onde se ia dessa sala para o quintal. Era assim o 
plano da propriedade de Joaquim dos Anjos.
Fora do corpo da casa, existia um barracão para banheiro, tanque, etc., e o quintal era 
de superfície razoável, onde cresciam goiabeiras, dois pés ou três de laranjeiras, um de limão 
galego, mamoeiros e um grande tamarineiro copado, bem aos fundos.
A rua em que estava situada a sua casa desenvolvia-se no plano e, quando chovia, 
encharcava e ficava que nem um pântano; entretanto, era povoada e se fazia caminho obrigado 
das margens da Central para a longínqua e habitada freguesia de Inhaúma. Carroções, carros, 
autocaminhões que, quase diariamente, andam por aquelas bandas a suprir os retalhistas de 
gêneros que os atacadistas lhes fornecem, percorriam-na do começo ao fim, indicando que tal 
via pública devia merecer mais atenção da edilidade.
Era uma rua sossegada e toda ela, ou quase toda, edificada ao gosto antigo do 
subúrbio, ao gosto do chalet. Estava povoada e edificada quase inteiramente, de um lado e de 
outro. Dela, descortinava-se um lindo panorama de montanhas de cores cambiantes, conforme 
fosse a hora do dia e o estado da atmosfera. Ficavam-lhe muito distantes, mas pareciam 
cercá-la, e ela, a rua, ser o eixo daquele redondel de montes, em que, pelo dia em fora, 
pareciam ser iluminados por projeções luminosas, revestindo-se de toda a gama do verde, de 
tons azuis; e, pelo crepúsculo, ficavam cobertos de ouro e púrpura.
Além dos clássicos chalets suburbanos, encontravam-se outros tipos de casas. 
Algumas relativamente recentes, uns certos requififes e galanteios modernos, para lhes 
encobrir a estreiteza dos cômodos e justificar o exagero dos aluguéis. Havia, porém, uma casa 


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digna de ser vista. Erguia-se quase ao centro de uma grande chácara e era a característica das 
casas das velhas chácaras dos outros tempos; longa fachada, pouco fundo, teto acaçapado, 
forrada de azulejos até a metade do pé-direito, Um tanto feia, é verdade, que ela era, sem 
garridice; mas casando-se perfeitamente com as mangueiras, com as robustas jaqueiras e os 
coqueiros petulantes e com todas aquelas grandes e pequenas árvores avelhantadas, que, 
talvez, os que as plantaram não as tivessem visto frutificar. Por entre elas, onde se podiam ver 
vestígios do antigo jardim, havia estatuetas de louça portuguesa, com letreiros azuis. Uma era 
a "Primavera"; outra era a "Aurora", quase todas, porém, estavam mutiladas; umas, num braço; 
outras não tinham cabeça, e ainda outras jaziam no chão, derrubadas dos seus toscos suportes. 
Os muros que cercavam a casa, a razoável distância, e mesmo aquele em que se 
apoiava o gradil de ferro da frente do imóvel, estavam cobertos de hera, que os envolvia em 
todo ou em parte, não como um sudário, mas como um severo, cerimonioso e vivo manto de 
outras épocas e de outras gentes, a provocar saudades e evocações, animando a ruína. Hoje, é 
raro ver-se, no Rio de Janeiro, um muro coberto de hera; entretanto, há trinta anos, nas 
Laranjeiras, na rua Conde de Bonfim, no Rio Comprido, no Andaraí, no Engenho Novo, 
enfim, em todos os bairros que foram antigamente estações de repouso e prazer, 
encontravam-se, a cada passo, longos muros cobertos de hera, exalando melancolia e 
sugerindo recordações.
Joaquim dos Anjos ainda conhecera a "chácara" habitada pelos proprietários 
respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham retirado para fora e alugado aos "bíblias", Os 
seus cânticos, aos sábados (era o seu dia da semana de descanso sagrado, entoados quase de 
hora em hora, enchiam a redondeza e punham na sua audiência uma soturna sombra de 
misticismo. O povo não os via com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres 
raparigas dos arredores freqüentavam-nos, já por encontrar nisso um sinal de superioridade 
intelectual sobre os seus iguais, já por procurarem, em outra casa religiosa que não a 
tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas, além das dores que seguem toda e 
qualquer existência humana.   
Alguns, entre os quais o João Pintor, justificavam freqüentar os "bíblias", porque 
estes  -- dizia ele -- não eram como os padres, que, para tudo, querem dinheiro.
Esse João Pintor trabalhava nas oficinas do Engenho de Dentro, no oficio de que 
proviera o seu apelido. Era um preto retinto, grossos lábios, malares proeminentes, testa curta, 
dentes muito bons e muito claros, longos braços, manoplas enormes, longas pernas e uns tais 
pés, que não havia calçado, nas sapatarias, que coubessem neles. Mandava-os fazer de 
encomenda; mas assim mesmo, mal os punha hoje, no dia seguinte tinha que os retalhar a 
navalha, se queria dar alguns passos e manquejar menos até o "Mafuá".
Dizia o "Turuna", adepto do padre Sodré, capelão do Santuário de Nossa Senhora de 
Lourdes, que João Pintor se metera com os "bíblias", porque estes lhe haviam dado um quarto, 
na chácara, para ele morar de graça, com certas obrigações pequenas a cumprir. João Pintor 
contestava com veemência; o certo, porém, é que ele morava na "chácara".
Chefiava os protestantes um americano, Mr. Quick Shays, homem tenaz e cheio de 
uma eloqüência bíblica, que devia ser magnífica em inglês; mas que, no seu duvidoso 
português, se tornava simplesmente pitoresca. Era Shays Quick ou Quick Shays daquela raça 
curiosa de yankees fundadores de novas seitas cristãs. De quando em quando, um cidadão 
protestante dessa raça que deseja a felicidade de nós outros, na terra e no céu, à luz de uma 
sua interpretação de um ou mais versículos da Bíblia, funda uma novíssima seita, põe-se a 
propagá-la e logo encontra dedicados adeptos, os quais não sabem muito bem por que foram 
para tal novíssima religiãozinha e qual a diferença que há entre esta e a de que vieram.
Lá, na sua terra, como aqui, esses pequenos luteros fazem prosélitos; lá, mais do que 
aqui. Mr. Shays obtinha, nas vizinhanças do carteiro Joaquim dos Anjos, não prosélitos, mas 
muitos ouvintes, dos quais uma quinta parte afinal se convertia. Quando se tratava de iniciar 


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uma turma, os noviços dormiam em barracas de campanha, erguidas ao redor da casa, nos vãos 
existentes entre as velhas árvores da chácara, maltratada e desprezada.
As cerimônias preparatórias à iniciação, na religião de Mr. Quick Shays, duravam 
uma semana, farta de jejuns e cânticos religiosos, cheios de unção e apelos contrictos a Deus, 
Nosso Pai; e a velha propriedade de recreio, com as barracas militares e salmodias continuas, 
adquiria um aspecto esquisito e imprevisto, o de convento ao ar livre, mascarado por uma 
rebarbativa carranca de acampamento guerreiro. Dir-se-ia um destacamento de uma ordem de 
cavalaria monástico-guerreira que se preparava para combater o turco ou o mouro infiel, na 
Palestina ou em Marrocos.
Da redondeza, não eram muitos os adeptos ortodoxos à doutrinação religiosa de Mr. 
Shays; entretanto, além das espécies que já foram aludidas, havia as daqueles que assistiam às 
suas prédicas, por mera curiosidade ou para deliciar-se com a oratória do pastor americano. O 
templo estava sempre cheio, nos seus dias solenes.
Os freqüentadores dessa ou daquela natureza lá iam sem nenhuma repugnância, pois 
é próprio do nosso pequeno povo fazer uma extravagante amálgama de religiões e crenças de 
toda a sorte, e socorrer-se desta ou daquela, conforme os transes e momentâneas agruras de 
sua existência. Se se trata de afastar atrasos de vida, apela para a feitiçaria; se se trata de curar 
uma moléstia tenaz e renitente, procura o espírita; mas não falem à nossa gente humilde em 
deixar de batizar o filho pelo sacerdote católico, porque não há, dentre ela, quem não se 
zangue: "Está doido! Meu filho ficar pagão! Deus me defenda!
Joaquim dos Anjos não freqüentava Mr. Shays nem o reverendo padre Sodré, do 
Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, pois, apesar de ter nascido numa cidade 
embalsamada de incenso e plena de ecos sonoros de litanias e o continuo repicar de sinos 
festivos, não era animado de grande fervor religioso. Sua mulher, Dona Engrácia, porém, o era 
em extremo, embora fosse pouco à igreja, devido às suas obrigações caseiras. Ambos, porém, 
estavam de acordo num ponto religioso católico-romano: batizar quanto antes os filhos, na 
Igreja Católica Apostólica Romana. Foi assim que procederam, não só com a Clara, o único 
filho sobrevivente, como com os demais, que haviam morrido.
Eram casados há quase vinte anos, e esta Clara, sua filha, sendo o segundo filho do 
casal, orçava pelos seus dezessete anos.
Era tratada pelos pais com muito desvelo, recato e carinho; e, a não ser com a mãe ou 
pai, só saia com Dona Margarida, uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças e 
ensinava a Clara bordados e costuras.
No mais, isto era raro e só acontecia aos domingos, Clara deixava, às vezes, a casa 
paterna, para ir ao cinema do Méier ou Engenho de Dentro, quando a sua professora de 
costuras se prestava a acompanhá-la, porque Joaquim não se prestava, pois não gostava de sair 
aos domingos, dia escolhido a fim de se entregar ao seu prazer predileto de jogar o solo com 
os companheiros habituais; e sua mulher não só não gostava de sair aos domingos, como em 
outro dia da semana qualquer. Era sedentária e caseira.
Os companheiros habituais do solo com Joaquim eram quase sempre estes dois: o 
Senhor Antônio da Silva Marramaque, seu compadre, pois era padrinho de sua filha única; e o 
Senhor Eduardo Lafões. Não variavam. Todos os domingos, ai pelas nove horas, lá batiam à 
porteira da casa do "postal"; não entravam no corpo da habitação e, pelo corredor que mediava 
entre ela e a vizinha, dirigiam-se ao grande tamarineiro, aos fundos do quintal, debaixo do 
qual estava armada a mesa, com os seus tentos, vermelhos e pupilas negras, de grão de aroeira, 
o seu baralho, os seus pires, um cálice e um litro de parati, ao centro, muito pimpão e 
arrogante, impondo um cínico desafio às conveniências protocolares.
Joaquim dos Anjos já esperava, lendo o jornal de sua predileção. Mal chegavam, 
trocavam algumas palavras, sentavam-se, "molhavam a palavra", no litro de cachaça, e 
punham-se a jogar. Ficha a vintém.


