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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

A incrível 'cidade perdida' descoberta por pesquisadores nas profundezas do oceano

A incrível 'cidade perdida' descoberta por pesquisadores nas profundezas do oceano

Situado a uma profundidade de 700 metros, o local abriga “catedrais” e um ecossistema único que pode estar ameaçado.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Peixe-leão - Espécie invasora venenosa aparece no litoral do Brasil e causa preocupação

Peixe-leão - Espécie invasora venenosa aparece no litoral do Brasil e causa preocupação

Um pescador foi hospitalizado após ter sido ferido pelos espinhos do animal.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Maior organismo do mundo está sendo devorado e deixa cientistas em alerta

Maior organismo do mundo está sendo devorado e deixa cientistas em alerta

Ele está sendo atacado por duas espécies animais que podem levá-lo à extinção.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Emissões globais de CO2 crescem e atingem maior alta da história

Emissões globais de CO2 crescem e atingem maior alta da história

Emissões globais de CO2 voltam a subir em 2018

Aumento projetado de mais de 2% nas emissões de gases se deve ao aumento no uso de carvão e no crescimento do uso de petróleo e gás.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Mudanças climáticas propiciam incêndios florestais


Mudanças climáticas propiciam incêndios florestais


No Brasil, o fator humano e as demandas do mercado são graves ameaças à natureza.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Drones são usados para reflorestamento e cada um pode plantar 1 bilhão de árvores por ano


Drones são usados para reflorestamento e cada um pode plantar 1 bilhão de árvores por ano


Todos sabemos da importância dos drones nos dias atuais, eles servem para despoluir os portos, salvam vidas na Ruanda, além de servir para segurança e tantas outras coisas. E agora, eles também podem frear o desmatamento e recuperar tudo o que foi destruído por ele.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Os principais desastres ambientais ocorridos no Brasil


Os principais desastres ambientais ocorridos no Brasil


Considerado por especialistas e pelo próprio governo federal como a “maior tragédia ambiental da história do Brasil”, o rompimento da barragem da Samarco em Mariana (MG), no dia 5 de novembro de 2015, provocou a liberação de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos e a formação de uma onda de lama de aproximadamente 10 metros de altura, que deixou um rastro de destruição e morte. “É a maior catástrofe ambiental do país, isso é inegável. Eu vi o acidente. É impressionante o impacto na flora e nas atividades econômicas”, considerou a ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Formigas invasoras representam um grande perigo para os ecossistemas


Formigas invasoras representam um grande perigo para os ecossistemas


Espécies de formigas invasoras podem desrregular o ecossistema  (Foto: BBC)


Entrada dos insetos acontece pelo comércio de mercadoria entre países.
Invasões colocam muitas espécies em perigo de extinção

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Lençóis de Areia - Ambiente


LENÇÓIS DE AREIA - Ambiente


Vista de avião, a paisagem lembra um imenso quintal coberto de panos brancos postos para secar ao sol, ondulados pelo vento. De perto, a gente descobre que tanta beleza é formada por enormes montanhas de areia, capazes de mudar de lugar e de forma conforme o movimento do ar. Os Lençóis Maranhenses, como é conhecida a região, são um espetáculo da natureza que se espalha por 1 500 quilômetros quadrados (o mesmo tamanho do município de São Paulo), cientificamente reconhecido como deserto. Mas um deserto estranho. Tem duas estações climáticas bem definidas. Em uma delas até chove, e muito. De janeiro a junho, a média de chuvas é de 1 500 milímetros, 300 vezes mais do que a média do Saara, na África. Com tanta água, as dunas maranhenses ficam entremeadas por milhares de lagoas. "Mas, de julho a dezembro, é uma secura só", disse à SUPER o geólogo marinho Edgard Freitas Parouco, da Universidade Federal do Maranhão. Mesmo assim, existem dois oásis de vegetação bem no meio desses montes de areia rica em quartzo. Em volta deles cresce mata de cerrado, com árvores baixas. Para proteger esse pedaço do Brasil - o único com essas características em todo o mundo -, em 1981 foi tombado o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, sob proteção do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis. A medida não mudou muito o cotidiano do lugar, que continua praticamente isolado. Há uma única e péssima estrada, de 380 quilômetros, que liga São Luís, capital do Estado, a Barreirinha, cidade mais próxima ao parque. A opção é descer de barco pelo Rio Preguiça. Mas é preciso esperar baixar a maré que todos os dias invade o rio. Por isso, poucos aventureiros encaram o desafio de chegar ao areal. Isso garante a tranqüilidade das mil famílias que habitam a região, das tartarugas e das centenas de pássaros migrantes que se alimentam na borda costeira do deserto, vindos do Alasca.


Lençóis de vento

Dunas e lagos azuis que não param no lugar
Se você foi aos Lençóis em maio e voltar lá agora, em outubro, pode levar um susto: cadê as lagoas que estavam aqui no primeiro semestre? É que o deserto maranhense vive se mexendo, um fenômeno de autoria da dupla água e vento. 

Com as chuvas que caem na primeira metade do ano, afloram os lençóis freáticos (de água subterrânea). A água então vai se acumulando nos vales entre uma duna e outra, formando lagos de água doce, alguns com mais de cem metros de extensão. Em agosto, porém, pára de chover. Aí, o sol quente, com temperatura média de 32 graus, seca os lagos. Em dezembro, é só areia, apenas os rios resistem. Em janeiro, o ciclo de chuvas se repete e as lagoas voltam a se formar. Mas todo ano elas mudam de lugar e contorno, acompanhando a movimentação das dunas.

Os montes de areia andam graças aos alísios, ventos que sopram na parte mais baixa da atmosfera, sempre na direção litoral-interior. "Alguns cálculos indicam que as dunas avançam entre 15 e 20 metros por ano", conta o geógrafo Antônio Cordeiro Feitosa, da Universidade Federal do Maranhão. O movimento nunca pára e, numa dessas, a areia já soterrou vilas e até um aeroporto, em 1979, na cidade de Tutóia. O deserto vai crescendo. Há relatos indicando que, no início da década de 70, os Lençóis se estendiam apenas 20 quilômetros continente adentro. Hoje, alcançam 50 quilômetros. 



Os rios que alimentam o mar e a terra

Em nenhum canto do planeta o mar é capaz de produzir areia. Ele a consome, isso sim. Nos Lençóis, quem produz os grãos são os rios. Eles escavam o leito por onde vão passando e carregam minúsculos fragmentos de rocha rumo ao litoral. Um dos principais é o Parnaíba, que desemboca na divisa entre Piauí e Maranhão e arrasta sedimentos até o mar. As correntes marítimas no Brasil se movimentam de sul para norte e vão espalhando os grãos pela costa.

As marés - duas altas e duas baixas no mesmo dia - lançam sobre a praia uma areia composta por grãos muito finos. Com o sol, ela seca e os ventos fortes, especialmente em outubro e novembro, levam-na de volta ao continente. O ar razoavelmente seco facilita o transporte. Assim que encontram um obstáculo, que pode ser um pequeno arbusto, uma pedra ou mesmo outra duna, os grãos se depositam na superfície. 

O principal tipo de duna que se forma nos Lençóis é chamado de barcana. Ela se parece com uma meia-lua (veja o infográfico acima) e a parte convexa, a "barriga", fica voltada para a direção do vento. A areia se acumula no topo da duna e depois, por desmoronamento, escorrega para trás. "Esse processo, que já espalhou areia por 270 quilômetros de extensão ao longo da costa e 50 quilômetros para o interior, começou cerca de 11 000 anos atrás", diz o geólogo Edgard Freitas Parouco. "E não vai parar tão cedo. Os rios devem continuar carregando sedimentos por pelo menos mais alguns milhares de anos".

Lençóis de água

Ciclos naturais mudam a rotina da paisagem
Além das famílias que teimam em morar no deserto, mudando cada vez que as casas são invadidas pela areia, os Lençóis servem de moradia para várias espécies de animais. No cerrado que contorna as dunas encontram-se guaxinins e macacos do tipo guariba e prego. A porção costeira serve de abrigo para pássaros que migram do Pólo Norte e para a desova de tartarugas marinhas. Até uma nova espécie de tartaruga de água doce foi encontrada na região (veja abaixo). 

Mas o ciclo natural mais curioso dos Lençóis acontece nas lagoas. Quando a chuva chega, em janeiro, elas se enchem de peixes como se fosse mágica. Mas não é. Durante a seca, os animais domésticos da região deixam fezes na areia. Quando vêm as águas, o dejeto vira comida para as larvas de insetos, o alimento preferido dos peixes. Algumas lagoas crescem tanto que se ligam a braços de rios ou lagoas já formadas, proporcionando o vai-e-vem aquático e a multiplicação dos peixes. Assim, as novas lagoas fazem a alegria dos pescadores. "Pode ser que também existam lá peixes que põem ovos resistentes à falta de água", diz o biólogo Antônio A. Rodrigues, da Universidade Federal do Maranhão. "Esses ovos provavelmente ficam enterrados na lama que sobra onde havia a lagoa e, com a chuva, se abrem."



