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terça-feira, 15 de maio de 2018

A Mão e a Luva - Parte 1 de 3 - Machado de Assis


A Mão e a Luva  - Parte 1 de 3 - Machado de Assis


Machado de Assis
A Mão e a Luva

A Mão e a Luva é o segundo romance escrito por Machado de Assis, publicado em 1874, sua primeira experiência como folhetinista de jornal, seguindo o exemplo de seus amigos Manuel Antônio de Almeida e José de Alencar. Publicado em 20 folhetins, com o subtítulo "Um perfil de mulher", nos rodapés de O Globo, jornal dirigido por Quintino Bocaiúva, entre 26 de setembro e 3 de novembro (não diariamente).

"A mão e a luva" se trate de uma "história de amor" — de uma mulher de personalidade forte, Guiomar,assediada por três pretendentes a marido — enquadrada na fase "romântica" do autor, em vez dos recursos clássicos do romantismo — enredos rocambolescos, plenos de coincidências, reviravoltas, surpresas, suspenses — Machado, como já ocorrera no romance de estreia, Ressurreição, prefere um texto contido, minimalista em termos de trama, de análise psicológica, mas com uma elegância estilística que continuaria aperfeiçoando até atingir seus píncaros na chamada "fase realista". A história transcorre em Botafogo, então um simples arrabalde (o que hoje chamaríamos de subúrbio) repleto de aprazíveis chácaras.

(SEGUE ABAIXO ESTA OBRA COMPLETA DIVIDIDA EM 3 PARTES)


O FIM DA CARTA

-- Mas que pretendes fazer agora?
-- Morrer.
-- Morrer? Que idéia! Deixa-te disso, Estêvão. Não se morre por tão pouco...
-- Morre-se. Quem não padece estas dores não as pode avaliar. O golpe foi profundo, 
e o meu coração é pusilânime; por mais aborrecível que pareça a idéia da morte, pior, muito 
pior do que ela, é a de viver. Ah! tu não sabes o que isto é?
-- Sei: um namoro gorado...
-- Luís!
-- ... E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já diminuído 
muito o gênero humano, e Malthus perderia o latim. Anda, sobe.
Estêvão meteu a mão nos cabelos com um gesto de angústia; Luís Alves sacudiu a 
cabeça e sorriu. Achavam-se os dois no corredor da casa de Luís Alves, à rua da 
Constituição, -- que então se chamava dos Ciganos; -- então, isto é, em 1853, uma bagatela de 
vinte anos que lá vão, levando talvez consigo as ilusões do leitor, e deixando-lhe em troca 
(usurários!) uma triste, crua e desconsolada experiência.
Eram nove horas da noite; Luís Alves recolhia-se para casa, justamente na ocasião em 
que Estêvão o ia procurar; encontraram-se à porta. Ali mesmo lhe confiou Estêvão tudo o que 
havia, e que o leitor saberá daqui a pouco, caso não aborreça estas historias de amor, velhas 
como Adão, e eternas como o céu. Os dois amigos demoraram-se ainda algum tempo no 
corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar que queria ir morrer, tão 
tenazes ambos, que não haveria meio de os vencer, se a Luís não ocorresse uma transação.
-- Pois sim, disse ele, convenho em que deves morrer, mas há de ser amanhã. Cede 

da 
tua parte, e vem passar a noite comigo. Nestas últimas horas que tens de viver na terra 
dar-me-ás uma lição de amor, que eu te pagarei com outra de filosofia.
Dizendo isto, Luís Alves travou do braço de Estêvão, que não resistiu dessa vez, ou 
porque a idéia da morte não se lhe houvesse entranhado deveras no cérebro, ou porque 

cedesse 
ao doloroso gosto de falar da mulher amada, ou, o que é mais provável, por esses dois motivos 
juntos. Vamos nós com eles, escada acima, até a sala de visitas, onde Luís foi beijar a mão de 
sua mãe.
-- Mamãe, disse ele, há de fazer-me o favor de mandar o chá ao meu quarto; o 
Estêvão passa a noite comigo.
Estêvão murmurou algumas palavras, a que tentou dar um ar de gracejo, mas que 
eram fúnebres como um cipreste. Luís viu-lhe então, à luz das estearinas, alguma vermelhidão 
nos olhos, e adivinhou, -- não era difícil, -- que houvesse chorado. Pobre rapaz! suspirou ele 
mentalmente. Dali foram os dois para o quarto, que era uma vasta sala, com três camas, 
cadeiras de todos os feitios, duas estantes com livros e uma secretária, -- vindo a ser ao mesmo 
tempo, alcova e gabinete de estudo.
O chá subiu daí a pouco. Estêvão, a muito rogo do hóspede, bebeu dois goles; 
acendeu um cigarro e entrou a passear ao longo do aposento, enquanto Luís Alves, preferindo 


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um charuto e um sofá, acendeu o primeiro e estirou-se no segundo, cruzando beatificamente as 
mãos sobre o ventre e contemplando o bico das chinelas, com aquela placidez de um homem a 
quem se não gorou nenhum namoro. O silêncio não era completo; ouvia-se o rodar de carros 
que passavam fora; no aposento, porém, o único rumor era dos botins de Estêvão na palhinha 
do chão.
Cursavam estes dois moços a academia de S. Paulo, estando Luís Alves no quarto 
ano e Estêvão no terceiro. Conheceram-se na academia, e ficaram amigos íntimos, tanto 
quanto podiam sê-lo dois espíritos diferentes, ou talvez por isso mesmo que o eram. Estêvão, 
dotado de extrema sensibilidade, e não menor fraqueza de ânimo, afetuoso e bom, não 
daquela bondade varonil, que é apanágio de uma alma forte, mas dessa outra bondade mole e 
de cera, que vai à mercê de todas as circunstâncias, tinha, além de tudo isso, o infortúnio de 
trazer ainda sobre o nariz os óculos cor-de-rosa de suas virginais ilusões. Luís Alves via bem 
com os olhos da cara. Não era mau rapaz, mas tinha o seu grão de egoísmo, e se não era 
incapaz de afeições, sabia regê-las, moderá-las, e sobretudo guiá-las ao seu próprio interesse. 
Entre estes dois homens travara-se amizade íntima, nascida para um na simpatia, para outro no 
costume. Eram eles os naturais confidentes um do outro, com a diferença que Luís Alves dava 
menos do que recebia, e, ainda assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiança.
Estêvão referira ao amigo, desde tempos, toda a história do amor, agora malogrado, 
suas esperanças, desalentos e glórias, e, enfim, o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que 
folheava o capítulo mais delicioso do romance -- no sentir dele -- caiu de toda a altura das 
ilusões na mais dura, prosaica e miserável realidade.
A namorada de Estêvão, -- é tempo de dizer alguma coisa dela, -- era uma moça de 
dezessete anos, e, por ora, simples aluna-professora no colégio de uma tia do nosso estudante, 
à rua dos Inválidos. Estêvão tinha-a visto, pela primeira vez, seis meses antes, e desde logo 
sentiu-se preso por ela, "até à morte", disse ele ao amigo, referindo-lhe o encontro, o que o fez 
sorrir de tão estirado prazo. Qualquer que ele fosse, porém, o prazo fatal daquele cativeiro, a 
verdade é que Estêvão no mesmo ponto em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira 
vez na vida -- amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ela? Estêvão 
dizia que sim, e devia crê-lo; alguns olhares ternos, meia dúzia de apertos de mão 
significativos, embora a largos intervalos, davam a entender que o coração de 
Guiomar -- chamava-se Guiomar -- não era surdo à paixão do acadêmico. Mas, fora disso, 
nada mais, ou pouco mais.
O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original frescura, mas já 
murcha e sem cheiro, e não dada, senão pedida.
-- Faz-me um favor? disse um dia Estêvão apontando para a flor que ela trazia nos 
cabelos; esta flor está murcha, e, naturalmente, vai deitá-la fora ao despentear-se; eu desejava 
que ma desse.
Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabelo, e deu-lha; Estêvão recebeu-a com igual 
contentamento ao que teria se lhe antecipassem o seu quinhão do céu. Além da flor, e para 
suprir as cartas, que não havia, nada mais obtivera Estêvão durante aqueles seis compridos 
meses, a não serem os tais olhares, que afinal são olhares, e vão-se com os olhos donde 

vieram. 
Era aquilo amor, capricho, passatempo ou que outra coisa era?
Naquela tarde, a tarde fatal, estando ambos a sós, o que era raro e difícil, disse-lhe 
ele que em breve ia voltar para S. Paulo, levando consigo a imagem dela, e pedindo-lhe em 
câmbio, que uma vez ao menos lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou nele o seu 
magnífico par de olhos castanhos, com tanta irritação e dignidade, que o pobre rapaz ficou 
atônito e perplexo. Imagina-se a angústia dele diante do silêncio que reinou entre ambos por 
alguns segundos; o que se não imagina é a dor que o prostrou, -- a dor e o espanto, -- quando 
ela, erguendo-se da cadeira em que estava, lhe respondeu, saindo:
-- Esqueça-se disso.