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Horas e horas, esperando o "ajantarado", que quase sempre ia para a mesa à hora do 
jantar habitual, deixavam-se ficar jogando, bebericando aguardente, sem dar uma vista d'olhos 
sobre as montanhas circundantes, nuas e pedroucentas, que recortavam o alto horizonte.
De quando em quando, mas sem grandes espaços, Joaquim gritava para a cozinha:
-- Clara! Engrácia! Café!
De lá, respondiam, com algum amuo na voz:
-- Já vai!
É que as duas mulheres, para preparar o café, tinham que retirar, de um dos dois 
fogareiros de carvão vegetal, uma panela do "ajantarado" que aprontavam, a fim de aquecer o 
café reclamado; e isto lhes atrasava o jantar.
Enquanto esperavam o café, os três suspendiam o jogo e conversavam um pouco. 
Marramaque era e sempre havia sido mais ou menos político, a seu modo.
Embora atualmente fosse um simples contínuo de ministério, em que não fazia o 
serviço respectivo, nem outro qualquer, devido a seu estado de invalidez, de semi-aleijado e 
semiparalítico do lado esquerdo, tinha, entretanto, pertencido a uma modesta roda de boêmios 
literatos e poetas, na qual, a par da poesia e de coisas de literatura, se discutia muita política, 
hábito que lhe ficou. Quando veio a revolta de 93, a roda se dissolveu. Uns foram acompanhar 
o Almirante Custódio; e outros, o Marechal Floriano. Marramaque foi um destes e até obteve 
as honras de alferes do Exército. Por ai é que teve a primeira congestão, isto é, nos fins do 
governo do marechal, em 94.
A sua roda não tinha ninguém de destaque, mas alguns eram estimáveis. Mesmo 
alguns de rodas mais cotadas procuravam a dele.
Quando narrava episódios dessa parte de sua vida, tinha grande garbo e orgulho em 
dizer que havia conhecido Paula Nei e se dava com Luís Murat. Não mentia, enquanto não 
confessasse a todos em que qualidade fizera parte do grupo literário. Os que o conheciam, 
daquela época, não ocultavam o título com que partilhava a honra de ser membro de um 
cenáculo poético. Tendo tentado versejar, o seu bom senso e a integridade de seu caráter 
fizeram-lhe ver logo que não dava para a coisa. Abandonou e cultivou as charadas, os 
logogrifos, etc. Ficou sendo um hábil charadista e, como tal, figurava quase sempre como 
redator ou colaborador dos jornais, que os seus companheiros e amigos de boêmia literária, 
poetas e literatos, improvisavam do pé para a mão, quase sempre sem dinheiro para um terno 
novo. Envelhecendo e ficando semi-inutilizado, depois de dois ataques de apoplexia, foi 
obrigado a aceitar aquele humilde lugar de contínuo, para ter com que viver. Os seus méritos e 
saber, porém, não estavam muito acima do cargo. Aprendera muita coisa de ouvido e, de 
ouvido, falava de muitas delas. Tivera, em moço, uma boa convivência. Estava ai o segredo de 
sua ilustração. Marramaque, apesar de tudo, do seu estado de saúde, da sua dificuldade de 
locomover-se, não deixava a mania inócua da política e ia votar, com risco de se ver envolvido 
num barulho de sufrágio universal, puxado a navalha, rabo-de-arraia, cabeçadas, tiros de 
revólver e outras eloqüentes manifestações eleitorais, das quais, em razão do seu precário 
estado de pernas, não poderia fugir com segurança e a necessária rapidez.
Tendo vivido em rodas de gente fina -- como já vimos --, e não pela fortuna, mas 
pela educação e instrução; tendo sonhado outro destino que não o que tivera; acrescendo a 
tudo isto o seu aleijamento -- Marramaque era naturalmente azedo e oposicionista, Naquele 
domingo, ele o tirara para falar mal do doutor Saulo de Clapin.
-- Vocês vão ver: o Clapin está aí, está morto na política, Teve o topete de ir contra a 
corrente popular, espetou-se. Quem ganhou foi o barbudo Melo Brandão, esse judeu 
mestiçado. É um safadão, mas é mestre na política.
Joaquim se interessava mediocremente por essa história de política: mas Lafões tinha 
as suas paixões no negócio e acudiu:
-- Qual o quê! Então você pensa, Marramaque, que um homem inteligente, tão 


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superior, como o doutor Clapin, vai se deixar embrulhar por um trapaceiro de atas e coisas 
piores como o Melo Brandão! Qual o quê! Demais, o operariado...
-- O que é que ele tem feito pelo operariado? -- pergunta Marramaque.
-- Muito.
Lafões não era operário, como se poderia pensar. Era guarda das obras públicas. 
Português de nascimento, viera menino para o Brasil, isto há mais de quarenta anos; entrara 
muito cedo para a repartição de águas da cidade, chamara a atenção dos seus superiores pelo 
rigor de sua conduta; e, aos poucos, fizeram-no chegar a seu generalato de guarda de 
encanamentos e de torneiras que vazassem nos tanques de lavagem das casas particulares. 
Vivia muito contente com a sua posição, a sua portaria de nomeação, a sua carta de 
naturalização, e, talvez, não estivesse tanto, se tivesse enriquecido de centenas de contos de 
réis. Assim tudo fazia crer, pois era de ver a importância ingênua do campônio que se faz 
qualquer coisa do Estado, e a solenidade de maneiras com que ele atravessava aquelas virtuais 
ruas dos subúrbios.
Trazia sempre a farda de cáqui e o boné com as iniciais da repartição; um 
chapéu-de-sol de cabo, que, quando não o trazia aberto, a protegê-lo contra os raios do sol, 
manejava como a bengala de um vigário de aldeia portuguesa, furando o chão e levantando-o, 
para pousá-lo de novo, à medida que executava as suas longas passadas.
Lafões respondeu assim a Marramaque:
-- Muito. Em todas as comissões por que o doutor Clapin tem passado, sempre 
procura dar trabalho ao maior número de operários.
-- Grande serviço! Arrebenta as verbas; no fim de dois ou três meses, despede mais 
da metade... Isto não se chama proteger; chama-se engazopar.
-- Seja, mas ele ainda faz isso, e os outros? Não fazem nada. De resto, é um homem 
democrata. Desde muito que se bate pela igualdade entre os servidores da nação. Não quer 
distinção entre funcionários públicos e jornaleiros. Quem serve à nação, seja em que serviço 
for, é funcionário público.
-- Honrarias! Isto não enche barriga! Por que ele não trabalha para diminuir a carestia 
da vida e dos aluguéis de casa?
-- Homessa, Marramaque! Você não leu o projeto dele sobre construção de casas para 
famílias pobres e modestas? Você não leu, Joaquim?
O carteiro, que vinha ouvindo a conversa sem dar opinião, à interpelação de Lafões, 
interveio:
-- Li, de fato; mas li também que ele havia aumentado os aluguéis de suas casas, que 
são inúmeras, de quarenta por cento.
-- É isto! -- acudiu com pressa Marramaque. -- Clapin é muito generoso com o 
dinheiro dos outros, do Estado. Com o dele, é de uma sovinice de judeu e de uma ganância de 
agiota. Jesuíta!
Felizmente Clara chegava com o café. A conversa apaixonada cessava, e os dois 
convivas de Joaquim recebiam os cumprimentos da menina:
-- A bênção, meu padrinho; bom dia, seu Lafões.  
Eles respondiam e punham-se a pilheriar com Clara.       
Dizia Marramaque: 
-- Então, minha afilhada, quando se casa?        
-- Nem penso nisso -- respondia ela, fazendo um trejeito faceiro.     
-- Qual! -- observa Lafões. -- A menina já tem algum de olho. Olhe, no dia dos seus 
anos... É verdade, Joaquim: uma coisa.
O carteiro descansou a xícara e perguntou:      
-- O que é?        
-- Queria pedir a você autorização para cá trazer, no dia dos anos, aqui da menina, 


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um mestre do violão e da modinha.
Clara não se conteve e perguntou apressada:     
-- Quem é?         
Lafões respondeu: 
-- É o Cassi. A menina...    
O guarda das obras públicas não pôde acabar a frase. Marramaque interrompeu-o 
furioso: 
-- Você dá-se com semelhante pústula? É um sujeito que não pode entrar em casa de 
família. Na minha, pelo menos...
-- Por quê? -- indagou o dono da casa.  
-- Eu direi, daqui a pouco; eu direi por quê -- fez Marramaque transtornado.
Acabaram de tomar café. Clara afastou-se com a bandeja e as xícaras, cheia de uma 
forte, tenaz e malsã curiosidade:
-- Quem seria esse Cassi?

 II

Quem seria esse Cassi? Quem era Cassi?
Cassi Jones de Azevedo era filho legítimo de Manuel Borges de Azevedo e 
Salustiana Baeta de Azevedo. O Jones é que ninguém sabia onde ele o fora buscar, mas 
usava-o, desde os vinte e um anos, talvez, conforme explicavam alguns, por achar bonito o 
apelido inglês. O certo, porém, não era isso. A mãe, nas suas crises de vaidade, dizia-se 
descendente de um fantástico Lord Jones, que fora cônsul da Inglaterra, em Santa Catarina; e 
o filho julgou de bom gosto britanizar a firma com o nome do seu problemático e fidalgo avô.
Era Cassi um rapaz de pouco menos de trinta anos, branco, sardento, insignificante, 
de rosto e de corpo; e, conquanto fosse conhecido como consumado "modinhoso", além de o 
ser também por outras façanhas verdadeiramente ignóbeis, não tinha as melenas do virtuose do 
violão, nem outro qualquer traço de capadócio. Vestia-se seriamente, segundo as modas da rua 
do Ouvidor; mas, pelo apuro forçado e o degagé suburbanos, as suas roupas chamavam a 
atenção dos outros, que teimavam em descobrir aquele aperfeiçoadíssimo "Brandão", das 
margens da Central, que lhe talhava as roupas. A única pelintragem, adequada ao seu mister, 
que apresentava, consistia em trazer o cabelo ensopado de óleo e repartido no alto da cabeça, 
dividido muito exatamente ao meio -- a famosa "pastinha". Não usava topete, nem bigode. O 
calçado era conforme a moda, mas com os aperfeiçoamentos exigidos por um elegante dos 
subúrbios, que encanta e seduz as damas com o seu irresistível violão.         
Era bem misterioso esse seu violão; era bem um elixir ou talismã de amor. Fosse ele 
ou fosse o violão, fossem ambos conjuntamente, o certo é que, no seu ativo, o Senhor Cassi 
Jones, de tão pouca idade, relativamente, contava perto de dez defloramentos e a sedução de 
muito maior número de senhoras casadas.
Todas essas proezas eram quase sempre seguidas de escândalo, nos jornais, nas 
delegacias, nas pretorias; mas ele, pela boca dos seus advogados, injuriando as suas vitimas, 
empregando os mais ignóbeis meios da prova de sua inocência, no ato incriminado, conseguia 
livrar-se do casamento forçado ou de alguns anos na correção.  
Quando a polícia ou os responsáveis pelas vítimas, pais, irmãos, tutores, punham-se 
em campo para processá-lo convenientemente, ele corria à mãe, Dona Salustiana, chorando e 
jurando a sua inocência, asseverando que a tal fulana -- qualquer das vítimas -- já estava 
perdida, por esse ou por aquele; que fora uma cilada que lhe armaram, para encobrir um mal 
feito por outrem, e por o saberem de boa família, etc., etc.
Em geral, as moças que ele desonrava eram de humilde condição e de todas as cores. 
Não escolhia. A questão é que não houvesse ninguém, na parentela delas, capaz de vencer a 


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influência do pai, mediante solicitações maternas.
A mãe recebia-lhe a confissão, mas não acreditava; entretanto, como tinha as suas 
presunções fidalgas, repugnava-lhe ver o filho casado com uma criada preta, ou com uma 
pobre mulata costureira, ou com uma moça branca lavadeira e analfabeta.
Graças a esses seus preconceitos de fidalguia e alta estirpe, não trepidava em ir 
empenhar-se com o marido, a fim de livrar o filho da cadeia ou do casamento pela policia.
-- Mas é a sexta moça, Salustiana!
-- Qual o quê! Calunia-se muito...
-- Qual calúnia, qual nada! Este rapaz é um perverso, é sem-vergonha. Eu sei o nome 
das outras. Olhe: a Inês, aquela crioulinha que foi nossa copeira e criada por nós; a Luísa, que 
era empregada do doutor Camacho; a Santinha, que ajudava a mãe a costurar para fora e 
morava na rua Valentim; a Bernarda, que trabalhava no "Joie de Vivre"...
-- Mas tudo isso já passou, Maneco. Você quer que o seu filho vá para a cadeia? 
Porque, casar com essas biraias, ele não se casa. Eu não quero. 
-- Era preferível que ele fosse para a cadeia, ao menos não estava desmoralizando 
todo o dia a casa.
-- Pois você faça o que quiser. Se você não der os passos, eu dou. Vou procurar o 
meu irmão, o doutor Baeta Picanço -- rematava a mulher com orgulho.
O pai desse Cassi era verdadeiramente um homem sério. Estreito de idéias, 
familiarizado no emprego público, que, há cerca de trinta anos, exercia, ele tinha profundos 
sentimentos morais, que lhe guiavam a conduta no seu comércio com os filhos. Nunca fora 
afetuoso: evitava até todas as exibições e exageros sentimentais; era, porém, capaz de 
estimá-los profundamente, amá-los, sem abdicar, entretanto, do dever paterno de julgá-los 
lucidamente e puni-los consoante a natureza das suas respectivas faltas.
Era homem de pouca altura, trazia a cabeça sempre erguida, testa reta e alta, queixo 
forte e largo, olhar firme, debaixo do seu pince-nez de aros de ouro. Conquanto alguma coisa 
obeso, era deveras um velho simpático e respeitável; e, apesar da sua imponência de antigo 
burocrata, dos seus modos um tanto ríspidos e secos, todos o estimavam na proporção em que 
seu filho era desprezado e odiado. Tinham até pena dele, confrontando a severidade de sua 
vida com a crapulice de Cassi.
Sua mulher não era lá muito querida, nem prezada. Tinha fumaças de grande dama, 
de ser muito superior às pessoas de sua vizinhança e mesmo às dos seus conhecimentos. O seu 
orgulho provinha de duas fontes: a primeira, por ter um irmão médico do Exército, com o 
posto de capitão; e a segunda, por ter andado no Colégio das Irmãs de Caridade.
Quando se lhe perguntava --  seu pai, o que era? -- Dona Salustiana respondia: era 
do Exército; e torcia a conversa. Não era seu pai exatamente do Exército. Fora simplesmente 
escriturário do Arsenal de Guerra. Com muito sacrifício e graças a uma pequena fortuna que 
lhe viera ter por acaso às mãos, pudera educar melhorzinho os dois únicos filhos que tivera.
A vaidade de Dona Salustiana não deixava que ela confessasse isso; e tanto era 
contagioso esse seu sentimento, no que tocava a seu pai, que as suas duas filhas, Catarina e 
Irene, sempre se referiam ao avô, como se fosse de verdade um general do Paraguai. Eram 
menos vaidosas do que a mãe; mas muito mais ambiciosas, em matéria de casamento. Dona 
Salusiana casara-se com o Manuel, quando este ainda era praticante e revia provas, à noite, nos 
jornais, para acudir às despesas da casa. Catarina e Irene sonhavam casar com doutores, bem 
empregados ou ricos, porque elas se julgavam prestes a se "formar", a primeira em música e 
piano, pelo trampolineiro Instituto Nacional de Música; e a segunda, pela indigesta Escola 
Normal desta Capital.
Escusado é dizer que ambas tinham um grande desprezo pelo irmão, não só pela 
baixeza de sua conduta moral -- o que era merecido -- mas, também, pela sua ignorância 
cavalar e absoluta falta de maneiras e modos educados.


