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quinta-feira, 20 de junho de 2019

A relação entre a intolerância à lactose e a domesticação dos animais

A relação entre a intolerância à lactose e a domesticação dos animais



Muita gente sente mal-estar ao ingerir leite ou seus derivados. O desconforto pode ser causado por intolerância à lactose, que acontece quando o corpo tem dificuldade para digerir o açúcar presente nesses alimentos. O problema é causado pela deficiência de uma enzima chamada lactase.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Número de abortos cai no mundo - Puxado por países desenvolvidos com legalização


Número de abortos cai no mundo - Puxado por países desenvolvidos com legalização

Manifestante protesta na Paulista contra 
projeto que criminaliza todo tipo de aborto 

Desde os anos 90, os registros da prática caíram de forma significativa nos países ricos; já nas regiões em desenvolvimento não foi observada uma mudança significativa.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Saiba o que é a 'nomofobia', quando o uso de tecnologias vira doença


Saiba o que é a 'nomofobia', quando o uso de tecnologias vira doença

A forte presença das tecnologias na vida moderna pode dificultar a identificação do problema (Foto: Free-Photos/Pixabay/CC0 Creative Commons)


O Instituto Delete, na UFRJ, trata brasileiros com dependência de internet. Para pesquisador, linha entre dependência e uso excessivo é tênue.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Plano da Elite diante de um ataque nuclear incluia comer animais de estimação e salvar secretárias


Plano da Elite diante de um ataque nuclear incluía comer animais de estimação e salvar secretárias


A verdade é que o governo dos EUA nunca se preocupou em salvar a população em geral.
 dailymail.co.uk revelou os detalhes...

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

6 reflexões que vão te introduzir ao pensamento de Albert Einstein



6 reflexões que vão te introduzir ao pensamento de Albert Einstein


Há 100 anos o físico Albert Einstein publicava a Teoria da Relatividade Geral, que mudou a forma como tempo e espaço são vistos e abrindo alas para diversas outras teorias e pensadores. Nascido na Alemanha em 1879, o cientista teve cidadania suíça, austríaca e americana, mas tinha sérios questionamentos em torno do significado de pátria. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Eu vos declaro marido e mulher - História


EU VOS DECLARO MARIDO E MULHER - História


Depois da invenção da pílula anticoncepcional, em 1960, o casamento andou em baixa. Mas nunca saiu de moda. E olha que é uma moda antiga. Está estabelecida há pelo menos 3 000 anos. Nesse período muita coisa mudou, principalmente até o século XIX, quando a rainha Vitória, da Inglaterra, inaugurou o estilo de núpcias que persiste até hoje. É isso mesmo, no que diz respeito à união entre homens e mulheres, nós ainda somos vitorianos. E a fama de maio, mês das noivas, está aí para comprovar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Tomografia revela que faraó egípcio teve garganta cortada



Tomografia revela que faraó egípcio teve garganta cortada

Múmia do faraó egípcio Ramsés 3º, que teve a garganta cortada (Foto: Reprodução/"British Medical Journal")

Harém armou conspiração contra imperador egípcio, sugere pesquisa.
Atentado contra Ramsés 3º ocorreu 1,1 mil anos antes de Cristo.

Um estudo realizado pela Universidade do Cairo, no Egito, em conjunto com outras instituições do país utilizou tomografia computadorizada e técnicas de medicina para confirmar que o faraó Ramsés 3º morreu ao ter a garganta cortada. A pesquisa sugere que ele foi vítima de uma conspiração realizada por seu harém por volta de 1,1 mil anos antes de Cristo.

A pesquisa, publicada no conceituado periódico "British Medical Journal", esclarece alguns pontos obscuros na história, há muito tempo debatida por egiptólogos.

Um dos documentos mais analisados da época, um papiro "judicial" do Egito antigo, afirma que no ano 1.155 antes de Cristo, mulheres que integravam o harém do faraó cometeram um atentado contra a vida dele, como parte de uma conspiração. O papiro relata que a conspiração falhou, mas não havia dados que confirmassem o homicídio.

O documento revela que foram feitos quatro julgamentos dos conspiradores e que houve punição aos responsáveis. Os dois chefes da conspiração seriam uma rainha secundária, chamada Tiy, e seu filho, o príncipe Pentawere.

O papiro é vago quanto à morte de Ramsés 3º. Primeiro, sugere que ele poderia ter morrido pouco antes ou durante o julgamento dos conspiradores. Depois, diz que a Corte que julgava o harém recebeu ordens diretas do rei, o que indica que ele estaria vivo quando houve o julgamento.

Corte profundo
Com as tomografias na múmia de Ramsés 3º, os cientistas descobriram um grande e profundo corte em sua garganta, causado por uma lâmina afiada, possivelmente, e que teria sido letal o suficiente para causar morte imediata.

Um amuleto foi encontrado dentro do ferimento, dizem os pesquisadores. O objeto foi possivelmente inserido, na época, pelos responsáveis por embalsamar o corpo do faraó.

Os cientistas analisaram ainda outra múmia, provavelmente do filho do rei, Pentawere.
A múmia possuía entre 18 e 20 anos quando morreu, e evidências como pele ferida em volta do escoço da múmia sugerem que ela foi morta de forma violenta, possivelmente por estrangulamento.

O corpo mumificado que possivelmente pertence a Pentawere não foi mumificado da forma tradicional, mas feito em um "ritual impuro", segundo os cientistas, o que indica que foi uma forma de punição por participar da conspiração.

A análise do DNA de ambas as múmias indica que existe grau de parentesco, o que "sugere fortemente que eram pai e filho", segundo os cientistas.

Tomografia mostra coluna e pescoço de faraó; estrelas indicam local onde ferimento foi causado (Foto: Reprodução/"British Medical Journal")


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Dia em que o Homem Nasceu - Antropologia



O DIA EM QUE O HOMEM NASCEU - Antropologia



Novos achados apontam a África como berço do ser humano moderno, numa data muito mais recente do que se pensava.

