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terça-feira, 15 de maio de 2018

A Mão e a Luva - Parte 3 de 3 - Machado de Assis


A Mão e a Luva  - Parte 3 de 3 - Machado de Assis



Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daqueles secretos desejos e mais ou menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada ocasião esta para patentear toda a gratidão de que estava possuída e a profunda amizade que a ligava à família da baronesa. Interpôs-se para servir aos outros, e mais ainda a si própria. Viu a dificuldade, mas não desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baronesa. Por isso não hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o, entretanto, -- porque nunca a baronesa dissera que "tal casamento era a sua campanha", e Mrs. Oswald atribuiu-lhe esta frase mortal para todas as esperanças e sonhos da moça. Mas, se falava demasiado ao pé de uma, era muito mais sóbria de palavras com a outra, e da exageração ou da atenuação da verdade resultara aquele perene estado de luta abafada, de receios, de indecisão e de amarguras secretas.

(SEGUE ABAIXO A PARTE FINAL DESTA OBRA)


Convém dizer, para dar o último traço ao perfil, que esta Mrs. Oswald não seguia só a voz do seu interesse pessoal, mas também o impulso do próprio gênio, amigo de pôr à prova a natural sagacidade, de tentar e levar a cabo uma destas operações delicadas e difíceis, de maneira que, se houvesse uma diplomacia doméstica, -- ou se se criassem cargos para ela, Mrs. Oswald podia contar com um lugar de embaixatriz.

Vindo agora à narração dos sucessos da história, cumpre que o leitor saiba que a carta
de Jorge não teve resposta escrita nem verbal. No dia seguinte ao da entrega foi ele jantar a
Botafogo; mas Guiomar não saíra do quarto, a pretexto de uma dor de cabeça; a baronesa
passou o dia com ela; Jorge apenas conseguiu saber, quando de lá saiu, que a moça ia melhor.
Nos subseqüentes dias nenhuma resposta foi às mãos do pretendente, nem ele conseguiu haver
uns cinco minutos de conversa solitária com a moça; Guiomar esquivava-se sempre, com
aquela arte suma da mulher que aborrece, e que é nem mais nem menos igual à da mulher que
ama.
Um dia, porém, não houve meio de fugir; e Jorge, que não tinha nenhuma comoção
na voz, porque não tinha muita no coração, olhou para ela com olhos direitos e francamente lhe
pediu uma palavra de esperança ou de desengano. A moça hesitou alguns segundos; contudo
era preciso responder. Venceu a repugnância dizendo-lhe com um frio sorriso:
-- Nem uma nem outra coisa.
-- Nem desengano? perguntou Jorge alvoroçado.
-- Ninguém pode dar nem uma coisa nem outra, disse ela; costumamos aceitá-las do
nosso destino.
Não era responder, como vê o leitor; Jorge ia pedir uma decisão mais transparente,
mas a moça aproveitara-se da primeira impressão e esquivara-se. Quando ele recobrou a voz
não viu mais que a fímbria do vestido,  que se perdia na volta de uma porta.
Guiomar encurtou as rédeas à familiaridade que existia entre ela e Jorge; mas, se o
tratava com mais reserva, não o fazia com sequidão nem frieza, nem deixava de ser polida e
afável. A dignidade natural que havia em toda a sua pessoa servia-lhe, além disso, como de
uma torre de marfim, onde ela se acastelava e mantinha em respeito o pretendente.
Dos dois homens que lhe queriam, nenhum lhe falava  à alma; ela sentia que Estêvão
pertencia à falange dos tíbios, Jorge à tribo dos incapazes, duas classes de homens que não
tinham com ela nenhuma afinidade eletiva. Não igualava, decerto, os dois pretendentes; um
era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum deles capaz de criar por si só o
seu destino. Se os não igualava, também os não via com os mesmos olhos; Jorge causava-lhe
tédio, era um Diógenes de espécie nova; através da capa rota da sua importância, via-se-lhe
palpitar a triste vulgaridade. Estêvão inspirava-lhe mais algum respeito; era uma alma ardente e
frouxa, nascida para desejar, não para vencer, uma espécie de condor, capaz de fitar o sol, mas
sem asas para voar até lá. O sentimento de Guiomar em relação a Estêvão não podia nunca
chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perdão.
Com outra índole, aspirações diferentes e vivida em diversa esfera, amá-lo-ia com
certeza, do mesmo modo que ele a amava. Mas a natureza e a sociedade deram-se as mãos
para a desviar dos gozos puramente íntimos. Pedia amor, mas não o quisera fruir na vida
obscura; a maior das felicidades da terra seria para ela o máximo dos infortúnios, se lha
pusessem num ermo. Criança, iam-lhe os olhos com as sedas e as jóias das mulheres que via na
chácara contígua ao pobre quintal de sua mãe; moça, iam-lhe do mesmo modo com o
espetáculo brilhante das grandezas sociais. Ela queria um homem que, ao pé de um coração
juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a força bastante para subi-la aonde a vissem
todos os olhos. Voluntariamente, só uma vez aceitara a obscuridade e a mediania; foi quando
se propôs a seguir o ofício de ensinar; mas é preciso dizer que ela contava com a ternura da
baronesa.


XIV EX-ABRUPTO

Já o leitor ficou entendendo que a viagem a Cantagalo era obra quase exclusiva de
Guiomar. A baronesa relutara a princípio, como das outras vezes fizera, e o comendador pouca
esperança tinha já de a ver na fazenda. Mas o voto de Guiomar foi decisivo. Ela  fortaleceu,
com as suas, as razões do comendador, alegando não só a obrigação  em que a madrinha
estava de desempenhar a palavra dada, mas ainda  a  vantagem que lhe podiam trazer aqueles
três meses de vida roceira, longe das agitações da corte; enfim, invocou o seu próprio desejo
de ver uma fazenda e conhecer os hábitos do interior.
Não havia tal desejo, nem coisa que se parecesse com isso; mas Guiomar sabia que na


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balança das resoluções da madrinha era de grande peso a satisfação de um gosto seu. O
sacrifício duraria três ou quatro meses; ela afrontaria, porém, dez ou doze se tantos fossem
necessários, para fugir algum tempo às  pretensões  de Jorge, sem embargo de lhe repugnar
todo o viver que não fosse  a vida fastosa e agitada da corte. Eu, que sou o Plutarco desta
dama ilustre, não deixarei de notar que, neste lance, havia nela um pouco de
Alcibíades, -- aquele gamenho e delicioso homem de Estado, a quem o despeito  também deu
forças  um dia para suportar a frugalidade espartana.
Infelizmente, Jorge reduziu todos esses cálculos a nada. Ela contava com o seu
demasiado apego aos  regalos da corte, não contava com as sugestões de Mrs. Oswald, que
percebera o plano, e torcera a primeira resolução de Jorge, que era ficar e esperar. O sacrifício
da parte dele era compensado pela probabilidade da vitória, a qual não consistia só em haver
por esposa uma moça bela e querida, mas ainda em tornar muito mais sumárias as partilhas do
que a baronesa deixaria por sua morte a ambos. Esta consideração, que não era a principal,
tinha ainda assim seu peso no espírito de Jorge, e, sejamos justos, devia tê-lo: possuir era o seu
único ofício. Assim era que não só a moça deixava de obter um bem, mas caía de um mal em
outro maior; tê-lo ao pé de si, onde as distrações seriam menos prontas e variadas, equivalia a
adoecer de fastio e morrer de inanição.         
Imagine-se por isso em que estado lhe ficou o espírito depois da declaração de Jorge.
Não havia meio de fugir ao pretendente, era preciso tragá-lo. Esta perspectiva abateu-lhe
totalmente o ânimo. Uma confidente, em tais situações, é um presente do céu; mas Guiomar
não a tinha, e se alguma pessoa lhe merecesse tal confiança, é certo ou quase certo que lhe não
diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de seu coração tinham pudor. Espíritos desta
casta ignoram a consolação que há, nas horas de crise, em se repartirem com outro; triste, mas
feliz ignorância que lhes poupa muita vez o contato de uma consciência aleivosa e ruim.
No meio do longo refletir, soaram-lhe na memória as palavras de Luís Alves; ela
ouviu-as de novo, tais quais ele as proferira, desde a frase descortês até à expressão respeitosa.
Uma era o comentário da outra, e ambas podiam explicar-lhe o caráter de Luís Alves, se
tivesse alguns elementos mais para conhecê-lo; em todo caso, era a ponta do véu levantada.
Embora se lhe não pudesse ler no fundo do espírito, via-se desde já qual era o seu método de
ação.
Qualquer outro homem, depois do efeito produzido pela primeira declaração, não se
atreveria ou não lhe importaria tentar mais nada para desfazer o projeto da viagem. Mas o
espírito de Luís Alves tinha a obstinação do dogue. Era-lhe necessário que a família da
baronesa não saísse da corte; este objeto havia de alcançá-lo a todo o transe. Ele espreitava as
ocasiões, aproveitava as circunstâncias, tinha a habilidade de intercalar o pedido em qualquer
retalho de conversação, onde menos apropriado pareceria a qualquer outro. Jorge aplaudia-o
com as forças todas de que podia dispor o seu interesse. A baronesa opunha às sugestões do
advogado a resistência mole e atada de quem deseja aquilo mesmo que recusa.
-- O doutor é terrível, dizia ela. Em se lhe metendo uma coisa na cabeça, ninguém
mais o tira daí.
-- Justamente, é uma idéia fixa. Sem idéia fixa não se faz nada bom neste mundo.
Guiomar sustentava a resolução da madrinha, posto não o fizesse a miúdo, nem no
mesmo tom seco e imperioso da primeira noite. Seu impulso era ser coerente; ao mesmo tempo
não queria parecer aos olhos de Luís Alves que lhe aceitava o concurso para obter o que aliás
desejava de todo o coração; seria lavá-lo da primeira culpa.
O argumento que mais influía no ânimo de todos, o que devera ter afastado a idéia
de semelhante viagem, era o perigo de afrontar o cólera morbo que por aquele tempo percorria
alguns pontos do interior. Um dia de manhã soube-se que em Cantagalo havia aparecido o
terrível inimigo. Desta vez Luís Alves triunfou sem dizer palavra; a baronesa recuou diante
daquele fato brutal.


