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quarta-feira, 22 de junho de 2022

Encontrada pedra com símbolos misteriosos de povo que resistiu aos romanos na Escócia

Encontrada pedra com símbolos misteriosos de povo que resistiu aos romanos na Escócia

Artefato de 1500 anos foi produzido pelos pictos, que adotaram um modo de vida guerreiro.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

CARIOCA e Fluminense - Vamos as origens

 CARIOCA e Fluminense - Vamos as origens


Tudo mundo sabe: quem nasce na cidade do Rio de Janeiro é chamado de carioca, e quem nasce no estado, incluindo a capital, atende pelo gentílico de fluminense.

sábado, 26 de setembro de 2020

Pesquisa entre historiadores elege quem foi o maior líder de todos os tempos

Pesquisa entre historiadores elege quem foi o maior líder de todos os tempos

A revista BBC HistoryExtra realizou uma pesquisa com 20 renomados historiadores, que escolheram quem eles consideraram o melhor líder da história. 

domingo, 10 de maio de 2020

O mistério do povoado onde só nascem meninas

O mistério do povoado onde só nascem meninas


Em um pequeno povoado da Polônia, chamado Miejsce Odrzańskie, não nasceu nenhum menino nos últimos 10 anos. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

O misterioso raio que matou 25 pessoas em uma igreja (mas poupou os padres)

O misterioso raio que matou 25 pessoas em uma igreja (mas poupou os padres)


Em 24 de julho de 1902, a comunidade de San Salvador de Allariz, na Galícia (ou Galiza, na Espanha), foi à igreja da aldeia prestar as últimas homenagens a um vizinho que havia morrido recentemente. 

sábado, 3 de dezembro de 2016

13 fatos brutais que deveriam estar na lápide de Fidel Castro


13 fatos brutais que deveriam estar na lápide de Fidel Castro


Americanos que elogiavam Fidel pareciam ter esquecido que ele apontara mísseis atômicos contra o país

sábado, 20 de junho de 2015

Três teorias científicas para entender o temido inverno de 'Game of thrones'


Três teorias científicas para entender o temido inverno de 'Game of thrones'

BBC separa teorias científicas para entender o inverno de 'Game of thrones' (Foto: Divulgação/HBO)

Personagens dizem que 'o inverno está chegando', mas não sabem quando isso acontecerá; como o clima pode ser tão instável?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Objeto misterioso no Mar Báltico provoca o desligamento dos sistemas elétricos de navios


Objeto misterioso no Mar Báltico provoca o desligamento dos sistemas elétricos de navios


Em 2011, a descoberta de um estranho objeto circular, encontrado sobre o leito marinho do Mar Báltico, chamou a atenção da opinião pública internacional. Hoje, sem maiores novidades em relação à sua origem, a revelação enigmática ganha uma nova importância. Pesquisadores do Ocean Explorer, equipe que estuda diferentes fenômenos marinhos, afirmam que os equipamentos eletrônicos desligam repentinamente toda vez que o seu navio Ocean X passa pela região do objeto enigmático.

sábado, 26 de abril de 2014

A conquista do Castello - Segunda Guerra

A CONQUISTA DO CASTELLO - Segunda Guerra


Há 50 anos, no dia 21 de fevereiro de 1945, os pracinhas da FEB, Força Expedicionária Brasileira, chegavam ao cume do Monte Castello, na Itália, e impunham uma difícil derrota aos alemães, no fim da Segunda Guerra Mundial. Você vai ver, a seguir, fotos inéditas dessa campanha, e vai acompanhar toda a sua história. Monte Castello não foi a maior batalha da FEB nos seus 239 dias de luta. Mas ganhou um significado simbólico, como um batismo de fogo das tropas. Os brasileiros não tinham experiência de combate e haviam sido preparados de última hora. Avançando montanha acima, às vezes a 20 graus abaixo de zero, contra um inimigo bem armado, eles fracassaram quatro vezes, ao longo de três meses. A vitória tornou-se uma questão de honra.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A Bomba Relógio da Superpopulação - Demografia


A BOMBA-RELÓGIO DA SUPERPOPULAÇÃO - Demografia


Um cientista revela como a degeneração do meio ambiente e as grandes epidemias podem ter uma causa explosiva.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Todos parente - Etnologia


TODOS PARENTES - Etnologia


Apesar das diferenças de cor e de traços, cada dia mais cientistas apostam na tese de que somos descendentes de um único ancestral, que há 100000 anos deixou a África para colonizar o mundo.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Maias, O Fim do Mistério - Antropologia


MAIAS, O FIM DO MISTÉRIO - Antropologia



A escrita desse povo, agora quase toda decifrada, promete elucidar mais de 1000 anos de sua nebulosa história, mascarada por lendas e preconceitos no passado