Dois oásis resistem no meio do deserto

Existem dois focos de vegetação em Lençóis. O maior se chama Queimada, com 6 quilômetros de extensão por 3 de largura, formado de arbustos e árvores de frutos tropicais, como caju, que servem de alimento para a população local. "Realizamos um estudo e encontramos ali espécies características da Mata Amazônica", diz o biólogo Nivaldo de Figueiredo, da Universidade Federal do Maranhão. Para ele, as plantas podem ser resquício da mata pré-Amazônica que deve ter coberto parte do Maranhão até três milhões de anos atrás. 

O outro oásis é Baixa Grande, com características parecidas e metade do tamanho de Queimada. Com certeza já foi maior. "Sempre encontramos troncos enterrados no deserto", conta Nivaldo. Só não se sabe por que os dois focos de flora ainda não foram cobertos pela areia. Os biólogos acreditam que, por serem mais úmidos, eles brecam o avanço das dunas.

Fora dali, a flora ainda teima nos Lençóis. Nas margens dos rios a vegetação é de mangue, baixa e pobre porque o solo é salino. Mas, como nada é comum nesse lugar, as árvores chegam a 15 metros de altura. "Não se conhecem árvores de mangue tão altas em todo o Brasil", diz Nivaldo. Rodeando o deserto encontra-se o típico cerrado, com plantas retorcidas e de casca grossa. Bem menos exuberantes que os manguezais ou os oásis, são essas árvores baixas que, barrando a passagem da areia, conseguem conter sua fúria e evitar que elas cubram as cidades que se instalaram ao redor do parque. Por enquanto.



PARA SABER MAIS



Maratur - Empresa Maranhense de Turismo, tel.: 098 221 1276 e 232 5667

Jogo de empurra no litoral maranhense

1 - Rio abaixo
O rio escava o leito por onde passa e carrega sedimentos que são depositados na costa.



2 - Terra firme

Na maré baixa, o vento leva a areia de volta para o continente, formando dunas.



3 - Férias no mar

Os grãos são carregados pelas correntes marinhas, que os empurram no sentido sul-norte.


A tartaruga inédita

 Vinte anos atrás, o pesquisador Antenor Leitão de Carvalho, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, entrou no laboratório do biólogo Paulo Vanzolini, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), com uma tartaruga debaixo do braço. Carvalho queria estudá-la mas, por falta de tempo, o animal acabou se aboletando em seu jardim e gerando filhotes. Há quatro anos, Vanzolini decidiu recolher algumas dessas tartarugas para analisá-las. "Com a ajuda de uma aluna maranhense, em 1993 descobri que se tratava de um animal das lagoas dos Lençóis conhecido como pininga", diz Vanzolini. Terminada a pesquisa, o biólogo da USP não teve dúvidas de que era uma nova espécie de tartaruga. Um dos traços característicos são faixas e círculos em amarelo e laranja na carapaça.

O milagre dos peixes que se repete todo ano

1 - Andando por aí
No período de estiagem, os animais que pastam por ali depositam fezes na areia, que também pode ter ovos de peixes enterrados.



2 - Chove chuva

No primeiro semestre, alguns lagos se enchem tanto de água que se ligam temporariamente a rios e outras lagoas maiores.



3 - A caça e o caçador

Os insetos depositam na lagoa suas larvas que se alimentam das fezes. As larvas, por sua vez, viram comida de peixe.



4 - Banquete aquático 

Alguns peixes migram dos rios para os lagos atrás de alimento e se reproduzem enquanto outros ovos de peixe enterrados na areia se abrem.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

A Terra Prometida


A TERRA PROMETIDA



Um dia, quando a tarefa de reconstrução estiver pronta, e a geografia do planeta estiver se tornando mais harmônica, limpa e racional, a grande conferência do Rio será lembrada como primeiro passo desta moderna peregrinação rumo a um mundo melhor. Pode-se ter a idéia da vasta agenda de trabalho, que agora começa a ser montada, com a ajuda do conjunto completo de tabelas e gráficos apresentado nas páginas seguintes.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Reserva sem Lei - Ambiente


RESERVA SEM LEI - Ambiente


Parada obrigatória de aves migratórias e dona de uma variedade de 35 espécies de peixes, além de uma vegetação exuberante, a Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, em Santa Catarina, vive ameaçada. Pesquisadores e ecologistas batalham por sua efetiva implantação.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Relatório da ONU prevê 'catástrofe ambiental'



Relatório da ONU prevê 'catástrofe ambiental' no mundo em 2050

Amazônia dá sinais de degradação por causa das mudanças climáticas (Foto: Divulgação/NASA/JPL-Caltech)

Pobreza extrema deve ser motivada também por degradação do planeta.
Estima-se que mais de 3 bilhões vivam na miséria nos próximos 37 anos.


domingo, 9 de dezembro de 2012

Maiores árvores do mundo estão ameaçadas de extinção


Maiores árvores do mundo estão ameaçadas de extinção
 












Sequoia é uma das espécies ameaçadas (Foto: Frédéric Didillon / Biosphoto / AFP)

Risco vale para diferentes espécies em todo o mundo.
Extinção teria grande impacto nos ecossistemas.

As maiores e mais velhas árvores do mundo, que são os organismos vivos mais antigos do planeta, estão desaparecendo de maneira alarmante, advertiram, nesta sexta-feira (7),  cientistas americanos e australianos.
Os resultados de um estudo publicado pela revista "Science" concluíram que, em todas as partes do mundo, as maiores e mais velhas árvores estão ameaçadas de desaparecer caso não existam políticas de preservação.

"É um problema mundial que ocorre em quase todos os tipos de florestas", indicou David Lindenmayer, da Universidade Nacional da Austrália, que chefiou o programa de pesquisa.

"Da mesma forma que os grandes animais, como os elefantes, os tigres ou os cetáceos [ordem que inclui baleias e golfinhos], cuja população está em forte declínio, uma série de indícios mostra que estas árvores correm o mesmo risco", ressaltou o estudo.

Lindenmayer iniciou a pesquisa com colegas da Universidade James Cook da Austrália e da Universidade de Washington nos Estados Unidos depois de ter estudado amostras da década de 1860 retiradas de florestas suecas.

Os pesquisadores constataram um inquietante desaparecimento das grandes árvores com entre 100 e 300 anos de idade em partes da Europa, Américas do Norte e do Sul, África, Ásia e Austrália.

As sorveiras da Austrália, os pinhos dos Estados Unidos, as sequoias da Califórnia e os baobás da Tanzânia são as principais espécies em perigo.

Os incêndios florestais não são os únicos responsáveis, uma vez que a taxa de mortalidade é dez vezes superior ao normal, inclusive nos anos sem incêndios.

Este fenômeno resulta, segundo afirmam cientistas, de uma combinação de fatores como o aquecimento climático, o desmatamento e a necessidade de terras agrícolas.

"Estamos falando do desaparecimento dos maiores organismos vivos do planeta e de organismos que têm um papel determinante na regulação da riqueza de nosso mundo. A tendência é, de fato, muito preocupante", declarou Bill Laurance, da Universidade James Cook.

As grandes árvores servem como habitat para várias espécies de animais, em especial para as aves. São também enormes poços de carbono, importantes reservas de substratos que permitem o desenvolvimento de um grande número de organismos e têm um papel fundamental no ciclo hidrológico.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A Terra dentro de uma redoma - Espaço


A TERRA DENTRO DE UMA REDOMA - Espaço



Encerrados em uma perfeita réplica do planeta, quatro homens e quatro mulheres preparam-se para viver dois anos isolados do mundo.

O sonho de colonizar os planetas geralmente evoca uma vida de desconforto e monotonia num ambiente frio e artificial. Se depender da empresa americana Space Biospheres Ventures (SBV), no entanto, os pioneiros do cosmo mal sentirão a ausência de casa. E, para provar isso, ela construiu o que imagina ser um  modelo da futuras colônias em Marte ou em outros mundos. Trata-se de uma requintada réplica da Terra, reduzida às proporções de um quarteirão e selada dentro de uma redoma de vidro e aço tão alta quanto um prédio de oito andares. Denominada Biosfera II, para diferenciá-la da Biosfera I æ a própria Terra æ , é difícil lembrar de alguma coisa que os projetistas tenham esquecido de instalar no seu interior. A começar pelos seres humanos, já que neste início de ano oito corajosos cientistas, quatro mulheres e quatro homens, devem trancafiar-se nesse planeta modelo para tentar viver dois anos desconectados do mundo. 

