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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Cabeleira - Parte 2 de 4 - Franklin Távora


O Cabeleira - Parte 2 de 4 - Franklin Távora


    O poço ficava à beira de um capão de mato. De um lado o terreno elevava-se gradualmente, e 
acidentava-se mais adiante, formando ziguezagues quase inacessíveis e esconderijos escuros, a 
que a espessura das árvores dava um aspecto medonho. Do lado oposto a margem plana, igual e 
descampada, formava com a banda fronteira um admirável contraste.


    Quando Luisinha, da areia do rio onde se sentara a descansar, se dispunha a levantar-se para 
tornar à casa, deu com os olhos em um homem que da borda do mato a observava em silêncio 
com tal interesse que parecia querer atraí-la a si com a vista.

    Sem demora correu ela ao pote, mas já foi tarde. Formando um pulo do outro lado do rio 
onde estava, o desconhecido veio cair no mesmo instante entre ela e a vasilha, sem perder, no 
rápido vôo, uma só das armas com que se achava apercebido.

    - Em vão, meu bem, pretendes fugir-me. Antes que o diabo esfregasse um olho, eis-me aqui 
ao pé de ti, disposto a não te deixar ir embora senão por minha livre vontade.

    O sítio era inteiramente deserto, e as trevas da noite não tardavam a envolver de todo a 
natureza.

    Luisinha, lançando os olhos pela margem afora, não viu viva alma. Teve então tamanho 
medo, que involuntariamente caiu sentada aos pés do terrível desconhecido. Lembrou-se de gritar 
por socorro, mas logo viu que seria inútil esta tentativa, visto que as suas vozes se perderiam no 
vasto ermo onde unicamente ecoava o coaxar dos sapos e das rãs, o silvo das cobras, o canto 
agoureiro dos bacuraus.



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    - Meu Deus ! - exclamou ela. - Não haverá um cristão que me valha nesta aflição ?

    - Ninguém, ninguém te valerá, bonita rapariga - respondeu o desconhecido, levantando-a 
por um braço e como querendo arrastá-la na direção da língua de terreno por onde se podia ir, a 
pé enxuto, à margem fronteira.

    - Mas, meu senhor - tornou Luisinha achando em si mesma coragem de que nunca se 
julgara capaz - , por tudo quanto é sagrado lhe peço que me deixe ir embora. É quase de noite, 
e, se me demorar mais tempo aqui, arrisco-me a encontrar algum malfeitor que me ofenda no 
caminho.

- Queres maior malfeitor do que eu ?

    - Vosmecê não é um malfeitor. Vosmecê veio caçar por estas bandas, e, como me encontrou 
neste ermo, está-me metendo medo para divertir-se à minha custa. E creio até que havia de 
defender-me se alguém quisesse fazer-me mal.

    - Certamente. Nenhum gavião seria capaz de tirar-me das unhas a minha formosa juruti. 
Ora, vem comigo; não tenhas medo. Atravessamos por este limpo, ganhamos a capoeira, subimos 
pela aba da serra e...

    - Deus me livre ! - exclamou Luisinha assaltada por novos terrores.

    - Olhe: se você não quiser vir por bem, vem por mal - disse o desconhecido.

    - Por mal ? E onde está Deus ? - interrogou Luisinha, elevando todo o seu espírito aos pés 
daquele que está em toda parte para acudir aos atribulados que o invocam com sincera confiança. 
-Nem por mal nem por bem. Eu não vou com vosmecê ainda que me custe a própria vida. Eu sei 
que Deus me está ouvindo de dentro deste mato, de cima deste céu. Ele há de lembrar-se de 
mim.

    Diante da firmeza na realidade admirável, com que a frágil moça respondeu à sua ameaça, o 
malfeitor sobresteve involuntariamente. Tornando logo em si, porém, continuou com certo 
disfarce de mau anúncio:

    - Ora, menina, deixe-se de asneiras e vamos para diante enquanto o caso não fica mais sério. 
Se você é bonita, eu também não sou feio; assim, podemos ter filhos galantes como os têm os 
passarinhos no seio da solidão.

    - Meu Deus, meu Deus, compadecei-vos de mim enquanto é tempo ! - exclamou ela quase 
vencida de terror.

    Então, à luz crepuscular que enchia a planície como uma neblina, lobrigou Luisinha um vulto 
que se dirigia para o lugar onde ela se achava com o malfeitor. Não foi preciso mais para que 
recrudescesse o seu valor que a ia desamparando.

    - Cuidas que não vejo quem ali vem ? - perguntou o desconhecido, apontando o volto 
que, como vinha pelo rasto da moça, com pouco mais estaria com eles. - Eu podia agora mesmo 
meter-me contigo pelo mato adentro. Se tentasses gritar, tapava-te a boca, e ninguém saberia o 
teu fim. Mas quero ficar, para em vez de uma, levar em minha companhia duas mulheres para o 


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mato, onde há grande necessidade desta fazenda.

    - Estou aqui, minha mãe, estou aqui - gritou Luísa quase ébria de prazer pela sua salvação, 
que teve por indubitável desde que na mulher recém-aparecida reconheceu Florinda.

    O malfeitor, porém, seguro de seu poder, nem se moveu, nem se alterou sequer; e para dar 
testemunho irrecusável de que não fazia caso do inesperado adjutório, chasqueou de Florinda, 
por se apresentar armada com um cacete e um facão.

    Querendo Luisinha correr ao encontro da viúva que, tendo ouvido as palavras da rapariga, 
fora em seu socorro com gestos e meneios de louca, o desconhecido, cujos olhos cobriram de 
repente com uma expressão indescritível a pobre vítima, não lhe consentiu arredar o pé de junto 
de si.

    - Não irás - disse rudemente, assentando a mão sobre o braço da moça com tanta força e 
violência, que a ela se afigurou que ele lhe tinha dado um golpe com o coice da arma.

    Florinda passava por ser a mulher mais forte de toda aquela ribeira.

    Ela derrubava grossas árvores a machado, abria roçados por empreitada, cortava na mata 
virgem lenha que vendia na povoação, e até tarrafeava nas lagoas como um hábil pescador. Não 
se distinguia só nos serviços do campo, mas também em fazer excelentes tapiocas e ótimo 
arroz-doce, que eram as delícias dos matutos e sertanejos nas feiras.

    Era curiboca, reforçada, não feia e de boa estatura. Acreditava na existência do diabo, no 
inferno e nas penas eternas como ainda hoje acredita a gente do campo e uma grande parte dos 
habitantes das cidades; mas em compensação tinha uma fé viva e fervorosa em Deus, e era de 
costumes irrepreensíveis, fé e costumes que desgraçadamente faltam a muitos dos que têm hoje 
aquela primeira crença.

    Tendo ficado viúva, sem filhos, na flor dos anos, não se quis casar segunda vez, e nunca 
ninguém achou motivo de por em dúvida a sua honestidade. A Luisinha, a quem pouco depois de 
ter casado, tomou sob sua proteção, como já referimos, consagrava ela todos os seus afetos, e nela 
fazia consistir o seu orgulho, o seu prazer e a sua felicidade.

    Não sendo de meias medidas quando se julgava ofendida, Florinda botou-se com todo o 
ímpeto, que trazia, ao desconhecido, o qual, sem soltar Luisinha, que se torcia ao aperto da mão 
de ferro que a segurava, rebateu o golpe do facão de Florinda com o cano do bacamarte. Com o 
choque o facão partiu-se, e a folha inteira foi cair dentro do poço, ficando na mão da curiboca o 
cabo imprestável da infame arma.

    Florinda era prudente. Tanto que se viu desarmada, sobresteve, dominou a sua justa 
indignação, e, com voz masculina que lhe dera a natureza, assim falou ao malfeitor:

- Que quer vosmecê fazer com minha filha ?
    
    - Quero levá-la comigo para meu divertimento. Se tens força para impedires o meu intento, 
é agora a ocasião.

    Ouvindo estas acerbas expressões, Florinda, que com a vista medira de cima a baixo o seu 


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adversário, meteu-lhe o cacete com todo o animo que lhe dava sua vida sem mancha, e a justa 
defesa da filha, seu único tesouro, de todos acatado e querido. No mesmo instante o ar sibilou, e 
ouviu-se o som de uma pancada contra um corpo sonoro. Um grito, antes urro medonho, ecoou 
pela vasta solidão, e uma massa, que se parecia, na forma e no peso, com um tronco de angico 
anoso, tombou sobre a areia. O desconhecido acabava de obrar uma ação vil. Com a coronha do 
bacamarte tirara os sentidos àquela digna mulher, que o encarara sem medo.

    Vendo sua mãe cair desfalecida, Luisinha quis correr em seu amparo, mas não lho permitiu a 
mão do malfeitor que a puxou para trás com força hercúlea.

    - Ah ! não conheceste o Cabeleira, cascavel ? - acrescentou ele com os olhos fitos em 
Florinda. - Vêm meter-se na boca da onça, e depois dizem que a onça é cruel.

    Aos ouvidos de Luisinha aquele nome passou como uma chama elétrica, que lhe deu forças 
para volver à vida.

- Cabeleira ! - repetiu ela.

    Só então viu os longos cabelos que caíam em ondas por debaixo das abas do chapéu de palha 
sobre os ombros do assassino.

    - De que te admiras ? Não sabes que o Cabeleira está em toda parte onde não o esperam ? 
Vem comigo.