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Em começo, o pai consentia, apesar de tudo, que Cassi, o ínclito Cassi, tomasse parte 
na mesa familiar. Ninguém lhe dirigia a palavra, a não ser a mãe, As moças conversavam com o 
pai ou com a mãe, ou entre si; e, se ele se animava a dizer qualquer coisa, o velho Manuel 
olhava-o severamente e as filhas calavam-se.
Houve um acontecimento doloroso, provocado pela perversidade de Cassi, que fez o 
pai tomar a deliberação extrema de expulsá-lo de casa e da mesa doméstica. Não foi expulso 
de todo, devido à intervenção de Dona Salustiana; mas o foi em meio.
Entre as relações de suas irmãs, havia uma moça muito pobre, que morava na 
redondeza. Sua mãe era viúva de um capitão do Exército, e ela, a Nair, era filha única. Com 
auxílio de alguns parentes, a viúva ia encaminhando a filha, nos estudos próprios de seu sexo. 
Ela tinha tendência para música e procurou aproximar-se de Catarina, para explicar-lhe a 
matéria. Contava dezoito anos, muito risonha, de um amorenado sombrio, cabelos muito 
negros, pequenina e viva, com os seus olhinhos irrequietos e luminosos.
Cassi a viu e logo a teve como boa presa, apesar de não ser totalmente sem apoio. 
Quis entabular namoro, na própria casa do pai, quando Nair vinha receber lições da irmã dele. 
Esta, porém, percebendo a manobra, proibiu-lhe, sob ameaça de contar ao pai, que ele viesse à 
sala, quando estivesse dando lição a Nair. O nome do pai apavorava Cassi, não que o 
estimasse e, por isso, o respeitasse deveras; mas porque "o velho", severo como era, bem podia 
pô-lo de vez na rua. Se isso viesse a acontecer, não teria para onde ir, e o pouco que ganhava, 
no jogo, em brigas de galos e em comissões de agente de empréstimos, etc., seria absorvido 
para a casa e comida, pouco ou quase nada sobrando para roupas, sapatos e gravatas. Ele, sem 
isto tudo, estava perdido. Adeus amor! Se o quisesse, tinha que pagar...
Considerando tal hipótese, não relutou em obedecer à irmã; mas começou a cercar 
Nair "por fora". Quando ela ia sair, precedia-a, ficava na porta da padaria, cumprimentava. 
Afinal, pôde conversar e declarar-se com a fatídica carta, que era a reprodução de um modelo 
que lhe dera um companheiro de malandragem, o Ataliba do Timbó, o qual, por sua vez, tinha 
obtido de um poeta "porrista" que morava na Piedade. Esse poeta, a quem o "intruso" Ataliba 
qualificava tão superiormente e de tal maneira, era o célebre Leonardo Flores, que o Brasil 
todo conhece e viveu uma vida pura, inteiramente de sonhos.
Enfim, a pequena Nair, inexperiente, em plena crise de confusos sentimentos, sem 
ninguém que lhe pudesse orientar, acreditou nas lábias de Cassi e deu o passo errado. A mãe 
veio a descobrir-lhe a falta, que se denunciava pelo estado do seu ventre. Correu ao Senhor 
Manuel, que não estava. Falou a Dona Salustiana e esta, empertigando-se toda, disse 
secamente:
-- Minha senhora, eu não posso fazer nada. Meu filho é maior.
-- Mas, se a senhora o aconselhasse como mãe que é, e de filhas, talvez obtivesse 
alguma coisa. Tenha piedade de mim e da minha, minha senhora.
E pôs-se a chorar e a soluçar.
Dona Salustiana respondeu amuada, sem demonstrar o mínimo enternecimento por 
aquela dor inqualificável:
-- Não posso fazer nada, no caso, minha senhora. Já lhe disse. A senhora recorra à 
justiça, à polícia, se quiser. É o único remédio.
A mãe de Nair acalmou-se um pouco e observou:      
-- Era o que eu queria evitar. Será uma vergonha para mim e para a senhora e família.
-- Nós nada temos com o que Cassi faz. Se fosse nossa filha...          
Não acabou a indireta injuriosa; levantou-se e estendeu a mão à desolada mãe, como 
que a despedindo.
A viúva saiu cabisbaixa; e, dali, foi à audiência do delegado distrital e expôs tudo. O 
delegado disse-lhe:
-- Apesar de estar ainda não há seis meses neste distrito, sei bem quem é esse patife 


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de Cassi. O meu maior desejo era embrulhá-lo num bom e sólido processo; mas não posso, no 
seu caso. A senhora não é miserável, possui as suas pensões de montepio e meio soldo; e eu só 
posso tomar a iniciativa do processo quando a vítima é filha de pais miseráveis, sem recursos.
-- Mas, não há remédio, doutor?
-- Só a senhora constituindo advogado.
-- Ah! Meu Deus! Onde vou buscar dinheiro para isso? Minha filha, desgraçada, meu 
Deus!
E pôs-se a chorar copiosamente. Quando serenou, o delegado mandou que um 
empregado da delegacia acompanhasse a senhora até em casa e ficou a pensar nas baixezas, 
nas dores, nas misérias que as casas encobrem e que, todo o dia, descobria, por dever de 
ofício.
No dia seguinte, a mãe de Nair suicidava-se com lisol. Os jornais esgravataram o 
acontecimento e contaram as causas do suicídio com todos os pormenores. Manuel de 
Azevedo, o pai de Cassi, quando leu no trem o jornal, saltou na primeira estação, voltou e 
entrou pela casa adentro que nem um furacão, transtornado de fisionomia, com rictus de ódio 
que o fazia outro homem muito diferente daquele reservado, bondoso e simpático burocrata 
que era.
-- Quedê ele?
-- Quem? -- perguntou-lhe a mulher.
-- Ele, esse Cassi -- fez ele com os punhos cerrados, a errar o olhar desvairado, pelos 
quatro cantos da sala.
-- Mas que há, homem? -- fez a mulher assustada.
-- Lê isto.
Deu-lhe o jornal, apontando o local do suicídio.
-- Mas que culpa tem...
Não acabou a frase, Dona Salustiana; o marido logo a interrompeu:
-- Culpa! Esse biltre sem senso moral algum; esse assassino, esse desgraçado que leva 
a corromper todas as moças e senhoras que lhe passam debaixo dos olhos, não o quero mais 
aqui, não o quero mais na minha mesa. Diga-lhe isto, Salustiana; diga-lhe isto, enquanto não o 
mato.
As filhas tinham chegado e adivinharam a causa daquela explosão de ódio e raiva, 
coisa rara no pai. Procuraram acalmá-lo:
-- Sossegue, papai; sossegue.
Catarina, que passara os olhos pelo jornal, muito sofreu com a desonra de Nair. 
Lamentou sinceramente o trágico desfecho da mãe da sua discípula gratuita; e assim falou ao 
pai:
-- Olhe, papai; eu me sinto em alguma coisa culpada, porque trouxe Nair para aqui, a 
fim de estudar música comigo.
Depois de uma pausa acrescentou:
-- Que se há de fazer? É a fatalidade.
-- Não o quero mais aqui -- repetiu o chefe da família.
Os jornais não se deixaram ficar na simples noticia do suicídio. Revolveram a vida de 
Cassi; contaram-lhe as proezas; e ele, a conselho de sua mãe, foi passar uns tempos na casa do 
tio, o doutor, que tinha uma fazendola em Guaratiba. Pela narração dos quotidianos, pôde-se 
organizar toda a rede de insídias, de cavilosas mentiras, de falsas promessas, com que ele tinha 
cercado a pobre e ingênua vítima, cuja desonra determinou o suicídio da mãe. Ele, como de 
hábito, não falava de seus namoros a ninguém,  muito menos a seu pai e a sua mãe; entretanto, 
para ganhar a confiança da pobre menina, dizia na carta que dissera à mãe que muito a amava 
ou textualmente: "confessei a mamãe que lhe amava loucamente" e avisava-lhe: "privino-lhe 
que não ligues ao que lhe disserem, por isso pesso-te que preze bem o meu sofrimento"; e, 


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assim nessa ortografia e nessa sintaxe, acabava: "Pense bem e veja se estás resolvida a fazer o 
que dissestes na tua cartinha", etc. Confessava-se um infeliz "que tanto lhe adora" e lamentava 
não ser correspondido.
Em outra, mostrava-se interessado pela saúde de Nair; e, depois de dar instruções 
como devia deixar a janela para que ele a pulasse, contava: "tão depressa soube que estavas de 
cama fui ao doutor R. S. saber o que você tinha, ele disse-me que você tinha feito a loucura de 
molhar os peis na água fria" etc., etc. Nessa altura, entrava em detalhes secretos da vida 
feminina e aduzia: "foi uma grande tristeza em saber que o doutor R. S. sabe de teus 
particulares moral" (sic).
No fim da missiva, ou quase, dizia: "enfim que eu devo fazer se você não quer ser 
inteiramente minha como eu sou teu."
Não se demorou muito na casa do tio. O doutor, orgulho de sua irmã Salustiana e 
protetor sempre por ela posto em foco para as despudoradas aventuras do sobrinho, 
desconfiando que este tramava uma das suas, nos arredores do seu sítio, sem mais detença, 
embarcou-o para a casa da irmã, mãe de Cassi, dizendo-lhe que ficasse com o filho, porque 
sobrinho como aquele, ele, doutor Baeta Picanço, desejava nunca tê-lo em casa.        
Não foi logo diretamente para a casa paterna, que era numa das primeiras estações de 
quem vem da Central. Ficou pelo Engenho de Dentro, de onde mandou, por Ataliba do 
Timbó, um bilhete à mãe, pedindo instruções. A mãe respondeu-lhe que viesse para casa; mas 
evitasse, por todos os meios, encontrar-se com o pai. Tinha ela arranjado as coisas, e ele teria 
sempre onde comer e dormir.          
Foi-lhe reservado o porão, na parte dos fundos, e a chácara, como recreio, onde 
raramente o pai ia. Jantava, almoçava e tomava café, no compartimento do porão onde 
morava. Logo na primeira manhã que despertou no seu humilhante aposento familiar, pensou 
logo em ir ver as suas gaiolas de galos de briga -- o bicho mais hediondo, mais antipático, mais 
repugnantemente feroz que é dado a olhos humanos ver. Estavam em ordem; sua mãe cuidara 
deles, como lhe pedira.        
Galos de briga eram a força de suas indústrias e do seu comércio equívocos. Às 
vezes, ganhava bom dinheiro nas apostas de rinhadeiro, o que vinha ressarcir os prejuízos que, 
porventura, anteriormente houvesse tido nos dados; e, assim, conseguia meios para saldar o 
alfaiate ou comprar sapatos catitas e gravatas vistosas. Com os galos, fazia todas as operações 
possíveis, a fim de ganhar dinheiro; barganhava-os, com "volta", vendia-os, chocava as 
galinhas, para venda dos frangos a criar e educar, presenteava pessoas importantes, das quais 
supusesse, algum dia, precisar do auxilio e préstimos delas, contra a polícia e a justiça. 
Incapaz de um trabalho continuado, causava pasmo vê-lo cuidar todas as manhãs 
daqueles horripilantes galináceos, das ninhadas, às quais dava milho moído, triguilho, 
examinando os pintainhos, um por um, a ver se tinham bouba ou gosma.  
Fosse se deitar a que hora fosse, pela manhã lá estava ele atrapalhado com os galos 
malaios e a sua descendência de frangos e pintos.     
Nunca suportara um emprego, e a deficiência de sua instrução impedia-o que 
obtivesse um de acordo com as pretensões de muita coisa que herdara da mãe; além disso, 
devido à sua educação solta, era incapaz para o trabalho assíduo, seguido, incapacidade que, 
agora, roçava pela moléstia. A mórbida ternura da mãe por ele, a que não eram estranhas as 
suas vaidades pessoais, junto à indiferença desdenhosa do pai, com o tempo, fizeram de Cassi 
o tipo mais completo de vagabundo doméstico que se pode imaginar. É um tipo bem brasileiro.
Se já era egoísta, triplicou de egoísmo. Na vida, ele só via o seu prazer, se esse prazer 
era o mais imediato possível. Nenhuma consideração de amizade, de respeito pela dor dos 
outros, pela desgraça dos semelhantes, de ditame moral o detinha, quando procurava uma 
satisfação qualquer. Só se detinha diante da força, da decisão de um revólver empunhado com 
decisão. Então, sim...