Os pântanos e florestas que cobrem boa parte da América Central abrigam, nos dias de hoje, alguns dos povos mais pobres e atrasados do mundo. O retrocesso dos últimos séculos, no entanto, é enganador. Ele interrompeu uma épica saga de nada menos que três milênios, ao longo dos quais ocorreu um dos raros momentos da história da humanidade em que inúmeros povos vizinhos subitamente despontam para a civilização. O testemunho mais impressionante desse fenômeno, na América, são as ruínas monumentais deixadas pelos maias.Em muitas histórias, ainda hoje, eles são pintados como uma gente meio mágica-que parecia ocupada apenas em adorar deuses terríveis ou em contemplar os astros, base do seu elaboradíssimo calendário. Chegou-se mesmo a especular que sua sociedade não era original da América; em vez disso, teria sido trazida por imigrantes da Antigüidade, vindos do Egito ou de algum outro lugar. Descobertas recentes, no entanto, põem por terra a mística vida maia, pois revelam que suas grandes obras não se limitavam a suntuosos templos e pirâmides, utilizados em rituais de sangue ou no culto aos governantes mortos. Havia também construções de finalidade prática, das quais as mais importantes eram vastos reservatórios que aproveitavam uma concavidade natural do terreno para coletar e armazenar a água da chuva.Tal tecnologia pode ter aberto uma inédita via para a civilização, pois era um meio de irrigar grandes parcelas de terra e, assim, ampliar a produção agrícola. Em outras palavras, significava alimento em quantidade suficiente para grandes populações. Isso foi essencial às grandes experiências históricas do passado-já que, nascidos da união de inúmeros povos, os impérios antigos deviam sua coesão, em grande parte, à capacidade de organizar a distribuição de água. Não por acaso, os faraós surgiram junto ao Rio Nilo; os reis sumérios, entre o Tigre e o Eufrates (onde é hoje o Iraque); e os monarcas chineses, às margens do Yang Tsé.Em diversas áreas da América, a ausência de grandes rios teria levado à bem-sucedida idéia dos reservatórios. Pelo menos é o que se deduz da densa população maia que, no auge, reunia dezenas de milhões de pessoas em povoados que superavam, em número, as antigas aldeias egípcias. Seus núcleos habitados, além disso, concentravam 130 pessoas por quilômetro quadrado -valor equivalente ao do Estado de São Paulo, nos dias de hoje. A expansão cultural desse povo teve inicio a partir do século I d.C.,na região de Tikal, na Guatemala. Aí se erigem as ruínas do mais portentoso conjunto cerimonial maia, dominado por uma monumental pirâmide de 70 metros, tão alta como um prédio de 23 andares.É possível que em torno dela tenha existido uma verdadeira cidade, talvez a maior que esse povo construiu. Atualmente, imagina-se que Tikal foi um mero centro administrativo e religioso, onde viviam, de fato, apenas os soberanos e sacerdotes, enquanto a população residia em aldeias agrícolas, mais ou menos distantes. Mas as ruínas incluem dezenas de construções avantajadas, que, além de santuários, podem ter sido mercados, palácios e residências. O conjunto principal ergue-se numa área de quase 100 quarteirões-em parte coberta por vastas plataformas de pedra de até 10 metros de espessura-, mas a cidade toda era dez vezes maior e cobria um quadrado de 3 quilômetros de lado.Além disso, Tikal possuía, pelo menos, seis grandes reservatórios pluviais, o maior deles com capacidade para armazenar 200 milhões de litros de água. No total, a capacidade era cinco vezes maior, isto é, 1 bilhão de litros ao ano. "Os reservatórios são um indício novo de urna forte urbanização", sugerem os antropólogos americanos Vernon Scarborough e Gary Gallopin, o primeiro da Universidade de Cincinnati e o segundo da Universidade do Estado de Nova York, ambas nos Estados Unidos. O raciocínio dos cientistas é claro: obras dessa magnitude, com centenas de metros de extensão, não poderiam ter sido realizadas por simples camponeses, inteiramente ocupados com o trabalho na terra. Para planejá-las e construí-las, deve ter sido necessário alocar trabalhadores em regime de tempo integral -isto é, homens que viviam na própria Tikal com suas famílias.Alguns desses homens, por outro lado, devem ter formado uma numerosa elite urbana, tão importante na vida hierárquica dos maias quanto a elite dos guerreiros e a dos sacerdotes. Nada disso era sequer imaginado há algumas décadas, o que é compreensível. Na época de sua descoberta, logo após a chegada de Cristóvão Colombo, em 1492, os monumentos maias estavam soterrados por uma vegetação literalmente amazônica e, já então, haviam sido abandonados fazia mais de 1000 anos. E certo que as construções estavam repletas de estranhas palavras, gravadas na pedra, onde poderia estar narrada a história dos seus construtores. Mas isso de pouco adiantava, já que ninguém conseguia decifrar os estranhos símbolos dessa escrita.Acima de tudo, a hostilidade devotada aos maias, desde o princípio, impedia qualquer análise racional da sua vida. Basta ver que muitos dos seus livros foram destruídos por motivos puramente militares-eram queimados para quebrar o ânimo dos nativos e assim facilitar sua conquista pelos espanhóis. Seus costumes, em vista disso, foram sistematicamente estigmatizados -em particular os sacrifícios de sangue, freqüentes em todas as culturas americanas. Nesses assustadores rituais, guerreiros e governantes inimigos, eram mortos a golpes de tacape, em público. Seu coração era, em seguida, extirpado e seu corpo, queimado. Essas práticas estendiam-se à intimidade dos lares onde as pessoas das castas dominantes vertiam, muitas vezes, seu próprio sangue- seu mais precioso bem, oferecido aos deuses em troca de favores.Embora repugnantes, hábitos como esse não significam que a sociedade maia era, de alguma forma, dominada por instintos sanguinários. Nem que o derramamento de sangue fosse o aspecto mais destacado de sua cultura. Em primeiro lugar, porque cultura é um conceito relativo; o que causa repugnância a um povo parece apenas normal aos olhos de outro povo. Depois, porque houve muito exagero, no passado. "Seria um erro pôr muita ênfase nos rituais de sangue", opinam, por exemplo, dois competentes estudiosos da escrita maia, os americanos David Stuart e Stephen Houston, da Universidade Vanderbilt. Eles acreditam que nos próximos anos será possível ter uma idéia mais precisa da sociedade maia, graças aos progressos na arte de decodificar sua escrita. "Metade dos símbolos para as sílabas já foi decifrada."Esses curiosos sinais representam um pequeno grupo de letras-como "wi" e "tsi", componentes da palavra "wits", que significa "colina". Ou como "a", "ha" e "wa", que formam o termo "ahaw", empregado para designar "senhor de terras" ou "governante". Ao lado dos caracteres silábicos, os maias empregavam também formas logográficas, isto é, desenhos completos para representar uma palavra. O termo "senhor de terras", por exemplo, também podia ser escrito com um simples desenho, na forma de uma face. Assim, a comparação das figuras com as palavras abre uma brecha maior para a compreensão de ambos.Ao contrário do que se supunha, os textos maias não são simples fórmulas místicas ou meras narrativas religiosas. Em grande maioria, eles descrevem eventos reais da história da América Central e do México, e podem esclarecer a desconhecida história política da região. Há grande interesse, por exemplo, em desvendar as relações entre Tikal e a cidade de Teotihuacán, que no quinto século d.C., abrigava 150 000 habitantes e era uma das maiores cidades do mundo.Tikal havia surgido 600 anos antes de Cristo, mas sua história remonta a dois e meio milênios antes disso, quando os maias iniciaram sua migração, talvez vindos de tão longe quanto a costa oeste dos Estados Unidos. Nessa época, os primeiros povos a despontar como uma civilização distinta e abrangente foram os olmecas. Mas não está claro se a região chegou a comportar verdadeiros impérios, pois as cidades fundadas durante o primeiro milênio antes de Cristo pareciam ter vida independente.No caso dos maias, os primeiros centros regionais-como Izapa e Kaminaljuyú, estabelecidos na Guatemala -criaram uma fase cultural conhecida pelo nome de Terras Altas. Quando esses centros perderam força, Tikal ergueu-se como um fenômeno marcante. Essa transição ocorreu por volta do ano 300 d.C., sob a égide de um soberano denominado Focinho Curvado, cujos emblemas exibem a imagem do deus Tlalóc, de Teotihuacán. Sabe-se também que o soberano deposto por ele era Garra de Jaguar, ligado às linhagens dominantes das Terras Altas.Portanto, insinua-se aí uma instigante trama política e há diversas outras indicações de algum tipo de aliança entre as linhagens dominantes de Tikal com as de Teotihuacán, talvez como meio de afastar a influência dos centros das Terras Altas. No governo seguinte, de Céu Tempestuoso (entre 426 e 456 d.C.), consolida-se o novo centro de poder dos maias. Nos séculos posteriores, de fato, a arquitetura e arte criada nesse período se espalhariam para leste, com a edificação de templos monumentais em localidades como Uxmal e, especialmente, Chichén Itzá. Foi a idade de ouro dos maias. Ela se encerraria abruptamente, no século IX, mais ou menos quando, ao norte, começava a erguer-se a cultura asteca.Stuart e Houston dizem que alguns textos já decifrados ilustram a intensa atividade política dos maias, nessa região. Eles contam a história de diversas cidades junto ao Lago Petebaxtun, não muito distante de Tikal. "As inscrições revelam que, nesse local, as relações entre as cidades mudaram de amistosas para hostis, e novamente para amistosas, num curto período de apenas quarenta anos."Ainda é cedo para tirar conclusões seguras a respeito dos inúmeros fatos novos levantados pela pesquisa científica. Mas o empenho com que se buscam respostas, atualmente, permite prever uma pequena revolução na história dos maias. Eles ainda somam, hoje, 4 milhões de pessoas, habitantes do México, Guatemala, Belize, Honduras e El Salvador-cerca de 4% da população desses países. E possível que o resgate de sua memória perdida, além de ajudar a entender melhor o nascimento da civilização, também abra novos horizontes para o futuro desse povo.

Mesoamérica, há 10 000 anos: berço de civilizações

Diversos povos nômades, há 10 000 anos, começaram a fixar-se na região do México e América Central, onde produziram um dos grandes inventos da pré-história: o milho. Antes disso, esse cereal era um capim cuja espiga de apenas 4 centímetros, depois do cultivo, tornou-se quase dez vezes maior. O plantio fez multiplicarem-se as aldeias permanentes, a partir de 5 000 anos atrás. A primeira grande cultura da região foi a olmeca, que construiu San Lorenzo e La Venta, entre 1200 e 900 a.C. Nos séculos seguintes, na periferia da área olmeca, floresceram cidades como Teotibnacán, numa área cultural de nome tolteca, e Monte Albán, numa área zapoteca. Ao sul, apareceram os mais antigos centros maias: Abaj Takalik, Izapa e Kaminaljuyú. Vieram, mais tarde, Tikal e Palenque e, depois, Chichén Itzá e Uxmal. Decadentes, esses últimos centros duraram até o século 14 d.C. -quando Tenochtitlán, capital do império asteca, já abrigava mais de 200 000 habitantes.


Ciência dos números, palavras e astros

Ao contrário de outros povos que chegaram ao limiar da civilização, os maias não conheciam a roda, o torno de madeira ou os metais, assim como não dispunham de animal de tração. Mas isso. em vez de diminui-los, os engrandece.. "As limitações tornam ainda mais admiráveis suas conquistas em inúmeros outros domínios", opina o arqueólogo francês Paul Gendrop. Ele refere-se, com certeza, à Arquitetura, Matemática Astronomia e escrita. Essa última parece um retrato de como nascem os símbolos. Em certos casos, ela representava as palavras por meio de figuras bem concretas, como, um rosto ou um galho de árvore; no total, existiam cerca de 1 000 símbolos desse tipo. Em outros casos, ela empregava sinais abstratos, como círculos, traços, ou formas mais complicadas.Esse segundo sistema, no entanto, era mais prático, pois as palavras podiam ser escritas com pouco mais de 100 sinais abstratos. Esses eram usados para representar sílabas, nas quais se combinavam cinco vogais e dezessete consoantes. Algumas das palavras mais importantes do vocabulário maia estavam ligadas aos seus dois calendários, onde o ano chamava-se "tún" e os meses "uinals". Num deles, considerado sagrado, o ano tinha 260 dias e era dividido em treze meses de vinte dias cada um. No outro, de uso civil, o ano tinha 365 dias e dezoito meses de vinte dias, mais cinco dias.Os dois calendários combinavam-se por meio de um incrível sistema astronômico, baseado no período de 584 dias, tempo que o planeta Vênus leva para dar uma volta completa em torno do Sol. De tal modo que, quando Vênus dava 65 voltas, passavam-se exatamente 104 anos de 365 dias e 146 anos de 260 dias. Os maias descobriram que essa coincidência de números inteiros acontecia num período mais curto-em metade de uma volta de Vênus, ou 52 anos civis. Esse período de 52 anos era, por isso, a base das suas datações históricas. A Matemática também estava associada ao calendário e aos astros, pois a numeração não se apoiava no número 10, como atualmente; em vez disso, empregava o número 20, o total de dias do mês. Os seus algarismos eram apenas três: um ponto representava o número 1; uma barra, o 5; e uma oval, o zero.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O Povo de Asterix - História