Em algum momento do passado, entre 92 mil e 45 mil anos atrás, numa caverna nos arredores de onde hoje existe a cidade de Nazaré, em Israel, um grupo de homens, mulheres e crianças olhou para o horizonte e viu se aproximar outro grupo de indivíduos que, de longe, tinham uma aparência familiar. Quando os forasteiros chegaram mais perto, porém, os moradores da caverna perceberam que aqueles não eram seus semelhantes. Enquanto os habitantes do local tinham pele escura, estatura mediana e andar equilibrado, os recém-chegados eram claros, atarracados e cambaleavam. Apenas uma característica era comum a todos: a curiosidade recíproca. Os da caverna - que viria a ter o nome de Qafzeh - faziam parte de uma espécie que agora a ciência identifica como Homo sapiens sapiens, os humanos anatomicamente modernos. Mais ainda: eram, ao que tudo indica, os primeiros representantes dessa espécie. Os visitantes, por sua vez, vindos das terras geladas da Europa, também eram humanos, mas de outra variedade, possivelmente mais arcaica, a dos Homo sapiens neanderthalensis - os homens de Neandertal.
A origem do primeiro sapiens sapiens esteve por muito tempo ligada ao homem de Neandertal. O ser humano moderno era classificado como pertencente ao gênero Homo, um primata da família dos hominídeos, espécie sapiens (sábio). E o Neandertal era tido como um antepassado direto não sapiens, o Homo neanderthalensis. Mas, nos últimos cinco anos, descobertas arqueológicas e pesquisas de laboratório têm mostrado que essa concepção está errada. Os humanos de anatomia moderna - subespécie sapiens sapiens - não descendem daquele homem das cavernas européias, cujos fósseis foram achados pela primeira vez em 1856, no vale de Neander (daí o nome), Alemanha. Os antropólogos agora acreditam também que a convivência competitiva com os sapiens sapiens foi o motivo da extinção dos neandertalenses. Essa nova concepção da origem do homem atual tem causado um acalorado debate entre os especialistas no assunto. As razões para a excitação são muitas, com um ingrediente perturbador adicional: a entrada em cena dos geneticistas num campo antes exclusivo dos especialistas em ossos e pedras.
A história que as novas pesquisas estão contando é que os humanos modernos  surgiram há cerca de 200 mil anos na região central da África, a partir de onde teriam migrado para a Europa e Ásia, através do Oriente Médio, provavelmente competindo pelos recursos alimentares disponíveis com humanos mais primitivos e tomando o seu lugar. A teoria até então mais aceita sobre a origem do ser humano moderno começou a desmoronar em março do ano passado. Christopher Stringer, do departamento de Paleontologia do Museu Britânico de História Natural, e seu colega Peter Andrew publicaram um trabalho na revista americana Science, expondo uma hipótese revolucionária. Para tanto, os dois pesquisadores ingleses não apenas estudaram a fundo achados recentes de fósseis como se valeram do apoio de outras áreas de pesquisa, como a biogeografia e a ecologia. Sem serem dogmáticos, Stringer e Andrew dizem que as maiores evidências "favorecem uma origem recente para o Homo sapiens sapiens na África", cristalizando o que já era uma convicção popular induzida pela origem também africana dos primatas. Até há bem pouco tempo os cientistas estiveram inclinados a acreditar que o humano moderno surgiu na Europa e que os fósseis do homem de Cro-Magnon, encontrados na França, em 1868, seriam uma prova disso. Outra prova estaria nas espetaculares cavernas com pinturas, no sul da França e no norte da Espanha.
Convencidos, a partir de novas evidências, de que enxergavam a verdadeira pré-história da raça humana, Stringer e Andrew sustentam que tudo teria começado no sul da África. O Homo erectus - que na escala evolutiva dos primatas sucederia o Homo habilis e seria o último antes da linhagem sapiens arcaica, tendo vivido entre 1,6 milhão e 300 mil anos atrás começou a deixar sua terra natal há cerca de 1 milhão de anos, motivado principalmente, supõem os cientistas, pela curiosidade de saber o que havia além do horizonte. Acompanhando o traçado do que se chama hoje o Vale da Grande Fenda Africana - que vai do norte de Moçambique até o norte da Etiópia, recheado de rios e lagos ao longo de seus 3 840 quilômetros -, chegou, passados muitos séculos, ao Oriente Próximo, de onde, finalmente, alcançou a Europa e a Ásia. Registros fósseis mostram que populações de erectus existiram nesses dois continentes até 300 mil anos atrás. "Desse ponto em diante", diz Stringer, "começa-se a ver sinais de mudança nos achados, com a presença de fósseis, já não mais do Homo erectus nem tampouco de humanos modernos." Na verdade, eles apresentam um mosaico de caracteres de ambas as espécies. Um desses mosaicos, o crânio de Petralona, foi desenterrado de uma caverna distante cerca de 48 quilômetros de Salônica, no nordeste da Grécia. "É certo que não se tratava de um Homo erectus". assegura Stringer. Mosaicos similares - que lembram o Homo sapiens arcaico - foram desenterrados em vários lugares da Grã-Bretanha, Alemanha, Oriente Próximo e África.Juntos, dão uma clara indicação de que alguma coisa nova, não percebida antes, aconteceu na pré-história humana entre 300 mil e 50 mil anos atrás - período em que se completou a metamorfose do Homo erectus em Homo sapiens sapiens, passando pelo Homo sapiens arcaico. Aqueles achados alimentaram duas interpretações opostas sobre como se deu a revolução no desenvolvimento do animal humano. A primeira, conhecida como teoria do candelabro, põe grande ênfase na cultura - que compreende organização social, rituais, divisão do trabalho, tecnologia de armas e ferramentas - como motor da evolução nos estágios mais recentes da pré-história humana. A cultura, nova e poderosa força de seleção natural, teria influído em todas as populações de Homo erectus espalhadas pelo mundo. Impulsionados por ela, os erectus teriam evoluído de forma independente até o Homo sapiens sapiens em várias partes do planeta. "Apelidei essa concepção de teoria do candelabro", diz o antropólogo William Howells, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, "para destacar que a ramificação aconteceu próxima à base da árvore evolucionária."Se foi assim, a origem dos humanos modernos em todo o mundo não teria envolvido migrações recentes. As diferenças raciais de hoje seriam maiores e mais profundas que tão somente a cor da pele.
A segunda interpretação, que também Howells denominou hipótese Arca de Noé, favorecida pela maioria dos cientistas, afirma que o Homo sapiens sapiens, descendente dos Homo erectus que permaneceram em solo africano, teria surgido num único lugar - a região austral da África. A partir dali, grupos teriam se espalhado por todo o planeta substituindo as populações humanas primitivas. Se for essa a teoria correta, o homem anatomicamente moderno se irradiou do centro de origem, num movimento ondulatório semelhante ao provocado por uma gota que cai num balde de água. As diferenças raciais existentes na humanidade, portanto, seriam muito recentes."Existe uma certa resistência em aceitar a teoria do candelabro porque é difícil crer que resultados biológicos semelhantes tenham acontecido simultaneamente e de forma independente", explica o professor Walter Neves, que coordena o Programa de Biologia Humana do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, e que recentemente discutiu o assunto numa visita que fez a seu colega Stringer, em Londres. "Mesmo assim. continuo partidário dessa teoria. "Essa fidelidade se baseia no que ele acredita sejam evidências de uma "sapientização" simultânea acontecida na Europa, Oriente Médio, Ásia e África. Fósseis de seres de aparência convincentemente moderna e com idades bem mais antigas foram encontrados fora da Europa. Um desses fósseis jazia no Monte Carmel, próximo de Haifa, em Israel. Numa caverna, Mugharet es-Skhûl, os restos de dois indivíduos mostram traços que, embora não completamente modernos, parecem mais avançados que os do Neandertal. Submetidos ao teste de datação, alcançaram a idade de 45 mil anos e por isso mesmo têm sido considerados por alguns antropólogos como remanescentes de uma população intermediária entre o Neandertal e o Homo sapiens sapiens. Fósseis de outra caverna próxima, a já citada Qafzeh, também preenchem esse padrão. São os vestígios de onze indivíduos, todos com notável aspecto moderno. O mais impressionante é sua idade: 92 mil anos, duas vezes mais do que todas as datas previamente estabelecidas para os humanos modernos europeus. Isso fortalece a hipótese de um fenômeno de substituição de uma espécie por outra nessa parte do mundo.
Essas novas descobertas representam para alguns antropólogos evidências convincentes de que o humano moderno teve berço africano e não outro. A Genética reforça essa tese. Os antropólogos que estudam os fósseis desenham a árvore genealógica da espécie humana fazendo comparações entre a anatomia dos ossos desenterrados e a dos seres atuais. É um trabalho de baixo para cima no traçado da árvore genealógica. Com os geneticistas acontece ao contrário. Eles têm apenas as extremidades dos ramos dessa árvore para trabalhar - as populações humanas modernas. Seu objetivo é determinar há quanto tempo as etnias que compõem a espécie humana - negros, amarelos, caucasianos, etc. - estão separadas e como se relacionam entre si. A mais conhecida contribuição da Genética foi o descobrimento no coração do continente africano daquela que seria a mãe da espécie: a Eva de cor negra A popularidade dessa, literalmente, mãe preta resulta da técnica genética utilizada pelos cientistas Allan Wilson, Mark Stoneking e Rebecca Cann, todos da Universidade Berkeley, nos Estados Unidos.
Eles recorreram a um relógio genético existente na mitocôndria - a microscópica estrutura cujo papel é gerar energia dentro de cada célula. Acontece que a mitocôndria contém uma cadeia de material genético, o DNA, que acumula mutações dez vezes mais depressa do que o DNA do núcleo da própria célula. Analisando o DNA mitocondrial de 150 mulheres de quatro populações geográficas distintas - da África, Ásia, Europa, Austrália e Nova Guiné -, os pesquisadores de Berkeley começaram então a buscar padrões. "Uma das coisas mais admiráveis", comenta Allan Wilson, "é que há pouca diferença entre as populações, o que significa que elas se separaram uma da outra muito recentemente." Apesar das similaridades, dois grupos principais sobressaem: um contém somente padrões africanos de DNA, enquanto o outro é formado por padrões comuns a todos os grupos. "Fica claro que o grupo africano é o mais antigo de todos", concluiu Wilson. No entanto para o professor Francisco Salzano, titular do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, que trabalha há trinta anos nessa área, "qualquer estimativa alcançada pelas técnicas genéticas ainda deve ser vista com cautela". Supondo, contudo, que a hipótese Arca de Noé esteja correta e que os humanos modernos evoluíram na África há cerca de 200 mil anos, fica a pergunta: a partir de quem eles evoluíram? A resposta tradicional seria: a partir do Homo erectus. Um número crescente de antropólogos, porém, acredita que o Homo erectus não é tudo que parece."Quem existia na África naquele tempo não era o Homo erectus, mas uma espécie diferente de Homo. E foi essa espécie - que ainda não tem nome - que deu à luz o Homo sapiens arcaico", afirma Peter Andrew, um colega do inovador Christopher Stringer no Museu Britânico. Mais tarde, outras migrações envolvendo humanos totalmente modernos, sapiens sapiens, substituíram as populações estabelecidas dos sapiens arcaicos, incluindo o Neandertal. Teriam os humanos modernos sobrevivido no lugar dos sapiens arcaicos porque seriam ecologicamente mais bem-sucedidos? Tudo indica que sim. Erik Trinkaus, antropólogo da Universidade do Novo México, acredita que a anatomia do Neandertal, por exemplo, mostra que ele era muito menos eficiente provedor que o humano moderno. Isto é, a teoria de substituição não implica uma total dizimação de uma espécie por outra, mas simplesmente um lento desgaste de uma delas pelo modo de subsistência pouca coisa superior da outra. O que, então, pode ter dotado os humanos modernos dessa pequena mas decisiva vantagem competitiva? As respostas são as mais diversas. Alguns pesquisadores acreditam que uma inteligência maior teria propiciado uma capacidade de planejamento mais complexa. Outros buscam na linguagem o instrumento que teria dado aos humanos modernos não apenas um refinado meio de comunicação, mas certamente o atributo que nenhum outro ser vivo possui: pensar. E com quem se parecia esse antepassado direto do homem? Anatomicamente, dizem os pesquisadores, era semelhante aos povos equatoriais de hoje - pele escura, poucos pêlos, estatura mediana, com mandíbulas, nariz e boca levemente pronunciados. Os que deixaram a África austral e rumaram para o norte teriam ficado cada vez mais pálidos em conseqüência de uma adaptação evolutiva à diminuição da intensidade dos raios de sol.
A História Natural avalia que a maioria das espécies animais vive cerca de 2 milhões de anos antes de entrar em um processo de extinção ou de evolução para uma nova espécie. O Homo sapiens sapiens, pelo que se deduz agora, habita o planeta somente há 200 mil anos. Ele alterou, porém, a velocidade do tempo de evolução com o acelerador da cultura. Por isso, acredita-se que o futuro da espécie continuará dependendo principalmente das realizações culturais, na acepção mais ampla da palavra. Nesse sentido, o rápido desenvolvimento da Biologia Molecular e da Engenharia Genética oferecem pelo menos um vislumbre de que mudanças fisiológicas, se acontecerem, dependerão mais do próprio homem do que da caprichosa roleta da natureza. 

O parente que ficou pelo caminho 

"Nenhum evento tão pobre em evidências tem instigado nossa imaginação de forma tão rica quanto o encontro dos povos Neandertal e Cro-Magnon na Europa há cerca de 30 mil anos", diz o paleontólogo Stephen Jay Gould, festejado professor de História da Ciência na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. "Alguma coisa fundamental sobre nossa origem deve estar escondida nesse contato entre nossos ancestrais e nossos parentes colaterais mais próximos. "Com o aumento das evidências de que o Neandertal não foi um antepassado direto do homem moderno, aumentou ainda mais a curiosidade sobre sua vida e os motivos de sua extinção. Ele existiu no período da evolução humana delimitado entre o Homo erectus e o Homo sapiens sapiens. Justamente o papel que teria desempenhado nessa transição é agora objeto dos mais acalorados debates. A começar pelo nome científico que o descreveria com mais precisão: Homo sapiens neanderthalensis ou Homo neanderthalensis. A primeira forma o coloca como um ancestral direto do homem, a segunda como um parente mais distante, membro de uma espécie separada. "Enquanto não conhecermos a história completa do Neandertal, não podemos afirmar se ele foi ou não inferior ao sapiens sapiens na escala evolutiva", afirma o professor Walter Neves, do Museu Goeldi, em Belém do Pará.O desaparecimento do Neandertal, iniciado há 45 mil anos no Oriente Próximo, se processou como uma onda que o varreu do leste para o oeste durante cerca de 10 mil anos. Alguns pesquisadores crêem que chegou a haver acasalamentos entre neandertalenses e humanos modernos. "Existe um pouco de Neandertal em todos nós", supõe o antropólogo americano Milford Wolpoff.Opinião não compartilhada por seu colega da Universidade do Novo México, Erik Trinkaus, segundo o qual "as proporções dos membros dos primeiros humanos modernos na Europa são típicas dos povos equatoriais, não de povos adaptados aos climas frios, como os Neandertal". Caso a teoria mais recente esteja correta, isso significa que os neandertalenses realmente foram invadidos pelo povo Cro-Magnon oriundo da migração das terras africanas. De toda forma, não há a menor dúvida de que a convivência desigual com os mais bem-dotados Cro-Magnon foi o que fez o Neandertal desaparecer da face da Terra.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Grande Família dos Elefantes - Natureza



A GRANDE FAMÍLIA DOS ELEFANTES - Natureza



Durante trezes anos, duas cientistas viram de perto como vivem os maiores animais terrestres e fizeram uma descoberta: pelos laços sociais que mantêm, são parecidos com o homem.