    E sem mais contemplação, o matador arrastou a menina contra a vontade, a resistência, os 
sobre-humanos esforços que esta lhe opunha, por junto do corpo de Florinda, e seguiu em busca 
da margem fronteira, onde a noite era já fechada, e o aspecto do sítio pavoroso.

    - Agora te conheço, José malvado - disse a moça. - Mata-me também, já me mataste 
minha mãe que nunca te ofendeu.

- Ah, conheceste afinal o Cabeleira ?

- Tanto me conheceste tu, desgraçado!

    - Que queres dizer com estas palavras ? - perguntou o bandido.

- Olha-me bem. Até de Luísa te esqueceste ! Assassino, eu te perdôo a morte: mata-me.

    Tinham chegado à beira do capão de mato. O Cabeleira estacou. O que acabava de ouvir 
tê-lo-ia prostrado mais depressa do que um golpe igual ao que descarregara, havia pouco, sobre 
uma das fontes de Florinda, se no mesmo instante não lhe houvesse chegado aos ouvidos um 
assobio agudo, sinal de extrema aflição no couto próximo.

    - Ah ! era você ? Perdoe-me, Luisinha. Eu não a esqueci. Perdoe-me. Eu não sabia que era 
você - disse então, com brandura, soltando a moça sem mais demora.

    - Só Deus te poderá perdoar, assassino de minha mãe, - respondeu, abafada em lágrimas e 
soluços, aquela que se considerava órfã e desvalida pela segunda vez.



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    - Perdoe-me, Luisinha. Nem eu a posso levar comigo, nem posso demorar-me por mais 
tempo. O meu rancho está em perigo, e os camaradas chamam-me em socorro deles. Mas espere 
por mim um pouco debaixo deste juazeiro, que eu quero que você me ouça. Eu volto já.

E, sem perder mais um momento, desapareceu dos olhos de Luísa como uma vã sombra.

Capítulo VI

Não se pode escrever o abalo que experimentou Cabeleira ao reconhecer Luísa, menina até aquele 
momento em sua imaginação, moça de então por diante aos seus olhos deslumbrados do 
esplendor daquela beleza correta, natural, irritada e crente.

Pela primeira vez depois de tantos anos, o músculo endurecido que ele trazia no peito dobrou
se a uma impressão profunda, a uma força irresistível e fatal, como a cera se dobra ao calor do 
lume.

A medida que se internava na espessura ia caindo em si, e mais difícil de transpor se lhe ia 
tornando a via dolorosa por onde nesse momento arrastava os pôs menos pesados que sua cabeça 
cheia de encontrados pensamentos.

Pouco a pouco o passado se lhe foi desenhando na tela, ao princípio escura, depois diáfana e 
resplandecente da imaginação vivamente excitada pela violenta comoção. Por último todas as 
cenas infantis, tão afastadas, que poderiam considerar
se sen
o de todo desvanecidas, ao menos vagas, confusas e de impossível resurreição, reapareceram aos 
seus olhos com o vigor de outrora senão mais vivas e animadas que dantes.

Luísa, representou
lhe sorrindo e brincando nas campinas, por junto dos açudes, à sombra dos juazeiros. Era a 
mesma menina meiga e amável, com quem ele folgara à beira dos poços e valados, e para quem 
tantas vezes apanhara camarões nas enxurradas.

O bandido lembrou
se de que uma quadra tinha havido em sua vida, na qual ele só cuidava em armar arapucas por 
entre os beirões do roçado para pegar juritis, em abrir fojos debaixo das moitas, ou armar quixós e 
mundéus na capoeira com o fim de apanhar preás para a menina.

A conhecida cena do coelho pendurado da forca de ramos, obra de Joaquim, se lhe estampou 
novamente, por natural associação de idéias, na tela do pensamento, e veio acrescentar
lhe o vexame que lhe oprimia o coração.

Viu depois Luísa encostada na cerca do quintal, ao pé de uma goiabeira, os cabelos soltos, os 
pezinhos descalços.

Esta última visão recordava
lhe a cena da despedida que o leitor conhece. José estava tão vivamente excitado, que lhe pareceu 
ouvir as vozes, as queixas, as rogativas, os prantos de Joana, e as recusas, os remoques, as 
asperezas, o desprezo que para ela tivera Joaquim na manhã fatal, em que o pequeno fora 
arrancado dos braços de sua mãe quase alucinada pela dor da separação. Pareceu
lhe ouvir as palavras de Luísa: "Quero


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lhe muito bem, mas não gosto quando você judia com os passarinhos, e tenho medo de sua faca". 
Pareceu
lhe escutar distintamente o som das suas próprias expressões: "Quando eu chegar de volta, não 
maltratarei mais os animais".

E a menina a quem tanto amara, a quem nunca esquecera, e cuja imagem indecisa e vaporosa os 
olhos do seu pensamento tinham por mais de uma vez surpreendido junto de si testemunhando a 
perpetração de algum crime, essa menina crescera, pusera
se moça, chegara à idade em que todos tem no critério natural um corpo de leis e na consciência 
um juiz para julgar as suas e as alheias ações.

- Que juízo ficaria fazendo de mim Luisinha ? - perguntou de si para si o Cabeleira, 
insensivelmente arrastado por esta ordem de idéias. - Ah ! que pode ela pensar de mim senão 
que sou um assassino ?

Luísa tinha
o, de feito, nomeado por esta palavra, havia poucos instantes, entre as lágrimas que lhe arrancara 
o desespero. Era pois certo, e o bandido bem o compreendia, que o abismo que já na meninice de 
ambos os separava, longe de se ter arrasado, se tornara mais fundo com o correr dos anos. Agora 
ele não judiava só com os animais como em outro tempo; ele saqueava povoações e matava gente; 
e desta verdade era irrecusável prova o que acabara de praticar com Florinda.

Se até aquele momento Luisinha lhe votara afeição ou se condoera de sua pouca sorte, era natural 
supor que estes sentimentos se tivessem modificado, se não de todo extinguido, depois do último 
acontecimento. A afeição deveria ter sucedido o desprezo, à pena o ódio.

Não eram outras as idéias que tumultuavam na cabeça de Cabeleira. Estas idéias produziram no 
seu animo tão profunda impressão que ele sentiu lágrimas nos olhos, ele, o grande assassino que 
sempre se mostrara insensível ao longo pranto que por toda parte fazia correr.

Sem se poder governar, achou
se de repente voltado para o rio. Seus pés, primeiro que sua vontade, o queriam guiar de novo ao 
lugar onde tinha achado os motivos para tamanha transformação. Eis que novo assobio, 
precedido da detonação de alguns tiros, rompeu os ares e veio diverti
lo destas preocupações. O esconderijo, não havia de duvidar, precisava de seu socorro. Então 
uma nuvem de sangue envolveu a vista do infeliz mancebo. O passado caiu
lhe novamente em pedaços aos pés. O espírito de vingança fustigou
o com veemência no coração, teatro de encontradas e profundas paixões. Cabeleira volveu a ser 
outra vez fera, e rápido deslizou
se como uma cobra por entre as árvores e por debaixo da folhagem.

Com a mata que dava asilo aos malfeitores confinavam as terras onde Liberato, irmão de Gabriel, 
tinha uma engenhoca.

A princípio Liberato viveu muito satisfeito em suas terras. Tendo
se, porém, anos depois formado o couto ali junto, foi
se ele desgostando a ponto que só por não ter outro remédio continuou a morar nelas.

As terras eram muito férteis, e a sua situação não podia ser melhor do que era; mas, pela péssima 
vizinhança, estavam, como nenhumas, expostas em todos os sentidos a serem usufruídas, como 


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eram constantemente, pelos malfeitores, o que as havia inteiramente depreciado.

Na realidade quem menos se gozava das suas plantações era Liberato, dono delas. A macaxera 
mais enxuta, a melancia mais madura, o melhor milho verde, o feijão de melhor qualidade eram 
para a boca ou antes, ao dizer popular, para o papo dos pesados vizinhos. A galinha gorda 
anoitecia no poleiro mas não amanhecia no terreiro, não porque a raposa a tivesse pegado, mas 
porque os raposos a tinham tirado para a sua panela, que estava quase sempre fervendo dentro da 
mata virgem.

A vaca leiteira, o quartau
carnudo desaparecia do pasto quando menos pensava o crioulo, que os ia recomprar em segunda 
mão, se, como quase sempre acontecia, os animais furtados eram da sua particular estimação; não 
escapavam da rapacidade dos malfeitores as próprias bestas do serviço da engenhoca. Dentro dos 
canaviais apareciam vastas camarinhas, obra de ladrões; as canas passavam para a mata aos feixes. 
Enfim era uma calamidade aquela gente, era uma desgraça para o Liberato, mais do que para 
nenhum outro, aquela vizinhança.

Liberato propôs a venda das terras a mais de um morador do lugar, mas todos se escusaram a 
comprá
las. De que valiam elas em realidade, com serem tão boas, estando sujeitas, como estavam, àquela 
onímoda servidão ? Não tendo para onde ir, nem outro algum recurso, resignou
se Liberato à sua sorte, e botou para Deus, juiz supremo, que dá provimento a todos os recursos 
interpostos com justo fundamento. Era de índole pacífica, tinha mulher e filhos, não queria rixas 
com ninguém, e muito menos as queria com matadores de profissão.

