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domingo, 13 de outubro de 2019

Estudo indica que imigrantes fazem bem para a economia de um país

Estudo indica que imigrantes fazem bem para a economia de um país


Um estudo feito a partir de dados de fluxos migratórios na Europa nos últimos 30 anos revelou que a imigração traz resultados positivos para a economia. 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Manifestações populares que fizeram história


Manifestações populares que fizeram história


Manifestações populares fazem parte da história das sociedades e podem ser responsáveis por grandes mudanças políticas, sociais, culturais e econômicas no nosso mundo.

Abaixo selecionamos algumas delas que marcaram nossa época. Confira a nossa lista:

sexta-feira, 4 de março de 2016

Os 10 maiores ditadores da história mundial


Os 10 maiores ditadores da história mundial


Você saberia dizer quais foram os maiores ditadores que a história moderna já conheceu?
A palavra ditador está associada, inevitavelmente, ao autoritarismo. Um ditador é, por definição, um governante que assume todos os poderes do Estado. Isolado, por decisão própria, de qualquer controle constitucional ou legislativo. Abaixo, apresentamos dez dos maiores ditadores dos últimos tempos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Inimigo secreto - Espionagem


INIMIGO SECRETO - Espionagem


A espionagem vai bem, obrigada, e tem muito espião por aí. Claro que ela já não é tão glamourosa como nos tempos de James Bond, mas sobreviveu ao fim da guerra fria. A diferença é que hoje os espiões ganham seu dinheiro investigando crimes comuns ou bisbilhotando a briga entre empresas concorrentes.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Uma Nação Chamada Europa - Geografia


UMA NAÇÃO CHAMADA EUROPA - Geografia



Doze países preparam-se para inventar um continente sem fronteiras a partir de 1993. Mas essa grandiosa obra de engenharia política enfrenta agora insuspeitadas dificuldades.