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A viagem desfez-se pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs. Oswald, que
receava muito da mocidade casadeira da corte, e dos belos olhos castanhos de Guiomar. Mrs.
Oswald temia ver surgir a cada passo um novo inimigo emboscado em algum teatro ou baile,
ou quando menos na rua do Ouvidor, e não via que o inimigo novo podia ser que estivesse
literalmente ao pé da porta. A sagacidade da inglesa desta vez foi um tanto míope. A razão é
que Luís Alves, em todos aqueles seus preliminares, houve-se com habilidade; longe de
procurar a moça, parecia nada haver alterado nos seus sentimentos, nem desejar mudar a
espécie de relações que até ali mantinha. Guiomar, entretanto, não podia deixar de comparar
aquela espécie de atenciosa indiferença que havia dele para ela, com as palavras que
anteriormente lhe ouvira, e o resultado da comparação não lhe parecia muito claro.
Na noite do mesmo dia em que ficou assentado diferir a viagem para melhores
tempos, achavam-se em casa da baronesa algumas pessoas de fora; Guiomar, sentada ao piano,
acabava de tocar, a pedido da madrinha, um trecho de ópera da moda.
-- Muito obrigada, disse ela a Luís Alves que se aproximara para dirigir-lhe um
cumprimento. Está alegre! Parece que é a satisfação de me haver malogrado o maior desejo
que eu tinha nesta ocasião.
-- Não fui eu, disse ele, foi a epidemia.
-- Sua aliada, parece.
-- Tudo é aliado do homem que sabe querer, respondeu o advogado dando a esta
frase um tanto enfática o maior tom de simplicidade que lhe podia sair dos lábios.
Guiomar curvou a cabeça e esteve alguns instantes a perpassar os dedos pelas teclas,
enquanto Luís Alves, tirando de cima do piano outra música, dizia-lhe:
-- Podia dar-nos este pedaço de Bellini, se quisesse.
Guiomar pegou maquinalmente na música e abriu-a na estante.
-- Era então vontade sua? perguntou ela continuando o assunto interrompido do
diálogo.
-- Vontade certamente, porque era necessidade.
-- Necessidade, -- tornou ela começando a tocar, menos por tocar que por encobrir a
voz; mas necessidade por quê?
-- Por uma razão muito simples, porque a amo.
A música estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da moça, nem a
surpresa das outras pessoas perturbou o advogado; Luís Alves inclinou-se para o mocho, como
a consertá-lo, e voltando-se para Guiomar, disse-lhe graciosamente:
-- Pode sentar-se agora; está seguro.
Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o coração como nunca lhe
batera em nenhuma outra ocasião da vida, nem de susto, nem de cólera, nem... de amor, ia eu a
dizer, sem que ela o houvesse sentido jamais. Não se demorou muito tempo ali; com a mão
trêmula folheou a música que estava aberta na estante, deixou-a logo e levantou-se.
Nestes derradeiros movimentos ninguém reparou; e se alguém pudesse reparar em
alguma coisa, a moça tomara a peito desvanecer todas as suspeitas. A primeira impressão fora
profunda, mas Guiomar tinha força bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no
coração.
O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pôde entregar-se a si
mesma, isso ninguém soube, a não serem as paredes mudas do quarto, ou o raio de lua coado
pelo tecido raro das cortinas das janelas, como a espreitar aquela alma faminta de luz. Soube-o,
talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe refletiu o rosto desfeito e os olhos
quebrados. Se foi a meditação noturna que os amoleceu e apagou, não o perguntou ele,
naturalmente porque o sabia; mas talvez advertiu consigo que se eram assim mais belos,
pediam outro rosto em que caíssem melhor. O de Guiomar queria-os como eles eram, severos,
firmes e brilhantes.


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A baronesa também não deixou de ver que a afilhada não acordara com o mesmo ar
do costume; achou-a taciturna e distraída.
-- Eu, madrinha? perguntou Guiomar simulando um sorriso de admiração.
-- Será engano de meus olhos.
-- Não é outra coisa; estou como sempre, como ontem, como amanhã. Passei a noite
um pouco mal, é verdade; mas o que tive desapareceu inteiramente. A prova...
Guiomar parou neste ponto, chegou-se à madrinha e deu-lhe um beijo.
-- A prova, continuou ela, é que ainda hoje me acha bonita, não é?
-- Criança! respondeu a baronesa, dando-lhe uma pancadinha na face.
A tranqüilidade da moça era simulada; apenas a madrinha voltou as costas,
cobriu-se-lhe o rosto com o mesmo véu. Ela aprendera desde criança a disfarçar as suas
preocupações.
Quanto a Luís Alves, posto houvesse contado com o seu método cru e abrupto, saiu
dali sem plena certeza do resultado. Esta incerteza abalou-o mais do que ele supunha; e foi,
sem dúvida, a primeira ocasião em que sentiu que a amava deveras, ainda que o seu amor fosse
como ele mesmo: plácido e senhor de si. No dia seguinte, Estêvão interrogou-o a respeito de
Guiomar.
-- Creio, disse ele depois de refletir alguns instantes, -- creio que por ora não deves
perder as esperanças todas.

XV EMBARGOS DE  TERCEIRO

Durante três dias deixou Luís Alves de ir à casa da baronesa, estando aliás a morrer
por isso. Entrava porém no plano esta ausência; era das instruções que ele mesmo dera ao seu
coração; não havia remédio senão observá-las.
No quarto dia recebeu um bilhete da baronesa que o cumprimentava pela eleição. A
mala do Norte chegara, e com ela a notícia da vitória eleitoral. Estava Luís Alves deputado; ia
enfim dar a sua demão no fabrico das leis. Estêvão foi o primeiro que o felicitou; era o antigo
companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que os outros devia aplaudir aquela
boa fortuna. Não lhe escondeu, entretanto, a inveja que ela lhe metia:
-- Deputado! suspirou ele. Oh! eu também podia ser deputado.
Estêvão dizia isto, como a criança deseja o dixe que vê no colo de outra
criança, -- nada mais. Eram os seus sonhos de outrora, que renasciam tais quais eram,
inconsistentes, vagos, prestes a dissiparem-se com o primeiro raio da manhã.
Luís Alves apressou-se a ir agradecer à baronesa a felicitação. Guiomar teve um leve
estremecimento quando o viu, mas recebeu-o tranqüila e risonha, quase indiferente. O
advogado era hábil; não a perseguiu com os olhos; sobre acordar a atenção das demais pessoas,
era seguir o método comum. Ele não queria parecer-se com os outros.
Guiomar, entretanto, observava-o a espaços, de revés, como a querer surpreendê-lo; a
pouco e pouco, porém, o seu olhar foi sendo mais direito e firme. O de Luís Alves era natural e
igual como antes era, como era ainda agora com todos.
Ao sair, junto à porta de uma sala, onde acaso a topou, Luís Alves teve ocasião de
lhe dizer esta simples palavra:
-- Perdoou-me?
A moça retirou a mão, que ele tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao mesmo tempo
que lhe caíam as pálpebras.
-- Perdoou-me? repetiu ele.
Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Luís Alves esperou que ela desaparecesse e
saiu. A moça, entretanto, ficou irritada por nada lhe ter respondido, sendo verdade que nada
achou nem acharia talvez que lhe responder; mas arrependeu-se e pensou longo tempo naquilo.