Quando lhe aconselhavam em família, a mulher, ou os filhos, para que reagisse contra os ladrões, 
ele respondia sempre com estas palavras, ou com outras equivalentes:

- Deus me livre. Se os brancos e o rei não podem com eles, eu, que sou negro, é que hei de 
poder ? Vamos passando assim mesmo conforme Deus nos ajudar. Pode
se dizer que vivo trabalhando para eles. Paciência! Um dia isto há de ter fim, ou com a vida, ou 
com a morte. Será quando Deus quiser.

Liberato não procedia deste modo por fraqueza, mas por boníssimo discernimento. Ele era até 
valente por origem. Vinha a ser neto ou bisneto de Henrique Dias, com cuja fama se gloriava. Do 
ilustre guerreiro lhe vinham por sucessão as terras que possuía nas proximidades do Monte das 
Tabocas, onde o negro herói conquistara brilho inescurecível para seu nome que ficou sendo uma 
das primeiras glórias da pátria. Mas bem estava vendo que não podia avantajar
se a quadrilhas de ladrões e assassinos afeitos à prática de toda sorte de depredações.

Havia já muitos anos que ele vivia sem ter neste assunto outras idéias. Pouco a pouco se habituara 
a repartir o seu pelos ladrões. Esta partilha ele a considerava tão forçada, tão fatal, que, sempre 
que abria um novo roçado, ou encoivarava terras para algum novo partido de canas, dizia, entre 
gracejo e resignação:

- E preciso fazer mais acrescentando para que os meus vizinhos levem tudo, e eu não venha a 
ficar sem ter com que remir as minhas necessidades.

Estava Liberato um dia consertando uns covos para os meter em um poço onde os camarões 
saltavam em cardumes, quando, banhada em pranto, carpindo a sua desgraça lhe entrou pela 


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porta a mulher de Gabriel.

- Mataram meu marido, Liberato. Estou viúva, e você já não tem seu irmão.

- Quem lhe contou isso, Aninha ? - perguntou o negro quase esmagado da dor que lhe trouxe 
a repentina e fúnebre nova. - Não é possível. Há de ser mentira. Quem havia de matar Gabriel, 
que nunca se importou com os outros ?

- Desgraçadamente não é mentira, não. Eu soube de tudo. Foi o Cabeleira quem o matou. E o 
malvado aí vem com o pai, roubando e esfaqueando a quem encontram. Previna
se, Liberato, que eles já devem estar na mata. Ai de mim ! Que desgraça, meu Deus ! Que será de 
mim sem Gabriel que era tão bom marido ?!

- E onde estou eu, Aninha ? Não chore. Eu ainda não creio neste conto. Mas se suceder a 
desgraça que você diz, nem por isso deverá desesperar, que os homens ainda não se acabaram na 
terra.

Seguiu
se um longo pranto na casa do crioulo. Ao carpir de Aninha vieram juntar
se as lamentações de Rosalina, mulher de Liberato e irmão da viúva.

Liberato passou três noites sem pregar os olhos, pensando consigo só. A dor acerba a que ele, sem 
dar amostras, talvez por prudência, mal tinha podido resistir com sobre
humano esforço, veio despertar os longos ressentimentos e antigos desgostos que jaziam como 
arrefecidos no fundo do seu coração. Aqueles que cotidianamente o despojavam dos produtos do 
seu trabalho e da economia tinham
lhe roubado uma vida preciosa. Quem lhe podia assegurar que eles não viessem mais tarde a 
tomar
lhe a mulher, a tirar
lhe a filha, a arrancar
lhe a própria vida se ele se opusesse à sua vontade criminosa ?

Liberato refletiu maduramente sobre este grande assunto, e a cabo de três dias tomou a resolução 
que lhe pareceu melhor. Não se contava na distancia de três, ou quatro, ou dez, vinte léguas da 
povoação um só proprietário, lavrador, foreiro, almocreve ou morador que não tivesse queixas dos 
malfeitores, especialmente do Cabeleira que a todos excedia na petulância e fereza. Aqueles a 
quem faltavam motivos de ofensa pessoal tinham razão de sobra para quererem a dissolução do 
couto nas ofensas feitas pelos facinorosos aos parentes e amigos. Só uma população cansada de 
lutas sanguinolentas, e um governo que cuidava menos de proteger eficazmente a propriedade e a 
vida na colônia do que de adquirir grossas rendas para a metrópole, e riquezas para si próprio, 
poderiam sofrer bandos de sicários que, assim fortificados ao pé das famílias, roubavam 
impunemente bens, honra e vida.

Liberato entendeu
se com três ou quatro dos vizinhos mais próximos, e depois de lhes haver dado parte do golpe de 
que fora vítima na pessoa de seu irmão, propôs
lhe coligarem todas suas forças para tentarem a expulsão dos malfeitores. Não obstante haver por 
essa ocasião recordado os danos irreparáveis que a cada um desses vizinhos tinham eles 
ocasionado, não houve um só que estivesse pela proposta do negro, tal era o terror de que todos 
se achavam penetrados.


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Nenhum queria arriscar
se a pagar com a vida semelhante ousadia aconselhada aliás pelo instinto da própria conservação.

Liberato voltou a casa triste e desanimado, mas não dissuadido de tentar o assalto, único meio 
que se lhe oferecia de vingar
se dos assassinos de Gabriel, e libertar
se do violento imposto que sobre sua fraca fortuna, já muito depauperada, os malvados faziam 
pesar sem tréguas nem piedade.

Concertou seu plano consigo mesmo debaixo de rigoroso sigilo. Na tarde seguinte, com o 
pretexto de tirar uma abelha e encovar tatus, encaminhou
se para a mata, acompanhado de seus dois filhos Ricardo e Sebastião, e de seu genro Vicente, 
todos apercebidos com espingardas, facões e chuços.

Conhecia algumas das veredas que levavam ao covil. Acostumados a verem nele uma vítima 
paciente de que mais tinham que tirar do que temer, não cuidaram os malfeitores em ocultar
lhe essas veredas. Liberato e os seus embocaram por uma delas sem hesitações nem temores, 
perfeitamente senhores de si e conhecedores do terreno onde pisavam.

Antes de chegarem ao rancho foram pressentidos. A vereda, antes picada aberta a machado, era 
estreita, e passava por um embastido de árvores colossais, que formavam natural estacada, 
impossível de romper.

Liberato sabia o perigo a que se expunha com este passo. Estava, porém, disposto a dar aos 
malvados uma lição de mestre, ainda que lhe custasse a própria vida, desmoralizando, quando 
outro sucesso não pudesse obter, o fatal valhacouto.

Ainda bem não tinham chegado ao ponto em que a picada se bifurcava, quando ouviram um 
assobio que repercutiu com estranho som na profunda selva.

- Ah ! - disse Liberato aos seus - perdemos a diligência. Estão prevenidos e esperam por nós.

Ele não se enganava. Um dos moradores a quem convidara para o assalto, pondo
se em secreta inteligência com um dos criminosos, delatara por medo a intenção de Liberato. 
Dupla cobardia, tanto mais digna de ser execrada quanto foi parte para que viessem a dar
se lamentáveis cenas!

Posto que logo conhecesse que não havia salvação possível para nenhum deles, Liberato, não 
querendo dar o braço a torcer, prosseguiu com firmeza em sua marcha como se nada houvesse.

Pouco adiante, a vereda estava completamente tomada por grossos troncos ligados às árvores 
paralelas por fortíssimos cipós.

- Estamos encurralados - disse ele com serenidade. - Melhor um pouco; havemos de bater
nos a faca e a chuço.

Voltemos, já que não podemos aqui avançar. Cada qual trate de matar para não morrer.

- Não podemos abrir caminho através destes paus ? - perguntou Sebastião.


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- De que modo ? E impossível - respondeu Liberato.

- Só se nós trepássemos, e fôssemos saltando de galho em galho até deixarmos atrás de nós a 
estacada - lembrou Ricardo.

- Eles nos deixariam fazer isto ? - observou Vicente.

Mal tinham acabado estas palavras quando uma descarga da trincheira, deitando por terra o genro 
de Liberato, veio anunciar
lhes que para eles tudo estava acabado.

Afastarem
se da trincheira para ficarem ao abrigo de seus traiçoeiros tiros foi a primeira coisa em que todos 
entenderam.

- Cobardes ! - exclamou Liberato com raiva concentrada. - Têm gente como farinha, e 
encurralam quatro homens que eles não se animam a bater em campo aberto. Onde está a valentia 
destes ladrões que são satisfeitos com o que me furtam, mataram meu irmão para lhe roubarem 
seu único bem ?

Depois de se haverem alongado alguns passos mais da trincheira onde reinou logo profundo 
silêncio, perceberam que os inimigos vinham a seu encontro para lhes embargar a saída. Achavam
se deste modo os assaltantes entre a espada e a parede.

Era medonha a escuridão dentro da mata.

- Facas em punho, e avancemos - gritou, não obstante, Liberato aos filhos, certíssimo de que 
poucos instantes de vida restavam a todos eles.

Para dar o exemplo precipitou
se, como um raio, contra a mó de malfeitores que dificilmente lobrigou a pouca distancia diante 
de si. Sebastião e Ricardo praticaram o mesmo, e dentro em pouco as armas inimigas cruzaram
se com fúria tal de parte a parte, que delas saltavam chispas, e o som dos seus embates ia perder
se ao longe no seio da vasta selva.