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-- Pois quanto a mim, -- disse Luís Alves ouvindo pela terceira vez a narração de tão 
cru desenlace; quanto a mim, obedecia-lhe pontualmente; esquecia-me disso e ia curar-me em 
cima dos compêndios; Direito Romano e Filosofia, não conheço remédio melhor para tais 
achaques.
Estêvão não ouvia as palavras do amigo; estava então assentado na cama, com os 
cotovelos fincados nas pernas, e a cabeça metida nas mãos, parecendo que chorava. A 
principio chorou em silêncio; mas não tardou que Luís Alves o visse deitar-se na cama, 
estorcer-se convulsivamente, a soluçar, a abafar quanto podia os gritos que lhe saíam do peito, 
a puxar os cabelos, a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de Guiomar, tão d'alma 
tudo aquilo, tão lastimosamente natural, que enfim o comoveu, e não houve remédio senão 
dizer-lhe algumas palavras de conforto. A consolação veio a tempo; a dor, chegada ao 
paroxismo, declinou pouco a pouco, e as lágrimas estancaram, ao menos por algum tempo.
-- Sei que tudo isto há de parecer-te ridículo, disse Estêvão sentando-se na cama; mas 
que queres tu? Eu vivia na persuasão de que era amado, e era-o talvez. Por isso mesmo não 
entendo o que se passou hoje, Ou o que eu supunha ser amor, não passava talvez de 
passatempo ou zombaria...
-- Talvez, talvez, interrompeu Luís Alves, compreendendo que o melhor meio de o 
curar do amor era meter-lhe em brios o amor-próprio.
Estêvão ficou alguns instantes pensativo.     
-- Não, não é possível, contestou ele. Tu não a conheces. É uma grave e nobre 
criatura, incapaz de conceber um sentimento desses, que seria vulgar ou cruel.
-- As mulheres... 
-- Já pensei se aquilo de hoje não seria uma maneira de experimentar-me, de ver até 
que ponto eu lhe queria... Escusas de rir-te, Luís; eu nada afirmo; digo que pode ser. Não 
admira que ela fizesse esse cálculo,  -- um bom cálculo, nesse caso, todo filho do coração...  
A imaginação de Estêvão desceu por este declívio de floridas conjecturas, e Luís 
Alves entendeu que era de bom aviso não espantar-lhe os cavalos. Ela foi, foi, foi por ali 
abaixo, rédea frouxa e riso nos lábios. Boa viagem! exclamou mentalmente o colega voltando a 
estirar-se no sofá. A viagem não foi longa, mas produziu efeito salutar no ânimo do namorado, 
adoçando-lhe as penas, circunstância que Luís Alves aproveitou para lhe falar de cem coisas 
alheias ao coração e diverti-lo do pensamento que o absorvia. Conseguiu o seu intento durante 
meia hora, e conseguiu mais, porque fez com que o colega risse, a princípio de um riso amargo 
e dúbio, depois de um riso jovial e franco incompatível com intuitos trágicos. Mas, ai triste! a 
dor dele era uma espécie de tosse moral, que aplacava e reaparecia, intensa às vezes, às 

vezes 
mais fraca, mas sempre infalível. O rapaz acertara de abrir uma página de Werther, leu meia 
dúzia de linhas, e o acesso voltou mais forte que nunca.
Luís Alves acudiu-lhe com as pastilhas da consolação; o acesso passou; nova 

palestra, 
novo riso, novo desespero, e assim se foram escoando as horas da noite, que o relógio da sala 
de jantar batia seca e regularmente, como a lembrar aos dois amigos que as nossas paixões 

não 
aceleram nem moderam o passo do tempo.
A aurora para os dois acadêmicos coincidiu com as badaladas do meio-dia, o que não 
admira, pois só adormeceram quando ela começava a apagar as estrelas. Estêvão passou a 
noite, -- a manhã, quero dizer, -- muito sossegada e livre de sonhos maus. Quando abriu os 
olhos estranhou o aposento e os objetos que o rodeavam. Logo que os reconheceu, 
despertou-se-lhe, com a memória, o coração, onde já não havia aquela dor aguda da véspera. 
Os sucessos, embora recentes, começavam a envolver-se na sombra crepuscular do passado.
A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive não só do que 
ama, mas também (força é dizê-lo) do que come. Sirva isto de escusa ao nosso estudante, que 
almoçou nesse dia, como nos anteriores, bastando dizer em seu abono que, se o não fez com 
lágrimas, também o não fez alegre. Mas o certo é que a tempestade serenara; o que havia era 


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uma ressaca, ainda forte, mas que diminuiria com o tempo. Luís Alves evitou falar-lhe de 
Guiomar; Estêvão foi o primeiro a recordar-se dela.
-- Dá tempo ao tempo, respondeu Luís Alves, e ainda te hás de rir dos teus planos de 
ontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres escapado tão depressa. E queres um 
conselho?
-- Dize. 
-- O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte dourado, 
muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de 
ler. Tu que chegaste ao fim, põe a epístola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ela 
tem um post-scriptum...
Estêvão aplaudiu a metáfora com um sorriso de bom agouro.
Duas vezes viu ele a formosa Guiomar, antes de seguir para S. Paulo. Da primeira 
sentiu-se ainda abalado, porque a ferida não cicatrizara de todo; da segunda, pôde encará-la 
sem perturbação. Era melhor, -- mais romântico pelo menos, que eu o pusesse a caminho da 
academia, com o desespero no coração, lavado em lágrimas, ou a bebê-las em silêncio, como 
lhe pedia a sua dignidade de homem. Mas que lhe hei de eu fazer? Ele foi daqui com os olhos 
enxutos, distraindo-se dos tédios da viagem com alguma pilhéria de rapaz, -- rapaz outra vez, 
como dantes.


UM ROUPÃO

Um mês depois de chegar Estêvão a S. Paulo, achava-se a sua paixão definitivamente 
morta e enterrada, cantando ele mesmo um responso, a vozes alternadas, com duas ou três 
moças da capital, -- todas elas, por passatempo. Claro é que dois anos depois, quando tomou o 
grau de bacharel, nenhuma idéia lhe restava do namoro da rua dos Inválidos. Demais, a bela 
Guiomar desde muito tempo deixara o colégio e fora morar com a madrinha. Já ele a não vira 
da primeira vez que veio à corte. Agora voltava graduado em ciências jurídicas e sociais, como 
fica dito, mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado.
A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para os que 
transpuseram a linha dos cinqüenta divertia-se mais do que hoje, eterno reparo dos que já não 
dão à vida toda a flor dos seus primeiros anos. Para os varões maduros, nunca a mocidade 
folga como no tempo deles, o que é natural dizer, porque cada homem vê as coisas com os 
olhos da sua idade. Os recreios da juventude não são decerto igualmente nobres, nem 
igualmente frívolos, em todos  os tempos; mas a culpa ou o merecimento não é dela, -- a  
pobre juventude,  -- é sim do tempo que lhe cai em sorte.
A corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cólera --; bailava-se, cantava-se, 
passeava-se, ia-se ao teatro. O Cassino abria os seus salões, como os abria o Clube, como os 
abria o Congresso, todos três fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homéricos do 
teatro lírico, a quadra memorável daquelas lutas e rivalidades renovadas em cada semestre, 
talvez por um excesso de ardor e entusiasmo, que o tempo diminuiu, ou transferiu, -- Deus lhe 
perdoe, -- a coisas de menor tomo. Quem se não lembra, -- ou quem não ouviu falar das 
batalhas feridas naquela clássica platéia do Campo da Aclamação, entre a legião casalônica e a 
falange chartônica, mas sobretudo entre esta e o regimento lagruísta? Eram batalhas campais, 
com tropas frescas, --  e maduras também, -- apercebidas de flores, de versos, de coroas, e até 
de estalinhos. Uma noite a ação travou-se entre o campo lagruísta e o campo chartonista, com 
tal violência, que parecia uma página da Ilíada. Desta vez, a Vênus da situação saiu ferida do 
combate; um estalo rebentara no rosto da Charton. O  furor, o delírio, a confusão foram 
indescritíveis; o aplauso e a pateada deram-se as mãos, -- e os pés. A peleja passou aos 

jornais. 
"Vergonha  terna (dizia um aos cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!" -- "Se for 