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Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso. A arraiada branqueava
o céu, tingiria depois o cimo dos montes, entornar-se-ia enfim pela encosta abaixo, até aparecer
o sol, -- o sol contemporâneo de Adão, e do último homem que há de vir.
Dali a dias, entrando Luís Alves em casa da baronesa, teve a boa fortuna de
encontrar a moça sozinha, na sala do trabalho, donde a baronesa se ausentara cinco minutos
antes. Mrs. Oswald achava-se fora. Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se no
seio da noite.
Guiomar, molemente sentada numa cadeira baixa, tinha um livro aberto sobre os
joelhos e os olhos no ar. Luís Alves surpreendeu-a nessa atitude meditativa, mais bela do que
nunca, porque assim, e àquela hora, e com o vestido meio escuro que lhe realçava a cor de leite
da face, tinha um quê de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia buscado de
propósito para recebê-lo.
-- Minha madrinha já vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender a mão, que ele
apertou e sentiu um pouco trêmula.
-- Talvez daqui a cinco minutos, disse ele; é bastante para decidir o meu destino.
Duas vezes lhe perguntei se me perdoara; pela terceira lhe peço que me responda; custa pouco
uma única palavra; custa menos ainda, um único gesto.
A moça olhou algum tempo para o livro que tinha diante de si. A manhã, porém, era
já alta no coração de Guiomar, a claridade intensa, o sol quente e vivo, porque ela não olhou
muito tempo para o livro, nem hesitou mais do que era natural e exigível naquela ocasião. Dois
minutos depois fez o gesto, um gesto só, mas ainda mais eloqüente do que se ela
falasse, -- estendeu-lhe a mão.
Luís Alves apertou-lha entre as suas.
A comoção era natural em ambos; ali estiveram alguns instantes calados, ele com os
olhos fitos nela, ela com os seus no chão. As mãos tocavam-se e os corações palpitavam
uníssonos. Decorreram assim cinco breves minutos. Ela foi a primeira que rompeu o silêncio.
-- Um gesto, um só gesto, e é o meu destino que lhe entrego com ele, disse Guiomar
olhando em cheio para o moço.
-- Ainda não. Se os nossos destinos se ligarem, estou convencido de que o meu amor,
pelo menos, terá a virtude de a tornar feliz. Mas nada está feito ainda, e se eu fui breve e
apressado na confissão, não o desejo ser na consagração que lhe peço.
Luís Alves calara-se; a moça olhava para ele como buscando entendê-lo.
-- Sim, continuou ele; melhor é que não ceda a um instante de entusiasmo. Minha
vida é sua; todo o meu destino está nas suas mãos... Contudo, não quero surpreender-lhe o
coração neste momento; no dia em que me julgar verdadeiramente digno de ser seu esposo,
ouvi-la-ei e segui-la-ei.
A resposta da moça foi apertar-lhe as mãos, sorrir, e embeber os seus olhos nos dele.
O passo da baronesa interrompeu esta contemplação.
Guiomar amava deveras. Mas até que ponto era involuntário aquele sentimento?
Era-o até o ponto de lhe não desbotar à nossa heroína a castidade do coração, de lhe não
diminuirmos a força de suas faculdades afetivas. Até aí só; daí por diante entrava a fria eleição
do espírito. Eu não a quero dar como uma alma que a paixão desatina e cega, nem fazê-la
morrer de um amor silencioso e tímido. Nada disso era, nem faria. Sua natureza exigia e amava
essas flores do coração, mas não havia esperar que as fosse colher em sítios agrestes e nus, nem
nos ramos do arbusto modesto plantado em frente de janela rústica. Ela queria-as belas e
viçosas, mas em vaso de Sèvres, posto sobre móvel raro, entre duas janelas urbanas,
flanqueado o dito vaso e as ditas flores pelas cortinas de caxemira, que deviam arrastar as
pontas na alcatifa do chão.
Podia dar-lhe Luís Alves este gênero de amor? Podia; ela sentiu que podia. As duas
ambições tinham-se adivinhado, desde que a intimidade as reuniu. O proceder de Luís Alves,


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sóbrio, direto, resoluto, sem desfalecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber à moça que
ele nascera para vencer, e que a sua ambição tinha verdadeiramente asas, ao mesmo tempo que
as tinha ou parecia tê-las o coração. Demais, o primeiro passo do homem público estava dado;
ele ia entrar em cheio na estrada que leva os fortes à glória. Em torno dele ia fazer-se aquela
luz, que era a ambição da moça, a atmosfera que ela almejava respirar. Estêvão dera-lhe a vida
sentimental, -- Jorge a vida vegetativa; em Luís Alves via ela combinadas as afeições
domésticas com o ruído exterior.
Uma vez entendidos, é difícil que dois corações se encubram, pelo menos aos olhos
mais sagazes. Os de Mrs. Oswald eram dos mais finos. A inglesa percebeu dentro de pouco
tempo que entre eles havia alguma coisa. Interrogar a moça era inútil, sobre perigoso; seria ir,
de coração leve, em busca de ódio, talvez. Todavia se ainda fosse possível salvar tudo?
Guiomar resistiria dificilmente a um desejo da madrinha; era possível vencê-la por esse lado.
Mrs. Oswald concebeu então um projeto insensato, que lhe pareceu aliás excelente e
de bom aviso. O desejo de servir a baronesa e levar uma idéia ao fim tapou-lhe os olhos da
razão. Ela foi diretamente a Jorge.
-- Sabe o que me está parecendo? disse ela. Parece-me que há mouro na costa.
-- Mouro na costa! exclamou Jorge com uma tal expressão de desgosto, que era fácil
compreender o fundo de suspeita já existente em seu espírito.
-- Nada menos, disse a inglesa; mas um mouro que se pode capturar.
E a inglesa expôs um plano completo que o sobrinho da baronesa ouviu um tanto
perplexo. O plano consistia em ir Jorge pedir a moça à baronesa, em presença dela própria. A
baronesa, que nutria o desejo de os ver casados, não deixaria de fazer pesar o seu voto na
balança, e era muito difícil que a gratidão de Guiomar não decidisse em favor de Jorge.
-- A gratidão... e o interesse, continuou ela. Devemos contar também com o interesse,
que é um grande conselheiro íntimo. Ela não há de querer sacrificar a afeição da madrinha, que
para ela vale...
-- Oh! que triste lembrança! interrompeu Jorge, recuando diante da idéia de Mrs.
Oswald.
A inglesa sorriu, -- e deixou por mão aquele argumento; firmou-se porém no da
afeição. Guiomar não se oporia a um desejo da madrinha; era urgente dar-lhe o golpe. Jorge
não se atrevia a surpreender por esse meio a aquiescência da moça; mas acreditava na eficácia
dele, e sobretudo receava perder a causa. Uma vez que a vencesse, tudo podia confiar do
tempo e do seu amor.
O conselho foi seguido pontualmente. De noite, em presença da baronesa à hora da
despedida, -- porque ele hesitara a maior parte do tempo, -- praticou Jorge aquele ato insensato
de declarar à moça que a amava e de lhe pedir a mão. A tia sorriu de contentamento, mas teve
a prudência de não proferir nada enquanto Guiomar, empalidecendo, nada dizia, porque nada
achava que dizer.
O silêncio durou cerca de três ou quatro minutos, um silêncio acanhado e vexado, em
que nenhum deles se atrevia a reatar a conversação. A baronesa, pela sua parte, imaginava que
os dois estavam enfim entendidos, e que a declaração era autorizada pela moça. O enleio de
Guiomar não era dos que pudessem dar cabimento a esta suposição; mas a boa senhora via
com os olhos dos seus bons desejos.
-- Pela minha parte, declarou enfim a baronesa, não me oponho; estimaria muito que
acabassem por aí. Mas é negócio do coração; devo esperar a resposta de Guiomar.
E voltando-se para a afilhada:
-- Pensa e resolve, minha filha, disse ela; e se fores feliz, sê-lo-ei ainda mais do que
tu.
Duas vezes pairou a negativa nos lábios da moça; mas a língua não se atrevia a repetir
a palavra do coração. No fim de alguns instantes:


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-- Refletirei, respondeu ela beijando a mão à madrinha; e continuou voltando-se para
Jorge: -- Boa noite! Até amanhã.


