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sábado, 18 de agosto de 2018

Inocência - Parte 1 de 4 - Visconde de Taunay


Inocência - Parte 1 de 4 - Visconde de Taunay


Inocência é um romance regionalista brasileiro de Alfredo d'Escragnolle Taunay, dividido em 30 capítulos - que são introduzidos por uma citação - mais um epílogo.

Foi publicado em 1872 e retrata costumes, pessoas e ambientes do leste sul-mato-grossense (sertão), notadamente a cidade de Paranaíba e a frente colonizadora dos Garcia Leal.

Como o Romantismo estava em decadência na época em que a obra foi escrita, pode-se considerá-la de transição para o Naturalismo, devido a uma grande e infalível caracterização do homem como produto do meio, isto é, ele age de acordo com o tipo de vida que leva.


       I-O SERTÃO E O SERTANEJO
     
         Todos vos bem sentis a ação secreta Da natureza em seu governo eterno, E de íntimas camadas subterrâneas. Da vida o indicio a
superfície emerge.
       
          (Goethe, Fausto, 2ª parte)
       
         Então com passo tranqülo metia-me eu por algum recanto da floresta, algum lugar deserto, onde nada me indicasse a mão do homem,
me denunciasse a servidão e o domínio; asilo em que pudesse crer ter primeiro entrado, onde nenhum importuno viesse interpor-se entre mim e
a natureza.
       
                                                          (J. J. Rousseau, O Encanto da Solidão)
     
        Corta extensa e quase despovoada zona da parte sul-oriental da vastíssima província de Mato
Grosso a estrada que da Vila de Sant'Ana do Paranaíba vai ter ao sitio abandonado de Camapuã. Desde
aquela povoação, assente próximo ao vértice do ângulo em que confinam os territórios de São Paulo, Minas
Gerais, Goiás e Mato Grosso até ao Rio Sucuriú, afluente do majestoso Paraná, isto é, no desenvolvimento
de muitas dezenas de léguas, anda-se comodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chegadas
umas às outras, rareiam, porem, depois as casas, mais e mais, e caminham-se largas horas, dias inteiros sem
se ver morada nem gente até ao retiro de João Pereira, guarda avançada daquelas solidões, homem chão e
hospitaleiro, que acolhe com carinho o viajante desses alongados paramos, oferece-lhe momentâneo
agasalho e o provê da matalotagem precisa para alcançar os campos de Miranda e Pequiri, ou da Vacaria e
Nioac, no Baixo Paraguai.
     
        Ali começa o sertão chamado bruto.
     
        Pousos sucedem a pousos, e nenhum teto habitado ou em ruínas, nenhuma palhoça ou tapera dá
abrigo ao caminhante contra a frialdade das noites, contra o temporal que ameaça, ou a chuva que está
caindo. Por toda a parte, a calma da campina não arroteada; por toda a parte, a vegetação virgem, como
quando aí surgiu pela vez primeira.
     
        A estrada que atravessa essas regiões incultas desenrola-se à maneira de alvejante faixa, aberta que
é na areia, elemento dominante na composição de todo aquele solo, fertilizado aliás por um sem-número de
límpidos e borbulhantes regatos, ribeirões e rios, cujos contingentes são outros tantos tributários do claro e
fundo Paraná ou, na contravertente, do correntoso Paraguai.
     
        Essa areia solta, e um tanto grossa, tem cor uniforme que reverbera com intensidade os raios do Sol,
quando nela batem de chapa. Em alguns pontos é tão fofa e movediça que os animais das tropas viageiras
arquejam de cansaço, ao vencerem aquele terreno incerto, que lhes foge de sob os cascos e onde se enterram
até meia canela.
     
        Freqüentes são também os desvios, que da estrada partem de um e outro lado e proporcionam, na
mata adjacente, trilha mais firme, por ser menos pisada.
     
        Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em compensação mui variadas se mostram as
paisagens em torno.
     


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        Ora e a perspectiva dos cerrados, não desses cerrados de arbustos raquíticos, enfezados e
retorcidos de São Paulo e Minas Gerais, mas de garbosas e elevadas árvores que, se bem não tomem, todas,
o corpo de que são capazes à beira das águas correntes ou regadas pela linfa dos córregos, contudo
ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na casca lisa a força da seiva
que as alimenta; ora são campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de viridente e
mimosa grama, toda salpicada de silvestres flores; ora sucessões de luxuriantes capões, tão regulares e
simétricos em sua disposição que surpreendem e embelezam os olhos; ora, enfim, charnecas meio
apauladas, meio secas, onde nasce o altivo buriti e o gravata entrança o seu tapume espinhoso.
     
        Nesses campos, tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e ressecado pelo ardor do Sol
transforma-se em vicejante tapete de relva, quando lavra o incêndio que algum tropeiro, por acaso ou mero
desenfado, ateia com uma faúlha do seu isqueiro.
     
        Minando à surda na touceira, queda a vivida centelha. Corra daí a instantes qualquer aragem, por
débil que seja, e levanta-se a língua de fogo esguia e trêmula, como que a contemplar medrosa e vacilante os
espaços imensos que se alongam diante dela. Soprem então as auras com mais força, e de mil pontos, a um
tempo, rebentam sôfregas labaredas que se enroscam umas nas outras, de súbito se dividem, deslizam,
lambem vastas superfícies, despedem ao céu rolos de negrejante fumo e voam, roncando pelos matagais de
tabocas e taquaras, até esbarrarem de encontro a alguma margem de rio que não possam transpor, caso não
as tanja para além o vento, ajudando com valente fôlego a larga obra de destruição.
     
        Acalmado aquele ímpeto por falta de alimento, fica tudo debaixo de espessa camada de cinzas. O
fogo, detido em pontos, aqui, ali, a consumir com mais lentidão algum estorvo, vai aos poucos morrendo até
se extinguir de todo, deixando como sinal da avassaladora passagem o alvacento lençol, que lhe foi
seguindo os velozes passos
     
        Através da atmosfera enublada mal pode então coar a luz do Sol. A incineração é completa, o calor
intenso, e nos ares revoltos volitam palhinhas carboretadas, detritos, argueiros e grânulos de carvão que
redemoinham, sobem, descem e se emaranham nos sorvedouros e adelgaçadas trombas, caprichosamente
formadas pelas aragens, ao embaterem umas de encontro às outras.
     
        Por toda a parte melancolia; de todos os lados tétricas perspectivas.
     
        É cair, porém, daí a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de fada andou por aqueles
sombrios recantos a traçar às pressas jardins encantados e nunca vistos. Entra tudo num trabalho intimo de
espantosa atividade. Transborda a vida. Não há ponto em que não brote o capim, em que não desabrochem
rebentões com o olhar sôfrego de quem espreita azada ocasião para buscar a liberdade, despedaçando as
prisões de penosa clausura.
     
        Aquela instantânea ressurreição nada, nada pode pôr peias.
     
        Basta uma noite, para que formosa alfombra verde, verde-claro, verde-gaio, acetinado, cabra todas
as tristezas de há pouco. Aprimoram-se depois os esforços; rompem as flores do campo que desabotoam as
carícias da brisa as delicadas corolas e lhe entregam as primícias dos seus cândidos perfumes.
     
        Se falham essas chuvas vivificadoras, então, por muitos e muitos meses, ai ficam aquelas
campinas, devastadas pelo fogo, lugubremente iluminadas por avermelhados clarões sem uma sombra, um
sorriso, uma esperança de vida, com todas as suas opulências e verdejantes pimpolhos ocultos, como que
raladas de dor e mudo desespero por não poderem ostentar as riquezas e galas encerradas no ubertoso seio.
     


[Linha 100 de 6572 - Parte 1 de 4]


        Nessas aflitas paragens, não mais se ouve o piar da esquiva perdiz, tão freqüente antes do incêndio.
Só de vez em quando ecoa o arrastado guincho de algum gavião, que paira lá em cima ou bordeja ao
chegar-se à terra, a fim de agarrar um ou outro réptil chamuscado do fogo que lavrou.
     
        Rompe também o silêncio o grasnido do caracará, que aos pulos procura insetos e cobrinhas ou,
junto ao solo, segue o vôo dos urubus, cujos negrejantes bandos, guiados pelo fino olfato, buscam a carniça
putrefata.
     
        É o caracará comensal do urubu. De parceria se atira, quando urgido pela fome, à rês morta e,
intrometido como é, a custo de alguma bicada do pouco amável conviva, belisca do seu lado no imundo
repasto.
     
        Se passa o caracará a vista do gavião, precipita-se este sobre ele com vôo firme, dá-lhe com a ponta
da asa, atordoa-o, atormenta-o só pelo gosto de lhe mostrar a incontestada superioridade.
     
        Nada, com efeito, o mete em brios.
     
        Pelo contrário, mal levou dois ou três encontrões do miúdo, mas audaz adversário, baixa prudente
à terra e põe-se ai desajeitadamente aos saltos. apresentando o adunco bico ao antagonista, que com a
extremidade das asas levanta pó e cinza, tão de perto as arrasta ao chão.
     
        Afinal, de cansado, deixa o gavião o folguedo, segurando de um bote a serpesinha, que em custoso
rasto, procurava algum buraco onde fosse, mais a salvo, pensar as fundas queimaduras.
     
        * * *
        Tais são os campos que as chuvas não vêm regar.
     
        Com que gosto demanda então o sertanejo os capões que lá de bem longe se avistam nas encostas
das colinas e baixuras, ao redor de alguma nascente orlada de pindaíbas e buritis?!
     
        Com que alegria não saúda os formosos coqueirais, núncios da linfa que lhe há de estancar a sede
e banhar o afogueado rosto?!
     
        Enfileiram-se às vezes as palmeiras com singular regularidade na altura e conformação; mas não
raro amontoam-se em compactos maciços, dos quais se segregam algumas mais e mais, a acompanhar com
as raízes qualquer tênue fio d'água, que coleia falto de forças e quase a sumir-se na ávida areia.
     
        Desde longe dão na vista esses capões.
     
        É a princípio um ponto negro, depois uma cúpula de verdura, afinal, mais de perto, uma ilha de
luxuriante rama, oásis para os membros lassos do viajante exausto de fadiga, para os seus olhos
encandeados e sua garganta abrasada.
     
        Então, com sofreguidão natural, acolhe-se ele ao sombreado retiro, onde prestes desarreia a
cavalgadura, à qual dá liberdade para ir pastar, entregando-se sem demora ao sono reparador que lhe trará
novo alento para prosseguir na cansativa jornada.
     
        Ao homem do sertão afiguram-se tais momentos incomparáveis acima de tudo quanto possa idear
a imaginação no mais vasto circulo de ambições.
     


[Linha 150 de 6572 - Parte 1 de 4]


        Satisfeita a sede que lhe secara as fauces, e comidas umas colheres de farinha de mandioca ou de
milho, adoçada com rapadura, estira-se a fio comprido sobre os arreios desdobrados e contempla
descuidoso o firmamento azul, as nuvens que se espacejam nos ares, a folhagem lustrosa e os troncos
brancos das pindaíbas a copa dos ipês e as palmas dos buritis a ciciar a modo de harpas eólias, músicas sem
conta com o perpassar da brisa.
     
        Como são belas aquelas palmeiras!
     
        O estípite liso, pardacento, sem manchas mais que pontuadas estrias, sustenta denso feixe de
pecíolos longos e canulados, em que assentam flabelas abertas como um leque, cujas pontas se acurvam
flexíveis e tremulantes.
     
        Na base em torno da coma, pendem, amparados por largas espatas, densos cachos de cocos tão
duros, que a casca luzidia, revestida de escamas romboidais e de um amarelo alaranjado, desafia por algum
tempo o férreo bico das araras.
     
        Também, com que vigor trabalham as barulhentas aves antes de conseguir a apetecida e saborosa
amêndoa! Em grupos juntam-se elas, umas vermelhas como chispas soltas de intensa labareda, outras
versicolores, outras, pelo contrário, de todo azuis, de maior viso e que, por parecerem negras em distancia,
têm o nome de araraúnas. Ali ficam alcandoradas, balouçando-se gravemente e atirando de espaço a espaço,
às imensidades das dilatadas campinas notas estridentes, quando não seja um clamor sem fim, ao quererem
multas disputar o mesmo cacho. Quase sempre, porém, estão a namorar-se aos pares, pousadas uma bem
encostadinha à outra.
     
