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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Arco-iris Submarino - Natureza


ARCO-ÍRIS SUBMARINO - Natureza


É espantosa a quantidade e a qualidade das cores dos recifes de corais. E neles destacam-se peixes e invertebrados, alguns capazes até de "trocar de roupa" conforme seja hora de comer, lutar ou amar.

Pergunte a um mergulhador o que é mais impressionante nos recifes de coral e ouvirá: a cor. As regiões rasas dos trópicos são famosas pelas variadas e intensas nuances dos habitantes dos recifes , e o visitante de primeira viagem surpreende-se com o fato de serem os peixes que exibem os mais grandiosos e mutáveis tons coloridos. Os invertebrados, as anêmonas e os camarões, as estrelas-do-mar e os nudibrânquios, para citar apenas alguns, apresentam cores riquíssimas; mas o que primeiro salta aos olhos são os peixes, as miríades de peixes que nadam por todos os lados.

Por que os peixes dos recifes  tropicais precisam usar uma roupagem tão brilhantemente colorida? Afinal, isso não é comum para a maioria dos animais. A maior parte dos mamíferos tende a ter uma pelagem marrom ou cinzenta, para camuflar-se no meio ambiente. Os pássaros têm plumagem comum e muitos dos bem coloridos abandonam as cores ao final da temporada de acasalamento. Na verdade, a maioria dos peixes marinhos também é da cor da água e apresenta tons contrastantes - escuros no dorso e claros na região ventral - para dificultar a visão, tanto a partir de cima quanto de baixo. Assim, por que será que os peixes que vivem em redor dos recifes desafiam o que parece ser um procedimento regular, senão uma lei, da natureza?         
A resposta não é simples, nem completa, nem clara. Muitas observações e descobertas levaram os cientistas a elaborar teorias e meias teorias que, tomadas em conjunto, permitem conclusões hesitantes. Uma delas garante que aqueles deliciosos tons coloridos dos peixes são produto de cromatóforos, ou células de cor, presentes em sua pele, que contêm compostos pigmentares chamados carotenóides. Esses carotenóides fazem parte da dieta dos peixes, os quais, sem eles, seriam capazes de produzir apenas pigmentos pretos e brancos. Devem seus maravilhosos tons de vermelho, laranja e amarelo, que tanto apreciamos, àquilo que comem; e devem os compostos pigmentares presentes em seus tratos intestinais aos cromatóforos da pele. Essas células de cor podem se expandir e contrair, alterando assim os padrões e a intensidade das cores da pele. Quando os cromatóforos se expandem, os pigmentos se tornam difusos e as cores esmaecem; quando se contraem, o pigmento se concentra e as cores se intensificam. Já a surpreendente iridescência (capacidade de refletir todas as cores do arco-íris) dos peixes dos recifes se deve a iridóforos, tipos de cromatóforos que contêm cristais brancos e opacos de proteína. Esses cristais refletem a luz de tal forma que os comprimentos de ondas cromáticas se chocam, criando assim aquela iridescência cintilante.
A maioria dos peixes conserva por toda a vida suas cores e padrões. Na realidade, são as cores e os padrões que permitem aos observadores identificar esses animais. Esse padrão previsível é conhecido como coloração morfológica e, embora extremamente útil, é de certa forma menos intrigante que a coloração fisiológica, denominação dada pelos cientistas à capacidade que alguns peixes têm de alterar rapidamente sua aparência, de "mudar de roupa" bem diante de nossos olhos. 
Como isso acontece é um quase completo mistério. A capacidade dos chromises púrpuras adultos em "ligar e desligar" manchas azuis na pele, as pintas próximas às nadadeiras dorsais dos graysbys, que mudam de preto para branco e novamente para preto, para citar apenas dois exemplos, até hoje não foram explicadas. Mas algumas coisas sabemos sobre esses fenômenos.
Os trumpetfish são longos e delgados predadores dos recifes que não guardam o produto de suas expedições de caça para o nascer ou o pôr-do-sol. Oportunistas, eles se alimentam em qualquer ocasião possível, muitas vezes em plena luz do dia. Para melhorar sua capacidade de espreitar a presa, esses animais têm a habilidade de mudar rapidamente de cor. Ainda mais notável é sua capacidade de imitar a cor, senão a forma, de outros peixes, po-dendo, assim, deslizarem sem se-rem percebidos para perto de um gru-- po de presas distraídas. Um exemplo marinho do "lobo na pele de cordeiro".