XVI A CONFISSÃO

Na mesma noite em que Jorge, cedendo às sugestões de Mrs. Oswald, tentava o
último recurso que no entender da inglesa havia, achava-se Luís Alves em casa, comodamente
sentado numa poltrona de couro, defronte da janela com os olhos no mar e o pensamento nas
suas duas candidaturas vencidas. Meia-noite estava a pingar; uma pessoa descia de um tílburi e
batia-lhe à porta.
Era Estêvão.
Luís Alves naturalmente admirou-se de o ver ali àquela hora; mas Estêvão
explicou-lhe tudo.
-- Venho passar meia hora contigo, ou a noite toda se quiseres. Estava em casa
aborrecido, a pensar... bem sabes em quê...
-- Nela? interrompeu Luís Alves.
-- Agora e sempre.
Luís Alves torceu o bigode e olhou três ou quatro vezes para o colega, enquanto este
tirava o chapéu e dispunha-se a ir buscar uma cadeira para sentar-se ao pé do outro.
-- Estêvão, disse Luís Alves depois de alguns instantes de reflexão, e voltando a
poltrona para dentro, ouve-me primeiro e resolverás depois se ficas a noite ou se te vais embora
imediatamente. Talvez escolhas este último alvitre.
-- Vais falar-me de Guiomar?
-- Justamente.
Estêvão sentou-se defronte de Luís Alves. Seu coração batia apressado; dissera-se
que toda a sua vida pendia dos lábios do amigo. Houve um instante de silêncio.
-- Nenhuma... nenhuma esperança então? murmurou Estêvão.
-- Disseste a fatal palavra! exclamou Luís Alves. Sim, não tens nenhuma esperança.
-- Mas... como sabes?
-- Não me interrogues; eu não poderia dizer-te tudo o que há. Poupa-me, ao menos,
esse triste dever.
Estêvão sentiu arrasarem-se-lhe os olhos d'água. Quis falar, mas as palavras iam-lhe
saindo envoltas em soluços.
Luís Alves fumava tranqüilamente, acompanhando com os olhos os rolinhos de fumo
que lhe fugiam da ponta do charuto. Este silêncio durou cerca de dez minutos. O mar batia
compassadamente na praia. A voz da onda e o latido de um cão ao longe eram os únicos sons
que vinham quebrar a mudez daquela hora solene para um desses dois homens que ia perder
até o repouso da esperança.
Estêvão foi o primeiro que falou:
-- Ama a outro, não é? perguntou ele com a voz trêmula.
-- Ama, respondeu surdamente Luís Alves.
Estêvão ergueu-se e deu alguns passos na sala, sem dizer palavra, a morder a ponta
do bigode, parando às vezes, outras traduzindo com um gesto desordenado os sentimentos
que lhe tumultuavam no coração. A dor devia ser grande, mas a manifestação já não era a
mesma que o leitor lhe viu, dois anos antes, quando ele foi confiar ao amigo o primeiro
desengano de Guiomar.
-- Parece-me que eu adivinhava isto mesmo, disse ele, enfim, parando em frente de
Luís Alves. Este desejo que me acometeu de vir aqui, a esta hora, sem certeza de encontrar-te,
era mais um benefício do meu destino. Devia esperá-lo. Que vida tem sido a minha, Luís!


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Agarrei-me, nem sei por quê, à esperança de ser amado por ela, de a vencer pela piedade, ou
pelo remorso, ou por qualquer outro motivo que fosse, -- o motivo importava pouco... O
essencial é que ela me pagasse em ternura e amor todas as dores que curti, as lágrimas todas
que tenho devorado em silêncio... E era só essa esperança que ainda me dava forças... que me
fazia crer feliz, como pode sê-lo um desgraçado, como podia sê-lo eu, que nasci debaixo de
ruim estrela... Oh! se tu souberas... Não, não sabes, nem ela também, ninguém sabe nem saberá
nunca tudo quanto tenho padecido, tudo quanto...
Interrompeu-se. Duas lágrimas, espremidas do fundo do coração, saltaram-lhe dos
olhos e desceram-lhe rápidas a perder-se entre os cabelos raros e finos da barba. Ele sentiu que
outras podiam vir, e foi sentar-se num sofá, meio voltado de costas para Luís Alves. As outras
vieram, porque o coração ainda as tinha para as dores supremas; mas correram-lhe silenciosas,
sem um soluço, sem uma queixa única.
Luís Alves levantara-se e chegara à janela. Seu espírito, apesar de frio e quieto,
parecia agora um pouco alvoroçado. Não era dor; e não sei se lhe podia chamar remorso.
Mal-estar apenas, e comiseração. O coração era capaz de afeições; mas, como ficou dito no
primeiro capítulo, ele sabia regê-las, moderá-las e guiá-las ao seu próprio interesse. Não era
corrupto nem perverso; também não se pode dizer que fosse dedicado nem cavalheiresco; era,
ao cabo de tudo, um homem friamente ambicioso.
Estêvão levantara-se outra vez e pegara no chapéu.
-- Vem cá, disse Luís Alves entrando e indo ter com ele; vejo que estás mais homem
do que antes. Resta que o sejas completamente; varre da memória e do coração tudo o que
possa referir-se...
-- Que remédio! interrompeu Estêvão sorrindo amargamente; que remédio tenho eu
senão esquecê-la! Mas quando?
-- Mais breve talvez do que supões...
Luís Alves não acabou; Estêvão olhara para ele com um gesto de espanto e fora
sentar-se outra vez.
-- Mais breve do que suponho! exclamou ele. Tu não tens coração: não tens sequer
observação nem memória. Não vês, não sentes que esta paixão é o sangue do meu sangue, a
vida da minha vida? Esquecê-la! Era bom se eu a pudesse esquecer; mas a minha má sina até
essa esperança me arranca, porque este padecer íntimo, constante, há de ir comigo até à     
morte...
Desta vez era Luís Alves que passeava de um lado para outro. Em seu espírito
despontava uma idéia, que ele examinava, a ver se a poria ali mesmo em execução. Era
dizer-lhe tudo. Estêvão viria a sabê-lo mais tarde; melhor era que o soubesse logo e por ele. Ao
mesmo tempo refletia na exaltação dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se lhe
agravaria, em sabendo que era ele o preferido de Guiomar. O coração, que perdoaria a um
estranho, condenaria ao amigo.
Estêvão, assentado, com os olhos no teto, parecia entregue às suas reflexões, mas só
parecia, porque ele não pensava, evocava antigas memórias, fazia surgir diante de seus olhos a
figura gentil de Guiomar, sentia-lhe o império dos belos olhos castanhos, ouvia-lhe a palavra
doce e aveludada entornar-se-lhe no coração, Não evocava só, criava também, pintava com a
imaginação a felicidade que lhe poderia dar a moça, se entre todos os homens o escolhera, se
eles dois vinculassem os seus destinos. Ele via-a ao pé de si, cingia-lhe o braço em volta da
cintura, enchia-lhe de beijos os cabelos, tudo isto em meio de uma paisagem única na terra,
porque a abundância da natureza cresceria ao contato daquele sentimento puro, casto e eterno.
Não falo eu, leitor; transcrevo apenas e fielmente as imaginações do namorado; fixo nesta
folha de papel os vôos que ele abria por esse espaço fora, única ventura que lhe era permitida.
No meio dessas visões foi acordá-lo Luís Alves.
-- Tens razão de sentir, disse este; mas não gastes o coração, que há maiores surpresas