        Vê tudo aquilo o sertanejo com olhar carregado de sono. Caem-lhe pesadas as pálpebras; bem se
lembra de que por ali podem rastejar venenosas alimárias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais
preocupação, adormece com serenidade.
     
        Correm as horas vem o Sol descambando; refresca a brisa, e sopra rijo o vento. Não ciciam mais os
buritis; gemem, e convulsamente agitam as flabeladas palmas.
     
        É a tarde que chega.
     
        Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os braços; boceja; bebe um
pouco d'água; fica uns instantes sentado, a olhar de um lado para outro, e corre afinal a buscar o animal, que
de pronto encilha e cavalga.
     
        Uma vez montado, lá vai ele a passo ou a trote, bem disposto de corpo e de espírito, por aqueles
caminhos além, em demanda de qualquer pouso onde pernoite.
     
        Quanta melancolia baixa à terra com o cair da tarde!
     
        Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar acabrunhadora. Enegrece o solo; formam
os matagais sombrios, maciços, e ao longe se desdobra tênue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no
qual, como linhas a meio apagadas, ressaltam os troncos de uma ou outra palmeira mais alterosa.
     
        É a hora, em que se aperta de inexplicável receio o coração. Qualquer ruído nos causa sobressalto;
ora o grito aflito da zabelê nas matas, ora as plangentes notas do bacurau a cruzar os ares. Freqüente é
também amiudarem-se os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho o companheiro
extraviado, antes que a escuridão de todo lhe impossibilite a volta.


[Linha 200 de 6572 - Parte 1 de 4]


     
        Quem viaja atento às impressões intimas, estremece, mau grado seu, ao ouvir nesse momento de
saudades o tanger de um sino muito, muito ao longe, ou o silvar distante de uma locomotiva impossível. São
insetos ocultos na macega que trazem essa ilusão, por tal modo viva e perfeita que a imaginação, embora
desabusada e prevenida, ergue o vôo e lá vai por estes mundos afora a doidejar e a criar mil fantasias,
     
        * * *
     
        Espalham-se, por fim, as sombras da noite.
     
        O sertanejo que de nada cuidou, que não ouviu as harmonias da tarde, nem reparou nos
esplendores do céu, que não viu a tristeza a pairar sobre a terra, que de nada se arreceia, consubstanciado
como está com a solidão, pára, relanceia os olhos ao derredor de si e, se no lagar pressente alguma aguada,
por má que seja, apeia-se, desencilha o cavalo e reunindo logo uns gravetos bem secos, tira fogo do isqueiro,
mais por distração do que por necessidade.
     
        Sente-se deveras feliz. Nada lhe perturba a paz do espírito ou o bem-estar do corpo. Nem sequer
monologa, como qualquer homem acostumado a conversar.
     
        Raros são os seus pensamentos: ou rememora as léguas que andou, ou computa as que tem que
vencer para chegar ao término da viagem.
     
        No dia seguinte, quando aos clarões da aurora acorda toda aquela esplêndida natureza, recomeça
ele a caminhar, como na véspera, como sempre.
     
        Nada lhe parece mudado no firmamento: as nuvens de si para si são as mesmas. Dá-lhe o Sol,
quando muito, os pontos cardeais, e a terra só lhe prende a atenção, quando algum sinal mais particular pode
servir-lhe de marco miliário na estrada que vai trilhando.
     
        -Bom! exclama em voz alta e alegre ao avistar algum madeiro agigantado ou uma disposição
especial de terras, lá está a peúva grande... Cheguei ao Barranco Alto. Até ao pouso de Jacaré há quatro
léguas bem puxadas.
     
        E, olhando para o Sol, conclui:
     
        -Daqui a três horas estou batendo fogo.
     
        Ocasiões há em que o sertanejo dá para assobiar. Cantar, é raro; ainda assim, à surdina; mais uma
voz intima, um rumorejar consigo, do que notas saídas do robusto peito. Responder ao pio das perdizes ou
ao chamado agoniado da esquiva jaó, é o seu divertimento em dias de bom humor.
     
        É-lhe indiferente o urro da onça. Só por demais repara nas muitas pegadas, que em todos os
sentidos ficam marcadas na areia da estrada.
     
        -Que bichão! murmura ele contemplando um rasto mais fortemente impresso no solo; com um
bom onceiro não se me dava de acuar este diabo e meter-lhe uma chumbada no focinho.
     
        O legitimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em geral, família. Enquanto moço, seu fim
único é devassar terras, pisar campos onde ninguém antes pusera pé, vadear rios desconhecidos, despontar
cabeceiras e furar matas, que descobridor algum ate então haja varado.


[Linha 250 de 6572 - Parte 1 de 4]


     
        Cresce-lhe o orgulho na razão da extensão e importância das viagens empreendidas; e seu maior
gosto cifra-se em enumerar as correntes caudais que transpôs, os ribeirões que batizou, as serras que
transmontou e os pantanais que afoitamente cortou, quando não levou dias e dias a rodeá-los com rara
paciência.
     
        Cada ano que finda traz-lhe mais um valioso conhecimento e acrescenta uma pedra ao monumento
da sua inocente vaidade.
     
        -Ninguém pode comigo, exclama ele enfaticamente. Nos campos da Vacaria, no sertão do
Mimoso e nos pantanos do Pequiri, sou rei.
     
        E esta presunção de realeza infunde-lhe certo modo de falar e de gesticular majestático em sua
singela manifestação.
     
        A certeza que tem de que nunca poderá perder-se na vastidão, como que o liberta da obsessão do
desconhecido, o exalta e lhe dá foros de infalibilidade.
     
        Se estende o braço, aponta com segurança no espaço e declara peremptoriamente:
     
        -Neste rumo daqui a 20 léguas, fica o espigão mestre de uma serra braba, depois um rio grosso;
dali a cinco léguas outro mato sujo que vai findar num brejal. Se vassuncê frechar direitinho assim umas
duas horas, topa com o pouso do Tatu, no caminho que vai a Cuiabá.
     
        O que faz numa direção, com a mesma imperturbável serenidade e firmeza indica em qualquer
outra.
     
        A única interrupção que aos outros consente, quando conta os inúmeros descobrimentos, é a da
admiração. À mínima suspeita de dúvida ou pouco caso, incendem-se-lhe de cólera as faces e no gesto
denuncia indignação.
     
        - Vassuncê não credita! protesta então com calor. Pois encilhe o seu bicho e caminhe como eu lhe
disser. Mas assunte bem, que no terceiro dia de viagem ficará decidido quem é cavouqueiro e embromador.
Uma coisa é mapiar à toa, outra andar com tento por estes mundos de Cristo.
     
        Quando o sertanejo vai ficando velho, quando sente os membros cansados e entorpecidos, os
olhos já enevoados pela idade, os braços frouxos para manejar a machadinha que lhe da o substancial
palmito ou o saboroso mel de abelhas, procura então quem o queira para esposo, alguma viúva ou parenta
chegada, forma casa e escola, e prepara os filhos e enteados para a vida aventureira e livre que tantos gozos
lhe dera outrora.
     
              Esses discípulos aguçada a curiosidade com as repetidas e animadas descrições das grandes cenas
da natureza, num belo dia desertam da casa paterna, espalham-se por ai além, e uns nos confins do Paraná,
outros nas brenhas de São Paulo, nas planuras de Goiás ou nas bocainas de Mato Grosso, por toda a, parte
enfim, onde haja deserto, vão pôr em ativa prática tudo quanto souberam tão bem ouvir, relembrando as
façanhas do seu respeitado progenitor e mestre.
     
     
       II - O VIAJANTE
     


[Linha 300 de 6572 - Parte 1 de 4]


         Próprio de espírito sorumbático, é andar sempre calado: tagarelar é o encanto e a alma da vida.
       
         La Chaussée. Comigo, respondeu Sancho, meu primeiro movimento é logo tal comichão de falar que não posso deixar de
desembuchar o que me vem A boca.
       
         Cervantes, D. Quixote.
       
        O dia 15 de julho de 1860 era dia claro, sereno e fresco, como costumam ser os chamados de
inverno no interior do Brasil.
     
        Ia o Sol alto em seu percurso, iluminando com seus raios, não muito ardentes para regiões
intertropicais, a estrada, cujo aspecto há pouco tentamos descrever e que da Vila de Sant'Ana do Paranaíba
vai ter aos campos de Camapuã.
     
        A essa hora, um viajante, montado numa boa besta tordilho-queimada, gorda e marchadeira, seguia
aquela estrada. A sua fisionomia e maneiras de trajar denunciavam de pronto que não era homem de lida
fadigosa e comum ou algum fazendeiro daquelas cercanias que voltasse para casa. Trazia na cabeça um
chapéu-do-chile de abas amplas e cingido de larga fita preta, sobre os ombros um poncho-pala de variegadas
cores e calçava botas de couro da Rússia bem feitas e em bom estado de conservação.
     
        Tinha quando muito vinte e cinco anos, presença agradável, olhos negros e bem rasgados, barba e
cabelos cortados quase à escovinha e ar tão inteligente quanto decidido.
     
        Na mão empunhava uma comprida vara que havia pouco cortara, e com que ia distraidamente
fustigando o ar ou batendo nos ramos de árvores que se dobravam ao alcance do braço.
     
        Vinha só e, no momento em que damos começo a esta singela história, achava-se no bonito trecho
de caminho que medeia entre a casa de Albino Lata e a do Leal, a sete boas léguas da sezonática e decadente
Vila de Sant'Ana do Paranaíba
     
        Nesta porção de estrada, ensombrada pelas árvores de vistoso cerrado, o leito, ainda que já bastante
arenoso, é firme e parece mais aléia de bem tratado jardim, do que caminho de tropas e carreadores.
     
        Ainda aumenta os encantos daquele lance a inúmera quantidade de rolas caboclas a brincar na
areia e de pombas de cascavel, cujo bater das asas produz um arruído tão característico e singular.
     
        O nosso viajante, se caminhava distraído e meio pensativo, não parecia, contudo, de gênio sombrio
ou pouco divertido.
     
        Muito ao contrário, sacudia as vezes o torpor em que vinha e entrava a cantarolar, ou assobiar,
esporeando a valente cavalgadura, que na marcha que tomava ia abanando alternadamente as orelhas com o
movimento cadencial da cabeça.
     
        Numa dessas reações contra alguma preocupação, disse em voz alta, puxando por um relógio de
prata, seguro em corrente do mesmo metal:
     
        -Às duas horas, pretendo sestear no paiol do Leal. Falta pouco para o meio-dia, e tenho tempo
diante de mim a botar fora.
     
        Moderou, pois, a andadura que levava o animal e mais ativamente recomeçou a zurzir os galhos


[Linha 350 de 6572 - Parte 1 de 4]


das árvores, bocejando de tédio.
     
        Também pouco tempo caminhou só, por isto que em breve ao seu lado emparelhou outro viajante,
escanchado num cavalinho feio e zambro, mas muito forte, o qual, coberto como estava de suor, mostrava
ter vindo quase a galope.
     
        Homem já de alguma idade, o recém-chegado era gordo, de compleição sangüínea, rosto
expressivo e franco. Trajava à mineira e parecia, como realmente era, morador daquela localidade.
     
        -Olá, patrício, exclamou ele conchegando a cavalgadura à da pessoa a quem interpelava, então se
vai botando para Camapuã?
     
        Olhou o nosso cavaleiro com desconfiança e sobranceria para quem o interrogava tão
sem-cerimônia e meio enviesado respondeu:
     
        -Talvez sim... talvez não... Mas a que vem a pergunta?
     
        -Ah! desculpe-me, replicou o outro rindo-se, nem sequer o saudei... Sou mesmo um estabanado...
Deus esteja convosco. Isto sempre me acontece... A minha língua fica às vezes tão doida que se põe logo a
bater-me nos dentes... que é um Deus nos acuda e... não há que avisar: água vai! Olhe, por vezes já me tem
vindo dano, mas que quer? É sestro antigo... Não que eu sela malcriado, Deus de tal me defenda,
abrenúncio; mas pega-me tal comichão de falar que vou logo, sem tir-te, nem guar-te, dando à taramela...
     