Com sua eloqüência arrebatada, o escritor francês Victor Hugo proclamava em 1848: "No século XX, existirá uma nação extraordinária. Ela será grande, o que não a impedirá de ser livre. Ela será ainda mais que uma nação: será uma civilização. Ela será ainda melhor que uma nação: será uma família...". Exatamente 109 anos e duas guerras mundiais depois, sem contar as que sangraram apenas o solo europeu, o esboço dessa nação grande, livre, civilizada e familiar materializou-se em assinaturas e apertos de mão.
Em 1957, representantes de seis países Bélgica, França, Holanda, Itália e Luxemburgo-assinaram em Roma o tratado de fundação da Comunidade Econômica Européia (CEE), ou simplesmente Comunidade Européia (CE), como se diz hoje, um espaço ainda picotado por fronteiras políticas, mas franqueado ao comércio liberto de barreiras alfandegárias. O Tratado de Roma-a ser atualizado em dezembro próximo, na cúpula de Mastricht, Holanda-poderá ser venerado um dia como o marco mais importante da história européia. Até porque a construção de uma Europa unificada não tem sido nem simples nem rápida-e sobram incertezas.
A coluna dos ganhos registrou em 1973 a adesão da Grã-Bretanha, Irlanda e Dinamarca ao Mercado Comum Europeu, como o sistema se tornara conhecido. Nos anos 80, Grécia, Espanha e Portugal incorporaram-se à Europa dos portos abertos, abrindo caminho para que ao menos uma parte do sonho generoso de Victor Hugo pudesse espraiar-se por 2,2 milhões de quilômetros quadrados, do Tejo ao Reno, do Mar Egeu ao Mar do Norte. Atualmente, estão na fila de espera por um lugar no clube europeu Suécia, Austria, Turquia, Chipre e Malta. Reivindicam alguma forma de associação Polônia, Checoslováquia e Hungria.
Mas a transformação da Europa numa comunidade política-uma federação de Estados e línguas, uma Suíça tamanho família, com uma só moeda, um só parlamento, um só presidente, uma só diplomacia e um só sistema de defesa - continua tolhida pelo medo medo de países como Inglaterra, Dinamarca e Portugal de perder um pedaço de sua soberania. As palavras federação e federalismo, objeto de acalorados debates nesse último verão europeu, parecem dar alergia aos britânicos.
A 1° de julho de 1987, os doze parceiros resolveram marcar a data para a culminação do processo de integração econômica iniciado três décadas antes. Dele resultará muito mais do que o maior mercado consumidor do mundo, uma Europa de 320 milhões de habitantes, que reúne também a maior coleção de cintilantes indicadores de qualidade de vida. Se nenhum terremoto político puser o Velho Mundo de ponta-cabeça, até o primeiro dia de 1993 deverão estar suprimidas todas as barreiras físicas, técnicas, legais e fiscais que ainda entravam a livre circulação de bens, serviços, pessoas e capitais na Comunidade Européia.
Isso quer dizer, por exemplo, que ir de Munique, na Alemanha, a Milão, na Itália, será tão simples como deslocar se de Blumenau a Caxias do Sul. Ninguém pedirá ao viajante que mostre o passaporte ou abra as malas para inspeção. Quer dizer também que um dentista francês terá as mesmas facilidades que um colega espanhol para montar consultório em Barcelona. Um arquiteto grego poderá projetar um conjunto de escritórios para uma incorporadora holandesa que pretenda instalar se em Lisboa. Aconchegado numa poltrona, em seu apartamento, um dinamarquês poderá sintonizar a BBCTV de Londres para ver a final da Copa da Inglaterra de futebol. Se decidir passar as férias na Grécia, poderá comprar um bilhete aéreo Copenhague-Atenas por uma agência belga de turismo. Poderá ainda fazer um seguro-saúde numa companhia luxemburguesa, que cobrirá uma consulta médica em Paris. Um irlandês poderá abrir uma conta remunerada num banco alemão, recebendo as mesmas taxas de juros pagas aos correntistas locais. E por aí vai.
O presidente da Comissão Européia, o braço executivo da Comunidade, é o eurovisionário francês Jacques Delors para quem "o objetivo central é a união política". A direção da CE funciona em Bruxelas, na Bélgica, onde trabalham os eurocratas-16 000, pelas últimas contas-, administrando um orçamento de dar inveja a muitos países. Nunca antes, provavelmente, a não ser na China dos mandarins, tantos funcionários nomeados tiveram tamanha oportunidade de esculpir o destino de uma parcela do mundo. Os políticos se reúnem em Estrasburgo, na França, sede do Parlamento Europeu, que pouco apita. Alemanha e Itália querem fortalecer esse legislativo para compensar o poder de Bruxelas. A França não se anima muito: prefere um macroparlamento, do qual fariam parte o de Estrasburgo e os congressos nacionais.
As divergências que não são resolvidas por bem em Bruxelas acabam em Luxemburgo, onde foi instalada a Corte Européia de Justiça. Ali se dirimem pendências que vão desde a publicação, ou não, de fotos de mulheres seminuas nos jornais (como fazem os tablóides sensacionalistas ingleses) ao tamanho dos copos de chope nos bares, passando pela abertura do comércio aos domingos-e muito menos. Um acordo de última hora por exemplo poupou assoberbados juizes de se pronunciar sobre uma letra e um til. É que a Espanha foi acusada de bloquear as importações de teclados de computador que não contivessem o sinal ñ, o mesmo usado em España. Depois de contatos informais com os fabricantes, as autoridades espanholas declararam o ñ são e salvo e levantaram a proibição. O problema é que muitas vezes as decisões dos magistrados de Luxemburgo não são obedecidas. Só a Itália ignorou no ano passado 22 sentenças. como a que derrubava o veto local à importação de queijos que não tivessem determinada taxa de gordura.
O processo de acertos pretende ser o mais amplo e minucioso possível: cada pais deverá incorporar à sua legislação até o fim de 1992-daí a expressão Europa 92-282 medidas específicas. Os parceiros da CE se digladiam civilizadamente, virando pelo avesso cada mínimo aspecto que possa emperrar o mecanismo de total supressão de fronteiras. Não surpreende, portanto, que daquelas 282 provisões, 84 nem haviam ainda sido aprovadas pelo conjunto dos parceiros até julho último. E das 126 leis destinadas a institucionalizar o regime de mercado único, só 37 já tinham sido baixadas por todos os Doze.
Harmonizar normas a serem respeitadas por uma dúzia de países, que falam nove línguas diferentes, abrigam populações de origens e interesses heterogêneos, cujos governos seguem distintas políticas sociais e praticam incentivos diversos à atividade econômica e cujas riquezas, enfim, se distribuem de maneira desigual, é rigorosamente aquilo que se pode imaginar- a maior complicação. Haja detalhes. "Quando se fala em geléia, o inglês se refere a um tipo de alimento completamente diferente do produto de mesmo nome na Alemanha", exemplifica o sociólogo francês Gerard Mermet, autor de minuciosos estudos sobre a Comunidade. "Até isso foi tema de debates."
Na Europa de 1993, uma dona de casa que quiser reforçar o lanche dos pimpolhos com um pote de geléia de morangos terá à disposição, em qualquer supermercado, artigos procedentes de toda a Comunidade, classificados em dois tipos básicos: simples e extra. A diferença entre ambos, devidamente regulamentada está no volume de polpa de fruta em cada pote. A geléia extra deve conter no mínimo 45%, ao passo que a comum pode ter menos do que isso e ainda 10% de açúcar. O fabricante está obrigado a mencionar, no rótulo, o tipo de geléia. E ainda sete outras informações, entre elas, o tratamento a que o alimento foi submetido e o seu peso liquido, em gramas e mililitros-menos na Grã-Bretanha e na Irlanda, onde prevalece a insular tradição dos pints (568 mililitros) para os líqüidos e dos pounds (453,60 gramas) para os sólidos.
Até o final do ano que vem, terão sido tomadas medidas tão diversas quanto a fixação de limites para as emissões de óxidos de carbono na atmosfera, a obrigatoriedade de controle técnico em veículos com mais de cinco anos de uso, a definição da quantidade de cacau que um chocolate deve conter e o ról de direitos trabalhistas válidos em toda parte, como duração da jornada de trabalho, férias pagas e licença maternidade. Imagina-se que todas as engrenagens vão se combinar para que a Europa funcione como se fosse um só país. "Isso não quer dizer que o galo francês vá deixar de fazer cocoricó para cantar cock-a-doodle-doo. como seu semelhante inglês", brinca Michel Guillemat, não por acaso autor de um dicionário de onomatopéias chamado Cris d´Europe (Gritos da Europa).
A sua maneira, Guillemat chama a atenção para o que muitos acreditam ser uma muralha intransponível na unificação européia: as características culturais de cada pais, produto de uma longa e tumultuada história. Elas estão na base de incontáveis hábitos arraigados. O passado também fundamenta as percepções, não raro depreciativas, que os europeus têm uns dos outros. A Europa é ainda em larga escala uma colcha de bairrismos. "Ouvem-se murmúrios antieuropeístas nos pubs ingleses, nas trattorias italianas, nas tavernas gregas", registra o inglês Malcolm Bradbury, autor de duas séries de TV sobre o assunto Apenas uma minoria - de 17% entre os alemães a 3% entre os dinamarqueses-se sente mais européia do que sua própria nacionalidade.
Além disso, há o peso das diferenças de desenvolvimento-e as que delas decorrem-entre o bloco dos mais pobres, formado por Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, de um lado, e o dos demais parceiros, de outro. Só 3% da população irlandesa, por exemplo, fala uma língua estrangeira. Na Holanda, são 43%. Em Portugal, um trabalhador dedica 2 025 horas por ano ao emprego. Já os alemães dispõem de 20% a mais de tempo livre. As desigualdades econômicas estão sendo remediadas mediante gordos planos de assistência, financiados pelo conjunto da Comunidade. No caso da Grécia, essa ajuda é da ordem de 1,6 bilhão de dólares, ou 5% do Produto Interno Bruto (PIB) grego.
A polêmica mais espinhosa tem a ver com a união monetária. O ECU (Europe Currency Unit, o ainda teórico dinheiro europeu) foi criado em 1979. Resulta de uma média ponderada das cotações de todas as moedas em curso na CEE e da participação de cada pais na balança comercial da Comunidade. Por causa disso, o marco alemão representa aproximadamente 30% de um ECU, ao passo que a dracma grega e o escudo português pesam 0,8% cada. Um ECU vale US$ 1,12. Embora um europeu já possa obter um cartão de crédito em ECUs, especial para viagens, nada indica que essa moeda irá tilintar tão cedo nos porta-níqueis das pessoas. Ou seja, quem desejar saborear um sorvete na Alemanha, a distinta confeitaria da Via del Corso, em Roma, continuará precisando desembolsar liras-e não ECUs.
"A unificação monetária é muito mais complicada do que trocar as notas da carteira", comenta o português Mário Martins, administrador da Direção de Poderes Locais do Conselho da Europa. "Substituir todo o sistema significará um choque enorme para os países pobres, que costumam desvalorizar suas moedas como remédio contra a inflação." Mas a dificuldade maior reside na resistência britânica. Enquanto oito em dez espanhóis, italianos e franceses (e seis em dez alemães) apóiam o projeto do dinheiro único, seis em dez britânicos não querem trocar suas libras por ECUs ou o que valha.
E há, grave, complexo e doloroso, o problema da imigração. A Europa dos Doze representa uma atração irresistível para milhões de africanos, asiáticos, poloneses, iugoslavos, romenos-e, no futuro, para sabe-se lá quantos cidadãos das quinze repúblicas soviéticas, beneficiados com a abertura geral dos aeroportos da URSS, prevista para 1993. Todos eles sonham em se juntar aos mais de 9 milhões de estrangeiros que vivem legalmente nos países da CE (algo como 3% da população), a maioria vinda da África do Norte, Turquia Iugoslávia, Índia e Paquistão. Calcula-se que existam outros 3 milhões de clandestinos, concentrados principalmente na Itália, França e Espanha. Os ocidentais não sabem como deter essa avalanche, que se move ao ritmo de 400 000 novos recém-chegados por ano.
Pelas atuais regras, uma vez admitidos em qualquer nação da Comunidade, os recém-chegados têm o direito de ir-e-vir de um pais a outro. Muita gente quer que os imigrantes sejam de novo submetidos ao tradicional controle de passaportes na fronteira-o que instituiria a discriminação no capítulo da livre circulação de pessoas prevista pelos acordos de julho de 1987. O pior é que o racismo na Europa aumenta na proporção da enxurrada de estrangeiros de pele escura. O caso mais notório é o da França, onde a crescente hostilidade racista em relação aos cerca de 4 milhões de imigrantes que ali vivem leva água para o moinho da Frente Nacional, 0 partido de extrema direita de Jean-Marie Le Pen. A aversão aos forasteiros é tamanha que, recentemente, ninguém menos que Jacques Chirac, o prefeito de Paris, falou em "overdose de imigração", do "barulho" e do "odor" dos imigrantes árabes e africanos.
"O cidadão comum ainda não sabe exatamente o que significará na prática a união européia", adverte o sociólogo Gerard Mermet. "Pelo menos no começo, todas as facilidades proporcionadas pela nova Europa vão servir de estímulo para que cada qual conheça o vizinho -e só." A fim de incentivar esse conhecimento, foram criados vários programas. Um dos mais famosos chama-se Euro-Community Action Scheme for Mobility of University Students (Plano de Ação da Comunidade Européia para a Mobilidade dos Estudantes Universitários)-tudo isso para permitir o acrônimo Erasmus, homenagem ao filósofo holandês Erasmo de Roterdam (1466-1536), um dos grandes intelectuais do Renascimento. O Erasmo de hoje permite que um universitário faça algumas matérias numa faculdade, outras em outra e assim por diante-em diferentes países.
"No ano que vem, 45 000 alunos devem beneficiar-se do programa", prevê a belga Anna Schmitz, uma das responsáveis pelo esquema em Bruxelas. "Começar pelos jovens tem um objetivo definido", comenta ela. "No futuro, quando estiverem ocupando cargos de decisão, eles se sentirão parte da Europa, não mais de um país." Pode ser. Na Itália, na Espanha e na Alemanha, segundo recente pesquisa, a maioria se sente mais européia do que há cinco anos. Mas, para que um rosbif-como os gauleses se referem aos ingleses-se sinta menos british e mais europeu, não basta que o engenho humano consiga ligar ilha e continente: muita água precisará ainda passar sobre o  túnel da Mancha.
Sir Geoffrey Howe, o braço direito da então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, costumava dizer que "o próximo trem europeu está para deixar a estação, com destino incerto". Hoje, os trilhos por onde corre esse trem se bifurcam. Uma via, tortuosa, conduz ao superEstado europeu, dirigido por um governo supranacional. Outra, escreve o inglês Malcolm Bradbury, termina numa "federação paneuropéia de Estados-nações, ligados pela democracia de livre-mercado, mas com laços não muito rígidos". Ou, nas palavras do analista francês Paul Fabra," o que cada vez mais determina o caráter da Comunidade é que ela é um mercado aberto mais uma Corte de Justiça"
E significativo que a secular idéia de uma Europa unida tenha começado pela economia, com a criação, em 195l, da Comunidade Européia do Carvão e do Aço. No quadro da Guerra Fria o impulso veio dos Estados Unidos: para estes nenhuma estabilidade na porção Oeste do continente, indispensável à estratégia anti-soviética, seria possível sem que França e Alemanha se reconciliassem. Tanto se reconciliaram que a parceria franco-alemã sempre foi o motor da integração européia. Mas os problemas políticos persistiram na Grã-Bretanha, que reluta diante de qualquer perda de soberania em favor das instituições da Comunidade-herança da era Thatcher. "A Europa é um gigante econômico e um pigmeu político". resume o ministro belga do Exterior, Mark Eyskens.
A reunificação da Alemanha. a derrocada das "democracias populares" a Leste, a recaída nacionalista que começou a retalhar a Iugoslávia em fins de junho último, sem falar no gigantesco ponto de interrogação que é hoje a União Soviética, polvilharam a Europa Ocidental de perplexidade. Afinal, desde 1945, quando o continente acordou do mais tenebroso pesadelo de sua história, até 1989, quando começou a fulminante demolição da Alemanha Oriental, o perfil da Comunidade foi sendo esculpido sob a influência de um cenário internacional que, década após década, parecia imutável-divisão do mundo em dois blocos e guerra menos ou mais fria entre eles. A visão de uma federação a doze, fechada no seu progresso, ficou em xeque quase da noite para o dia. "O desmoronamento da antiga Cortina de Ferro complicou o projeto europeu", nota Philippe Moreau Defarges, do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI). Lech Walesa, o presidente da Polônia, é ainda mais direto: "Não queremos que a Cortina de Ferro seja substituias por uma Cortina de Prata entre um Oeste rico e um Leste pobre."