O POVO DE ASTERIX - História



Os celtas povoaram a Europa muito antes da ascensão de Roma. Guerreiros, artesãos e artistas, tinham uma cultura voltada para o sobrenatural e uma relação mágica com a natureza. Mas sentiam medo da palavra escrita

À parte os jogadores do Boston Celtics, os monumentais astros do basquete que como o primeiro nome do time indica são americanos e nada mais, os únicos celtas que as pessoas conhecem hoje em dia não são gente de carne e osso, mas figuras de histórias em quadrinhos, os divertidos personagens capitaneados pelo diminuto Asterix. Na vida real, as legiões romanas sob o comando de Júlio César conquistaram em 58 a.C. o território da Gália, que viria a ser a França, e denominaram os habitantes locais, os celtas, gauleses. No gibi, o valoroso Asterix, dono de força sobre-humana, faz gato e sapato dos invasores, com a ajuda do descomunal Obelix. O segredo do bravo guerreiro é uma poção mágica confeccionada pelo druida, o sacerdote da aldeia.Na organização social dos celtas, até onde se sabe, o druida exercia uma multiplicidade de papéis: era não só uma espécie de ministro de Assuntos Religiosos, mas também o guardião das tradições e da cultura, maestro da moral e da teologia. Era ainda profeta e às vezes poeta (ou "bardo"), o elo de ligação por excelência entre os habitantes deste mundo e os do outro, como bruxas, fadas, deuses e seres sobrenaturais em geral. Para os historiadores especializados na antiga Europa, os druidas representam a fonte de um problema. Pois a grande dificuldade em estudar a saga desses primeiros europeus - que antes da conquista romana haviam povoado o continente desde Portugal, no extremo oeste, à Cordilheira dos Cárpatos, no leste, da Bélgica, no norte, à Itália no sul - nasce, segundo a lenda, de um decreto druida, os celtas estavam proibidos de escrever a própria história.Júlio Cesar narrou a conquista da Gália nos sete volumes do De bello gallico (Sobre a guerra gália), cujas primeiras palavras,Galia est omnia divisa in partes tres,unam quarum incolunt belgae  (Toda a Gália se divide em três partes, numa das quais habitam os belgas), não há estudante de Latim capaz de esquecer. Pois o glorioso César cometeu o equívoco de afirmar que os celtas não escreveram sua história por não confiar na própria memória. Na verdade, temiam que a palavra escrita pudesse ser veículo de magia incontrolável - no fundo, um argumento muito parecido com os pretextos invocados pelos censores de qualquer época e lugar.    Seja como for, o veto limitou o conhecimento da sociedade celta ao discurso mudo dos objetos encontrados nas escavações arqueológicas em sítios que há mais de 2 000 anos abrigaram povoações. Informações adicionais provêm dos relatos de outros povos antigos, que compreensivelmente descrevem os briguentos celtas sem nenhuma benevolência. Pela primeira vez, porém, graças a uma portentosa exposição organizada no Palazzo Grassi, de Veneza, sede da organização cultural da Fiat, tornou-se possível um esforço multinacional, com a participação de 200 museus 24 países, destinado a permitir uma visão de conjunto do que se sabe hoje a respeito de uma civilização fundamental na formação da Europa. 

Intitulada "Os celtas, os primeiros europeus", a exposição apresenta, explica e relaciona entre si nada menos de 2.200 objetos. Nunca antes vistas lado a lado, são as peças mais significativas resgatadas pelos arqueólogos em escavações passadas e presentes realizadas em toda a Europa, como disse a SUPERINTERESSANTE o professor Daniele Vitali, um dos sete especialistas pescados pela Fiat em cinco países para cuidar do lado propriamente científico da mostra. "Muitos museus refutaram em ceder as peças. por serem muito frágeis", conta ele. "Mas consideramos o estudo dos celtas, que são afinal as raízes européias, especialmente importante às vésperas da unificação do continente", raciocina Vitali, aludindo à derrubada das barreiras alfandegárias entre os doze países da Comunidade Européia, marcada para 1992. 