        A volubilidade com que foram ditas estas palavras causou certo espanto ao mancebo e o levou a
novamente encarar o inopinado companheiro, desta feita com mais demora e ar menos altivo.
     
        Notou então a fisionomia alegre e bonachã do tagarela e, com ar de simpatia, correspondeu ao
comunicativo sorriso daquele que, à força, queria travar conversação.
     
        -Pelo que vejo, disse ele, o Sr. gosta de prosear.
     
        -Ora se! retrucou o mineiro. Nestes sertões só sinto a falta de uma coisa: é de um cristão com
quem de vez em quando dê uns dedos de pérola. Isto sim, por aqui é casqueiro. Tudo anda tão calado!... uma
verdadeira caipiragem!... Eu, não. Sou das Gerais, gelaria como por cá se diz; nasci no Paraibana, conheci no
meu tempo pessoas de muita educação, gente mesma de traz e fui criado na Mata do Rio como homem e não
como bicho do monte.
     
        -Ah! o senhor é de Minas?
     
        -Gerais, se me faz favor. Batizei-me em Vassouras, mas sou mineiro da gema. Andei ceca e meca
antes de vir deitar poita neste país. Isto já faz muito tempo, pois também vou ficando velho. Há mais de
quarenta anos pelo menos que sai da casa dos meus pais.
     
        E interrompendo o que dizia, perguntou:
     
        -O senhor também é de Minas?
     
        -Nhor-não, respondeu o outro. Sou caipira de São Paulo: nasci na Vila de Casa Branca, mas fui
criado em Ouro Preto.
     


[Linha 400 de 6572 - Parte 1 de 4]


        -Ah! na cidade Imperial ?...
     
        -Lá mesmo.
     
        -Então é quase de casa, replicou o mineiro rindo-se ruidosamente. Ora, quem diria! Por isto me
batia a passarinha, quando vi o seu rasto fresco na areia. Ai vai, disse eu por vezes com os meus botões, um
sujeitinho que não tem pressa de pousar. Também tocando o meu canivete, tratei de agarrá-lo para não fazer
a viagem a olhar para o céu e a bancar. Acha que obrei mal?
     
        -Não, senhor, protestou o moço com afabilidade. Muito lhe agradeço a intenção. Assim
alcançarei sem cansaço o Leal, onde pretendo dar hoje com os ossos.
     
        -Oh! exclamou o outro todo expansivo, a caminhada é a mesma. Pois, meu rico senhor, eu moro
a meia légua do Leal, torcendo a esquerda e se vosmecê não tem compromissos lá com o homem, far-me-á
muito favor agasalhando-se em teto de quem é pobre, mas amigo de servir. Minha tapera é pouco retirada do
caminho, e quem vem montado como o senhor, não tem que andar contando bocadinhos de léguas.
     
        Convite tão espontâneo e amável não podia deixar de ser bem aceito, sobretudo naquelas alturas, e
trouxe logo entre os dois caminhantes a familiaridade que tão depressa se estabelece em viagem.
     
        -Com toda a satisfação irei parar em sua casa, retrucou o jovem. Nunca vi o Leal, pois agora é a
primeira vez que cruzo este sertão, e ando de pouso em pouso, pedindo um cantinho de paiol ou de rancho
para passar a noite com os meus camaradas.
     
        Traz então tropa?
     
        -Tropa, não; apenas dois bagageiros que vêm com as minhas cargas e uma besta à destra.
     
        -Olá! o amigo viaja à fidalga, observou o mineiro com gesto folgazão.
     
        -Qual!... Bastantes privações tenho já curtido.
     
        -Decerto não as sentirá em nossa casa todo o tempo que lá quiser ficar. Não encontrará luxarias
nem coisas da capital, unicamente o que pode ter nestes mundos: quatro paredes de pau-a-pique mal
rebocadas, uma cama de vento, bom feijão a fartar, ervas a mineira, arroz de papa, farinha de milho
torradinha, café com rapadura e talvez até um lombo fresco de porco.
     
        -Olá! exclamou o moço rindo-se com expansão, vou passar vida de capitão-mor. Não queria
tanto, bastava-me...
     
        -O que sobretudo desejo é que tenha comigo o coração na boca. Se não gostar do passadio, vá
logo desembacharido. Na minha rancharia pousa pouca gente, porque fica para dentro da estrada... assim,
talvez lhe falte alguma coisa; em todo o caso farei pelo melhor . . .
     
        Depois de breve pausa, continuou:
     
        -Mas porém, creio que já é ocasião, agora que nos conhecemos como dois amigos do tempo do
Rojão, saber com quem lidamos. Eu, quanto a mim, me chamo Martinho dos Santos Pereira e a minha
história conto-lha em duas palhetadas... Sua graça, ainda que mal pergunte ?
     


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        -Cirino Ferreira de Campos, respondeu o outro viajante, um criado para o servir.
     
        - Obrigado, agradeceu Pereira inclinando-se cortesmente e levando a mão ao chapéu. Como lhe
disse há pouco, minha historia é história de entrar por uma porta e sair por outra. Minha gente não é de má
raça, pelo contrário; meu pai, que Deus lhe dê a glória, possuía alguma coisa de seu e deixou aos seus muitos
filhos um nome limpo e respeitado. Cada qual de nós-éramos sete-tomou o seu rumo. Quanto a mim,
casei muito mocinho e fui morar na Diamantina, onde abri casa de negócio. Depois de alguns anos, uns
bons, outros caiporas, morreu minha dona e mudei-me, a principio, para Pinmi e mais tarde para Uberaba. A
vida começou a desandar-me de todo, e fiz logo este cálculo: estar tão longe, antes afundar-me no mato de
uma boa feita. Vendi minha lojinha de ferragens e internei-me até cá com três escravos. lá doze anos que
moro nestes socavões e, palavra de honra, até ao presente não me tenho arrependido. Na minha situação há
fartura, e louvado seja! nunca passei necessidade... Não posso por isto queixar-me sem ingratidão. Deus
Nosso Senhor Jesus Cristo tem olhado para mim, e me julgo bem amparado, sobretudo quando me lembro
do despotismo de misérias, que vai por estas terras fora... Cruzes! nem falar nisto é bom... Diga-me porém
uma coisa: vosmecê para onde se atira?
     
        -Homem, Sr. Pereira, não tenho destino certo.
     
        -Deveras? Então esta caminhando à toa?
     
        -Eu ponho-lhe já tudo em pratos limpos. Ando por estes fundões curando maleitas e feridas
bradas.
     
        -Ah! exclamou Pereira com manifesto contentamento, vosmecê é doutor, não é? Físico, como
chamavam os nossos do tempo de dantes.
     
        -É fato, confirmou Cirino com alguma satisfação.
     
        -Ora, pois multo bem, cai-me a sopa no mel; sim, senhor, vem mesmo ao pintar... a talhe de foice.
     
        -Por quê?
     
        -Daqui a pouco saberá... Mas, diga-me ainda... Onde é que vosmecê leu nos livros, aprendeu suas
historias e bruxarias? Na corte do Império?
     
        -Não, respondeu Cirino, primeiro no Colégio do Caraça; depois fui para Ouro Preto, onde tirei
carta de farmácia.
     
        E acrescentou com enfatuação:
     
        -Desde então tenho batido todo o poente de Minas e feito curas que é um milagre.
     
        -Ah! a sabença é coisa boa. . . eu também tinha jeito para saber mais do que ler e escrever, isto
mesmo mulmente; mas quem nasceu para carreiro, vira, mexe, larga e pega, sempre acaba junto ao carro.
Com o que, entonces, vosmecê entende de curar?...
     
        -Entendo, afirmou Cirino sem o menor constrangimento.
     
        -Pois caiu-me muito ao jeito na mão; sim, senhor. Estou com uma menina doente de maleitas,
minha filha, e por essa causa tinha ido a Sant'Ana buscar quina do comércio; mas lá não havia da maldita e


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voltava bem agoniado. Ora...
     
        -Trago, interrompeu o outro, muito remédio nas minhas malas. Para sezões, tenho uma
composição infalível...
     
        - Já se sabe; entra composição de quina. Deveras é santa mezinha. A pequena tomou a do campo;
mas essa pouco talento tem, de maneira que a sezão não lhe deixou o corpo.
     
        -Há quantos dias apareceu o tremor de frio? perguntou o intitulado doutor.
     
        -Faz hoje, salvo engano, dez dias.
     
        Até agora era uma rapariga forçada, sadia e rosada como um lambo; nem sei ate como lhe entrou a
maleita no corpo. Ninguém pode fiar-se na tal Vila de Sant'Ana; é uma peste de febres. Eu bem a não Queria
levar até lá: mas ela pediu tanto age consenti! Demais como era para ver a madrinha, uma boa senhora, de
muita circunstância, a mulher do Major Melo Toques. .. Não conhece?
     
        -Pois não.
     
        -E dá-se com o major? perguntou Pereira para abrir novo campo à garrulice.
     
        -Quando pousei na vila, estive com ele.
     
        -E não gostou? Aquilo sim é homem às direitas. Também é pau para toda a obra na Senhora
Sant'ana, é o tutu de lá. Em querendo taramelar um pouco mais a meu gosto, busco o compadre. Isto arma
logo uma conversa que me dá um fartão... E depois pessoa de muitas letras... Escreve ao governo; é juiz de
paz, major reformado, serve de juiz municipal, já fez a campanha dos Farrapos lá no Rio Grande do Sul para
as bandas dos Castelhanos e merece muita estimação. Mora numa casa de andar e tem loja muito sortida, por
sinal que bem baratinha para a distancia. E as histórias que conta? f: um nunca acabar. O homem parece que
sabe o Império de cor e salteado! Nem o vigário! Olhe, Sr. Cirino, vou dizer-lhe uma coisa, que talvez lhe
pareça embromação: às vezes dou um pulo até a vila só para bater língua com o major, porque com esta
gente daqui não se tira partido: escorraçada e arisca que é um Deus nos acuda! Então, como lhe ia contando,
galopeio até lá, e pego numa mapiagem que me enche as medidas. Não há...
     
        -Gabo-lhe a pachorra, atalhou Cirino. Mas, diga-me, Sr. Pereira; farei por aqui algum negócio?
     
        -Homem, conforme. Gente doente é mato; mas também mofina como ela só. Meio arredado da
minha casa, fica o Coelho que está morre não morre há muitos anos, e é homem de boas patacas. Este, se
vosmecê o curar, talvez caia com os cobres. Tudo o mais é uma récula de gente mais ou menos.
     
        -Vosmecê traz bastante quina do comércio? perguntou em seguida.
     
        -Trago, respondeu Cirino, mas é cara.
     
        -Que é cara, bem sei. Pois é quanto basta, porque no fundo aqui tudo são serões.
     
        Começou então o bom do Sr. Pereira a desenrolar as diversas moléstias que o haviam salteado no
correr da vida, raras na verdade, mas todas perigosas; e com este tema às ordens achou meios e modos de
falar até quase perder o fôlego.
     


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        Recolheu-se o outro ao silencio e ouviu talvez preocupado, ou em todo caso, muito distraidamente,
o que lhe contava o seu novo amigo, saindo, de vez em quando, da apática atenção para instigar com a voz
e o calcanhar a cavalgadura, quando esta parecia querer por si tomar descanso ou buscava comer os
rebentões mais apetitosos do capim a grelar.
     
        Afinal notou Pereira o tal ou qual abatimento do companheiro. -Vosmecê a modo que está triste?
disse ele. Deixou alguma coisa de seu lá por trás?
     
        -Homem, para ser franco, respondeu Cirino dando um suspiro, deixei; e essa coisa é uma dívida...
dívida de jogo.
     
        -Isto é mau, retrucou o mineiro, fechando um tanto a cara. Por causa desse vicio e das mulheres,
é que as cruzes nascem à beira das estradas. Mas é coco grosso?
     
        -Trezentos mil-réis.
     
