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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

No calor das águas de Yellowstone - Geologia

NO CALOR DAS ÁGUAS DE YELLOWSTONE - Geologia


O mais antigo parque nacional do mundo, nos Estados Unidos, é um cenário de cinema. Ao lado de florestas, cachoeiras e animais selvagens, brota das entranhas do solo um inesquecível espetáculo aquático.


Depois de estacionar o carro na beira da estrada, não é preciso caminhar muito para chegar a uma grande clareira no meio de um bosque. O número de pessoas é grande. Todos sentados, formando um pequeno círculo, observam atentamente. Os mais ansiosos não param de apontar para o centro e olhar o relógio. O espetáculo está para começar. No meio do público, uma simples poça d´água, com 1,5 metro de diâmetro, de cor cinza-esverdeada. De repente, a água começa a borbulhar e a expelir uma espessa fumaça branca. Apreensivos, todos se concentram naquela poça, que borbulha cada vez com mais força. A terra parece vibrar sob os pés até que, de repente, como se fosse a explosão de uma bomba, sai da poça um gigantesco jato de água fumegante.
O jato sobe uns 8 metros, quase a altura de um prédio de dois andares, e dura alguns segundos. Aos poucos vai diminuindo, enfraquecendo, até que desaparece. A água borbulha e esfumaça mais um pouco, e tudo volta ao normal. As pessoas tinham acabado de presenciar um curioso e raro fenômeno da natureza: um gêiser, ou uma espécie de vulcão de água. Extasiados, todos se levantaram e cederam lugar a outro grupo, que vinha assistir à "próxima sessão". Esse espetáculo acontece diariamente centenas de vezes no Parque Nacional de Yellowstone, no Estado do Wyoming, ao norte das Montanhas Rochosas, no centro-oeste americano.
O parque, em algumas áreas, lembra os cenários dos filmes de Steven Spielberg: são mais de 200 gêisers que entram em erupção, alguns com hora "marcada", a todo instante. Há chão que solta fumaça, terraços rochosos, fontes naturais de água escaldante que brota do subsolo nas mais variadas tonalidades, azuis e esverdeadas. O Yellowstone possui a maior e mais variada coleção de fenômenos hidrotermais do mundo - mais de 10 000 formações, entre gêisers, piscinas de água quente e de lama, e fumarolas (fissuras que expelem vapor de água e gases). Há também canyons, cachoeiras com 100 metros de altura, lagos com até 160 quilômetros de margens, bosques e animais de grande porte - ursos, alces, veados, bisões - totalmente soltos. 
Essas maravilhas naturais atraem quase 3 milhões de pessoas por ano ao Yellowstone, o primeiro parque nacional do mundo, estabelecido em 1872, quando os visitantes ainda chegavam em carruagens. Ao contrário da maioria dos parques, o Yellowstone é vivo, efervescente. Suas atrações não são apenas estáticas, como belas paisagens. Lá é um dos únicos lugares do planeta onde as pessoas podem ver e sentir a ação das forças que trabalham no interior da crosta terrestre.
A idade da Terra é de aproximadamente 4,5 bilhões de anos. As rochas expostas mais antigas no Yellowstone têm até 2,7 bilhões de anos, e as mais recentes estão em plena formação. O parque é um lugar especial porque está muito perto das entranhas escaldantes do planeta, que é coberto por uma crosta sólida de rochas que normalmente tem de 50 a 100 quilômetros. Em Yellowstone, a crosta tem apenas de 5 a 7 quilômetros. Isso porque ali embaixo há um bolsão de magma (rocha fundida), que corroeu a camada inferior da crosta e a esgarçou como uma bolha sob a pele. Essa câmara de magma, num passado remoto, gradualmente acumulou pressão e, há 600 000 anos, causou a maior erupção ocorrida na Terra (foi pelos ares uma área superior a 2 500 quilômetros quadrados, equivalente a 250 000 campos de futebol). As rachaduras - chamadas falhas -resultantes dessa explosão permitem hoje que a água da superfície, proveniente de chuva ou neve derretida, penetre na rocha, aqueça-se e retorne à superfície, em forma de gêiser ou fonte termal (de água quente).
Para existir essa atividade hidrotermal, como o termo já indica, é preciso que haja água e calor. Mas é necessário também que exista um mecanismo que transporte a água à fonte de calor e a traga de volta, numa espécie de sistema de bombeamento. O Yellowstone tem a maior coleção de formações hidrotermais do mundo porque apresenta a melhor combinação desses três fatores. A precipitação anual é de 1 000 milímetros ao ano (nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, por exemplo, chove entre 1 500 e 2 000 milímetros); existe uma grande câmara de magma próxima à superfície para aque-cer as rochas da crosta; as falhas nas rocha são profundas o suficiente para permitir que a água das chuvas ou da neve derretida alcance a fonte de calor; e a pressão provocada pelo calor é grande bastante para forçar a água a retornar à superfície.
Enquanto a temperatura da crosta terrestre aumenta, na maioria das regiões do mundo, cerca de 30°C a cada 1 000 metros de profundidade, na região central do parque, onde ocorrem os fenômenos hidrotermais, o Serviço de Geologia dos Estados Unidos informa que a temperatura aumenta 700°C a cada 1 000 metros para baixo. Mas, dentro da terra, a água sofre tanta pressão das rochas e da água que está sobre ela que alcança temperaturas muito mais elevadas que o ponto de ebulição, sem passar do estado líquido para o gasoso.