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na vida... Em todo caso, deixa-me dizer-te que nenhuma razão tens de censura...
-- Censuro eu alguém?
-- Há no amor um gérmen de ódio que pode vir a desenvolver-se depois. Talvez
chegues a acusá-la de te não querer; nesse dia reflete que os movimentos do coração não estão
nas mãos da vontade. Ela não tem culpa se outro lhe despertou o amor.
-- Ah! incumbiu-te da defesa!
Luís Alves sorriu; ele contava com a recriminação.
-- Não, não me incumbiu da defesa, disse ele; sou eu que a tomo por minhas mãos.
Que defendo eu aqui senão a natureza, a razão, a lógica dos sentimentos, dura e inflexível
como toda a outra lógica? Há no fundo das tuas palavras um sentimento de egoísmo...
-- O amor não é outra coisa, respondeu Estêvão sorrindo por sua vez. Queres que
inda em cima lhe agradeça este desespero? Queres que vá apertar a mão ao homem que a
soube vencer?
Luís Alves mordeu a ponta do lábio e acercou-se da janela. Quando ia a voltar para
dentro ouviu um rumor na janela ao pé, a primeira da casa da baronesa. Luís Alves deu um
passo mais. Não viu ninguém; viu apenas o resto de um vestido que fugia e um objeto que lhe
caía aos pés. Inclinou-se a apanhá-lo. Era uma grande folha de papel envolvendo, para lhe dar
mais peso, outra folha pequena dobrada em quatro. Luís Alves aproximou-se da luz, e leu
rapidamente o que ali vinha escrito. Leu, meteu o papel na algibeira e encaminhou-se
disfarçadamente para a janela. Ninguém; a casa da baronesa dormia.
Quando voltou para dentro, Estêvão tinha-se levantado. Ele vira cair o papel,
apanhá-lo e lê-lo Luís Alves. Não entendeu nada do que se passara; mas seu olhar como que
pedia uma explicação.
Luís Alves foi direito ao fim.
-- Estêvão, disse ele, vais saber a verdade toda; não poderia ocultar-te o que se há
passado, nem conviria talvez que tu a soubesses por boca de outro. Guiomar podia amar-te,
eras digno dela, e ela digna de ti; mas a natureza não os fez um para o outro. São duas almas
excelentes que seriam infelizes unidas. Quem há aqui que censurar? Mas se a natureza explica
o sentimento dela, igualmente explica o de um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e
as esperanças de teu coração; era conhecer toda a minha amizade e a profunda estima que
sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu contávamos comigo; porque também eu tenho
coração, e os prestígios da beleza também falam à minha alma. Não a pude ver a frio. A paixão
obscureceu-me. Nesta minha felicidade de amar e ser amado, acredita que sou alguma coisa
infeliz, porque há lágrimas tuas, há o teu padecer longo e cruel, que eu imagino e deploro. A
confissão é franca; não te falo em arrependimento, porque são atos do coração e não da
consciência, que essa é pura e honrada. E depois desta exposição fiel, cuido que lastimarás
comigo o encontro em que o acaso ou a má sorte nos reuniu a todos três; mas não me acusarás
nem me recusaras a tua velha estima. Falo só da estima; a amizade, creio que não poderá ser a
mesma. Mas prezarás o meu caráter. Pela minha parte, nem uma nem outra coisa perece; sei o
que vales. Não sei aonde nos lançará a onda do destino amanhã. Pela última vez, porém,
espero que apertarás a mão do teu amigo.
Luís Alves concluíra estendendo-lhe a mão. Estêvão olhou para ele, mas não disse
uma só palavra, não fez um gesto único: caminhou para a porta e saiu.
-- Estêvão! gritou Luís Alves.
Mas só lhe respondeu o rumor dos pés que desciam, e pouco depois o do tílburi que
rolava surdamente na terra úmida da praia.
Luís Alves levantou secamente os ombros; chegou-se à luz e releu o escrito.


XVII A CARTA


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Não era preciso reler o papel para entendê-lo; mas olhos amantes deliciam-se com
letras namoradas. O papel continha uma palavra única: -- Peça-me, -- escrita no centro da
folha, com uma letra fina, elegante, feminina. Luís Alves olhou algum tempo para o bilhete,
primeiramente como namorado, depois como simples observador. A letra não era trêmula, mas
parecia ter sido lançada ao papel em hora de comoção.
Desta observação passou Luís Alves a uma reflexão muito natural. Aquele bilhete,
pouco conveniente em quaisquer outras circunstâncias, estava justificado pela declaração que
ele próprio fizera à moça alguns dias antes, quando lhe pediu que o conhecesse primeiro, e que
no dia em que o julgasse digno de o tomar por esposo, ele a ouviria e acompanharia. Mas se
isto era assim em relação ao bilhete, não o era em relação à hora. Que motivo obrigaria a moça
a deitar-lhe da janela, à meia-noite, aquele papel decisivo, eloqüente na mesma sobriedade com
que o escrevera?
Luís Alves concluiu que havia alguma razão urgente, e portanto, que era preciso
acudir à situação com os meios da situação. Quanto à razão em si, não a pôde descobrir.
Ocorreu-lhe o fato, aliás patente, da corte que o sobrinho da baronesa fazia a Guiomar, mas
ignorava as circunstâncias que lhe eram relativas, e não pôde passar além.
Não direi que Luís Alves gastasse a noite a cavar fundo no terreno das  conjecturas
vagas. Não era homem  que perdesse tempo em coisas inúteis; e nada mais inútil naquela
ocasião do que tentar explicar o que nenhuma explicação podia ter para ele. O que resolveu foi
obedecer ao recado da moça; pedi-la  sem hesitação nem preâmbulo.  Mas se o caso lhe não
produziu insônia, não deixou  de lhe estender a vigília, além da hora usual, como era  de jeito
naquela ocasião solene, sobretudo, tratando-se de criatura que por aqueles tempos era a inveja
e a cobiça de muitos olhos. Luís Alves não era,  como Estêvão, um adorável cismador, não se
nutria de imaginações e devaneios, alimento que funde pouco ou nada, mas cismou algum
tempo, embebeu-se uma hora na contemplação ideal da mulher que ele soubera escolher. O
sono chegou, e o devaneio confundiu-se com o sonho.
Guiomar dormiria tão repousadamente como ele? Dormia; a noite, porém, fora-lhe
muito mais agitada e amarga, como era natural depois da declaração de Jorge e das
insinuações da madrinha.
A moça recolhera-se ao quarto, logo depois da declaração. As pessoas da casa nada
puderam ler-lhe no rosto, salvo a palidez repentina e o rubor que se lhe seguiu; mas, logo que
ela se achou só, deu toda a expansão aos sentimentos que até ali pudera conter.
O primeiro deles era o despeito; Guiomar sentia-se humilhada com aquela declaração,
assim feita, de emboscada e sobressalto, para arrancar-se-lhe um consentimento que o coração
e a índole repeliam. Nenhuma consulta, nenhuma autorização prévia; parecia-lhe que a
tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade nem eleição própria, destinado a
satisfazer caprichos alheios. As palavras da madrinha desmentiam esta suposição; mas, a
notícia que ela tinha da resolução da baronesa, neste negócio, diminuía muito o valor de tais
palavras. Se era uma campanha, como dissera Mrs. Oswald, queriam constrangê-la com
aparências de moderação, e o tempo que lhe deixavam para refletir era-o realmente para
considerar, sozinha consigo, na necessidade de pagar os benefícios que recebera.
Não a acusem de ter feito estas reflexões, logo que entrou no quarto, com os olhos
cintilantes e os lábios frios de cólera. Eram naturais; primeiramente porque supunha que o seu
casamento com Jorge estava deliberado e se realizaria, quaisquer que fossem as circunstâncias;
depois, porque a alma dela era melindrosa; não esquecia os benefícios recebidos, mas quisera
que lhos não lembrassem por meio de uma violência: fazê-lo, era o mesmo que lançar-lhos em
rosto.
-- Não! murmurara enfim a moça, forçar-me, reduzir-me à condição de simples serva,
nunca.


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Mas esta cólera apaziguou-se, e o coração venceu o coração. Guiomar recordou a
constante ternura da baronesa para com ela, a solicitude com que lhe satisfazia os seus menores
desejos, que eram ali ordens, e não combinava tamanho amor com a suposta violência que lhe
queria fazer. Não tardou em arrepender-se das palavras incoerentes que lhe haviam fugido, e
dos sentimentos maus que atribuíra ao coração da baronesa. Cruzou as mãos no peito e ergueu
o pensamento ao céu, corno a pedir-lhe perdão. Guiomar, em meio das seduções da vida, que
tantas eram para ela e de todo lhe levavam os olhos, não perdera o sentimento religioso, nem
esquecera o que Lhe havia ensinado a fé ingênua e pura de sua mãe.
A cólera acabara, mas veio depois a luta entre a gratidão e o amor, -- entre o noivo
que lhe propunha a afeição da madrinha e o que o seu próprio coração escolhera. Ela nem
ousava tirar as esperanças à baronesa, nem imolar as suas próprias, -- e uma de duas coisas era
preciso que fizesse naquela solene ocasião. O que sentiu e pensou foi longo e cruel; mas se tal
duelo podia travar-se-lhe na alma, não era duvidoso o resultado. O resultado devia ser um. A
vontade e a ambição, quando verdadeiramente dominam, podem lutar com outros
sentimentos, mas hão de sempre vencer, porque elas são as armas do forte, e a vitória é dos
fortes. Guiomar tinha de decidir por um dos dois homens que lhe propunha o seu destino;
elegeu o que lhe falava ao coração.
A resposta, porém, não podia a moça demorá-la nem esquivá-la, não convinha,
talvez, prolongar a luta e a dúvida. Quando isto pensou, veio-lhe ao espírito uma idéia
decisiva, a de confessar tudo à madrinha. Hesitou, porém, entre fazê-lo ela própria ou por boca
de Luís Alves, cujas palavras, apontadas acima, trazia escritas na memória. Preferia este meio;
mas não lhe bastava preferi-lo, era mister realizá-lo, e para isso só dois modos tinha,
escrever-lhe ou falar-lhe. O segundo podia não ser tão pronto, e talvez falhasse ocasião
apropriada; adotou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada por um fâmulo, mas o
espírito de Guiomar era a tal ponto sobre si que repeliu semelhante intervenção. A janela
estava aberta; dali viu luz na sala de Luís Alves e a sombra do moço, que passeava de um lado
para outro. Ocorreu-lhe então a idéia que pôs por obra, conforme ficou dito no capítulo
anterior.
Tal é a história daquela palavra escrita rapidamente numa folha de papel. Apesar da
declaração de Luís Alves e das circunstâncias em que a moça se achou, o leitor facilmente
compreenderá que ela não a escreveu sem pelejar consigo mesma, sem vacilar muito entre a
repugnância e a necessidade. Afinal foram vencidos os escrúpulos, que é tanta vez o seu
destino deles, e força é dizer que não os vencem nunca de graça, porque eles falam, arrazoam,
obstam o mais que podem, mas é vulgar passarem-lhes por cima. A moça entretanto, apenas
lançara a carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a consciência quase a acusava de
uma ação vil. Era tarde, a carta chegara a seu destino.
Na manhã seguinte, a baronesa acordou mais alegre que de costume. Cuidara ver em
Guiomar, na noite anterior, alguma coisa que só lhe pareceu enleio natural da situação.
Guiomar erguera-se tarde; a manhã estava chuvosa e a madrinha não deu o seu passeio. A
moça foi beijar-lhe a mão e a face, como costumava, e receber dela o ósculo materno. O rosto
parecia cansado mas um véu de afetada alegria disfarçava-lhe a expressão natural, à
semelhança das posturas de toucador, de maneira que a baronesa, pouco ledora de fisionomias,
não discerniu naquela a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo entender-se que é
honesta e reta, porque a intenção da moça não era mais do que não amargurar a madrinha, e
tirar-lhe motivo a qualquer aflição antecipada.
-- Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald, pondo-lhe
familiarmente as mãos nos ombros.
-- A sua rainha de Inglaterra não tem coroa, respondeu Guiomar com um sorriso
contrafeito.
Pela volta do meio-dia, recebeu a baronesa uma carta de Luís Alves. Abriu-a e leu-a.