Esperanças e receios acompanham a maior proeza européia: a ligação sob o Canal da Mancha

Depois de 8 000 anos, quando submergiu a tripa de terra que unia o sudeste do que viria a ser a Inglaterra ao nordeste do que viria a ser a França as Ilhas Britânicas estão enfim tecnicamente reintegradas no continente europeu, na forma de um istmo. Na manhã de 27 de junho último. com música e champanha, ao se encontrarem as duas frentes de trabalho que abriam o último do conjunto de três túneis 40 metros abaixo do leito do Mar do Norte, que formam a maior obra do século,. completou-se o processo pelo qual a Inglaterra deixou de ser uma ilha separada da Europa por um canal-La Manche, para os franceses, English Channel, para os ingleses.
Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer com a interação dos europeus a partir de meados de 1993, quando o conjunto for inaugurado. Cientistas sociais já vêm sendo consultados para prever, principalmente, qual será a atitude dos ingleses ao se materializar a mudança de seu horizonte insular. Pergunta-se: no momento em que o túnel estiver transportando 30 milhões de pessoas por ano e quase outro tanto em toneladas de mercadorias (o que não tardará a acontecer), como ficará a mentalidade britânica?
Segundo as pesquisas de opinião, metade da população da Inglaterra ainda se opõe ao formidável trabalho de engenharia em curso debaixo da água. Na realidade, o túnel sempre foi uma idéia mais francesa do que inglesa ainda que, a julgar pela direção das marés do turismo, deva beneficiar em primeiro lugar os súditos de Sua Majestade: afinal, para cada francês que vai passear na chuvosa Inglaterra, há quatro ingleses curtindo a douce France-atraídos, senão pela doçura do povo, com certeza pelos múltiplos sabores de sua cultura.
Por uma razão ou outra, a idéia avançou e recuou pelo menos quatro vezes desde os tempos de Napoleão. Nos seus numerosos e conturbados capítulos, a história desse túnel, não raro encharcada de bravatas patrioteiras, registra aplausos e protestos dos mais variados ângulos. No século passado, para a rainha Vitória-cujo marido, o príncipe Albert, era conhecido devoto da tecnologia moderna-, o caminho submarino seria um santo remédio contra os enjôos que azedavam suas travessias marítimas. A oposição, contudo, temia que a puritana, vitoriana moralidade inglesa fosse contaminada pelos costumes de um povo entregue aos prazeres da carne-que é como os britânicos fantasiavam o modo de ser francês. Houve quem alertasse até que, através do túnel, as doenças venéreas do continente chegariam mais depressa às ilhas.
Coisas do passado? O carro do presidente François Mitterrand foi alvejado por ovos quando ele foi à Inglaterra em 1987 para a solenidade de assinatura do tratado do túnel. Os franceses retribuíram vaiando a então primeira-ministra Margaret Thatcher quando ela compareceu às festas do bicentenário da Revolução de 1789. em Paris. Coisas de homem? Há não muito tempo, a popular revista feminina inglesa Woman´s Ow) atacou: A França é uma nação rude e arrogante . Em junho último. outra publicação inglesa o semanário Observer, exumou uma antiga entrevista da primeira-ministra francesa Edith Cresson, na qual ela teria dito que um em cada quatro britânicos é homossexual .
Talvez nada disso existisse -como tampouco existiriam a Inglaterra e a França no traçado que se conhece-, não fosse o fim da era glacial que criou o canal de 560 quilômetros de comprimento, hoje o trecho marítimo mais movimentado do mundo. O túnel em construção vai da costa de Folkestone, perto de Dover, na Inglaterra, a Sangatte, perto de Calais, na França é a parte mais estreita do canal, com 38 quilômetros, que os velozes barcos Hovercraft cobrem em cerca de uma hora. O túnel-chunnel, dizem os ingleses, numa fusão das palavras channel e tunnel-permitirá fazer a travessia em algo como 15 minutos.
A obra-três túneis ferroviários de 50 quilômetros de extensão-devia custar 9,7 bilhões de dólares, pelos cálculos iniciais. Vai sair por 14,7 bilhões. O dinheiro vem dos cofres de duas centenas de bancos e do bolso dos 560 000 esperançosos acionistas, na maioria franceses, do consórcio franco-britânico Eurotunnel, responsável pelo trabalho. que mobiliza 12 000 operários, e pela cobrança do futuro pedágio. O mais difícil foi cavar o túnel de suporte técnico. Perfuradoras especiais, com sete braços gigantescos, foram criadas para abrir e consolidar a passagem com grossas camadas de concreto.
As máquinas, capazes de mover até 10 000 toneladas de material, são identificadas pelos franceses por nomes femininos-Brigitte, Catherine, Virginie, Pascale-e por números, pelos ingleses. Vive la différence. Sob o leito do mar, as máquinas toparam com um desafio: retirar o solo argiloso, o que em si não seria difícil, se não fosse necessário ao mesmo tempo colocar o concreto para manter as paredes a salvo. A cada hora, eram extraídas 2 000 toneladas de terra e o túnel andava 4,4 metros. O rumo foi controlado por raio laser-e tão perfeitamente que, no primeiro encontro das sondas de perfuração, em outubro do ano passado, o desvio não chegou a 40 centímetros.
Uma enxurrada de turistas é o que se deve esperar daqui a dois anos, como primeira conseqüência do acesso imensamente facilitado entre ilha e continente. O comércio, um tanto tolhido pelas vagarosas viagens dos ferries que acomodam os caminhões de carga, vai se beneficiar num piscar de olhos. O que não dá para saber ainda é quanto vai durar de verdade uma viagem Londres-Paris ou Paris-Londres. Isso porque uma mistura de pouco dinheiro com muitos protestos populares esteve freando a construção de uma ferrovia de alta velocidade no lado inglês, capaz de romper o limite atual dos já arcaicos 110 quilômetros horários. Os moradores do Condado de Kent temem que a linha desfigure a paisagem da região. "o jardim da Inglaterra". Trens a 330 quilômetros por hora (160 no túnel), como sonham os franceses, fariam com que uma viagem entre a Waterloo Station, em Londres, e a Gare de l´Est, em Paris, durasse apenas três horas.
A ascensão de John Major à chefia do governo britânico deu novo animo aos partidários da modernização do sistema ferroviário local. Mesmo assim, os mais pessimistas-e os há de sobra -ainda não estão convencidos de que as primeiras viagens serão possíveis já em 1993. Eles apostam que o dinheiro não vai dar, os governos serão chamados a financiar o fim das obras e o resultado será um decepcionante atraso. Nada disso, porém, nem uma marcha à ré na integração européia, inimaginável a esta altura, conseguirá desfazer a ligação através da Mancha-a maior metamorfose geográfica produzida pelo homem nesta época de tantas formidáveis proezas.



"A politica deve prevalecer sobre a economia"

Aos 42 anos, o francês Alain Minc é uma voz dissonante no coro da unificação européia. Remando na contra-corrente, ele se dedica a apontar o que julga serem as fraquezas do modelo escolhido para a construção da Europa dos Doze. Ensaísta de renome, o menino-prodígio que já foi diretor financeiro do grupo Saint-Gobain, um dos gigantes da indústria francesa, e vice presidente de uma financeira internacional de outro colosso, o grupo italiano De Benedetti, provoca os europeístas ao afirmar que a Comunidade, antes até da adolescência já exibe traços senis.
Autor de um livro apropriadamente intitulado A grande ilusão e de um segundo, mais recente, na mesma linha, A vingança das nações, ele sustenta que não basta a integração econômica; a união européia requer "unidade política e estratégica"-notavelmente ausente, por exemplo, na Guerra do Golfo -, sobretudo para adaptar-se às dramáticas transformações ocorridas nos últimos anos na Europa Oriental. Minc, por sinal, parece não apostar um centime furado no progresso dos países recém-saídos do socialismo, nem no da própria União Soviética. Instalado em seu confortável escritório da Avenue George V, no centro nobre de Paris, ele falou recentemente conosco.