Seria uma lúgubre perspectiva, se aí não encontrassem a riqueza paisagística e a vida dos principais habitats terrestres. Entre outras coisas, podem banhar-se em um pequeno oceano, chacoalhado por ondas artificiais e recortado por um recife de coral. Como alternativa, a poucos metros da praia, contam com a sombra de uma minifloresta tropical. Inspirada na Amazônia e muito úmida, ela situa-se em posição oposta a um terceiro ambiente, um deserto, necessariamente seco e quente. Entre esses dois pólos, além do mar, há ainda um pântano e uma  savana. "A Biosfera é uma ponte entre a ciência espacial e a ecologia", aposta um dos diretores da SBV, Mark Nelson. No total povoam a redoma 3 800 espécies de animais e plantas com as mais variadas aptidões. Algumas delas servem para recortar os ambientes, como uma cortina de bambus tolerantes ao sal, providencialmente disposta entre o mar e a floresta. As plantas do deserto também têm um papel prático, pois florescem no inverno, quando as outras espécies vegetais estão em fase de dormência. Assim, a vegetação  do deserto assume a tarefa essencial de absorver o gás carbônico, constantemente expirado pelos animais, e reemitir oxigênio. Essa reciclagem é tão importante, que impôs limites ao tipo e tamanho dos animais que podiam ser enclausurados.
Outro fator limitante, relacionado com esse, são as necessidades calóricas: animais que comem muito ficam de fora. Em vista disso, a maior parte dos bichos é composta por peixes, répteis e anfíbios, cujo organismo é mais lento e apresenta menor demanda energética. Os maiores mamíferos presentes, de fato, não passam de três gálagos, macacos quenianos de apenas 20 centímetros de comprimento. Isso, é claro, sem contar os humanos e suas presas, isto é, os animais domésticos incluídos como fonte de alimento. Mesmo nesse caso, porém, houve o cuidado de selecionar espécies pequenas, como um miniporco vietnamita, responsável pelo suprimento de carne, uma minicabra africana produtora de leite e minigalinhas japonesas, boas poedeiras.
Além disso, a contribuição desses animais para o cardápio restringe-se à variedade, ou um complemento à dieta básica. Da mesma forma, espera-se que pelo menos uma refeição por semana contenha frutos do mar, tais como ostras, mariscos, caranguejos e polvos. Mas nenhum desses itens compete em quantidade com as tilápias: elas fornecem o grosso das proteínas consumidas. Em seguida, vêm cinqüenta tipos de plantas cultivadas, como arroz, milho e legumes. Entre os vegetais, a variedade virá das frutas: até 85 por cento das espécies florestais são frutíferas e não haverá um único dia sem que pelo menos uma planta esteja frutificando."Os biosferianos terão a melhor dieta do mundo", opina o médico-chefe do projeto, Roy Walford, que vai ainda mais longe. Ele espera aumentar a expectativa de vida dos candidatos a colonizadores do espaço. Para isso, conta com uma fórmula que reduz o número de calorias e amplia a qualidade nutritiva das refeições. "Ratos submetidos a essa receita têm vida bem mais longa que a média da espécie", argumenta. Pode ser. Mas os verdadeiros desafios do projeto são outros. Aparentemente triviais, são muito difíceis de resolver.
Basta pensar na respiração. Ninguém se preocupa com o gás carbônico que exala ao respirar, porque as plantas o reconvertem continuamente em oxigênio. Num ambiente fechado, porém, o volume de gás carbônico cresce, em detrimento do de oxigênio, e mais cedo ou mais tarde acaba sufocando as pessoas e os animais presentes. O problema é tão sério, que na prática inviabiliza os vôos espaciais de longa duração. Os americanos, por exemplo, não podem ficar mais que dez dias em órbita, porque têm de levar consigo uma grande quantidade de oxigênio. Os cálculos mostram que cada astronauta precisa de pelo menos 5 quilos diários de alimentos, água e ar. Apenas em ar, o consumo alcança 3 quilos por dia, 60 por cento do peso total da mochila básica (os alimentos pesam 750 gramas e a água, 850 gramas).
Para que os astronautas não sufoquem, todos os dias é preciso recolher o gás carbônico gerado pela respiração e injetar nova cota de oxigênio nas cabines. Tudo isso, é claro, ocupa grande espaço no Shuttle, o principal veículo americano para operações em órbita, e custa caro - cada quilo de suprimentos sai pela pequena fortuna de 10 000 dólares. Diante desses números, fica fácil imaginar as dificuldades da grande estação orbital que os americanos planejam estacionar no espaço, em futuro próximo. Num projeto dessa envergadura, é preciso pensar em suprimentos para quatro ou cinco pessoas, em média, e durante um prazo de dois ou três anos. Nesse caso, a carga de provisões pode chegar a 20 toneladas, analisam os especialistas da NASA, a agência espacial americana.
Portanto, há razão de sobra para se pensar numa instalação auto-suficiente, isto é, que não exija novos suprimentos da Terra. É exatamente isso que se pretende com a Biosfera: estudar um meio ambiente fechado capaz de viver de si mesmo, como a Terra. Como é extremamente bem selada, tanto pode servir de suporte à vida no espaço, flutuando em órbita, como no solo hostil de um planeta vizinho. A redoma montada pela firma SBV, de fato, é capaz de reter o mesmo volume de ar, sem perdas significativas para o exterior, durante nada menos que 100 anos. Ao longo desse período, pelo menos em princípio, o oxigênio consumido seria reposto pelas plantas, em um sistema contínuo de reciclagem. Por outro lado, as fezes e a urina dos animais e do homem, seriam usadas para realimentar o solo e manter a produção vegetal em bom nível.
Algo semelhante já foi feito na União Soviética, no Instituto de Biofísica de Krasnoyarsk, onde três cientistas sobreviveram seis meses apenas com o ar reciclado por plantas. Também obtinham uma parte pequena de sua alimentação em hortas cultivadas. Apesar disso, os próprios soviéticos ainda encaram esse tipo de sistema como simples experiência e não o empregam em sua estação orbital Mir. Quando ela está ocupada, às vezes durante quase um ano, os astronautas têm que receber novas provisões regularmente. O fato é que não é brincadeira criar um sistema fechado, explica o biólogo Joe Hanson, do Laboratório de Jatopropulsão da NASA.Ele próprio imaginou uma experiência singular, mais pretensiosa do que simplesmente repor o ar com ajuda das plantas. Para isso, fabricou um globo de vidro, do tamanho de um melão, cheio de água e hermeticamente fechado, no qual encerrou um conjunto de bactérias, algas e camarões. Os camarões alimentavam-se de algas, respiravam oxigênio dissolvido na água e exalavam gás carbônico. Os seus dejetos, degradados pelas bactérias, serviam de alimento para as algas que, durante a fotossíntese, ao absorver gás carbônico, devolviam oxigênio à água. De maneira geral, o mecanismo funcionou, mas Hanson percebeu rateios perigosos em sua marcha. A reciclagem dos resíduos gasosos, por exemplo, não era constante, de modo que seu volume, em certos momentos, aumentava muito acima da média.
Essas flutuações não liquidaram os camarões porque eles toleram bem o excesso de gás carbônico. Mas os riscos aumentam muito quando se trabalha com organismos mais exigentes, afirma o cientista. "Ainda não foi possível manter vivo um vertebrado, como um peixe, por mais de dois meses." O projeto da Biosfera surgiu como uma ousada alternativa a esses resultados. Os seus autores argumentam que, quando se fala em reciclagem, talvez seja um erro tentar simplificar. Num ambiente onde vivem apenas camarões, algas e bactérias, perde-se a visão global e a grande variedade dos sistema reais. O ideal, segundo esse raciocínio, é montar habitats diversificados, como a própria Terra, e monitorá-los com precisão. Assim, os porões da Biosfera contêm um avantajado computador - o "sistema nervoso" do mundo artificial.
Ligado a 3 500 sensores espalhados pela redoma, ele é capaz de registrar dezenas de dados essenciais ao desempenho da experiência. Os sensores podem avaliar não apenas a quantidade de gases presentes na atmosfera, mas também o seu volume, já que o ar pode expandir-se ou contrair-se de acordo com a temperatura. A temperatura, por sua vez, também pode elevar-se devido ao excesso de gás carbônico, o qual retém calor por meio do temido efeito estufa. A umidade do ar é outro fator decisivo no desenvolvimento dos vegetais - uma das ousadias da Biosfera foi reunir, sob o mesmo teto, ambientes tão diferentes quanto um deserto e uma floresta tropical. O computador está preparado para ativar um sem - número de válvulas, ventiladores e bombas hidráulicas. Esse equipamento será responsável pelo controle de fenômenos como a chuva e o regime dos ventos, e também para corrigir falhas eventuais no curso dos acontecimentos. Certamente, é impossível prever o destino de um ambiente tão complexo. O oceano serve de ilustração, pois, por ser pequeno, rapidamente acumula resíduos orgânicos que absorvem oxigênio e ameaçam os corais e outros habitantes marinhos. Para que isso não aconteça, a água flui constantemente entre a superfície e o subsolo da redoma, onde passa por uma limpeza em regra. A operação, inteiramente automatizada, é feita por mais de trinta espécies de algas, que, em tanques especiais, devoram os resíduos orgânicos.
Na verdade, não há sequer garantia de que as plantas cultivadas vão sobreviver, ou se sua produção será suficiente para alimentar os humanos. Também não se sabe se os animais selvagens se adaptarão às novas circunstâncias. A maioria, num total de 45 espécies, é composta por insetos e foi escolhida por ser útil. Alguns deles revolvem o solo, outros servem de alimento para animais maiores e outros, enfim, contribuem para a reprodução das plantas, pois espalham as sementes e fazem a polinização. Resta saber se vão concretizar as expectativas.Mas as incertezas não preocupam os criadores da Biosfera. Para eles, mesmo se a reciclagem falhar, valerá a pena, pois será possível aprender com os defeitos. "A idéia é justamente essa", avalia o botânico inglês GhIllean Prance, consultor do projeto. "Preferimos reunir um grande número de espécies e observar quais delas se saem melhor. Estou preparado até para ver algumas sucumbirem à extinção." Confortavelmente instalados em apartamentos privados, os pesquisadores encerrados na Biosfera terão a tarefa de observar, em primeira mão, o desenvolvimento de seu micromundo.
Além de uma reunião informal para distribuir tarefas, realizada todos os dias, eles pretendem dedicar as manhãs à agricultura, deixando os trabalhos de pesquisa para a parte da tarde. Entre uma coisa e outra, podem ver televisão, ouvir música, ou mesmo fazer música, como é o caso do engenheiro eletrônico Taber MacCallum, autorizado a levar uma bateria para a Biosfera. A única exigência é que ele toque num quarto à prova de som, para não perturbar o trabalho - ou mesmo o descanso - dos outros. Talvez a principal diversão da equipe seja simplesmente passear em seu paraíso. Alguns dos escolhidos já haviam passado por experiência semelhante, em redomas menores construídas pela própria SBV, e estão agora encantados com o espaço disponível. É o caso da ecologista Linda Leigh, que viveu vinte dias em um módulo 300 vezes menor que a Biosfera. "Só o fato de poder me mover em três dimensões, me dá grande sensação de liberdade."Essa declaração revela uma perspectiva otimista que nem os mais ferozes críticos da experiência querem desabonar. Muitos cientistas duvidam da eficácia do projeto, em parte devido ao seu elevado preço - 180 milhões de dólares, financiados por um excêntrico bilionário americano, Edward Bass. Além disso, acredita-se que ele é complexo demais para ser monitorado, ou para, algum dia, ser enviado ao espaço. Mas a comunidade científica sempre simpatiza com a ousadia. É o que pensa, por exemplo, o especialista Arthur Galston, da Universidade Yale, para quem as perspectivas científicas são frágeis, na Biosfera. "Mesmo assim, ela abre caminho para uma região que nunca havia sido explorada antes." 