Depois de alguns minutos que decorreram em incessante lutar, terceiro assobio sibilou por entre a 
folhagem. A este sinal caiu de cima de uma das árvores mais próximas a luz sinistra de dois 
fachos cujo clarão encheu o estreito passo.

Metia horror o teatro da luta. Dos assaltantes só restava o Liberato que se batia, como um bravo 
que era, com o próprio Cabeleira; dos salteadores muitos faziam companhia com seus cadáveres 
aos de Ricardo, de Sebastião e de Vicente.

- Eu logo vi que tinha pela frente o ingrato Cabeleira - disse Liberato, que só a seu grande 
animo devia estar ainda de pé. - Já que mataste meu irmão, miserável, podes também tirar
me a vida agora; mas fica sabendo que não lograrias o teu intento se não fosse o adjutório de teus 
cobardes companheiros.

A palavra ingrato José sentiu surgir


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lhe espontâneo remorso na consciência, e instintivamente recolheu o ímpeto com que ia dar em 
Liberato o golpe de honra.

- Não fui eu que matei Gabriel - disse sem se sentir, sem o querer o malfeitor.

- Fui eu, fui eu - trovejou Joaquim com fúria aterradora. - E que tem isso ? Pois ainda estás 
dando satisfações a este negro, Zé Gomes ?

Ouviu
se ent
o o estalo de galhos e cipós que se romperam com violência inesperada para deixarem passar um 
corpo ágil, que foi cair de um salto à frente de Liberato. Esse corpo, ou antes essa onça petulante, 
irritada e cruel, não era senão o pai de Cabeleira.

- Rende
te, negro - gritou Joaquim ao infeliz, descarregando
lhe sobre a cabeça, já em diferentes partes mutilada o facão que trazia na mão esquerda, enquanto 
com a faca presa na direita, aparava o golpe que vibrava como último arranco a sua vítima.

Liberato, de feito, não pôde mais resistir. Tinha o corpo crivado de facadas. Cambaleou e caiu.

Joaquim, atirando
se ao desgraçado, embebeu
lhe no peito, sem hesitar, antes com a firmeza de cínico sicário, a folha de sua faca, que lhe 
atravessou o coração.

- Por este guarida fico eu - disse. - Não há de vir mais perturbar o nosso sossego.

Os cadáveres dos assaltantes foram examinados entre risos, insultos e galhofas ímpias, à luz dos 
fachos sinistros. Completou
se por este modo a tragédia.

Capítulo VII

A vitória, não obstante o lugar e o número que deram superioridade aos fortificados, custou
lhes consideráveis danos. Com outra investida da mesma força que a primeira, ou ainda menor, o 
couto arriscava
se a ser dissolvido. Os malfeitores não eram muito numerosos e qualquer perda, por pequena que 
fosse, os expunha a desastres certos e quiçá fatais. Além disso, achavam
se divididos por diferentes pontos donde protegiam as correrias empreendidas pelos mais 
destemidos. A organização protetiva era tal, que o mameluco e o filho, dentre todos os mais 
temerários e valorosos, percorriam, não já somente a província donde eram naturais, mas Paraíba e 
Rio Grande do Norte em todas as direções sem maior perigo, porque quando as justiças os 
perseguiam, eles achavam sempre perto de si um refúgio amigo onde se acolhiam, e se aí eram 
buscados, como muitas vezes aconteceu, resistiam, ajudados por seus iguais, com tanta energia e 
denodo que sempre a vitória ficava de seu lado.

Desta vez porém não lhes fora muito favorável o lance.

O Cabeleira, cuja bravura estava acima de todo o encarecimento, e seu pai, que a nenhum cedia o 


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lugar na crueldade, tinham ficado cobertos de golpes, alguns deles mortais. Maracajá, cabra de 
más entranhas e por isso de créditos colossais entre eles, ficara com uma mão horrivelmente 
destruída, e o ombro esquerdo mutilado. Ventania, outro matador de fama, apresentava no rosto 
e peito feridas extensas e profundas. Jurema, Jacarandá, Gavião e dois negros fugidos tinham 
morrido nas pontas das facas dos assaltantes.

A vista de tudo isso, tanto que considerou restabelecida a ordem na lôbrega estância, Joaquim 
reuniu o restante das suas forças, e lhes falou nestes termos:

- A luta foi feia, camaradas, e devemos dar um exemplo de estrondo para que ela não venha a 
repetir
se tão cedo. É: certo que dos cabras que se atreveram a vir bater
nos, n
o voltou um só que fosse contar a sua derrota, mas o abalo que padecemos foi grande, e, se a 
justiça vier por aí nestes dias, correremos grande perigo, só não se nos ausentarmos. Entendo que 
devemos obrar um feito que a todos dê que falar, que aterre a população e o capitão
mor, que faça crer que nunca estivemos tão fortes nem mais dispostos a sustentar o nosso posto.

- Estou pronto para ir pôr fogo agora mesmo na povoação - disse Manuel Corisco, calceta 
evadido da cadeia do Recife por ocasião do segundo arrombamento praticado nos últimos 
tempos da administração do governador Henrique Luís.

Este sentenciado tinha tomado parte, aos dezesseis anos, no levante dos soldados que se 
verificou quando governava Pernambuco d. Manuel Rolim de Moura. Do dito levante existe 
ainda a viva lembrança na província, pelo grande saque a que procederam, não só na vila do 
Recife, mas também na rica e populosa cidade de Olinda, a pérola de Coelho. Os sessenta e seis 
anos, que contava, ainda lhe permitiam forças e animo para atentar contra os bens e a vida com 
tanto maior firmeza quanto era fragueiro no crime por uma prática de longos anos.

- Em vez do incêndio, o saque - acudiu Miguel Mulatinho.

- Para tanto não temos forças, mas se o querem, encontram
me pronto, como sempre-observou Manuel Corisco.
- A minha opinião é que apanhemos os cavalos e gados que ainda existem por estas beiradas. 
Eles devem render na feira dinheiro fresco para irmos resistindo à seca. Feito isto, levantemos o 
acampamento por algum tempo - tornou Miguel.

- Que é que resta por aqui ? - perguntou Corisco. - Na fazenda de Liberato poucas reses se 
contam. Antes de morrer, o ladrão do negro já estava limpo; só tinha em casa os cachorros, os 
gatos, a mulher e a filha.

- Boa idéia, boa idéia - gritou o Joaquim, cujos olhos nadavam em ferocidade. - Terão vocês 
coragem para darem conta da empresa ?

- Diga lá, Joaquim. Você não está com patativas choronas, você está com carcarás que têm boa 
vista, boas asas e melhores unhas - acudiu Miguel Mulatinho, librando
se nos pés para imitar o pássaro que quer voar.

- Vamos lá ver o que propõe você - acrescentou Manuel Corisco.



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- Proponho o roubo das melhores raparigas da povoação. Isto, sim, há de dar a todos a medida 
da nossa audácia, e por todos será considerado uma prova de que estamos fortes como nunca 
estivemos.

- Sim senhor, muito bem lembrado - disse o Mulatinho - , melhor não podia ser, mas a coisa 
é séria, Joaquim.

- Ora ! Tens medo ?

- Medo ! O medo comi eu com as papas que minha mãe me deu quando era pequenino 
-retrucou o malfeitor como por demais.

- Dito e feito, Joaquim. Quando será isso ? Hoje ? Amanhã ? - perguntou José Trovão, negro 
hediondo, cuja cara apresentava profundas cicatrizes e cujos olhos, vermelhos como tomates, 
padeciam de estrabismo divergente.

- Hoje não. Amanhã, ou depois, conforme entender melhor Zé Gomes - respondeu Joaquim.

E logo acrescentou:

- Mas onde se meteu Zé Gomes que não o vejo aqui ?

O lugar onde se achavam reunidos os bandidos era um dos pontos mais centrais da mata.

Tinham eles assentado o seu arraial ao pé de um olho d'água que não secava, ainda no rigor do 
verão. Este arraial compunha
se de meia dúzia de ranchos abertos por todos os lados e unicamente cobertos de palhas de 
pindoba. Dos caibros pendiam surrões, véstias e chapéus de couro. Algumas redes estavam 
armadas dentro das palhoças. A noite alumiavam
se ordinariamente com fogueiras; tinham porém sempre em quantidade fachos de que se serviam 
nas suas idas e voltas por dentro da mata, quando fazia escuro. Tudo anunciava que o ponto era 
sempre provisório, e podia ser deixado de um momento para outro sem prejuízo nem saudades.

O Cabeleira estava longe deles naquele instante.

Apenas viu passada a borrasca, reapareceu
lhe a imagem de Luísa em quem ele via dois tipos cada qual mais sedutor - em um a menina de 
oito anos com o rosto banhado da expressão de meninice, que é agradável até aos olhos dos que 
têm o coração mais endurecido do mundo; no outro a moça ingênua, corajosa, banhada em 
pranto, de rojo a seus pés, pedindo
lhe misericórdia, insultando
o, amaldiçoando
o, bela, tanto mais bela quanto mais aumentavam sua dor e sua indignação, ambas tão profundas 
como era o afeto que ela votava ao bandido.

Este não tinha tido até aquele momento predileção amorosa para alguma outra mulher.

