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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Assim falou Spock - Ficção Cientifica


ASSIM FALOU SPOCK - Ficção Cientifica 


Nenhuma obra de ficção usou, e também abusou, de tantos conceitos científicos como Jornada nas Estrelas. Naves que atravessam o tempo, tripulantes que são teletransportados para lá e para cá, partículas subatômicas, buracos negros, buracos de minhoca, raios phaser e inteligência artificial são algumas das atrações da série. Parte delas foram emprestadas das mais avançadas e fascinantes teorias científicas, como a que fala da possibilidade de se viajar no tempo. Outras foram simplesmente inventadas pelos roteiristas. Invenções que, em alguns casos, tornaram-se depois realidade. É essa magistral união do científico com o imaginário um dos maiores motivos pelos quais a história, criada há trinta anos pelo astrônomo amador Gene Roddenberry, ultrapassou o universo cinematográfico e televisivo para tornar-se um fenômeno popular. Hoje há legiões de seguidores da série, conhecidos como trekkies ou trekkers, espalhados pelo mundo. Entre os fãs das diversas fases - a pioneira Jornada nas Estrelas, A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager - estão alguns dos mais importantes físicos do planeta, como Stephen Hawking, Steven Weinberg e Kip Thorne. 



Por tudo isso foi quase inevitável para o americano Lawrence Krauss lembrar das aventuras de Spock, Kirk e companhia quando resolveu escrever um livro sobre os conceitos da física moderna. "A princípio era apenas uma brincadeira, mas acabei gostando da idéia de juntar a proposta do livro com uma parte da nossa cultura que tanto tem cativado o imaginário popular", disse à SUPER o físico da Case Western University, de Ohio, Estados Unidos. O resultado, criativo e bem-humorado, é A Física de Jornada nas Estrelas (176 páginas, 19 reais), que sai este mês no Brasil pela Makron Books (telefone 011 820 6622). 



Assim nasce um trekker

Para Lawrence Krauss a parte mais difícil da aventura de escrever seu livro foi tornar-se um especialista em Jornada nas Estrelas. "Pouco depois de entregar o primeiro capítulo, recebi um bilhete da filha do editor, que é trekker. Dizia que eu tinha errado o ano da criação dos neutralizadores de inércia, dispositivos usados pela Enterprise para absorver o impacto de acelerações em velocidades próximas à da luz. Depois da repreensão pensei: ‘isso vai ser mais difícil do que imaginei’. Só nos Estados Unidos existem cerca de 20 milhões desses especialistas, que iriam pular no meu pescoço se eu escrevesse alguma besteira."

Mas Krauss venceu o desafio. O livro vem fazendo tanto sucesso que ele já planeja uma continuação. O título, brinca, poderá ser A Física de Star Trek II: A Ira de Krauss, uma referência ao episódio Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan, o segundo do cinema. Mas isso é só um projeto. Por enquanto, ele ainda colhe os elogios, alguns bastante respeitáveis, à primeira etapa de sua jornada. Entre as avaliações positivas estão as do astrofísico da Nasa David Batchelor. Trekker de carteirinha, Batchelor é autor do artigo The Science of Star Trek (a ciência de Jornada nas Estrelas), disponível na Internet (http://www.gsfc.nasa.gov/education/just_for_fun/startrek.html), no qual classifica conceitos e situações vividas em Jornada por ordem de credibilidade científica. Falando à SUPER, Batchelor advertiu que a produção não deve ser confundida com um programa científico, mas lembrou que muitas vezes os roteiristas miraram na ficção e acertaram em cheio na ciência. Stephen Hawking concorda: "A ficção científica de hoje freqüentemente é o fato científico de amanhã. Seguramente vale a pena investigar a física sobre a qual Jornada nas Estrelas se apóia." Foi o que fez Krauss. Audaciosamente indo aonde nenhum físico jamais esteve.