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mister (replicava outro) daremos os nomes dos aristarcos que no saguão do teatro juraram 
desfeitear Mlle. Lagrua." -- "Patuléia desenfreada!"-- "Fidalguice balofa!" 
Os que escaparam daquelas guerras de alecrim e manjerona hão de sentir hoje, após 
dezoito anos, que despenderam excessivo entusiasmo em coisas que pediam repouso de 
espirito e lição de gosto.
Estêvão é uma das relíquias daquela Troia, e foi um dos mais fervorosos lagruístas, 
antes e depois do grau. A causa principal das suas preferências, era decerto o talento da 
cantora; mas a que ele costumava dar, nas horas de bom humor, que eram todas as vinte e 
quatro do dia, tirantes as do sono, essa causa que mais que tudo o ligava aos "arraiais do bom 
gosto" dizia ele, era, -- imaginem lá, -- era o buço de Mlle. Lagrua. Talvez não fosse ele o único 
amador do buço; mas outro mais férvido duvido que houvesse nesta boa cidade. Um 
chartonista maquiavélico, aliás escritor elegante, elevava o tal buço à categoria de bigode, 
compreendendo sagazmente que, se o buço era graça, o bigode era excrescência; e ele nem ao 
lábio da Lagrua queria perdoar.
-- Oh! aquele buço! exclamava Estêvão nos intervalos de uma ópera, aquele delicioso 
buço há de ser a perdição da gente de bem! Quem me dera ir encaracolado por ali acima, até 
ficar mais próximo do céu, quero dizer dos seus olhos, e ser visto por ela, que me não descobre 
na turba inumerável dos seus adoradores! Querem saber uma coisa? Ali é que ela há de ter a 
alma, e eu quisera entreter-me com a alma dela, e dizer-lhe muita coisinha que tenho cá dentro 
à espera de um buço que as queira ouvir.
Estêvão era mais ou menos o mesmo homem de dois anos antes. Vinha cheirando 
ainda aos cueiros da academia, meio estudante e meio doutor, aliando em si, como em idade 
de transição, o estouvamento de um com a dignidade do outro. As mesmas quimeras tinha, e a 
mesma simpleza de coração; só não as mostrara nos versos que imprimiu em jornais 
acadêmicos, os quais eram todos repassados do mais puro byronismo, moda muito do tempo. 
Neles confessava o rapaz à cidade e ao mundo a profurida incredulidade do seu espírito, e o 
seu fastio puramente literário. A colação de grau interrompeu, ou talvez acabou, aquela 
vocação poética; o último suspiro desse gênero que lhe saiu do peito foram umas sextilhas à 
sua juventude perdida. Felizmente, que só a perdeu em verso; na prosa e na realidade era 

rapaz 
como poucos. 
Posto fizesse boa figura na academia, mais prezava do que amava a ciência do 
Direito. Suas preferências intelectuais dividiam-se, ou antes abrangiam a Política e a 
Literatura, e ainda assim, a Política só lhe acenava com o que podia haver literário nela. Tinha 
leitura de uma e outra coisa, mas leitura veloz e à flor das páginas. Estêvão não compreenderia 
nunca este axioma de lorde Macaulay  -- que mais aproveita digerir uma lauda  que devorar 
um volume. Não digeria nada; e daí vinha o seu nenhum apego às ciências que estudara. 
Venceu a repugnância por amor-próprio; mas, uma vez dobrado o Cabo das Tormentas 
disciplinares, deixou a outros o cuidado de aproar à Índia.
Suas aspirações políticas deviam naturalmente morrer em gérmen, não só porque lhe 
minguava o apoio necessário para as arvorecer e frutificar, mas ainda porque ele não tinha em 
si a força indispensável a todo o homem que põe a mira acima do estado em que nasceu. Eram 
aspirações vagas, intermitentes, vaporosas, umas visões legislativas e ministeriais, que tão 
depressa lhe namoravam a imaginação, como logo se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros 
olhos bonitos,  que esses,  sim, amava-os ele deveras. Opiniões não as tinha; alguns escritos 
que publicara durante a quadra acadêmica eram um complexo de doutrinas de toda casta, que 
lhe flutuavam no espírito, sem se fixarem nunca, indo e vindo, alçando-se ou descendo, 
conforme a recente leitura ou a atual disposição de espírito.
Por agora militava nas fileiras do lagruísmo, com ardor, dedicação e fidelidade de 
bom apóstolo. Não era abastado para pagar o luxo de uma opinião lírica; nascera pobre e não 
tinha parente em boa posição. Alguns poucos recursos possuía, provenientes do seu ofício de 


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advogado, que exercia com o amigo Luís Alves.
Uma noite assistira à representação de 0telo, palmeando até romper as luvas, 
aclamando até cansar-lhe a voz, mas acabando a noite satisfeito dos seus e de si. Terminado o 
espetáculo, foi ele, segundo costumava, assistir à saída das senhoras, uma procissão de 

rendas, 
e sedas, e leques, e véus, e diamantes, e olhos de todas as  cores e linguagens. Estêvão era 
pontual nessas ocasiões de espera, e raro deixava de ser o último que saía. Tinha agora os 

olhos 
pregados em outros olhos, não pardos como os dele, mas azuis, de um azul-ferrete, 
infelizmente uns olhos casados, quando sentiu alguém bater-lhe no ombro, e dizer-lhe baixinho 
estas palavras:
-- Larga o pinto, que é das almas.
Estêvão voltou-se.
-- Ah! és tu! disse ele vendo Luís Alves. Quando chegaste?
-- Hoje mesmo, respondeu o colega; venho sequioso de música. Vassouras não tem 
Lagrua nem Otelo...
-- Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Estêvão que, ainda falando em 
prosa, cultivava as suas metáforas poéticas. Fizeste bem; não te perdoaria se preferisses a 
outra, a lambisgóia, que aqui nos querem impingir por grande coisa, e que não chega aos 
calcanhares do buço...
Interrompeu-se. Luís Alves acabava de cumprimentar cerimoniosamente alguém que 
passava; Estêvão volveu a cabeça para ver quem era. Era uma moça, que ele não chegou a ver, 
porque já descia as escadas; mas tão elegante e gentil que os olhos lhe fuzilaram de 

admiração.
-- Algum namoro? perguntou ao amigo.
-- Não; uma vizinha.
A desfilada acabou; saíram os dois e foram dali cear a um hotel, seguindo depois 
para Botafogo, onde morava Luís Alves, desde que perdera a mãe, alguns meses antes.
A casa de Luís Alves ficava quase no fim da Praia de Botafogo, tendo ao lado 
direito outra casa, muito maior e de aparência rica. A noite estava bela, como as mais belas 
noites daquele arrabalde. Havia luar, céu límpido, infinidade de estrelas e a vaga a bater 
molemente na praia, todo o material, em suma, de uma boa composição poética, em vinte 
estrofes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns esdrúxulos rebuscados nos dicionários. 
Estêvão poetou, mas poetou em prosa, com um entusiasmo legitimo e sincero. Luís Alves, 
menos propenso às coisas belas, preferia a mais útil de todas naquela ocasião, que era ir 

dormir. 
Não o conseguiu sem ouvir ao hóspede tudo quanto ele pensava acerca daquele "pinto, que era 
das almas", aqueles olhos azuis, "profundos como o céu", exclamava Estêvão.
Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os tais olhos o perseguissem, ainda em 
sonhos, ou porque estranhasse a carna, ou porque o destino assim o resolvera, a verdade é que 
Estêvão dormiu pouco, e, coisa rara, acordou logo depois de aparecer a arraiada.
A manhã estava fresca e serena; era tudo silêncio, mal quebrado pelo bater do mar e 
pelo chilrear dos passarinhos nas chácaras da vizinhança. Estêvão, amuado por não poder 
conciliar o sono, resolvera-se a ir ver a manhã, de mais perto. Ergueu-se de manso, lavou-se, 
vestiu-se, e pediu que lhe levassem café ao jardim, para onde foi sobraçando um livro que 
acaso topou ao pé da cama.
O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da chácara vizinha por uma cerca. 
Relanceando os olhos pela chácara, viu Estêvão que era plantada com esmero e arte, assaz 
vasta, recortada por muitas ruas curvas e duas grandes ruas retas. Uma destas começava das 
escadas de pedra da casa e ia até o fim da chácara; a outra ia da cerca de Luís Alves até à 
extremidade oposta, cortando a primeira no centro. Do lugar em que ficava Estêvão só a 
segunda rua podia ser vista de ponta a ponta.
Sentou-se o bacharel em um banco que ali achou, recebeu a xícara de café, que o 
escravo lhe trouxe daí a pouco, acendeu um charuto e abriu o livro. O livro era uma Prática 


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forense. Demos-lhe razão ao despeito com o que o fechou e atirou ao chão, contentando-se 
com o canto dos pássaros e o cheiro das flores, e a sua imaginação também, que valia as flores 
e os pássaros.
Deus sabe até onde iria ela, com as asas fáceis que tinha, se um incidente lhas não 
colhera e fizera descer à terra. Da casa vizinha saíra um roupão, -- ele não viu mais que um 
roupão, -- e seguira pela rua que enfrentava com a casa, a passo lento e meditativo. Estêvão, 
que adorava todos os roupões, fossem ou não meditativos, deu as graças à Providência, pela 
boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos para contemplar aquela graciosa madrugadora. 
Graciosa, ainda ele não sabia se o era; mas assentou que devia de ser, justamente porque 
desejava que o fosse.
A deliciosa paisagem ia ter enfim uma alma; o elemento humano vinha coroar a 
natureza.
Ergueu-se Estêvão, de toda a sua estatura elevada e gentil, para ver melhor, -- e ser 
visto, digamos a verdade toda, -- aquela desconhecida vizinha, que devia ser por força a que 
Luís Alves cumprimentara no teatro, Acteon cristão e modesto, não surpreendia Diana no 
banho, mas ao sair dele; todavia, não palpitava menos de comoção e curiosidade.
O roupão ia andando.