O professor é dono de notícias frescas sobre os celtas. Ele dirige há dez anos a escavação de uma aldeia celta em Monte Bibele, a 30 quilômetros de Bolonha, na região da Toscana, no norte da Itália. Trata-se de um vilarejo com sessenta casas, onde viviam famílias pertencentes à estirpe dos boi (nada a ver com o significado da palavra em português). O povoado foi destruído da noite para o dia pelos romanos, que assim praticamente congelaram um momento da vida cotidiana de seus habitantes. Resultado: guardadas as proporções, a povoação de Monte Bibele está para o conhecimento da vida celta assim como Pompéia, petrificada pela erupção do Vulcão Vesúvio, está para o conhecimento da vida romana. "Encontramos todas as casas bem conservadas, com paredes de pedra de 2 metros de altura. Só os tetos de madeira foram destruídos", descreve Viali. As casas conservam toda a decoração e a distribuição espacial do último dia de vida do povoado. "Achamos muitos utensílios e ferramentas de trabalho, como foices, enxadas, facões, armas, vasos, tigelas, vasilhas", enumera o professor. Em algumas casas, os moradores estavam para fazer uma refeição quando se abateu a tragédia. Isso permitiu descobrir seu cardápio cotidiano. "Eles comiam muitos cereais, como trigo e grão-de-bico, e assados de caça, informa o pesquisador. "Consumiam também maçãs e pêras. Achamos ainda vestígios de animais domésticos."Dentro de um túmulo aristocrático, anterior no tempo à aldeia de Monte Bibele, escavado no norte da Áustria, na região de Hallstatt, que dá nome ao período mais antigo da civilização celta, foram encontradas as sobras de um banquete fúnebre. A partir da análise desses restos descobriu-se que os celtas tomavam hidromel, a mais antiga bebida alcoólica fermentada, um pouco mais forte do que o vinho atual. O banquete era para nove pessoas, pois haviam sido dispostos nove cornos, que serviam para beber, nove pratos de bronze e nove taças bem grandes, também de bronze. O hidromel estava num caldeirão de origem grega.O túmulo de Hallstatt dá muitas informações adicionais sobre os costumes celtas e sua interação com outros povos. Guerreiros de truz, como os invencíveis Asterix e Obelix da ficção, os celtas eram sepultados junto com todo um arsenal do mesmo modo como tinham vivido neste. No túmulo, um quadrado de 4,70 metros por 1,20 metro de altura, acharam-se coleções de flechas e um punhal trabalhado em ouro. Numa bolsa estavam apetrechos de higiene e embelezamento e três anzóis de pesca. O corpo jazia num sofá de bronze, provavelmente de fabricação etrusca. A cabeça estava apoiada num travesseiro de ervas.O morto usava roupas de tecido e de peles e um chapéu cônico de cortiça. No pescoço, um colar, o chamado torquis, de ouro, um adereço muito significativo. "O torquis, como diziam os romanos, é o colar típico dos celtas", explica Vitali. É um aro tubular com duas dilatações na extremidade, com furos usados para o encaixe do fecho do colar. "O torquis atestava a posição social de quem o usava. Se fosse de ouro, certamente o dono seria um aristocrata", esclarece. Uma das peças mais importantes da mostra de Veneza, por sinal, é o torquis que faz parte da coleção do museu de Chatillon sur Seine, na França, com decorações de rara beleza.Uma família típica do povoado dos boi, segundo Daniele Yitali, era composta de quatro a cinco pessoas e vivia em casinhas de 20 a 30 metros quadrados, agrupadas em pequenas quadras. No povoado de Monte Bibele viviam umas 250 pessoas. No cemitério local já foram encontrados 134 túmulos, muitos deles de guerreiros mortos em combate, Inscrições funerárias (em etrusco) só aparecem no caso de homens casados com mulheres etruscas. Os etruscos haviam se estabelecido ali antes dos celtas. As inscrições descrevem a mulher e o seu parentesco com os demais. Os mais antigos relatos de que se tem noticia sobre os celtas diziam que eles eram sexualmente promíscuos, trocando freqüentemente de mulheres com parentes e amigos. Daí nasceu a lenda de que até o incesto era comum entre eles. Até hoje não foi possível conferir essas informações. "Os dados arqueológicos", ensina Vitali, "só permitem afirmar que os celtas muitas vezes se casavam com mulheres de outros povos, por exemplo, os etruscos."Segundo uma versão, foi graças a esses "bárbaros", como os romanos se referiam a eles com desprezo, que se difundiu o uso da roda. É certo que os celtas apuraram a técnica da curvatura da madeira que tornou possível o aparecimento não só da roda mas também do barril e de muitos utensílios de madeira. A invenção da carroça puxada a cavalos também Ihes é atribuída. Pelo menos as palavras latinas carrus (carro, carroça), carruca (charrua) e carpentum (carruagem) são comprovadamente de origem celta. Assim como os nomes Londres, Paris e Milão, cidades fundadas por eles.As primeiras informações sobre a presença dos celtas na Península Ibérica e na Inglaterra foram transmitidas pelos gregos, há cerca de 2 700 anos. Por volta do ano 600 a.C. eles já ocupavam também as margens do Danúbio e o sul da Alemanha. É desse período o túmulo de Hallstatt, na Áustria. O apogeu artístico e cultural celta se deu na Suíça, à beira do Lago Neuchâtel, em La Tène (daí a designação Período Lateniano), onde se formou uma aristocracia militar cujos príncipes avançaram até a região de Champagne, na França. A partir de então entre os séculos V e III a.C., movidos pelo próprio crescimento demográfico e pressionados pela presença de outros povos, espalharam-se pelo resto da Europa, virtualmente em todas as direções. Atravessaram os Bálcãs, chegando à Turquia e Asia Menor. O que unia as povoações celtas, apesar das imensas distâncias que as separavam, não era a obediência a um único rei, mas a língua, a arte e a religiãoEm 387 a.C. cometeram a temeridade de invadir e saquear Roma. Eles tentaram tomar a cidade de surpresa. Mas, segundo a lenda, foram denunciados pelo grasnido dos gansos do Monte Capitólio, sede do Senado e do poder romano, onde hoje fica a Prefeitura da capital. Para os celtas, habituados à vida no campo, um ambiente tão urbanizado e destacado da natureza como o de Roma foi uma surpresa. O professor Sabattino Moscati, presidente do comitê executivo da exposição no Palazzo Grassi, lembra a versão segundo a qual os senadores romanos esperaram os invasores, imóveis em seus assentos. Ao irromper no recinto os celtas tiveram por um momento a impressão de estar diante de uma coleção de estátuas, como as muitas que haviam visto pela cidade. Para tirar a dúvida um deles puxou a barba de um senador, que não conteve a indignação. O resultado foi que os celtas passaram todos eles pelas armas.Nos quadrinhos de Asterix, a conquista de Roma é mais divertida. O guerreiro só não consegue tomar definitivamente a cidade porque acaba derrotado pela invencível burocracia local - cujo sossegado corpanzil inferniza ainda hoje a vida diária dos romanos. Para tudo aquilo que precisasse, Asterix se via obrigado a percorrer corredores subir e descer escadas, enfrentar a empedernida má vontade e má educação dos funcionários públicos. No mundo de verdade, tirar os celtas de Roma foi mais complicado. Eles permaneceram como um pesadelo pousado sobre a cidade durante nada menos de meio século, até a assinatura de um tratado de paz em 334 a.C.Como tantas vezes acontece na história dos povos, o período da maior expansão geográfica dos celtas assinala o início de sua decadência, atribuída à ausência de uma organização política forte o suficiente para unificar as tribos  pulverizadas pela Europa inteira. Atacados, de um lado, pelas legiões romanas e, de outro, pela migração dos germânicos, começaram a sucumbir cerca de 200 anos antes da era cristã. No fim do primeiro século do atual calendário, os celtas ou estavam completamente romanizados ou tinham se perdido na multidão de povos que vinham se formando no continente europeu.A grande exceção é a Irlanda, onde a civilização celta de alguma forma deixou marcas que sobreviveram até hoje. Os celtas irlandeses, também chamados galeses, souberam conservar a língua materna, o gaélico, uma derivação do celta original. Variações do gaélico são faladas na Escócia, na Bretanha francesa e, naturalmente, no País de Gales - mas é duvidoso que os atuais irlandeses pudessem ter um diálogo fluente com Asterix e seus amigos. 

Os tataravós de Picasso

A arte celta e sua expressão figurativa têm uma evolução original, embora nutrida por empréstimos da arte dos povos mediterrâneos, romanos, gregos e etruscos. Os temas típicos são, muito mais do que figuras humanas, os seres sobrenaturais zoomorfos (com forma de animais) e os elementos vegetais, desenhados com linhas curvas e flexíveis. Com sua predileção pelas formas curvilíneas, os celtas usavam muito o compasso, decompondo e recompondo as figuras a ponto de torná-las quase abstratas. Mesmo os elementos inspirados na arte clássica de Grécia e Roma sofriam mutações, integrando-se no rico universo imaginário dos celtas, povoado pelos mistérios da floresta e cheio de reverência diante da natureza.O melhor período do casamento da arte celta com a dos demais povos data do século III a.C., coincidindo com a época de sua maior expansão geográfica. Quatrocentos anos depois, a arte especificamente celta desaparecerá do continente europeu sem deixar rastros. Sobreviverá, porém, nas llhas Britânicas para ressurgir, resplandecente, na arte cristã da Irlanda medieval. Elementos da velha arte celta reaparecerão também na arte gótica, com sua obsessão pelas linhas curvas na representação das formas vegetais quase sempre freqüentadas por seres fantásticos ou monstruosos.Há quem veja nessas tramas com motivos animais ou vegetais, assim como no gosto predominante entre os celtas pelas linhas sinuosas um parentesco com uma certa tendência das artes decorativas européias do fim do século passado. A proximidade entre a arte celta e tais correntes artísticas, anticlássicas" surgidas mais de dois milênios depois é interpretada como indício de que os celtas foram os primeiros europeus a promover uma rebelião artística contra o classicismo oficial de Grécia e Roma. Vítimas do conquistador romano, os celtas teriam praticado uma arte de protesto contra a opressão das normas acadêmicas. Se essa teoria for verdadeira, os contemporâneos de Asterix seriam os ancestrais mais remotos do cubismo de Pablo Picasso.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Um Touro Seduziu Europa - Mitologia


UM TOURO SEDUZIU EUROPA - Mitologia



Segundo a lenda, a paixão de Zeus por uma mulher povoou a Ilha de Creta. Assim começou aquela que seria a primeira civilização genuinamente européia.