        -Já é gimbo graúdo. E com quem jogou?
     
        -Com o Totó Siqueira, de Sant'Ana. Por isto pretendeu atrasar-me a viagem; mas prometi
mandar-lhe tudo do Sucuriú por um camarada e passei-lhe um papel. No que estou pensando, e se acharei
até lá meios de cumprir a palavra.
     
        -Se lhe pagarem como devem, com certeza. Em todo o caso aperte um pouco com os doentes.
     
        -Não imagina, replicou Cirino com verdadeiro sentimento, quanto me tem amofinado essa
maldita dívida. Não pelo dinheiro, que dele faço pouco caso; mas por ter pegado em cartas, coisa que nunca
tinha feito na minha vida; isto sim...
     
        -Pois meu rico senhor, prosseguiu Pereira, sirva-lhe esta de lição e tome tento com a gente do
sertão, não com esses que moram -nas suas casas, sossegados e amigos de servir, mas com viajantes, homens
de tropas e carreiros. Isso sim, é uma súcia de jogadores, que andam armados de baralhas e vísporas e, por
dá cá aquela palha, empurram uma faca na barriga de um cristão ou descarregam uma garrucha na cabeça de
um companheiro, como se fosse em melancia podre. Depois, o demônio do jogo, quando entra no corpo de
um desgraçado, faz logo ninho e de lá pincha fora a vergonha. Da má vida com raparigas airadas, fadistas e
mulheres à toa, ainda a gente endireita; mas com cartas e sortes, só na caldeira de Pedro Botelho é que se
cuida em mudar de rumo. Quem lhe fala, teve um tio morador nas Trairás, para cá de Camapuã cinco léguas,
que trabalhava todo o ano na terra para vir jogar até perder o último cobre nas rancharias do Sucuriú.
     
        Pereira, de posse de tão largo assunto, contou mil historias, umas lúgubres, outras jocosas,
verídicas, inventadas na ocasião ou reproduzidas.
     
        Haviam, no entretanto, os dois caminhado bastante. Inclinara-se no horizonte o Sol, e a brisa da
tarde já vinha soprando do lado do poente, viva, perfumosa.
     
        -Nós, observou o mineiro, com a nossa conversa deixamos os nossos animais vir cochilando.
Também já está aqui a minha estradinha. Meta-se nela, Sr. Cirino; em frente ia parar no Leal: minha
fazendola começa neste ponto à beira do caminho e vai por ai afora ate bem longe, um mundo de alqueires
de terra que nem tem conta.
     
        Ao dizer estas palavras, tomou ele a dianteira e dando a direita à estrada geral, enveredou por uma


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aberta larga e muito sombreado que levava com voltas e tortuosidades à margem rasa de copioso e límpido
ribeirão, de álveo areento, todo ele. Que sítio risonho, encantador, esse, ensombrado por majestosa e
elegante ingazeira, toda pontuada das mimosas e balsâmicas florezinhas!
     
        Os animais, ao perceberem o bater da água, apertaram o passo e, entrando na fresca corrente quase
até aos peitos, estiraram o pescoço e puseram-se a beber ruidosamente, avançando aos poucos de encontro
ao fio caudal, para buscarem o que houvesse mais puro em linfa.
     
        -Não deixe a sua besta se empanainar observou Pereira. Upa! continuou ele puxando pela rédea
do cavalo e batendo-lhe amigavelmente na pá do pescoço, upa, Canivete! Vamos matar a fome no milho!
     
        Transposto o ribeirão, alargava-se a vereda e, depois de cortar copada mata, abria-se numa
verdadeira estrada, que os dois cavaleiros tomaram a meio galope.
     
        Transmontava afinal o Sol, quando, atem de ralo matagal, surgiu a ponta de um mastro de São João,
que o mineiro saudou com mostras de grande alegria, como sinal precursor da querida vivenda.
     
        Antes, porem, de nela penetrarmos, digamos quem era aquele mancebo que viajava ornado do
pomposo titulo de doutor, e, que mais é, revestido de autoridade para ir, a seu talante aplicando remédios e
preconizando curas milagrosas.
     
     
       III-O DOUTOR
       
         Semeai promessas: a ninguém causam desfalque, e o mundo é rico de palavras.
       
         A esperança quando outros nela crêem faz ganhar muito tempo.
       
       
                                                                     Ovídio, a Arte de Amar.
       
         Ao morreres,  dota a algum colégio ou a teu gato.
                                                                 
                                                                     Pope.
         Sganarelo. - De todo a parte vem gente procurar-me,
         e se as coisas continuarem assim, sou  de parecer que
         de uma vez devo dedicar-me à medicina . Acho que
         de todos os ofícios é este o preferível,  porque,  ou se
         faça bem ou mal, sempre no fim há dinheiro.
       
                                                                     Molière, O Médico à Força.
     
        Nascera  Cirino de Campos, como dissera a Pereira, na província de São Paulo, na sossegada e
bonita Vila de Casa Branca, a qual demora Umas 50 léguas do litoral. Filho de um vendedor de drogas,
que se intitulava boticário e a esse oficio acumulava o importante cargo de administrador do correio,
crescera debaixo das vistas paternas até a idade de doze anos completos, quando fora enviado, em
tempos de festas e a título de recordação saudoso, a um velho tio e padrinho, morador na cidade de
Ouro Preto.
     
        Esse parente, solteirão, de gênio rabugento, misantropo, e dado às práticas da mais extrema


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carolice, recebeu o pequeno com mau modo e manifesto descontentamento, tanto mais quanto à presença de
um estranho vinha interromper os hábitos de completa solidão a que se acostumara desde longos anos.
     
        Era homem que trajava ainda à moda antiga, usando de sapatos de fivela, calções de braguilha, e
cabeleira empoada com o competente rabicho.
     
        A sua reputação de pessoa abastada era, em toda a cidade de Ouro Preto, tão bem firmada quanto
a de refinado sovina, chegando a voz público a afirmar que o seu dinheiro, e não pouco, estava todo
enterrado em numerosos buracos no chão da alcova de dormir.
     
        -Meu amigalhote, disse o tal padrinho a Cirino, poucos dias depois da chegada, fique sabendo
que por qualquer coisinha lhe sacudo a poeira do corpo. Dê-se por avisado e ande direitinho que nem um
fuso.
     
        O menino, transido de medo, passou a tarde a chorar num canto sombrio da casa, onde relembrou,
até lhe vir o sono, a alegre vida de outrora, os folguedos que fazia com os camaradas na viçosa relva do
Cruzeiro, à entrada da Vila de Casa Branca e sobretudo os carinhos da saudoso mamãe.
     
        Em seguida aquela admoestação preventiva fora o tio à casa de uns padres que tinham influência
na direção do Colégio do Caraça e com eles arranjara a admissão do afilhado naquele estabelecimento de
instrução.
     
        Como finório que era, conseguiu este resultado sem multa dificuldade, pagando-o, a juros
compostos, com tentadoras promessas.
     
        -Por ora, resmoneou ele, nada poderei fazer pela educação do rapaz; mas... enfim... um dia...
estou já velho, e tratarei de mostrar que não me esqueci dos bons padres que tanto me ajudam hoje.
     
        Lançada, assim, a eventualidade de uma verba testamentária, ficou decidida a entrada de Cirino na
casa colegial.
     
        O pressentimento da falta de proteção natural torna as crianças dóceis e resignadas. Também não
fugiu nem mugiu o caipirazinho ao penetrar no internato em que devia passar tristonhamente os melhores
anos da sua adolescência.
     
        Ótimo negócio fizera incontestavelmente o velho tio. Ia tão-somente desembolsando boas palavras
e, por estar agarrado à vida, chegou até a levar ao cemitério dois dos padres que se haviam prendido às
esperanças de valiosa recordação.
     
        Afinal como tinha por seu turno que pagar o tributo universal, um belo dia morreu quando medos
se esperava, deixando muito recomendado um seu testamento, que foi, com efeito, aberto com sofreguidão
digna de melhor êxito.
     
        Testamento havia, força é confessar; não já testamento, mas extenso arrazoado, todo da letra do
velho barras de ouro, porém, ou maços de notas, nem sombra.
     
        Esfuracou-se a casa de alto a baixo, levantaram-se os soalhos, escutaram-se todas as paredes,
quebraram-se os móveis; nada apareceu, nada denunciou esconderijo de riquezas, nem coisa que com isso
se avizinhasse.
     


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        Descobriu-se então que aquele carola fora um pensador desabusado, antigo admirador de Xavier,
o Tiradentes, que nunca tivera vintém e vivera como filósofo, grazinando lá consigo mesmo, de tudo e de
todos.
     
        Era o seu testamento uma gargalhada meio de gosto, meio de ironia, atirada de além-túmulo e
corroborada pelo legado sarcástico que em pomposo codicilo fazia aos padres do Caraça da sua biblioteca "a
fim, dizia ele, de ajudar a educação dos mancebos e auxiliar as boas intenções dos seus honrados e virtuosos
diretores".
     
        Procuraram-se os tais livros, e topou-se com um baú cheio de obras, em parte devoradas pelo
cupim, que foram, incontinenti, entregues às chamas de um grande auto-de-fé. Eram as Ruínas de Volney, 0
Homem da Natureza, as poesias eróticas de Bocage, o Dicionário filosófico de Voltaire, o Citador de
Pigault-Lebrun, a Guerra dos Deuses de Parny, os romances do marquês de Sade e outras produções de igual
alcance e quilate, algumas até em francês, mas anotadas por leitor assíduo e mais ou menos convencido.
     
        A conseqüência desse pesado gracejo póstumo, que destruía de raiz o conceito de uma vida inteira,
foi a imediata exclusão de Cirino do Colégio do Caraça.
     
        Tinha então dezoito anos, e, como era vivo, conseguiu, apesar da natural pecha que lhe atirava o
parentesco com o estrambótico e defunto protetor, ir servir de caixeiro numa botica velha e manhosa, onde
entre drogas e receituários lhe foram voltando os hábitos da casa paterno.
     
        Leve era o trabalho, e o aviamento de prescrições tão lento, que os ingredientes farmacêuticos
ficavam meses inteiros nos embaçados e esborcinados frascos à espera de que alguém se lembrasse de
tirá-los daquele bolorento esquecimento.
     
        Em localidade pequena, de simples boticário a médico não há mais que um passo. Cirino, pois, foi
aos poucos, e com o tempo, criando tal ou qual pratica de receitar e, agarrando-se a um Chernoviz, já seboso
de tanto uso, entrou a percorrer, com alguns medicamentos no bolso e na mala da garupa, as vizinhanças da
cidade à procura de quem se utilizasse dos seus serviços.
     
        Nessas curtas digressões principiou a receber o tratamento de doutor. Então para melhor o firmar,
depois de se ter despedido da botica em que servia, matriculou-se na escola de farmácia de Ouro Preto com
a intenção de tirar a carta de boticário, que o Presidente de Minas Gerais tem o privilégio de conferir,
dispensando documentos de qualquer faculdade reconhecida.
     
        Antes, porém, de conseguir a posse daquele lisonjeiro documento, faz-se Cirino, num dia de
capricho, de partida decidida e começou então a viajar pelos sertões povoados a medicar, sangrar e retalhar,
unindo a alguns conhecimentos de valor positivo outros que a experiência lhe ia indicando ou que a voz do
povo e a superstição lhe ministravam.
     
        Toda a sua ciência assentava alicerces no tal Chernoviz. Também era o inseparável vademecum;
seu livro de ouro; Homero à cabeceira de Alexandre. Noite e dia o manuseava; noite e dia o consultava à
sombra das árvores ou junto ao leito dos enfermos.
     
        Contem Chernoviz, dizem os entendidos, muitos erros, muita lacuna, muita coisa inútil e até
disparatada; entretanto no interior do Brasil é obra que incontestavelmente presta bons serviços, e cujas
indicações têm força de evangelho.
     
        Conhecia Cirino o seu exemplar de cor e salteado; abria-o com segurança nos trechos que desejava


[Linha 750 de 6572 - Parte 1 de 4]


consultar e graças a ele formara um fundo de instrução real e até certo ponto exata, a que unirá o estudo
natural das utilíssimas e ainda pouco aproveitadas ervinhas do campo.
     