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O advogado pedia-lhe a mão de Guiomar. Poucas linhas, corteses, símplices, naturais, feitas
por quem parecia senhor da situação.
-- Mrs, Oswald, disse a baronesa à sua dama de companhia que se achava na mesma
sala, leia isto.
A inglesa obedeceu.
-- Isto não quer dizer nada, observou ela depois de alguns instantes. É um
pretendente mais; devemos crer, porém, que são muitos, e que se os outros não lhe escrevem
cartas destas, é porque são menos afoitos. A senhora baronesa pensa que os olhos de sua
afilhada são inocentes? continuou a inglesa sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados de
crimes,
e que há mortos...
-- Mas não vê, Mrs. Oswald, interrompeu a baronesa, que esse homem parece estar
autorizado?
Mrs. Oswald calou-se como quem refletia. Logo depois expôs uma série de
argumentos e considerações, se não graves em substância, pelo menos nas roupas com que ela
os vestia, umas roupas seriamente britânicas, como as não talharia melhor a melhor tesoura da
Câmara dos Comuns". Toda ela dava ares de um argumento vivo e sem réplica. Havia em seus
cabelos, entre louro e branco, toda a rigidez de um silogismo; cada narina parecia uma ponta
de um dilema. A conclusão de tudo é que nada estava perdido, e que a felicidade de Jorge era
coisa não só possível, mas até provável, uma vez que a baronesa mostrasse, -- era o
essencial, -- certa resolução de ânimo muito útil e até indispensável naquela ocasião. Mrs.
Oswald oferecia-se para ir chamar a moça imediatamente.
-- Pois vá, vá, disse a baronesa.
A inglesa saiu dali e foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe compôs um sorriso,
e Guiomar, vendo-a sorrir, sentiu como que um movimento interno de repulsa.
-- Venho buscá-la, disse Mrs. Oswald, para uma coisa que a senhora está longe de
imaginar.
Guiomar interrogou-a com os olhos.
-- Para casar! exclamou Guiomar sem compreender a intenção da mensageira.
-- Nada menos, respondeu esta. Admira-se, não? Também eu; e sua madrinha
igualmente. Mas há quem tenha o mau gosto de apaixonar-se por seus belos olhos, e a afronta
de a vir pedir, como se se pedissem as estrelas do céu...
Guiomar compreendeu de que se tratava. Olhou desdenhosamente para a inglesa, e
disse em tom seco e breve:
-- Mas, conclua, Mrs. Oswald.
-- A senhora baronesa manda chamá-la.
Guiomar dispôs-se a ir ter com a madrinha; Mrs. Oswald fê-la parar um instante, e
com a mais melíflua voz que possuía na escala da garganta, disse:
-- Toda a felicidade desta casa está em suas mãos.


XVIII A ESCOLA

Mrs. Oswald tinha falado demais. A baronesa não a incumbira de dizer à afilhada a
razão por que a mandava chamar. Aconteceu, porém, que aquela indiscrição não foi a única.
Mrs. Oswald, em vez de esquivar-se e deixar que entre Guiomar e a baronesa fosse tratado o
assunto que as ia reunir, cedeu à curiosidade, e acompanhou a moça.
A baronesa estava sentada, entre duas janelas, com a carta aberta nas mãos, tão
atenta em relê-la, que não ouviu o rumor dos pés de Guiomar e de Mrs. Oswald.
-- Madrinha chamou-me? perguntou Guiomar parando em frente dela.


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A baronesa ergueu a cabeça.
-- Ah! É verdade; sim; chamei-te. Senta-te aqui.
Guiomar arrastou a cadeira que ficava mais próxima e sentou-se ao pé da baronesa.
Esta, entretanto, havia dobrado lentamente a carta, e tinha os olhos no chão, como a procurar
por onde começaria. Quando os levantou deu com a inglesa. Ia já a falar, mas estacou. A
afeição que lhe tinha não impediu que achasse demasiada familiaridade a presença de Mrs.
Oswald em semelhante ocasião. Esperou alguns instantes; mas como a  inglesa parecesse
inteiramente distraída:
-- Mrs. Oswald, disse a baronesa, vá ver se já deram de comer aos passarinhos.
A inglesa percebeu que estes passarinhos, naquele caso, eram uma pura metáfora, e
que a baronesa nada mais fazia do que pedir-lhe delicadamente que se fosse embora. Todavia,
não se deu por achada.
-- Parece-me que não, disse ela; vou já saber disso.
-- Olhe, disse a baronesa quando ela já ia a meio caminho; encoste-me essas portas, e
dê ordem para que ninguém nos interrompa.
A inglesa obedeceu e saiu. A careta que fez ao sair ninguém lha pôde ver, e não se
perdeu nada.
As duas ficaram sós.
-- Senta-te aqui, Guiomar, disse a baronesa indicando um banquinho que lhe ficava
aos pés.
Guiomar deixou a cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando amorosamente os
braços nos joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a cabeça com as mãos, e assim esteve longo
tempo sem falar, mas eloqüente naquela mudez, em que a palavra pertencia ao coração. Ambas
estavam comovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou este único e doce
nome:
-- Mamãe!
Era a primeira vez que ela lhe dava este nome, e tão fundo lhe calou na alma à
baronesa que a resposta foi cobri-la de beijos.
-- Sim, tua mãe, disse a madrinha; a que te deu o ser não te amaria mais do que eu.
Tens a alma e a ternura da filha que o céu me levou, e se todas as mães que perdem filhos
pudessem substituí-los do mesmo modo, desaparecia do mundo a maior e mais cruel dor que
há nele...
A resposta de Guiomar foi apertar-lhe as mãos e beijar-lhas. Seguiu-se uma pausa, em
que a comoção a pouco e pouco desapareceu, e a baronesa olhou para a carta de Luís Alves,
amarrotada pelo gesto de Guiomar.
-- Guiomar, disse ela enfim, já refletiste no pedido de ontem à noite?
A moça esperava que a madrinha lhe falasse no pedido de Luís Alves; a pergunta da
baronesa desnorteou-a um pouco. Sua inteligência, porém, era clara e sagaz; a resposta foi
outra pergunta:
-- Uma noite será bastante para decidir de todo o resto da vida? disse ela sorrindo.
-- Tens razão, minha filha; mas a pergunta era natural da parte de quem quer ver
realizado um desejo. Jorge pediu-te em casamento. Sabes que é um excelente caráter?
-- Excelente, respondeu a moça.
-- Uma boa alma, continuou a baronesa, e um moço distinto. Parece gostar muito de
ti, segundo disse ontem, não? É natural; só me admira que não te amem muitos mais.
A baronesa parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se atrever a
levantar os olhos.
-- Deves saber, continuou a baronesa, -- que eu estimaria ver que este casamento se
efetuasse; estou convencida de que te faria feliz, e a ele também, pelo menos tanto quanto é
possível julgar das coisas presentes... Que diz o teu coração?