Cronos, o senhor do Universo segundo a fascinante mitologia grega, cultivava o estranho hábito de devorar seus próprios filhos, temendo que um deles o destronasse, ambicionando o poder (havia ainda um acordo com seu irmão mais velho, Titão, que desistiu do trono em favor de Cronos desde que este eliminasse os próprios filhos, a fim de que mais tarde o poder voltasse a um dos seus descendentes). Assim foram devorados Poseidon (Netuno, para os romanos), Hades (Plutão) e Hera (Juno). Grávida pela quarta vez, Réia, a mãe de todos eles, fugiu do céu e escondeu-se num vale profundo onde deu à luz Zeus (Júpiter), o qual foi imediatamente entregue aos cuidados de uma ninfa, enquanto o faminto Cronos devorava uma pedra que Réia envolvera em cueiros, para enganá-lo. A ninfa-babá levou o recém nascido para a ilha de Creta, onde o escondeu em uma gruta velada por cerrada vegetação. Ali Zeus teve uma infância de dar água na boca: foi alimentado com o leite da cabra Amaltéia, mel trazido pelas abelhas, ambrosia oferecida pelas pombas e o néctar, licor da imortalidade, que uma águia colhia diretamente na fonte divina; as ninfas Adrastéia e Ida brincavam com ele; e os sacerdotes de sua mãe, exímios no trabalho com metais, dançavam ao seu redor, batendo espadas, cujo retinir abafava seu choro e evitava sua descoberta pelo desconfiado Cronos.
Quando se tornou adulto, Zeus fez exatamente o que seu pai temia, destronou-o e assumiu o poder .Governando o Olimpo, a alta montanha onde viviam os deuses, ele viveu uma vida cheia de aventuras - e cheia de amores. Mas conservou uma especial afeição por Creta, a ilha onde passara a infância feliz, e que visitava constantemente. Um dia, estando ali assentado no cume do monte Ida, olhando distraído para os lados da distante costa da Ásia Menor, enxergou uma mulher de extraordinária beleza, brincando na praia com algumas amigas. Era Europa, filha de Agenor, rei da Fenícia. Zeus, coração ardente, tomou-se logo de paixão por aquela mortal belíssima, e imediatamente quis possuí-la. Para tanto, tomou a forma de um também belíssimo touro branco, com chifres em meia-lua. Manso e amável, o touro-Zeus brincou na praia com Europa, que confiante se sentou em seu dorso.
Zeus atirou-se ao mar, nadou até a vizinha Creta e às margens de um bucólico regato viveu um ardente romance com Europa. Do qual nasceram, em rápida sucessão, Minos, Radamanto e Sarpedão. Quando o deus enjoou de Europa, deu-a em casamento ao rei de Creta, Austerião. Quando este morreu, Minos, o primogênito de Europa, subiu ao trono - e nesse ponto a lenda começa a encontrar-se com a realidade. Pesquisas arqueológicas realizadas no começo deste século, as primeiras que se ocuparam do passado de Creta, conduzidas pelo cientista inglês Arthur Evans, demonstraram que, deuses à parte, na pequena ilha desenvolveu-se uma civilização extraordinariamente avançada, cujo apogeu aconteceu exatamente sob o comando de um monarca chamado Minos.
Evans conseguiu estabelecer que essa civilização surgiu por volta de 3000 a.C e chegou ao fim em 1400. Quando chegou ao auge do florescimento, entre 2000 e 1700, os povos gregos do continente eram pouco mais que bárbaros, e pelo menos mil anos passariam antes que Atenas se tornasse a sua capital cultural. Supõe-se que os povos responsáveis por ela vieram da África ou, mais provavelmente, da Ásia, para onde olhava Zeus quando se enamorou de Europa. Desde cedo os barcos cretenses dominaram o Mar Mediterrâneo. Eram bons barcos construídos para o que sempre foi um fecundo comércio com os povos do continente ou das ilhas vizinhas. Mas quase imediatamente começou a construção dos barcos de guerra incumbidos de defendê-los. Isso fez de Creta a primeira potência naval de que se tem notícia. Foi assim que os minóicos, como eram chamados, pouco a pouco foram deixando sua marca ao longo da costa européia, influindo decisivamente no desenvolvimento cultural e econômico dos diferentes povos que a habitavam.
Dividida, a princípio, em vários pequenos Estados, que talvez fosse melhor chamar cidades, que guerreavam constantemente entre si, Creta só chegou à unidade por volta de 2000 a.C., sob a monarquia de Minos. A capital foi estabelecida em Cnossos, quando a humanidade vivia a Idade do Bronze, e a pequena ilha era um exemplo de progresso, riqueza e cultura só superado em alguns outros poucos lugares. Os egípcios, por exemplo, já estavam utilizando o papiro e eternizando os corpos de reis, rainhas e princesas na forma de múmias. Os babilônios domesticavam galinhas e produziam o primeiro mapa do país. Os sumerianos tornavam-se os primeiros cervejeiros do mundo. Na América, os incas peruanos mal começavam a cultivar o algodão, enquanto na Ásia, os chineses, donos de uma cultura mais sofisticada, já conseguiam determinar os solstícios e os equinócios, aqueles momentos do ano em que o Sol está mais distante do equador terrestre, no primeiro caso, e corta o equador celeste no segundo.
Aos minóicos não se credita nenhuma descoberta desse porte, mas é certo que eles dispunham de conhecimentos e tecnologia que lhes permitiam viver com conforto, até mesmo com luxo e refinamento. Dominavam os segredos da produção do vinho e do azeite, os principais produtos que serviam ao comércio realizado por sua vasta frota marítima. Esgotos sanitários, utilizando uma rede de fossas e filtros à base de areia para purificação da água, eram exemplos da sofisticação atingida em sua vida cotidiana naquela época tão remota. Nessa sociedade, as mulheres tinham papel muito destacado -as estatuetas descobertas pelos arqueólogos são sempre de deusas não de deuses, e as cerimônias religiosas eram oficiadas por sacerdotisas. Nas pinturas recuperadas, as mulheres aparecem em carruagens, enquanto os homens caminham. As casas eram grandes, de um, dois, três e em alguns casos até quatro pavimentos, com muitas pinturas nas paredes. Uma característica marcante dessas pinturas é que elas não retratam cenas de guerra, substituídas por flores, borboletas, pássaros, até mesmo animais marinhos. Um campo em que os artesãos minóicos se destacaram foi a ourivesaria. Trabalhando o ouro que os navios mercantes traziam da África, suas jóias, até onde é possível garantir isso, ganharam fama em todos os países onde foram conhecidas. Sua arte de gravar em pedra chegou a incluir motivos abstratos de desenhos, como espirais e círculos concêntricos, embora sempre predominassem as figuras de animais, reais ou imaginários, os touros em particular, que desde a lenda original estiveram sempre presentes nos cultos e nas tradições cretenses. A cerimônia que marcava a passagem dos adolescentes masculinos para a condição de adultos, por exemplo, era um perigoso encontro com um desses animais em praça pública, em que os jovens deviam dar demonstração de força, coragem e destreza. Com alguma boa vontade, pode-se até situá-la como ancestral das touradas que ainda hoje encantam várias nações européias. Assim, estudar a civilização minóica que floresceu em Creta há 4 mil anos é navegar entre a história e a lenda. O próprio Arthur Evans, ao iniciar suas escavações, bateu sua picareta num dos mitos mais famosos da Antigüidade. Ao escavar onde se presumia estivesse o palácio de Cnossos, ele descobriu as ruínas do labirinto onde, diz a lenda, vivia o Minotauro. Esse monstro nasceu do romance entre a mulher de Minos, Pasifae e um belo touro que o rei deveria sacrificar ao deus Poseidon, mas preferiu guardar em suas estrebarias. É claro que a paixão de Pasifae pelo touro foi provocada pelo vingativo deus dos oceanos.
Para aproximar-se de seu amado, Pasifae foi ajudada pelo arquiteto Dédalo, que preparou para ela um disfarce de vaca tão perfeito que enganou e seduziu o touro. Nascido o Minotauro, metade touro, metade homem, Minos ordenou ao mesmo Dédalo a construção de um complicado conjunto de salas, quartos e corredores, de onde ele jamais pudesse sair. E lá viveu o pobre monstro, durante muito tempo, recebendo de Minos sete moças e sete rapazes, anualmente, que o rei recebia como tributo dos povos vencidos na guerra. Minos deu-se mal quando cobrou esse tributo de Atenas: entre os condenados estava o herói Teseu, que não apenas destruiu o Minotauro, mas conseguiu escapar do labirinto, graças ao novelo de linha que lhe fora dado pela filha do monarca, Ariadne. Aparentemente, essa espetacular vitória de Teseu é outro momento em que a lenda se encontra com a realidade. Ela deve corresponder ao momento em que outros povos, vindos do continente asiático, empreenderam a conquista de Creta que a já decadente civilização minóica não conseguia sustentar. Há vagas suspeitas de que fenômenos naturais, como terremotos, podem ter ajudado na sua destruição, mas nada é certo. Das escavações e pesquisas realizadas a partir dos trabalhos de Evans ficou a certeza de que os minóicos foram os primeiros europeus civilizados.

Do lado do Sol poente

As origens do nome Europa são obscuras, como obscuros são os motivos pelos quais passou a designar o continente. A hipótese mais razoável leva sua origem a registros de monumentos assírios, onde se contrastava asu - a terra do Sol nascente - e ereb, a terra do Sol poente, da escuridão. Assim, Ásia ficou sendo o nome do continente a leste, Europa o do continente a oeste. Como nome do continente, aparece pela primeira vez no hino homérico ao deus Apolo, do século IX a.C., designando a Grécia continental em oposição ao Peloponeso e às ilhas do mar Egeu. O nome da princesa raptada por Zeus, portanto, teria ligação com o fato de ter ela sido levada para Creta, do lado do sol poente. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Onde tudo começou - George Wells

ONDE TUDO COMEÇOU - George Wells



Com a estréia nos cinemas de Guerra dos Mundos, do diretor Steven Spielberg, a mais importante obra de ficção científica dos nossos tempos volta a ser comentada em todo o planeta. Lançado em 1898, o romance homônimo do inglês Herbert George Wells tem versões em dez línguas, foi adaptado para o cinema três vezes, rendeu uma polêmica esquete de rádio de Orson Welles (veja na página 72) e ganhou diversas releituras em quadrinhos. Por que um livro exerce tanto fascínio mais de um século depois de publicado? Porque H. G. Wells foi o primeiro escritor a usar a ficção científica para criticar a sociedade de sua época. Quem decifrou a metáfora entendeu que tinha em mãos muito mais do que uma aventura de alienígenas e naves espaciais. A Guerra dos Mundos tornou-se um arrepiante relato da nossa fragilidade no Universo. Se hoje existe a ufologia, a largada foi dada por Wells.