Os flounders também são capazes de mudar de cor para combinar com o ambiente, e valem-se disso tanto para caçar quanto para se proteger, pois são moradores das águas profundas.Em águas quentes, tanto o frogfish quanto o scorpionfish usam suas cores e sua forma serrilhada para se esconderem bem na frente de seus predadores e de suas presas. Eles se disfarçam tão perfeitamente que os mergulhadores costumam apoiar a mão em cima deles, tomando-os por pedras cobertas de algas. Como ambos são capazes de dar uma poderosa e venenosa ferroada, esse engano costuma ser doloroso. 
Mudar de cor para garantir a segurança é uma tática freqüentemente usada por muitos e diferentes peixes dos recifes, e essa alteração pode ser rápida e profunda. Os normalmente brilhantes parrotfish, redband e yellowtail podem nadar até o fundo e ficar parados, enquanto vão perdendo as cores e se tornando pálidos e mosqueados. Dessa maneira misturam-se com o ambiente e, com um pouco de sorte, aos olhos de um predador parecem desaparecer. 
Nem toda alteração de cor, porém, se relaciona à alimentação ou à proteção contra os predadores. Às vezes essas transformações se ligam claramente ao comportamento reprodutivo e, outras vezes, àquilo que só podemos descrever como "fúria de peixe". Muitos peixes foram observados mudando de cor ao se aproximar a temporada de acasalamento, do mesmo modo como os pássaros vestem suas melhores roupas na primavera, ao se prepararem para a época da reprodução. 
De forma diferente dos pássaros, contudo, alguns peixes podem atirar "lampejos" de cor uns para os outros, como sinal de disposição para o acasalamento. Esses lampejos de prontidão sexual podem, se os peixes se parecerem mesmo remotamente conosco, ser considerados uma mensagem emocional; parece que a urgência sexual não é a única emoção que se reflete nas suas alterações de cor. A garoupa as utiliza para dar sinal de alarme ou submissão. 
A fúria parece ser uma emoção animal comum, relativamente fácil de identificar. Na lula e no polvo ela se evidencia pela passagem para a cor vermelha, algo parecido com o que ocorre com os humanos. Mergulhadores que se aproximam cuidadosamente dos peacock flounders podem provocar uma mudança de cor ao erguer a mão bem devagar por cima do animal. Quando o peixe percebe o vulto do braço as manchas azuis de sua pele clareiam vagarosamente, como sinal de ameaça ou ansiedade, ou da combinação das duas ou talvez de algo completamente diferente. Como observou um pesquisador, é inútil entrevistar os peixes, eles não respondem às perguntas; raramente se pode identificar com clareza o que significam essas alterações de cor.
Numa coisa os pesquisadores concordam: as alterações de cor servem a propósitos de comunicação que tornam a vida nos recifes mais fácil para todos os envolvidos. Quando se observam as cores brilhantes dos lionfish ou de certos surgeonfish, percebem-se marcas espalhafatosamente coloridas perto dos perigosos ferrões de suas caudas, um aviso que reduz a incidência de conflitos. Parece também ser o caso de aperfeiçoamento da eficiência, quando se observa que entre os peixes dos recifes, os jovens geralmente apresentam uma coloração diferente dos adultos de suas espécies. Os filhotes dos queen angelfish, dos butterflyfish de quatro olhos e de outros lindíssimos peixes que vivem entre as rochas são tão diferentes dos adultos que os observadores chegaram a pensar que pertencem a espécies diferentes. Fica claro que a coloração dos peixes imaturos serve de camuflagem de proteção. Como os filhotes de muitos animais, eles são notavelmente vulneráveis aos predadores, e sua possibilidade de sobrevivência aumenta quando se tornam mais difíceis de encontrar. 
Enquanto as diferenças de cor ajudam a manter estáveis as relações entre os jovens e os adultos de algumas espécies, também servem de instrumento para o estabelecimento da ordem entre as confusas e complexas famílias dos peixes hermafroditas. Algumas espécies de wrasse e parrotfish têm a capacidade de mudar de sexo segundo a demanda da idade ou do equilíbrio de sua população. Ao mudarem de sexo, mudam também de cor. 
É provável que as demarcações de cores sejam ainda úteis para a determinação do status. Entre os parrotfish, por exemplo, os machos mais velhos são dominadores e os primeiros a ter acesso às fêmeas. Os machos mais jovens desempenham um papel mais modesto na hierarquia social e reprodutiva, e são as diferenças de cor entre os machos e entre esses e as fêmeas que permitem a todos saber exatamente qual é o seu lugar.        