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E como Guiomar não respondesse logo:
-- Ah! esquecia-me do que me disseste há pouco. Uma noite não é bastante para
decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-ás mais duas coisas. A primeira é que... Lê tu
mesma esta carta.
A baronesa deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Luís Alves fazia de
sua mão. Enquanto ela percorria com os olhos as poucas linhas escritas, a madrinha parecia
observá-la fixamente, como a tentar ler-lhe no rosto a impressão que o pedido lhe fazia, se
espanto, se satisfação. Não houve espanto nem satisfação aparente; Guiomar leu a carta e
entregou-a à madrinha.
-- Leste? É a primeira coisa que eu queria dizer-te. O Dr. Luís Alves pede-te em
casamento; tens de escolher entre ele e Jorge. A segunda coisa é que dos dois pretendentes
Jorge é o que meu coração prefere; mas não sou eu que me caso, és tu; escolhe com plena
liberdade aquele que te falar ao coração.
Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com tais sinais de
espanto no rosto, que esta não pôde deixar de lhe perguntar:
-- Que tens?
A moça não respondeu; quero dizer não lhe respondeu com os lábios; travou-lhe da
mão e apertou-a entre as suas, e ficou a olhar para ela como a refletir. A expressão de seu rosto
passara do espanto à satisfação e desta a uma coisa que parecia a um tempo indignação e asco.
-- Oh! madrinha! exclamou Guiomar, por que se não entenderam logo os nossos
corações? Não havia mister pôr de permeio um espírito importuno e desconsolador. Se eu
adivinhara essas palavras que acabou de dizer, não teria padecido metade do que me fazem
padecer há longos dias...
-- Padecer?
-- Padecer; nada menos. Mas deixemos isso. Foi o seu coração que falou e o meu que
ouviu; posso agora dizer-lhe francamente o que sinto, sem receio de a afligir.
Não precisava dizer mais nada; a escolha que ela ia fazer estava já indicada pelo
menos. Entendeu-o a baronesa, que fechou o rosto e suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro,
e percebeu a tristeza súbita; arrependeu-se de ter ido tão longe.
-- Percebo, respondeu a baronesa, queres dizer que dos dois pretendentes escolhes o
Dr. Luís Alves?
A moça conservou-se calada; a madrinha olhava para ela com uma expressão de
ansiedade que a afligiu.
-- Fala, repetiu a baronesa.
-- Escolho... o Sr. Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes.
A baronesa estremeceu.
-- Falas sério? Não creio; não e esse o sentimento do teu coração. Vê-se que não é.
Queres iludir-me e a ti também. Percebo que o não amas; não o amaste nunca. Mas amas ao
outro, não é? Que tem isso? Não me dá o prazer que eu teria se... Que importa, se fores feliz?
A tua felicidade está acima das minhas preferências. Era um sonho meu; desejava-o com todas
as forças; faria o que pudesse para alcançá-lo; mas não se violenta o coração, -- um coração,
sobretudo, como o teu! Escolhes o outro? Pois casarás com ele.
Vê o leitor que a palavra esperada, a palavra que a moça sentia vir-lhe do coração aos
lábios e querer rompê-los, não foi ela quem a proferiu, foi a madrinha; e se leu atento o que
precede verá que era isso mesmo o que ela desejava. Mas por que o nome de Jorge lhe roçou os
lábios? A moça não queria iludir a baronesa, mas traduzir-lhe infielmente a voz de seu coração,
para que a madrinha conferisse, por si mesma, a tradução com o original. Havia nisto um
pouco de meio indireto, de tática, de afetação, estou quase a dizer de hipocrisia, se não
tomassem à má parte o vocábulo. Havia, mas isto mesmo lhes dirá que esta Guiomar, sem
perder as excelências de seu coração, era do barro comum de que Deus fez a nossa pouco


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sincera humanidade; e lhes dirá também que, apesar de seus verdes anos, ela compreendia já
que as aparências de um sacrifício valem mais, muita vez, do que o próprio sacrifício.
A baronesa acabara de falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou a sua primeira
impressão, e se a escolha era contrária ao que ela desejava, a satisfação da afilhada pagou-lhe
tudo quanto ela ia perder. Era assim aquela alma de mãe; boa, dedicada e generosa.
-- Oh! madrinha! obrigada! exclamou a moça. Não me fica odiando?
-- Oh! exclamou a baronesa com um tom de repreensão.
E puxou-a para si, e abraçou-a com amor. Guiomar correspondeu ao movimento, e as
duas confundiram as suas alegrias íntimas e afeições sinceras.
Mrs. Oswald viu-as daí a pouco, risonhas e entendidas. Era fácil concluir qual dos
dois pretendentes vencera; Guiomar não receberia de tão boa cara o sobrinho da baronesa.
Tudo estava acabado; e talvez que a sua própria pessoa padecera naquele lance último. A
baronesa pedira a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos aludira, mas a moça preferiu
não dizer nada, não só por não afligir a madrinha, como por não dar um aspecto de rivalidade
à situação entre ela e Mrs. Oswald.
A escolha estava feita, o consentimento dado. A baronesa respondeu nessa mesma
tarde ao pretendente feliz. Estêvão teria manifestado ruidosamente toda a alegria que
semelhante resposta lhe causara; sua alma apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos
homens aquela imensa fortuna. Luís Alves encerrou o prazer, aliás grande, dentro de si; pensou
na moça e no futuro alguns instantes, mas não falou deles a ninguém.
A baronesa escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, comunicando-lhe a resposta de
Guiomar. Os leitores não terão dificuldade de admitir que o coração de Jorge não sentiu o
golpe profundamente, mas sentiu alguma coisa. Não foi nessa noite à casa da tia; não foi
também na segunda; na terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou para Botafogo.
-- Tudo está acabado, disse-lhe a tia verdadeiramente sentida.
-- Acabado! suspirou Jorge.
-- Agora, é preciso ânimo; espero que serás homem.
-- Oh! serei homem! suspirou outra vez Jorge.
E dois suspiros, arrancados do peito de um homem tão grave, deviam ser por força
dois suspiros gravíssimos, como facilmente acredita o leitor.
Efetivamente a fisionomia do moço não tinha abatimento nem aflição; não a
amarrotava o menor vestígio de noite maldormida, menos ainda de lágrimas enxutas. Alegre
não era, mas grave e austera, como ele a trazia sempre, a contrastar com o retesado do bigode.
A baronesa imaginou contudo que a dor do sobrinho devia tê-lo mortificado muito;
apertou-lhe as mãos com ternura e disse-lhe ainda algumas palavras de animação.
Imagine-se o que seria o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A moça estava
serena, talvez risonha e até compassiva. Se tivesse de casar com ele odiara-o decerto; agora já
lhe perdoava o amor. Jorge pela sua parte não deixou de ficar um tanto abalado, em parte
comoção, em parte constrangimento, sendo porém o constrangimento maior do que a
comoção. Nos lábios pairou-lhe um desses sorrisos em que o olhar penetrante do povo ou a sua
imaginação pinturesca descobriu a cor amarela. Se outro fosse o aspecto, é provável que ela lhe
conservasse, ao menos, o respeito. Mas aquele sorriso perdeu-o de todo no ânimo de Guiomar.
Na primeira ocasião que se lhe ofereceu, expandiu-se Jorge com Mrs. Oswald.
-- Perdeu-se tudo... murmurou ele.
A inglesa não respondeu.
Jorge continuou ainda a falar, e a inglesa a ouvir, mas a ouvir só, e a querer diverti-lo
daquele assunto.
-- Tudo se perdeu, disse enfim o sobrinho da baronesa, talvez por culpa sua.
-- Minha? perguntou Mrs. Oswald.
-- Sua.


[Linha 2600 de 2741 - Parte 3 de 3]


-- Mas...
Jorge hesitou um instante.
-- Não mostrou calor suficiente, disse ele enfim.
-- Que quer? disse Mrs. Oswald. O coração não se pode dominar, nem ha meio de
impor-lhe um sentimento. D. Guiomar é uma santa criatura, ama deveras ao seu rival; há nada
mais justo do que casá-los?
-- De maneira que...
-- De maneira que tudo era lícito fazer na suposição de que ela não amava a outro,
mas uma vez que ama...
Luís Alves, na noite do dia em que recebeu a carta, foi à casa da baronesa, que o
recebeu com o melhor de seus sorrisos. A felicidade de Guiomar fazia-a completamente feliz;
nem iras, nem ressentimentos, como anunciara Mrs. Oswald. Todo o castelo de cartas caíra por
terra, desde que a sinceridade da baronesa interveio.