Gordo, orelhas grandes, nariz alongado e dentuço. Se fosse homem seria um homem muito estranho. Como se trata do elefante, a comparação faz mais sentido do que se imagina. Afinal, o maior ser vivo terrestre parece ter muito em comum com os humanos, como descobriram as zoólogas americanas Cynthia Moss e Joyce Poole, após treze anos observando grupos desses paquidermes no Parque Nacional de Amboseli, ao pé do monte Kilimanjaro, no Quênia, África Oriental. A maior novidade, revelada no livro Elephant Memories (Memórias de Elefante, ainda não publicado no Brasil), é que esses robustos animais possuem uma rede de vínculos sociais muito mais complexa, por exemplo, que a de outros mamíferos superiores, como os chimpanzés e os gorilas.
Da mesma forma que nas sociedades humanas, a família ocupa o lugar central na vida dos elefantes. Ou ocupava - antes que o extermínio em massa provocado pelo comércio de presas, afinal proibido, desarticulasse por falta de indivíduos a organização social da espécie. Uma família de paquidermes se compõe de dez a trinta espécimes, dirigidos por uma velha e experiente elefanta, obedecida igualmente por todos - com exceção dos machos adultos -, desde os filhotes até as mães, tias e outras avós na casa dos sessenta anos, idade em que começam a perder definitivamente os dentes, para morrer em seguida. Mesmo quando uma fêmea velha perde o posto de chefe de manada, para outra mais jovem, não perde o respeito e as atenções da família, que Ihe reconhece a experiência.
Boas avós, aproveitam a aposentadoria para cuidar ativamente dos netos menores. Elas não são as únicas nesta tarefa. Na verdade, as mães em fase de amamentação e os bebês-elefante, que as seguem por toda a parte, recebem proteção e cuidados especiais dos outros membros da família, incluindo outras mães. Fora desses estreitos laços familiares, uma manada de fêmeas e filhotes marchando em fila também mantém contato com outras manadas em busca de comida. Se a vegetação for abundante após a época das chuvas, nos meses de janeiro e fevereiro, mais de cem animais podem se reunir de madrugada ou no fim da tarde para pastar em grupo - num único dia um deles é capaz de comer até 225 quilos de vegetação, ou seja, algo como 0,03 de seu peso; para um homem de 70 quilos, isso equivaleria a ingerir diariamente pouco mais de 2 quilos de comida. Outra missão coletiva é afugentar inimigos, como é o caso dos leões. Se alguma cria for atacada, as fêmeas, não importando sua relação familiar com a vítima ou sua posição hierárquica dentro da manada defenderão com toda força o filhote. Apesar dos mais de 100 quilos de um elefante recém-nascido, a preocupação com sua fragilidade não é um exagero de mães corujas.
De certa forma como o homem, que nasce despreparado para sobreviver sozinho após nove meses de gestação, os bebês-jumbo vêm ao mundo precisando ser cuidadosamente liberados do ventre da mãe pelas trombas das tias, que trabalham como excelentes parteiras, antes de se tornarem babás. Depois de 22 meses de gestação, os filhotes aprendem a colocar-se sobre as patas, ainda cambaleantes, e a deslocar-se junto com a manada logo no primeiro dia de existência. Em compensação, não sabem mamar corretamente. Inexperientes, podem confundir a mãe com uma tia que não dispõe de leite, um erro habitual que explica a elevada taxa de mortalidade entre crias menores de dois anos. Ainda que a alimentação do filhote seja completada com matéria vegetal a partir dos três ou quatro meses, o leite materno é fundamental para seu desenvolvimento. Ao nascer, um macho pesa apenas 2 por cento do seu peso de adulto, que pode chegar a 7 toneladas (a altura alcançará 4 metros, até o lombo). Já as fêmeas mais volumosas chegam a 3,6 toneladas e 3,5 metros.
Mesmo entre os elefantes um pouco mais velhos a amamentação pode representar a diferença entre a vida e a morte na época da seca, quando o alimento e a água escasseiam.
O período em que o leite materno está disponível dura normalmente três anos e termina quando a mãe dá à luz um novo bebê. Mas a falta de alimento obviamente torna o leite menos nutritivo e abundante. Cynthia e Joyce, as pesquisadoras americanas, observaram que os filhotes machos consomem mais alimentos que as fêmeas e continuam a buscar com insistência as tetas da mãe até os oito anos de idade. Assim, nos tempos de seca, embora privilegiados pelas mães, os machos sofrem mais com a falta de leite. Daí porque apenas metade deles chega à idade adulta. A expectativa de vida das fêmeas, ao contrário, é maior: só um terço morre antes dos doze anos. Não só nisso os elefantes machos manifestam um comportamento bem diferente. Na sociedade paquiderme existe uma separação estrita dos sexos: não há machos que liderem manadas mistas.
Os jovens permanecem no circuito familiar um máximo de doze anos, idade em que abandonam a manada para viver solitários quase todo o ano ou entrar para a sua versão de clube do Bolinha, onde quem manda é o elefante maior ou mais forte. Durante a juventude, os machos não contam para nada na hierarquia social e até os 25 anos não representam ameaça ao poder dos maiores. A partir dos 30 anos, quando começam a competir pelas fêmeas, tornam-se violentos, a ponto de serem temidos por outros mais velhos. Nessa idade, ocorre o fenômeno conhecido como musth, provocado pelo aumento do hormônio sexual testosterona no organismo, que excita o animal, tornando-o agressivo por um período de aproximadamente três meses.
Essa mudança temporária de comportamento só havia sido documentada antes entre os elefantes asiáticos, uma espécie diferente, de porte menor, que habita a península indiana e o Sudeste asiático, onde são ao mesmo tempo santificados e utilizados como animais de carga. Em seu livro, Cynthia descreve uma daquelas lutas por fêmeas: "Dionysius, um magnífico exemplar de 5,5 toneladas de peso, não temia nenhum adversário até que se encontrou com Iain. Lutaram quase oito horas no extremo de um bosque de acácias, enquanto o resto da manada os observava. Finalmente, Dionysius caiu ao solo. Havia perdido, ainda que, dessa vez, conservasse a vida." Em ambas as espécies, o macho vencedor da batalha passa a investir em seguida contra a fêmea, que é acossada, encurralada e montada sucessivamente. Em três ou quatro dias, o trombudo Dom Juan perde o interesse pela fêmea e deixa o campo livre a outros candidatos. Ao se aproximarem da manada masculina, as fêmeas são atraídas pelos perfumes afrodisíacos produzidos pelos machos nos momentos de excitação sexual.
Glândulas situadas na altura das têmporas segregam essa substância odorífera. Muito sociáveis e comunicativos, os elefantes também têm uma vida amorosa apaixonante fora do período de acasalamento. É comum vê-los se apalpando e se acariciando com a tromba. Revestida por grande número de condutos nervosos, esta se caracteriza pela forte sensibilidade. Algumas vezes eles a introduzem ousadamente na boca do outro, fazendo lembrar beijos ardorosos do cinema. Em outras ocasiões, um elefante furioso pode utilizá-la para golpear o solo ameaçadoramente numa situação de conflito. Na verdade, a tromba de um elefante é como uma ferramenta de múltiplos usos, equivalente, guardadas as devidas proporções, à mão humana. Valendo-se dela, os paquidermes podem arrancar com grande facilidade ervas e rochas e transportar ou deslocar enormes troncos de madeira. Mas o elefante não nasce sabendo do que sua tromba é capaz. O elefante jovem muitas vezes limita-se a conservá-la na boca, como um bebê chupando o dedo. Para realizar tarefas mais complicadas como animal de tração, são precisos pelo menos vinte anos de treino com domesticadores especializados.
A tromba é imprescindível para beber. O elefante, verdadeira caixa-d´água ambulante, pode sugar de uma só vez até vinte litros de água, que ficam armazenados em seu estômago como reserva para ser esguichada sobre a cabeça e assim resfriar seu cérebro sensível durante as longas caminhadas sob o sol. Graças a este recurso, esses animais conseguem suportar as longas estiagens da savana africana, embora tenham poucas glândulas sudoríparas na pele, cuja espessura não é tão grande quanto o volume do corpo que recobre. Depois da tromba, as orelhas são as partes mais comunicativas dos paquidermes. A tal ponto que se pode dizer que os elefantes falam pelas orelhas.
Na espécie africana, cada uma pode medir até dois metros quadrados de área, constituindo um dos sistemas de percepção mais sensíveis entre todos os seres vivos: distinguem e analisam as diferentes expressões sonoras de seus semelhantes como se formassem uma verdadeira linguagem. Ajustáveis em diversas posições, também servem como um perfeito sistema de sinalização, parecido com as bandeirolas utilizadas para orientar as manobras dos aviões em aeroportos. Assim, o bater de orelhas contra a cabeça pode significar ou uma saudação, quando duas famílias amigas se reencontram, ou um simples chamado da fêmea para suas crias. Quando dois machos se preparam para a luta, abrem ao máximo as orelhas a fim de se apresentarem maiores aos olhos do inimigo.
As orelhas dos elefantes são também inconfundíveis documentos de identificação. Não apenas possuem formas individuais, mas apresentam, com o decorrer das longas vidas dos bichos, marcas especiais como cavidades e riscas. Esta característica permitiu às investigadoras americanas saber quem era quem na vastidão dos 200 quilômetros quadrados do Parque Nacional de Amboseli. "Cada orelha é como uma impressão digital humana. O que fizemos foi fotografar cada uma dessas "impressões" para classificar e estudar depois os animais", conta Cynthia Moss. Ela e sua companheira só não conseguiram encontrar os lendários cemitérios de elefantes, descritos pelos nativos da região.
A conclusão das pesquisadoras é que tais cemitérios não existem, embora seja verdade que os elefantes se retiram para morrer solitários em um lugar onde esperam obter água e abrigo sem muito esforço. "O que esses colossos parecem ter é um pressentimento da morte", explica Joyce Poole. Quando uma manada encontra um colega sem vida, todos param, inspecionam cuidadosamente com suas trombas o corpo imóvel - como para determinar sua identidade - e o cobrem com terra e folhagens. Os elefantes que acabam de perder um parente direto seguem a manada à distância durante alguns dias. É sua maneira peculiar de manifestar publicamente o luto pela perda de um ente querido.