Naquele final de século 19, a Inglaterra era a grande potência mundial. A rainha Victória enviava seus exércitos para a África e garantia a expansão do Império Britânico. Os marcianos que invadem a Terra, passando por cima de homens e mulheres, são os próprios ingleses tomando posse das terras dos africanos. Os humanos não compreendem tamanha brutalidade dos ETs. Eis o que diz Wells, já no primeiro capítulo de seu livro: "Antes de julgá-los com demasiada severidade, devemos nos lembrar das destruições totais e implacáveis que nossa própria espécie empreendeu, não apenas contra os animais, como os extintos bisões e dodôs, mas contra as raças humanas inferiores. Os tasmanianos, apesar de sua configuração humana, foram totalmente varridos da existência, num período de 50 anos, numa guerra de extermínio empreendida pelos imigrantes europeus. Somos por acaso tamanhos apóstolos da misericórdia para podermos nos queixar de que os marcianos tenham feito a guerra no mesmo espírito?". Uma senhora patada no orgulho britânico.
A Guerra dos Mundos estreou como folhetim, publicado em nove partes entre abril e dezembro de 1897 na revista inglesa Pearson’s Magazine. Em maio do mesmo ano, a revista americana Cosmopolitan lançou o texto nos Estados Unidos. A história foi um sucesso de público e ganhou versão em livro em fevereiro do ano seguinte. O impacto foi tremendo. Numa época em que aviões, raio laser e viagens espaciais eram só promessas de cientistas sonhadores, os leitores ficaram arrepiados com a possibilidade de seres de outros mundos estarem mesmo de olho na Terra. A humanidade preparava-se para a virada do século, período em que costumam aparecer profetas do apocalipse. Embora não fosse essa a intenção de Wells, a destruição de A Guerra dos Mundos foi interpretada pelas pessoas mais assustadas como um relato perfeito do juízo final.
Os jornais dos Estados Unidos ficaram doidos com a história. Em janeiro de 1898, o New York Evening Journal publicou uma pretensa continuação da aventura de Wells, chamada Edison’s Conquest of Mars (A Conquista de Marte de Edison), escrita por Garrett P. Serviss. Nesse plágio escancarado de A Guerra dos Mundos, Thomas Edison - o mesmo que inventou a lâmpada elétrica - embarca numa nave espacial para se vingar dos marcianos que invadiram a Terra e foram mortos por nossas bactérias. Os terráqueos não falham e exterminam a raça alienígena do planeta vermelho.

TRAÇOS BRASILEIROS
A primeira edição de A Guerra dos Mundos foi ilustrada pelo inglês Warwick Goble, mas os desenhos preferidos de Wells foram de autoria de um brasileiro que morava na Bélgica, o carioca Henrique Alvim Corrêa. O artista viajou para Londres, em 1903, para apresentar rascunhos que fizera após ler a versão francesa do livro. Wells gostou tanto do trabalho que convidou Corrêa para ilustrar a edição de luxo lançada em 1906 pela editora belga L. Vandamme. São 31 gravuras que pertencem ao antiquário fluminense Sebo Fino e estão expostas temporariamente no Museu e Hall da Fama da Ficção Científica, nos Estados Unidos.
O cinema não ficaria indiferente à história de Wells. O primeiro filme, dirigido por Byron Haskin, é considerado uma das melhores películas de ficção científica. Nessa versão de 1953, a produção ignorou boa parte das lições morais de Wells e transformou a história numa aventura tecnológica. O brilhante e charmoso doutor Clayton Forrester (vivido pelo ator Gene Barry) engata um discreto romance com a lindona Sylvia Van Buren (Ann Robinson). Fora a chegada dos marcianos e a vitória das bactérias, pouca coisa sobrou do texto original.
A versão de Steven Spielberg para A Guerra dos Mundos, lançada no final de junho, tem pelo menos um ponto em comum com o livro: trata-se da invasão da Terra sob o ponto de vista dos refugiados, particularmente do personagem de Tom Cruise. Com as novas invenções e as descobertas da ciência, o mundo mudou radicalmente nos últimos cem anos e o que assustava em 1898 não cola mais no século 21. Por isso, os alienígenas não são do inabitado planeta Marte, o poder de destruição extraterrestre cresceu e há muito mais gente correndo de um lado para o outro nas ruas. O cenário é contemporâneo.
O charme da história de Wells, pelo menos, está garantido em uma produção paralela do diretor Timothy Hines. A versão de Hines, a ser lançada também neste ano, é uma reprodução fiel do livro: a ação ocorre na Inglaterra vitoriana, os vilões vêm de Marte e eles acabam sendo aniquilados pelas bactérias terrestres.
Com tanta adrenalina que vem por aí, vai ser difícil ficar indiferente à Guerra dos Mundos em 2005. Leia o livro e assista aos filmes. É uma boa oportunidade para tentar entender como surgiu essa curiosidade humana pelo extraterreno. Se alguém merece culpa por enriquecer o imaginário popular, esta pessoa é H. G. Wells.

"Antes de julgá-los com demasiada severidade, devemos nos lembrar das destruições totais e implacáveis que nossa própria espécie empreendeu, não apenas contra os animais, como os extintos bisões e dodôs, mas contra as raças humanas inferiores"
trecho de a guerra dos mundos, de H. G. Wells

Ficção e realidade

Marte é um planeta árido, cheio de crateras e nunca esteve a menos de 56 milhões de quilômetros da Terra. Como é que um lugar sem graça desses inspirou tantas histórias de ficção científica? A explicação talvez remonte a 1877, quando o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli observou uma rede de canais na superfície marciana, que foi interpretada por alguns cientistas como estruturas artificiais de irrigação. Com teorias desse tipo, que outro lugar poderia alimentar tanto a imaginação dos escritores? H. G. Wells não ficou indiferente e também brincou com os marcianos. Em 1897, quando publicou A Guerra dos Mundos na forma de folhetim, o planeta fervia com as recentes invenções do homem: o telefone (1876), a lâmpada elétrica (1879), o automóvel (1885), o rádio (1896). Wells era um sujeito antenado. Tudo o que os marcianos do seu livro possuíam na fictícia invasão da Terra seria inventado pelo homem nos anos seguintes: o segredo de voar (avião, em 1906), o raio de calor (raio laser, em 1960) e a máquina de manipular (robôs, em 1961). Mas Wells temia o uso destrutivo das novas invenções e viveu o suficiente para descobrir que tinha razão. Em 1915, a Alemanha usou armas químicas contra os franceses na Primeira Guerra Mundial. Em 1945, os Estados Unidos jogaram duas bombas atômicas sobre o Japão, no lance final da Segunda Guerra. A primeira frase do capítulo 6 do livro de Wells soa profética: "Ainda é motivo de espanto o modo como os marcianos são capazes de matar gente tão rápida e silenciosamente". Quando morreu, em 1946, Wells já tinha perdido a confiança no ser humano.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

História - Por que morrem as civilizações???

HISTÓRIA - POR QUE MORREM AS CIVILIZAÇÕES?



Era um domingo de Páscoa, em 1722, quando o explorador holandês Jacob Roggeveen avistou de seu galeão um pedaço de terra perdido na vastidão do sul do oceano Pacífico. De longe, o lugar não era nada atrativo. Ao contrário da maioria das outras ilhas daquela parte do mundo, o terreno não tinha grandes árvores e a grama era tão seca que, a distância, parecia areia. Recebido por uma comitiva de nativos em canoas frágeis e cheias de remendos, Roggeveen resolveu desembarcar e surpreendeu-se com as gigantescas figuras de pedra, esculpidas na forma de rostos humanos, espalhadas ao longo do litoral. "Ficamos muito espantados, pois não compreendíamos como essas pessoas, que não dispunham de cordas fortes ou madeira adequada para construir máquinas, conseguiram erguer aquelas imagens com mais de 10 metros de altura", escreveu em seu diário de bordo.

No interior da ilha, dentro da cratera de um vulcão extinto onde as estátuas costumavam ser esculpidas, o ambiente era fantasmagórico. As ferramentas utilizadas pelos escultores espalhadas pelo chão, estátuas inacabadas e outras deixadas para trás nas estradas que levavam ao litoral davam a impressão de que o lugar havia sido abandonado.