Por que tanto ceticismo em relação à nova Europa?

Até a queda do Muro de Berlim, a construção da Europa se baseava numa certa ordem. Doze países, a oeste da Cortina de Ferro, estavam inventando um superEstado. A integração econômica acarretaria automaticamente a integração monetária, que acarretaria a integração política, que acarretaria, enfim, a integração estratégica. O processo seria lento, mas isso não era problema, pois se tinha a impressão de que o mapa político europeu permaneceria estável por longos anos. Essa lógica desabou a 9 de novembro de 1989, junto com o Muro de Berlim. Tem-se agora um sistema muito mais complicado.

Que complicações são essas?

O sistema impõe três questões principais. A primeira é a necessidade de se garantir a democracia no Leste Europeu. A segunda é a insegurança estratégica da Alemanha, à falta do guarda-chuva nuclear americano e sem contar com uma defesa européia organizada; o problema alemão está na Europa Oriental, uma incógnita política. A terceira questão tem a ver com o fluxo migratório causado pelo fim da Cortina de Ferro. Estes assuntos são todos políticos, não econômicos. Portanto, tratar da integração econômica da Europa, como se nada tivesse acontecido, é ignorar questões essenciais.

Isso quer dizer que o impulso da unificação européia está condenado?

Não. Acho apenas que a construção da Europa deve se voltar para as questões políticas, devidamente dissociadas das questões econômicas. Os países do Leste poderiam aderir à Europa em sua forma política, que é a democracia, sem que isso acarrete automaticamente a sua adesão ao Mercado Comum.

A união política seria uma garantia contra o nacionalismo tanto no Leste como no Oeste?

A garantia estaria num projeto político feito por todos os 25 países europeus. Só que ainda estamos discutindo a união política da Comunidade dos Doze e isso nada tem a ver com a democracia na Polônia, por exemplo. É preciso criar um espaço político que obrigue o Leste a fixar regras em relação à democracia e aos direitos das minorias.

Qual o perigo maior para a Europa: uma volta da União Soviética aos tempos pré-Gorbachev ou uma espécie de império russo a caminho do caos?

Antes existia uma ameaça, mas nenhum risco. Agora não há ameaças, somente riscos. O espectro das possibilidades é muito maior. Vai desde a permanência do Gorbachev -Prêmio Nobel da Paz ao aparecimento de algum Saddam Hussein eslavo. Daí a importancia do problema de segurança da Alemanha, com a retirada gradual dos 400 000 soldados americanos aquartelados na Europa.

Existe alguma esperança econômica para os Países do Leste Europeu?
Não. A Europa do Leste será uma sub América Latina.

O senhor não está sendo benevolente demais em relação à América Latina?

Conheço muitos brasileiros e ouço o que eles me contam de ruim sobre a América Latina. Mesmo assim, quando comparamos, por exemplo, Brasil e Polônia, é outro universo. A terapêutica do FMI, imposta ao Brasil, beneficia ao menos uma pequena parcela da população. Na Polônia, a mesma política é ainda pior: tudo afunda porque não existe ali uma burguesia empresarial. A política de transição rápida para o capitalismo imposta aos países do Leste é absurda e ridícula.

O senhor é igualmente pessimista quanto à União Soviética?

Muito mais. A União Soviética é uma sub sub América Latina. É o quarto mundo. Uma favela brasileira comparada à periferia de Moscou é um oásis de dinamismo.

Não seria possível adotar uma espécie de Plano Marshall para a Europa do Leste, como os Estados Unidos fizeram para reconstruir a Europa Ocidental depois da guerra? (A ajuda americana foi de 70 bilhões de dólares, em valores de hoje.)

Ninguém vai querer pagar a conta.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Cidadãos em Armas - História


CIDADÃOS EM ARMAS - História



Nascido da Revolução Francesa, há 200 anos, o moderno serviço militar variou conforme a época e o país. Mas ainda é tema de debates.