Presas fáceis

Dez anos atrás, 1,3 milhão de elefantes pisavam o solo da África. Hoje existem talvez 625 mil. Os números falam por si: nesse ritmo a espécie desaparecerá inteiramente no tempo recorde de dez anos. E nunca antes a sobrevivência da espécie dependeu menos da adaptação ao meio natural do que das decisões de homens engravatados instalados a vários milhares de quilômetros das savanas africanas. De fato, em outubro último, delegados de uma centena de nações reuniram-se em Lausanne, na Suíça, para tentar salvar os elefantes. Eles representavam os países que assinaram a Convenção Internacional sobre Comércio de Espécies em Extinção (CITES, na sigla em inglês), de 1986 que regula o comércio do marfim, obtido das presas de elefantes, além de outros produtos de animais em extinção.
A vítima mais próxima, em mais de um sentido, é o rinoceronte, abatido por causa do seu chifre. Segundo a versão anterior do acordo, os elefantes podiam ser livremente comercializados dentro de cotas estabelecidas pelos países que possuem manadas. Agora, 76 votos declararam a espécie em extinção, não podendo mais ser caçada, na mesma condição de gorilas e pandas. A decisão ganhou o apoio mundial para acabar com o mercado do marfim, que movimenta anualmente 1 bilhão de dólares, o equivalente, por exemplo, ao valor da produção brasileira de suco de laranja.
Entretanto, países africanos como Zimbábue, Burundi e Moçambique, que sustentam suas economias com o marfim, negam-se a respeitar o acordo. Calcula-se que, apenas durante a semana dos debates na Suíça, cerca de mil elefantes foram mortos naqueles países por caçadores mercenários. A fascinação pelo marfim faz parte da história humana há mais de 5 mil anos. Pentes e utensílios dessa modalidade de osso foram encontrados em antigas tumbas egípcias. Acredita-se que o rei hebreu Salomão pode ter se sentado em um trono de marfim.
Neste século, o marfim tornou-se uma matéria-prima industrial. Na década de 20, por exemplo, milhares de elefantes foram mortos para atender à demanda dos Estados Unidos de 60 mil bolas de bilhar, além de incontáveis teclas de pianos. Hong Kong, o maior mercado do mundo, importou 3 900 toneladas de marfim na última década, o que representou a morte de mais de 400 mil elefantes. Na verdade, se a regulamentação agora pretendida perder a batalha para a beleza meramente decorativa de uma estatueta, a derradeira esperança dos elefantes poderá ser o consumidor. Afinal, depende de cada um comparar o enfeite à terrível imagem dos animais com as presas arrancadas, e tomar a decisão certa.

Que bicho é esse?

Tamanho e peso são algumas das mais evidentes características dos elefantes, que podem ser de duas espécies: Loxodonta africana, encontrada ao sul do deserto do Saara, e Elephas maximus, nativa da península indiana e do Sudeste asiático, ambas da família Elephantidae, ordem Proboscidea. O elefante africano é maior, com até 7 toneladas e 4 metros contra um máximo de 5 toneladas e 3 metros de seu distante primo asiático. Sua figura também é facilmente reconhecida pelo inconfundível nariz alongado - a tromba -, pernas em forma de coluna, cinco dedos nas patas, orelhas grandes (especialmente a variedade africana) e cabeça ainda maior. Em geral. os elefantes são cinza ou marrom, com pêlos esparsos e presas, estas ausentes apenas nas fêmeas da espécie indiana. Os mamutes, uma espécie de elefante de pêlos avermelhados e longas presas, foram uma variedade pré-histórica de 2,5 milhões de anos, semelhante à dos elefantes de hoje, apenas adaptada ao clima frio do hemisfério norte. O elefante que se conhece hoje já podia ser encontrado cerca de 20 milhões de anos atrás.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tudo mentira - Comportamento

TUDO MENTIRA - Comportamento



Toda criança aprende que a mentira é um feio pecado. Mas os mesmos adultos que lhe ensinam essa verdade mentem mais do que aceitam confessar. Viver sem mentir parece tão difícil como viver sem respirar.

Ninguém gosta de admitir esta dura verdade: todos mentem. Seja para agradar a alguém, escapulir de uma encrenca, ser o herói de alguma aventura nunca vivida, levar vantagem na vida. Com suas pernas curtas, a mentira caminha no passo do homem desde que o mundo é mundo - e não dá o menor sinal de perder o fôlego, muito pelo contrário. Todos temos um pouco - ou muito - de Pinocchio. Há milhares de anos, como se estivesse conformado com o fato de que viver sem pregar uma mentirinha e tão impossÍvel como viver sem respirar, o filósofo chinês Confúcio (551-479 a. C. ) recomendava que se apelasse para esse antiqüíssimo recurso apenas quando a verdade prejudicasse uma família ou a nação. É um conselho maroto, como sabem os chefes de clãs e dirigentes políticos para quem nunca foi difícil fazer o que pregava o venerando sábio.
Aristóteles (384-322 a.C), o pensador grego, só aceitava duas maneiras de mentir: diminuindo ou aumentando uma verdade. O teólogo Santo Agostinho, no século IV, resolveu complicar o assunto descrevendo seis tipos diferentes de mentira: a que prejudica alguém, mas é útil a outro; a que prejudica sem beneficiar ninguém; a que se comete pelo prazer de mentir; a que se conta para divertir alguém; a que leva ao erro religioso; e. finalmente, a que ele considerava a "boa" mentira, que salva a vida de uma pessoa. Para as modernas ciências do comportamento, porém seja qual for a história falsa, a realidade é uma só: mentira é aquilo que se queria que fosse verdade.
O ato de mentir, contudo, é menos ou mais tolerado conforme os valores de cada povo e cada época. E até numa mesma sociedade podem coexistir graus diferentes de aceitação (ou repúdio) da mentira, de acordo com as expectativas que cada grupo social pode ter em relação aos demais. Os povos antigos, de maneira geral, condenavam a mentira, mas podiam mudar de idéia a partir do contato com outras culturas. Por exemplo, os povos da velha Índia tinham o preceito de só mentir para salvar um hóspede. No mais, os budistas pregavam que mentir equivalia a matar dez homens. Em tempos recentes, com a chegada dos colonizadores ingleses, a mentira passou a ser aceita com naturalidade pelos indianos, que a ela recorriam até para salvar a própria pele.
Mas, ontem ou hoje, na Índia ou no Brasil, segundo os psicólogos, existe um período da vida em que sempre se mente: a infância. Nela, a mentira é um modo de satisfazer, para si mesmo ou perante os outros, uma necessidade ou alcançar um desejo. Por exemplo, o garoto que diz que seu pai, uma pessoa modesta, é um "grande homem" quer que isso seja verdade. É parte do desenvolvimento psíquico de cada um fazer da mentira uma espécie de varinha mágica.
Também existem as mentiras por motivos óbvios, em que o pequeno mentiroso sacrifica a verdade para proteger-se da esperada punição por um mau desempenho na escola ou uma travessura que custou a vida de um valioso vaso em casa. A criança mente ainda para extravasar agressividade ou vingar-se de alguém: por exemplo, acusa o irmão de uma falta imaginária para vê-lo castigado e assim aplacar o próprio ciúme. Tudo isso, com mais refinamento, os adultos também fazem. Há, porém, uma diferença. "Não existe uma idade exata para parar de mentir. Mas quando se deixa de viver mentindo é sinal de que já se está maduro", acredita a psicóloga paulista Maria Helena de Brito Izzo, que há vinte anos trabalha com crianças.
Se a mentira é tão comum, por que todo pai vira uma fera quando flagra o filho mentindo? "Porque esse mesmo pai, embora também minta na sua vida, não deixa de dar o devido valor à verdade", responde Maria Helena. "Ele quer que o filho faça o certo pelo mesmo motivo que deseja vê-lo o melhor em tudo." A repressão familiar à mentira faz bem: sem ela, explica a psicóloga, não se aprende a lutar pelas coisas que se quer usando meios legítimos, nem se assume o que se faz- enfim, não se cresce. No final das contas, o adulto que mente constantemente é uma criança que só cresceu por fora. Pois então a mentira é prova de que algo vai mal na cabeça do cidadão - e precisa ser tratado.
Por isso mesmo, a mentira é uma das principais manifestações analisadas no divã do psicoterapeuta: os assuntos sobre os quais a pessoa mente fornecem ótimas pistas sobre as áreas mais problemáticas de seu temperamento, aquilo que ela não enfrenta ou quer esconder - de si mesma, para começo de conversa. Não menos importante, porém, é a influência da sociedade. Assim como a censura da família é fundamental para conduzir a criança ao bom caminho da verdade, a forma como a sociedade pune a mentira também é. "Num país como o Brasil, em que a impunidade corre solta, mesmo um adulto pode não ver mal algum em mentir", observa a psicóloga Maria Helena. Ai a mentira muda de figura. Já não se trata da necessidade compulsiva de enganar, típica da pessoa imatura, nem das pequenas inverdades que todos contam, seja por piedade, como dizer a um doente que sua aparência está ótima, seja para poupar-se de uma chateacão, ao mandar dizer que não se está em casa no momento de atender um telefonema.
Quando a mentira passa a fazer parte rotineira do jogo social - uma técnica de ataque e defesa na competição entre as pessoas por mais riqueza, prestigio ou poder, e ainda na guerrilha entre governados e governantes -, é claro sinal de que o pais onde isso acontece não vai bem das pernas. O pior é quando as pessoas mentem e já nem ficam vermelhas - ao contrário, até invocam justificativas para as rasteiras que praticam, como o contribuinte que lesa o físco porque se diz lesado pelo governo que não cumpre o que promete. A mentira envergonhada ainda é uma prova de que se sabe distinguir o certo do errado: assim como a hipocrisia é a homenagem do vício à virtude, ela é uma demonstração indireta do respeito pela verdade. Mesmo o mais descarado dos mentirosos, porém, se entrega - só não o nota quem não quer ou não presta suficiente atenção.
Descontadas as mudanças imperceptíveis diretamente, aquelas captadas somente pelo detector de mentira, o corpo mostra um grande número de sinais de que a verdade está passando longe naquela hora. Sabe-se, por exemplo, que é mais fácil mentir com o rosto do que com as pernas e os pés. Isso mesmo: cientistas descobriram que, pelo fato de todos conhecerem as próprias expressões faciais, de tanto vê-las no espelho, é mais simples controlá-las no momento de mentir. Mas é quase impossível disciplinar pernas e pés - que à sua maneira também "falam", e às vezes bem alto, durante uma conversação. O mentiroso bate os pés, cruza e descruza as pernas. É por isso que em negociações complicadas as pessoas ficam inconscientemente mais à vontade sentadas a mesas que escondem a metade inferior do corpo.
Numa das mais bem trabalhadas pesquisas sobre a mentira e o organismo, cientistas americanos pediram a um grupo de estudantes de enfermagem - uma profissão cujos praticantes são de certo modo treinados para mentir - que dissessem ora a verdade, ora a mentira sobre alguns filmes a que haviam assistido. Enquanto as enfermeiras falavam, uma câmara oculta tratava de flagrar os sinais mentirosos. Um deles é o ato de esconder as mãos, que normalmente se movimentam numa conversação para dar força a uma idéia. Sem perceber o que está fazendo, o mentiroso tende a tirar as mãos de cena, afundando-as nos bolsos, por exemplo, para evitar que desmintam a mentira que sai da boca.
As enfermeiras da pesquisa americana aumentaram a freqüência de autocontatos com o rosto, enquanto mentiam sobre os filmes. Ou seja, começaram a passar a mão pela face, alisar os cabelos, apoiar a mão no queixo. Mas dois gestos se destacaram: o de encobrir parcialmente a boca - nem que apenas por um momento - e o de tocar o nariz. O primeiro, segundo os psicólogos, traduz uma vontade de amordaçar-se, porque ninguém se sente totalmente à vontade ao contar mentiras. Tende a ser um gesto rápido porque exprime um conflito: uma parte do mentiroso não quer amordaçar-se coisa nenhuma - e sim continuar com a sua mentira. Já o toque no nariz tem duas explicações: a primeira seria basicamente a impossibilidade de cobrir a boca - portanto, encontra-se apoio no nariz, que está convenientemente próximo; a segunda explicação refere-se a certas mudanças fisiológicas, nos momentos de tensão, que aumentam a sensibilidade da mucosa nasal. Assim, ao mentir, o nariz coça, embora possa ser uma sensação tão suave que mal se perceba.
Finalmente, as enfermeiras mentirosas se mexiam mais nas cadeiras, como crianças que querem escapar de algum lugar. Na verdade, o que todos querem é escapar desse desconforto psicológico que é enganar o próximo, mesmo quando não se o ama. As crianças podem dizer "sou mentiroso e sou feliz; mais mentiroso é quem me diz". Mas não é verdade: mentira raramente rima com felicidade. Principalmente quando a pessoa se vê forçada a esconder de seu parceiro a realidade. Nas relações amorosas, diz o psicoterapeuta paulista Jacob Pinheiro Goldberg, a mentira costuma ser confundida com a fantasia, pois ambos os processos servem à mesma finalidade: suavizar as situações de tensão.
"Mas, na mentira", explica Goldberg, "existe a intenção de iludir o outro em causa própria, e isso implica lesões e mutilações para o relacionamento. Já a fantasia serve muitas vezes para sustentar a qualidade da relação." A mentira no jogo amoroso também sofre a influência dos costumes da sociedade em que vivem os amantes. Quanto mais tabus houver maior será a tendência para a hipocrisia e o fingimento. Poucas coisas são tão complicadas como o conflito entre a verdade e a mentira numa relação afetiva, e os rios de tinta já gastos pelos psicólogos para explicar a questão não conseguem cobrir suficientemente toda a gama de emoções envolvidas nessas situações.
Há quem vive para mentir e há quem mente para viver - como os que ganha honestamente o pão de cada dia graças ao fingimento, em tempo parcial ou integral. É o caso, por exemplo, dos atores, que fingem ser personagens; dos médicos, que ostentam nas horas mais graves uma calma fictícia; dos diplomatas, que por dever do ofício blefam à mesa de negociações. Os publicitários, cansados de levar a fama de vender mentiras bem embaladas, resolveram há oito anos criar o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar), justamente para vigiar anúncios caídos na tentação de vender gato por lebre.
Pois bem: só nos últimos cinco meses do ano passado, o Conselho suspendeu sete campanhas publicitárias por causa das chamadas mensagens enganosas. Isso sem contar as campanhas que sofreram pequenas correções porque não explicavam direito o que estavam vendendo. "O problema desses tempos de crise", comenta Álvaro Moura, do Conar, "é que aumenta o número de produtos, como manuais fantásticos para ter sucesso, figas ecruzes milagrosas, receitas para ganhar na loteria. Está na cara que é mentira. Mas, no desespero, o brasileiro pode acabar acreditando."
As pesquisas indicam que os brasileiros menos acreditados pela população são os políticos. É uma revelação inquietante, sem dúvida, mas não é verdade que isso acontece só no Brasil - e só nos dias de hoje. Afinal, quatro séculos antes de Cristo, na Grécia Antiga, Platão ensinava que "a mentira enfeia a alma, mas é perdoável quando atende a interesses de Estado". Depois, no Renascimento, o italiano Maquiavel escreveria que todos vêem o que o político parece, mas poucos sabem o que ele é realmente. E assim ninguém tanto quanto o político profissional é uma aparência - ainda que a aparência engane.
A mentira se infiltra na História que se aprende nos livros didáticos - e cada país há de ter sua cota de maus tratos à verdade dos acontecimentos históricos. Dom Pedro I, por exemplo, jamais teria bradado "Independência ou morte" às margens do Ipiranga, ao receber a carta que o intimava a voltar a Portugal; teria reagido soltando uns sonoros palavrões. Guardadas as diferenças de tempo, lugar e pessoa, não se tem provas de que Nero tenha mandado incendiar Roma em 64 d.C., mas não há quem não tenha sido ensinado a acreditar em sua culpa.
Nos Estados Unidos, quando se ensina às crianças as virtudes da verdade, é inevitável o exemplo de George Washington: aos 6 anos, confessou ter derrubado a cerejeira favorita do pai, dizendo "não posso mentir". Na verdade, nenhuma de suas biografias confirma o episódio. O nazista Joseph Goebbels, famigerado ministro da Propaganda de Hitler, entrou para a História, entre muitas outras coisas, como tendo dito que "a mentira repetida diversas vezes se torna uma verdade". Nunca se provou que ele tivesse de fato dito isso, pelo menos com essas palavras. Mas tanto já se repetiu a frase que ninguém dirá ser mentira.