Sua vida nômada, arriscada, cheia de sobressaltos, ensopada de sangue só lhe tinha permitido 
querer bem à imagem da menina que ainda na véspera se debuxava em seu espírito com um vago 
e pálido reflexo do passado. Inesperadamente, porém, este reflexo se ilumina com todos os 


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brilhos do mais primoroso íris. A reminiscência desmaiada, quase desaparecida, tomou corpo, 
forma, cor, contornos suaves, olhos matadores, cabelos escuros, voz harmoniosa, enérgico 
sentimento, e com soluços o comove, e com exprobrações o faz conhecer e sentir a dor, nunca 
talvez experimentada, de um remorso cruel. Seu coração, que se havia convertido em foco de 
paixões sanguinárias, era agora ninho de doce e indefinível sentimento.

O bandido estava experimentando, não a lascívia bruta que proporciona rápidos prazeres, dele 
conhecidos como a aguardente que bebia nos dias quentes e nas noites frias, mas uma fatalidade 
benévola, branda e terna que o impelia para a moça, primeiro pelo espírito, e só depois pela beleza 
da forma que o atraía; e essa fatalidade era tão poderosa que ele não achava forças em si para lhe 
resistir apesar do seu querer.

Chegando à beira do rio para onde se dirigira correndo em busca da visão que aí deixara, achou 
em seu lugar a solidão infinita, a solidão só.

Era em maio. Frouxo estava o luar. Elevava
se das margens, com os ruídos do deserto, fresca e grata emanação que teve para o seu peito 
abrasado o efeito do bálsamo fragrante.

Pareceu
lhe que debaixo da folhagem do juazeiro onde, segundo o seu pedido, esperava encontrar a moça, 
um corpo indeciso e vago se agitava brandamente.

- Luisinha ? Luisinha? - chamou ele.

Ilusão ! Estava ali o vácuo mais cruel do que um raio que o houvesse fulminado. A sombra da 
árvore movida pela brisa noturna representava a forma graciosa que o bandido acreditou ser Luísa

- Foi
se embora ! - disse o Cabeleira esmagado.

Então com olhar de gavião abrangeu a vasta planície que se estendia diante de si. Ninguém ! Nem 
sequer um vulto que por um instante ao menos lhe desse o prazer de uma nova esperança, falaz 
embora como a que se despedaçara a seus pés naquele momento. Só o deserto lhe apareceu, 
menos vago, mais real com taciturna imensidade, só o deserto lhe respondeu com a mudez do 
descampado, das selvas profundas, e das águas mortas.

Assim desmascarada em plena natureza, a realidade o fez voltar a si. Sentiu as dores dos golpes 
recebidos, pouco havia, dentro da mata. Lembrou
se de banhar as feridas como costumava depois de idênticos desastres. Mas a água fresca que 
tantas vezes lhe havia servido de bálsamo refrigerante, produziu
lhe agora diferente efeito. A vista do bandido foi pouco a pouco escurecendo, a cabeça pesou
lhe mais do que o corpo, e ele caiu sem sentidos à beira do poço.

Deste modo passou horas. Quando tornou em si de seu delíquio, a aurora vinha rompendo as 
nuvens do horizonte, com sua luz extensa e vasta que se confunde no infinito. A viração matutina 
transmítiu
lhe aos ouvidos uns sons cadenciados que vinham de longe. Era o eco das loas cantadas pelas 
meninas e raparigas da povoação que vinham encher os potes nos poços como de costume.



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Levantou
se ainda aturdido. Seus olhares foram logo cair sobre o lugar onde na tarde anterior ele havia 
deitado Florinda em terra com o coice do bacamarte. Não se achava, porém, ali o cadáver da 
curiboca. O bandido deu então o andar para a estância, com o pensamento concentrado em Luísa 
que, tendo
se visto livre de suas mãos, correra em socorro de Florinda.

- Minha mãe ? minha mãe ? - chamara ela, abraçando o corpo da vítima, e chorando como 
criança.

No seu prantear e no seu carpir, Luísa tivera todavia espírito para lembrar
se das últimas palavras do Cabeleira. "Com pouco ele estará aqui outra vez", pensou ela. "Deus 
me livre de que ele venha ainda encontrar
me neste ermo. Que seria de mim se tal acontecesse ? Mas posso eu deixar aqui o corpo de minha 
mãe só e desamparado ?! Não, não; não o deixarei ainda que me matem. Ficarei até que 
amanheça. Há de aparecer alguém que me ajude a levá
lo para casa".

E aflita, consternada, Luísa olhara ao longo da margem a ver se descobria quem a socorresse. Por 
mais de uma vez uns vultos escuros moveram
se sobre a areia, à beira dos poços. Ele sentira então voltar
lhe o animo, falara, perguntara quem estava ali, pedira que a fossem amparar em tamanha aflição, 
mas ninguém a ouvira, ninguém acudira ao seu chamamento. Tudo fora ilusão. Esses vultos foram 
as sombras das árvores movidas pelo vento, as quais enganaram depois o bandido como vimos.

A noite, porém, corria com rapidez. A lua que descia a ocultar
se por detrás da floresta, dentro em breve deixaria em trevas toda a natureza. O silêncio tornava
se mais profundo, tornava
se absoluto. O sítio, de si ermo, estava agora lúgubre por se haver convertido em mansão de 
morte e luto.

Luísa lembrara
se de ir chamar alguém, visto que ninguém lhe aparecia para a tirar daquele aflitivo transe. Mas a 
casa que ficava mais próxima era de Liberato, a qual distava, entretanto, pouco menos de meio 
quarto de légua do lugar. Além disso, ela não queria deixar o corpo de Florinda desacompanhado 
ainda que fosse por momentos quanto mais por horas.

De uma vez correra ao longo da margem a ver se o céu lhe tinha enviado algum protetor. Mas 
logo voltara, lembrando
se de que o cadáver podia, de um instante para o outro ser ofendido por algum animal.

- Não, não, minha mãe ! - exclamou ela. - Não te deixarei, haja o que houver.

Então ela vira que o cadáver erguera os braços para conchegá
la, ao que parecia, ao seu seio. A moça fizera conta que estava sonhando e delirando, e que o 
movimento de Florinda fora como uma ilusão dos olhos dela.

- Abraça
me, minha mãe, abraça
me. Leva


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me contigo que eu, sem ti, sou o ente mais desgraçado do mundo.

Mas, sentindo a pressão física e irrecusável dos braços que tinha por mortos, recuou para a pálida 
claridade do escasso luar, certificar
se da verdade.

- Não fujas, Luísa. Vem. Não estou morta. Ajuda
me, que me levantarei.

Não podia ser mentira dos seus ouvidos. Era a voz de Florinda, aquela voz branda e benévola que 
ela estava acostumada a escutar desde a infância como o eco de materna] providência.

- Minha mãe ! Vive ainda, minha querida mãezinha? - perguntara Luísa, chorando e sorrindo 
alternativamente, beijando, como louca, sem ordem nem moderação, aquele cadáver que se 
tornara vivente, aquela vida que ressuscitara no seio da natureza onde lhe parecera que se havia 
afundado para nunca mais voltar como se afundam as borboletas que as tempestades arrojam aos 
charcos e marnéis.

- Vê se podes levantar
me, Luisinha.

- Sim, saiamos já daqui antes que tornem os malfeitores. Eles não tardam por aí, creio eu. 
Vamos já, minha mãe. Está
me parecendo que dali, daquele mato traiçoeiro, um homem nos acomete, ou um tiro nos vem 
ferir.

Cambaleante e trôpega, Florinda dera o andar arrimando
se no ombro da filha.

- Que tens, Luizinha, que olhas horrorizada para aquela banda ? Fez
te algum dano o assassino ?

- Não, nada me fez. Mas eu tenho medo destes lugares. Nunca mais virei buscar água aqui.

- Conta
me tudo, Luisinha. Como te livraste do malfeitor? Quem era ele? Não o conheceste? Seria o 
Cabeleira ?

- Não sei, minha mãe. Estava já tão escuro quando ele apareceu... Sei porém, que ele se 
compadeceu de mim.

- Estás dizendo a verdade, Luisinha ?

- Sim, minha mãe, ele não me ofendeu. Dando mostras de estar arrependido, fugiu logo depois, 
e não voltou mais.

- Malvado ! ? disse Florinda. - Que pancada me deu ele! Pôe a mão em minha fonte. Vê como 
fiquei. Virgem Santíssima ! Não sei como não me saltaram os miolos. Mas... ampara
me bem, que uma nova perturbação me vem tirar os sentidos. Ampara
me, senão caio. Não posso andar mais.


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- Temos de feito andado muito, minha mãe, e deve estar cansada.

Luísa, novamente aflita, volvendo os olhos em torno de si, viu, a poucas braças, uma sombra 
imóvel que brilhou aos seus olhos como um astro de proteção e conforto.

Estavam salvas. Era a casa de Liberato.

Capítulo VIII

A casa de Liberato estava situada dentro do cercado que, beirando o rio em linha reta, de norte a 
sul, ia morrer na mata virgem, limite natural das terras pertencentes à engenhoca. Era fraca de 
construção, mas podia considerar
se uma verdadeira casa de campo por sua bonita aparência, pela vista que tinha para todos os 
lados, pelo alpendre circular e pelo meio peitoril de madeira que não contribuía pouco para a sua 
rústica elegância.