Acredita-se que, em algumas áreas do parque, a água penetra nos poros das rochas rápido o suficiente para chegar a profundidades de 3 000 metros ou mais, antes de voltar para cima por convecção (movimento circulatório de qualquer fluido quando há diferença de temperatura). Nessas profundidades, a pressão é muito forte e a água atinge temperaturas elevadíssimas. Assim, quando começa a subir para diminuir a pressão, parte dela se transforma em vapor, o que aumenta seu volume, fazendo com que suba mais rápido do que a convecção sozinha seria capaz de carregá-la. Nesse ponto, o processo se torna irreversível e nada pode deter a água até que emerja na superfície. Análises mostraram que a viagem a partir do solo, por dentro das rochas e de volta à superfície leva cerca de 500 anos.
O jeito e a forma pelos quais a água emerge e flui dependem das falhas. Se a rota for larga e livre de obstáculos, ela surgirá de forma constante, como uma fonte termal. Se isso se der num buraco na superfície, estará formada uma piscina, co-mo a Emerald Pool. Mas, se houver obstáculos no sistema, a água prova-velmente formará um gêiser, pois o vapor criará pressão. O fluxo será intermitente porque, após cada erupção, as cavidades do sistema terão que ser preenchidas antes que nova erupção ocorra.
O gêiser mais famoso, e símbolo do parque, é o Old Faithful. Jorrando água entre 30 e 60 metros de altura (equivalente a um prédio de 20 andares), cada erupção - que ocorre em média em intervalos de 30 a 90 minutos - chega a atrair mais de 2 000 espectadores em volta. Muito apreciado também é o Castle, o mais antigo do parque, cuja erupção ocorre em duas fases: a primeira jorra água durante 30 minutos, que depois se transforma num ruidoso vapor por mais uma hora.
Embora seja proibido chegar muito perto deles, alguns gêisers menores entram em erupção bem ao lado da trilha por onde caminham os visitantes, e o simples fato de ficar observando-os nos momentos que antecedem as erupções, quando expelem alguma fumaça e ouve-se a ebulição a grandes profundidades, é uma experiência emocionante. No Midway Geyser Basin, a área onde se concentram as piscinas e as fumarolas, pelo fato de haver uma cobertura muito frágil de minerais e cristais depositados pelas águas, além de uma lâmina de água muito aquecida, a trilha acaba e caminha-se por extensas passarelas de madeira suspensas alguns centímetros do chão. É um lugar perigoso: algumas pessoas morreram ou ficaram gravemente feridas quando caíram nas esfumaçantes águas que atingem mais de 90°C.
Os padrões das erupções no Yellowstone podem variar de ano para ano, de acordo com as alterações que ocorrem nas rotas de infiltração e circulação da água subterrânea, devido aos terremotos. Tremores de terra são comuns em áreas como o Yellowstone, onde ocorreu vulcanismo recente - ou seja, o material aquecido do interior do planeta moveu-se em direção à superfície. Mas as maiores mudanças hidrotermais que ocorrem no parque são causadas pela própria água, ou o que ela contém.
Superaquecida, a água passa pelas rochas dissolvendo pequenas porções delas, causando alterações graduais nas fraturas subterrâneas. Como uma fração desses sedimentos extravasa e se amontoa pela borda do gêiser, um cone vai se formando gradualmente no topo dos mais persistentes. Ricos num mineral cha--mado geiserita, os gêisers localizados ao longo do Rio Firehole, no oeste do parque, constroem seus cones à velo-cidade média de 2,5 centímetros a cada 100 anos. É a geiserita, um material muito resistente, que proporciona a existência dos gêisers, pois agüenta as explosões de água quente sem se deformar.
Outro lugar do parque onde ocorrem fenômenos parecidos é numa área chamada Mammoth Hot Springs, famosa por seus terraços. Ali a sedimentação é muito mais rápida porque o mineral transportado pela água é outro, o carbonato de cálcio. O subsolo da área possui uma espessa camada de calcário, altamente solúvel em água. O carbonato de cálcio dissolvido do calcário é redepositado na superfície como travertinos (rochas formadas a partir da deposição de minerais dissolvidos nas águas de uma fonte). Isso ocorre de maneira tão rápida que um observador mais atento pode perceber mudanças de uma semana para outra. O volume de calcário transportado para a superfície é tão grande - mais de duas toneladas por dia - que alguns travertinos têm vários metros de espessura, como o Terraço Minerva, o mais conhecido deles. Olhar para o Terraço é como ver o chão de uma caverna a céu aberto, pois pelo mesmo processo a água carregada de minerais constrói as formações rochosas dentro das cavernas. 
Um tipo especial de fonte resulta quando a quantidade de água é limitada. Embora dissolva, altere quimicamente os minerais que estão no subsolo e os carregue para a superfície em solução, ela não é suficiente para espalhá-los. Suspensos pela pequena quantidade de água e vapor que continua borbulhando, os minerais se depositam em pequenas piscinas de lama e argila: são os chamados poços de lama.
As fumarolas - fissuras por onde emergem apenas vapor ou outros ga-ses - são a quarta e última categoria de fenômeno hidrotermal. Elas se desenvolvem quando a água no sistema não tem força suficiente para subir o caminho de volta em forma líquida. Embora haja apenas quatro tipos bá-sicos de formações hidrotermais, o parque oferece uma infinita varieda-- de dentro de cada categoria. Forma--tos, tamanhos, quantidade de fluxo, cores, temperatura - tudo varia. As alterações nos condutos subterrâneos ocorrem tão rapidamente que um lu--gar onde jorra muita água hoje pode, no ano que vem, expelir apenas um filete. Datação com carbono-14 feita no cone do Old Faithful comprovou que o gêiser está ativo há cerca de apenas 300 anos. Daqui a outros tantos, talvez ele não esteja lá.