XIX CONCLUSÃO

Marcado o casamento para dois meses depois, todo o tempo de intervalo foi
despendido pelos noivos naquele deleitoso viver, que já não é o colóquio furtivo do simples
namoro, nem é ainda a intimidade conjugal, mas um estado intermédio e consentido, em que
os corações podem entornar-se livremente um no outro. Aqueles não tinham nada do amor
extático e romanesco de Estêvão, mas amavam sinceramente, ela ainda mais do que ele, e tão
feliz um como outro.
A gente que os conhecia comentou de todos os modos e feitios aquele caso
inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o céu tratara a Luís Alves. A
gentileza e a elegância da moça não encontravam objeção no espírito de ninguém; todos as
confessavam e aplaudiam, porque até o silêncio mortificado de algumas belezas rivais, se
porventura as havia, -- era também aplauso e do melhor. Quanto ao caráter de Guiomar,
divergiam muito as apreciações; e um dia, em que Luís Alves lhe contava uns trechos de
conversa ouvidos a furto, e de que era objeto a noiva, ela pareceu refletir longo tempo, e enfim
respondeu:
-- Não admira que haja tanta opinião diferente; é natural, porque nunca vulgarizei o
meu espírito. Entretanto, a opinião dos outros importa-me pouco; eu quisera saber a sua.
-- A minha é que é um anjo.
Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem não esperava aquele
cumprimento velho e comum, aliás eternamente novo, -- porque não há outro mais pronto e
mais belo nas nossas línguas cristãs. O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia
dizer-lhe alguma coisa, -- aquilo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu num dos capítulos
anteriores.
-- Se não sabe o que sou, -- continuou Guiomar, -- eu mesma o direi, para que se não
case comigo assim de emboscada, e não lhe aconteça unir-se a um demônio, supondo que é um
anjo...
-- Um demônio! exclamou Luís Alves rindo.
-- Nem mais nem menos, retrucou ela rindo também. Saiba pois que sou muito
senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero que me adivinhem e
obedeçam; sou também um pouco altiva, às vezes caprichosa, e por cima de tudo isto tenho
um coração exigente. Veja se é possível encontrar tanto defeito junto.
Luís Alves respondeu que eram tudo qualidades excelentes, e esteve quase a dizer
que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a fundamental de todas; preferiu aludir a ela
depois do casamento.
O casamento efetuou-se, no dia marcado, com as solenidades do estilo. A manhã


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daquele dia trajava um manto de neblina cerrada, que o nosso inverno lhe pôs aos ombros,
como para resguardá-la do rigor benigno da temperatura, manto que ela sacudiu dali a nada, a
fim de se mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manhã fluminense. Não tardou que  o sol
batesse de chapa nas águas tranqüilas e azuis, e nessas colinas onde o verde natural ia
alternado com a alvura das habitações humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e
fresca, que parecia o último respirar da noite já remota, e que só a trechos agitava as folhas do
arvoredo.
A chácara naquele dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar achou-lhe um
aspecto novo e melhor, uma como expansão divina que animava as coisas em redor dela. Toda
alma feliz é panteísta; parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do
fundo da água que serpeia murmurando, e até de envolta com o cipó humilde e rústico, ou no
seixo bronco e desprezado do chão. Era assim a alma de Guiomar naquela manhã. Nunca as
árvores, as flores, a grama rasteira lhe pareceram mais vicejantes; o sentimento interno hauria
aquela vida exterior, do mesmo modo que o pulmão bebia o puro ar matinal.
De envolta com essas sensações comuns a toda a alma, havia ainda as que eram
dela, -- dela, que via ali o seu último sol de moça solteira e contemplava por antecipação a
aurora nova, o dia longo e feliz de suas férvidas ambições. Neste ponto despia a sua fantasia
as asas de folha agreste, com que andara a pairar no meio daquela vegetação, para envergar
outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sítios de grandeza humana.
O acaso quis que naquela manhã vestisse o mesmo roupão com que Estêvão a vira do
outro lado da cerca, e trouxesse no colo e nos pulsos o mesmo broche e os mesmos botões de
safira. Não tinha o livro; mas, em falta desta circunstância, havia outra, que era a mesma
daquela célebre manhã, havia uns olhos que do outro lado da cerca a espreitavam namorados.
Não eram, porém, os mesmos; eram os do noivo, com quem ela foi encontrar os seus;  -- e o
mais doloroso de tudo é que nem a cerca, nem os demais acessórios, nada lhe lembrou o outro
homem que morria por ela. A felicidade é isto mesmo; raro lhe sobra memória para as dores
alheias.
Não menos alegre do que ela parecia a  baronesa naquele dia. De longe em longe
surgia-lhe na memória a idéia do sobrinho, mas já não havia tristeza de não ter efetuado o
casamento, como desejara; tão leve foi o golpe em Jorge e tão indiferente andava ele, que a
boa senhora compreendeu que o amor, se existira, não era grande, e sobretudo não perdurou; a
idéia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis semanas de casado, fê-la dar
graças a Deus do nenhum êxito de seus planos.
Mrs. Oswald igualmente se mostrava feliz, -- talvez ainda mais, porque era-o
aparatosamente, como se quisesse resgatar as passadas culpas. Guiomar entendia a intenção
latente das manifestações ruidosas com que ela andava a felicitá-la e bajulá-la; mas o dia não
era de rancores nem de ressentimentos, e ela recebia sorrindo as cortesanices da inglesa.
O casamento fez-se, enfim. As lágrimas que a baronesa derramou, quando viu
Guiomar ligada para sempre, foram as mais belas jóias que lhe podia dar. Nenhuma mãe as
verteu mais sinceras; e, seja dito em honra de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro
do coração.
Na  noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco distante dos
grupos de curiosos, atraídos pela festa de uma casa grande e rica, um vulto de homem sentado
sobre uma lájea que acaso topara ali, Quem está afeito a ler romances, e leu esta narrativa
desde o começo, supõe logo que esse homem podia ser Estêvão. Era ele. Talvez o leitor, em
lance idêntico, fosse refugiar-se em sítio tão remoto, que mal pudesse acompanhá-lo a
lembrança do passado. A alma de Estêvão sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de
revolver o ferro na ferida, uma  coisa  a que chamaremos -- voluptuosidade da dor, em falta
de melhor denominação. E foi para ali, contemplar com os indiferentes e ociosos aquela casa
onde reinava o gozo e a vida, e naquela hora que lhe afundava o passado e o futuro de que


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vivera. Não o retinha a constância do estóico; pela face emagrecida e pálida lhe corriam as
lágrimas derradeiras, e o coração, colhendo as forças que lhe restavam, batia-lhe forte na arca
do peito.
Defronte dele refulgia de todas as suas luzes a  mansão afortunada; detrás batia a
onda lenta e melancólica, e via-se o fundo da  enseada, escuro e triste. Esta disposição do
lugar servia ao plano que ele concebera,  e era nada menos do que matar-se ali mesmo, quando
já não pudesse  sofrer a dor, espécie de vingança última  que queria tomar dos que o faziam
padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um remorso.
Mas este plano não podia realizar-se, pela razão de que era mais um  devaneio, que
se lhe dissipou como os outros. A frouxidão do ânimo negou-lhe essa última ambição. Os
olhos podiam fitar a morte, como podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de
caminhar a ela. Esteve ali, pois, até o fim; e em vez de mergulhar na água e no nada, como
delineara, regressou tristemente para casa, trôpego como um ébrio, deixando ali a sua
mocidade toda, porque a que levava era uma coisa descolorida e seca, estéril e morta. Os anos
passaram depois, e à medida que vinham, ia-se Estêvão afundando no mar vasto e escuro da
multidão anônima. O nome, que não passara da lembrança dos amigos, aí mesmo morreu,
quando a fortuna o distanciou deles. Se ele ainda vegeta em algum recanto da capital, ou se
acabou em alguma vila do interior, ignora-se.
O destino não devia mentir nem mentiu à ambição de Luís Alves.Guiomar acertara;
era aquele o homem forte. Um mês depois de casados, como eles estivessem a conversar do
que conversam os recém-casados, que é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do
namoro, Guiomar confessou ao marido que naquela ocasião lhe conhecera todo o poder da sua
vontade.
-- Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luís Alves, que, assentado, a
escutava.
-- Resoluto e ambicioso, ampliou Luís Alves sorrindo; você deve ter percebido que
sou uma e outra coisa.
-- A ambição não é defeito.
-- Pelo contrario, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de fazê-la vingar. Não me
fio só na mocidade e na força moral; fio-me também em você, que há de ser para mim uma
força nova.
-- Oh! sim! exclamou Guiomar.
E com um modo gracioso continuou:
-- Mas que me dá você em paga? um lugar na câmara? uma pasta de ministro?
-- O lustre do meu nome, respondeu ele.
Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas, deixou-se cair
lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o ósculo fraternal.
Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão.



Final de "A Mão e a Luva"
XXXXXXXXXXXXXXX



A Mão e a Luva  - Parte 1 de 3 - Machado de Assis


A Mão e a Luva  - Parte 2 de 3 - Machado de Assis


A Mão e a Luva  - Parte 3 de 3 - Machado de Assis



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