Mentirosos de mentira

De tanto inventar histórias para distrair seus amigos, o alemão Karl Friedrich Hieronymus, barão de Munchhausen (1720-1797), que serviu como mercenário no exército russo na guerra contra os turcos em 1740, acabou entrando para a História como um grande mentiroso, graças ao livro, por sinal publicado anonimamente em 1785, do escritor alemão Rudolph Erich Raspe (1737-1794). De volta dos campos de batalha, o barão contou, por exemplo, como se safara de um pantano onde caíra: puxando a si mesmo pelos cabelos. Em outra peripécia, salvou-se da morte cavalgando balas de canhão disparadas pelo inimigo. Entre uma aventura e outra, ainda achou tempo para ir à Lua - duas vezes.
Mas não há literatura que não tenha seus campeões da mentira - real ou imaginária. O escritor francês Alphonse Daudet (1840-1897) celebrizou-se graças às aventuras mentirosas de seu personagem Tartarin de Tarascon, um burguês baixinho, com certa tendência à obesidade, que se imaginava um valente herói e saía contando peripécias nunca vividas. No Brasil, o mentiroso Macunaíma, de Mário de Andrade, nem fez questão de se fingir de herói: covarde como só ele e sem nenhum caráter, Macunaíma mentia o tempo inteiro para se safar de qualquer problema - dizer a verdade, aliás, Ihe dava preguiça.
O mentiroso mais conhecido do mundo da ficção foi sem dúvida Pinocchio, o boneco de madeira criado em 1878 pelo escritor italiano Carlo Collodi. Numa tentativa de educá-lo, a fada madrinha de Pinocchio fez com que cada vez que ele mentisse o nariz crescesse. Antes que virasse um Cirano, o boneco acabou desistindo de sua vida de mentiras. Foi, talvez, o único mentiroso da literatura a optar pela verdade - pela boa e simples razão de que a verdade Ihe trazia mais vantagens do que a mentira.


Quando os animais mentem
A mentira, na natureza, é uma arma de sobrevivência. Muitas vezes, na luta contra o predador, a presa só tem chance de escapar se souber mentir bem. E o caso dos camaleões, que, graças à pigmentação especial da pele, se confundem com o ambiente. Ou de certos caranguejos, que vivem com a carapaça coberta por algas ou esponjas. Os insetos são especialistas em se fingir de cortiça ou de gravetos no tronco de árvores. Essas e muitas outras formas de mentira atendem por um único e verdadeiro nome científito - mimetismo.
O fenômeno foi estudado pela primeira vez pelo naturalista inglês Henry Walter Bates (1825-1892), que observou o comportamento das borboletas no vale do rio Amazonas. Ele descobriu uma família de borboletas que conseguia escapar dos pássaros tornando-se parecida na forma e na cor com outra família. cujo sabor não agradava às aves. As borboletas apetitosas tratavam de voar misturadas às outras. Hoje se sabe que os animais memorizam certos padrões de aparência quando associam determinada presa a um gosto nauseante ou à dor. Portanto, mentiroso competente é aquele que consegue assumir uma aparência pouco atrativa para o predador.
Existem, porém, casos de automimetismo: animais que imitam outros da própria espécie. Os zangões, por exemplo, quando estão prestes a ser atacados, voam e zumbem como abelhas, que, como bem sabem os atacantes, têm ferrões para se defender-se a mentira pega, os zangões se salvam. Nem sempre, contudo, é a presa o mentiroso. Isso acontece no caso clássico do lobo em pele de cordeiro, ou seja, o animal que finge ser manso, se aproxima calmamente de outro com ar de quem não quer nada e sai ganhando uma refeição.


Retrato de um mentiroso
Enquanto a boca mente com a maior desenvoltura, a mente se perde entre o que conhece como verdade e o que está sendo afirmado mentirosamente como verdade.
Durante esse pequeno curto-circuito, ocorrem mudanças fisiológicas comuns a todo e qualquer mentiroso: a respiração se interrompe por um segundo e depois volta num ritmo acelerado; o coração também passa a bater rápido e a transpiração aumenta. Como nada disso pode ser percebido diretamente, existe o poligrafo, ou detector de mentira, um aparelho que em contato com o peito, o pescoço e as pontas dos dedos registra em gráficos aquelas manifestações fisiológicas.
Certamente, todos os sintomas citados aparecem no mentiroso. A polêmica, porém, surge ao se levantar a possibilidade de que qualquer pessoa em estado de ansiedade - com problemas familiares, por exemplo - pode apresentar as mesmíssimas características. No Brasil, apenas a polícia de São Paulo usa o detector de mentira. Segundo o delegado Nelson Silveira Guimarães, "apesar da confiança que temos no exame, ele não é considerado prova judicial, mas apenas um indicio que pode influênciar a opinião do juiz". O detector de mentira, diz Guimarães, só não é ainda mais usado porque apenas um em cada dez suspeitos consente em submeter-se ao aparelho. Além disso, enquanto nos Estados Unidos cerca de 10 mil policiais sabem manipular o detector, no Brasil não há mais de uma dúzia de funcionários habilitados.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

'Os Simpsons' podem ganhar canal próprio de TV

16/09/2011 12h15 - Atualizado em 16/09/2011 12h19

'Os Simpsons' podem ganhar canal próprio de TV
Canal Fox tem planos de criar emissora para a animação.
Desenho está no ar há 23 anos e soma cerca de 500 episódios.