        A fim de aumentar os seus recursos em matéria médica vegetal, foi a pouco e pouco dilatando as
excursões fora das cidades, para as quais voltava, quando se via falto de medicamentos ou quando, diga-
mo-lo sem rebuço, queria gastar nos prazeres e folias o dinheiro que ajuntara com a clínica do sertão.
     
        Afinal, afeito a hábitos de completa liberdade, resolvera empreender viagem para Camapuã e sul
de Mato Grosso, não só com o intuito de estender o raio das operações, como levado do desejo de ver terras
novas e longínquas.
     
        Curandeiro, simples curandeiro, ia por toda a parte granjeando o tratamento de doutor, que
gradualmente lhe foi parecendo, a si próprio, titulo inerente a sua pessoa e a que tinha incontestável direito.
     
        Bem formado era o coração daquele moço, sua alma elevada e incapaz de pensamentos menos
dignos; entretanto no intimo do seu caráter se haviam insensivelmente enraizado certos hábitos de orgulho,
repassado de tal ou qual charlatanismo, oriundo não só da flagrante insuficiência cientifica, como da roda
em que sempre vivera.
     
        Afastava-se em todo caso, ainda assim com os seus defeitos, do comum dos médicos ambulantes
do sertão, tipos que se encontram freqüentemente naquelas paragens, eivados de todos os atributos da mais
crassa ignorância, mas rodeados de regalias completamente excepcionais.
     
        Por toda a parte entra, com efeito, o doutor; penetra no interior das famílias, verdadeiros gineceus;
tem o melhor lugar a mesa dos hospedes, a mais macia cama; é, enfim, um personagem caldo do céu e junto
ao qual acodem logo, de muitas léguas em torno, não já enfermos, mas fanatizados crentes, que durante
largos anos se haviam medicado ou por conselhos de vizinhos ou por suas próprias inspirações e que na
chegada desse Messias depositam todas as ardentes esperanças do almejado restabelecimento.

       IV-A CASA DO MINEIRO
     
         Está a cela na mesa. Torne o bom acolhimento desculpável o mau passadio.
       
         (Walter Scott, Ivanhoé)
     
        Quando assomaram os dois viajantes à entrada do terreiro que rodeava a vivenda de Pereira,
correram-lhes ao encontro quatro ou cinco cães altos e magros, que aos pulos saudaram o dono da casa com
uma cainçada de alegria.
     
        Puseram-se algumas galinhas a girar atarantadas, ao passo que vários galos, já empoleirados na
cumeeira da morada, bradavam novidade e uns porcos e bacorinhos aqui e acolá se erguiam dentre palhas de
milho e, estremunhados, olhavam para os recém-chegados com olhos pequenos e cheios de sono.
     
        Do interior da habitação, não tardou a sair uma preta idosa mal vestida, trazendo atado à cabeça um
pano branco de algodão, cujas pontes pendiam ate ao meio das costas.
     
        -Olá, Maria Conga, perguntou Pereira, que há de novo por cá?
     
        -A tenção, meu senhor, pediu a escrava chegando-se com alguma lentidão.
     


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        -Deus te faça santa, respondeu o mineiro. Como vai a menina? Nocência?
     
        -Nhã está com sezão.
     
        -Isto sei eu, rapariga de Cristo; mas como passou ela de trasantontem para cá?
     
        -Todo o dia, vindo a hora, nhã bate o queixo, nhor-sim.
     
        -Está bem... É que o mal ainda não abrandou... Daqui a pouco, veremos. E a janta?... Está pronta?
Venho varado de fome. Que diz, Sr. Cirino? indagou, voltando-se para 0 companheiro.
     
        -Não se me dava também de comer alguma coisa. Temos razão para. . .
     
        -Pois então, interrompeu Pereira, ponha pé no chão e pise forte que o terreno é nosso. Minha casa,
ia lho disse, é pobre, mas bastante farta e a ninguém fica fechada.
     
        Deu logo o exemplo, e descavalgou do cavalinho zambro, o qual foi por si correndo em direção a
uma dependência da casa com formas de tosca estrebaria.
     
        Apeou-se igualmente Cirino, mas, ao penetrar numa espécie de alpendre de palha que ensombrada
a frente toda, mostrou repentina e viva contrariedade no gesto e na fisionomia.
     
        -Ora, Sr. Pereira, exclamou ele batendo com o tacão da bota num sabugo de milho, só agora é que
me lembro que as minhas cargas vão todas tomar caminho do Leal e aqui me deixam sem roupa, nem
medicamentos. Que maçada! Devíamos ter esperado na boca da sua picada.
     
        Respondeu-lhe o mineiro todo desfeito em expansivo riso:
     
        -Olé, pois o doutor é tão novato assim em viagens? Então pensa que lá não deixei aviso seguro à
sua gente? Não se lembra de um ramo verde que pus bem no meio da estrada real?
     
        -É verdade, confirmou Cirino.
     
        -E então? Daqui a pouco a sua camaradagem está batendo o nosso rasto. Entremos, que a fome já
vai apertando.
     
        Consistia a morada de Pereira num casarão vasto e baixo, coberto de sapé, com uma porta larga
entre duas janelas muito estreitas e mal abertas. Na parede da frente que, talvez com o peso da coberta,
bojava sensivelmente fora da vertical, grandes rachas longitudinais mostravam a urgência de serias
reparações em toda aquela obra feita de terra amassada e grandes paus-a-pique.
     
        Ao oitão da direita existia encostado um grande paiol construído de troncos de palmeiras, por entre
os quais iam rolando as espigas de milho, com o contínuo fossar dos porquinhos, que dali não arredavam pé.
     
        Corrido na frente de toda a vivenda, via-se um alpendre de palha de buriti, sustentado por grossas
taquaras, ligeiro apêndice acrescentado por ocasião de alguma passada festa, em que o número de
convidados ultrapassara os limites de abrigo da hospitaleira habitação.
     
        Internamente era ela dividida em dois lanços: um, todo fechado, com exceção da porta por onde se
entrava, e que constituiu o cômodo destinado aos hóspedes, outro, à retaguarda, pertencia à família, ficando,


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portanto, completamente vedado às vistas dos estranhos e sem comunicação interna com o compartimento
da frente.
     
        Era de barro compacto e secado o chão desta sala, vendo-se nele sinais de que as vezes ali se
acendia fogo: pelo que estavam o sapé do forro e o ripamento revestidos de luzidia e tênue camada de
picumã que lhes dava brilho singular como se tudo tora jacarandá envernizado.
     
        -Isto aqui, disse Pereira penetrando na sala e sentando-se numa tripeça de pau, não é meu, e de
quem me procura. Poucos vêm cá decerto parar, mas enfim é sempre bom contar com eles... Minha gente
mora na dependência dos fundos.
     
        E apontou para a parede fronteira à porta de entrada, fazendo um gesto para mostrar que a casa se
estendia além.
     
        -Sr. Pereira, disse Cirino recostando-se a uma sólida marquesa, não se incomode comigo de
maneira alguma... Faça de conta que aqui não há ninguém
     
        -Pois então, retorquiu o mineiro, deite-se um pouco, enquanto vou lá dentro ver as novidades. A
hora é mais de comer, que de cochilar; mas espere deitadinho e a gosto, o que é sempre mais cômodo do que
ficar de pé ou sentado.
     
        Não desprezou o hóspede o convite. Tirou o pala, puxou as botas e, cruzando-as, fez dos canos
travesseiros, em que descansou a cabeça.
     
        Quem se coloca em posição horizontal, depois de vencidas umas estiradas léguas, adormece com
certeza. Depressa veio, pois, o sono cerrar as pálpebras do recém-chegado e intumescer-lhe o peito com
sossegada respiração.
     
        Dormiu talvez hora e meia, e mais houvera dormido, se não fosse acordado pelo tropel de animais
que paravam, e por grita de gente a pôr cargas em terra.
     
        Assomou Pereira à porta com ar jovial.
     
        -Então, que lhe disse eu?
     
        -De fato; estou agora sossegado.
     
        -E o Sr. tomou uma boa data de sono.
     
        -Quem sabe uma hora?
     
        -Boa dúvida, se não mais. Fiquei todo esse tempo ao lado de Nocência, que de frio batia o queixo,
como se estivesse agora em Ouro Preto, quando cai geada na rua.
     
        -Então não vai melhor?
     
        -Qual!... Depois que o Sr. tiver comido, há de ir vê-la. Está, pobrezinha, tão desfeita que parece
doente de uns três meses atrás.
     
        -Felizmente, observou Cirino com alguma enfatuação, aqui estou eu para pô-la de pé em pouco


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tempo.
     
        -Deus o ouça, disse Pereira com verdadeira unção.
     
        -Patrícios! O gente! gritou ele em seguida para os dois camaradas chegados de pouco: vão mecês
sentar naquele rancho, ali. Perto há boa água, e lenha é o que não falta: basta estender o braço. Olhem, dêem
ração de fartar aos animais. Aproveitem o milho, enquanto há: é a sustância desses bichos. Aqui, vendo-o
baratinho. Um atilho por um cobre e não são espigas chuchas, nem grão soboró. Eh! lá! Maria Conga, vamos
com isso!... janta na mesa!...
     
        Foram o chamado e as indicações de Pereira compridas sem demora.
     
        Apareceu a velha escrava, que estendeu em larga e mal aplainada mesa uma toalha de algodão,
grosseira, mas muito alva, sobre a qual derramou duas boas caias de farinha de milho: depois, emborcou um
prato fundo de louça azul, e ao lado colocou uma colher e um garfo de metal.
     
        -Sente-se, doutor, disse Pereira para Cirino, agora não mariduco com mecê, porque já petisquei lá
dentro. Desculpe se não achar a comida do seu agrado.
     
        Vinha nesse momento entrando Maria Conga com dois pratos bem cheios e fumegantes, um de
feijão-cavalo, outro de arroz.
     
        -E as ervas? perguntou Pereira. Não ha?
     
        -Nhor-sim. Eu trago já, respondeu a preta, que com efeito voltou dai a pouco.
     
        Tornou o mineiro a desculpar-se da insuficiência e mau preparo da comida.
     
        -Não lhe dou hoje lombo de porco: mas o prometido não cai em esquecimento, isto lhe posso
assegurar.
     
        -Estou muito contente com o que há, protestou com sinceridade Cirino.
     
        E, de fato, pelo modo por que começou a comer, repetindo animadas vezes dos pratos, deu
evidentes mostras de que falava inteira verdade.
     
        -Maria, disse Pereira para a escrava, que se fora colocar a alguma distancia da mesa com os
braços cruzados, traz agora mel e café com doce.
     
        -Ah! exclamou Cirino com patente satisfação estirando os braços, fiquei que nem um ovo. O
feijão estava de patente. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que me deu este bom agasalho.
     
        -Amém! respondeu Pereira.
     
        -Agora, amigo meu, disse o moço depois de pequena pausa, estou às suas ordens; podemos ver a
sua doentinha e aproveitar a parada da febre para mim atalhá-la de pronto. Em tais casos, não gosto de
adiantamentos.
     
        Cobriu-se o rosto do mineiro de ligeira sombra: franziram-se os sobrolhos, e vaga inquietação lhe
pairou na fronte.


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        -Mais tarde, disse ele com precipitação.
     
        -Nada, meu senhor, retrucou Cirino, quanto mais cedo, melhor. É o que lhe digo.
     
        -Mas, que pressa tem mecê? perguntou Pereira com certa desconfiança.
     
        -Eu? respondeu o outro sem perceber a intenção, nenhuma. mesmo para bem da moça.
     
        Acenderam-se os olhos de Pereira de repentino brilho.
     
        -E como sabe que minha filha é moça? exclamou com vivacidade,
     
        -Pois não foi o Sr. mesmo quem mo disse na prosa do caminho?
     
        -Ah!... é verdade. Ela ainda não é moça... Quatorze, quinze anos,  quando muito... Quinze anos e
meio... Uma criança, coitadinha! . . .
     