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Algumas boas lhe aconteceram. Tinha ele notado que uma moçoila com livros e 
attirail de normalista, na viagem de trem, o olhava muito.
Marcou-lhe a fisionomia e, ao dia seguinte, à mesma hora, pôs-se, na estação, à 
espera dela; não veio. Esperou outro trem, não veio. Assim, esperou diversos. No outro dia, 
após esse, foi mais feliz; ela veio. Procurou lugar conveniente e pôs-se a fazer trejeitos. A moça 
não lhe deu importância, Durante dias, insistiu. Um belo dia, ele vai muito calmo, à cata da 
ingrata, quando ela apareceu acompanhada de um rapaz, que, pela intimidade com que a 
tratava e pela idade que revelava à primeira vista, parecia ser irmão ou marido da moça. 
Habituado a lidar com parentes dessa natureza, mas fracos, não se intimidou. Os dois no 
banco, ao lado dele, seguem viagem, palestrando calmamente. Cassi os olha insistentemente. 
Chegam à Central, e o rapaz despede-se da moça, que segue para a sua escola. Volta-se o 
cavalheiro e procura com o olhar o Senhor Cassi. 
-- É o senhor?
Cassi Jones responde:
-- Sou eu.
-- Desejava muito falar-lhe. Vamos à confeitaria; é coisa particular, e nós lá estaremos 
à vontade tomando um vermouth.
Cassi fica com a pulga atrás da orelha e acompanha o desconhecido, que, com ar 
risonho e caminhando, vai dizendo:
-- O senhor talvez não me conheça. Porém eu, meu caro senhor, o conheço muito 
bem. Nos subúrbios, todos conhecem as suas habilidades, Senhor Cassi Jones; e, embora esteja 
lá morando há pouco, já tive notícias do seu valimento.
Cassi assustava-se com a calma do rapaz e pôs-se a medir-lhe os músculos. Não 
trouxera a navalha, porque tinha medo de ser preso, por causa do negócio da Nair e do 
suicídio da mãe dela; e armado... Mediu a musculatura do desconhecido. Era antes fraco do 
que forte, mas parecia disposto. Chegaram à confeitaria e sentaram-se. O caixeiro serviu 
vermouth; e, quando iam em meio, o outro disse ex-abrupto para Cassi:
-- O senhor sabe quem é aquela moça que vinha a meu lado?    
Colhido de surpresa, não pôde tergiversar e disse prontamente:
-- Não sei absolutamente.
-- É minha irmã -- afirmou o desconhecido.
-- Também não sabia -- respondeu docilmente o terrível Cassi, 
-- Não podia saber naturalmente -- justificou o rapaz. -- Saio cedo de casa para o 
escritório e volto tarde, pois janto e almoço na cidade. Agora, eu chamei o senhor para lhe 
dizer uma coisa: se o senhor continua  a perseguir minha irmã, meto-lhe cinco tiros na cabeça.
Ao dizer isto, foi tirando dos bolsos de dentro do paletó um magnífico Smith & 
Wesson, muito reluzente e com um luxuoso cabo de madrepérola.
Cassi redobrou o esforço para não denunciar o susto e, simulando calma, disse:
-- Mas, meu caro senhor, creio que nunca faltei com o respeito devido à senhora sua 
irmã.
-- É verdade; mas é preciso deixar de persegui-la -- confirmou o outro e logo 
acrescentou, como que dando por acabada a entrevista:
-- Quer tomar alguma coisa mais?
-- Não; muito obrigado.
Despediram-se, sem se apertarem as mãos; e Cassi foi para a sua roda de Ataliba do 
Timbó, Zezé Mateus, Franco Sousa e Arnaldo.
Um deles perguntou-lhe:
-- O que queria aquele sujeito contigo?
-- Nada. É meu vizinho e, sabendo que sou morador antigo, pediu-me que lhe 
arranjasse um cavalo para vender, que ele me dava uma comissão.


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Cassi era assim e assim mantinha a sua fama de valente. Não julguem que tinha 
estima e amizade por esses rapazes que andavam sempre com ele. Ele não os amava, como não 
amava ninguém e com ninguém simpatizava. Era uma coorte digna dele, que o iludia do vácuo 
feito em torno dele, por todos os rapazes daquelas bandas.
Ataliba do Timbó era um mulato claro, faceiro, bem apessoado, mas antipático pela 
sua falsa arrogância e fatuidade. Havia sido operário em uma oficina do Estado. Meteu-se com 
Cassi e, aos poucos, abandonou o emprego, abandonou a mãe, de quem era único arrimo, e 
quis imitar o mestre até o fim. Foi infeliz. Arranjou uma complicação policial e matrimonial de 
donzelas, nas quais Cassi era useiro e vezeiro, e saiu-se mal. Obrigaram-no a casar; mas teve a 
hombridade de ficar com a mulher, embora, resignadamente, ela sofresse toda a espécie de 
privações, no horrível subúrbio de Dona Clara, enquanto ele andava sempre muito 
suburbanamente e tivesse vários uniformes de football.
Tirava proventos do jogo de dados ou campista, e também do football, em que era 
considerado bom jogador -- "plêiel", como dizem lá.
De vários clubes, havia sido expulso ou se havia demitido voluntariamente, porque os 
companheiros suspeitavam-no ser peitado pelos adversários, para facilitar estes fazer pontos. 
Ultimamente, era agente de jogo de bicho, e sua mulher viera gozar de mais algum conforto.
Pobre Ernestina! Era tão alegre, tão tagarela, era moça, e bonitinha, na sua fisionomia 
miúda e na sua tez pardo-clara, um tanto baça, é verdade, mas não a ponto de enfeá-la, 
quando conheceu Ataliba; e hoje? Estava escanzelada, cheia de filhos, a trair sofrimentos de 
toda a espécie, sempre mal calçada, quando, nos tempos de solteira, o seu luxo eram os 
sapatos! Quem te viu e quem te vê!
Zezé Mateus era um verdadeiro imbecil. Não ligava duas idéias; não guardava coisa 
alguma dos acontecimentos que assistia. A sua única mania era beber e dizer-se valente. 
Topava todos os ofícios; capinava, vendia peixe e verdura, com cesto à cabeça; era servente de 
pedreiro, apanhava e vendia passarinhos, como criança; e tinha outras habilidades desse jaez.
Era branco, com uma fisionomia empastada, cheia de rugas precoces, sem dentes, 
todo ele mole, bambo. A sua testa era deprimida, e era longo e estreito o seu crânio, do feitio 
daqueles a que o povo chama "cabeça de mamão-macho".
Totalmente inofensivo, quase inválido pela sua imbecilidade nativa e pela bebida, 
uma família a quem ele prestava pequenos serviços -- ir às compras, ao açougue, lavar a 
casa -- dava-lhe um barracão na chácara, onde dormia, e comida, se estivesse presente às 
refeições. Encontrava-se nessa ruína humana o melhor da turma e o único que não tinha 
maldade no coração. Era um ex-homem e mais nada.
O Franco Sousa, este, era um malandro mais apurado, que, uma vez ou outra, aderia 
ao grupo de Cassi. Intitulava-se advogado e vivia de embrulhar os crédulos clientes que lhe 
caíam nas mãos. Todos sabiam que ele não tratava de coisa alguma, pois não podia 
absolutamente tratar, já por não saber coisa alguma das tricas forenses, já por não ser, de 
verdade, advogado. Assim mesmo, sempre apareciam ingênuos roceiros, simplórias viúvas, 
que, no pressuposto de que os seus serviços, na justiça, sobre a demarcação de terras litigiosas 
ou despejos de inquilinos relapsos, fossem mais baratos, procuravam-no. Ele recebia os 
adiantamentos e, em seguida, mais algum dinheiro, conforme a ingenuidade e a falta de 
experiência do cliente, e não fazia nada. Entretanto, vivia muito decentemente com a mulher, 
filhos e filhas. Cassi não lhe pisava em casa, e, aos poucos, foi se afastando do violeiro, a 
conselho da mulher, que zelava extremamente pela reputação das filhas, que se faziam moças. 
O último dos asseclas do modinheiro era um tal Arnaldo, Arnaldo tout court. Nele, 
talvez, houvesse tipo mais nojento do que mesmo em Cassi. A sua profissão consistia em 
furtar, no trem, chapéus-de-sol, bengalas, embrulhos dos passageiros que estivessem a dormitar 
ou distraídos. De tarde, ele fazia a especialidade dos embrulhos; e, à noite, às vezes, a altas 
horas, postava-se na beira da plataforma de estação pouco freqüentada e, quando o trem 


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tornava movimento e impulso, arrebatava rapidamente os chapéus dos passageiros, através da 
portinhola, principalmente se de palha e novos. Vendia-os, no dia seguinte, como vendia os 
chapéus-de-sol, as bengalas e o conteúdo dos embrulhos, se fosse de coisa vendável; roupas de 
lã ou branca, livros, louça, talheres, etc.
Se fossem, porém, doces, frutas, queijos, biscoitos, grãos, ele levava para a casa e 
contava à mulher que só arranjara dinheiro para comprar aquelas guloseimas para as crianças. 
Usava dos mais imprevistos estratagemas, para não pagar a casa de sua moradia. Numa, tendo 
ficado a dever oito meses, apresentando-se-lhe o cobrador com os recibos, pediu-os para 
examiná-los e ficou com eles, alegando que ia consultar pessoa competente em matéria de selo, 
porquanto as estampilhas não lhe pareciam legais. Nunca mais os devolveu; e, apesar de todas 
as ameaças, ainda ficou morando na casa quatro meses. Os seus vizinhos contavam que ele 
tinha também o hábito de arrebatar as notas do Tesouro das mãos das crianças, quando as 
encontrava sós também a caminho das vendas, onde iam fazer compras para as casas paternas, 
levando-as à mostra, na imprevidência natural de crianças.
Inútil é repetir que Cassi não tinha nenhuma espécie de amizade por esses rapazes, 
não pela baixeza de caráter e de moral deles, no que ele sobrelevava a todos; mas pela razão 
muito simples de que a sua natureza moral e sentimental era sáfara e estéril. A seus pais e às 
suas irmãs, não o prendia nenhuma dose de afeição, por mais pequena que fosse. Mesmo com 
sua mãe, que o tinha retirado muitas vezes dos xadrezes policiais, em vésperas de seguir para a 
detenção, ele só tinha manifestações de ternura, quando estava às voltas com a polícia ou com 
os juízes. O seu fundo e os seus princípios explicavam de algum modo essa sua aridez moral e 
sentimental.
A sua educação e instrução foram deveras descuradas. Primeiro nascido do casal, 
quando as exigências da manutenção da família obrigavam seu pai a trabalhar dia e noite, não 
pôde este, pois poucas horas passava em casa, vigiá-las convenientemente. Rebelde, desde 
tenra idade, a doçura para com ele, por parte de sua mãe, e os prejuízos dela impediram-na que 
o corrigisse convenientemente, assiduamente, no tempo próprio. Não ia ao colégio; fazia 
"gazeta", correndo pelas matas das cercanias da residência dos pais, então em Itapiru, com 
outros garotos. O que faziam, pode-se bem adivinhar; mas a mãe fingia não perceber, passava 
a mão pela cabeça do filho querido, nada dizia ao pai, que quase mourejava durante as vinte e 
quatro horas do dia. Cresceu assim, sem nenhuma força moral que o comprimisse; e o pai seria 
a única.
Ao melhorarem as suas condições financeiras, com uma promoção a propósito e a 
compra daquela casa, na estação do Rocha, com o produto de uma herança que tocara à 
mulher, Manuel de Azevedo veio encontrar, aos treze anos, o filho completamente viciado, 
fumando às escâncaras, mal lendo, aos gaguejos, e escrevendo ainda muito pior. Pô-lo nos 
"Salesianos"" de Niterói, As informações semanais eram péssimas; e, ao fim de três ou quatro 
meses de colégio, não sabemos que torpeza cometeu no colégio que, uma bela tarde, 
acompanhado de um padre magro, com uma cortante figura angulosa de asceta, veio a ser 
entregue Cassi ao pai, em casa. Falou-lhe o reverendo em particular, e Manuel de Azevedo, 
quase chorando, despediu-se do reverendo, que insistia nas desculpas, e respondendo deste 
único feitio ao eclesiástico:
-- Os senhores têm razão, muita razão. Eu é que me sinto infeliz por ter um filho 
bastante mau e vicioso com tão pouca idade. Que castigo, meu Deus!
A mulher quis saber o motivo da expulsão, mas a dignidade e a vergonha de pai 
fizeram que nem mesmo à sua mulher ele o dissesse.
Propôs, dias depois, à sua esposa, que pusesse o rapazola a aprender um ofício, a fim 
de discipliná-lo. Dona Salustiana revoltou-se e esbravejou:
-- Meu filho aprender um ofício, ser operário! Qual! Ele é sobrinho de um doutor e 
neto de um homem que prestou muitos serviços ao país.