AO PÉ DA CERCA

A primeira coisa que Estêvão pôde descobrir é que a vizinha era moça. Via-lhe o 
perfil, em cada aberta que deixavam as árvores, um perfil correto e puro, como de escultura 
antiga. Via-lhe a face cor de leite, sobre a qual se destacava a cor escura dos cabelos, não 
penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquele desleixo matinal que 
faz mais belas as mulheres belas. O roupão, -- de musselina branca, -- finamente bordado, não 
deixava ver toda a graça do talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegância que nasce com 
a criatura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco à tesoura da 
costureira. Todo o colo ia coberto até o pescoço, onde o roupão era preso por um pequeno 
broche de safira. Um botão, do mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e 
lisas, que rematavam em folhos de renda.
Estêvão, da distância e na posição em que se achava, não podia ver todas estas 
minúcias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu dever de contador de histórias. O 
que ele viu, além do perfil, dos cabelos, e da tez branca, foi a estatura da moça, que era alta, 
talvez um pouco menos do que parecia com o vestido roçagante que levava. Pôde ver-lhe 
também um livrinho, aberto nas mãos, sobre o qual pousava os olhos, levantando-os de espaço 
a espaço, quando lhe era mister voltar a folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na 
leitura.
Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguém, tão serena e grave, como se 
atravessara um salão. Estêvão, que não tirava os olhos dela, mentalmente pedia ao céu a 
fortuna de a ter mais próxima, e ansiava por vê-la chegar à rua que lhe ficava diante. Contudo, 
era difícil que lhe parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar por entre 
as árvores. O jovem bacharel, por não perder o sestro dos primeiros tempos, avocava todas as 
suas reminiscências literárias; a desconhecida foi sucessivamente comparada a um serafim de 
Klopstock, a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memória dele havia mais aéreo, 
transparente, ideal.
Enquanto ele trabalhava o espírito nestas comparações poéticas, não descabidas, se 
quiserem, em tal lugar, e ao pé de tão graciosa criatura, ela seguia lentamente e chegara à 
encruzilhada das duas grandes ruas da chácara. Estêvão esperava que voltasse à direita, isto 

é, 
que viesse para o lado dele, mas sobretudo receava que seguisse pela mesma rua adiante e se 


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perdesse no fundo da chácara. A moça escolheu um meio-termo, voltou à esquerda, dando as 
costas ao seu curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular.
A chácara não era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo da 
madrugadora, não gastaria ela imenso tempo em  percorrer até o fim aquela porção da rua em 
que entrara. Mas ali, ao pé daquele coração juvenil e impaciente, cada minuto parecia, não direi 
um século, -- seria abusar dos direitos do estilo, -- mas uma hora, uma hora lhe parecia, com 
certeza.
A  moça  entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a mão nas 
costas de um banco rústico que ali havia e enfrentava com outro, colocado na extremidade 
oposta. A outra mão descaíra-lhe, e os olhos também, o que magoou o seu curioso observador. 
Seriam saudades de alguém? Estêvão sentiu uma coisa, a que chamarei ciúme antecipado, mas 
que na realidade eram invejas da alheia fortuna.  A inveja é um sentimento mau; mas nele, que 
nascera para amar, e que, além disso, tinha em si o contraste do nascimento com o instinto, um 
berço obscuro e umas aspirações à vida elegante, -- nele a inveja era quase um sentimento 
desculpável.
A moça voltou e veio pela rua adiante.  Enfim, disse consigo Estêvão, vou 
contemplá-la de mais perto. Ao mesmo tempo, receoso de que, descobrindo ali um estranho, 
guiasse os passos para casa, Estêvão afastou-se do lugar em que ficara, resoluto a aparecer, 
quando ela estivesse próxima à cerca do jardim. A  moça vinha andando com o livro fechado, 
e os olhos ora no chão, ora nas andorinhas e camaxilras que esvoaçavam na chácara. Se trazia 
saudades, não se lhe podiam ler no rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor 
sobra de pena ou de tristeza.
Estêvão do lugar onde estava podia examinar-lhe as feições, sem ser visto  por  ela; 
mas  foi justamente do que não cuidou, desde que lhas pôde distinguir. Valia a pena, 
entretanto, contemplar aqueles grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e 
bastas pestanas, não maviosos nem quebrados, como ele os cuidara ver, mas de uma beleza 
severa, casta e fria. Valia a pena admirar como eles comunicavam a todo o rosto e a toda a 
figura um ar de majestade tranqüila e senhora de si. Não era ela uma dessas belezas que, ao 
mesmo tempo que subjugam o coração, acendem os sentidos; falava à inteligência primeiro do 
que ao coração, tanto a arte parecia haver colaborado com a natureza naquela criatura, meia 
estátua e meia mulher.
Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porém, é que a 
nenhuma destas coisas atendeu. Desde que distinguira as feições da moça, ficou como tomado 
de assombro, com os olhos parados, a boca entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo 
para o coração.
A moça chegara à cerca; esteve de pé algum tempo, olhou em derredor e por fim 
sentou-se no banco que ali havia, dando as costas para o jardim de Luís Alves. Abriu 
novamente o livro, e continuou a leitura do ponto em que a deixara tão só consigo, tão 
embebida no livro que tinha diante, que não a despertou o rumor, aliás sumido, dos passos de 
Estêvão nas folhas secas do chão. Teria percorrido meia página, quando Estêvão, reclinando-se 
sobre a cerca, e procurando abafar a voz para que só chegasse aos ouvidos dela, proferiu este 
simples nome:
-- Guiomar!
A moça soltou um grito de surpresa e de susto, e voltou-se sobressaltada para o lado 
donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantara-se. A impressão que lhe produzira, e não sei 
se também algum ar de cólera que lhe notasse no rosto; e além de tudo, o remorso de não 
haver sufocado aquele grito de seu coração, fez com que Estêvão, quase no mesmo instante, 
murmurasse em tom de súplica:
-- Perdoe-me; foi uma centelha do passado que estava debaixo da cinza: apagou-se 
de todo.


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Guiomar, -- sabemos agora que era este o seu nome, -- olhou séria e quieta para o seu 
mal-aventurado interruptor, dois longos e mortais minutos. Estêvão, confuso e vexado, tinha 
os olhos em terra; o coração palpitava-lhe com força, como a despedir-se da vida. A situação 
era em demasia aflitiva e embaraçosa para que se pudesse prolongar mais. Estêvão ia cortejá-

la 
e despedir-se; mas a moça, com um sorriso de mais piedade que afeto, murmurou:  
-- Está perdoado. 
Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mão, que ele apertou, -- apertou não é bem 
dito, -- em que ele tocou apenas, o mais cerimoniosamente que podia e devia naquela situação.
E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer nada, nem a sair 
dali, a verem ambos o espectro do passado, aquele tão amargo passado para um deles. 
Guiomar foi a primeira que rompeu o silêncio, fazendo a Estêvão uma pergunta natural, como 
não podia deixar de ser naquelas circunstâncias mas ainda assim, ou por isso mesmo, a mais 
acerba que ele podia ouvir:
-- Há dois anos que nos não vemos, creio eu?
-- Há dois anos, murmurou Estêvão abafando um suspiro.
-- Já está formado, não? Lembra-me ter lido o seu nome...
-- Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tia...
-- Não a vejo há muito tempo, interrompeu Guiomar; eu saí do colégio, logo depois 
que o senhor seguiu para S. Paulo. Saí a convite da baronesa, minha madrinha, que lá foi 
buscar-me um dia, alegando que eu já não tinha que aprender, e que me não convinha ensinar.
-- Decerto, assentiu Estêvão. -- Minha tia é que não deixou nem podia deixar de 
ensinar; acabou no ofício.
-- Acabou?
-- Morreu.
-- Ah!  
-- Morreu há cerca de um ano.
-- Era uma boa criatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes de silêncio, 
muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que aprendi... Está admirando esta flor?
Estêvão, apanhado em flagrante delito de admiração, não da flor mas da mão que a 
sustinha, -- uma deliciosa mão, que devia ser por força a que se perdeu da Vênus de Milo, 
Estêvão balbuciou:
-- Com efeito, é linda! 
-- Há muita flor bonita aqui na chácara. A baronesa tem imenso gosto a estas coisas, e 
o nosso jardineiro é homem que sabe do seu ofício.
Aquele natural acanhamento da primeira ocasião foi desaparecendo aos poucos, e a 
conversa veio a ser, não tão familiar, como outrora, mas em todo o caso menos fria do que a 
princípio estivera. Havia, contudo, uma diferença entre os dois: ele, sem embargo do 
desembaraço, sentia-se abalado e comovido; ela, porém, vencido o sobressalto do princípio, 
mostrava-se tranqüila e fria, sempre polida e grave, risonha às vezes, mas de um risonho à flor 
do rosto, que não lhe alterava a serenidade e compostura.
O sítio e a hora eram mais próprios de um idílio, que de uma fria e descolorida 
prática. Um céu claro e límpido, um ar puro, o sol a coar por entre as folhas uma luz ainda 
frouxa e tépida, a vegetação em derredor, todo aquele reviver das coisas parecia estar pedindo 
uma igual aurora nas almas. Estas é que deviam falar ali a sua língua delas, amorosa e 

cândida,  
em vez da outra, cortês, elegante e rígida, que a nenhum deles desprazia, decerto, mas que era 
muito menos voluntária nos lábios de Estêvão.
Guiomar falava com certa graça, um pouco hirta e pausada, sem viveza, nem calor.
Estêvão, que a maior parte do tempo ficara a ouvi-la, observava entre si que as 
maneiras da moça não lhe eram desnaturais, ainda que podiam ser calculadas naquela 

situação. 
A Guiomar que ele conhecera e amara era o embrião da Guiomar de hoje, o esboço do painel 