        -Enfim, replicou o outro, seja como for. Quando o Sr. quiser, venha procurar. Enquanto espero,
remexerei nas minhas malas e tirarei alguns remédios para tê-los mais a mão.
     
        -Muito que bem, aprovou Pereira, bote os seus trens naquele canto e fique descansado: ninguém
bulira neles... Quanto à minha filha... eu já venho... dou um pulo lá dentro, e... depois conversaremos.

       V-AVISO PRÉVIO
     
        Onde há mulheres, aí se congregam todos os males a um tempo.
     
        (Menandro)
     
        Nunca é bom que um Homem sensato eduque seus filhos de modo a desenvolver-lhes demais o
espírito
     
        (Eurípedes, Medéia)
     
        Filhos, sois para os homens o encanto da alma.
     
        ( Menandro ) .
     
        Estava Cirino fazendo o inventário da sua roupa e já começava a anoitecer, quando Pereira
novamente a ele se chegou.
     
        -Doutor, disse o mineiro, pode agora Meca entrar para ver a pequena. Está com o pulso que nem
um fio, mas não tem febre de qualidade nenhuma.
     
        -Assim e bem melhor, respondeu Cirino.
     
        E, arranjando precipitadamente o que havia tirado da canastra, fechou-a e pôs-se de pó.
     
        Antes de sair da sala, deteve Pereira o hóspede com ar de quem precisava tocar em assunto de


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gravidade e ao mesmo tempo de difícil explicação.
     
        Afinal começou meio hesitante:
     
        -Sr. Cirino, eu cá sou homem muito bom de gênio, multo amigo de todos, muito acomodado e que
tenho o coração perto da boca como vosmecê deve ter visto...
     
        -Por certo, concordou o outro.
     
        -Pois bem, mas... tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vai o doutor entrar no interior
da minha casa e... deve portar-se como...
     
        -Oh, Sr Pereira! atalhou Cirino com animação, mas sem grande estranheza, pois conhecia o zelo
com que os homens do sertão guardam da vista dos profanos os seus aposentos domésticos, posso gabar-me
de ter sido recebido no seio de muita família honesta e sei proceder como devo.
     
        Expandiu-se um tanto o rosto do mineiro.
     
        -Vejo, disse ele com algum acanhamento, que o doutor não e nenhum pé-rapado, mas nunca é
bom facilitar... E já que não há outro remédio, vou dizer-lhe todos os meus segredos... Não metem vergonha
a ninguém, com o favor de Deus; mas em negócios da minha casa não gosto de bater língua... Minha filha
Nocência fez 18 anos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscazinha de
modos mas bonita e boa deveras... Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões. Tenho outro filho,
este um latagão, barbudo e grosso que está trabalhando agora em portadas para as bandas do Rio.
     
        -Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a
menina tomar corpo, tratei logo de casá-la.
     
        -Ah! é casada? perguntou Cirino.
     
        -Isto é, é e não e. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no costela do gado para São
Paulo um homem de mão-cheia, que talvez o Sr. conheça... o Manecão Doca...
     
        -Não, respondeu Cirino abanando a cabeça.
     
        -Pois isso é um homem às direitas, desempenado e trabucador como ele só... fura estes sertões
todos e vem tangendo pontes de gado que metem pasmo. Também dizem que tem bichado muito e ajuntado
cobre grosso, o que é possível, porque não é gastador nem dado a mulheres. Uma feita que estava aqui de
pousada... olhe, mesmo neste lugar onde estava mecê inda agorinha, falei-lhe em casamento... isto é, dei-lhe
uns toques .. porque os pais devem tomar isso a si para bem de suas famílias; não acha?
     
        -Boa dúvida, aprovou Cirino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever.
     
        -Pois bem, o Manecão ficou ansim meio em dúvida; mas quando lhe mostrei a pequena, foi outra
cantiga... Ah! também é uma menina
     
        E Pereira, esquecido das primeiras prevenções, deu um muxoxo expressivo, apoiando a palma da
mão aberta de encontro aos grossos lábios
     
        -Agora, está ela um tanto desfeita: mas, quando tem saúde é coradinha que nem mangaba do


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areal. Tem cabelos compridos e finos como seda de paina, um nariz mimoso e uns olhos matadores . . .
     
        Nem parece filha de quem é...
     
        A gabes imprudentes era levado Pereira pelo amor paterno.
     
        Foi o que repentinamente pensou lá consigo, de modo que, reprimindo-se, disse com hesitação
manifesta:
     
        -Esta obrigação de casar as mulheres é o diabo!.. Se não tomam estado, ficam juraras e
fanadinhas...; se casam podem cair nas mãos de algum marido malvado... E depois, as histórias! . Ih meu
Deus, mulheres numa casa, é coisa de meter medo... São redomas de vidro que tudo pode quebrar... Enfim,
minha filha, enquanto solteira, honrou o nome de meus pais... O Manecão que se agüente, quando a tiver por
sua .. Com gente de saia não há que fiar... Cruz! botam famílias inteiras a perder, enquanto o demo esfrega
um olho.
     
        Esta opinião injuriosa sobre as mulheres é em geral corrente nos nossos sertões e traz como
conseqüência imediata e prática, além da rigorosa clausura em que são mantidas, não só o casamento
convencionado entre parentes muito chegados para filhos de menor idade, mas sobretudo os numerosos
crimes cometidos, mal se suspeita possibilidade de qualquer intriga amorosa entre pessoa da família e algum
estranho.
     
        Desenvolveu Pereira todas aquelas idéias e aplaudiu a prudência de tão preventivas medidas.
     
        -Eu repito, disse ele com calor, isto de mulheres, não há que fiar. Bem faziam os nossos do tempo
antigo. As raparigas andavam direitinhas que nem um fuso... Uma piscadela de olho mais duvidosa, era logo
pau... Contaram-me que hoje lá nas cidades... arrenego!... não há menina, por pobrezinha que seja, que não
saiba ler livros de letra de forma e garatujar no papel... que deixe de ir a fonçonatas com vestidos abertos na
frente como raparigas fadistas e que saracoteiam em danças e falam alto e mostram os dentes por dá cá
aquela palha com qualquer tafulão malcriado... pois pelintras e beldroegas não faltam.. Cruz!... Assim,
também é demais, não acha? Cá no meu modo de pensar, entendo que não se maltratem as coitadinhas, mas
também é preciso não dar asas às formigas... Quando elas ficam taludas, atamanca-se uma festança para
casá-las com um rapaz decente ou algum primo, e acabou-se a historia...
     
        -Depois, acrescentou ele abrindo expressivamente com o polegar a pálpebra inferior dos olhos,
cautela e faca afiada para algum meliante que se faca de tolo e venha engraçar-se fora da vila e termo...
Minha filha...
     
        Pereira mudou completamente de tom:
     
        -Pobrezinha... Por esta não há de vir o mal ao mundo... É uma pombinha do céu... Tão boa, tão
carinhosa!... E feiticeira!!!
     
        Não posso com ela.. só o pensar em que tenho de entregá-la nas mãos de um homem, bole comigo
todo... E preciso, porém. Há anos... devia já ter cuidado nesse arranjo, mas... não sei... cada vez que pensava
nisso... caia-me a alma aos pés. Também é menina que não foi criada como as mais... Ah! Sr. Cirino, isto de
filhos, são pedaços do coração que a gente arranca do corpo e bota a andar por esse mundo de Cristo.
     
        Umedeceram-se ligeiramente os cílios do bom pai.
     


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        -O meu mais velho pára, Deus sabe onde... Se eu morresse neste instante, ficava a pequena ao
desamparo... Também, era preciso acabar com esta incerteza... Além disso, o Manecão prometeu-me
deixá-la aqui em casa, e deste modo fica tudo arranjado... isto é, remediado, filha casada é traste que não
pertence mais ao pai.
     
        Houve uns instantes de silêncio.
     
        -Agora, prosseguiu Pereira com certo vexame, que eu tudo lhe disse, peço-lhe uma coisa: veja só
a doente e não olhe para Nocência... falei assim a mecê, porque era de minha obrigação... Homem nenhum,
sem ser muito chegado a este seu criado, pisou nunca no quarto de minha filha... Eu lhe juro... Só em casos
destes, de extrema percisão...
     
        -Sr. Pereira, replicou Cirino com calma, lá lhe disse e torno-lhe a dizer que, como médico, estou
há muito tempo acostumado a lidar com famílias e a respeitá-las. t: este meu dever, e ate hoje, graças a Deus,
a minha fama é boa... Quanto às mulheres, não tenho as suas opiniões, nem as acho razoáveis nem de
justiça. Entretanto, é inútil discutirmos porque sei que isso são prevenções vindas de longe, e quem torto
nasce, tarde ou nunca se endireita... O Sr. falou-me com toda a franqueza, e também com franqueza lhe
quero responder. No meu parecer, as mulheres são tão boas como nos, se não melhores: não há, pois, motivo
para tanto desconfiar delas e ter os homens em tão boa conta... Enfim, essas suas idéias podem quadrar-lhe
à vontade, e é costume meu antigo a ninguém contrariar, para viver bem com todos e deles merecer o
tratamento que julgo ter direito a receber. Cuide cada qual de si, olhe Deus para todos nós, e ninguém queira
arvorar-se em palmatória do mundo.
     
        Tal profissão de fé, expedida em tom dogmático e superior, pareceu impressionar agradavelmente
a Pereira, que fora aplaudindo com expressivo movimento de cabeça a sensatez dos conceitos e a fluência
da frase.
       VI - INOCÊNCIA
     
         Nesta donzela é que se acham juntas a minha vida e a minha morte.
       
         (Henoch, o Livro da Amizade)
       
         Jamais vira coisa tão perfeita como o seu rosto pálido. Os seus olhos franjados de sedosos cílios multo espessos e o seu ar meigo
e doentio.
       
         (George Sand, os Mestres Galteiros)
       
         Tudo, em Fenela, realçava a idéia de uma miniatura. Além do mais havia em sua fisionomia e, sobretudo, no olhar extraordinária
prontidão, fogo e atilamento.
       
         (Walter Scott, Peveril do Pico).
     
        Depois das explicações dados ao seu hóspede, sentiu-se o mineiro mais despreocupado.
     
        -Então, disse ele, se quiser, vamos já ver a nossa doentinha.
     
        - Com muito gosto, concordou Cirino.
     
        E saindo da sala, acompanhou Pereira, que o fez passar por duas cercas e rodear a casa toda, antes
de tomar a porta do fundo, fronteira a magnifico laranjal, naquela ocasião todo pontuado das brancas e


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olorosas flores.
     
        -Neste lugar, disse o mineiro apontando para o pomar, todos os dias se juntam tamanhos bandos
de graúnas, que é um barulho dos meus pecados. Nocência gosta muito disso e vem sempre coser debaixo
do arvoredo. ~ uma menina esquisita...
     
        Parando no limiar da porta, continuou com expansão:
     
        -Nem o Sr. imagina... Às vezes, aquela criança tem lembranças e perguntas que me fazem
embatucar... Aqui, havia um livro de horas da minha defunta avó.
     
        ...Pois não é que um belo dia ela me pediu que lhe ensinasse a ler?... Que idéia!
     
        .. Ainda há pouco tempo me disse que quisera ter nascido princesa... Eu lhe retruquei: E sabe você
o que é ser princesa? Sei, me secundou ela com toda a clareza, é uma moca muito boa, muito bonita, que tem
uma coroa de diamantes na cabeça, muitos lavrados no pescoço e que manda nos homens... Fiquei meio
tonto E se o Sr. visse os modos que tem com os bichinhos?! . . . Parece que está falando com eles e que os
entende... Uma bicharia, em chegando ao pé de Nocência, fica mansa que nem ovelhinha parida de fresco ..
Se fosse agora a contar-lhe histórias dessa rapariga, seria um não acabar nunca... Entremos, que é melhor...
     
        Quando Cirino penetrou no quarto da filha do mineiro, era quase noite, de maneira que, no
primeiro olhar que atirou ao redor de si, só pode lobrigar, além de diversos trastes de formas antiquadas, uma
dessas camas, muito em uso no interior; altas e largas, feitas de tiras de couro engradados. Estava encostada
a um canto, e nela havia uma pessoa deitada.
     