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Sempre lembrado dos seus duros começos em que ela muito o ajudara e o animara, 
Manuel tinha, pela mulher, uma grande e sincera afeição, evitando o quanto possível 
contrariá-la, e, por isso, não teimou dessa feita. Meses depois, porém, logo que chegou em 
casa, a mulher e as filhas, chorando, pedem que vá soltar Cassi, que estava preso em uma 
delegacia. O menino já roçava pelos dezesseis anos e mostrava-se assim precoce na carreira de 
falcatruas. Havia sido preso, pelo respectivo vigia, no interior de uma casa vazia, quando 
procurava arrancar encanamento de chumbo para vender.
O pai, então, voltou à idéia de pô-lo em uma oficina, a ver se o trabalho manual, já 
pelo cansaço, já pela convivência com pessoas honestas e de trabalho, desviava-o do mau 
caminho que ele estava iniciando. A mãe acedeu com grande repugnância, e ele foi ser 
aprendiz de tipógrafo.
No fim de um mês, porém, era despedido, porque, tendo ido receber uma conta de 
cartões de visitas, uns cinco mil-réis ou pouco mais do que isso, voltara sem dinheiro, dizendo 
que o tinha perdido. Revistado convenientemente, foi-lhe o dinheiro encontrado quase intacto 
entre a botina e a meia.
A fascinação pelo dinheiro e sua absorção nele eram o seu fraco. Queria-o; mas sem 
trabalho e para ele só. As menores dívidas que fazia, não pagava; não oferecia nada a ninguém. 
Houve quem o conhecendo e sabendo dessa sua sovinice doentia explicasse os seus 
desvirginamentos seguidos e as suas constantes seduções a raparigas casadas, como sendo a 
resultante da aridez de dinheiro, que o encaminhava a amores gratuitos; e de uma atividade 
sexual levada ao extremo, que a sua estupidez explicava.
Seja devido a esta ou aquela causa, a este ou aquele motivo, o certo e que nele não 
havia nevrose ou qualquer psicopatia que fosse. Não cedia a impulsos de doença; fazia tudo 
muito calculadamente e com todo o vagar. Muito estúpido para tudo o mais, entretanto, ele 
traçava os planos de sedução e desonra com a habilidade consumada dos scrocs de outras 
naturezas. Tudo ele delineava lucidamente e previamente removia os obstáculos que antevia.
Escolhia bem a vítima, simulava amor, escrevia detestavelmente cartas langorosas, 
fingia sofrer, empregava, enfim, todo o arsenal do amor antigo, que impressiona tanto a 
fraqueza de coração das pobres moças daquelas paragens, nas quais a pobreza, a estreiteza de 
inteligência e a reduzida instrução concentram a esperança de felicidade num Amor, num 
grande e eterno Amor, na Paixão correspondida.
Sem ser psicólogo nem coisa parecida, inconscientemente, Cassi Jones sabia 
aproveitar o terreno propício desse mórbido estado d'alma de suas vítimas, para consumar os 
seus horripilantes e covardes crimes; e, quase sempre, o violão e a modinha eram seus 
cúmplices...          

   III

Marramaque, apesar de sua instrução defeituosa, senão rudimentar, tinha vivido em 
roda de pessoas de instrução desenvolvida e educação, e convivido em todas as camadas. Era 
de uma cidadezinha do Estado do Rio, nas proximidades da Corte, como se dizia então. Feito 
os seus estudos primários, os pais empregaram-no num armazém da cidade. Estávamos em 
plena escravatura, se bem que nos fins, mas a antiga Província do Rio de Janeiro era próspera e 
rica, com as suas rumorosas fazendas de café, que a escravaria negra povoava e penava sob os 
açoites e no suplício do tronco.
O armazém em que Marramaque era empregado havia de tudo: ferragens, roupas 
feitas, isto é, camisas, calças, ceroulas grosseiras, para trabalhadores; armas, louças, etc., etc. 
Comprava diretamente nos atacadistas da Corte; além disso, o seu proprietário era 
intermediário entre os pequenos lavradores e as grandes casas da Capital do Império, isto é, 
comprava as mercadorias àqueles, por conta destas, com o que ganhava comissão.


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Marramaque era contemplativo e melancólico, e vivia, debruçado ao balcão do 
armazém, ouvindo os tropeiros e peões contar histórias de todo o gênero: façanhas de valentia, 
maus encontros pelos caminhos desertos, proezas de desafio à viola e de amor roceiro.
No gênio, não saía ao pai, que era um minhoto ativo, trabalhador, reservado e 
econômico. Em poucos anos de Brasil, conseguiu ajuntar dinheiro, comprar um sítio em que 
cultivava os chamados "gêneros de pequena lavoura", aipim, batata-doce, abóboras, tomates, 
quiabos, laranja, caju e melancia, dando-lhe esta última cultura, pelos fins do ano e começo do 
seguinte, lucros razoáveis. Com o correr do tempo comprara um bote; e, duas vezes por 
semana, acompanhado de um companheiro a quem pagava, trazia ele mesmo os produtos de 
sua lavoura, navegando por um pequeno rio, mais ou menos canalizado, atravessando a 
Guanabara até o Mercado. Vinha com o "terral" e voltava com a "viração".
O filho não seria capaz dessas proezas; mas, como sua mãe, que, embora quase 
branca, tinha ainda evidentes traços de índio, seria capaz de cantar o dia inteiro modinhas 
lânguidas e melancólicas.
Havia, quando rapazola, muitas névoas na sua alma, um diluído desejo de vazar suas 
mágoas e os sonhos, no papel, em verso ou fosse como fosse; e um forte sentimento de justiça. 
O espectro da escravidão, com todo o seu cortejo de infâmias, causava-lhe secretas revoltas.          
Certo dia, um viajante, que pousara no armazém, deixara, por esquecimento, na mesa 
do quarto em que fora hospedado, um volume das Primaveras de Casimiro de Abreu.
Ele nunca havia lido versos seguidamente. Nos jornais que lhe caíam à mão, mesmo 
nos retalhos deles e em páginas soltas de revistas que vinham parar ao armazém para embrulho, 
é que lera alguns. Dessa forma, encontrando, no seu natural melancólico, cheio de uma doce 
tristeza e de um obscuro sentimento da mesquinhez do seu destino, terreno propício, o livro de 
Casimiro de Abreu caiu-lhe n'alma como uma revelação de novas terras e novos céus. Chorou 
e sonhou com os doridos queixumes do sabiá de São João da Barra e não deixou de notar que, 
entre ele e o poeta das Primaveras, havia a semelhança de começarem ambos sendo caixeiros 
de uma casa de negócio da roça. Cristalizada a emoção profunda que lhe causara a leitura dos 
versos do gaturamo fluminense, Marramaque resolveu agir, isto é, instruir-se, educar-se e... 
fazer versos também. Para isso, precisava sair dali, ir para a Corte.
De quando em quando, pousavam no armazém, onde dormia também, 
caixeiros-viajantes de grandes casas da Corte que tinham negócios com o Senhor Vicente 
Aires, patrão de Marramaque. O seu natural bom, prestativo, a sua irradiação simpática, 
provinda dos seus sonhos vagos e amontoados, faziam-no estimado deles todos. Havia um, 
entretanto, que ele estimava mais. Era um rapaz português, o Senhor Mendonça, Henrique de 
Mendonça Souto. Em tudo, ele era o contrário do pobre Marramaque. Era alegre, folgazão, 
palrador, bebia o seu bocado; mas sempre honesto, leal e franco.
Certa noite, estando ele hospedado nos fundos do armazém do Senhor Vicente 
Aires, de volta de uma partida de "manilha", na casa do sacristão da Matriz, o alegre "cometa" 
veio a encontrar o caixeiro Marramaque lendo o volume de Casimiro de Abreu. Era alta noite, 
passava da meia: e, como o caixeiro tinha que se erguer às cinco da manhã, para abrir o 
armazém e atender a tropeiros e viajantes em preparativos de partida, tal fato causou pasmo a 
"Seu" Mendonça:
-- Ainda lês, menino! E não te lembras que, daqui a pouco, deves estar de pé, filho 
de Deus!
-- Esperava o senhor.
-- E mais esta! Então tu pensas que eu mesmo não sabia despir-me e meter-me à 
cama? Que lês?
-- Primaveras, de Casimiro de Abreu.
O caixeiro-viajante acabou de vestir-se e deitou-se, Depois de cobrir-se, perguntou a 
Marramaque:


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-- Tu gostas de versos, rapaz?
Hesitou em responder, mas Mendonça fez rispidamente:
-- Dize lá, rapaz; porque nisto não vai crime algum. Está a ver-se, rapaz! Dize!     
-- Gosto, sim senhor -- fez o caixeiro timidamente.
-- Pois deves ir para o Rio -- acudiu Mendonça com pressa -- estudar e... quem sabe 
lá?
-- Se eu arranjasse um emprego na Corte... 
Mendonça pensou um pouco e disse:
-- Na casa, não te serve. Há muito serviço e tu não te acostumas... És aprendiz de 
poeta, tens inclinação para essas coisas de versos e te aborrecias. O que te serve, era trabalhar 
numa farmácia. Fala a teu pai que eu te arranjo a coisa. Escrevo-te logo que chegar ao Rio.
Mendonça cumpriu a palavra, e o pai consentiu que ele viesse para o Rio. 
Marramaque foi trabalhar numa farmácia; e, à noite, ia completando a sua instrução, conforme 
podia, nas instituições filantrópicas de instrução que existiam no tempo.
Logo, tratou de fazer versos; e, certa vez, foi surpreendido por um dos habitués da 
farmácia, compondo uma poesia. As farmácias, naquele tempo, eram o lugar de encontro de 
pessoas graves e sisudas da vizinhança, que, à tarde, após o jantar, iam a elas espairecer e 
conversar. Quem surpreendeu o jovem Marramaque, fazendo versos, foi o Senhor José Brito 
Condeixa, segundo oficial da Secretaria de Estrangeiros, poeta também, mas, de uns tempos 
para cá, somente festivo e comemorativo. Além de publicar, nos dias de gala, sonetos e outras 
espécies de poesias alusivas à festa, não se esquecia nunca de comemorar as datas domésticas 
da família imperial, em versos de um lavor chinês. Esperava o hábito da Rosa; mas, só veio a 
ter no fim do Império, quando retirou da Imprensa Nacional o terceiro volume da Sinópsis da 
Legislação Nacional, na parte que se refere ao Ministério de Estrangeiros.
Lendo os versos do adolescente, Brito Condeixa gostou e jurou que havia de 
proteger o caixeirozinho. Falou ao patrão, e ele foi se empregar numa papelaria-livraria, na rua 
da Quitanda. Freqüentada por poetas e literatos que ensaiavam os primeiros passos, nos 
últimos quinze anos do Império, com eles se relacionou e sempre era escolhido para secretário, 
gerente, tesoureiro, de suas efêmeras publicações. Deixou o emprego da papelaria, sem zanga; 
e atirou-se às refregas e às decepções da pequena imprensa, com ardor e entusiasmo, sangue 
republicano e abolicionista, sobretudo abolicionista.
Esse jornalismo contrário e efêmero pouco ou quase nada lhe dava para a sua 
manutenção. Vivia uma vida de privações e necessidades prementes. Sem deixar os 
companheiros poetas, escritores, parodistas, artistas, ele se improvisou guarda-livros 
ambulante, fazendo escritas aqui e ali, com o que ganhava para ter casa, comida, roupa e até, 
às vezes, socorrer os camaradas. Manteve-se sempre absolutamente solteiro.    
Guardava, da sua vida de acólito da boêmia literária, recordações muito vivas, que 
gostava de contar, ensopando-as de comovida saudade. Anedotas deste, casos com aquele, 
expedientes daquele outro, ele narrava com chiste e firmeza de lembrança; mas, ao que parece, 
a figura de seu tempo que mais o impressionou foi a de um pequeno poeta, que nunca teve seu 
quarto de hora de celebridade e hoje está totalmente esquecido. A respeito dele, Marramaque 
se referia com o sentimento profundo de quem se lembra de um irmão muito amado:
-- Ah! O Aquiles! Que alma! Que poeta! O senhor -- dirigindo ao interlocutor 
ocasional -- não o conheceu?
-- Não; não me recordo.
-- Nem de nome? Ele deixou obras.
O outro com quem conversava, por delicadeza, respondia:
-- De nome, pois não, pois não!
-- Que alma era esse Aquiles Varejão! Morreu há pouco tempo, em 94 ou 95; e, se 
não me falha a memória, na Santa Casa. Morreu na maior miséria; entretanto, tudo o que 