Quase 300 anos depois, o mesmo mistério que intrigava o capitão holandês ainda paira no pensamento de quem desembarca no aeroporto de Mataveri e depara com os enormes moais, as colossais estátuas de pedra que resistem há séculos na ilha de Páscoa. Entre esses visitantes está o biólogo americano Jared Diamond. Professor da faculdade de medicina da Universidade da Califórnia, Diamond é autor do livro Collapse ("Colapso", previsto para sair em agosto no Brasil), que investiga os motivos pelos quais as sociedades desaparecem. A trágica história dos construtores de moais se repetiu em diferentes épocas com civilizações pequenas ou grandes, poderosas ou minúsculas. E o que Diamond percebeu é que elas desapareceram por motivos semelhantes - na verdade, com apenas 5 fatores é possível explicar o desaparecimento de todas as civilizações da história. Até a civilização em que vivemos hoje - cheia de maravilhas tecnológicas e com dezenas de países interligados - poderia sofrer esse mesmo fim. Conheça esses perigos - e a história das sociedades que se expuseram a eles.



Destruindo o ambiente

A chave para entender o misterioso desaparecimento dos construtores de moais está em uma ilha muito diferente da terra infértil e desmatada que Roggeveen encontrou. Analisando o pólen conservado por milhares de anos no fundo de pântanos na ilha de Páscoa, cientistas descobriram que, quando os primeiros polinésios chegaram lá, provavelmente há cerca de 1 400 anos, encontraram um pequeno paraíso. Eram 166 quilômetros quadrados cobertos por uma densa floresta subtropical que crescia sobre o solo fértil de origem vulcânica do qual a ilha é formada. Entre a vasta vegetação nativa, a planta mais comum era uma espécie de palmeira alta e robusta que só existia ali. Além de ter uma madeira forte o bastante para a construção de embarcações e para ajudar a transportar os moais, a palmeira fornecia nozes para a alimentação dos moradores.

A riqueza da fauna também se refletia nas panelas da ilha. Carne de golfinho, de focas e de 25 tipos de pássaros selvagens compunham o banquete - tudo cozinhado no fogo da lenha retirada da floresta. Também, haja comida. Pelos cálculos da arqueóloga Jo Anne Van Tilburg, da Universidade da Califórnia, cerca de 25% dos alimentos produzidos na ilha eram consumidos na intensa produção e transporte de estátuas. Estima-se que eram necessárias até 500 pessoas, utilizando cordas e uma espécie de trenó feito de grandes toras de palmeiras, para arrastar os moais por 14 quilômetros até o litoral.

A partir do ano 1200, a produção de estátuas entrou num ritmo mais acelerado, que durou por cerca de 300 anos. Era preciso cada vez mais madeira, cordas e alimentos para sustentar a crescente disputa entre os clãs que dominavam a ilha, que competiam para ver quem erguia as maiores estátuas. A competição, no entanto, acabou sem vencedores. Pouco depois de 1400, a floresta já não existia e a última palmeira foi cortada, extinta juntamente com outras 21 espécies de plantas nativas. Com a floresta, foram-se as fibras que eram transformadas em cordas, utilizadas em conjunto com as toras no transporte dos moais. Sem troncos fortes para construir canoas resistentes, capazes de ir até alto-mar, a pesca diminuiu muito e a carne de golfinho virou raridade nas refeições. As colheitas também foram prejudicadas pelo desmatamento, já que não havia mais vegetação para proteger o solo da erosão causada pelos ventos e pela chuva. Com seu habitat devastado, todas as espécies de pássaros que voavam pela ilha foram finalmente extintas.

Sem ter o que comer, o número de habitantes foi reduzido a um décimo dos 20 mil que chegaram a viver na ilha no auge do culto aos moais. Os moradores, famintos, finalmente cederam ao canibalismo. Em vez de ossos de pássaros ou golfinhos, arqueólogos passaram a encontrar ossos humanos em escavações de moradias datadas desse período. Muitos deles foram quebrados para se extrair o tutano. Até hoje, um dos maiores insultos que se pode dizer a um inimigo na ilha da Páscoa é algo como "tenho a carne da sua mãe presa entre meus dentes". Não sobrou madeira nem pra palito.

O nome do crime cometido pelos nativos da ilha de Páscoa é ecocídio. Explore demais os recursos naturais de uma área e ela estará sujeita a um desequilíbrio que pode levar ecossistemas inteiros ao desaparecimento. Como todo ser humano depende desses recursos, um ecocídio acaba levando ao fim de civilizações inteiras. Às vezes, nem é preciso muito esforço: a própria natureza cuida de mudar todo o ambiente.

Que o digam os vikings. No ano 982, eles estabeleceram uma de suas comunidades em um fiorde na Groenlândia. O clima ali não era tão extremo e o lugar tinha pastos onde criavam ovelhas, cabras e gado. Além disso, os vikings completavam a alimentação caçando focas e caribus e trocando mercadorias com o continente. Só que, por volta do ano 1400, o tempo fechou. Foi a chegada da "pequena era glacial", uma mudança climática que esfriou o planeta por quase 500 anos. Os verões ficaram mais curtos, o que dificultou a criação de gado. As focas e os caribus fugiram para outras regiões. Enormes blocos de gelo atrapalharam a navegação e impediram o comércio com o continente. A única comida que sobrou foram os peixes, que os vikings não comiam por motivos religiosos. Já os esquimós, que habitavam a vizinhança, não tinham nenhum problema quanto aos frutos do mar e conseguiram se manter, para a infelicidade dos conquistadores nórdicos. É que as relações entre as duas tribos nunca foram das mais amigáveis, o que pode ser visto em um relato viking do século 15 sobre os vizinhos: "quando eles recebem uma punhalada superficial, ficam com uma ferida branca, que não sangra. Mas quando são feridos mortalmente, sangram sem parar". Com a chegada do frio, os poucos nórdicos que restaram foram exterminados pelos esquimós.



Disputas entre homens

Não se pode culpar só a natureza pelo fim das civilizações. Como qualquer economista diria, crises comerciais podem ser tão destruidoras quanto a pior das catástrofes ambientais. Foi o que aconteceu, por exemplo, em outras duas ilhas do Pacífico Sul. Pitcairn possuía ótimas fontes de minério para a produção de ferramentas e Henderson, a 150 km dali, concentrava o maior número de pássaros da região. As 2 dependiam de uma terceira ilha, Mangareva, para conseguir árvores próprias para fazer canoas e ostras que eram transformadas em anzóis para pescaria. A partir de 1400, surgiu então uma intensa rota de comércio entre as 3 ilhas. Enquanto isso, a população de Mangareva aumentava à medida que a ilha prosperava. O problema é que o número de habitantes cresceu tanto que os recursos - antes abundantes - começaram a ficar escassos. As florestas foram derrubadas e o solo não resistiu e acabou erodindo. Os alimentos já não eram mais suficientes nem para os moradores de Mangareva, quanto mais para as exportações das quais dependiam os vizinhos de Pitcairn e Henderson. Mangareva entrou em guerra civil e as matérias-primas pararam de chegar às outras 2 ilhas, que se viram isoladas. Definharam até que o último habitante deixou cada uma delas ou morreu.

Você já deve ter percebido a esta hora que aquela história de que uma tragédia nunca vem sozinha faz sentido. Não contentes em sofrer com problemas naturais e comerciais, muitas sociedades acabam entrando em guerra pelos poucos recursos que sobram. E esse fator só acelera o colapso da civilização. Os maias, instalados na península de Yucatán, no México, eram uma das civilizações mais avançadas da América pré-colombiana. Tinham calendário e escrita próprios, desenvolveram conhecimentos relativamente sofisticados em arquitetura e astronomia, mas, mesmo assim, falharam em resolver os problemas que levaram sua civilização à ruína. Com uma população que ultrapassava os 5 milhões, plantações tomaram o lugar de florestas inteiras na tentativa de alimentar todo mundo. Mas a devastação resultou em erosão, empobrecimento do solo e aumento das secas. Mais gente e menos comida, no fim das contas. As constantes guerras se intensificaram e acabaram se tornando batalhas por terras e alimentos. Os reis maias preferiram se isolar a tentar resolver os problemas que dizimavam seus súditos. "Eles apenas foram os últimos a morrer de fome", afirma Diamond.



Vamos sobreviver?

O estopim para que uma sociedade vire poeira está, para Diamond, na combinação destes 4 fatores: destruição do meio ambiente, alterações climáticas, crises nas relações comerciais e guerras. Só que é preciso um quinto fator - o mais importante de todos - para liquidar de vez um povo: a estupidez. Qualquer problema minúsculo pode acabar com um povo se ele for incapaz de se adaptar. Por outro lado, alguns povos atravessaram catástrofes terríveis e continuaram vivos por muitos séculos.