terça-feira, 2 de outubro de 2012

O Fim da Natureza - Ambiente


O FIM DA NATUREZA - Ambiente



O mais assustador na nova natureza que o homem está construindo é sua imprevisibilidade pois o aquecimento da Terra provocado pelo efeito estufa acaba com a regularidade do mundo natural. 

A natureza, acreditamos, dura para sempre. Ela se move com infinita lentidão pelos muitos períodos de sua história, cujos nomes mal conseguimos lembrar das aulas de Geologia no colégio - Cambriano, Devoniano,Triássico, Cretáceo, Pleistoceno. A era dos trilobites começou há 600 milhões de anos. Os dinossauros viveram durante 150 milhões de anos. Visto que mesmo 1 milhão de anos é algo totalmente impenetrável, a mensagem é: nada acontece depressa. As mudanças levam um tempo inimaginável, "geológico". Essa idéia é essencialmente enganadora. Em outras palavras, nosso senso de um futuro ilimitado é uma ilusão. Ao longo de uma vida ou de uma década ou de um ano, grandes mudanças, impessoais e dramáticas podem ocorrer. O tempo normal nos parece imune a tais enormes modificações. No entanto, não o é. Nas últimas três décadas, por exemplo, a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera aumentou mais de 10 por cento, de aproximadamente 315 partes por milhão para 350 partes por milhão. Na década passada, um imenso "buraco" na camada de ozônio abriu-se sobre o Pólo Sul em cada primavera e a porcentagem de florestas na Alemanha Ocidental danificadas pela chuva ácida subiu de menos de 10 por cento para mais de 50 por cento.Da mesma maneira confortadora com que pensamos o tempo como imponderavelmente extenso, consideramos a Terra inconcebivelmente ampla. Mas o mundo não é tão grande quanto intuitivamente acreditamos - o espaço pode ser tão breve como o tempo. Daí que o nosso senso de permanência do mundo natural é o resultado de uma perspectiva sutilmente distorcida. Mudanças no mundo capazes de nos afetar podem acontecer no período de uma vida. Sem reconhecê-lo, já atravessamos o umbral de uma dessas mudanças.Acredito que estamos no fim da natureza. Com isso não quero dizer o fim do mundo. A chuva continuará a cair e o Sol continuará a brilhar. Quando digo "natureza", refiro-me a um certo conjunto de idéias sobre o mundo e sobre o nosso lugar dentro dele. Mas a morte dessas idéias começa com mudanças concretas na realidade ao nosso redor, mudanças que os cientistas são capazes de medir. O sueco Svante Arrhenius (Prêmio Nobel em 1903), ao fazer um levantamento das primeiras décadas da Revolução Industrial, percebeu que o homem estava queimando carvão num ritmo sem precedentes. Os cientistas já sabiam que o dióxido de carbono, um subproduto da queima de combustíveis fósseis, aprisionava a radiação solar infravermelha que de outro modo seria refletida de volta para o espaço. Mas foi Arrhenius quem fez os primeiros cálculos dos possíveis efeitos da acelerada produção de dióxido de carbono pelo homem. A temperatura média global, ele concluiu, subiria nada menos de 9 graus Fahrenheit (12,8 graus centígrados se a quantidade de dióxido de carbono no ar dobrasse em relação aos níveis pré-industriais).Essa idéia flutuou na obscuridade durante muitíssimo tempo. Então, em 1957, dois cientistas da Califórnia, Roger Revelle e Hans Suess, descobriram que a camada superior dos oceanos, onde o ar e a água se encontram, absorveria menos da metade do excesso de dióxido de carbono produzido pelo homem. Embora haja outros aspectos nessa história - o esgotamento do ozônio, a chuva ácida, a engenharia genética -, a questão do fim da natureza centra-se no que acontecerá ao tempo. Quando perfuramos um campo de petróleo, alcançamos um vasto reservatório de matéria orgânica - os restos fossilizados de algas aquáticas. Nós os desenterramos. Quando queimamos petróleo - ou carvão, ou metano (gás natural) -, liberamos seu carbono na atmosfera sob a forma de dióxido de carbono. No curso de aproximadamente cem anos, nossos motores e indústrias liberaram uma porção muito grande do carbono sepultado ao longo dos últimos 500 milhões de anos. É como se alguém poupasse a vida inteira e então gastasse tudo em uma única fantástica semana de devassidão. A atmosfera terrestre é sobretudo nitrogênio e oxigênio; é apenas cerca de 0,035 por cento dióxido de carbono, pouco mais que um vestígio. As preocupações com o efeito estufa se referem ao aumento desse número para 0,055 ou 0,06 por cento, que não é muito. Mas o bastante para tornar tudo diferente. Os fatos essenciais são demográficos e econômicos, não químicos. A população do mundo mais que triplicou neste século e a produção industrial cresceu cinqüenta vezes. Quatro quintos desse crescimento se deu desde 1950, quase todo baseado em combustíveis fósseis. No próximo meio século, o mundo irá consumir mais energia - 2 ou 3 por cento a mais por ano, segundo a maioria das estimativas. E os maiores acréscimos poderão ocorrer no uso do carvão, que expele mais dióxido de carbono do que qualquer outro combustível.A queima de combustíveis fósseis não é a única causa do aumento de dióxido de carbono na atmosfera. As queimadas das florestas também remetem nuvens de dióxido de carbono para o ar. O desflorestamento atualmente acrescenta à atmosfera cerca de 1 bilhão de toneladas de carbono por ano, o que é 20 por cento ou mais da quantidade produzida pela queima de combustíveis fósseis. O hectare queimado de floresta tropical logo se converte em deserto ou pasto. E onde há pasto há gado. As vacas sustentam no estômago enorme quantidade de bactérias anaeróbicas, que partem a celulose que elas mastigam. Os bichinhos que digerem a celulose excretam metano, o mesmo gás natural que usamos como combustível. E o metano não queimado, como o dióxido de carbono, aprisiona a radiação infravermelha e aquece a Terra. Na verdade, o metano é vinte vezes mais eficiente do que o dióxido de carbono no aquecimento da Terra.A enorme quantidade daquelas bactérias metanogênicas é coisa do homem. A humanidade possui bem mais de 1 bilhão de cabeças de gado, sem mencionar um grande número de camelos, cavalos, porcos, carneiros e bodes: juntos, eles despejam anualmente no ar cerca de 73 milhões de toneladas de metano - um aumento de 435 por cento no último século. Aumentamos também o número de cupins. Como as vacas, os cupins abrigam bactérias metanogênicas, razão pela qual eles conseguem digerir madeira. Calcula-se que haja mais de meia tonelada de cupins para cada homem, mulher e criança na Terra. Os cupins excretam quantidades fenomenais de metano: um único cupinzeiro pode eliminar 5 litros por minuto. A lama destituída de oxigênio do fundo dos pântanos sempre abrigou bactérias produtoras de metano. Mas os arrozais talvez sejam ainda mais eficientes: liberam nada menos de 115 milhões de toneladas de metano anualmente. E os arrozais precisam aumentar em número e tamanho todo ano para alimentar a crescente população mundial. E tem mais: alguns cientistas começaram a achar que essas fontes por si sós não respondem por todo o metano.Enorme quantidade desse gás está trancada sob a forma de hidrato na tundra e na lama dos declives continentais. Se o efeito estufa aquecer os oceanos, se começar a degelar o permafrost (solo permanentemente congelado), então aqueles gelos podem ir se dissolvendo. Algumas estimativas da liberação potencial de metano dos oceanos chegam a 600 milhões de toneladas por ano - essa quantidade mais que dobraria a presente concentração atmosférica. A concentração de metano na atmosfera flutuou entre 0,3 e 0,7 partes por milhão pelos últimos 160 mil anos, alcançando os níveis mais altos durante os períodos mais quentes da Terra. Em 1987, o metano compunha 1,7 parte por milhão da atmosfera. O nível está aumentando ao ritmo de 1 por cento ao ano. O fato singelo é que o ar ao nosso redor - mesmo onde é limpo, recende a primavera e está povoado de pássaros - mudou