Lógica vulcana

 Difícil imaginar Jornada nas Estrelas sem os extraterrestres. A começar pelo mais famoso de todos, o extremamente racional Spock (foto), originário do planeta fictício Vulcano. Embora dificilmente existam seres parecidos com os vulcanos, klingons ou farengis, a hipótese de haver vida em outros planetas tem o aval de cientistas como o norte-americano Carl Sagan e da Nasa (veja A ordem é contato imediato, ano 10, número 5). Um ponto para a série: Spock usava, para armazenar dados de computador, disquetes parecidos com os atuais. Isso antes desses dispositivos, e mesmo o microcomputador, terem sido inventados.

Fantasia versus realidade

Detector de partículas
Neutrinos são partículas subatômicas de massa nula que se deslocam à velocidade da luz e que, embora invisíveis, estão por toda a galáxia. Existem detectores especiais para essas partículas que são usados pelos físicos no estudo do universo. Mas são instalações enormes. A série antevê um avanço por enquanto inimaginável. Nela os neutrinos podem ser detectados por um simples visor, usado pelo personagem Geordi La Forge (foto) em Jornada nas Estrelas, A Nova Geração, que fornece informações sobre a localização das partículas. 



Estrela Negra

"Enquanto assistia aos episódios, durante a preparação do livro, vi um no qual a Enterprise encontra um buraco negro (foto), chamado pela tripulação de ‘estrela negra’. Fiquei surpreso com o erro", conta Krauss. "Depois é que me dei conta que o episódio foi ao ar no começo de 1967, vários meses antes de o termo buraco negro ter sido criado pelo físico John Archibald Wheeler. Quer dizer: Jornada nas Estrelas não errou, na realidade quase inventou o termo".



Erro e descoberta

Sempre que a Enterprise dispara um phaser, ele é visto pelos espectadores (foto), o que é impossível. "Luz não é visível, a menos que seja refletida em algo", diz Krauss. Quanto à existência do phaser - uma espécie de laser de alta potência criada pela série - já não é mais ficção. Os cientistas americanos Stephen Harris, da Universidade de Stanford, e Marlan Scully, da Universidade A&M do Texas, acabam de anunciar a descoberta de um novo tipo de laser que está sendo chamado de phaser em homenagem à arma de Kirk e seus amigos



Inteligência Artificial

Criar um andróide tão complexo e inteligente quanto o personagem Data (foto), de A Nova Geração, é o objeto de sonho de muitos pesquisadores de inteligência artificial, diz David Batchelor. Para Lawrence Krauss, a capacidade de raciocínio de Data o torna superior, em muitos aspectos, aos seus companheiros humanos. 

Os circuitos cerebrais positrônicos do andróide ganharam tal denominação em homenagem aos circuitos usados pelos robôs dos livros do escritor de ficção científica Isaac Asimov, também um especialista na previsão do futuro tecnológico. 



Bits e átomos

Fetiche número um dos fãs da série, o teletransporte (foto) é considerado impossível por Krauss. Ele faz a seguinte comparação: enquanto a informação contida em todos os livros já escritos não chega a 1012 (1 seguido de 12 zeros), ou cerca de 1 milhão de milhões de quilobytes de espaço para ser armazenado, isso é apenas um décimo de milionésimo de um bilionésimo do espaço que seria preciso para armazenar um ser humano. Além do mais, no caso do homem, são os átomos originais que devem ser reagrupados no final, ou a cada teletransporte seria produzida uma cópia do viajante.


Passeios econômicos

Combustível insuficiente
Se o espaço fosse plano, como queria Newton, as viagens interestelares da Enterprise seriam impossíveis por causa do tempo e combustíveis gastos.



Curvatura do espaço

A teoria da relatividade de Einstein substituiu o espaço plano por um espaço curvo. Esse novo cenário tem quatro dimensões e é difícil de visualizar. Krauss propõe que o substituamos por uma folha de papel dobrada, para melhor compreensão.



Buracos de minhoca

Para ir de um ponto A a um ponto B, do outro lado da galáxia, a Enterprise usa corretamente como atalho um fenômeno físico da curvatura do espaço conhecido por buraco de minhoca (wormhole, em inglês).


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