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ganhava -- ele era tipógrafo -- estava sempre disposto a distribuir com os amigos. Não pude ir 
vê-lo... Tinha tido o primeiro ataque e estava em tratamento. Lembro-me, porém, do seu último 
soneto que a Gazeta publicou. Que lindeza! Aquilo era um poeta que não forçava, nem tinha 
compasso e régua. Ouça só!
E, com uma voz difícil, devido à semiparalisia da parte esquerda da boca, 
esbugalhando os olhos, devido ao esforço para pronunciar bem as palavras, recitava:
   
  Prostrado nesta enxerga, sinto a vida     
  Ir, pouco e pouco, procurando o nada;     
  Pra mim não há mais sol de madrugada,     
  Mas sim tremor da luz amortecida.         
  Prazeres, onde estais? Longa avenida      
  De amores, que trilhei nesta jornada?     
  Tudo acabou. E justa esta pousada,        
  Antes que dobre o sino da partida.        
  Feliz quem tem família! Tem carinho       
  De mãe, de esposa, e, em derredor do leito,         
  Não sofre o horror de achar-se tão sozinho.         
  Porém ao meu destino estou sujeito;       
  Devo, batendo as asas, sem ter ninho,     
  Buscar, quem sabe? um mundo mais perfeito?          
   
O Marramaque, quase sempre, acabava de recitar os versos do amigo com os olhos 
úmidos; e o ouvinte, não só peia dor demonstrada pelo declamador, mas também pelo tom 
elegíaco do soneto, comovia-se também e, antes de qualquer pergunta, comentava:
-- É bonito! É mesmo lindo.
Marramaque, poeta raté, tinha uma grande virtude, como tal: não denegrir os 
companheiros que subitam nem os que ganharam celebridade. A todos gabava, sem que, por 
isso, não lhes notasse as falhas de caráter.
Tendo vivido assim, em vários e diferentes meios, ganhando experiência e 
conhecimento dos homens e das coisas da vida, estava apto para julgar bem quem era Cassi 
Jones. Demais, devido à sua convivência com literatos, poetas e escritores, adquirira o hábito 
tirânico de ler diariamente todos os jornais que apanhava na repartição, e não fazia lá outra 
coisa, devido a seu estado de saúde.
De quando em quando, ele encontrava noticias mais que escabrosas, às vezes 
sangrentas mesmo, em que estava envolvido o nome do famigerado violeiro. De umas delas, 
ele se lembrava perfeitamente, porque lhe havia causado, na sua alma retardada de idealista e 
sonhador, de poeta que quis ser amoroso e cavalheiresco, a maior revolta e um movimento de 
nojo irreprimível. Joaquim dos Anjos não estava a par dela, pois não tinha hábito de ler jornais 
e pouco tagarelava com as pessoas de suas bandas suburbanas. Marramaque apoiou-se em 
contador e por alto.
Num dos subúrbios, na proximidade da casa de Cassi, veio a residir um casal. A 
mulher era moça, fruída de carnes, alta, louçã, grandes olhos negros, um tipo do Sul, ao que 
parece do Rio Grande. O marido, que era oficial de Marinha, maquinista, era amorenado 
tirando a mulato, baixo, sempre triste, curvado e pensativo. Apesar da diferença de gênios, 
que se percebia, e de idade, que estava à mostra, pareciam viver bem. Quase sempre saíam à 
tarde, iam a festas, a teatros; aos domingos, procuravam visitar os arrabaldes pitorescos e 
voltavam à noite. Tomavam comida fora e só tinham uma rapariguita preta, de uns dezesseis 
anos, para os serviços leves da casa. Não se sabe como, Cassi conseguiu conhecer a gaúcha e 
seduzi-la. Mal o marido saía, ele se metia em casa da moça com violão e tudo. A vizinhança 


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murmurava contra aquela pouca-vergonha. Fosse de que fonte fosse, o marido veio a saber e 
um dia, de revólver em punho, furioso, fora de si, louco, totalmente louco, penetrava na casa e 
alvejou a mulher com dois tiros de revólver, de cujos ferimentos veio a morrer horas depois. 
Após ter alvejado mortalmente a mulher, correu em perseguição de Cassi, que, descalço, de 
calças e em mangas de camisa, saltava cercas e muros, para se pôr fora do alcance do marido 
indignado.
Entregando-se à prisão, o oficial maquinista contou toda a sua desdita e o causador 
dela. O delegado mandou procurar Cassi e conseguiu pilhá-lo à noite, Os agentes deram uma 
batida nos matos, e o galã fugitivo foi preso e recolhido à enxovia.
Por ocasião dessa prisão foi que ele veio a conhecer Lafões. Tinha este sido detido e 
recolhido ao xadrez, por ter feito um distúrbio, num botequim, onde tomara uma carraspana, 
em comemoração ao ter acertado uma centena no bicho. Quando Cassi foi recolhido, já Lafões 
estava no xadrez, havia quatro horas.
Cassi, que fugira do revólver do oficial, sem paletó e sem colete, em cujas algibeiras 
estava o seu dinheiro, não pudera comprar cigarros; mas Lafões os tinha, O profissional da 
sedução pediu-lhe um, que lhe foi dado, Disse, então, para Lafões:
-- Vou te soltar, meu velho. Tu és uma bela alma.
-- Por que vosmecê está preso, meu caro senhor?
Cassi respondeu com muita calma e indiferença, como se tratasse de um 
acontecimento vulgar:
-- Por nada. Coisas de mulheres, meu velho. É o meu fraco.
Pela grade do xadrez, dirigiu-se a um soldado, a quem conhecia, e falou-lhe baixo 
qualquer coisa. Em breve, foi a praça substituída por outra. Vendo isso Cassi, disse para o 
velho Lafões:
-- Estás aqui, estás na rua. Mandei o soldado falar ao meu chefe político: e ele vai 
interessar-se para seres solto.
-- E vosmecê?
-- Não te importes comigo. Tenho que depor...
Na verdade, Lafões foi solto; não houve, porém, qualquer intervenção do chefe 
político de Cassi. Libertou-o o próprio comissário que o prendera e o conhecia como homem 
morigerado e qualificado.
Entretanto, o guarda das obras públicas sempre supôs que a sua libertação tivesse 
sido obra de Cassi, por isso lhe era grato e o defendia com todo o ardor.
Lafões era um homem simplório, que só tinha agudeza de sentidos para o dinheiro 
que vencia. Vivendo sempre em círculos limitados, habituado a ver o valor dos homens nas 
roupas e no parentesco, ele não podia conceber que torvo indivíduo era o tal Cassi; que alma 
suja e má era a dele, para se interessar generosamente por alguém.
Muito diferente do guarda era Marramaque, cujo âmbito de vida sempre fora mais 
amplo e mais variado. Abraçava um maior horizonte de existência humana... 
Quando aquele lembrou que se convidasse o celebrizado violeiro, o contínuo viu logo 
os perigos que a presença do profissional da desonra das famílias podia trazer à paz e ao 
sossego que reinavam na casa de Joaquim dos Anjos.
Além de compadre, Marramaque era profundamente amigo do carteiro, que o 
auxiliava nos seus transes de toda a ordem: um pouco, originados pelos hábitos boêmios que, 
de todo, não perdera; um pouco, pela exigüidade de seus vencimentos, com os quais 
sustentava uma irmã viúva e dois filhos dela, ainda menores, com os quais morava, nas 
proximidades de Joaquim.
Na sua vida, tão agitada e tão variada, ele sempre observou a atmosfera de corrupção 
que cerca as raparigas do nascimento e da cor de sua afilhada; e também o mau conceito em 
que se têm as suas virtudes de mulher. A priori, estão condenadas; e tudo e todos pareciam 


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condenar os seus esforços e os dos seus para elevar a sua condição moral e social.
Se assim acontecia com as honestas, como não pensaria sobre o mesmo tema um 
malandro, um valdevinos, um inconsciente, um vagabundo cínico, como ele sabia ser o tal 
Cassi?
Durante o jantar, ainda se falou muito a respeito, mas com as reservas que a 
assistência de uma moça pedia fossem tomadas.
-- Vamos experimentar, meu caro Marramaque. "Ele" sabe com quem se mete...
-- Eu cá, por mim, nada tenho a dizer dele. Sempre me tratou muito bem e sou-lhe 
grato.
-- É que você, Lafões, não lê os jornais.
-- Qual jornais! Qual nada! Tudo que lá vem neles é mentira. 
Clara ouvia esse diálogo com muita atenção e forte curiosidade. Num dado 
momento, não se conteve e perguntou:
-- O que é que esse Cassi faz, padrinho?
A mãe acudiu ríspida, dizendo:
-- Não é de tua conta, bisbilhoteira!
A única filha do carteiro, Clara, fora criada com o recato e os mimos que, na sua 
condição, talvez lhe fossem prejudiciais. Puxava a ambos os pais. O carteiro era pardo-claro, 
mas com cabelo ruim, como se diz; a mulher, porém, apesar de mais escura, tinha o cabelo liso.
Na tez, a filha tirava ao pai; e no cabelo, à mãe.
Joaquim era alto, bem alto, acima da média, ombros quadrados e rija musculatura; a 
mãe, não sendo muito baixa, escapava à média da altura de nossas mulheres em geral. Tinha 
ela uma fisionomia medida, de traços breves, mas regular; o que não acontecia com o marido, 
que era possuidor de um grosso nariz, quase chato, e malares salientes. A filha, a Clara, havia 
ficado em tudo entre os dois; média deles, dos seus pais, era bem exatamente a filha de 
ambos.
Habituada às musicatas do pai e dos amigos, crescera cheia de vapores de modinhas 
e enfumaçara a sua pequena alma de rapariga pobre e de cor com os dengues e o simplório 
sentimentalismo amoroso dos descantes e cantarolas populares.
Raramente saía, a não ser para ir bem perto, à casa de Dona Margarida, aprender a 
bordar e a costurar, ou com esta ir ao cinema e a compras de fazendas e calçado. A casa dessa 
senhora ficava a quatro passos de distância da do carteiro. Apesar de ser uso, nos subúrbios, 
irem as senhoras e moças às vendas fazer compras, Dona Engrácia, sua mãe, nunca consentiu 
que ela o fizesse, embora de sua casa se avistasse tudo o que se passava, no armazém do "Seu" 
Nascimento, fornecedor da família.
Essa clausura mais alanceava sua alma para sonhos vagos, cuja expansão ela 
encontrava nas modinhas e em certas poesias populares.
Com esse estado de espírito, o seu anseio era que o pai consentisse na visita do 
famoso violeiro, cuja má fama ela não conhecia nem suspeitava, devido ao cerco desvelado 
que a mãe lhe punha à vida; entretanto, supunha que ele tirava do violão sons mágicos e 
cantava coisas celestiais.
Joaquim dos Anjos, afinal, tendo o assentimento da mulher e também curioso de 
conhecer as habilidades de Cassi, no violão e na trova popular, consentiu que Lafões o 
trouxesse em sua casa, no dia do aniversário de Clara. Viria aquela vez e não viria mais... 
Lafões acolheu a resposta com viva alegria e tratou de entender-se com o tocador 
mal-afamado. Fez. Quando os seus companheiros de vagabundagem souberam, comentaram 
cinicamente o convite:
-- Conheço bem esse carteiro. Ele não trabalha aqui; mas na cidade, na zona dos 
bancos. Deve ter dinheiro. Tem um pancadão de filha, meu Deus! Que torrão de açúcar!
-- Então estás feito, hein, Cassi? -- fez alvarmente Zezé Mateus àquela tendenciosa 


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observação de Ataliba do Timbó.
Cassi, o mestre suburbano do violão, o dedo da modinha, fingiu-se aborrecido e 
retrucou com fingido desgosto:
-- Vocês mesmo é que me desacreditam. Dizem coisas que não fiz e não faço, e todo 
mundo me enche de desprezo, se não de ódio. Não sou essas coisas que dizem de mim.
Timbó teve vontade de rir à vontade, mas, embora mais forte do que Cassi, tinha este 
sobre ele um ascendente moral que não se explicava. Zezé Mateus, porém, com o seu peculiar 
meio-riso de imbecil, fez:
-- Estou brincando, meu "nego". Sou teu amigo -- tu sabes.
Eles conversavam sempre de pé, parados pelas esquinas. Raramente, sentavam-se a 
uma mesa de café. Aquela intempestiva observação do Ataliba, seguida do comentário de 
Zezé Mateus, arrefecera a palestra da sociedade. Despediram-se, e cada um foi para o seu 
lado.
Cassi, que fingira aborrecer-se com a tendenciosa noticia de Timbó e o comentário de 
Zezé, ficou, ao contrário, muito contente com ela. Tinha resolvido não ir à tal festa; mas, pelo 
que informara Ataliba, talvez não tivesse nada a perder. Experimentaria.
Mordeu os lábios e seguiu para o clube, com a consciência leve e o coração alegre...