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agora perfeito; faltava-lhe outrora o colorido, mas já se lhe viam as linhas do desenho.
A conversa durou cerca de três quartos de hora, uma migalha de tempo para ele, que 
desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ela foi a primeira a dizer-lho.
-- O senhor fez-me perder muito tempo. Há talvez uma hora que estamos aqui a 
conversar. Era natural, depois de dois anos. Dois anos! Mas o que não era natural, continuou 
ela mudando de tom, era atrever-me a falar com um estranho neste deshabillé tão pouco 
elegante... 
-- Elegantíssimo, pelo contrário.
-- O senhor tem sempre um cumprimento de reserva: vejo que não perdeu o tempo na 
academia, Vou-me embora. São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara.
-- Será aquela senhora que ali está no alto da escada? perguntou Estêvão.
-- É ela mesma, respondeu Guiomar. Está à espera que lhe vá dar o braço.
E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mão a Estêvão, dizendo:
-- Passe bem, senhor doutor, estimei vê-lo.
Estêvão tocou-lhe levemente na mão, fina e macia, e inclinou-se respeitoso. A moça 
caminhou para casa. Ele acompanhou-a com os olhos, admirando a gentileza com que ela, 
desta vez a passo acelerado, resvalava por entre as árvores até subir as escadas da casa. 

Viu-a 
dar o braço à madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo caminho por onde 
Guiomar seguira da primeira vez. 
Estêvão ainda ficou algum tempo encostado à cerca, na esperança de que ela olhasse 
ou dirigisse os passos para aquele lado; ela porém, passou indiferente, como se nem da 
existência dele soubera. Estêvão retirou-se dali cabisbaixo e triste, batido de contrários 
sentimentos, cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por cima de 
tudo isso o eco vago e surdo desta interrogação:
-- Entro num drama ou saio de uma comédia?


IV LATET ANGUIS

O passeio da baronesa durou pouco mais de meia hora. O sol começava a aquecer, e 
apesar de ser bastante sombreada a chácara, o calor aconselhava à boa senhora que se 
recolhesse. Guiomar deu-lhe o braço, e ambas, seguindo pelo mesmo caminho, guiaram para 
casa.
-- Parece muito tarde, Guiomar, disse a baronesa ao cabo de alguns segundos.     
-- E é, madrinha. Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa de um encontro 
que tive aqui na chácara.
-- Um encontro?
-- Um homem.
-- Algum ladrão? perguntou a madrinha parando.
-- Não, senhora, respondeu Guiomar sorrindo, não era ladrão. A minha mestra de 
colégio... sabe que morreu?
-- Quem disse isso?
-- O sobrinho, o tal sujeito que encontrei aqui hoje.
-- Você está zombando comigo! Um homem na chácara?
-- Não era bem na chácara, mas no jardim do Dr. Luís Alves. Estava encostado à 
cerca; trocamos algumas palavras.
A baronesa olhou para ela alguns segundos.
-- Mas, menina, isso não é bonito. Que diriam se os vissem?... Eu não diria nada, 
porque conheço o que você vale, e sei a discrição que Deus lhe deu. -- Mas as aparências... 
Que qualidade de homem é esse sobrinho?


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Interrompeu-as uma mulher de quarenta e quatro a quarenta e cinco anos, alta e 
magra, cabelo entre louro e branco, olhos azuis, asseadamente vestida, a Sra. Oswald, -- ou 
mais britanicamente, Mrs. Oswald, -- dama de companhia da baronesa, desde alguns anos. 
Mrs. Oswald conhecera a baronesa em 1846; viúva e sem família, aceitou as propostas que esta 
lhe fez. Era mulher inteligente e sagaz, dotada de boa índole e serviçal. Antes da ida de 
Guiomar para a companhia da madrinha, era Mrs. Oswald a alma da casa; a presença de 
Guiomar, que a baronesa amava extremosamente, alterou um pouco a situação.
-- São nove horas! disse de longe a inglesa; pensei que hoje não queriam voltar para 
casa. O calor está forte; e a senhora baronesa sabe que não é conveniente expor-se aos ardores 
do sol, sobretudo neste tempo de epidemias.
-- Tem razão, Mrs. Oswald; mas Guiomar tardou hoje tanto em ir buscar-me, que o 
passeio começou tarde.
-- Por que me não mandou chamar?
-- Estava talvez a dormir, ou entretida com o seu Walter Scott...
-- Milton, emendou gravemente a inglesa; esta manhã foi dedicada a Milton. Que 
imenso poeta, D. Guiomar!
-- Tamanho como este calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo e lá 
dentro a ouviremos com melhor disposição.
Foram as três andando, subiram a escada e entraram na sala de jantar, que era vasta, 
com seis janelas para a chácara. Dali seguiram para uma saleta, onde a baronesa sentou-se na 
sua poltrona, a escapar a hora do almoço. Guiomar saiu para ir cuidar da toilette; e a baronesa 
que desde alguns minutos estivera cabisbaixa e pensativa, olhou fixamente para Mrs. Oswald, 
sem dizer palavra.
Era ela uma senhora de cinqüenta anos, refeita, vestida com esse alinho e esmero da 
velhice, que é um resto da elegância da mocidade. Os cabelos, cor de prata fosca, 
emolduravam-lhe o rosto sereno, algum tanto arrugado, não por desgostos, que os não tivera, 
mas pelos anos. Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto.
Tendo casado cedo, coube-lhe a boa fortuna de ser igualmente feliz desde o dia do 
noivado até o da viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas já lá iam alguns anos, e da crua dor 
que tivera ficara-lhe agora a consolação da saudade.
-- Chegue-se mais perto; preciso falar-lhe a sós, disse ela à inglesa, que se achava a 
alguns passos de distância.
Mrs. Oswald foi até a porta espreitar se viria alguém e voltou a sentar-se ao pé da 
baronesa. A baronesa estava outra vez pensativa, com as mãos cruzadas no regaço e os olhos 
no chão.
Estiveram as duas ali silenciosas alguns dois ou três minutos. A baronesa despertou 
enfim das reflexões, e voltou-se para a inglesa:
-- Mrs. Oswald, disse ela, parece estar escrito que não serei completamente feliz. 
Nenhum sonho me falhou nunca; este, porém, não passará de sonho, e era o mais belo de 
minha velhice.
-- Mas por que desespera? disse a inglesa. Tenha ânimo, e tudo se há de arranjar. 

Pela 
minha parte, oxalá pudesse contribuir para a completa felicidade desta família, a quem devo 
tantos e tamanhos benefícios.
-- Benefícios!
-- E que outra coisa são os seus carinhos, a proteção que me tem dado, a confiança...
-- Está bom, está bom, interrompeu afetuosamente a baronesa; falemos de outra 
coisa.
-- Dela, não é? Diz-me o coração que com alguma paciência tudo se alcançará. Todos 
os meios se hão de tentar; e todos eles são bons se se trata de fazer a felicidade sua e dela. 
Bem está o que bem acaba, disse um poeta nosso, homem de juízo. Por enquanto só vejo um 


[Linha 550 de 2741 - Parte 1 de 3]


obstáculo: a pouca disposição...
-- Só esse? 
-- Que outro mais?
-- Talvez outro, disse a baronesa abaixando a voz; pode ser que não, mas tão infeliz 
sou neste meu desejo, que há de vir a ser obstáculo, talvez.
-- Mas que é?
-- Um homem, um moço, não sei quem, sobrinho da mestra que foi de Guiomar... Ela 
mesma contou-me tudo há pouco. 
-- Tudo o quê?
-- Não sei se tudo; mas enfim disse-me que, estando a passear na chácara, vira o tal 
sobrinho da mestra, junto à cerca do Dr. Luís Alves, e ficara a conversar com ele. Que será 
isto, Mrs. Oswald? Algum amor que continua ou recomeça agora, -- agora, que ela já não é a 
simples herdeira da pobreza de seus pais, mas a minha filha, a filha do meu coração.
A comoção da baronesa ao proferir estas palavras era tal, que Mrs. Oswald pegou-lhe 
afetuosamente das mãos e procurou confortá-la com outras palavras de esperança e confiança. 
Disse-lhe, além disso, que o simples conversar com esse homem, que aliás nenhuma delas 
conhecia, não era razão para supor uma paixão anterior.
-- Enfim, concluiu a inglesa, custa-me crer que ela ame a alguém neste mundo. Por 
enquanto estou que não gosta de ninguém, e a nossa vantagem não é outra senão essa. Sua 
afilhada tem uma alma singular; passa facilmente do entusiasmo à frieza, e da confiança ao 
retraimento. Há de vir a amar, mas não creio que tenha grandes paixões, ao menos duradouras. 
Em todo o caso, posso responder-lhe atualmente pelo seu coração, como se tivesse a chave na 
minha algibeira.
A baronesa abanou a cabeça.
-- Quanto a esse homem, continuou Mrs. Oswald, saberemos quem é ele, e que 
relações de afeto houve no passado.
-- Parece-lhe possível?
-- Naturalmente!
A inglesa proferiu esta única palavra com a segurança necessária para serenar o 