significativamente. Alteramos substancialmente a atmosfera terrestre. E isso vai mudar a vida de cada um de nós. Quando o dióxido de carbono (ou a combinação equivalente de dióxido de carbono e outros gases de estufa) dobrar em relação aos níveis pré-Revolução Industrial, a temperatura média global aumentará, de 1,5 a 5,5 graus centígrados. Uma idéia pode tornar-se extinta assim como um animal ou uma planta. A idéia, no caso, é "natureza" - a província selvagem, o mundo à parte do homem sob cujas regras ele nasce e morre. É cedo ainda para dizer exatamente quão mais forte o vento irá soprar, quão mais quente o Sol irá brilhar. Isso fica para o futuro. Mas os seus significados já mudaram. A idéia de natureza não sobreviverá à nova poluição global - o dióxido de carbono, o metano e assemelhados. Privamos a natureza de sua independência e isso é fatal ao seu significado. A independência da natureza é o seu significado. É verdade que esta não é a primeira enorme ruptura da história do globo. Há cerca de 2 bilhões de anos, a proliferação de um tipo particular de cianobactéria causou um aumento de oxigênio na atmosfera de uma parte por milhão para cinco. "Essa foi de longe a maior crise de poluição que a Terra já suportou", escreveu a microbiologista Lynn Margulis.Pode-se argumentar: a crise atual também é "natural", visto que o homem é parte da natureza. Mas este é um argumento semântico. Quando digo que acabamos com a natureza, não estou afirmando que os processos naturais tenham cessado mas que fizemos cessar aquilo que - pelo menos nos tempos modernos - definiu a natureza para nós: sua separação da sociedade humana. Um motivo pelo qual não prestamos especial atenção ao mundo natural, separado e ao nosso redor, é que ele sempre esteve ali e presumimos que sempre estará. À medida que desaparece, sua importância básica torna-se mais clara. Acima de tudo o mais, o mundo exibe uma ordem adorável, confortadora na sua complexidade. E a parte mais atraente dessa harmonia talvez seja a sua permanência - o sentido de que somos parte de algo cujas raízes se estendem quase desde sempre e seus galhos avançam tanto quanto. A nova natureza de nossa autoria pode não ser previsivelmente violenta. Ela não será previsivelmente nada e vamos precisar de muito tempo para estabelecermos nossa relação com ela, se é que o conseguiremos. A característica saliente dessa nova natureza é sua imprevisibilidade, assim como o traço característico da velha natureza era a sua confiabilidade. Não estamos necessariamente condenados a sofrer algum cataclismo, mas não podemos mais supor que não estejamos condenados. A própria incerteza é o primeiro cataclismo e talvez o mais profundo.A mais falada conseqüência específica do aquecimento global é provavelmente o esperado aumento do nível do mar como resultado do derretimento polar. Mesmo que nada se derretesse, o acréscimo de calor elevaria consideravelmente o nível do mar. Água quente ocupa mais espaço do que água fria; a expansão térmica, dado um aumento global de temperatura entre 1,5 e 5,5 graus, deve elevar o nível do mar em 30 centímetros. Já é amplamente aceito que o nível do mar vai elevar-se significativamente ao longo das próximas décadas. A Agência de Proteção Ambiental, dos Estados Unidos, estimou uma elevação entre 1,50 e 2,10 metros por volta do ano 2100. Ao longo do século, a elevação no nível global do mar será superior a 90 centímetros. Isso significa que o mar alcançará uma altura sem precedentes na história da civilização.Dióxido de carbono e outros gases de estufa vêm de toda parte; portanto, a situação que eles criam só pode ser corrigida corrigindo-se tudo. Pequenas substituições e consertos rápidos não constituem solução. O tamanho e a complexidade do sistema industrial que construímos tornam fisicamente difíceis mesmo pequenas correções de curso. Sem uma população estática, até mesmo as metas mais imediatas e óbvias, como retardar o desflorestamento ou reduzir o consumo de combustíveis fósseis, parecem remotas. O efeito estufa é freqüentemente comparado à destruição da camada de ozônio, outro exemplo de poluição atmosférica com implicações globais. Mas a destruição da camada de ozônio pode ser e provavelmente será resolvida quando cessarmos de produzir as substâncias químicas que atualmente a destroem. O problema do aquecimento global, no entanto, não cede ao mesmo tipo de solução. Com ação agressiva, podemos "estabilizar" a situação a um nível que seja apenas moderadamente horrendo, mas não podemos resolvê-la. Isso não quer dizer que não devamos agir. Devemos agir de toda maneira possível e imediatamente.Estamos no fim de uma era - o porre centenário de petróleo, gás e carvão que nos proporcionou tanto os confortos como os apuros atuais. Mesmo os cientistas que mais clamam com estridência por controles sobre as emissões, dizem fazê-lo, porém, a fim de retardar o aquecimento para que possamos nos adaptar a ele. O ajustamento ao mundo da estufa não será fácil; somos profundamente viciados em petróleo. Nosso impulso será o de adaptar, não nós mesmos, mas a Terra - de descobrir uma nova maneira de manter nosso domínio e, daí, os estilos de vida com os quais nos acostumamos. Inventaremos novos instrumentos, novas tecnologias, para nos mantermos vivos no planeta, num mundo "macroadministrado". O problema, em outras palavras, não é simplesmente que a combustão de petróleo libera dióxido de carbono que, por força de sua estrutura molecular, captura o calor do Sol. O problema é que a natureza, a força independente que nos rodeou desde os nossos primeiros dias, não consegue coexistir com os nossos números e os nossos hábitos. Bem que poderemos criar um mundo capaz de suportar esses números e hábitos, mas será um mundo artificial - uma estação espacial. Ou, quem sabe, poderíamos mudar os nossos hábitos. A ecologia profunda sugere que em vez de dar ordens melhores aprendamos a dar cada vez menos ordens - de modo a mergulhar novamente no mundo natural. Tais ecologistas questionam a base industrial de nossa civilização, a necessidade de crescer eternamente em riqueza e números.Essas idéias são pelo menos um ponto de partida para aqueles interessados em salvar um mundo que está sumindo depressa. São idéias radicais, mas vivemos num momento radical. Vivemos no fim da natureza, o instante em que o caráter essencial do mundo está mudando. Se o nosso modo de vida está acabando com a natureza, não é radical falar em transformar nosso modo de vida. Como é óbvio, tal mudança será colossalmente difícil. É também difícil voltar as costas à idéia do crescimento econômico, que nos foi vendida como resposta à pobreza que aflige a maior parte do planeta. Mas um mundo superaquecido, desprovido de ozônio, seria provavelmente mais cruel para os pobres do que para os ricos e, se o nosso desejo é amenizar a pobreza, limitar o nosso padrão de vida e partilhar o nosso excedente devem funcionar tão bem quanto. O fim da natureza é um salto no desconhecido, tão assustador porque é desconhecido como porque o mundo pode tornar-se quente ou seco ou chicoteado por furacões. Mas esta poderia ser a época em que as pessoas decidam pelo menos não ir adiante na senda que têm percorrido - quando fizermos não apenas os ajustes tecnológicos necessários para preservar o mundo do superaquecimento, mas também os ajustes mentais necessários para assegurar que nunca mais tornaremos a pôr nosso bem à frente de tudo o mais. Este é o caminho que escolhi, porque oferece um fiapo de esperança num mundo vivo, eterno e significativo.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Os Alarmes soam quando somem as Borboletas

O ALARME SOA QUANDO SOMEM AS BORBOLETAS



Quando elas desaparecem de um trecho qualquer da mata, é sinal de que alguma coisa muito grave está acontecendo com aquele ecossistema. Mas os homens ainda não aprenderam a ouvir esses alarmes.