        IV

Veio o dia da festa; a pequena casa regurgitava; e -- coisa curiosa -- havia mais 
convidados de idade meã que moças e rapazes. Isto se explicava pela estreiteza de relações de 
Clara e dos seus pais, devido à vida que levavam. Entre as moças, havia duas ou três colegas 
de Clara, a filha de Lafões, uma sobrinha solteirona, Hermengarda, de Dona Engrácia, e 
poucas mais. Entre os rapazes, havia dois jovens colegas de Joaquim, Sabino e Honório; um 
irmão de Hermengarda e um afilhado de Lafões, que era vigia do cais do porto. Em 
compensação, as senhoras, mães de família, eram inúmeras. Destacava-se muito Dona 
Margarida Weber Pestana, pelo seu ar varonil, tendo sempre ao lado o filho único, de quatorze 
anos, fardado com uma fardeta de colegial. Tinha, essa senhora, um temperamento de heroína 
doméstica. Viera muito cedo para o Brasil, com o pai, que era alemão; ela, porém, havia 
nascido em Riga, russa portanto, como sua mãe o era. Antes dos dezesseis anos, ficara órfã de 
mãe. Seu pai emigrara para o Brasil, contratado a trabalhar no acabamento das obras da 
Candelária. Era estucador, marmorista, um pouco escultor; enfim, um operário fino, para essas 
obras especiais de revestimento e decoração interna de edifícios suntuosos.      
Bem cedo, mostrou ela inclinação por um tipógrafo que comia na "pensão" que havia 
montado, na rua da Alfândega, e dirigia ativamente. Casaram-se, e ele morreu dois anos 
depois, após o casamento, de tubelculote pulmonar, deixando-lhe o filho, o Ezequiel, que não 
a largava. Ano e meio depois, morreu-lhe o pai, de febre amarela. Continuou com a "ensão"; 
mas bem cedo vendeu-a e comprou uma casota nos subúrbios, aquela em que morava, quase 
junto de Joaquim. Costurava para fora, bordava, criava galinhas, patos e perus, e mantinha-se 
serenamente honesta. O Senhor Ataliba do Timbó deu em certa ocasião em persegui-la com 
ditandos de amor chulo. Certo dia, ela não teve dúvidas: meteu-lhe o guardachuva com vigor. 
À noite, no intuito de defender as suas galinhas da sanha dos ladrões, de quando em quando, 
abria um postigo, que abrira na janela da cozinha, e fazia fogo de revólver. Era respeitada pela 
sua coragem, pela sua bondade e pelo rigor de sua viuvez. O Ezequiel, seu filho, puxara muito 
ao pai, Florêncio Pestana, que era mulato, mas tinha os olhos glaucos, trais lúcidos, de sua mãe 
meio eslava, meio alemã, olhos tão estranhos -- olhos tão estranhos a nós e, sobretudo, ao 
sangue dominante no pequeno.
Afora Dona Margarida Pestana, notava-se Dona Laurentina Jácome, uma velha, 
sempre metida com rezas e padres, pensionista do ex-Imperador e empregada numa capelinha 


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da vizinhança, de cuja limpeza era encarregada, inclusive da lavagem das toalhas dos altares. 
Não podia conversar outra coisa que não fossem acontecimentos eclesiásticos e, quase sempre, 
os de sua igreja:
-- A senhora não sabe, Dona Engrácia, de uma coisa?
-- O que é?
-- O padre Santos, este mês, disse mais de vinte missas e só recebeu inco. Pobre 
padre Santos! É mesmo um santo!
E contraía a fisionomia enrugada e, erguendo-a um pouco, apertava as mãos ao jeito 
de quem reza.
Além desta, havia uma digna de nota: era Dona Vicência. Morava na vizinhança 
também e vivia de deitar cartas e cortar "coisas-feitas". O seu procedimento era inatacável e 
exercia a sua profissão de cartomante com toda a seriedade e convicção.
Havia outras sem nada de notável, como entre os cavalheiros só havia um que se 
destacava. Convém não esquecer que Lafões e Marramaque lá estavam a postos. O cavalheiro 
digno de nota era um preto baixo, um tanto corcunda, com o ombro direito levantado, uma 
enorme cabeça, uma testa proeminente e abaulada, a face estreitante até acabar num queixo 
formando, queixo e face, um V monstruoso, na parte anterior da cabeça; e, na posterior, no 
occipital desmedido, acaba o seu perfil monstruoso. Chamava-se Praxedes Maria dos Santos; 
mas gostava de ser tratado por doutor Praxedes.
A monstruosidade de sua cabeça o pusera a perder. Por tê-la assim, julgou-se uma 
inteligência, um grande advogado, e pôs a freqüentar cartórios, servindo de testemunha, 
quando era preciso, indo comprar estampilhas, etc., etc.
Com o tempo, tomou algumas luzes e atirou-se a tratar de papéis de casamento e 
organizou uma biblioteca particular de manuais jurídicos, de índices de legislação, etc., etc. 
Vestia-se sempre de fraque, botinas de verniz ou gaspeadas, e não dispensava a pasta 
indicadora de homens de leis, Quando foi moda ser de rolo, ele a usou assim; quando veio a 
moda de ser em saco, como a trazem agora os advogados, ele comprou uma luxuosa de 
marroquim com fechos de prata.
Não falava senão em leis e decretos: "porque" -- dizia ele -- "a Lei 1857, de 14 de 
outubro de 1879, diz que a mulher casada, no regime do casamento, não pode dispor dos seus 
bens, ter dinheiro em bancos, na Caixa Econômica; entretanto, o Decreto 4572, de 24 de julho 
de 1899, determina..."
Afora o seu amor a esse embrulho legislativo, gostava de versos; mas não de 
modinha.
Era este o cavalheiro mais notável que havia vindo ao baile de anos de Clara. É que 
até àquele momento, com grande desgosto para as moças, o trovador Cassi não havia ainda 
aparecido.
Clara não ocultava o seu desapontamento; e uma de suas colegas lhe dizia em 
confidência:
-- Clara, toma cuidado. Este homem não presta.
A moça não respondia, encaminhava-se para a sala de jantar, a fim de disfarçar a 
emoção, simulando ir beber água.
Clara estava bem vestidinha. Era inteiramente de crepom o seu vestido, com 
guarnição de renda de indústria caseira, mas bonita e bem trabalhada; o pescoço saía-lhe nu e a 
gola do casaco terminava numa pala debruada de rendas. Calçava sapatos de verniz e meias. 
Nas orelhas tinha grandes africanas e penteara-se de bandós, rematando o penteado para trás, 
na altura do pescoço, um coque, fixado por um grande pente de tartaruga ou coisa parecida.
Quando ela foi beber água, seguiu-lhe a sua amiga Etelvina, uma crioulinha 
espevitada, sua antiga colega do colégio. Vestia-se esta com um mau gosto de aborrecer. Todo 
o vestido era azul-celeste, com rendas pretas; os sapatos amarelos e as meias cor de abóbora. 


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Ao redor da cabeça, dividindo a testa ao meio, uma fita vermelha, de um vermelho muito 
berrante. Os gregos chamavam este adorno feminino de stephané; e, ao que parece, as 
portadoras não eram lá tidas como virtuosas.
Essa Etelvina era a primeira dançarina do baile, não tinha até ali perdido uma 
contradança.
A orquestra era composta de flauta, cavaquinho e violão -- um "terno", como 
denominam os seresteiros.
O baile ia adiantado, quando a filha de Lafões veio correndo do portão do 
mimoseado jardim que enfrentava a casa, anunciando alegre:
-- E vem ai, "Seu" Cassi.
Entrou. Houve um estremecimento que percorreu os convivas, como um choque 
elétrico. Todas as moças, das mais diferentes cores, que, ali, a pobreza e a humildade de 
condição esbatiam e harmonizavam, logo o admiraram na sua insignificância geral, tão 
poderosa é a fascinação da perversidade nas cabeças femininas. Nem César Bórgia, entrando 
mascarado, num baile à fantasia, dado por seu pai, Alexandre VI, no Vaticano, causaria tanta 
emoção. Se não disseram: "É César! É César!" -- codilharam: "É ele! É ele!"
Os rapazes, porém, não ficaram contentes, pressentindo essa satisfação das damas; e, 
entre eles, puseram-se a contar a biografia escabrosa do modinheiro.
Apresentado, por Lafões, aos donos da casa, e à filha, ninguém lhe notou o olhar 
guloso de grosseiro sibarita sexual que deitou para os seios empinados de Clara.
O baile continuou animado; Cassi, porém, não dançava e foi reforçar o terno de 
cavaquinho, flauta e violão, com o seu instrumento.
Dona Margarida, com o seu porte severo, olhava as damas, sentada ao sofá austríaco, 
tendo ao lado o filho. A polca era a dança preferida, e todos quase a dançavam com requebros 
próprios de samba. Os convidados que não dançavam se haviam espalhado por várias partes 
da casa. Joaquim, Lafões e Marramaque ouviam o doutor Praxedes explicar o que era um 
habeas corpus preventivo.
-- Exemplifico -- dizia o doutor Praxedes, erguendo a mão direita catedraticamente, 
com o indicador apontado para o teto. -- É uma medida perfeitamente jurídica de profilática, 
porque...
Nisto acode o "doutor" Meneses, um velho hidrópico, com a mania de saber todas as 
ciências, vivendo na maior miséria, apesar de exercer clandestinamente a profissão de dentista.
-- Doutor Praxedes -- acudia o doutor Meneses --, não julgo a comparação própria. 
Cada ciência tem seu campo próprio...
A discussão tomava vulto e Joaquim se levantou. Sempre que ele fazia isto, Meneses 
seguia com os olhos o carteiro, a ver se ele ia até a cozinha mandar pôr a ceia. O sábio dentista 
viera à última hora, na esperança que a houvesse. Não lograra dinheiro para tomar um caldo. 
Joaquim, porém, aborrecido com a discussão, fora simplesmente até a sala de visitas convidar:
-- Quem quiser tomar alguma coisa, comer biscoitos, é só vir cá dentro. Não façam 
cerimônia.
Toda vez que o anfitrião dizia isso, Meneses comia duas empadas e quatro 
sandwiches e bebia uma boa "talagada" de parati.
O dono da casa convidava Cassi especialmente; mas este não bebia, não gostava. 
Não era esse o seu prazer...
De uma feita, indo à sala, Joaquim convidou-o:    
-- Por que não canta, "Seu" Cassi?        
Até ali, não se falara nisso, e, repinicando as cordas do violão, não deixava o famoso 
mestre violeiro de devorar sorrateiramente com o olhar lascivo os bamboleios de quadris de 
Clara, quando dançava.
Ninguém se atrevia a convidá-lo; todos esperavam que o dono da casa o fizesse. 


[Linha 1150 de 4046 - Parte 1 de 3]


Feito o convite, ele respondeu cheio de uma cerimônia afetada:
-- Estou sem voz: esfalfei-me muito ontem, no baile do doutor Raposo e...
Vendo que seu pai o havia convidado, Clara animou-se:        
-- Por que não canta "Seu" Cassi? Dizem que o senhor canta tão bem... 
Esse -- "tão bem" -- foi alongado maciamente. Cassi concertou, com apurada 
pelintragem e com ambas as mãos, a pastinha oleosa; limpou, em seguida, os dedos no lenço e 
respondeu dengoso:
-- Qual, minha senhora! São bondades dos camaradas...
Clara insistiu:
-- Cante, "Seu" Cassi! Vá!
Ele, então, torcendo a cabeça para o lado esquerdo, cuja mão espalmada abria para o 
alto, e fingindo constrangimento, respondeu:
-- Já que a senhora manda, vou cantar.
Marramaque, que tinha ouvido tudo, ficou espantado com o desembaraço da 
afilhada. Diabo! fez ele de si para si.
O violeiro, com todo o dengue, agarrou o violão, fez estalar as cordas e avisou:
-- Vou cantar uma modinha velha, mas muito gentil e literária -- "Na Roça".
Muitos circunstantes ficaram desapontados, porque já a conheciam; mas outros 
gostavam muito da modinha e aprovaram a escolha.
Cassi começou:

   Mostraram-me um dia
   Na roça dançando
   Mestiça formosa
   De olhar azougado...