A grande preocupação de Diamond é que, hoje, as grandes potências estão incorrendo nesses erros - e, para piorar, não dão sinais de que vão se adaptar ou corrigir a situação tão cedo. Olhando em retrospectiva, fica claro que as sociedades antigas cometeram erros óbvios. Destruir a floresta da qual depende sua sobrevivência, como fizeram os polinésios da ilha de Páscoa, além de burrice, significa cometer suicídio. "Hoje temos mais de 6 bilhões de pessoas, equipadas com máquinas pesadas e energia nuclear, enquanto os nativos da ilha de Páscoa não passavam dos 20 mil habitantes com ferramentas de pedra e a força dos próprios músculos. Mesmo assim, eles conseguiram devastar o ambiente e levar sua sociedade ao colapso", diz Diamond.
Segundo o biólogo, nossa maior vantagem é a possibilidade de aprender com os erros de nossos antepassados. "É uma questão de transformar conhecimento em ações concretas. Apesar de sabermos das conseqüências, não agimos o bastante", diz Eric Neumayer, especialista em desenvolvimento sustentável da Escola de Economia de Londres, Reino Unido. Ele cita como exemplo o Protocolo de Kyoto, acordo internacional em que 141 nações se comprometem a reduzir a emissão de poluentes que contribuem para o aquecimento global. Mesmo sabendo das possíveis conseqüências de uma mudança climática, os EUA - os maiores responsáveis pela emissão de dióxido de carbono na atmosfera - preferiram não participar do tratado. "Não adianta se isolar. As partes ricas do mundo precisam descobrir como viver sem arruinar a atmosfera para o resto do planeta", diz John Mutter, vice-diretor do Instituto Terra, da Universidade de Columbia, em Nova York. "Os países africanos, por exemplo, vão ficar mais pobres. Haverá mais conflitos e mais mortes. Se não fizermos nada, a situação não vai se estabilizar. Apenas vai ficar pior, pior e pior", diz. Mas, na opinião dos cientistas, não há motivos para perder a esperança. "Nossas sociedades precisam produzir e consumir causando muito menos impacto ambiental do que hoje. Chegar lá não é fácil, mas é possível", afirma Neumayer. Difícil mesmo é saber o que estava pensando o lenhador quando cortou a última palmeira da ilha de Páscoa. O que quer que fosse, tomara que não precisemos passar pela mesma experiência.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Política do faz-de-conta

POLÍTICA DO FAZ-DE-CONTA



Com o microfone na mão, Ulysses Guimarães levava a multidão no gogó. Era 1984 e São Paulo organizava a maior mobilização política do país. Para a história, o 1,5 milhão de pessoas gritando "diretas já" foi um marco. Mas a verdade é que, para quem naquele dia estava longe do palanque, Ulysses não passava de uma mancha careca no horizonte. Ouvir seu discurso com clareza era um exercício de otimismo cívico.

Vinte anos e três eleições diretas para presidente depois, comícios perderam a utilidade para a engrenagem política. Na campanha presidencial de 2002, não foi preciso um único grito. A televisão já chegava a mais de 98% dos municípios do país e por ela era possível falar ao mesmo tempo com quase todos os brasileiros. Sem ruídos, palavra por palavra. Além, é claro, de exibir a barba aparada de Lula ou o sorriso treinado de José Serra. "Numa democracia de massas, como é o Brasil, a campanha tem de ser feita na televisão. É o meio que permite ao candidato falar com mais pessoas", diz o cientista político Rogério Schmitt, da Escola de Sociologia Política de São Paulo.

Candidato à presidência dos Estados Unidos em 1939, Franklin Roosevelt revolucionou a história da corrida eleitoral ao fazer o primeiro discurso televisionado de que se tem notícia. Na época, era apenas uma transmissão que acoplava imagem à voz do candidato. Hoje, além da audiência, a televisão também permite construir a imagem do candidato. Ou melhor, construir qualquer imagem para o candidato. Porque os tempos de Ulysses e Roosevelt, em que campanha era feita à base de discursos inflamados e muita criancinha beijada, acabaram. Atualmente, bons publicitários combinam a força televisiva com pesquisas de opinião capazes de traçar um mapa psicológico dos desejos do eleitorado. Com essas informações em mãos, podem embalar propostas na forma do presente que queremos ganhar. "O eleitor sempre vota numa imagem. É impossível conhecer o candidato como pessoa", escreve o cientista político Francisco Ferraz no seu Manual Completo de Campanha Eleitoral. Nas próximas páginas você verá as artimanhas utilizadas na construção dessa imagem.

O que fazer
No mundo da propaganda política, nada é por acaso. Um vaso de flores despretensioso sobre a mesa, a manga da camisa arregaçada, uma reunião de trabalho com assessores sob o comando do candidato. Tudo ali tem função. As pesquisas qualitativas indicam que o público acha o candidato briguento e arrogante? O belo arranjo de flores ajuda a suavizar essa imagem. Titubeante e com pouca experiência administrativa? Basta aparecer distribuindo ordens na ponta de uma mesa comprida. Lento e elitista? A solução ideal é usar menos terno.

Desde 1960, quando a equipe de John Kennedy inaugurou a "campanha profissional", esses truques são repetidos à exaustão, com mais ou menos criatividade dos marqueteiros. Exemplos não faltam. Identificado pelo eleitorado como um homem frio, George Bush "pai" ganhou a presidência dos Estados Unidos, em 1988, com comerciais que intercalavam suas imagens ao lado dos maiores líderes políticos e cenas dele brincando com os netinhos (em campanha, Bush também já conversou com um frango, mas esse episódio não tem explicação lógica conhecida). O "aristocrata" Fernando Henrique Cardoso degustou uma humilde buchada de bode na corrida presidencial. Um senador americano apareceu estacionando seu carro com "15 anos de uso" entre os Mercedes do Congresso para mostrar que não era pão-duro, mas entendia que "um centavo economizado é um centavo ganho". E, para consolidar a imagem de empreendedor, Paulo Maluf adotou o bordão "Foi Maluf que fez", criado pelo publicitário Duda Mendonça - que mais tarde reaproveitaria a idéia nas campanhas do argentino Carlos Menem, do pernambucano Miguel Arraes e de Marta Suplicy, concorrente de Maluf.

Se você acredita que está imune a esse jogo, cuidado. Campanhas maciças de mídia, como são as eleições, atingem todos nós. Ainda assim, nos Estados Unidos apenas 23% dos eleitores admitem ser influenciados pelo marketing político. É o que eles pensam. "A propaganda eleitoral tende a ter maior ascendência exatamente sobre aquelas pessoas que dizem não sofrer influência", afirma Kathleen Hall Jamieson, diretora da escola de comunicação da Universidade da Pensilvânia e autora de Packaging the Presidency ("Empacotando a Presidência", sem tradução para o português). No Brasil, pesquisas mostram que somos bem mais receptivos ao horário eleitoral, que é o segundo maior fator de persuasão na escolha do voto, atrás do bate-papo com amigos e familiares.

Como fazer
Quem inaugurou esse tipo de campanha no Brasil foi Fernando Collor, em 1989. Pesquisas mostravam que o eleitorado queria um candidato de oposição, não identificado com a política tradicional e que propusesse transformar o país. Collor resolveu atender a demanda. "Hoje todos fazem isso. Mas o Collor foi o primeiro a ler pesquisas e trabalhar a imagem com eficiência", diz Rogério Schmitt. Enquanto vendia a juventude como virtude, seu rival Ulysses Guimarães veiculava um jingle em que se apresentava como "o velhinho". O final desse filme você já conhece.

Para os políticos, também é importante entender que quem está na televisão deve fazer como os televisivos. A boa propaganda eleitoral deve misturar Jornal Nacional e novela das 8. Um apresentador mostra "reportagens", o candidato aparece com soluções e por fim é exibido um clipe (supostamente) contagiante e imagens (teoricamente) belas. Tudo muito otimista e para cima. Críticas, só de vez em quando. "Brasileiro não gosta de candidato que briga com adversário. Quem bate perde", diz Chico Abréia, diretor de criação da Duda Mendonça Marketing Político, agência que comanda campanhas do PT em cidades como São Paulo e Belo Horizonte.

A trama manjada é endossada por um roteiro maniqueísta. Todo candidato precisa convencer o eleitor de que: 1) é a pessoa perfeita para o cargo e 2) o mal se aproxima na forma de problemas que, adivinhem só, correspondem a todos os defeitos identificados com o outro concorrente. "Se o seu adversário não é a corporificação do mal, ele é a encarnação do erro", ensina o Manual de Campanha Eleitoral.
Sinal dos tempos. Quando Abraham Lincoln foi eleito presidente americano, em 1860, fazer campanha era antiético. Cada concorrente discursava uma única vez, ao anunciar a candidatura. Apresentava propostas de governo e saía de cena para o povo refletir sobre o melhor caminho. Quanta diferença.