A pequena distancia tinham sido edificadas três casas menores e menos vistosas do que a 
primeira. Em uma destas morava o genro, nas outras duas os filhos do crioulo. Nos fundos do 
cercado via
se outra casinha que na forma arremedava a casa grande. Pertencia a Gabriel que, à sombra do 
irmão, aí vivia com sua mulher e filhos, na paz do Senhor.

Sem ter escravos nem dispor de grandes meios pecuniários, com o auxílio de Gabriel, Sebastião, 
Ricardo e Vicente, plantava canas, fazia roçados e vazantes, e, no tempo próprio, fabricava 
açúcar e rapaduras, desfilava aguardente, e desmanchava mandioca que lhe dava farinha para 
todo o ano.

Viviam em perfeito acordo aquele pai, aquele irmão, aqueles filhos, aquele genro, cada um com 
sua mulher e seus filhos, e todos dando os mais bonitos exemplos, que se conhecem, de união, 
auxílio mútuo, recíproco respeito e comum felicidade.

Na engenhoca ficaram todos ignorando o verdadeiro motivo da jornada à mata. Liberato, para 
maior segurança dos seus desígnios, havia recomendado aos companheiros o mais rigoroso 
segredo. E como tinham eles por costume caçar pacas e tatus uma vez por outra,.quando fazia 
luar e o tempo estava enxuto, não houve quem duvidasse da palavra dos caçadores. Quando, 
porém, se soube do acontecido por boca de Luísa, e pelo vestígio da atrocidade que Florinda 
trazia na face, a qual bem estava dizendo donde havia procedido, a inquietação e o susto vieram 
tomar o lugar ao sono e ao repouso a que se achavam entregues os habitantes da engenhoca.

Raiou finalmente o dia longamente suspirado pelos que da meia
noite até o amanhecer não haviam tido olhos para dormir, mas para chorar.

O sol espargiu a luz suave sobre o sertão, e com ela despertou a natureza. Inspirando as aves, 
colorindo os campos, e permitindo ver no espelho sereno das águas do Tapacurá o belo céu que 
nele se refletia com os seus esplêndidos matizes, essa luz vivificadora restituiu ao deserto o 
movimento e a vida que as trevas tinham ocultado debaixo de seu espesso véu.

Com a tornada do dia, ressurgiu em todos a confiança, só não em Luísa, que via próximo o termo 
da vida de sua mãe privada novamente do uso da fala por lhe haver voltado a congestão.


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Chegou a hora do almoço, a do jantar, e finalmente escureceu de novo sem que os caçadores 
houvesse volvido a seus lares. Então a consternação tornou
se geral e verdadeiramente cruel.

As famílias reuniram
se todas na casa grande para se protegerem em caso de perigo que logo tiveram por iminente.

Três dias se passaram nessa aflição que se não pode descrever mas que facilmente se imagina.

Rosalina pensou de uma vez em ir pedir socorro no povoado, mas a quem ? O capitão
mor achava
se no Recife, e o povoado, que um século antes constava de uma capela dedicada a Santo Antão, 
e de meia dúzia de casas, pouco mais era do que isto na época em que se passou esta história; 
precisava também de proteção.

De sua agonia a veio tirar um caboclo velho, que morava no caminho do povoado, em terras da 
engenhoca, e que era o estafeta do lugar. Vivia só em uma palhoça à beira da estrada. Chamava
se Matias mas era mais conhecido pela alcunha de Veado, a qual se originara de ser ele muito ágil 
e andador.

Matias, achando
se sem fumo para o cachimbo, dirigiu
se à casa grande no pressuposto de encontrar aí o Liberato que uma vez por outra lhe dava do 
melhor que tinha alguns pedaços para seu gasto. Só então soube do que havia, e logo se ofereceu 
para ir dar com o crioulo a quem devia muitas obrigações e respeito. Havendo Rosalinda aceitado 
o oferecimento, Matias voltou à choupana a buscar uma espingarda velha, e um minuto depois 
estava no rasto dos caçadores.

Antes de transpor os limites da fazenda, viu ele para as bandas do Monte das Tabocas um bando 
de urubus esvoaçando como costumam quando sentem carniça. Seria alguma rês morta o objeto 
da inspeção dessas aves? Talvez fosse. A seca estava fazendo no gado vítimas aos centos.

O Veado porém, naturalmente suspeitoso, acreditou logo que estava ali o cadáver de Liberato ou 
de alguns dos seus.

Para ir ter à grota sobre a qual se libravam os urubus, não era preciso entrar a mata, mas 
unicamente contorná
la pelo lado oposto ao rio. O terreno apresentava desse lado um vasto tabuleiro, e depois ia 
gradualmente alteando até à grota, que se interpunha entre o tabuleiro e a mata, formando um 
fosso natural que protegia o couto. Só quem tivesse grande coragem, e fosse perfeito conhecedor 
dos acidentes do solo, se animaria a arriscar o pé no profundo despenhadeiro.

Matias em pouco tempo atravessou toda a planície e chegou à borda do abismo. Cheiro de carnes 
putrefatas feriu
lhe logo o olfato agudíssimo que sentia, à distancia, o quati, o veado, a anta, e até a cobra.

De cima nada pôde ver, porque do fundo do vale e das encostas da montanha se levantava uma 
vegetação secular cuja folhagem basta e enredada parecia destinada a conservar perpetuamente 
oculta às vistas do homem a escusa região. O cheiro da carne corruta porém foi um indício, um 


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raio de luz para o índio que, havendo tomado a peito descobrir a verdade, estava no propósito de 
não hesitar, para o conseguir, diante da perda da própria vida.

A seus pés mostrava
se um sulco deixado no terreno pelas águas que, descendo ao longo do estreito espinhaço, aqui se 
escoavam para o tabuleiro, ali para,dentro do precipício. Por ele se encaminhou Matias, arrimando
se na espingarda, e com ela rompendo a custo os cipós que formavam diante de sua passagem 
uma rede quase inexplicável.

Passou
se uma hora. O sol chegou ao poente. Veio o lusco
fusco, e com ele aumentaram as tristezas, os medos e as agonias das mulheres recolhidas na casa 
grande.

Rosalina, tendo posto todos os cães da banda de fora, e fechado todas as portas da casa, abriu o 
seu tosco oratório, e convidou as outras ao terço tradicional, agora mais do que nunca necessário 
para fortalecer os espíritos abatidos.

Florinda estava expirando. Ao lado dela achava
se Luísa, desfeita em lágrimas, e Aninha que ajudava a enferma a morrer. A porta do aposento 
inteiramente aberta deixava ver as outras mulheres de joelhos na sala, aos pés do oratório, 
cantando as rezas que constituem o terço, essa parte do culto externo que, depois de longamente 
usada em quase todo o Norte, desapareceu das capitais, e já não tem no próprio interior das 
províncias a prática geral a que em grande parte se deve referir o adoçamento dos costumes 
dessas povoações antes de haverem sido dotadas com as escolas e com os institutos de educação 
que atualmente as disputam à ignorância com mais vigor e proveito.

De súbito o ladrar dos cães veio interromper o concerto das vozes femininas que enchiam o 
âmbito da sala, e iam repercurtir no vasto pátio. O ladrar aumentou, e com ele tornou
se mais distinto, mais próximo, ao princípio um estrupido de passos, depois um ruído de vozes 
surdas do lado de fora da habitação.

Nesta a alegria e a aflição, a primeira quando se lhes afigurou que os caçadores chegavam, a 
segunda quando, em lugar destes, pensavam serem os malfeitores que as vinham assaltar, 
disputaram um instante em violenta porfia os espíritos das pobres mulheres naturalmente 
expostas, pelas suas circunstâncias especiais, a estas cruéis alternativas.

Depressa porém se dissiparam todas as dúvidas. Com fúria indômita, os cães deram mostras de 
querer despedaçar os visitantes. Semelhante indício foi uma prova evidente de que, não de casa, 
mas estranhos eram estes.

De repente ouviu
se uma voz que, ecoando no terreiro, veio ressoar dentro de casa:

- Aqui estou. Sou eu.

Era a voz de Matias.

Rosalina, ébria de violenta alegria, correu à porta para a abrir, mas logo sobresteve a este novo 
falar do caboclo:


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- Não digo, não digo isto, ainda que me matem.

- Dize que abre a porta, senão te varo com esta faca, Veado do demo - disse Joaquim a meia 
voz.

- Não digo - repetiu o caboclo.

E alteando a voz, trêmula e como abafada, gritou com toda a força que pôde:

- Não abram, não abram. Eu trouxe os malvados enganados até aqui para poder avisá
la, sinhá Rosalina. Liberato, Ricardo, Sebastião e Vicente são com Deus. Fujam, se podem, que 
eu sei que morro.

- Ah ! miserável, que nos iludiste - vociferou Joaquim.

E com a faca atravessou incontinenti o coração de Matias que, sem soltar um ai, caiu envolto em 
um turbilhão de sangue.