Isto tudo era dito quase aos poucos, sem modulação alguma, enquanto o violão 
repinicava as mesmas notas, numa indigência musical, numa monotonia de sons, que dava 
sono. Quando chegava ao estribilho:

         Sorria a mulata
         Por quem o feitor
         Diziam que andava
         Perdido de amor
       
Por aí ele empregava o seu tic invencível de tocador de violão e cantor de modinha. 
Cantando, revirava os olhos e como que os deixava morrer. O cardeal de Retz diz, nas suas 
famosas Memórias, que Mme. de Montayon, ou uma outra qualquer duquesa, ficava mais bela 
quando os seus olhos morriam. Cassi talvez ficasse mais, se ele tivesse alguma beleza; 
entretanto, esse seu tic impressionava as damas.
Clara, que sempre a modinha transfigurava, levando-a a regiões de perpétua 
felicidade, de amor, de satisfação, de alegria, a ponto de quase ela suspender, quando as 
ouvia, a vida de relação, ficar num êxtase místico, absorvida totalmente nas palavras sonoras 
da trova, impressionou-se profundamente com aquele jogo de olhar, com que Cassi comentava 
os versos da modinha. Ele sofria, por força, senão não punha tanta expressão de mágoa, 
quando cantava -- pensava ela.
Tão embevecida estava, tão longe pairava o seu pensamento que, quando Cassi 
acabou, esqueceu-se de aplaudir o troveiro que, para o seu rudimentar gosto, lhe tinha 
proporcionado tão forte prazer artístico.
Comentava-se ainda a execução do maestro Cassi; e ele ao lado percebia os gabos e 


[Linha 1200 de 4046 - Parte 1 de 3]


criticas. Por esse tempo, como uma aparição em alçapão de mágica, surgiu repentinamente, no 
centro da sala, o "doutor" Praxedes, célebre advogado nos auditórios suburbanos. Iniciou:
-- Minhas senhoras e meus senhores. Peço-lhes a devida vênia, para recitar uma 
mimosa poesia de um nosso patrício. É uma obra-prima de chiquismo e de moralidade. O seu 
autor é o Major Urbano Duarte, que morreu, se não me falha a memória, general-de-brigada, 
Vou recitá-la, se me permitem. Chama-se "A Lágrima".    
Dizendo isto, o seu todo grotesco ainda mais grotesco ficava, com a gesticulação 
desordenada dos braços, que rodavam, duros e hirtos, em torno dos ombros, de cima para 
baixo. Pareciam asas de um antigo moinho de vento. Começou gritando a primeira estrofe e já 
se babando pelos cantos dos seus lábios violáceos:

         Cismava à beira-mar, a linda Marieta, 
         Seguindo tristemente o sulco do vapor,
         O qual, fugindo além, sumiu-se no horizonte,
         Levando a longe terra o seu primeiro amor.

O seu gritar, o seu babujar, o seu gesticular foram crescendo. Quando chegou ao 
primeiro terceto do soneto, quase não tinha mais voz. Da assistência, apossara-se uma louca 
vontade de rir; muitos se contiveram; outros, porém, se retiraram para gargalhar longe. O 
doutor Praxedes nada via e continuava impertérrito, afinal acabou:       

  Depois, quando o luar banhando a natureza
  Em pálidos clarões de luz misteriosa,
  Eu vi no arrebentar do mar embravecido
  A lágrima a boiar na pétala de rosa.
Ao terminar, recebeu palmas, e, sentando-se, cansado de tão estúrdio esforço 
muscular, ainda disse:
-- Essa lágrima é a da Marieta de que "o verso" fala no começo. É preciso que os 
senhores e as senhoras não se esqueçam desse pormenor.
Marramaque, que até ali, sem ser notado, seguira a insistência com que o trovador 
Cassi olhava Clara, resolveu pregar-lhe uma peça. Apoiado na sua bengala amiga, com a perna 
esquerda encolhida, devido aos ataques, e o respectivo braço fixado em ângulo reto, 
conseqüência também dos ataques -- encaminhou-se para o centro da sala, capengando, a fim 
de recitar, por sua vez. A parte esquerda da boca era defeituosa também, e isso provocava-lhe 
muito esforço para pronunciar bem as palavras.
Não atendeu a nenhuma consideração e pôs-se em pé para recitar.
Assim é que ia fazer; deu o título da poesia -- "Persistência" -- e começou 
naturalmente, como quem já soubera recitar com relativa perfeição, quando estava são. 
Recitando, olhava sempre para Cassi, que, calado, numa reserva de moço bem-comportado, 
ficara de pé, encostado ao vão da janela de frente.
Marramaque atacou os versos, saltitando na sala:

  Se às vezes contigo esbarro
  e grito, esperneio e berro,
  que me traz de há muito zarro
  a paixão que aqui encerro,

  Tu foges. E a ti me agarro,
  cismando: (e nisto não erro)
  Se eu tenho uma alma de barro,


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  tu mostras que a tens de ferro.

  E se nada mais espirro
  é porque, então, se não corro,
  a coisa já cheira a esturro.

 Que queres? Eu próprio embirro
 com este amor por que morro,
 mas é que sou muito burro.

O final causou uma franca hilaridade na assistência, e até Clara riu-se a perder; mas 
ninguém perguntou quem era o autor; e, se lhe perguntas-sem, Marramaque não lhe sabia o 
nome. Era a poesia sem assinatura, num jornal antigo, gostara dela e a decorara.    
O povo é avesso a guardar os nomes dos autores, mesmo os dos romances, folhetins 
que custam dias e dias de leitura. A obra é tudo, para o pequeno povo; o autor, nada.
Cassi, que, logo, antipatizara com Marramaque, percebeu que a coisa era com ele. 
Perceberia outro mais burro do que o gabado artista da modinha, tanto era a teimosia com que 
o velho aleijado o olhava. Cassi pensou, de si para si: "Este pobre-diabo me paga".
O que espantava, na ação de Marramaque, era a sua coragem. Ele, semi-aleijado, 
velho, pobre, lançava um solene desafio àquele valdevinos forte, são, habituado a rolos e rixas.
Cassi não se demorou mais por muito tempo, Pediu o chapéu, despediu-se dos donos 
da casa e da filha destes, fez um cumprimento em roda e, quando deu com o rosto de 
Marramaque, com os olhos estranhamente fixos nele, a boca semi-aberta, o braço esquerdo 
fixado em ângulo reto, pela moléstia, arrastou-se, Parecia uma aparição... Deixara de ser o 
contínuo aleijado que ele antes tinha visto; era outra coisa, mais do que o simples Marramaque, 
que o espantava e o fazia tremer.     
Com a atitude desassombrada daquele velho aleijado em face dele e que havia 
adivinhado, não sabia ele como, os seus maus propósitos em relação à Clara, Cassi sentiu, 
apesar do seu quase congênito embotamento moral, que havia na vida, ou, por outra, nas 
relações entre os homens, um guia silencioso e secreto, que pesava os nossos atos e pedia, para 
dar-lhes apoio e encaminhar-nos para uma paz interior e um contentamento conosco mesmos, o 
emprego, em todas as nossas ações, do Justo, do Leal, do Verdadeiro e do Generoso; e esse 
guia -- ele via agora  com o caso de Marramaque  -- dava forças aos fracos, coragem aos 
tímidos e uma seráfica e íntima satisfação, quando cumpríamos o nosso dever com honra e 
dignidade. Esse guia era a Consciência.
Confusamente, ele pensou isso; mas, ao passar o terror, o pavor, que lhe causara o 
olhar fixo, vitrificado, sobrenatural do velho Marramaque; olhar que o fizera um instante 
voltar-se para dentro de si mesmo e examinar-se -- tornou com pressa ao que era e, fazendo um 
desdenhoso -- ora! --, repetiu de si para si a ameaça que já fizera: "Aquele boneco de engonço 
me paga".
Depois da saída de Cassi, ainda se bailou até os primeiros albores da aurora. 
Meneses, que tinha cochilado bastante, pôde, afinal, pela madrugada, comer um pouco de 
galinha assada e porco, que havia sobrado do jantar; mas não encetou discussão mais alguma 
com o doutor Praxedes; mesmo porque este já se havia despedido, por ter de comparecer 
muito cedo à audiência de um pretor, a fim de inquirir testemunhas num feito importante em 
que funcionava como advogado.  
Quando todos se foram e Clara recolheu-se a seu quarto, que dava para a sala de 
jantar, Joaquim e a mulher ficaram nela, comendo ainda alguma coisa que sobrara, Foi então 
que Engrácia disse para o marido:      
-- Tudo foi muito bem. Todos se portaram decentemente, com respeito; mas uma 


[Linha 1300 de 4046 - Parte 1 de 3]


coisa não quero mais.
-- O que é?
-- É que esse Cassi venha mais aqui. Dona Margarida me disse que ele é, é um 
devasso. Você não vê como ele canta indecentemente, revirando os olhos... Não o quero mais 
aqui; se ele vier...
-- Não é preciso você se zangar, Engrácia; não gostei também dele e não porá mais os 
pés na minha casa.
Clara, que, deitada, no quarto, havia ouvido toda a conversa, pôs-se, em silêncio, a 
chorar.


        V

Quem conhecesse intimamente Engrácia, havia de ficar espantado com a atitude 
decisiva que tomou em relação à visita de Cassi. O seu temperamento era completamente 
inerte, passivo. Muito boa, muito honesta, ativa no desempenho dos trabalhos domésticos; 
entretanto, era incapaz de tomar uma iniciativa em qualquer emergência. Entregava tudo ao 
marido, que, a bem dizer, era quem dirigia a casa. Rol de compras a fazer na venda do "Seu" 
Nascimento, diariamente, e também o de legumes e verduras, quem os organizava era o 
marido, especificando tudo por escrito e deixando o dinheiro para o quitandeiro, todas as 
manhãs, quando ia para o trabalho. De caminho, deixava a lista de gêneros no "Seu" 
Nascimento, onde pagava tudo por mês.
Qualquer acontecimento inesperado que lhe surgisse no lar, punha-a tonta e 
desvairada. Quando ainda tinham a velha preta Babá, que a criara na casa dos seus protetores 
e antigos senhores de sua avó, talvez um deles, pai dela, ficou Engrácia quase doida, ao ser a 
velha Babá acometida de um ataque súbito. Não sabia o que fazer. Foi preciso que Dona 
Margarida interviesse, mandasse chamar o médico, fizesse aviar a receita, tomasse, enfim, as 
providências que o caso exigia. A velha morreu daí a pouco, de embolia cerebral. Muito 
Engrácia sofreu com essa morte, pois, não tendo conhecido sua mãe, que lhe morrera aos sete 
anos, fora Babá que a criara. Os seus protetores tinham sido abastados; eram descendentes de 
um alferes de milícias, que tinha terras, para as bandas de São Gonçalo, em Cubandê. Pouco 
depois da Maioridade, com a morte do chefe da casa, filhos e filhas se transportaram para a 
Corte, procurando aqueles empregaram-se nas repartições do governo. Um dos irmãos já 
habitava a capital do Império e era cirurgião do Exército, tendo chegado a cirurgião-mor, 
gozando de grande fama. Para a cidade não trouxeram nenhum escravo. Venderam a maioria e 
os de estimação libertaram. Com eles, só vieram os libertos que eram como da família. Pelo 
tempo do nascimento de Engrácia, havia poucos deles e delas em casa. Só a Babá, sua mãe e 
um preto ainda estavam sob o teto patriarcal dos Teles de Carvalho.  
Engrácia  foi  criada com mimo de filha, como os outros rapazes e raparigas, filhos 
de antigos escravos, nascidos em casa dos Teles.          
Por isso, corria, de boca em boca, serem filhos dos varões da casa. O cochicho não 
era destituído de fundamento, naquela família, composta de irmãs e irmãos, ainda abastada, 
que se comprazia, tanto uns como as outras, em tratar filialmente aquela espécie de ingênuos, 
que viam a luz do dia, pela primeira vez, em sua casa. As senhoras, então, eram de uma 
meiguice de verdadeiras mães.       
Engrácia recebeu boa instrução, para a sua condição e sexo; mas, logo que se 
casou -- como em geral acontece com as nossas moças --, tratou de esquecer o que tinha 
estudado. O seu consórcio com Joaquim, ela o efetuara na idade de dezoito anos.
Fosse a educação mimosa que recebera, fosse uma fatalidade de sua compleição 
individual, o certo é que, a não ser para os serviços domésticos, Engrácia evitava todo o esforço de qualquer natureza.

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