Uma espécie de ritual de iniciação cívica espera neste 1989 o 1,4 milhão de brasileiros que completam 18 anos: comparecer a uma junta de alistamento militar. Destes, porém, algo como um em cada dez irá realmente vestir farda, pois as Forças Armadas não comportam a multidão de jovens que o serviço militar obrigatório despeja anualmente às portas dos quartéis. Nem por isso o ato de se alistar perde em simbolismo e tradição - estar apto a pegar em armas em defesa dos seus é um comportamento que remonta ao tempo dos mais antigos ancestrais do homem. Mas o serviço militar universal e obrigatório - um dever de todo cidadão, dentro de certas condições, que variam de país para pais - é uma invenção muito recente: surgiu da Revolução Francesa, exatamente há duzentos anos.
Logo após a tomada da Bastilha, a 14 de julho de 1789, que dá inicio à derrubada da monarquia, os revolucionários franceses tornaram totalmente voluntário o serviço militar: só um exército assim constituído seria digno de uma nação de homens livres, iguais e fraternos. No entanto, a República logo se via obrigada a esquecer aquele conceito para defender-se da invasão de tropas dos reinos vizinhos, cujos soberanos temiam propagar-se pela Europa o mal republicano.
"Os homens jovens deverão lutar, os casados forjarão as armas e transportarão os suprimentos, as mulheres confeccionarão tendas e uniformes e servirão nos hospitais, os meninos transformarão a roupa branca em bandagem, os velhos serão levados às praças públicas para elevar o moral dos combatentes e pregar a unidade da República e o ódio aos reis", determinava a ordem da levée en masse (recrutamento em massa),baixada pela Convenção da Revolução Francesa a 23 de agosto de 1793. Para muitos historiadores, esse foi o primeiro decreto de serviço militar universal e obrigatório.
Com a levée en masse, a França recrutou 300 mil cidadãos e expulsou os invasores. Uma importante mudança conceitual estava em curso. No passado, lutar pelo rei era uma obrigação que fazia parte da condição de súdito. Na nova França, o serviço militar tornava-se um dever do cidadão livre para com o Estado. O recrutamento universal, ao chamar às casernas todas as classes sociais, era igualmente uma resposta revolucionária ao sistema anterior, baseado nos odiosos privilégios característicos do ancien régime. Ainda estava vivo na memória do povo, por exemplo, o comportamento selvagem das duas companhias de mosqueteiros (os cinza e os negros) estacionadas em Paris no reinado de Luís XIV, o Rei Sol (1638-1715).
Recrutados exclusivamente entre os chamados gentis-homens e comandados por oficiais oriundos da alta nobreza, os mosqueteiros portavam-se como em terra inimiga. Se as tropas regulares e permanentes eram privilégio da aristocracia, o exército mobilizado para a guerra era o flagelo da plebe. Os recrutadores, geralmente sargentos de carreira ou malfeitores contratados para o serviço, tratavam de alistar pela força ou pela astúcia os jovens pobres, fazendo com que garatujassem a assinatura num termo de compromisso. Era também comum oferecer aos criminosos a opção entre a cadeia e o quartel.
No Ocidente moderno as guerras eram travadas por soldados profissionais - a palavra soldado, aliás, vem de solidus, a moeda de pagamento dos legionários romanos, que deu também soldo. O alto custo explica por que os efetivos eram pequenos em comparação com as populações em idade de guerrear. Muitas vezes, o saque das populações civis era a única forma de garantir o soldo da soldadesca. As tropas mercenárias na Europa do século XVI raramente ultrapassavam 20 ou 30 mil homens. Para se ter uma idéia, os efetivos da PM paulista somam 75 mil soldados. A partir do século seguinte, os exércitos nacionais dobraram de tamanho. Quem primeiro atirou nessa direção foi Frederico Guilherme I (1688-1740),o rei-sargento da Prússia, ao ordenar a incorporação de milhares de súditos.
Em 1803, quando se tornou imperador da França, Napoleão Bonaparte institucionalizou o serviço militar obrigatório, que a República tentara, em vão, abolir. Graças à conscrição universal, Napoleão pôde mobilizar em dado momento 1 milhão de soldados, ou um em cada vinte franceses, sem distinção de sexo ou idade.
Forçados por Napoleão a limitar o tamanho de seu exército, entre 1807 e 1813 os prussianos responderam com uma esperteza: passaram a convocar o número máximo permitido de soldados (42 mil), dar-lhes alguns meses de treinamento rigoroso, dispensar a maioria e convocar outro contingente. A artimanha permitiu à Prússia organizar uma poderosa reserva sem desafiar formalmente o imperador francês. O sistema sobreviveu à derrota de Napoleão e, assim, em 1870 uma formidável massa de conscritos alemães, reforçada por grandes contingentes de reservistas, impôs uma derrota histórica ao pequeno exército profissional francês. O serviço militar compulsório havia sido abolido após a morte de Napoleão em 1821. O resultado foi a reintrodução do serviço obrigatório.
Obrigatório, sim, porém não mais igualitário: franceses abastados podiam trocar a caserna pelo trabalho voluntário; além disso, os membros de muitas profissões - médicos, clérigos e funcionários públicos, entre outros - estavam isentos. A facilidade com que os mais ricos driblam o serviço militar sempre causou polêmica em toda parte. Na Espanha, por exemplo, o envio de conscritos para lutar no Marrocos, em 1906, provocou sangrenta revolta popular em Barcelona. Não era para menos: até 1912, para fugir ao recrutamento, bastava pagar certo número de pesetas ao Estado. Ainda hoje, na maioria dos países - o Brasil entre eles - é possível supor, olhando as fileiras de recrutas, que dezoito anos antes só os pobres tiveram filhos. No Brasil, os estudantes do segundo grau têm a alternativa de servir no Centro de Preparação dos Oficiais da Reserva (CPOR).
No século XIX, o recrutamento obrigatório se tornou regra na Europa mas em poucos lugares assumiu rigor igual ao da Rússia czarista. Homens de pouca sorte e ainda menor fortuna podiam ser convocados por toda a vida. Também ali, entretanto, o convocado podia comprar a isenção ao pagar a alguém disposto a substituí-lo nas fileiras do czar. Em contraste, em 1918, o recém-formado Exército Vermelho, organizado pelo revolucionário Leon Trotsky, era composto de voluntários. A guerra civil que se seguiu à revolução obrigou o governo bolchevique a restabelecer o serviço militar obrigatório. Isso permitiu arregimentar 5,5 milhões de soldados.
Nos Estados Unidos, a conscrição foi adotada por nortistas e sulistas na Guerra de Secessão (1861-1865) e depois abandonada até a Primeira Guerra Mundial. Entre as potências ocidentais, aliás, apenas os Estados Unidos e a Grã-Bretanha dispensavam o recrutamento compulsório em tempo de paz. Em maio de 1939, quatro meses antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha instituiu o serviço obrigatório; só em 1960 o alistamento voluntário seria restabelecido. A idéia do serviço militar já deixara havia muito de ser exclusivamente européia. No Extremo Oriente, o Japão trocou em 1873 o militarismo hereditário pelo recrutamento compulsório. Apesar da elitista tradição samurai, a idéia de um exército de massa rapidamente se integrou à cultura do país. 
Depois da Segunda Guerra Mundial, quase todos os países adotaram o serviço militar obrigatório com diferentes graus de rigor. Exemplo de programa de rara severidade, o Estado de Israel, criado em 1948, convoca todos os cidadãos, homens e mulheres, por dois anos de vida militar ativa e os mantém por mais duas décadas sujeitos a um mês de serviço a cada ano. Se isso se explica pelo eterno estado de guerra entre judeus e árabes, que dizer da Suíça, que leva tão longe sua posição de neutralidade em política internacional a ponto de nem fazer parte da ONU ? Pois a neutralíssima Suíça, além de exigir de seus cidadãos a prestação de serviço militar, também mantém perfeitamente adestrados os seus reservistas: até os 50 anos, todos os homens participam de regulares períodos de treinamento e têm o dever adicional de guardar em casa as peças essenciais do equipamento: uniforme, fuzil - e o multiutilitário canivete suíço.
As regras do serviço militar sempre espelham de certa forma algum aspecto da fisionomia do país. A China, onde durante 5 mil anos os cargos militares eram reservados aos mandarins incapazes de assumir melhores posições no serviço público, agora também convoca as mulheres para aprenderem as artes marciais. Na União Soviética, a previsão é de que a modernização em curso nas Forças Armadas mais a redução das tropas convencionais, anunciada no fim do ano passado pelo líder Mikhail Gorbachev, atenuem os deveres militares da população. Mas dificilmente o novo padrão imitará os Estados Unidos, desde 1973 sem conscrição em tempo de paz, ainda que o alistamento para eventual convocação tenha sido restabelecido em 1980.
Com relativo atraso, o Brasil adotou o sistema em 1916, quando a Primeira Guerra Mundial sangrava a Europa. A medida coincidiu com o processo de modernização e profissionalização das Forças Armadas sob inspiração francesa e deu ao Exército brasileiro sua feição atual: um corpo de oficiais permanentes e profissionais e um largo contingente de conscritos. Na época, é verdade, a questão transpôs os muros dos quartéis e inflamou a opinião pública.
"A farda para todos; para todos o dever, a honra e o sacrifício", defendia o poeta parnasiano Olavo Bilac (1865-1918), à frente de um movimento pela introdução da conscrição obrigatória (por isso, ele foi honrado como Patrono do Serviço Militar e a data de seu aniversário, 16 de dezembro, é o Dia do Reservista). Embora os estados, que gozavam naquele tempo de larga autonomia política, temessem entregar ao governo federal tamanho potencial militar, o quartel era visto já na República Velha como um eficiente recurso para integrar à vida nacional setores marginalizados da população. O mesmo conceito ainda está de pé, sete décadas depois.
Antes de aprenderem a manejar o fuzil - argumentam os militares brasileiros -, muitos recrutas são apresentados à escova de dentes. O papel do serviço militar é o de "um grande centro educacional", define o ministro da Aeronáutica,, brigadeiro Moreira Lima, contrapondo-se à idéia de que o único objetivo é preparar o conscrito para a guerra.
Essas definições nunca são demais neste assunto que suscita polêmicas há duzentos anos. Sobretudo porque nas últimas duas décadas o sistema de conscrição entrou em crise em muitos países. Há muitos argumentos - até religiosos - contra o serviço militar, mas a principal objeção é puramente técnica. A crescente sofisticação e complexidade da máquina de guerra neste final de século tão marcado pela tecnologia exige soldados profissionais. Prova disso, na Guerra das Malvinas, em 1982, um reduzido contingente de tropas profissionais britânicas triturou força bem maior de conscritos argentinos. Antes disso, já em 1969, um estudo, do Pentágono mostrou que os conscritos recém-chegados ao Vietnam sofriam duas vezes mais baixas que os veteranos. 
Dados como esses, agravados pelos protestos contra a guerra no Sudeste asiático, liquidaram o serviço obrigatório nos Estados Unidos. Hoje, embora o Pentágono esteja satisfeito com o desempenho de seus 2,1 milhões de voluntários (engajados por quatro anos, com salário inicial para soldado raso de 600 dólares), tramita no Congresso americano uma série de projetos restabelecendo a conscrição obrigatória ou criando algum tipo de serviço nacional civil, a exemplo do existente na França.

Os que dizem "não".

Em outubro de 1965, o assistente social David Millar, um americano de 22 anos, encostou um fósforo aceso a seu certificado de alistamento militar. "Espero que este seja um gesto significativo", disse à multidão reunida em Nova York para protestar contra a guerra no Vietnam. Dias depois, David era preso e processado pelo governo americano. O gesto, porém, foi significativo - colocou a questão da objeção de consciência ao serviço militar na ordem do dia. A queima de certificados propagou-se como um incêndio entre os jovens americanos, apesar das prisões e processos. Oito anos depois, na esteira do fiasco no Vietnam, o serviço militar obrigatório foi abolido. Durante a intervenção americana no Sudeste asiático, 50 mil jovens fugiram do país (de preferência para o Canadá) a fim de escapar à conscrição.
A origem da guerra entre o serviço militar e os pacifistas se perde no tempo, mas tomou impulso na Europa a partir do século XVI, sobretudo por escrúpulos religiosos. Os governos sempre relutaram em isentar seus cidadãos por imperativos de consciência. No século passado, porém, mesmo as rigorosas Rússia e Prússia abriam exceção para os menonitas, membros de uma seita evangélica que se recusam a pegar em armas. Na França, a objeção - qualquer que fosse o motivo - só começou a ser aceita nos anos 60, junto com os protestos contra a guerra colonial na Argélia. Os países da Escandinávia são exemplos de liberalismo: reconhecem todos os tipos de objeções e providenciam serviços civis aos pacifistas.
As Testemunhas de Jeová - uma seita protestante com 1 milhão de adeptos em todo o mundo - enfrentam dissabores por suas convicções. No Brasil, que não aceita objeções de consciência, as Testemunhas de Jeová pagam alto preço pela fidelidade de suas convicções - a perda dos direitos políticos. No ano passado, por exemplo, isso aconteceu a 738 membros da seita. E ainda tramitam no Ministério da Justiça processos contra outros 2 mil jovens por se recusarem a receber treinamento militar.