Aquela imagem tradicional do caçador de borboletas, ar desligado, redinha numa das mãos, chapéu de explorador, já não tem mais sentido se é que chegou a ter, algum dia. Pois caçadores de borboleta, hoje em dia, podem ser tudo o que quiser, menos desligados. Agora eles formam uma legião imensa, onde se enquadram todos os tipos físicos da América Latina, e trabalham sob as vistas e uma gigantesca conexão internacional que vai, por exemplo, das selvas do Peru, passa pelas ricas praias do Rio de Janeiro e termina, quem sabe, nas ruelas de Hong Kong. Os pratinhos e bandejas decoradas com aquele azul-metálico que nós, brasileiros, já nos habituamos a ver nas lojas e quiosques especializados em atender a turistas, são um produto dessa operação. Mas são ninharias, se comparados com as monstruosas tampas de mesas e biombos executadas por encomenda em países onde essas delicadas borboletas, habitantes dos trópicos americanos, fazem o deleite dos apreciadores de móveis exóticos. E haja borboleta azul, pois uma única tampa de mesa podem ser consumidas nada menos do que duas mil asas.
Já em 1975, cientistas denunciam na Inglaterra a captura e conseqüente comercialização de seis milhões de borboletas azuis , por ano. Há muito boas razões para imaginar que, atualmente, esse número tenha triplicado. Ainda assim, pode-se fazer com segurança uma afirmação aparentemente surpreendente: as borboletas azuis não estão ameaçadas de extinção, mesmo submetidas a esse fantástico regime de caça e perseguição. Isso, apesar de não gozarem da proteção de nenhum organismo internacional, nem terem sido objeto de petições com milhares de assinaturas dirigidas à Assembléia Nacional Constituinte.
São as fêmeas que garantem a sobrevivência das borboletas azuis, graças a algumas peculiaridades bem marcantes. Em primeiro lugar, elas são extraordinariamente férteis: numa única desova, uma dessas fêmeas é capaz de gerar centenas de lagartas. Em segundo lugar, elas não são azuis - ou, pelo menos, não são muito azuis -, de modo que não chegam a atrair a atenção dos caçadores. Finalmente, elas costumam voar muito alto, acima da copa das árvores, fora do alcance de qualquer caçador. Os machos, ao contrário, são azuis, bonitos, atraentes e voam baixo - e por isso engordam sozinhos aquelas estatísticas apresentadas pelos cientistas ingleses. Mas, por mais machos que sejam capturados, sempre sobra algum para fecundar as fêmeas que voam lá no alto e garantir, assim, a sobrevivência. Pode-se afirmar, portanto, que com redinhas e chapéus de explorador não se acabará nunca com as borboletas azuis, por mais asas que sejam necessárias para fabricar móveis e bandejas.
Mas não se pode afirmar que as borboletas, azuis ou que cor tenham, sobreviverão à sanha predadora de um certo tipo de progresso. Antes de chegar à idade adulta, quando adquire asas e passa a gozar de ampla liberdade, a borboleta passa uma fase relativamente longa sob a forma de larva. Fica, então, condicionada a viver agarrada a uma espécie qualquer de vegetal, que Ihe garanta a sobrevivência fornecendo-lhe alimento nas grandes quantidades de que ela tem necessidade. As lagartas que se mostram excessivamente seletivas na escolha de sua planta-alimento estão, teoricamente, ameaçadas, pois se o homem acabar com a planta, acabará também com a borboleta. E cada vez mais escasseiam, no Brasil e nos demais países da América Latina, as espécies nativas de bambus e ingazeiros, que fazem as delicias das larvas.Isso tem se tornado uma coisa tão marcante, que as borboletas acabaram sendo reconhecidas como uma espécie de barômetro para detectar os ataques do homem ao meio ambiente. Foram cientistas americanos, europeus e japoneses que chegaram a essa surpreendente conclusão, a partir do alarme que soou na costa ocidental dos Estados Unidos, mais precisamente na bala de São Francisco, na Califórnia.Lá estava localizado o último recanto onde sobrevivia uma pequenina borboleta azulada, a GIaucopsyche Xerces, uma espécie que vinha se tornando cada vez mais rara. Depois que os últimos exemplares de lótus nativos da baía de São Francisco foram destruídos pelos serviços de aterro necessários para ampliar a faixa urbanizada da cidade, a frágil borboletinha azulada nunca mais foi encontrada. Suas lagartas alimentavam-se exclusivamente com as folhas do lótus. O desaparecimento da Xerces despertou a atenção dos cientistas para um fato de conseqüências mais graves: se uma determinada espécie de borboleta escasseia, ou mesmo desaparece, numa determinada região que antes habitava, algo muito grave pode estar ocorrendo por ali com o equilíbrio ecológico. E simples: um ecossistema em perfeito equilíbrio pode ser comparado a um organismo complexo, cujas funções se desenvolvem normalmente. Ambos são compostos por diferentes elementos, fixos e móveis. Por exemplo, num ecossistema os vegetais são elementos fixos, os animais elementos móveis.Tal como os componentes do sangue, que fluem através dos órgãos fixos do nosso organismo, certos animais fluem através de uma floresta. Ora, aquilo que num exame de sangue denuncia o mau funcionamento de um setor do organismo pode ser, talvez, a diminuição repentina dos glóbulos vermelhos circulantes. Da mesma forma, a diminuição da circulação de uma borboleta numa clareira da floresta pode ser a primeira noticia de que, em algum setor daquele ecossistema, as coisas não andam bem. E, tal como no organismo humano, bastará essa pequena falha para logo fazer desandar tudo. Assim, torna-se urgente descobrir o que está errado, e começar a corrigir. Pois, na natureza, correções desse tipo exigem um tempo enorme. Quanto antes começarem a ser feitas, tanto melhor. E sobretudo, quanto antes forem tomadas providências para evitar que o desequilíbrio continue a se acentuar, tanto melhor ainda. Voltemos agora à Xerces, que desapareceu da bala de São Francisco. Indignados com o que havia acontecido ali, cientistas americanos fundaram uma associação, batizada com o nome da borboletinha - a Xerces Society -, e dedicaram-na ao estudo dos problemas do meio ambiente, Da extinção das espécies e, nesse capítulo, em particular, das borboletas, por eles desde então consideradas e proclamadas como valiosos sistemas de alarme contra agressões à Natureza.
Aqui no Brasil, já falta pouco para que tenhamos a nossa primeira borboleta extinta pela ação irrefreada dos predadores humanos do meio ambiente. Ela se chama Parides ascanius, e sempre habitou uma faixa estreita e curta do litoral do Rio de Janeiro, justamente a área do litoral brasileiro que mais vem sofrendo os efeitos da voracidade imobiliária que abocanha praia após praia. Ela é uma borboleta de asas negras, listradas de branco e grená, habitante dos mangues e das matas litorâneas. Suas larvas alimentam-se com as folhas de uma trepadeira silvestre, a Aristalochia macroura, uma planta rara e venenosa.
O caso dessa borboleta e de sua planta-alimento é um bom exemplo de como se faz, ao longo de um tempo que se mede por milênios, a evolução de um relacionamento biológico do tipo inseto-planta. A Aristolochia faz parte de um grupo de plantas que se caracterizam por estar sempre em guerra, defendendo-se quimicamente dos ataques dos animais herbívoros. Mas são exatamente as substâncias venenosas que elas usam para se proteger desses animais que funcionam como chamariz para outra espécie particular de herbívoro. No caso, a Parides ascanius. Durante um longo processo evolutivo certos animais foram selecionados pelos mecanismos bioquímicos, operados pela própria fisiologia dos vegetais, e tornaram-se dependentes de uma única planta venenosa. Assim, o que para os outros bichos se tornou um fator de repulsão, em relação àquela planta, para o eleito se tornou um fator de sobrevivência. Instalados através de caules e folhas, esses mecanismos caprichosos, gerados por uma alquimia vegetal quase mágica, definem com extrema precisão essas dependências alimentares dos insetos. Na raiz dessas intrigantes manifestações bioquímicas estão entidades microscópicas, enoveladas sobre suas malhas de ligações atômicas: os alcalóides. São compostos orgânicos capazes de operar profundas alterações fisiológicas no organismo dos animais.
São essas substâncias que determinam quem come o quê nas dietas vegetarianas dos animais herbívoros e, automaticamente, protegem as plantas contra uma legião de possíveis atacantes famintos. Os alcalóides são ambíguos, podem servir como remédio, curar doenças, tanto quanto podem matar. Os que se enquadram nesse segundo caso são considerados venenos naturais e as plantas que os elaboram, conseqüentemente, são classificadas como venenosas.
A Aristolochia é uma dessas plantas. Ela produz um alcalóide particular, a aristoloquina. Foram necessários alguns milhões de anos de evolução conjunta entre aristolóquias pré-históricas e certas lagartas trogloditas para que, lentamente, se desenvolvesse a tolerância à aristoloquina demonstrada pelas lagartas da borboleta Parides. Atualmente, quase todas as lagartas dessa espécie alimentam-se exclusivamente das folhas indigestas da Aristolochia, mortal para todos os outros herbívoros da floresta. Já o homem, com sua capacidade de investigar, descobrir e operar mudanças e transformações. vem usando a aristoloquina há muitos e muitos anos como remédio. Na Grécia antiga, os extratos de suas raízes eram utilizados pelas mulheres para garantir partos perfeitos. Aliás, foram os gregos quem deram nome à planta - aristos, o melhor; lokheia, parto. Não há nenhuma dúvida quanto à ação benéfica exercida pela aristoloquina sobre o aparelho genital feminino: ela favorece a menstruação, ativa as contrações uterinas e acentua nitidamente as descargas vaginais do pós_parto.
Usada com moderação, a aristoloquina é fantástica. Calmante, diurético, antisséptica e febrífuga, pode funcionar, de quebra, como um excelente tônico digestivo. Isso é apenas o que sabemos dela com certeza. Mas, além disso tudo, ela já foi apontada como um eficiente cicatrizante de feridas e úlceras rebeldes, um bom remédio para combater orquites (inflamações dos testículos) e certos tipos de paralisia, e auxiliar eficiente no combate ao béri-beri. Usada sem moderação, a aristoloquina se revela o veneno que é: produz náuseas, diarréias, taquicardia e, em casos extremos, chega a provocar um quadro clinico complicado, chamado embriaquez aristalóquica. caracterizado por sérias perturbações mentais.Isso é muita coisa, sem dúvida nenhuma, mas é bem possível que a Aristolochia ainda seja capaz de muito mais. Acontece que as espécies nativas brasileiras foram pouco estudadas pela bioquímica, até agora. Infelizmente, essas curiosas trepadeiras silvestres já se tornaram muito raras nas matas da região do Rio de Janeiro, devido às agressões sofridas por seus ambientes naturais. Assim, é muito provável que nem cheguemos a conhecer tudo o que elas poderiam nos oferecer, se as tratássemos com mais carinho e atenção.
E junto com a Aristalochia extinguese, pouco a pouca a nossa bela e frágil borboleta Ascanius, que só sabe alimentar-se com as suas folhas que todos os outros bichos consideram veneno mortal. Na verdade, para essa borboleta original, a Aristalochia representa muito mais do que um simples alimento; é uma verdadeira garantia de sobrevivência mesmo na fase adulta. Pois a toxicidade e o cheiro do alcalóide da planta passam a fazer parte do corpo da lagarta, que come as folhas, e continuam integrados na borboleta, mesmo na fase adulta. Isso confere à Ascanius uma segura defesa contra seus predadores, pássaros em particular.Ironicamente, as poucas e raras lagartas da Ascanius ainda existentes no Brasil, talvez as últimas, são cultivadas e preservadas, em cativeiro, por um caçador de borboletas que há mais de quarenta anos se dedica a capturar e exportar esses belos animaizinhos para vários países. Trata-se do catarinense Herbert Miers. Atarantado com as exigências burocráticas do governo para que possa exportar suas azuis - registro, alvará e manter uma criação de larvas -, ele reclama: "Isso só faz sujeira, não é eficiente". Eficiente seria prestar atenção aos alarmes naturais - como as borboletas que desaparecem das matas - e corrigir as distorções que os fazem soar.