        Mandara Pereira acender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproximaram-se ambos do leito da
enferma que, achegando ao corpo e puxando para debaixo do queixo uma coberta de algodão de Minas, se
encolheu toda, e voltou-se para os que entravam.
     
        -Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez
     
        -Boas-noites, dona, saudou Cirino.
     
        Tímida voz murmurou uma resposta, ao passo que o jovem, no seu papel de médico, se sentava
num escabelo junto à cama e tomava o pulso à doente.
     
        Caía então luz de chapa sobre ela, iluminando-lhe o rosto, parte do colo e da cabeça, coberta por
um lenço vermelho atado por trás da nuca.
     
        Apesar de bastante descorada e um tanto magra, era Inocência de beleza deslumbrante.
     
        Do seu rosto irradiava singela expressão de encantadora ingenuidade, realçada pela meiguice do
olhar sereno que, a custo, parecia coar por entre os cílios sedosos a franjar-lhe as pálpebras, e compridos a
ponto de projetarem sombras nas mimosas faces.
     
        Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a boca pequena, e o queixo admiravelmente torneado.
     
        Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol, descera um nada a camisinha de crivo que
vestia, deixando nu um colo de fascinadora alvura, em que ressaltava um ou outro sinal de nascença.
     


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        Razões de sobra tinha, pois, o pretenso facultativo para sentir a mão fria e um tanto incerta, e não
poder atinar com o pulso de tão gentil cliente.
     
        -Então? perguntou o pai.
     
        -Febre nenhuma, respondeu Cirino, cujos olhos fitavam com mal disfarçada surpresa as feições
de Inocência.
     
        -E que temos que fazer?
     
        -Dar-lhe hoje mesmo um suador de folhas de laranjeira da terra a ver se transpira bastante e,
quando for meia-noite, acordar-me para vir administrar uma boa dose de sulfato.
     
        Levantara a doente os olhos e os cravara em Cirino, para seguir com atenção as prescrições que lhe
deviam restituir a saúde.
     
        -Não tem fome nenhuma, observou o pai; há quase três dias que só vive de beberagens. 11: uma
ardência continua, isto até nem parecem maleitas..
     
        -Tanto melhor, replicou o moço; amanhã verá que a febre lhe sai do corpo, e daqui a uma semana
sua filha está de pé com certeza. Sou eu que lhe afianço.
     
        -Fale o doutor pela boca de um anjo, disse Pereira com alegria.
     
        -Hão de as cores voltar logo, continuou Cirino.
     
        Ligeiramente enrubesceu Inocência e descansou a cabeça no travesseiro.
     
        -Por que amarrou esse lenço? perguntou em seguida o moço.
     
        -Por nada, respondeu ela com acanhamento.
     
        - Sente dor de cabeça?
     
        -Nhor-não.
     
        -Tire-o, pois: convém não chamar o sangue; solte pelo contrário, os cabelos,
     
        Inocência obedeceu e descobriu uma espessa cabeleira, negra como o âmago da cabiúna e que em
liberdade devia cair ate abaixo da cintura. Estava enrolado em bastas tranças, que davam duas voltas inteiras
ao redor do cocoruto
     
        -É preciso, continuou Cirino, ter de dia o quarto arejado e por a cama na linha do nascente ao
poente.
     
        -Amanhã de manhãzinha hei de virá-la, disse o mineiro.
     
        -Bom, por hoje então, ou melhor, agora mesmo, o suador. Fechem tudo, e que a dona sue bem. A
meia-noite, mais ou menos, virei aqui dar-lhe a mezinha. Sossegue o seu espirito e reze duas Ave-Marias
para que a quina faça logo efeito.


[Linha 1250 de 6572 - Parte 1 de 4]


     
        -Nhor-sim, balbuciou a enferma.
     
        -Não lhe dói a luz nos olhos? perguntou Cirino, achegando-lhe um momento a vela ao rosto.
     
        -Pouco... -um nadinha.
     
        -Isso é bom sinal. Creio que não há de ser nada.
     
        E levantando-se, despediu-se:
     
        -Ate logo, sinhá-moça.
     
        Depois do que, convidou Pereira a sair.
     
        Este acenou para alguém que estava num canto do quarto e na sombra.
     
        -Ó Tico, disse ele, venha cá...
     
        Levantou-se, a este chamado, um anão muito entanguido, embora perfeitamente proporcionado
em todos os seus membros. Tinha o rosto sulcado de rugas, como se já fora entrado em anos; mas os
olhinhos vivos e a negrejante guedelha mostravam idade pouco adiantada. Suas perninhas um tanto
arqueadas terminavam em pés largos e chutos que, sem grave desarranjo na conformação, poderiam
pertencer a qualquer palmípede.
     
        Trajava comprida blusa pardo sobre calças que, por haverem pertencido a quem quer que fosse
muito mais alto, formavam embaixo volumosa rodilha, apesar de estarem dobradas. A cabeça, trazia um
chapéu de palha de carandá sem copa, de maneira que a melena lhe aparecia toda arrepiada e erguida em
torcidas e emaranhadas grenhas.
     
        -Oh! exclamou Cirino ao ver entrar no círculo de luz tão estranha figura, isto deveras é um tico de
gente.
     
        -Não anarquize o meu Tonico, protestou sorrindo-se Pereira. Ele é pequeno... mas bom. Não é,
meu nanico?
     
        O homúnculo riu-se, ou melhor, fez uma careta mostrando dentinhos alvos e agudos, ao passo que
deitava para Cirino olhar inquisidor e altivo.
     
        -0 Sr. vê, doutor, continuou Pereira, esta criaturinha de Cristo ouve perfeitamente tudo quanto se
lhe diz e logo compreende. Não pode falar... isto é, sempre pode dizer uma palavra ou outra, mas muito a
custo e quase a estourar de raiva e de canseira. Quando se mete a querer explicar qualquer coisa, é um
barulho dos seiscentos, uma gritaria dos meus Recados, onde aparece uma voz aqui, outra acolá, mais
cristãzinhas no meio da barafunda.
     
        -É que não lhe cortaram a língua, observou Cirino.
     
        -Não tinha nada que cortar, replicou Pereira. De nascença é o defeito e não pode ser remediado.
Mas isto é um diabrete, que cruza este sertão de cabo a rabo, a todas horas do dia e da noite. Não é verdade,
Tico?


[Linha 1300 de 6572 - Parte 1 de 4]


     
        O anão abanou a cabeça, olhando com orgulho para Cirino.
     
        -Mas é filho aqui da casa? perguntou este.
     
        -Nhor-não; tem mãe à beira do Rio Sucuriú, daqui a quarenta léguas, e envereda de lá para ca num
instante, vindo a pousar pelas casas, que todas  recebem com gosto, porque é bichinho que não faz mal a
ninguém. Aqui fica duas, três e mais semanas e depois dispara como um mateiro para a casa da mãe. E uma
espécie de cachorro de Nocência. Não é, Tico?
     
        Fez o mudo sinal que sim e apontou com ar risonho para o lado da moça.
     
        Pereira, depois de todas aquelas explicações que o anão parecia ouvir com satisfação, disse,
voltando-se para este, ou melhor abaixando-se em cima da sua cabeça:
     
        -Agora, meu filho, vai ao curral grande e apanha para mim uma mãozada de folhas de laranjeira
da terra... daquele pé grande que encosta na tronqueira.
     
        Mostrou o homúnculo com expressivo gesto que entendera e saiu correndo.
     
        Ia Cirino deixar o quarto, não sem ter olhado com demora para o lugar onde estava deitada a
enferma, quando Pereira o chamou:
     
        -Ó doutor, Nocência quer beber um pouco de água. . . Fará mal?
     
        -Aqui não há limões-doces? indagou o moço.
     
        - E um nunca acabar... e dos melhores.
     
        -Pois então faça sua filha chupar uns gomos.
     
        Pereira, depois de ter paternalmente arranjado e dispostos os cobertores ao redor do corpo da
menina, acompanhou Cirino que, parado à porta de saída, estava mirando as primeiras estrelas da noite.
     
        -Vosmecê achou doutor, perguntou o mineiro com voz um tanto trêmula, algum perigo no que
tem aquele anjinho
     
        -Não, absolutamente não, respondeu Cirino. Verá o Sr. que, daqui a três dias, sua filha não tem
mais nada.
     
        -Malditas febres!... Quando não derrubam um cristão, o amofinam anos inteiros... Eu não quisera
que minha filha ficasse esbranquiçada, nem feia .. As moças quando não são bonitas, é que estão doentes...
Ah! mas ia me esquecendo dos limões-doces... Que cabeça! . . .
     
        Adiantou-se Pereira no terreiro e, pondo as mãos junto à boca chamou com voz forte:
     
        -Ó Tico!
     
        Prolongado grito respondeu-lhe a certa distância
     


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        O mineiro pôs-se a assobiar com modulações à maneira dos índios.
     
        Houve uns momentos de silencio; depois veio correndo o anão e, chegando-se para perto, mostrou
por sinais que não ouvira bem o recado.
     
        -Uns limões-doces, já!... Nocência está com sede...
     
        Disparou o pequeno como uma seta, sumindo-se logo na densa escuridão que já se espessara entre
as árvores do pomar.

       VII- O NATURALISTA
     
         A minha filosofia toda resume-se em opor a paciência as mil o uma contrariedades de que a vida está inçada.
       
         (Hoffmann, O Reflexo Perdido).
     
        Serena e quase luminosa corria a noite. No paro campo do  céu cintilava, com iriante brilho, um
sem-número de estrelas, projetando na larga fita da estrada do sertão, misteriosa e dúbia claridade.
     
        Pelo caminhar dos astros havia de ser quase meia-noite; e, entretanto, a essa hora morta, em que só
vagueiam à busca de pasto os animais bravios do deserto, vinham a passo lento, pelo caminho real, dois
homens, um a pó, outro montado numa besta magra e já meio estafada.
     
        Mostrava o pedestre ser, como de feito era, um simples camarada, e vinha com grossa e comprida
vara na mão rangendo diante de si lerdo e orelhudo burro, sobre cujo lombo se erguia elevada carga de
canastras e malinhas, cobertas por um grande ligam
     
        Quem estava montado e cavalgava todo encurvado sobre o selim, com as pernas muito estiradas e
abertas, parecia entregue a profunda cogitação. Devia ser homem bastante alto e esguio e, como o
observamos, apesar da hora adiantada da noite, com olhos de romancista, diremos desde já que tinha rosto
redondo, juvenil, olhos gázeos, esbugalhados, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido
bigode e cabelos muito louras. O seu traje era o comum em viagem: grandes botas, paletó de alpaca em
extremo folgado, e chapéu-do-chile desabado. Trazia, entretanto, a tiracolo, umas quatro ou cinco caixinhas
de lunetas ou quaisquer outros instrumentos especiais, e na mão segurava um pau fino e roliço, preso a uma
sacola de fina gaze cor-de-rosa.
     
        Homem de meia-idade, de fisionomia vulgar e balorda, era o camarada, e, pelos modos e
impaciência com que fustigava o animal de carga, indicava não estar afeito ao gênero de vida que exercia.
     
        Em silencio e na ordem indicada, caminhava a tropinha: o burro carregado na frente, logo atrás o
inábil recoveiro, em seguida fechando a marcha, o viajante encarrapitado na magra cavalgadura.
     
        Houve momento em que, depois de algumas pautadas de incitamento, pareceu querer o cargueiro
protestar contra o tratamento que tão fora de hora recebia e, fincando os pés na areia, resolutamente parou.
     
        Provocou a relutância, porem, uma chuva de verdadeiras cacetadas que ecoaram longe e se
confundiam com os brados e pragas do camarada.
     
        -Burro do diabo! berrava ele. Mil raios te partam, bicho danado! Arrebenta de uma vez!... Vá para
os infernos! Entrega a carcaça aos urubus!


[Linha 1400 de 6572 - Parte 1 de 4]


     
        Durante uns bons minutos, o cavaleiro, que fizera parar o seu animal, esperou pacientemente
qualquer resultado: ou que a renitente azêmola se desse afinal por convencida e avançasse, ou então
estourasse.
     