Não é sem grande constrangimento, leitor, que a minha pena, molhada em tinta, graças a Deus, e 
não em sangue, descreve cenas de estranho canibalismo como as que nesta história se lêem. 
Aperta
me naturalmente o coração sempre que me vejo obrigado a relatá
las. Entre os motivos da minha repugnância e da minha tristeza sobressai o seguinte: Eu vejo 
nestes horrores e desgraças a prova, infelizmente irrecusável, de que o ente por excelência, a 
criatura fadada, como nenhuma outra, para altíssimos fins, pode cair na abjeção mais profunda, se 
o afastam dos seus sumos destinos circunstâncias de tempo e lugar que, nada, ou muito pouco 
valendo por si mesmas, são de grande peso para a perturbação do equilíbrio moral do rei da 
criação, tal é a fragilidade da realeza, ou antes das realezas humanas. Mas desgraçadamente estas 
cenas não são geradas pela minha fantasia. São fatos acontecidos há pouco mais
de um século. Se só alguns deles foram recolhidos pela história, quase todos pertencem à tradição 
que nô
los legou, antes como límpido espelho, que como tenebrosa notícia do passado. Não estou 
imaginando, estou, sim, recordando; e recordar é instruir, e quase sempre moralizar. Com estas 
razões considero
me justificado aos teus olhos, leitor benévolo.

Gritos, queixumes, imprecações e prantos que nenhuma pena humana pode descrever seguiram
se, de dentro da casa, às últimas palavras do Veado.

Teresa, mulher de Vicente, abraçou
se com Rosalina, menos madrasta do que mãe, e começou a carpir com ela a desgraça comum, 
dando mostras de ter enlouquecido. Não se demoraram a imitá
las nas demonstrações de dor e desespero Josefa, mulher de Ricardo, e Candida, mulher de 
Sebastião.

Da sua angústia, para a qual será difícil encontrar paralelo na história das desgraças humanas, 
vieram tirá
las uma fortíssima pancada contra a porta, e estas formais palavras de Joaquim:



[Linha 2400 de 5692 - Parte 2 de 4]


- Se não abrem por bem, hão de abrir por mal.

- Quando for tempo de tocar fogo na capuaba, é só dizer, Joaquim - acrescentou Manuel 
Corisco.

- Querem queimar a casa, Rosalinda - disse Candida - Estamos perdidas, minha gente. Meu 
Deus, meu Deus, socorrei
nos.

Rosalina poderia ter vinte anos. Suas formas eram arredondadas, os cabelos crespos e negros, os 
olhos admiravelmente fendidos, a boca impossível de descrever
se, porque exprimia graça, volúpia soberba e desdém ao mesmo tempo. Era o tipo da mulata 
ardente, caprichosa, cheia de vivacidade e energia, tipo que está destinado a desaparecer dentre 
nós com o correr dos anos, mas que há de ser sempre objeto de tradições muito especiais no seio 
da sociedade brasileira, pelo muito que tem figurado no campo, na cidade e no lar.

- Sim, querem tocar fogo na casa para nos obrigarem a sair. Mas não sairemos - disse Rosalina 
com firmeza.

E acrescentou sem demora:

- Sair para onde ? Os nossos maridos desapareceram para sempre dentre os nossos braços. Não 
temos mais quem olhe por nós neste mundo de amarguras e misérias. Somos cinco desgraçadas a 
quem a vida já não pode oferecer prazer nem sossego, mas só desgostos e lágrimas. Não, 
Candida, não sairemos daqui.

- Mas que faremos, Rosalina ?

- Que faremos ! Pois você ainda pergunta ?

- Sim, porque os malvados estão aí, e é tempo de tomarmos a nossa resolução.
- Está tomada - respondeu Rosalina. - Morreremos, e não nos entregaremos aos malvados.

- Meu Deus ! meu Deus ! - exclamou Teresa.

- Não, não, Rosalina - acrescentou Josefa. - Vamos ver se nos salvamos.

- Se nos salvamos !... - disse a mulata com ironia e desdém. - Não ouves os malfeitores 
bateram na porta ?

- Mas então... - balbuciou Teresa.

- Morreremos todas, Teresa, morreremos todas, mas com honra, ao pé deste oratório - gritou 
Rosalina com tal energia e decisão que nenhuma das outras se animou a proferir uma palavra 
sequer contra a sua sentença de morte.

Para dar o exemplo, a mulata caiu de joelhos diante do santuário, tendo no rosto a serenidade que 
faz belos o venerandos os mártires, os verdadeiros mártires.

Teresa foi a primeira que imitou sua madrasta, e as outras não se demoraram a acompanhar 


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Teresa. Quem poderia resistir à heróica decisão de Rosalina inspirada no sentimento da honra, e 
na oração ?

- Abrem, ou não abrem ? - perguntou nesse ínterim de fora Joaquim impaciente.

A resposta que a esta pergunta deram as mulheres foi o continuarem o terço alguns minutos antes 
interrompido, resposta que há de perdurar nas tradições populares, como um traço característico 
da firmeza e do valor das gentes do Norte naqueles tempos de grandeza de animo que raro 
aparece hoje.

- Ah ! estão rezando. Fogo, Manuel Corisco. fogo, Mulatinho, fogo, Trovão !

De repente um clarão afogueado inundou o terreiro, e indicou que a ordem do capitão do bando 
ia ser prontamente executada.

- Depressa, depressa - gritou Joaquim.

- Enquanto o diabo esfrega um olho, o mocambo fica torrado, e as caiporinhas são nossas 
-respondeu José Trovão, chegando a chama do seu facho a um montão de cangalhas, tripeças, 
gamelas e outros objetos encontrados no alpendre, e que ele havia apinhado de propósito, para 
servirem de combustíveis, ao pé das quatro janelas da casa.

Esta operação reproduziu
se na porta fronteira, nas portas e janelas laterais, no peitoril de madeira e nas toscas colunas que 
sustentavam de espaço a espaço o telheiro do alpendre.

Quando o espírito racional ultrapassa os limites que o separam dos instintos da fera; quando o 
homem deixa atrás de si, na sua marcha descendente, o animal cerval que bebe o sangue por 
natural fatalidade a que não pode resistir, não raro figura de protagonista de dramas que, como 
este, enlutam a história e envergonham a humanidade.

A porta principal tinha sido respeitada. Diante dela estendeu
se E,elo chão, formando
se em semicírculo, o bando dos salteadores, os quais ao espetáculo das chamas que do peitoril 
passando às paredes e destas à coberta, envolveram em poucos momentos a casa e formaram uma 
só chama, uma fogueira, única, gigantesca e medonha, só tinham infames graçolas e indecentes 
insultos para as vítimas. Sujos, maltrapilhos, nas mãos as facas nuas e os bacamartes sinistros, 
semelhavam, ao clarão da fogueira imensa, uma legião de demônios que só as crepitantes 
labaredas separavam dos anjos.

- Quando se resolverem a não morrer assadas na coivara, como lagartixas, abram a porta e saiam 
sem susto que não havemos de brigar - disse Joaquim.

O estalido da madeira, do barro, das telhas abafou em poucos momentos as vozes das mulheres.

- Que fazem, que não saem logo ? - perguntou o Mulatinho depois de alguns minutos de 
espera infrutífera.

- Venham para fora, raparigas - acrescentou o Trovão.



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Ainda bem não tinha preferido estas palavras, quando a frente da casa vinha abaixo, atirando 
torrões abrasados contra as feras que, afrontando o pudor com expressões obscenas, assistiam, 
ébrios de ferocidade, à medonha representação.

- Parece
me que as caiporinhas se escaparam - disse Joaquim.

A esta voz todos os malfeitores correram à porta principal sobre cujos portais descansavam uns 
restos de caibros incendiados.

Descarregando então os coices dos bacamartes sobre a porta, fizeram
na em pedaços, e invadiram o estreito espaço aonde as chamas ainda não haviam chegado.

Ao mesmo tempo um grito, a que melhor se chamara o eco de uma angústia longamente recalcada 
e de súbito desprendida, dominando o estrondear do incêndio, veio ressoar no pátio.

- Minha mãe, minha mãe não morrerá no fogo !

Então viu
se uma cena horrivelmente bela. Luísa, saltando por cima da caliça e dos enxaiméis abrasados, 
ganhava o pátio com Florinda nas costas, semelhando uma visão ígnea, fantástica e sobrenatural.

Os malvados, sem se podarem governar, voltaram um passo atrás, não tanto pela estranha e 
fugitiva aparição, como principalmente por verem no lugar ocupado, havia pouco, por aquelas 
contra cujo pudor a sua brutal concupiscência se aguçava, pequenos troncos carbonizados em 
torno da mesa sobre a qual ardia
nesse momento última imagem.

- Diabo ! - bradaram com raiva concentrada os algozes, mais dignos de compaixão do que as 
vítimas.

- Todas mortas ! - acrescentou o Mulatinho com uns longes de pesar que acusava a malograda 
e lasciva esperança.

- Só nos resta uma - disse o Trovão, correndo em busca de Luísa, que havia caído quase sem 
sentidos no terreiro junto ao cadáver de Matias.

- Cá está ela.
- São duas, são duas.

- Esta é minha - exclamou o Trovão, acercando
se de Florinda para assenhorear
se dela.

- Trovão do diabo ! - exclamou o Mulatinho com indescritível expressão. - Não vês que é 
uma defunta.

Florinda estava na realidade morta.

- Resta


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me a outra.

- A outra ? Não vês que o Joaquim já a tem em seus braços ?

- Há de ser minha, custe o que custar - redarguiu o negro.

- A outra é minha - disse um terceiro a cuja voz estremeceram irresistivelmente os dois 
bandidos.