Boxes da reportagem

A cor é uma arma e uma armadilha
O brilho metálico que faz cintilar as asas de uma borboleta azul não é um enfeite. Ele confere ao inseto um precioso recurso para esquivar-se dos ataques de pássaros predadores. Quando mergulha em direção a uma borboleta, o pássaro tenta enfiar a cabeça entre suas asas para apanhar, com o bico, o corpo pequeno de sua presa. Que é o que Ihe interessa.Se errar o golpe, a borboleta terá alguns segundos para executar uma série de acrobacias e se embrenhar no mato, para fugir à perseguição. É nessas ocasiões que o rápido abrir e fechar das asas de colorido metálico produz uma sucessão de lampejos desencontrados. O ziguezague da evasão impressiona a retina da ave com um salpicado de flashes, fazendo-a perder os verdadeiros posicionamentos da borboleta.Mas é esse mesmo brilho metálico que livra a borboleta azul dos pássaros que a tornou cobiçada por outro perseguidor: o homem. São caçadores profissionais que fornecem a matéria-prima para o comércio internacional, e seu trabalho já se tornou um excelente negócio. Afinal, o resplandecente azul-metálico desses insetos é algo muito raro na natureza, e mesmo entre as borboletas dos trópicos poucas são as espécies que o possuem.O colorido das borboletas, em geral, é produzido por uma numerosa concentração de minúsculas plaquinhas alinhadas sobre as asas, que são as escamas. Trata-se daquele conhecido pozinho (erradamente considerado perigoso que as borboletas largam em nossos dedos quando as agarramos pelas asas. Nas escamas brilhantes das borboletas azuis a cor é considerada estrutural, pois é criada pela incidência da luz sobre a estrutura das escamas.Essa cor azul é produzida pelo fenômeno ótico de decomposição da luz solar sobre as arestas de finíssimas ranhuras paralelas, encontradas na superfície de cada escama. O fenômeno pode ocorrer em muitas espécies de borboletas e sua maior ou menor intensidade depende do número de escamas geradores de cores estruturais que elas apresentarem sobre as asas. Entretanto, na maioria das espécies, o colorido é produzido pela composição química de um pigmento difundido sobre cada escama.



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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Dublê de corpo - Alca Gigante

DUBLÊ DE CORPO - Alca Gigante



Seu dorso era coberto por uma plumagem negra. Tinha o peito branco e duas grandes manchas ovaladas também brancas entre o bico e os olhos, além de pequenos pontos marrons na cabeça e no pescoço. Embora ela fosse alta, suas asas eram pequenas e não lhe permitiam voar. Na água elas funcionavam como excelentes nadadeiras, ajudando-a escapar de seus predadores. Em terra, em posição ereta, sobre as patas, parecia desengonçada. Graças a uma densa capa de gordura subcutânea, vivia sem problema em lugares muito frios. Embora essa descrição lembre muito a aparência e o comportamento dos pingüins, a alca-gigante não tem parentesco direto com as simpáticas aves que até hoje habitam as regiões mais geladas do planeta.
A alca-gigante (great auk, em inglês) é, provavelmente, a mais conhecida das aves extintas nos últimos três séculos. Ficou tão famosa que, à época da Primeira Guerra Mundial, havia um cigarro chamado Great Auk. O nome Great Auk Head também foi marca de vinho. Membro da família alcidae, a alca se destacava pelo tamanho: tinha cerca de 75 centímetros de altura e suas asas atingiam em torno de 16 centímetros. Todas as outras espécies eram bem menores. Assim como os pingüins, alimentava-se de peixes e crustáceos. Quase não emitia sons e, quando o fazia, grunhia baixinho. Para proteger os filhotes, as fêmeas punham os ovos (que tinham o formato de pêra) nas rochas.
A alca-gigante viveu numa vasta área do Atlântico Norte. Por causa de sua pele, ovos, carne e gordura, foi sempre alvo de pescadores e colecionadores. A caça à ave ganhou força com o avanço dos colonizadores europeus. Em 1534, o explorador francês Jacques Cartier descobriu o grande reduto da ave - a Ilha Funk, perto da província canadense de Newfoundland. Logo depois, pescadores de bacalhau e lagosta passaram a usar as alcas como iscas. Nessa época, elas eram tão comuns que as pessoas enchiam um barco inteiro com suas carcaças. No início do século 19, porém, as alcas-gigantes passaram a ser vistas apenas em alguns pontos da costa da Islândia.
O pintor britânico Errol Fuller, autor de vários livros sobre aves extintas, diz que o desaparecimento da alca-gigante é uma prova da ignorância e crueldade humanas. Há relatos de que um dos últimos exemplares capturados vivos foi espancado até a morte, por ter sido considerado um espírito mau, causador de fortes ventos que castigaram a região na noite seguinte à sua captura. A última alca-gigante de que se tem notícia foi abatida em 1844, na Islândia. Da pobre ave restam hoje cerca de 80 peles e 75 ovos em coleções e museus espalhados pelo mundo.

Alca-gigante
Nome científico: Alca impennis ou Pinguinus impennis
Ano da extinção: 1844
Habitat: Atlântico Norte