Estreitamente relacionados à cor, os padrões da pele dos peixes também têm importantes funções. Basicamente, costumam apresentar padrões de listras horizontais ou barras verticais e, mais raramente, manchas ou pintas. Qualquer desses padrões pode dar origem ao que se conhece como coloração críptica ou disruptiva, nomes dados à confusão sobre os limites visuais de qualquer peixe individual quando um cardume de peixes com padrões é visto em conjunto. Os predadores se dão melhor quando saem em perseguição a um único e determinado animal, mas se essa discriminação se torna difícil, a vantagem é de todos os indivíduos do cardume. As listras são associadas com os peixes que nadam rapidamente e com as espécies do mar alto. Elas parecem acentuar a velocidade e podem confundir os predadores, principalmente se houver um certo número de peixes listrados passando juntos: as listras proporcionam uma qualidade visual de extrema indefinição.
As barras são comuns nos peixes mais encorpados e lentos que vivem nos recifes de corais. Eles não precisam fugir rapidamente, mas costumam mudar de direção como um raio e esconder-se em fendas ou buracos do recife. Vistos "em pé", um angelfish ou um butterflyfish podem ser confundidos com a barra vertical da lateral do corpo de um de seus companheiros. O padrão torna um pouco mais difícil a identificação visual por parte dos predadores, e essa fração de segundo pode ser suficiente para a fuga. Os peixes dessas espécies quase sempre têm uma das barras verticais passando por cima do olho, e muitas vezes apresentam uma mancha imitando olho, ou ocelos, na cauda. 
Os pesquisadores acham que esse padrão disfarça o olho verdadeiro e confunde os predadores, que acabam sem saber em que direção a presa está nadando.Uma teoria mais interessante a respeito dos ocelos propõe que, como os peixes são geralmente vistos de lado, os dois "olhos" das extremidades frontal e traseira de um coralfish, por exemplo, podem muito bem ser confundidos com os dois olhos amplamente espaçados na cabeça de um predador mais avantajado. Embora a maior exibição de cores de um recife de coral se realize por meio da pele dos peixes, muitos invertebrados também apresentam lindíssimas roupagens. Em sua maior parte, as cores desses animais relacionam-se estreitamente com a composição química daquilo que comem. 
Muitas vezes os animais mais vulneráveis apresentam, como se poderia esperar, uma coloração com fins protetores. Uma interessante exceção a essa lógica, porém, são os nudibrânquios, caramujos desprovidos de conchas que freqüentemente exibem escandalosos tons de amarelo, vermelho ou laranja. À primeira vista pode-se concluir que semelhante guloseima, sem ossos, tão macia e suculenta quanto um escargot e tão colorida quanto um desfile de escola de samba não duraria sequer dez minutos em um oceano povoado de predadores cheios de dentes, mas ter um bocado desse animal na boca é como morder uma almofada de alfinetes. 
Essas lesmas marinhas se alimentam de cnidaria, animais parecidos com a anêmona, que contêm poderosas células-aguilhão, ou cnidoblastos, na ponta dos tentáculos. Os nudibrânquios não são prejudicados ao ingerir essas células e as transmitem de seu trato digestivo para as extremidades de suas cerrata, as estruturas em forma de franja que correm ao longo de seu dorso. Ali os cnidoblastos jazem, inertes, até que algum predador tenha a infeliz idéia de transformar o animal em refeição. 
Uma visita a um recife de corais é uma excitante aventura visual. As cores são um verdadeiro espetáculo e, quanto mais se olha, mais se vê e mais rico se torna o arco-íris. É importante que se recorde, porém, que os animais que consideramos tão maravilhosos passam os dias tentando permanecer vivos e prosperar em um meio ambiente cheio de perigos. Não podem se dar ao luxo de exibir cores meramente decorativas; a coloração e o padrão que desenvolveram durante milhões de anos têm, quase com certeza, o objetivo de servir como instrumentos de sobrevivência. É verdade que essas "roupagens" servem para ocultá-los dos predadores e, ao mesmo tempo, aumentam sua capacidade de apanhar presas, mas também funcionam de formas mais sutis e complexas, para transmitir milhares de mensagens aos parceiros sexuais, aos inimigos e aos membros da mesma ou de diferentes espécies.


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