A família de 'Os Simpsons' (Foto: Divulgação)
"Os Simpsons", maior animação da história da TV americana, com 23ª temporadas e cerca de 500 episódios produzidos, pode ganhar um canal de TV próprio. Segundo o site /Film, Chase Carey, chefe-executivo de operações da News Corp., afirmou em uma conferência em Beverly Hills que a empresa está discutindo a criação de um canal cujo conteúdo seria exclusivamente da atração.
De acordo com o executivo, "não sinais" de que o programa acabe e a Fox acredita que não pode faturar com a animação apenas com a venda de merchandising e de DVDs. Ele afirmou que estão sendo feitas diversas reuniões para decidir como catalogar o extenso arquivo de "Os Simpsons". Um canal digital dedicado apenas a série é uma das melhores opções.
"O programa tem um volume único na história da televisão, não há precedentes iguais", afirmou. Caso o acordo seja fechado, ele deve demorar alguns anos para entrar no ar: um dos fatores que complicam a transformação do desenho em um canal são os acordos da produção com o sindicato de Hollywood. Segundo o /Film, a Fox precisaria ter de esperar que os contratos dos funcionários expirassem para criarem um novo acordo.
Caso o canal Os Simpsons entrasse hoje no ar, ele teria 11 dias de conteúdo sem repetição, segundo cálculos feitos pelo /Film.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Lobo-cinzento - Tudo em família


LOBO-CINZENTO: TUDO EM FAMÍLIA



Ele está sempre em algum lugar por perto, mas odeia encontro cara a cara. Prefere agir à noite, quando são menores as chances de ser pego em flagrante delito. No escuro, o lobo invade o território dos humanos e mata animais indefesos, como cordeiros e galinhas. Os uivos chorosos são o sinal de que o predador invisível está próximo. Quando o fazendeiro finalmente chega à cena do crime, só encontra penas e sangue. Esse comportamento de caça fez o estigma do lobo-cinzento, o maior e mais numeroso dos lobos: sorrateiro, desleal, quase sobrenatural na capacidade de matar e sumir. Deu origem a lendas de terror e detonou uma perseguição que quase acabou com a espécie.

O oportunismo não passa de uma estratégia de sobrevivência do lobo, animal que, se não tem o porte e a força de um leão, é inteligente o bastante para avaliar custos e benefícios nas caçadas. Mas só vai atrás de frangos quando a coisa realmente aperta - entre eles e um animal maior, como um alce, o lobo geralmente fica com o segundo. É mais vantajoso abater um jantar que dê para toda a família.

E a ajuda dos parentes - a alcatéia - é essencial no momento de encarar presas tamanho família. Um lobo-cinzento dificilmente atinge os 50 quilos - e sozinho nunca teria chances frente a um alce com dez vezes o seu peso e 2 metros de altura. "Na maioria das vezes, apenas um ou dois lobos realmente matam a presa, mas é correto dizer que todos os animais participam da caçada, porque todos ajudam a amedrontar e a cansar a vítima", diz o biólogo Marco Musiani, da Universidade de Roma, Itália.

Tudo na vida lupina gira em torno da alcatéia. Elas são compostas de seis a oito indivíduos, em média. "Mas existem alcatéias de até 20 lobos, e outras de apenas dois", afirma Marco. Independentemente do número de lobos que formam uma alcatéia, uma coisa é certa: em todas elas há uma rigorosa hierarquia. Os pais são os animais dominantes (os "alfa"), e usam linguagem corporal - andar com o rabo levantado, por exemplo - para indicar seu poder. Apenas eles podem se reproduzir dentro da alcatéia. São eles que lideram as caçadas, que demarcam o território e que ficam com os melhores pedaços das presas abatidas. E também são eles que tomam a dianteira em caso de terem de defender uma presa recém-abatida de alguma alcatéia rival.

A caçada em grupo requer planejamento. Primeiro, a alcatéia localiza a presa e se aproxima silenciosamente. Então, quando todos já estão próximos o suficiente e a presa já percebeu o ataque iminente, começa uma frenética perseguição, em que os lobos podem correr a uma velocidade de até 56 km/h. Quando estão prontos para atacar, cravam seus longos e afiados caninos geralmente no traseiro, flanco, ombros, pescoço ou nariz da presa. Depois de abatê-la, é hora de encher o estômago. No lobo, esse órgão pode armazenar cerca de 10 quilos de alimento para ser digerido depois - uma vantagem considerável, já que em ambientes selvagens nunca se sabe quando virá a próxima refeição. "Na natureza, um lobo se alimenta cerca de uma vez por semana," diz Marco Musiani.

Lobos são animais territoriais e estabelecem suas fronteiras com marcas de urina e fezes. Geralmente, eles conhecem muito bem seu pedaço de terra, que pode variar de 40 quilômetros quadrados a mais de 1 000 quilômetros quadrados. De tempos em tempos, percorrem-no para monitorar a oferta de potenciais vítimas. Um animal pode rondar até 50 quilômetros em um único dia. Ele é equipado para viagens longas: tem pernas compridas e patas largas, que o ajudam a se locomover na neve, e coração e pulmão grandes.

Outros órgãos cruciais são o nariz e os olhos. O olfato de um lobo, cerca de 100 vezes mais apurado que o nosso, permite que o animal fareje presas a até 5 quilômetros de distância. Basta um ínfimo traço de odor no ar para que o lobo consiga identificar sua possível vítima e ainda ter noção das condições de saúde dela. Além disso, um lobo enxerga tão bem à noite quanto de dia. "Suas retinas têm uma quantidade maior de células adaptadas à visão noturna", diz o biólogo Marco. Uma camada espelhada na retina reflete toda a luz disponível de volta para o olho. E sua visão periférica é sensível a movimentos repentinos.

Um incrível senso de oportunidade soma-se aos sentidos afiados do lobo. A caçada é facilitada pela escolha minuciosa da vítima, quase sempre vulnerável. A astúcia do lobo o leva aos doentes, aos feridos, aos velhos, aos filhotes. O que é bom até para as vítimas: ao matar os fracos, os lobos contribuem para uma população mais saudável de presas.
É no fim do inverno que os lobos têm mais facilidade para encontrar essas vítimas vulneráveis. A piora nas condições do tempo faz com que elas encontrem menos alimento e fiquem mais fracas - uma vantagem para o predador. A temporada de caça também é boa durante o verão, quando nascem os filhotes das presas preferidas dos lobos - que não são humanos. "A maior parte das pessoas tem muito medo de lobos. Isso é uma atitude irracional", afirma Marco Musiani. Ataques de lobos a pessoas são acontecimentos muito raros - mas ocorrem. Entre abril de 1993 e abril de 1995, eles invadiram repetidamente 63 aldeias no estado de Bihar, na Índia, e arrastaram 80 pessoas da cama para a floresta. Apenas 20 foram resgatadas. Como fazem com outros animais, os lobos preferiram atacar filhotes: 90% das vítimas eram crianças.


Sem caniço nem saburá


Lobos não são exatamente grandes pescadores, mas seu oportunismo não tem limites. Em 2002, observaram-se lobos-cinzentos capturando salmões nas regiões costeiras da Colúmbia Britânica, no oeste do Canadá. O biólogo Chris Darimont, na época um estudante da Universidade de Victoria, passou meses no arquipélago de Bella Bella estudando esse comportamento inusitado. Ele observou como os lobos caçam salmões: posicionam-se à beira da correnteza e, de repente, com um só golpe, agarram o peixe com a boca. Em uma única noite, uma alcatéia capturou nada menos que 200 salmões. O biólogo também observou lobos se alimentando de mexilhões e mariscos.


Fatos selvagens




Nome vulgar

Lobo-cinzento



Nome científico

Canis lupus



Dimensões

Até 2,1 metros de comprimento (do focinho à ponta da cauda) e 1 metro de altura



Peso

Até 50 quilos



Principais armas

Seus longos e afiados dentes caninos, além da caça em grupo



Comportamento social

O lobo costuma viver em grupos compostos geralmente por seis a oito indivíduos



Ataques a humanos

São raros. No entanto, podem acontecer, como os de Bihar, Índia



Quanto come

Cerca de 1 quilo por dia



Expectativa de vida

Em ambientes selvagens, lobos vivem entre 6 e 8 anos. Em cativeiro, esse número aumenta para até 20 anos



Dieta

Cervos, alces, veados, caribus, bisões, renas, búfalos, castores, coelhos



Principais inimigos

Ursos grizzly



Se você encontrar um
Não o alimente nem tente chegar perto. Se ele se mostrar agressivo ou se aproximar demais de você sem demonstrar medo, levante os braços e os agite no ar, para fazer com que você se pareça maior do que é. Afaste-se lentamente, sem dar as costas ao animal


Para saber mais




Na livraria

The Wolf Almanac - Robert H. Bush, Lyons Press, EUA, 1998

Wolves - Behavior, Ecology and Conservation - L. David Mech e Luigi Boitani, University of Chicago Press, EUA 2003



Nas bancas - DVD
Território Selvagem - Lobo - Documentário produzido pela BBC e lançado no Brasil pela revista Super.



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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A regra é não ter regra - Familia


A REGRA É NÃO TER REGRA - Familia



Seu pai trabalha fora, sua mãe fica em casa cuidando dos quatro filhos e seus irmãos, quando terminam os estudos, casam-se e saem de casa? Se a resposta for afirmativa, saiba que sua família está prestes a virar peça de museu. Nos últimos 30 anos, o modelo tradicional de família sofreu profundas alterações. Crianças acostumaram-se a ter duas casas por causa do divórcio dos pais. Mães e pais solteiros começaram a tornar-se comuns. Mulheres entraram no mercado de trabalho e passaram a sustentar suas casas. Casais homossexuais saíram do armário e adotaram filhos... Nos próximos 20 anos, segundo vários pesquisadores, a tendência é que esses novos modelos familiares se consolidem. Todos eles.

Isso quer dizer que não vai existir uma "família-modelo" como a de nossos pais ou avós. No começo do século passado, as famílias eram quase sempre iguais. O núcleo era patriarcal: o pai fazia as vezes de "homem da família", trabalhava fora e era o único responsável pelo sustento da mulher e dos vários filhos. À mãe cabia o papel de educadora dos filhos e "rainha do lar". Ela cuidava da limpeza da casa, do preparo das refeições, da educação das crianças. Os filhos cresciam, estudavam e saíam de casa assim que arrumavam o primeiro emprego - para casar-se e começar a mesma história tudo de novo.