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O Selvagem Sedutor - Tarpan

O SELVAGEM SEDUTOR - Tarpan



Nenhum animal retratado nesta revista teve um final tão inglório quanto o tarpan, um cavalo que viveu na região que se estendia da Espanha e do sul da França até a Rússia central. O último espécime selvagem, uma égua, morreu ao despencar de uma fenda no gelo enquanto fugia dos caçadores, em Askania Nova, na Ucrânia, em 1880. Naquela época, o Zoológico de Munique, na Alemanha, ainda tinha um exemplar em cativeiro. A morte desse solitário cavalo, em 1887, marcou a extinção do tarpan.
O naturalista S. C. Gmelin foi o pioneiro na pesquisa desses bichos selvagens, estudando-os a partir de quatro exemplares capturados perto de Bobrowsk, na Rússia, em 1768. Ele os descreveu como animais de cabeça desproporcional e com orelhas tão longas quanto as do asno. Como não conseguiu observá-los na natureza, Gmelin não obteve muitas informações sobre o comportamento do tarpan. Quem o classificou e catalogou, já no século 20, foi Helmut Otto Antonius, diretor do Zoológico de Schönbrunn, em Viena, Áustria. Para ele, o tarpan selvagem seria o ancestral dos cavalos do Oriente.
Nas primeiras vezes em que esses eqüinos foram analisados cientificamente, já havia poucos exemplares puros-sangues. Na época, os fazendeiros europeus avançavam rapidamente com plantações e rebanhos sobre o habitat dos garanhões selvagens, que encontraram nas éguas domesticadas uma alternativa para procriar. Aliás, impressionava a capacidade de liderança e conquista dos machos dessa espécie. Relatos indicam que eles "convenciam" animais confinados a se juntarem a seus grupos. Não era raro avistar uma fêmea com algum pedaço de arreio ou corda no pescoço galopando no meio da manada. Com isso, os problemas cresceram para o lado dos tarpans. A primeira encrenca foi com os fazendeiros, cansados de ver suas éguas desertarem pela liberdade. Eles também não queriam repartir as pastagens das redondezas com outros animais que não lhes pertencessem. Então passaram a abater os cavalos selvagens, reduzindo drasticamente as populações dos tarpans. Outro motivo para a extinção da espécie foi o cruzamento indiscriminado com as fêmeas domesticadas.
Os irmãos e zoólogos Lutz e Heinz Heck, que trabalhavam no Zoológico de Munique, na Alemanha, começaram em 1930 um programa de estudos para reverter a extinção do cavalo selvagem a partir da reconstrução do gene. Ainda nos anos 30, os esforços dos cientistas resultaram no chamado tarpan moderno. Assim como seus ancestrais selvagens, ele adquire a cor branca no inverno - embora a cabeça, o rabo e os pêlos sobre os cascos permaneçam escuros -, é resistente às baixas temperaturas e extremamente fértil. Apesar dessas características, mais a semelhança de porte, pelagem e força, não há evidência genética de que o tarpan moderno seja idêntico ao tarpan extinto em 1887.

Tarpan
Nome científico: Equus caballus gmelini
Ano da extinção: 1887
Habitat: Europa e Ásia

Nem tudo era azul - Antílope Azul

NEM TUDO ERA AZUL - Antílope Azul



Desaparecido em 1799, o antílope-azul foi o primeiro grande mamífero africano extinto nos últimos 2 000 anos. Há cerca de 10 000 anos, era um bicho comum em todo o sul da África, principalmente na região próxima à atual Cidade do Cabo, conforme mostram os numerosos ossos e fósseis desenterrados pelos pesquisadores. É difícil afirmar por que a espécie foi sumindo do planeta. Duas hipóteses se complementam: a vegetação rasteira, principal comida do antílope-azul, mudou quando o clima aqueceu e, quase na mesma época, o homem levou outros animais, como a ovelha, para o mesmo habitat. A única coisa certa é que a morte dos últimos antílopes-azuis foi acelerada pela caça indiscriminada.
A cara do antílope-azul é conhecida apenas pelo estudo das peles guardadas em museus de história natural na Europa. A descrição mais apurada foi realizada pela zoóloga alemã Erna Mohr, em 1967. Pelo que sobrou desse mamífero, conclui-se que ele tinha de 102 a 116 centímetros de envergadura e pesava cerca de 160 quilos quando adulto. O mais engraçado é que Erna não encontrou vestígios de pêlos azuis em nenhuma das peles catalogadas, segundo a descrição dos primeiros colonizadores europeus que viram o bicho na Cidade do Cabo, nos séculos 17 e 18. A cor azul pode ter sido um golpe de vista, causado pela aparência da pele escura através do pêlo ralo de animais mais velhos. Mas, como o nome já havia se popularizado, seguiu a mística do antílope-azul.
Consta que vivia em grupos com mais de 20 indivíduos e era herbívoro. Vivia em regiões com bastante água, o que sugere que precisava beber regularmente. Para se defender, usava os dois grandes chifres curvados para trás, cujo golpe poderia ser fatal. Porém, não tão mortal quanto as armas de fogo dos colecionadores de peles, que condenaram o antílope-azul exclusivamente ao desenho que você vê ao lado.

Antílope-azul
Nome científico: Hippotragus leucophaeus
Ano da extinção: 1799
Habitat: África do Sul

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Retrato em close da mata Atlântica

RETRATO EM CLOSE DA MATA ATLÂNTICA



A Mata Atlântica é uma região que possui uma das mais ricas biodiversidades do planeta. Originalmente, ela se estendia por toda a costa brasileira, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. Após cinco séculos de destruição pelo homem, porém, restam apenas 7% do 1,47 milhão de quilômetros quadrados originais. A cada quatro minutos, ela perde o equivalente a um campo de futebol. Para preservar o que restou desse importante bioma (região com características de clima, solo, fauna e flora que a tornam única), um grupo de empresários, cientistas e ambientalistas criou, em 1986, a Fundação SOS Mata Atlântica, uma organização não-governamental.

Na época se tinha uma idéia aproximada do desmatamento em curso, mas não havia um quadro real de onde e como a vegetação estava sumindo. "Tínhamos bastante conhecimento do desmatamento e da situação a partir das bordas, mas eram poucas as informações precisas do miolo", lembra o geógrafo Mario Mantovani, diretor da SOS. A preocupação em conhecer a verdadeira dimensão do problema para buscar soluções mais eficientes levou a ONG a fazer uma parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). "Queríamos documentar o que restava do bioma e os pequenos focos de desmatamento, mas os instrumentos disponíveis não atendiam às nossas necessidades. Precisávamos do maior nível de detalhamento possível de uma área que cobre 16 Estados brasileiros."

Depois de quase quatro anos de trabalho, o Inpe apresentou, em 1991, um software que abriu um novo caminho para o mapeamento de biomas e o acompanhamento de sua degradação. A tecnologia deu origem ao Atlas da Mata Atlântica, lançado em 2004, e começa a ser usada também na Amazônia. "Antes, conseguíamos informações por meio de sobreposições de imagens e, no máximo, em uma escala de 1 para 250 000. O software nos proporcionou dados em uma escala de 1 para 50 000", diz geógrafo. "E o melhor é que essa tecnologia também permitiu que tudo seja disponibilizado para a sociedade de forma simples e prática."

Ao mudar a escala de visualização das áreas, o software possibilitou a confecção de mapas mais minuciosos. Até então, ao se fazer o levantamento da vegetação de áreas tão grandes, cada centímetro representado no documento correspondia a, no mínimo, uma área de 2,5 quilômetros. Com a nova tecnologia, a SOS conseguiu mapear os 16 Estados por onde a floresta se espalha com maior nível de detalhamento: cada centímetro do mapa corresponde a área de apenas 500 metros.

"Há diversos softwares no mundo que geram mapeamentos até mais detalhados, mas não de áreas tão grandes nem com a vegetação como tema. Com isso, passamos a identificar focos mínimos de desmatamento, aqueles feitos por pequenos proprietários, por exemplo. Pessoas que, se bem orientadas, podem perceber que têm maiores possibilidades de lucros, inclusive financeiros, conservando a mata do que a eliminando", diz Mantovani.
Em termos práticos, outro ganho importante com esta tecnologia é o desenvolvimento de políticas públicas locais. A região da Mata Atlântica está dividida no Atlas município a município. Assim, qualquer prefeitura, ONG, universidade ou até uma pessoa sozinha pode examinar a situação da Mata Atlântica no seu município e, com base nas informações dos mapas, promover ações locais. Essa base de dados serve para estimular pequenas ações que, somadas, podem ter grande efeito no bioma como um todo. "É praticamente impossível estabelecer medidas eficientes em nível nacional. Precisamos dessa soma de pequenas ações em rede para a recuperação da floresta", diz Mantovani. Ele acredita que, sem esse mapeamento, a mata certamente estaria condenada a desaparecer em poucos anos. Mantovani prevê que a tecnologia desenvolvida no Brasil poderá ser exportada em breve e contribuir para a conservação de biomas no mundo inteiro.®

Grande e frágil
A Mata Atlântica que Pedro Álvares Cabral encontrou nestas terras, ao desembarcar em 1500, estendia-se sobre um mar de morros e trechos baixos ao longo de toda a costa brasileira. Era uma verdadeira muralha, coberta com árvores de até 60 metros de altura e formava um sistema auto-suficiente de vida. Hoje, é impossível traduzir a biodiversidade da Mata Atlântica em números. Apenas uma pequena parte das espécies foi estudada - e muitas desapareceram sem que o homem ao menos soubesse que elas existiram algum dia.
As copas das árvores mais altas se fecham, formando uma cúpula protetora das espécies que se desenvolvem debaixo delas. As folhas e sementes que caem servem de alimento para insetos e outros animais que compõem a cadeia alimentar. Muitos são responsáveis pelo transporte de sementes e outras formas de reprodução da floresta, fechando o ciclo de vida. Qualquer intervenção, mesmo numa única espécie animal ou vegetal, pode levar a uma destruição em cadeia. A variação de características geográficas ajuda a enriquecer o grupo de ecossistemas. A diversidade vegetal e animal é tamanha que uma árvore da mesma espécie pode apresentar características diferentes conforme esteja no nível do mar ou no alto do morro.

O impacto da descoberta
Mapeamento minucioso, feito com a ajuda de um software desenvolvido pelo Inpe, permitiu verificar que apenas 7% da área original da Mata Atlântica está preservada, chamando a atenção para a necessidade de sua preservação