A batalha da seleção.

O brasileiro tem uma chance em dez de prestar o serviço militar. Antes de qualquer coisa, apenas metade do 1,4 milhão de jovens alistados anualmente vive em municípios que fornecem efetivos às três Armas. Após os testes físico, cultural, psicológico e moral, somente 200 mil são considerados aptos. Mas pouco mais de 150 mil .são de fato incorporados, a maioria ao Exército. Os demais passam a integrar o excedente de contingente e podem, ainda que seja improvável, ser chamados a qualquer momento. 
Os critérios estipulados pelo Estado Maior das Forças Armadas (EMFA), em 1967, exigem do recruta uma altura mínima de 1,55 m, 46 quilos, pelo menos vinte dentes sadios e ausência de doenças graves ou "desvios de comportamento", como o homossexualismo.
Os principais motivos de rejeição são, na realidade, decorrentes das más condições de vida dos brasileiros. Segundo dados do Exército, em 1987 problemas dentários eliminaram 26 por cento dos alistados; deficiências de peso e altura, causadas sobretudo pela desnutrição, reprovaram outros 9 por cento; problemas de coluna vêm em terceiro lugar, seguidos pela deficiência visual. O número de inaptos variou, nos últimos anos, entre 40 e 57 por cento. 
A razão disso é a preocupação das Forças Armadas em selecionar os jovens segundo um contingente-tipo - padrões antropométricos e culturais mais elevados exigidos por cada Arma. No aspecto cultural, o Exército pretende elevar em cinco anos do atual 1 por cento para 15 a participação de universitários entre os conscritos.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Refugiados - Pessoas sem nação

REFUGIADOS - Pessoas sem nação



Cidade dos sem-país

O campo de Kakuma, no Quênia, foi construído em 1992 para abrigar provisoriamente os "garotos perdidos", crianças e adolescentes obrigados a deixar o Sudão. Virou permanente e cresceu - a população beira 100 mil pessoas. Uma cidade de tamanho médio habitada por gente que não tem para onde ir, mas também não pode trabalhar, plantar, nem criar gado.



Continente na contramão

Nas mãos da refugiada, o mapa da África central. Dos mais de 17 milhões de pessoas que procuram por refúgio no mundo inteiro, estão no continente cerca de 4,3 milhões - o correspondente a mais de 0,5% de todos os africanos. Além dos negros sudaneses - fugitivos da limpeza étnica promovida pelo governo árabe - Kakuma recebe refugiados de países como Somália, Etiópia e Uganda.



Com teto, sem futuro

Esta é a casa de Peter, um dos "garotos perdidos" que ainda vivem em Kakuma (ele não está na foto). Apesar de não contarem com luz elétrica ou água encanada, os moradores do campo geralmente têm mais confortos que os cidadãos quenianos que moram nos entornos. "O drama dessas pessoas é a falta de futuro", diz Marie Ange Bordas, autora destas fotos.



Estudo para nada

Mantidas por organizações não-governamentais, as escolas de Kakuma são freqüentadas por 70% a 80% das crianças do campo. Os alunos saem de lá alfabetizados em inglês e swahili, as línguas oficiais do Quênia. Mas o conhecimento tem pouco uso prático: os refugiados estão impedidos de voltar a suas pátrias, tampouco se integrar à sociedade queniana. E a realocação em outros países é coisa para muito poucos.



Retratos de uma refugiada

As imagens destas páginas fazem parte da exposição Deslocamentos, da fotógrafa e jornalista gaúcha Marie Ange Bordas. Além de Kakuma (Quênia), o projeto retrata o cotidiano de refugiados urbanos em Johannesburgo (África do Sul) e em Massy (França). Nos 3 lugares, visitados entre 2001 e 2004,Marie Ange se "infiltrou" nas comunidades - morou em suas casas, comeu de seu alimento. Ela afirma que a idéia surgiu a partir de reflexões sobre sua própria experiência: "Já morei em 7 países, então sei bem qual é a sensação de não pertencer a lugar nenhum".



Soldadinhos na lama
A guerra de brincadeira diverte os meninos. "Eles me disseram que reproduziam o que acontecia nas suas aldeias", diz Marie Ange. A situação dos adultos não é melhor: apenas 3 mil têm ocupação - o resto é proibido de trabalhar - em um lugar onde o lazer é quase inexistente. Uma das poucas diversões está nas videohouses, cabanas que exibem sessões de filmes de pancadaria no videocassete.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O Despertar do Dragão - China



O DESPERTAR DO DRAGÃO - China



Com a maior população do mundo e uma economia que há anos vem crescendo num ritmo superior ao da americana, a China representa a maior ameaça à hegemonia global dos Estados Unidos no século 21. A gigante asiática tem uma população de 1,3 bilhão de pessoas e uma taxa de crescimento econômico de mais de 8% ao ano - em 2004, o índice bateu em 9,5%. Se a expansão se mantiver nesse nível, a China deverá ultrapassar os Estados Unidos e se tornar a maior economia do mundo ainda na primeira metade deste século. Essa perspectiva levanta algumas questões intrigantes: quais serão as implicações disso para o planeta? Como os americanos vão reagir à perda de sua supremacia? Assistiremos a uma nova versão da Guerra Fria?

A China já foi apontada pela CIA (serviço secreto americano) como uma das três ameaças aos Estados Unidos, ao lado do terrorismo e das armas de destruição em massa. O atual vice-secretário de Defesa americano, Paul Wolfowitz, já comparou a ascensão chinesa com a da Alemanha do início do século passado. No imaginário dos neoconservadores americanos, o colosso chinês é uma espécie de "União Soviética asiática" que ameaça influenciar outros países com seu modelo único, que mistura um regime político comunista com uma economia de mercado.

Na opinião de muitos estudiosos, um confronto entre China e Estados Unidos será inevitável no futuro. O ponto de discórdia número 1 é a questão de Taiwan. A ilha vizinha da China foi o local de refúgio da elite endinheirada, derrotada pelos comunistas de Mao Tsé-tung em 1949. Pequim a chama de "província renegada". Dia sim, dia não, o governo comunista chinês ameaça invadir o local e promover a reunificação da ilha com o continente. Os Estados Unidos não reconhecem a independência de Taiwan, mas, por decisão do seu Congresso, teriam de defender a ilha em caso de agressão externa. Para os Estados Unidos, Taiwan é estratégica para manter sua influência na região da Ásia-Pacífico.

Nos anos 90, a China iniciou um processo de modernização de suas Forças Armadas.De acordo com Robert Karniol, editor da mais respeitada revista de temas militares do mundo, a americana Jane’s Defense Weekly, dentro de 15 anos os chineses poderão ter 60 mísseis intercontinentais, com propulsão e pontaria melhores, capazes de penetrar até no escudo planejado pelo governo dos Estados Unidos no seu projeto de Guerra nas Estrelas.

Outros especialistas descartam um conflito militar entre China e Estados Unidos. Em entrevista a Folha de São Paulo, o chinês Wang Yong, professor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Pequim, afirmou que a crescente dependência econômica entre os dois países reduz a possibilidade de confronto. "Formou-se um novo campo de interesse estratégico comum para os dois países e eles farão tudo para preservar o crescente interesse econômico", disse. Os Estados Unidos são o maior destino das exportações chinesas e um dos principais investidores estrangeiros no país asiático.

Com uma civilização milenar, a China durante séculos foi muito mais avançada que o Ocidente. "As pessoas esquecem que, 500 anos atrás, a China era a única superpotência. Quando muitos europeus viviam em cabanas de barro e aravam o solo com varas de madeira, a China era a maior potência militar e econômica da Terra", diz Paul Bracken, professor da Yale School of Management. Nos últimos tempos, a China tem se esforçado para provar a teoria de Napoleão Bonaparte. Dois séculos atrás, o general francês afirmou que o país asiático era um "gigante adormecido" que, ao acordar, faria a Terra tremer. Além do crescimento econômico espetacular, a China tem mostrado ambições em outros campos. Em 2003 deu uma prova do domínio da tecnologia espacial ao tornar-se o terceiro país a colocar um homem em órbita, depois dos Estados Unidos e da União Soviética. O tenente-coronel Yang Liwei deu uma volta em torno da Terra a bordo da Shenzhou V, num projeto que custou aos chineses 2,5 bilhões de dólares.