Mas, nas últimas décadas, o conceito de família começou a se alterar profundamente. A seqüência casamento-sexo-filho mudou - muitas vezes, já nem existe o casamento. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2002 mostram que os brasileiros estão se casando cada vez menos. A taxa de matrimônios caiu de 8 por mil habitantes em 1990 para 5,7 por mil em 2001. Enquanto isso, no mundo todo, as taxas de coabitação, ou seja, de pessoas que simplesmente vão morar juntas, triplicou. Aqui no Brasil, entre 1991 e 2000, esse tipo de união chegou a 28,9% do total.

Por outro lado, o divórcio, que apareceu no século 20 como um dos principais agentes de mudança da família tradicional, não pára de crescer. Nos últimos 30 anos, os índices dobraram. No Brasil, estima-se que, a cada dez casamentos, três acabem em separação. É cada vez mais comum encontrar crianças que dividem seu tempo entre a casa da mãe e a do pai.

Outra mudança considerável foi o aumento do número de pais solteiros. Nos Estados Unidos, o número deles aumentou em 25% nos últimos cinco anos. No Brasil, dados do último censo do IBGE revelam que o crescimento foi ainda mais significativo. Em dez anos, o número de homens que cuidam de seus filhos em casa subiu 74,5%. No mesmo período, o número de mães solteiras cresceu 58,8%.



A FAMÍLIA ENCOLHEU

Especialistas acreditam que tendências como divórcio, coabitação, filhos fora do casamento e pais solteiros serão ainda mais pronunciadas em 2020. Ao mesmo tempo, as famílias nos moldes tradicionais devem continuar encolhendo. De acordo com o IBGE, em 1980 as famílias tinham, em média, 4,5 integrantes. Em 1992, o tamanho médio passou para 3,7 pessoas. Em 2001, caiu para 3,3 pessoas.

"Isso não quer dizer que as famílias vão desaparecer", diz a psicanalista Belinda Mandelbaum, do Laboratório de Estudos da Família, Relações de Gênero e Sexualidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). "A família é universal e tem diversas funções. Atende a necessidades econômicas, uma vez que é muito mais fácil manter-se com ajuda de alguém; tem função afetiva, já que é uma espécie de ancoradouro dos indivíduos; e tem função social, pois é através dos laços que formam uma família que o tecido social fica coeso. E isso tudo não vai mudar."

Para Belinda, a família tem a capacidade de se adaptar ao momento histórico. "A entrada da mulher no mercado de trabalho, por exemplo, foi um fator fundamental para a mudança da família dos últimos tempos", diz. De fato, de acordo com o IBGE, hoje existem 13,8 milhões de famílias (27,3% do total) nas quais a mulher é a "pessoa de referência". Ou seja, é ela quem trabalha e coloca dinheiro na casa.

Belinda acredita que, nos próximos 20 anos, a regra será não ter regra. "Não vai haver uma fórmula, porque as opções são múltiplas." Quer um exemplo? Embora as estatísticas apontem a tendência de famílias menores, Belinda diz que vem percebendo uma mudança ainda não refletida nas pesquisas: o retorno das famílias extensas. "Antigamente, era muito comum, principalmente no ambiente rural, que avós, pais e netos vivessem juntos", diz. "Hoje em dia, por causa do desemprego, muitos pais de família, com seus filhos, estão voltando para a casa de seus pais. E são eles, os aposentados, que mantêm a todos."

O novo Código Civil Brasileiro, que entrou em vigor em 2003, é um reflexo da mudança comportamental da família. A começar pela definição de "família". No antigo Código, de 1916, a família legítima era a formada pelo casamento formal. Já no novo conjunto de leis, o conceito abrange as unidades familiares formadas por casamento, união estável ou comunidade de qualquer genitor e descendente.

Se, por um lado, o século passado se caracterizou por profundas mudanças na estrutura familiar, os próximos anos devem ser marcados pela consolidação de aceitação de todas essas mudanças. Quando o divórcio surgiu, os casais que optavam por ele eram estigmatizados. Hoje é perfeitamente comum e aceitável. Segundo especialistas, o mesmo deverá ocorrer, em alguns anos, com os pais solteiros e com os casais homossexuais.



TENHO DOIS PAIS

Famílias completas compostas de pais gays e mães lésbicas costumam se enquadrar em uma das três situações seguintes: a) pessoas que assumem a homossexualidade depois de um casamento heterossexual no qual tiveram filhos; b) homossexuais que adotam filhos; c) lésbicas que fazem inseminação artificial. Embora esse fenômeno ainda não tenha sido dimensionado no Brasil, acredita-se que a situação seja similar à dos Estados Unidos. Lá, 22% dos casais gays têm a guarda de seus filhos.

O interessante é que justamente esse grupo parece buscar o modelo antigo de família. "Um fenômeno atual e bastante curioso é que há uma espécie de luta entre os componentes de um casamento homossexual para que ele seja reconhecido como família, como um casal realmente", diz a psicanalista Belinda. "Eles tomam como referência a tradicional família burguesa na medida em que tentam ser um casal que apresenta as funções masculina e feminina, paterna e materna. Eles podiam tentar algo revolucionário, mas apenas buscam manter o status quo."

Todas essas mudanças podem dar um nó na cabeça das pessoas - principalmente das crianças. Uma pesquisa britânica mostra, por exemplo, que filhos de pais divorciados têm, em média, uma taxa de aprendizado educacional menor que a de filhos de pais casados. Além disso, famílias pequenas e dispersas podem trazer à tona um sentimento nada agradável: a solidão. Para combatê-la, vai ser cada vez mais comum pessoas "adotarem" seus amigos como parte da família - como acontecia no finado seriado de TV Friends. "Do ponto de vista sociológico e antropológico, a família é uma relação de alianças, afinidades e também de consangüinidade", diz Belinda. "Mas, do ponto de vista psicológico, os amigos podem ser vistos como uma família que não existe."
Na opinião da psicóloga Renate Vicente, coordenadora do núcleo de Terapia Familiar da PUC do Paraná, os próximos anos serão um período de superação de algumas contradições. "As mães que trabalham fora ainda são condenadas pela sociedade quando os filhos têm problemas, por exemplo. E acabam se culpando", diz. Renate "Além disso, ninguém pode falar mal de casais homossexuais porque isso é preconceito, mas eles ainda não podem adotar filhos." Para Renate, nos próximos anos isso tudo - com o perdão do trocadilho - vai ser coisa do passado. "Com certeza, será um tempo bom e teremos novos paradigmas. Que estarão aí para serem questionados novamente."


Tendências




- DIMINUINDO

Em 1980, as famílias brasileiras tinham em média 4,5 integrantes. Em 2001, caíram para 3,3 pessoas. A tendência é que continuem encolhendo.



- DUPLO ENDEREÇO

Vai ser cada vez mais comum encontrar crianças que dividem seu tempo entre a casa da mãe e a do pai - a cada dez casamentos no Brasil, três acabam em separação.



- VOLTANDO PARA CASA

Por causa do desemprego, muitos pais de família, com seus filhos e tudo, estão voltando para a casa dos pais. E os avós sustentam todo mundo.



- AMIGOS
Para combater a solidão, muita gente vai "adotar" seus amigos como parte da família - como acontecia no seriado de TV Friends.

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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Inteligência Animal

INTELIGÊNCIA ANIMAL



Na floresta Kibale, em Uganda, uma família de chimpanzés se alimenta no alto de uma figueira. Ao terminar a refeição, mãe e dois filhos pulam para outra árvore. Mas falta coragem à filhote caçula, que fica onde está. Paralisada, ela começa a gritar. Para ajudá-la, a mãe se aproxima da cria e balança a figueira para os lados, até aproximá-la da árvore vizinha. Ela então agarra um ramo e com o corpo forma uma ponte natural por onde a macaquinha atravessa sã e salva.
A cena foi presenciada em 1987 pelo psicólogo Marc Hauser, da Universidade Harvard, que ficou maravilhado. Teria sido intencional? Será que a mãe visualizou a imagem de seu corpo formando a ponte? Ou será que só estava tentando ensinar a filhote a saltar, e ela espertamente aproveitou a chance?
Para quase todos nós, o encantamento com bichinhos fofos que parecem agir de caso pensado torna fácil trocar as interrogações acima por pontos finais. Pesquisadores como Hauser, no entanto, têm se dedicado a encontrar respostas científicas para decifrar a inteligência animal. Eles querem entender o que realmente se passa na mente dos bichos. E como esses processos acontecem. Uma baleia pode ter cultura? Macacos são capazes de traçar estratégias de caça ou construir ferramentas? Insetos têm memória?
Consenso existe apenas para o ponto de partida. De acordo com César Ades, um dos maiores especialistas em comportamento animal do Brasil, cientistas acreditam que a capacidade de pensar pode ter surgido independentemente em vários animais, e não somente nos mais próximos dos humanos na cadeia evolutiva. Até aí, tudo bem. Mas quais tipos de comportamentos podem ser apontados como frutos dessa habilidade? "A melhor definição para inteligência é a habilidade de resolver problemas", afirma o pesquisador Culum Brown, da Universidade de Edimburgo, na Escócia.
Em seu livro Wild Minds ("Mentes Selvagens", sem tradução para o português), Marc Hauser propõe que vários aspectos da nossa cognição são encontrados nos outros animais. É o que ele chama de "kit de ferramentas", um conjunto de habilidades como reconhecer a função de um objeto, ter noção de quantidade e de direção. A partir daí, os animais evoluíram de acordo com suas necessidades. "Cada espécie é ‘esperta’ à sua maneira, porque evoluiu respondendo a pressões diferentes. Não podemos compará-las", diz o pesquisador Eduardo Ottoni, da USP. A maioria é, de modo geral, equipada com mecanismos de aprendizado que podem ocorrer por dedução ou tentativa e erro e se espalhar por imitação ou pelo ensinamento entre indivíduos. Mas para alguns animais foi mais vantajoso manter-se baseado apenas no instinto. Outros tiveram de aprimorar o kit diante de dificuldades, modificar seu comportamento e transmiti-lo para as próximas gerações. Foi o que aconteceu com os humanos. Mas, se olharmos de perto, macacos, cachorros e corvos têm em seus kits ferramentas muito parecidas com as dos humanos. As nossas até podem ser mais sofisticadas, mais complexas. Mas as deles funcionam perfeitamente para o que eles precisam. É o que você verá abaixo.