Era o Cabeleira.
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Capítulo VIII
Humanidades
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Escola do Futuro
Capítulo VIII
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Capítulo VIII
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Capítulo VIII
Humanidades
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Capítulo VIII

A casa de Liberato estava situada dentro do cercado que, beirando o rio em linha reta, de norte a 
sul, ia morrer na mata virgem, limite natural das terras pertencentes à engenhoca. Era fraca de 
construção, mas podia considerar
se uma verdadeira casa de campo por sua bonita aparência, pela vista que tinha para todos os 
lados, pelo alpendre circular e pelo meio peitoril de madeira que não contribuía pouco para a sua 
rústica elegância.

A pequena distancia tinham sido edificadas três casas menores e menos vistosas do que a 
primeira. Em uma destas morava o genro, nas outras duas os filhos do crioulo. Nos fundos do 
cercado via
se outra casinha que na forma arremedava a casa grande. Pertencia a Gabriel que, à sombra do 
irmão, aí vivia com sua mulher e filhos, na paz do Senhor.

Sem ter escravos nem dispor de grandes meios pecuniários, com o auxílio de Gabriel, Sebastião, 
Ricardo e Vicente, plantava canas, fazia roçados e vazantes, e, no tempo próprio, fabricava 
açúcar e rapaduras, desfilava aguardente, e desmanchava mandioca que lhe dava farinha para 
todo o ano.

Viviam em perfeito acordo aquele pai, aquele irmão, aqueles filhos, aquele genro, cada um com 
sua mulher e seus filhos, e todos dando os mais bonitos exemplos, que se conhecem, de união, 
auxílio mútuo, recíproco respeito e comum felicidade.

Na engenhoca ficaram todos ignorando o verdadeiro motivo da jornada à mata. Liberato, para 
maior segurança dos seus desígnios, havia recomendado aos companheiros o mais rigoroso 
segredo. E como tinham eles por costume caçar pacas e tatus uma vez por outra,.quando fazia 
luar e o tempo estava enxuto, não houve quem duvidasse da palavra dos caçadores. Quando, 
porém, se soube do acontecido por boca de Luísa, e pelo vestígio da atrocidade que Florinda 
trazia na face, a qual bem estava dizendo donde havia procedido, a inquietação e o susto vieram 
tomar o lugar ao sono e ao repouso a que se achavam entregues os habitantes da engenhoca.

Raiou finalmente o dia longamente suspirado pelos que da meia
noite até o amanhecer não haviam tido olhos para dormir, mas para chorar.


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O sol espargiu a luz suave sobre o sertão, e com ela despertou a natureza. Inspirando as aves, 
colorindo os campos, e permitindo ver no espelho sereno das águas do Tapacurá o belo céu que 
nele se refletia com os seus esplêndidos matizes, essa luz vivificadora restituiu ao deserto o 
movimento e a vida que as trevas tinham ocultado debaixo de seu espesso véu.

Com a tornada do dia, ressurgiu em todos a confiança, só não em Luísa, que via próximo o termo 
da vida de sua mãe privada novamente do uso da fala por lhe haver voltado a congestão.

Chegou a hora do almoço, a do jantar, e finalmente escureceu de novo sem que os caçadores 
houvesse volvido a seus lares. Então a consternação tornou
se geral e verdadeiramente cruel.

As famílias reuniram
se todas na casa grande para se protegerem em caso de perigo que logo tiveram por iminente.

Três dias se passaram nessa aflição que se não pode descrever mas que facilmente se imagina.

Rosalina pensou de uma vez em ir pedir socorro no povoado, mas a quem ? O capitão
mor achava
se no Recife, e o povoado, que um século antes constava de uma capela dedicada a Santo Antão, 
e de meia dúzia de casas, pouco mais era do que isto na época em que se passou esta história; 
preciepresentação.

- Parece
me que as caiporinhas se escaparam - disse Joaquim.

A esta voz todos os malfeitores correram à porta principal sobre cujos portais descansavam uns 
restos de caibros incendiados.

Descarregando então os coices dos bacamartes sobre a porta, fizeram
na em pedaços, e invadiram o estreito espaço aonde as chamas ainda não haviam chegado.

Ao mesmo tempo um grito, a que melhor se chamara o eco de uma angústia longamente recalcada 
e de súbito desprendida, dominando o estrondear do incêndio, veio ressoar no pátio.

- Minha mãe, minha mãe não morrerá no fogo !

Então viu
se uma cena horrivelmente bela. Luísa, saltando por cima da caliça e dos enxaiméis abrasados, 
ganhava o pátio com Florinda nas costas, semelhando uma visão ígnea, fantástica e sobrenatural.

Os malvados, sem se podarem governar, voltaram um passo atrás, não tanto pela estranha e 
fugitiva aparição, como principalmente por verem no lugar ocupado, havia pouco, por aquelas 
contra cujo pudor a sua brutal concupiscência se aguçava, pequenos troncos carbonizados em 
torno da mesa sobre a qual ardia
nesse momento última imagem.

- Diabo ! - bradaram com raiva concentrada os algozes, mais dignos de compaixão do que as 
vítimas.


[Linha 2750 de 5692 - Parte 2 de 4]



- Todas mortas ! - acrescentou o Mulatinho com uns longes de pesar que acusava a malograda 
e lasciva esperança.

- Só nos resta uma - disse o Trovão, correndo em busca de Luísa, que havia caído quase sem 
sentidos no terreiro junto ao cadáver de Matias.

- Cá está ela.
- São duas, são duas.

- Esta é minha - exclamou o Trovão, acercando
se de Florinda para assenhorear
se dela.

- Trovão do diabo ! - exclamou o Mulatinho com indescritível expressão. - Não vês que é 
uma defunta.

Florinda estava na realidade morta.

- Resta
me a outra.

- A outra ? Não vês que o Joaquim já a tem em seus braços ?

- Há de ser minha, custe o que custar - redarguiu o negro.

- A outra é minha - disse um terceiro a cuja voz estremeceram irresistivelmente os dois 
bandidos.

Era o Cabeleira.

Capítulo IX

Profunda revolução se havia operado durante uma noite no íntimo do bandido.

Quando ele chegou ao couto,  estava já resolvido o assalto à família de Liberato, a qual por se 
achar mais próxima do que qualquer outra, estava no caso de merecer as honras da prioridade na 
provação.

Cabeleira não deu mostras de que aprovava, ou reprovava semelhante resolução.

Seu animo, ordinariamente prestes para toda sorte de temeridades e investidas, mostrava
se agora frio diante do assentado acometimento. Viração suavíssima passara por cima do férvido 
charco das suas paixões, e deixara, se não purificadas, decerto quietas as águas que aí se 
enovelavam turvas e lodosas. Essas águas nunca jamais viriam a ter a limpidez do regato que se 
desliza em manhã de verão, por cima de prateadas areias; podiam, porém, perder o lodo e os 
vermes que se geram e alimentam em pútridos pântanos; podiam tornar
se mansas, como as dos lagos, azuis como as dos golfos.

A princípio os companheiros do bandido atribuíram o seu silêncio, a sua tristeza e a sua abstração 


[Linha 2800 de 5692 - Parte 2 de 4]


aos ferimentos recebidos na luta.

Mas mudaram de opinião tanto que o viram pegar da viola, seu instrumento querido que, não só a 
ele, mas também a todos os do couto proporcionava, nas mãos do inspirado tocador' momentos 
de prazer e consolação.

Era de tarde. Os bandidos tomaram por uma vereda que ia ter à borda da grota aonde chegava 
levemente a aragem do tabuleiro, donde se descortinava o vasto sertão opresso e abrasado.

Aos sons da viola puseram
se uns a cantar, outros a dançar, como brincam saltando as crianças nas campinas.

De repente Manuel Corisco fez sinal para que se calassem.

- Estou vendo ali embaixo um homem que vem na direção da grata - disse ele aos camaradas.

- Você não se engana, Manuel. Ele vem tomando chegada tão gacheiro e amedrontado, que não 
pode ser amigo nosso.

Os salteadores tinham razão, porque o desconhecido era Matias.

Um deles quis imediatamente estendê
lo por terra com um tiro do seu bacamarte. Assentaram porém ocultar
se a fim de verem primeiramente o que pretendia.

Quando Matias desapareceu por um lado, segundo já dissemos, os malfeitores sumiram
se pelo lado oposto, pé ante pé, na embocadura do profundo abismo.

Tinha o Cabeleira avançado já alguns passos após os companheiros, quando uma idéia súbita, 
atuando sobre sua vontade por modo irresistível, o fez sobressaltar
se. Ele se lembrara de que se os companheiros conseguissem apoderar
se do desconhecido, não o deixariam com vida. Mas o bandido sentia
se naquele momento tão pouco disposto a contribuir para a morte de um homem que não pode 
acabar consigo que voltasse à beira da grota

- Se eu quisesse, esse desconhecido não morreria - disse de si para si. - Mas não. Se não vou 
ajudar os outros a lhe tirarem a vida, também não o irei salvar.

O lodo tinha já desaparecido da superfície do charco imundo que ele trazia no coração; restava, 
porém, ainda no fundo, como se vê a vasa corruta e pestilencial.

Para que Matias declarasse o fim que o levava àquele ponto, preciso foi primeiro que o ligassem 
com cipós a um tronco, e batessem nele sem piedade. Suplício atroz e cobarde que o índio sofreu 
com estóica resignação característica de sua raça.

- Então dizes, ou não dizes a que vieste, Veado do inferno ? - perguntara Joaquim.


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