        -Juque, disse ele de repente com acento fortemente gutural e que denunciava a origem teutônica,
se porretada chove assim no seu lombo, você gosta?
     
        O homem a quem haviam dado o nome de Juca, voltou-se com arrebatamento:
     
        -Ora, Mochu, isto é um perverso sem-vergonha, que deve morrer debaixo do pau. Esta vida não
me serve!...
     
        -Mas, Juque, replicou o alemão com inalterável calma, quem sabe se a cangalha não esta ferindo
a pobre criatura?
     
        -Qual! bradou o camarada, isto é manha só. Conheço este safado, este infame, este...
     
        E, levantando o varapau, descarregou tal paulada no traseiro do animal que lhe fez soltar surdo
gemido de dor.
     
        -Juque, observou o patrão em tom pausado, quem sabe se na frente há pau caído ou pedra, que
não deixe ele ir para diante?
     
        -Pedra, Mochu, e pau na cabeça até rachá-la, é que precisa este ladrão...
     
        -Vê, Juque, insistiu o alemão.
     
        -Ora, Mochu...
     
        -Vê, sempre...
     
        Saiu resmungando o camarada de detrás do borrego e deu a volta.
     
        Na frente avistou logo o ramo quebrado que Pereira deixara cair no meio da estrada para desviar os
acompanhadores de Cirino.
     
        -Uê! Uê! exclamou com muita surpresa, aqui esteve alguém e pôs este sinal para que neo se
passasse...
     
        .-Eu não disse a vóce, replicou o cavaleiro com voz ate certo ponto triunfante. Asno tem razão:
para diante há alguma coisa.
     
        -Mas na vila, contestou José, nos disseram que o caminho vai sempre direitinho sem atrapalhação
nenhuma...
     
        -Na vila disseram isso, confirmou o outro.
     
        -E então?
     


[Linha 1450 de 6572 - Parte 1 de 4]


        E então? repetiu o alemão.
     
        Houve uns segundos de silêncio.
     
        Depois o cavaleiro acrescentou com a mesma imperturbável serenidade, e como que achando
explicação muitíssimo natural:
     
        -Na vila muita gente não sabe caminho. à:...
     
        -Mil milhões de diabos, interrompeu o camarada todo frenético, levem o gosto desandar por esses
matos do inferno a horas tão perdidas! Eu bem disse a Mochu, ninguém viaja assim. Isto é uma calamidade.
. .
     
        - que, atalhou por seu turno o patrão, o que é que adianta estar a berrar como um danado?... Olhe,
antes, se por ai vóce não vê algum caminho do lado.
     
        Obedeceu o outro e sem dificuldade achou a entrada da picada que levava a morada de Pereira.
     
        -Esta aqui, Mochu, está aqui! anunciou ele com alegria. ,: um trilho que corta a estrada e vai dar
nalguma casa pertinho ..
     
        Mudando repentinamente de tom, observou com voz tristonha:
     
        -Contanto que ate lá não haja alguma légua de beiço..
     
        -Ah! eu não lhe disse, respondeu o alemão. Agora toque barro devagarinho; ele anda que nem
vento.
     
        Pareceu o animal compreender, o alcance moral da vitória que acabara de colher e prestes
enveredou pela trilha com alento novo e até desusada celeridade.
     
        A razão é que também daí a pouco sorvia ele, teimoso e marralheiro bicho, como soem ser os da
sua espécie, a bela água do ribeirão, em que se haviam refrescado as cavalgaduras de Cirino e de Pereira.
     
     

       Vlll-OS HÓSPEDES DA MEIA-NOITE
     
         Sei, sim, sei que é noite!
         (Xavier de Maistre, Viagem ao Redor                                    do Meu Quarto).
     
        Não tardou muito que os dois noturnos viajantes começassem a  ouvir os latidos furiosos dos cães
que, no terreiro de Pereira, denunciavam aproximação de gente suspeita junto à casa entregue a sua vigilante
guarda.
     
        -Por aqui perto fica algum rancho, Mochu, avisou o camarada; havemos enfim de descansar hoje
.. Mas, que gritaria faz a cachorrada!... São capazes de nos engolir antes que venha alguém saber se somos
cristãos ou não... Safa! Que canzoada!... Ó Mochu, o Sr. deve ir na frente... rompendo a marcha...
        - Vóce, respondeu o alemão, bate neles com cacete...
     


[Linha 1500 de 6572 - Parte 1 de 4]


        -Nada, retrucou José com energia, isso não é do ajuste... Quem está montado, caminhe adiante...
Ainda por cima agora essa!
     
        Depois de resmonear algum tempo, exclamou:
     
        - Ah! espere, já me lembrei de uma coisa.. . O filho do velho é mitrado. . .
     
        E, dizendo esta palavra, de um só pulo montou na anca do cargueiro, que, ao sentir aquele
inesperado acréscimo de peso, parou por instantes e com surdo ronco procurou lavrar um protesto.
     
        - Juque, observou o alemão sem a menor alteração na voz, assim burro quebra cadeira. Depois
morre... e vóce tem de levar as cargas dele às costas...
     
        Quis o camarada encetar nova discussão, mas a esse tempo chegavam ao terreiro, onde o ataque
furioso dos cães justificou a medida preventiva de José, o qual entrou, todo encolhido atrás das cargas, a
gritar como um possesso:
     
        -0 de casa! Eh! lá, gentes! Ó amigos!
     
        Aumentou a algazarra da cachorrada por tal modo, que os tropeiros de Cirino, pousados no rancho
próximo, acordaram e bradaram juntos:
     
        -Que diabo é isto? Temos matinada de lobisomens?
     
        Abriu-se nesse momento a porta da casa e apareceu Cirino na frente de Pereira, trazendo este uma
vela que com a mão aberta amparava da brisa noturna.
     
        -Quem vem lá? clamaram os dois a um tempo.
     
        -Camarada e viajante, respondeu com voz forte e simpática o alemão, achegando-se à luz e
tratando de descer da cavalgadura. Quem é o dono desta casa?
     
        -Está aqui ele, respondeu Pereira levantando a vela acima da cabeça para dar mais claridade em
torno de si.
        -Muito bem, replicou o recém-chegado. Desejo agasalho para mim e para o meu criado e peço
muitas desculpas por chegar tão tarde.
     
        Aproximara-se também o José, cuidando logo, no meio de muxoxos e pragas, de pôr em terra a
carga do burrinho, o qual amarrara pelo cabresto a uma vara fincada no chão.
     
        -Mas, observou Cirino, que faz o Sr. por estas horas mortas a viajar? . . .
     
        -Deixe o homem entrar, atalhou Pereira, e acomodar-se com o que achar... Pois, meu senhor,
desapeie. Bem-vindo seja quem procura teto que é meu.
     
        -Obrigado, obrigado, exclamou com efusão o estrangeiro.
     
        E, apresentando a larga mão, apertou com tal forca as de Cirino e Pereira que lhes fez estalar os
dedos.
     


[Linha 1550 de 6572 - Parte 1 de 4]


        Em seguida, penetrou na sala e tratou logo de arranjar os objetos que trazia a tiracolo, colocando-os
cuidadosa e metodicamente em cima da mesa, no meio dos olhares de espanto trocados por quantos o
estavam rodeando.
     
        Na verdade, digna de reparo era aquela figura à luz da bruxuleante vela de sebo; compridas pernas,
corpo pequeno, braços muito longos e cabelos quase brancos, de tão louros que eram.
     
        -Será algum bruxo? perguntou a meia voz Cirino a Pereira.
     
        -Qual! respondeu o mineiro com sinceridade, um homem tão bonito, tão bem limpo!
     
        Entrara José com uma canastra ao ombro e, descarregando-a no canto menos escuro do quarto,
julgou dever, sem mais demora, declinar a qualidade e importância da pessoa que lhe servia de amo.
     
        -O Sr. aqui 6 doutor, disse ele apontando para o alemão e dirigindo-se para Cirino...
     
        -Doutor?! exclamou este com despeito.
     
        - Sim, mas doutor que não cura doenças. É alamão lá da estranja, e vem desde a cidade de São
Sebastião do Rio de Janeiro caçando anicetos e picando borboletas...
     
        - Borboletas? interrompeu com admiração Pereira.
     
        - Acui cui! Por todo o caminho vem apanhando bichinhos. Olhem... aquele saco que ele traz...
     
        -O meu camarada, avisou com toda a tranqüilidade e pausa o naturalista, é muito falador. Os
senhores tenham paciência... Ande, Juque, deixe de tagarelar! ...
     
        -Não, protestou Pereira levado de curiosidade, é bom saber com quem se lida... Então o Sr. vem
matando anicetos? mas para que, Virgem Santíssima! . . .
     
        -Para quê? retrucou o camarada descansando as mãos na cintura. O patrão e eu já temos mandado
mais de dez caixões todos cheinhos lá para as terras dele...
     
        -Depois o pais fica sem borboletas, respondeu Cirino, num assomo de despeitado patriotismo.
     
        -Mas, como é que o Sr. se chama? perguntou Pereira, voltando-se para o alemão que estava
virado para a parede a contemplar um desses grandes e sombrios lepidópteros, da espécie dos esfinges.
     
        -Juque, disse ele sem lhe importar a interpelação e acenando para o camarada, depressa... um
alfinete, dos grandes... dos maiores: . .
     
        -Temos história, avisou José, fazendo expressivo sinal a Cirino, o Sr. vai ver...
     
        O naturalista, de posse de um comprido acúleo, fincou-o com segura e adestrada mão bem no meio
do inseto, o qual começou a bater convulsamente as asas e girar em torno do centro a que estava preso.
     
        -A pita! A pita! exclamou o patrão. Vamos, Juque,
     
        Satisfez José o pedido, depois de abrir uma malinha, onde ia estavam enfileirados e espetados vinte


[Linha 1600 de 6572 - Parte 1 de 4]


ou trinta bonitos bichinhos.
     
        - É uma satúrnia .. e não comum, murmurou o alemão fisgando num pedaço de pita o novo
espécime, sobre o qual derramou algumas gotas de clorofórmio, de um vidrinho que sacou dum dos muitos
bolsos da sobrecasaca.
     
        -O Sr. é viajante zoologista, não é? perguntou Cirino, depois que viu terminada a operação.
     
        O interrogado levantou a cabeça com surpresa e respondeu todo risonho:
     
        - Sim, senhor; sim, senhor! Como é que o Sr. o soube? Viajante naturalista, sim senhor! Eu vejo
que o Sr. e muito instruído... Muito bem, muito bem! Muita instrução!
     
        E, abrindo uma carteira de notas, escreveu logo umas linhas tortuosas.
     
        -Ah! este também e doutor, disse Pereira com certo orgulho por hospedar em sua casa sabichão de
tal quilate.
     
        -Oh, doutor? doutor!? Muito bem, muito bem. Doutor que curra ?
     
        -Sim, senhor, respondeu com gravidade o próprio Cirino.
     
        - Ah! . . . Ah! muito bem.
     
        Pereira, porém, voltara à carga.
     
        -Mas, como é que o Sr. se chama?
     
        -Meyer, respondeu o alemão, para o servir.
     
        -Mala ? perguntou o mineiro.
     
        - Não, senhor, Meyer; sou da Saxônia, da Alemanha.
     
        -Isto deve ser o mesmo que Mala na terra dele, observou Pereira, abaixando um pouco a voz.
     
        O camarada José, no entretanto, trouxera para dentro todas as malas e canastras e sem-cerimônia
alguma intrometeu-se na conversação.
     
        -Este Mochu, disse, vem de muito longe só por causa destas historias de barboletas, e com o
negócio ganha coco grosso... Quanto a mim
     
        - Juque, atalhou Meyer com fleuma, vai bota os animais no pasto.
     


        -Não, disse Pereira, solte-os no terreiro até raiar o dia, roerão o que acharem; há por aí muito resto
de milho nos sabugos...
     
        -Pois é o que fiz, declarou o camarada; mas como lhes dizia, sou carioca do Rio de Janeiro,
chamo-me José Pinho e venho de bem longe acompanhando este alamão, que é um homem muito de bem.


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