Memória
Quando o estúdio Pixar colocou no filme Procurando Nemo uma peixinha que esquecia tudo em poucos segundos, estava brincando com uma idéia que por muito tempo existiu na comunidade científica: peixes teriam memória de apenas três segundos. Estudos recentes mostram que isso é balela. Esses animais são capazes de lembrar e ainda guardam as informações a longo prazo. Foi o que comprovou o pesquisador Culum Brown. Ele prendeu um grupo de peixes arco-íris australianos num tanque e os treinou para encontrar uma saída. Após cinco tentativas, todos conseguiam achá-la. Onze meses depois, o pesquisador refez o teste. Dessa vez, os peixes localizaram a saída na primeira tentativa.
Graças à memória, peixes também reconhecem outros indivíduos. Ao presenciar uma luta, o animal não apenas retém informações, como cria um ranking de lutadores. No futuro, ele evitará brigas com os fortões. Cardumes também são capazes de aprender e memorizar a se desvencilhar de redes ou então viajar em formações que os protegem de predadores.
Traços de memória também foram detectados numa das últimas espécies em que se esperaria encontrar essas características: as aranhas. Antes vistas como um daqueles animais para quem manter-se atrelado ao instinto teria sido mais útil, elas têm surpreendido os cientistas. Um estudo a apontar nesse sentido foi feito por César Ades, que analisou a reação da aranha-dos-jardins (Argiope argentata). De um modo geral, quando um inseto cai na teia, a aranha libera um veneno paralisante e envolve a presa com fios de seda para levá-la ao centro da teia, onde vai devorá-lo. Se nesse tempo outro animal for capturado, a aranha deixa a primeira presa amarrada e corre até a nova para repetir o procedimento. César descobriu que, para reencontrar a primeira presa, a aranha depende da memória. Para chegar a essa conclusão, ele retirou uma mosca amarrada na periferia. E percebeu que a aranha, sem contar com a ajuda de um marcador, como o feromônio utilizado pelas formigas, retornava exatamente ao local onde a presa estava originalmente.

Comunicação
Quem tem cachorro costuma ter uma frase na ponta da língua para se gabar da destreza do seu animal: "É tão inteligente que só falta falar". É verdade que os cães continuam nos devendo um bate-papo, mas comunicar o que querem e entender o que as pessoas estão lhes dizendo já parecem fazer parte de suas habilidades.
Recentemente dois animais ficaram famosos: o border collie alemão Rico, de 10 anos, que consegue entender cerca de 200 palavras, e Sofia, uma legítima vira-lata "puro-sangue" brasileira de 3 anos, que demonstra o que deseja por meio de um painel com diversos símbolos.
Pesquisadores descobriram que Rico não só decorou os nomes de seus brinquedos como também é capaz de pegar, em meio a objetos familiares, um outro que não conhecia, após ouvir seu nome. A conclusão é que ele conseguiu associar a palavra nova ao objeto diferente. Os cientistas agora querem desenvolver uma mini-sintaxe com o cachorro e testar se ele entende frases mais complexas, como "pegue a bola e coloque na casinha".
Essa também é a meta do grupo de pesquisadores brasileiros que está trabalhando com Sofia. A cadelinha manuseia um painel de símbolos. Para receber carinho, comer, passear, brincar, beber água, fazer xixi ou ir para a casinha ela aperta a tecla correspondente, que emite um som com a ação. É uma capacidade que seres humanos geralmente adquirem por volta dos 3 anos de idade.
Em outras ocasiões, Sofia foi capaz de combinar símbolos para se comunicar, como quando o zootecnista Alexandre Rossi, seu dono e treinador, escondeu um osso dentro da casinha. Inicialmente, a cadela apertou a tecla brinquedo. Ao perceber que o osso havia sido escondido, Sofia apertou a tecla da casinha e logo em seguida a de brinquedo.
Sofia domina um vocabulário razoavelmente menor que o de Rico. Mas seus treinadores acreditam que ela esteja um passo à frente. Os pesquisadores conseguiram juntar um verbo e um objeto em suas ações. Ela entende, por exemplo, as diferenças entre "apontar casa" e "buscar a bola". Agora eles testam se ela sabe distinguir marcações de espaço nessas ações, como "em cima", "embaixo", "direita" e "esquerda".

Cultura
Imo é uma macaquinha especial. Sozinha, ela criou comportamentos que mudaram o estilo de vida de uma espécie japonesa (Macaca fuscata) da ilha de Koshima. No começo da década de 50, pesquisadores perceberam que ela, por alguma razão, passou a lavar a batata-doce antes de levá-la à boca. Até então, os animais simplesmente enfiavam o alimento na boca com terra e tudo. Gradualmente o comportamento se espalhou na comunidade. Após algum tempo, vários dos filhotes já repetiam a técnica, visível hoje entre quase toda a população da ilha de Koshima.
Imo, que em japonês quer dizer batata-doce, não parou por aí. Alguns anos depois ela arrumou um jeito de peneirar o trigo que era espalhado na areia pelos pesquisadores que observavam o grupo. Inicialmente os macacos pegavam os grãos um a um, e demoravam um tempão. Mas um dia Imo teve a brilhante idéia de pegar um punhado de trigo e areia e levar até a água. A vantagem da técnica foi clara: a água facilmente separava os grãos da areia, e ela pôde comer tranqüilamente. Assim como as batatas, a lavagem do trigo não demorou para se espalhar pelo grupo.
Lavar batatas não é como escrever livros ou cantar ópera. Mas o que Imo fez - desenvolver um novo comportamento e depois repassá-lo aos seus semelhantes - é algo que pesquisadores nem cogitavam ser possível duas décadas atrás. Ela transmitiu cultura.
Outro exemplo bacana é um caso curioso observado entre baleias-jubartes da costa australiana, espécie em que os machos emitem um som musical provavelmente para atrair as fêmeas. Uma verdadeira revolução cultural teve lugar por lá quando, em 1987, um grupo de cantores do Pacífico Sul abandonou totalmente sua melodia para adotar a de colegas do oceano Índico. A mudança ocorreu após um perído de convivência entre os dois bandos. Aparentemente, alguns "menestréis" que viviam na região do Pacífico se deram conta de que os colegas do Índico faziam mais sucesso com as meninas. E tudo isso graças ao canto deles. A solução foi mudar a música para não ficar no atraso com a baleiada.

Planejar estratégias
Chimpanzés que habitam a floresta Taï, na Costa do Marfim, usam um sistema de caça que se assemelha à tática de um time de futebol quando querem capturar sua refeição favorita, o macaco-colobo-vermelho. Como a presa é menor, mais rápida e pode se refugiar em locais inacessíveis aos chimpanzés, os primatas desenvolveram um modo de agir em equipe para conseguir encurralá-lo.
Para isso, dividem-se em pelo menos quatro funções: o condutor, que persegue a vítima, direcionando seu caminho; o bloqueador, que sobe nas árvores para fechar as opções de fuga; o perseguidor, que seleciona o alvo e tenta a captura em movimentos rápidos; e o responsável pela emboscada, cuja missão é prever o trajeto do colobo e bloquear suas rotas. Esse último é uma espécie de centroavante do time, que se antecipa ao adversário para finalizar a jogada.
O "centroavante" é sempre um animal com mais experiência - o domínio da arte da caça leva cerca de 20 anos. Quanto mais velho, mais o chimpanzé é capaz de fazer antecipações e de menos movimentos ele precisa para atingir seu objetivo. Futebolisticamente falando, ele é uma espécie de Romário. Toca pouco na bola, mas quando o faz, quase sempre está bem colocado e marca o gol.
Também as guerras entre esses animais possuem táticas avançadas. Chimpanzés são capazes de variar estratégias de acordo com o adversário e o time à disposição para a partida. Quanto menor o exército, mais defensiva será a tática. Mas, se o bando for numeroso, a opção é fazer um ataque frontal e impactante. Também há operações em que fêmeas, jovens e idosos ficam na retaguarda, batucando e gritando, para criar a impressão de que a tropa de machos é mais numerosa. E, se as forças são iguais, geralmente um lado faz o movimento e aguarda a resposta do rival. Nesse caso, grupos de chimpanzés invadem o território inimigo para espalhar o terror e assustar rivais que perambulam desacompanhados. Em algumas ocasiões esse tipo de comando foi visto aprisionando e torturando fêmeas isoladas.

Uso de ferramentas
Pesquisadores que observam grandes primatas em florestas da África já flagraram esses animais usando todo tipo de ferramenta. Para coletar frutos em árvores espinhosas, calçam ramos lisos sob os pés, como se fossem sandálias. Outros aproveitam folhas largas como almofadas para sentar no chão úmido sem molhar o traseiro. Enfiar galhos em cupinzeiros para pegar os insetos também é freqüente. Em um nível mais avançado, alguns animais usam pedras como bigorna e martelo para abrir nozes ou coquinhos - uma pedra maior relativamente plana serve de base, onde é posicionado o fruto, que é golpeado com uma pedra menor.
A surpresa veio quando cientistas observaram que não eram apenas os grandes primatas que dominavam esse tipo de técnica. Pequenos macacos-pregos também eram capazes de usar rochas para quebrar cascas e transmitir esse conhecimento para o grupo. A descoberta gerou uma dúvida. Ao observar a habilidade em chimpanzés, imagina que ela tenha surgido em algum momento da evolução dos macacos que deram origem aos hominídeos. Mas o macaco-prego subverte essa idéia. Como poderia um animalzinho separado da nossa linhagem na evolução há mais de 40 milhões de anos aprender a usar ferramentas? Para o pesquisador da USP Eduardo Ottoni, que descobriu a proeza dos macacos-pregos no Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo, não deveríamos considerar o fato com estranheza, mas sim pensar em quais pressões no processo seletivo promoveram tal desempenho. Mais uma vez, é a espécie se adequando às necessidades que o meio impõe.
Se os pregos surpreenderam os cientistas, que dizer então de corvos da Nova Caledônia, na Oceania, que se mostraram capazes de manipular pequenos ramos para pegar insetos em buracos estreitos? O desempenho desses animais na natureza já era considerado incrível por conta da utilização de ferramentas naturais para se alimentar. Mas o que fez a fama deles foi um teste de laboratório na Universidade de Oxford em 2002. Enquanto estudava alguns corvos, o pesquisador Alex Kacelnik flagrou a fêmea Betty criando uma ferramenta. Com o intuito de comer um pedaço de alimento colocado no fundo de um tubo de ensaio, ela transformou em gancho um arame que estava por perto. O feito ganhou destaque porque levantou a suspeita de que talvez Betty compreendesse a conseqüência do ato. "Convivemos nesse planeta com animais pensantes", diz Marc Hauser. "Cada espécie, com sua mente única, favorecida pela natureza e moldada pela evolução, é capaz de enfrentar os mais fundamentais desafios que o mundo apresenta. Apesar de a mente humana deixar uma marca característica no planeta, nós certamente não estamos sozinhos nesse processo", afirma ele. A natureza pode ser mais sábia do que parece.