A despeito dos inúmeros avanços ocorridos nos últimos anos, a China ainda tem uma série de desafios pela frente. O PIB (produto interno bruto) per capita do país ainda é um quinto do brasileiro. Em diversas regiões da China vive-se como há centenas de anos. Os agricultores ainda trabalham o solo como faziam seus antepassados e as pessoas sobrevivem com pouco mais de 1 dólar por dia. A falta de liberdade política e a violação de direitos humanos são outros problemas graves. Ninguém esquece a imagem do massacre da Paz Celestial, em 1989, quando os militares chineses usaram tanques e metralhadoras contra estudantes desarmados, matando 200 deles. A repressão contra o Tibet continua e os dissidentes do regime são perseguidos.



PROBLEMAS MUNDIAIS
À medida que a China desponta como uma superpotência mundial, seus problemas passam a dizer respeito a todo o planeta. "Os problemas da China com a economia, energia e meio ambiente são problemas de todo o mundo", diz Bracken, da Universidade de Yale. Um bom exemplo é o petróleo. A China gerou um terço do aumento da demanda global do produto entre 2002 e 2004. Se o país parasse de comprar petróleo, o mercado mundial seria seriamente afetado. Outro ponto crucial é a questão do dólar. Os 400 bilhões de dólares que a China tem de reservas em títulos do Tesouro americano até agora permitiram aos Estados Unidos sustentar seu astronômico déficit externo. Se Pequim parasse de comprar dólares, a moeda americana entraria em colapso. "Derrubar o dólar seria o equivalente a usar uma arma nuclear", disse François Heisbourg, um francês especialista em estratégia. Como se vê, o gigante chinês pode realmente fazer a Terra tremer.


Tendências




- LÁ E CÁ

Taiwan será um foco permanente de tensão política entre a China e os Estados Unidos. Mas a mútua dependência econômica tende a prevalecer no relacionamento entre as duas potências, reduzindo os riscos de um conflito militar.



- PROBLEMA DE TODOS

À medida que a China se consolida como uma superpotência, seus problemas internos - como a violação dos direitos humanos - passarão a repercutir de forma mais aguda em todo o planeta.



- INFLUÊNCIA
A China tende a influenciar cada vez mais os rumos do mundo capitalista. Se ela parar de comprar dólares, a moeda americana entraria em colapso. E, se deixar de comprar petróleo, o mercado mundial seria seriamente afetado.


Parceria estratégica




O Brasil iniciou uma parceria estratégica com a China, que deverá ter efeito direto sobre a economia dos dois países. Durante a visita do presidente chinês, Hu Jintao, em novembro de 2004, o Brasil reconheceu a China como uma economia de mercado. A medida está longe de ter efeito apenas retórico, pois significa a aceitação de que os preços chineses são formados de acordo com as forças de mercado e não sofrem distorções de intervenções estatais na economia. Anteriormente, o Brasil considerava a China como uma economia em transição, o que a tornava muito mais vulnerável a barreiras antidumping - restrições a importações permitidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) sob o argumento de que os preços praticados estão artificialmente inferiores aos de mercado.

Em contrapartida ao reconhecimento brasileiro, a China aceitou abrir o mercado de carne de frango e de boi para o Brasil, que poderá render exportações de até 800 milhões de dólares por ano, e se comprometeu a encorajar empresas chinesas a comprar dez aeronaves fabricadas pela parceria da Embraer com empresas da China em 2005 - um negócio que pode movimentar até 200 milhões de dólares. Foram assinados diversos acordos entre os países, que cobrem de investimentos a turismo, comércio, indústria e combate ao crime organizado. O Brasil espera ainda apoio da China para uma vaga de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU. "Estamos falando de um relacionamento entre o maior país em desenvolvimento do hemisfério ocidental com o maior país em desenvolvimento do hemisfério oriental", afirmou Celso Amorim, ministro brasileiro das Relações Exteriores.
O prestígio da China no Brasil é tal que o governo brasileiro fechou o Cristo Redentor para turistas durante a visita de Hu Jintao ao Rio de Janeiro, de modo que ele pudesse desfrutar de um dos mais famosos cartões-postais do país. Nos 120 anos de vida da Estrada de Ferro do Corcovado, isso só havia ocorrido uma vez, durante a primeira visita do papa João Paulo II ao Rio, em 1980. Na avaliação do jornal inglês Financial Times, a ampliação dos laços chineses e brasileiros representa uma ameaça à posição hegemônica dos Estados Unidos no mundo. O governo brasileiro, no entanto, nega que a aproximação entre os dois países represente uma ameaça aos americanos. "Os Estados Unidos são grandes demais para ficarem preocupados", afirma Amorim.


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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Vende-se peixe - Recursos do Mar

VENDE-SE PEIXE - Recursos do Mar



Nobreza do oceano

Os atuneiros capturam uma das espécies mais valiosas do mar. Partindo de entrepostos no sul do país, pescadores passam nove meses por ano longe de casa, em um mundo regido pelo balanço do mar. Os atuns devem ser mortos em seus braços, para não se debaterem no chão e amassar em a carne, que, machucada, perde muito do seu valor de mercado. Assim, o convés de um atuneiro vive molhado de água e sangue



Bandos de peixes

A traineira pode voltar de viagem carregando até 100 toneladas de peixes. Uma rede de um quilômetro de extensão é usada para cercar e retirar do mar cardumes inteiros de palombetas (foto), anchovas, tainhas e sardinhas. O barco toca a terra apenas a cada cinco ou seis dias, para despejar num entreposto o pescado que escoa da cidade de Itajaí (SC) para o resto do país



Com as mãos

Produto de exportação, a lagosta tornou-se rara nos nossos mares. Desafiando a natureza - e a lei, já que a pesca com compressor é proibida no Brasil - pescadores da cidade de Caiçara do Norte (RN) alcançam o fundo do oceano respirando por mangueiras de ar. A ilusão da riqueza ao alcance das mãos se mostra perversa. Alguns perdem a visão, a audição e o movimento das pernas. Outros perdem a vida por causa de doenças descompressivas - causadas por erros em mergulho de profundidade



Mar de dentro

Todo mês de maio é igual. Com a chegada da temporada da tainha, os caiçaras de Cananéia, em São Paulo, fazem cercos de taquara para esperar os peixes. As tainhas começam sua viagem na Lagoa dos Patos (RS) e seguem até o litoral do Rio de Janeiro. Em Cananéia, são capturadas nos currais e recolhidas diariamente. "Mar de dentro" é como os caiçaras chamam o estuário, lugar de água calma onde o rio se mistura ao oceano e onde montam manualmente os cercos



Pela tradição
Na Prainha do Canto Verde, mantém-se viva uma das mais tradicionais artes de pesca do Brasil: as jangadas, que a cada nascer do sol ganham o mar do litoral do Ceará. Donos de uma sabedoria transmitida de pai para filho, os jangadeiros utilizam-se dos sinais das estrelas e dos ventos para se localizarem no meio da imensidão do mar. Organizar a pesca sustentável na comunidade foi o meio encontrado para garantir a permanência de seu trabalho. Eles deixam de pescar em certas áreas durante um ano para ter da onde tirar o alimento na temporada seguinte

terça-feira, 19 de abril de 2011

Como funcionam as leis de extradição ?

COMO FUNCIONAM AS LEIS DE EXTRADIÇÃO?



Cada governo pode aplicar suas próprias leis a quem comete um crime em seu território, mesmo que a pessoa seja estrangeira. A isso dá-se o nome de soberania nacional, um conceito que data de 1648, quando Holanda e França assinaram o tratado de Westfalia. "Esse tratado marca o início do que hoje chamamos de diplomacia", explica Maria Ester Bueno, professora de direito internacional da PUC-SP.

É por isso que, se você entrar na Indonésia com cocaína, é provável que seja condenado a encerrar sua vida com um tiro na cabeça autorizado pelo governo local. E, por mais esforço que façam, advogados e diplomatas brasileiros não vão poder remediar a decisão. A prova mais recente disso é a decisão da corte indonésia de executar o brasileiro Marcos Archer. Em 2003, ele foi preso com 13 quilos de cocaína na bagagem. Ainda há prazos para recursos e a embaixada pode interceder, pedindo que ele cumpra pena no Brasil, mas a decisão final fica a cargo do governo do país asiático.

Se o episódio com Archer tivesse acontecido no México, é bem provável que ele fosse mandado de volta. Isso porque México e Brasil assinaram um tratado de extradição em 1933, comprometendo-se a cooperar um com o outro.

Quando não há acordo estabelecido previamente, a decisão de extraditar o preso depende das relações diplomáticas entre os países envolvidos. Os pedidos são julgados com base na reciprocidade de tratamento. Ou seja, um país só acata pedidos de extradição de países que agiriam da mesma forma em uma situação parecida. Mas nem sempre é assim que funciona. "Na prática, a decisão final vai depender da força econômica e da influência de um país sobre outro", diz Maria Ester.