Entre carros, hotéis e animais

Apesar de receber quase 3 milhões de visitantes por ano, a bordo de 1 milhão de veículos que causam engarrafamentos dentro do parque, a maior parte dos quase 9 000 quilômetros quadrados do Yellowstone nem sequer foi pisada pelo homem. Distante dos principais grandes centros americanos - a pelo menos 2 000 quilômetros de cidades como Los Angeles, Nova York e Chicago, é um local onde só se chega de carro ou em ônibus do pró-prio parque, desestimulante para os mochileiros predadores.
Rota de imigrantes pré-históricos, mais tarde residência dos índios Shoshone, o parque está situado próximo ao paralelo 45, a meio caminho entre a linha do equador e o Pólo Norte. Devido a sua altitude média de 2 500 metros - com alguns picos atingindo mais de 3 300 metros -, o clima no Yellow- stone é caracterizado por longos e rigorosos invernos e um curto e fresco verão, quando a temperatura pode chegar a perto de zero grau durante a noite (mais um motivo do afastamento da horda de civilizados). A vegetação predominante são os bosques de coníferas, embora muitos vales sejam recobertos por gramíneas e arbustos.
Como em todos os grandes parques nacionais americanos, a infra-estrutura é grande. Há três hotéis - um deles, o Old Faithful Inn, é o maior do mundo construído em madeira, com um gigantesco vão de 30 metros. Quatro conjuntos de chalés para aluguel e quatro áreas para camping completam os alojamentos. Além das inevitáveis lojas de souvenirs, há supermercado, restaurantes, posto de gasolina, oficina mecânica e até um hospital. 
Mesmo contando com mais de 1 600 quilômetros de trilhas onde só se entra a pé, são poucos os que se aventuram a percorrê-las. Pode-se dizer que o parque foi projetado para o automóvel: a grande maioria das formações geo-lógicas podem ser alcançadas de carro, com uma pequena caminhada de 100 ou 200 metros a partir do acostamento. Em alguns pontos, como o Firehole Lake Drive, um pequeno circuito de 5 quilômetros em mão única sai da estrada principal, contorna alguns gêisers e volta à estrada.
Também não é preciso andar muito para se admirar, de diferentes pontos, a mais espetacular paisagem do parque: o Grande Canyon do Yellowstone, com seus paredões de até 400 metros de terra alaranjada, tendo ao fundo os 100 metros de queda da Cachoeira Yellow-stone Inferior (lá quase tudo leva o nome do parque). Chega-se bem perto da queda-d´agua tanto por cima como ao pé da cachoeira, dentro do Canyon.
Às vezes nem é preciso descer do carro. Nos 25 quilômetros da estrada que corta o Vale Hayden avistam-se com certa facilidade, principalmente no começo da manhã ou no final da tarde, alces, veados, coiotes e, com um pouco de sorte, ursos. Para frustração de algumas pessoas, avistar um dos mais de 1 000 ursos - eternizados pelo desenho animado do ladrão de comida Zé Colméia - se tornou bem mais difícil de vinte anos para cá, desde que os guardas-parque passaram a multar quem abandona lixo pelo parque (mais de 2 000 toneladas em cada verão).
Dentro do parque, com pouco es-forço, é possível se afastar de qual-quer coisa que lembre a civilização, contemplar uma natureza que tem se mantido inalterada, na sua essência, nesses últimos 8 000 anos, e sentir a emoção de imaginar o deslumbramento do caçador John Colter, em 1807, quando se tornou - acredita-se - o primeiro homem branco a entrar na região do Yellowstone.


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