ânimo 
da boa senhora, que ficou algum tempo a olhar pasmada para ela, como quem refletia.
-- Há ocasiões, disse enfim a baronesa ao cabo de alguns segundos de silêncio, há 
ocasiões em que eu quase chego a sentir remorsos do amor que tenho a Guiomar. Ela veio 
preencher na minha vida o vácuo deixado por aquela pobre Henriqueta, a filha das minhas 
entranhas, que a morte levou consigo, para mal de sua mãe. Se havia de ser infeliz, melhor é 
que a chore morta, com a esperança de a ir encontrar no céu. Mas não lhe quis mais, nem talvez 
tanto, como a esta criança, que levei à pia, e de quem Deus me fez mãe...
A baronesa calou-se; ouvira passos no corredor. 
Guiomar, embora tivesse ido vestir-se e aprimorar-se, com tão singelos meios o 

fizera, 
que não desdizia daquele matinal desalinho em que o leitor a viu no capítulo anterior. O 
penteado era um capricho seu, expressamente inventado para realçar a um tempo a abundância 
dos cabelos e a senhoril beleza da testa. As pontas bordadas de um colarinho de cambraia 
dobravam-se faceiramente sobre o azul do vestido de glacê, talhado e ornado com uma 
simplicidade artística. Isto, e pouco mais, era toda a moldura do painel, -- um dos mais belos 
painéis que havia por aqueles tempos em toda a Praia de Botafogo.
-- Viva a minha rainha de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu assomar à 
porta da saleta.
E Guiomar sorriu com tanta satisfação e gozo ao ouvir-lhe esta saudação familiar, 
que um observador atento hesitaria em dizer se era aquilo simples vaidade de moça, ou se 
alguma coisa mais.
A baronesa pôs os olhos na afilhada, uns olhos amorosos e tristes, em que a moça 


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reparou, e que a tornaram séria durante alguns rápidos segundos. Mas sorriu depois; e pegando 
das mãos da madrinha deu-lhe dois beijos no rosto, com tanta ternura e tão sincera, que a boa 
senhora sorriu de contentamento.
-- Não precisa falar, disse Guiomar, já sei que me acha bonita. É o que me diz todos 
os dias, com risco de me perder, porque se eu acabo vaidosa, adeus, minhas encomendas, 
ninguém mais poderá comigo.
Guiomar disse isto com tanta graça e singeleza, que a madrinha não pôde deixar de 
rir, e a melancolia acabou de todo. A sineta do almoço chamou-as a outros cuidados, e a nós 
também, amigo leitor. Enquanto as três almoçam, relanceemos os olhos ao passado, e vejamos 
quem era esta Guiomar, tão gentil, tão buscada e tão singular, como dizia Mrs. Oswald.


V MENINICE

Guiomar tivera humilde nascimento; era filha de um empregado subalterno não sei de 
que repartição do Estado, homem probo, que morreu quando ela contava apenas sete anos, 
legando à viúva o cuidado de a educar e manter. A viúva era mulher enérgica e resoluta, 
enxugou as lágrimas com a manga do modesto vestido, olhou de frente para a situação e 
determinou-se à luta e à vitória.
A madrinha de Guiomar não lhe faltou naquele duro transe, e olhou por elas, como 
entendia que era seu dever. A solicitude, porém, não foi tão constante a princípio como veio a 
ser depois; outros cuidados de família lhe chamavam a atenção.
Guiomar anunciava desde pequena as graças que o tempo lhe desabrochou e perfez. 
Era uma criaturinha galante e delicada, assaz inteligente e viva, um pouco travessa, decerto, 
mas muito menos do que é usual na infância. Sua mãe, depois que lhe morrera o marido, não 
tinha outro cuidado na terra, nem outra ambição mais, que a de vê-la prendada e feliz. Ela 
mesma lhe ensinou a ler mal, como ela sabia, --  e a  coser e  bordar, e o pouco mais que 
possuía de seu ofício de mulher. Guiomar não tinha dificuldade nenhuma em reter o que a mãe 
lhe ensinava, e com tal afinco lidava por aprender, que a viúva, -- ao menos nessa 
parte, -- sentia-se venturosa. Hás de ser a minha doutora, dizia-lhe muita vez; e esta simples 
expressão de ternura alegrava a menina e lhe servia de incentivo à aplicação.
A casa em que moravam era naturalmente modesta.  Ali correu a infância, -- mas 
solitária, o que é um pouco mais grave. A mãe, quando a via embebida nos jogos próprios da 
idade, infantilmente alegre, -- mas de uma alegria que fazia mal a seus olhos de mãe, tão fundo 
lhe doía aquele viver, -- a mãe sentia às vezes pularem-lhe as lágrimas dos olhos fora. A filha 
não as via, porque ela sabia escondê-las; mas adivinhava-as através da tristeza que lhe ficava 
no rosto. Só não adivinhava o motivo, mas bastava que fossem mágoas de sua mãe, para lhe 
descair também a alegria.
Com o  tempo, avultou outra causa de tristeza  para a pobre viúva, ainda mais 
dolorosa que a primeira. Na idade apenas de dez anos, tinha Guiomar uns desmaios de 
espirito, uns dias de concentração e mudez, uma seriedade, a princípio intermitente e rara, 
depois freqüente e prolongada, que desdiziam da meninice e faziam crer à mãe que eram 
prenúncios de que Deus a chamava para si. Hoje sabemos que não eram. Seria acaso efeito 
daquela vida solitária e austera, que já lhe ia afeiçoando a alma e como que apurando as forças 
para as pugnas da vida?
A  primeira vez que esta gravidade da menina se lhe tornou mais patente foi uma 
tarde, em que ela estivera a brincar no quintal da casa. O muro do fundo tinha uma larga 
fenda, por onde se via parte da chácara pertencente a uma casa da vizinhança. A fenda era 
recente; e Guiomar acostumara-se a ir espairecer ali os olhos, já sérios e pensativos. Naquela 
tarde, como estivesse olhando para as mangueiras, a cobiçar talvez as doces frutas amarelas 


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que lhe pendiam dos ramos, viu repentinamente aparecer-lhe diante, a cinco ou seis passos do 
lugar em que estava, um rancho de moças, todas bonitas, que arrastavam por entre as árvores 
os seus vestidos, e faziam luzir aos últimos raios do sol poente as jóias que as enfeitavam. 

Elas 
passaram alegres, descuidadas, felizes; uma ou outra lhe dispensou talvez algum afago; mas 
foram-se, e com elas os olhos da interessante pequena, que  ali ficou largo tempo absorta,  
alheia de si, vendo ainda na memória o quadro que passara.
A noite veio, a menina recolheu-se pensativa e melancólica, sem nada explicar à 
solícita curiosidade da mãe. Que explicaria ela, se mal podia compreender a impressão que as 
coisas lhe deixavam? Mas, como a mãe entristecesse com aquilo, Guiomar domou o próprio 
espírito e fez-se tão jovial como nos melhores dias.
Esta era ainda outra feição da menina; tinha uma força de vontade superior aos seus 
anos. Com ela, e a viveza intelectual que Deus lhe dera, logrou aprender tudo o que a mãe lhe 
ensinara, e melhor ainda do que ela o sabia, desde que o tempo lhe permitiu desenvolver os 
primeiros elementos.
Aos treze anos ficou órfã; este fundo golpe em seu coração, foi o primeiro que ela 
verdadeiramente pôde sentir, e o maior que a fortuna lhe desfechou. Já então a madrinha a 
fizera entrar para um colégio, onde aperfeiçoava o que sabia e onde lhe ensinavam muita coisa 
mais.
Vivia ainda então a filha da baronesa, uma interessante criança de treze anos, que era 
toda a alma e encanto de sua mãe. Guiomar visitava a casa da madrinha; a idade quase igual 
das duas meninas, a afeição que as ligava, a beleza e meiguice de Guiomar, a graciosa 
compostura de seus modos, tudo apertou entre a madrinha e a afilhada os laços puramente 
espirituais que as uniam antes. Guiomar correspondia aos sentimentos daquela segunda mãe; 
havia talvez em seu afeto, aliás sincero, um tal encarecimento que podia parecer simulação. O 
afeto era espontâneo; o encarecimento é que seria voluntário.
Tinha a moça dezesseis anos quando passou para o colégio da tia de Estêvão, onde 
pareceu à baronesa se lhe poderia dar mais apurada educação. Guiomar manifestara então o 
desejo de ser professora.
-- Não há outro recurso, disse ela à baronesa quando lhe confiou esta aspiração.
-- Como assim? perguntou a madrinha.
-- Não há, repetiu Guiomar. Não duvido, nem posso negar o amor que a senhora me 
tem; mas a cada qual cabe uma obrigação, que se deve cumprir. A minha é... é ganhar o pão.
Estas últimas palavras passaram-lhe pelos lábios como que à força. O rubor subiu-lhe 
às faces; dissera-se que a alma cobria o rosto de vergonha.
-- Guiomar! exclamou a baronesa.
-- Peço-lhe uma coisa honrosa para mim, respondeu Guiomar com simplicidade.
A madrinha sorriu e aprovou-a com um beijo, -- assentimento de boca, a que já o 
coração não respondia, e que o destino devia mudar.     
Pouco tempo depois padeceu a baronesa o golpe quase mortal a que aludiu no 
capítulo anterior. A filha morreu de repente, e o inopinado do desastre quase levou a mãe à 
sepultura.
A afeição de Guiomar não se desmentiu nessa dolorosa situação. Ninguém mostrou 
sentir mais do que ela a morte de Henriqueta, ninguém consolou tão dedicadamente a infeliz 
que lhe sobrevivia. Eram ainda verdes os seus anos; todavia revelou ela a posse de uma alma 
igualmente terna e enérgica, afetuosa e resoluta. Guiomar foi durante alguns dias a verdadeira 
dona da casa; a catástrofe abatera a própria Mrs. Oswald.
O coração da pobre mãe ficara tão vazio, e a vida lhe pareceu tão agra e deserta sem 
a filha, que ela morreria talvez de saudade, se não fora a presença de Guiomar. Nenhuma outra 
criatura poderia preencher, como esta, o lugar de Henriqueta. Guiomar era já meia filha da 
baronesa; as circunstâncias, não menos que o coração, tinham-nas destinado uma para a outra. 