O Brasil segue a lei 6 815, conhecida como Estatuto do Estrangeiro, e os pedidos de extradição são avaliados pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ). O envio do preso ao país requerente depende de vários fatores, mas o STJ não acata pedidos quando: o crime em questão não é considerado delito no Brasil; a lei brasileira impõe punição igual ou inferior a um ano de prisão; o pedido se refere a um crime pelo qual o acusado já tenha cumprido pena no Brasil, e quando se trata de crimes políticos. E sob hipótese nenhuma o Brasil extradita um brasileiro.

Contando presos
Segundo o Itamaraty, existem aproximadamente 2 500 brasileiros presos fora do país. O órgão informa que é impossível saber o número exato, já que muitas vezes o próprio preso não quer que a família, no Brasil, seja avisada de sua prisão. O último levantamento detalhado foi feito em 1999 e apontava menos da metade da estimativa atual: 1 202 presos em 94 países do mundo. Japão e Estados Unidos são o destino favorito dos nossos conterrâneos infratores

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Política do faz-de-conta

POLÍTICA DO FAZ-DE-CONTA



Com o microfone na mão, Ulysses Guimarães levava a multidão no gogó. Era 1984 e São Paulo organizava a maior mobilização política do país. Para a história, o 1,5 milhão de pessoas gritando "diretas já" foi um marco. Mas a verdade é que, para quem naquele dia estava longe do palanque, Ulysses não passava de uma mancha careca no horizonte. Ouvir seu discurso com clareza era um exercício de otimismo cívico.

Vinte anos e três eleições diretas para presidente depois, comícios perderam a utilidade para a engrenagem política. Na campanha presidencial de 2002, não foi preciso um único grito. A televisão já chegava a mais de 98% dos municípios do país e por ela era possível falar ao mesmo tempo com quase todos os brasileiros. Sem ruídos, palavra por palavra. Além, é claro, de exibir a barba aparada de Lula ou o sorriso treinado de José Serra. "Numa democracia de massas, como é o Brasil, a campanha tem de ser feita na televisão. É o meio que permite ao candidato falar com mais pessoas", diz o cientista político Rogério Schmitt, da Escola de Sociologia Política de São Paulo.

Candidato à presidência dos Estados Unidos em 1939, Franklin Roosevelt revolucionou a história da corrida eleitoral ao fazer o primeiro discurso televisionado de que se tem notícia. Na época, era apenas uma transmissão que acoplava imagem à voz do candidato. Hoje, além da audiência, a televisão também permite construir a imagem do candidato. Ou melhor, construir qualquer imagem para o candidato. Porque os tempos de Ulysses e Roosevelt, em que campanha era feita à base de discursos inflamados e muita criancinha beijada, acabaram. Atualmente, bons publicitários combinam a força televisiva com pesquisas de opinião capazes de traçar um mapa psicológico dos desejos do eleitorado. Com essas informações em mãos, podem embalar propostas na forma do presente que queremos ganhar. "O eleitor sempre vota numa imagem. É impossível conhecer o candidato como pessoa", escreve o cientista político Francisco Ferraz no seu Manual Completo de Campanha Eleitoral. Nas próximas páginas você verá as artimanhas utilizadas na construção dessa imagem.

O que fazer
No mundo da propaganda política, nada é por acaso. Um vaso de flores despretensioso sobre a mesa, a manga da camisa arregaçada, uma reunião de trabalho com assessores sob o comando do candidato. Tudo ali tem função. As pesquisas qualitativas indicam que o público acha o candidato briguento e arrogante? O belo arranjo de flores ajuda a suavizar essa imagem. Titubeante e com pouca experiência administrativa? Basta aparecer distribuindo ordens na ponta de uma mesa comprida. Lento e elitista? A solução ideal é usar menos terno.

Desde 1960, quando a equipe de John Kennedy inaugurou a "campanha profissional", esses truques são repetidos à exaustão, com mais ou menos criatividade dos marqueteiros. Exemplos não faltam. Identificado pelo eleitorado como um homem frio, George Bush "pai" ganhou a presidência dos Estados Unidos, em 1988, com comerciais que intercalavam suas imagens ao lado dos maiores líderes políticos e cenas dele brincando com os netinhos (em campanha, Bush também já conversou com um frango, mas esse episódio não tem explicação lógica conhecida). O "aristocrata" Fernando Henrique Cardoso degustou uma humilde buchada de bode na corrida presidencial. Um senador americano apareceu estacionando seu carro com "15 anos de uso" entre os Mercedes do Congresso para mostrar que não era pão-duro, mas entendia que "um centavo economizado é um centavo ganho". E, para consolidar a imagem de empreendedor, Paulo Maluf adotou o bordão "Foi Maluf que fez", criado pelo publicitário Duda Mendonça - que mais tarde reaproveitaria a idéia nas campanhas do argentino Carlos Menem, do pernambucano Miguel Arraes e de Marta Suplicy, concorrente de Maluf.

Se você acredita que está imune a esse jogo, cuidado. Campanhas maciças de mídia, como são as eleições, atingem todos nós. Ainda assim, nos Estados Unidos apenas 23% dos eleitores admitem ser influenciados pelo marketing político. É o que eles pensam. "A propaganda eleitoral tende a ter maior ascendência exatamente sobre aquelas pessoas que dizem não sofrer influência", afirma Kathleen Hall Jamieson, diretora da escola de comunicação da Universidade da Pensilvânia e autora de Packaging the Presidency ("Empacotando a Presidência", sem tradução para o português). No Brasil, pesquisas mostram que somos bem mais receptivos ao horário eleitoral, que é o segundo maior fator de persuasão na escolha do voto, atrás do bate-papo com amigos e familiares.

Como fazer
Quem inaugurou esse tipo de campanha no Brasil foi Fernando Collor, em 1989. Pesquisas mostravam que o eleitorado queria um candidato de oposição, não identificado com a política tradicional e que propusesse transformar o país. Collor resolveu atender a demanda. "Hoje todos fazem isso. Mas o Collor foi o primeiro a ler pesquisas e trabalhar a imagem com eficiência", diz Rogério Schmitt. Enquanto vendia a juventude como virtude, seu rival Ulysses Guimarães veiculava um jingle em que se apresentava como "o velhinho". O final desse filme você já conhece.

Para os políticos, também é importante entender que quem está na televisão deve fazer como os televisivos. A boa propaganda eleitoral deve misturar Jornal Nacional e novela das 8. Um apresentador mostra "reportagens", o candidato aparece com soluções e por fim é exibido um clipe (supostamente) contagiante e imagens (teoricamente) belas. Tudo muito otimista e para cima. Críticas, só de vez em quando. "Brasileiro não gosta de candidato que briga com adversário. Quem bate perde", diz Chico Abréia, diretor de criação da Duda Mendonça Marketing Político, agência que comanda campanhas do PT em cidades como São Paulo e Belo Horizonte.

A trama manjada é endossada por um roteiro maniqueísta. Todo candidato precisa convencer o eleitor de que: 1) é a pessoa perfeita para o cargo e 2) o mal se aproxima na forma de problemas que, adivinhem só, correspondem a todos os defeitos identificados com o outro concorrente. "Se o seu adversário não é a corporificação do mal, ele é a encarnação do erro", ensina o Manual de Campanha Eleitoral.
Sinal dos tempos. Quando Abraham Lincoln foi eleito presidente americano, em 1860, fazer campanha era antiético. Cada concorrente discursava uma única vez, ao anunciar a candidatura. Apresentava propostas de governo e saía de cena para o povo refletir sobre o melhor caminho. Quanta diferença.

domingo, 20 de setembro de 2009

Mercado de software chega a US$15 bi no Brasil

30/04/09 - 17h53 - Atualizado em 30/04/09 - 17h55


Mercado de software chega a US$15 bi no Brasil, com alta de 35%

O mercado nacional de software e serviços movimentou, em 2008, 15 bilhões de dólares no Brasil, com uma elevação de 35 por cento sobre o ano anterior.

Os números foram divulgados nesta quinta-feira pela Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes), a partir de pesquisa da consultoria IDC, que mapeou o setor de software no Brasil.

Apesar do crescimento, mundialmente o país manteve a 12a posição, com um mercado interno que equivale a 1,68 por cento do total global.

Os Estados Unidos ocupam a primeira colocação no ranking, com um mercado doméstico de 339,6 bilhões de dólares, seguido pelo Japão, que movimentou 71,7 bilhões de dólares em softwares no ano passado.

Dos 15 bilhões de dólares movimentados no Brasil, 5 bilhões foram gerados pelos programas em si e 10 bilhões de dólares pelos serviços a eles atrelados.

Quase 50 por cento da demanda veio dos setores financeiro e industrial, diz a pesquisa do IDC apresentada pela Abes.

O setor brasileiro de software é composto por 8,5 mil empresas, entre as que desenvolvem, distribuem e comercializam. Entre as desenvolvedoras, 94 por cento são consideradas micro e pequenas empresas.





PUBLICADOS BRASIL NO ORKUT

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