[Linha 700 de 2741 - Parte 1 de 3]


Um dia, em que a afilhada fora visitar a madrinha, esta lhe disse que a iria em breve buscar 
para sua casa.        
-- Você será a filha que eu perdi; ela não me amou mais, nem eu já agora teria outra 
consolação.
-- Oh! madrinha! exclamou Guiomar beijando-lhe as mãos.
A baronesa estava assentada; Guiomar ajoelhou-se-lhe aos pés e pôs-lhe a cabeça no 
regaço. A boa mãe curvou-se e beijou-lha ternamente, com os olhos naquela filha que os 
sucessos lhe haviam dado, e o pensamento no céu, onde devia estar a outra, que Deus lhe dera 
e levou para si.
Pouco depois estabeleceu-se Guiomar definitivamente em casa da madrinha, onde a 
alegria reviveu, gradualmente, graças à nova moradora, em quem havia um tino e sagacidade 
raros. Tendo presenciado, durante algum tempo, e não breve, o modo de viver entre a 
madrinha e Henriqueta, Guiomar pôs todo o seu esforço em reproduzir pelo mesmo teor os 
hábitos de outro tempo, de maneira que a baronesa mal pudesse sentir a ausência da filha. 
Nenhum dos cuidados da outra lhe esqueceu, e se em algum ponto os alterou foi para 
aumentar-lhe novos. Esta intenção não escapou ao espírito da baronesa, e é supérfluo dizer que 
deste modo os vínculos do afeto mais se apertaram entre ambas.
Ao mesmo tempo que ia provando os sentimentos de seu coração, revelava a moça, 
não menos, a plena harmonia de seus instintos com a sociedade em que entrara. A educação, 
que nos últimos tempos recebera, fez muito, mas não fez tudo. A natureza incumbira-se de 
completar a obra, -- melhor diremos, começá-la. Ninguém adivinharia nas maneiras finamente 
elegantes daquela moça, a origem mediana que ela tivera; a borboleta fazia esquecer a 
crisálida.


VI O POST-SCRIPTUM

Aquele conselho de Luís Alves, na fatal noite de dois anos antes, não há dúvida que 
era judicioso e devera ter ficado no espírito de Estêvão. Não convinha reler a carta, sob pena 
de lhe achar um post-scriptum. Estêvão era curioso de epístolas; não pôde ter-se que não 
abrisse aquela. O post-scriptum la estava no fim. 
Vindo à linguagem natural, Estêvão saiu do jardim de Luís Alves com o coração 
meio inclinado a amar de novo a mulher que tanto o fizera padecer um dia. Daqui concluirá 
alguém que ele verdadeiramente não deixara de a amar. Pode ser; havia talvez debaixo da 
cinza uma faísca, uma só, e essa bastava a repetir o incêndio. Mas fosse de um ou de outro 
modo,  o certo é que Estêvão saiu dali com o princípio do amor no coração.
Todo aquele dia foi de alvoroço e agitação para ele, que não se resignou logo, antes 
buscou reagir contra a entrada da paixão nova. A tentativa era sincera; as forças é que eram 
escassas. Ele desviava de si a imagem da moça; ela, porém, perseguia-o, tenaz, como se fora 
um remorso, fatal como a voz de seu destino.
Estêvão nada disse a Luís Alves do encontro e da conversa que tivera com a moça no 
jardim; e não lho escondeu por desconfiança, mas por vergonha, Que lhe diria porém ele que o 
não tivesse visto e percebido Luís Alves? Da janela de seu quarto, que dava para o jardim, 
enfiando os olhos pela fresta das cortinas pôde observá-los durante aqueles três quartos de 
hora de inocente palestra. O espetáculo não o divertiu muito; Luís Alves achou um pouco 
atrevida a escolha do lugar.
A circunstância de os ver juntos chamou-lhe a atenção para a coincidência do nome 
da vizinha com o da antiga namorada do colega; era naturalmente a mesma pessoa.
-- Vai contar-me tudo, pensou Luís Alves quando viu o colega afastar-se da cerca e 
dirigir os passos para casa.


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Estêvão, como disse, foi discreto. Vinha preocupado, muito outro do que entrara na 
véspera, a ler-se-lhe no rosto alguma coisa mais séria do que ele próprio costumava ser.
Tinha Estêvão contra si o passado e o futuro. O presente, sim, defendia-o; ele sentia 
que alguma coisa o distanciava de Guiomar. Mas o passado falava-lhe de todas as doces 
recordações, -- as menos amargas, -- e a memória quase não sabe de outras quando relembra o 
que foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperanças todas, e basta dizer que eram infinitas. 
Além disso, a Guiomar que ele via agora, surgia-lhe no meio de outra atmosfera, -- a mesma 
que o seu espírito almejava respirar; e aparecia-lhe para fugir logo. Sobre tudo isto o obstáculo, 
aquela porta fechada, que bem podia ser a da città dolente, mas que em todo o caso ele quisera 
ver franqueada às suas ambições.
Os dias correram alternados de confiança e desânimo, tecidos de ouro e fio negro, 
um lutar de todas as horas, que acabou como era de prever e devia acabar. O coração levou 
Estêvão atrás de si.
Nenhum meio, dos que tinha à mão, lhe esqueceu para ver Guiomar. As janelas da 
casa estavam quase sempre desertas. Duas ou três vezes aconteceu vê-la de longe; ao 
aproximar-se-lhe, sumira-se o vulto na sombra do salão. Não perdia teatro; mas só duas vezes 
teve o gosto de a ver: uma no Lírico, onde se cantava Sonâmbula, outra no Ginásio, onde se 
representavam os Parisienses, sem que ele ouvisse uma nota da ópera, nem uma palavra da 
comédia. Todo ele, olhos e pensamento, estava no camarote de Guiomar. No Lírico foi 
baldada essa contemplação; a moça não deu por ele. No Ginásio, sim; o teatro era pequeno; 
contudo, antes não fora visto, tão tenazmente desviou ela os olhos do lugar em que ele ficara.
Nem por isso deixou Estêvão de ir esperá-la à saída, colocar-se francamente no seu 
caminho, solicitar-lhe audazmente os olhos e atenção. A família desceu da segunda ordem pela 
escada do lado de S. Francisco; a estreiteza do lugar era excelente. Dava o braço à baronesa 
um moço de vinte e cinco anos, figura elegante, ainda que um tanto afetada. Desceram todos 
três e ficaram à espera do carro alguns minutos. Na meia sombra  que ali havia destacava-se o 
rosto marmóreo de Guiomar e a gentileza de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela 
multidão, mas não fitavam ninguém. Ela possuía, como nenhuma outra, a arte de gozar, sem as 
ver, as homenagens da admiração pública.
Irritado com a indiferença da moça, vagou Estêvão toda aquela noite, a sós com o 
seu despeito e o seu amor, tecendo e destecendo mil planos, todos mais absurdos uns que 
outros. A taça enchera de todo; era mister entorná-la no seio de um amigo, de um amigo que 
houvesse nas suas mãos o único remédio que ele nessa ocasião pedia; -- a chave daquela 

porta.
Luís Alves era esse homem.
-- Outra vez caído! exclamou ele rindo quando Estêvão lhe contou tudo. Eu já o 
havia percebido. Isto de mulheres... Queres então que te leve lá?
-- Quero.
Luís Alves refletiu alguns instantes.
-- E uma viagem, não te seria bom fazer uma viagem? Já sei o que me vais dizer; mas 
também não te proponho uma viagem de recreio, à Europa. Olha, arranjo-te, se queres, um 
lugar de juiz municipal...
A proposta era sincera; Estêvão cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria e ergueu os 
ombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia ser examinada; era uma carreira, e vinha 
de um homem que estava a entrar na vida política, que esperava daí a algumas semanas o 
resultado de uma eleição, com a certeza, ou quase, de haver triunfado. Era influência que 
nascia, e de força viria a crescer. Mas para Estêvão, naquela ocasião, toda a carreira pública, 
influência, futuro, leis, tudo estava nos olhos castanhos de Guiomar.
-- Eu amo-a, disse ele enfim, isto para mim é tudo. Pode bem ser que tenhas razão; 
talvez me espere algum grande desgosto; mas são reflexões, e eu não reflito agora, eu sinto... 
-- Em todo o caso, acudiu Luís Alves, desempenho o meu dever de amigo; digo-te 


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que vocês não nasceram um para outro; que, se ela te não amou naquele tempo, muito menos te 
amará hoje, e que enfim...
Luís Alves estacou.
-- Enfim? perguntou Estêvão.
-- Enfim pedes-me um sacrifício, concluiu rindo o advogado, porque também eu já a 
namorisquei... Não é preciso carregares o sobrolho; foi namoro de vizinho, tentativa que durou 
pouco mais de vinte e quatro horas. Com vergonha o digo, ela não me prestou uma migalha de 
atenção sequer, e eu voltei aos meus autos.
-- Então... gostas dela? perguntou Estêvão.
-- Acho-a bonita e nada mais. Aquilo foi um lançar barro à parede; se aceitasse, 
casava-me; não aceitou...
-- Já vês que somos diferentes.
-- Queres, então?...
-- Um serviço de amigo.
-- Bem, disse por fim Luís Alves, faça-se a tua vontade. A baronesa vai cuidar agora 
de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda; entraras ali, como advogado, o 
que de alguma maneira me tira um peso da consciência.
Estêvão, que só pedia um pretexto, aceitou a oferta com ambas as mãos, e 
agradeceu-lha com tão expansiva ternura, que fez sorrir o outro.
A promessa cumpriu-se pontualmente. Luís Alves apresentou Estêvão à baronesa, na 
seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como advogado capaz de zelar os interesses 

da 
ilustre cliente. A recepção foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu 
aborrecida de o ver naquela casa. Quando Estêvão a saudou, como quem a conhecia de longo 
tempo, ela mal pôde retribuir-lhe o cumprimento; em todo o resto da noite não lhe deu palavra. 
Daquela parte o acolhimento não podia ser pior; mas Estêvão sentia-se feliz, desde que podia 
vê-la, respirar o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto à fortuna. 
De todas as pessoas da casa da baronesa, a primeira que reparou na indiferença com 
que Guiomar tratara Estêvão, foi Mrs. Oswald. A sagaz inglesa afivelou a máscara mais 
impassível que trouxera das ilhas britânicas e não os perdeu de vista. Nem da primeira nem da 
segunda vez viu nada mais que os olhos dele, que solicitavam os dela, e os dela que pareciam 
surdos. Havia decerto uma paixão, solitária e desatendida.
-- Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ela alguns dias depois a Guiomar.
Guiomar fez um gesto de estranheza.
-- Entendamo-nos, observou a inglesa; não digo que a senhora o namore também; 
digo que é ele quem anda apaixonado. Não adivinha?
-- Talvez.
-- O Dr. Estêvão.
Guiomar fez um gesto de desdém.
-- Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; também não era difícil. Quem tem 
alguma prática destas coisas fareja uma paixão a cem léguas de distância, por mais que ela 
busque recatar-se dos olhos estranhos. Os namorados geralmente supõem que ninguém os vê; 

é 
uma lástima. Olhe, da senhora posso eu jurar que não está namorada de pessoa nenhuma.
-- Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de seu 
guarda-vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.
Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ela sabia que a moça tinha 
orgulho de suas graças; era bom caminho afagar-lhe o sentimento. Disse-lhe muita coisa 
bonita, que não vem para aqui, e concluiu pondo-lhe as mãos nos ombros, encarando-a fito a 
fito, e enfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas:
-- A senhora é a flor desta sua terra. Quem a colherá? Alguém sei eu que a merece...
Guiomar ficou séria, e desviou brandamente as mãos da inglesa, murmurando:


[Linha 850 de 2741 - Parte 1 de 3]


-- Mrs. Oswald, falemos de outra coisa.


VII UM RIVAL

Não era a primeira vez que Mrs. Oswald aludia a alguma coisa que desagradava a 
Guiomar, nem a primeira que esta lhe respondia com a sequidão que o leitor viu no fim do 
capitulo anterior. A boa inglesa ficou séria e calada alguns dois ou três minutos, a olhar para 
Guiomar, aparentemente buscando interrogar-lhe o pensamento, mas na realidade sem saber 
como sair da situação. A moça rompeu o silêncio:
-- Está bom, disse ela sorrindo, não vejo razão para que se zangue comigo.    
-- Não estou zangada, acudiu prontamente Mrs. Oswald. Zangada por quê? Pesa-me, 
decerto, que a natureza me não dê razão, e que uma aliança tão conveniente, para ambos, seja 
repelida pela senhora; mas se isto é motivo de desgosto, não pode sê-lo de zanga... 
-- Desgosto?
-- Para mim... e naturalmente para ele.
Guiomar respondeu com um simples sacudir de ombros, seco e rápido, como quem se 
lhe não dava do mal ou não acreditava nele. Mrs. Oswald não atinou qual destas impressões 
seria, e concluiu que fossem ambas. A moça, entretanto, pareceu arrepender-se daquele 
movimento; travou das mãos da inglesa, e com uma voz ainda mais doce e macia que de 
costume, lhe disse:
-- Veja o que é ser criança! Não parece que ainda em cima me zango com a senhora? 
-- Parece.
-- Pois não é exato. Isto são caprichos de menina mal-educada. Dei para não gostar 
que me adorem... Minto; disso gosto eu; mas quisera que me adorassem somente, não lhe 
parece?
E Guiomar acompanhou estas palavras com uma risadinha mimosa e uns gestos de 
criança travessa, que destoavam inteiramente da sua gravidade habitual.
-- Já sei, gosta de uma adoração como a do Dr. Estêvão, silenciosa e resignada, uma 
adoração...
E Mrs. Oswald, que, como boa protestante que era, tinha a Escritura na ponta dos 
dedos, continuou por este modo, acentuando as palavras:
-- Uma adoração como a que devia inspirar José, filho de Jacó, que era belo como a 
senhora: "por ele as moças andavam por cima da cerca"...
-- Da cerca? perguntou Guiomar tornando-se seria.
-- Do muro, diz a Escritura, mas eu digo da cerca porque... nem eu sei por quê. Não 
core! Olhe que se denuncia.
Guiomar corara deveras; mas era a altivez e o pundonor ofendido que lhe falavam no 
rosto. Olhou fria e longamente para a inglesa, com um desses olhares, que são, por assim 

dizer, 
um gesto da alma indignada. O que a irritava não era a alusão, que não valia muito, era a 
pessoa que a fazia, -- inferior e mercenária. Mrs. Oswald percebeu isto mesmo; mordeu a ponta 
do lábio, mas transigiu com a moça.
-- Meu Deus! disse ela. Parece que se zangou por uma brincadeira à-toa. Bem sabe 
que eu não podia querer agravá-la; supô-lo é ofender-me a mim, -- a mim, que também lhe 
tenho afeto de mãe...
A última palavra aquietou o ânimo de Guiomar; ela tinha cedido ao impulso do seu 
caráter altivo, mas a razão veio depois, e o coração também, que não era mau. A inglesa, que 
possuía longa prática da vida e sabia ceder a tempo, uniu o gesto à palavra e chamou-a com os 
braços para si. Guiomar deixou-se ir, um pouco de má vontade, e a conversa teria acabado ali, 
se Mrs. Oswald não lhe dissesse com a mais doce voz que daquela garganta podia sair:


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-- Convença-se de que eu sou importuna e indiscreta por afeição, e que a felicidade 
desta família é toda a ambição da minha alma. Não pode haver intenção melhor do que esta. 
Um conselho último, -- último se me não consentir mais falar-lhe nisto; -- eu creio que a 
senhora sonha talvez demais. Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? digo-lhe 
que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante 
como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.
Guiomar cravara desta vez os olhos no chão, com a expressão vaga e morta de quem 
os apagou para as coisas externas. As palavras de Mrs. Oswald responder-lhe-iam acaso a 
alguma voz íntima? A inglesa prosseguiu na mesma ordem de idéias, sem que ela a 
interrompesse ou desse sinal de si. Quando ela acabou, Guiomar estremeceu, como se 
acordasse; levantou a cabeça, e lenta, e comovida, proferiu esta única resposta: 
-- Talvez tenha razão, Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos são tão bons!
Mrs. Oswald abanou a cabeça e saiu; Guiomar acompanhou-a com os olhos, a sorrir, 
satisfeita de si mesma, e a murmurar tão baixo que mal a ouvia o seu próprio coração: 
-- Sonhos não, realidade pura.

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