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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Cabeleira - Parte 3 de 4 - Franklin Távora


O Cabeleira - Parte 3 de 4 - Franklin Távora



- Vim em procura daqueles que ali estão para os urubus comerem - respondera o velho.

- Até que enfim deste com a língua nos dentes.

- Quiseste primeiramente provar o cipó de rego.

- Mas não nos dirás quem foi que te mandou a isso ?


- Quem me mandou ! Tive pena dequelas mulheres que choravam por seus maridos, e larguei
me a ver se os encontrava.

- Tiveste pena das mulheres, hein ? Maganão! Havemos de lá ir hoje de noite para também
termos pena como tu tiveste.

- Elas não serão tolas que apareçam a qualquer que lá chegue - retorquiu Matias com segunda
tenção.

- Mas a ti abriram elas a porta, velho mandigueiro.

- Para mim hão de ter sempre franca a sua casa, porque sabem que eu sou incapaz de as ofender.

- Então, se lá formos, não nos deixarão entrar ? - perguntou Joaquim.

Matias, depois de um momento de reflexão, respondeu:

- Só se forem comigo.

- Pois está dito. Iremos contigo - disse o Mulatinho.

- Mas tu irás amarrado, bem amarrado, jia de lagoa - acrescentou José Trovão.

- Como quiserem, contanto que ão me matem no caminho.

- Se nos facilitares a entrada, podes ter por certo que não haverá quem se atreva a tocar
te em um cabelo sequer.
- Bem sabes que não precisamos do auxílio de pessoa alguma para tomarmos conta de uma casa
onde só há mulheres choronas - observou Joaquim. - Mas sempre é melhor entrar sem fazer
barulho para não dar que falar à vizinhança.

Era quase noite, e já a lua espargia a luz suave por sobre a solidão, quando se acharam novamente
na beira do despenhadeiro. Segundo um plano assentado entre eles, quatro seguiram com Matias
pelo lado por onde havia descido, enquanto os outros, subindo pelo lado oposto, se dirigiram ao
esconderijo a fim de se proverem dos instrumentos necessários para o assalto. Os primeiros
esperariam pelos últimos na boca da mata para, reunidos, seguirem a seu destino.

No momento em que os malfeitores tomaram a direção da engenhoca, um cavaleiro, que entrara
na mata por secretos atalhos, fora dar com o Cabeleira em seu retiro. Era o Teodósio.

- Arrumem as trouxas, e mudem de acampamento.

Foram estas as suas primeiras palavras.

- Donde vens tu ? Que diabo tens, Teodósio ?


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- Vem aí soldados que nem terra.

- Quem te contou semelhante coisa ?

- Eu que sei. O governador está comendo fogo pelo que fizemos na noite da procissão.

- Ora !... Pois que venham. Hão de saber para quanto presto. Nunca torci a cara a homem
nenhum, e não morro de careta, como sagüi.

- Eu também não tenho medo deles - disse o cabra. - Mas é bom a gente estar prevenido para
não cair no mundéu como bicho do mato.

O Teodósio unicamente suspeitava o que dizia estar para acontecer. Fino, matreiro, como era,
facilmente previra que não ficaria sem punição o crime que haviam eles cometido na vila.

Ora, Teodósio ! - redargüiu José com mostras de fazer pouco do que lhe dizia o camarada. -
Eu, por ser bicho do mato, é que não hei de cair no mundéu. Olha tu: enquanto houver mata
virgem por esse mundão de meu Deus, podem eles mandar contra mim os soldados que quiserem,
que não me apanham, ainda que sejam tantos como formigas. Não me hão de ver nem a fumaça.

- Não digo menos disso - respondeu Teodósio.

- Eu sou cabra mesmo danado - prosseguiu Cabeleira. - Quem se engana comigo é porque
quer. Meto a unha no chão, e entro nooco do mundo para nunca mais ninguém me por o olho em
cima. As matas de Serinhaém, Água Preta, Goitá, Goiana, Paraíba, Rio Grande aí estão bem
fresquinhas para esconderem em seu seio a onça pintada. É: bom que não me assanhem. Se o
governador duvidar do meu sério, sou capaz de me largar daqui, pi,pi, até à vila, e lá mesmo vou
mostrar
lhe com quantos paus se faz jangada.

- Pois afia bem a tua faca, e escorva de novo o teu bacamarte, que o trovão não tarda a roncar.
- Eu nunca deixei de trazer a faca e o bacamarte prontinhos para o serviço. Quem quiser, venha
ver.

- Está bom. Até já - disse o Teodósio, despedindo
se para sair.

- Aonde vais ? - perguntou
lhe o Cabeleira.

- Tenho cá uma idéia. Vou passar pela porta do capitão
mor.

- O capitão
mor está na vila ? - disse José.

- Não, senhor, está aí. Veio antes de mim, que não me escapou. Vou passar
me pela porta, e tirar conversa com algum soldado bisonho que aí se ache de serviço a fim dever
se pesco notícia que nos oriente.


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- Não é mau o que queres fazer. Mas, olha bem, não caias em alguma ratoeira.

- Macaco velho não mete mão em cumbuca - respondeu Teodósio, preparando
se para montar novamente.

- Faço
te companhia até o cercado da engenhoca do defunto Liberato - acudiu o Cabeleira.

E saltou sobre a garupa do cavalo que Teodósio pôs a passo pela vereda secreta que ia dar na via
pública.

- Uê ! - exclamou Teodósio, voltando
se para o companheiro a fim de melhor saber dele a verdade. - Pois morreu o Liberato, tão
amigo nosso, que nunca nos faltou com jerimum, canas e criação ?

- Ele era camarada, é verdade. Mas meteu
lhe na cabeça que havia de tirar
nos o couro, e há três dias veio bulir conosco.

- Que estás dizendo ?

- Não só ele, mas também os filhos e o bom do genro.

- Foi a sua derradeira deles, hein ?

- É verdade. O Zé Rufino, que o negro fora convidar para o ajudar na tragédia que tinha ideado
contra nós, correu logo a dar
nos parte de tudo ainda em tempo. Quando os cabras apareceram, encontraram gente. Fizemos o
bonito em poucas horas. Estão todos dentro do grotão.

- E que vais tu ver à engenhoca ?

- Vou reunir
me com os outros que lá estão fazendo uma das suas. Mas onde arranjaste tu este quartau passeiro
e passarinheiro que se vai derretendo na estrada depois da grande caminhada que traz da vila ?

- Falta aí engenho onde se vá buscar um animalzinho fora de horas para a gente fazer sua
viagem?
- Pois então vai logo pondo de olho alguns outros para fazermos a nossa mudança se a tropa
vier perseguiu
nos.

- Amanhã pela manhã teremos um lote, e poderemos meter terra em meio antes que o tropão
bata por cá.

Tinham deixado a vereda e achando
se já na estrada que, fazendo pouco adiante um ângulo, seguia em linha mais ou menos reta até o
povoado.



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Ao passarem por baixo de uma pitombeira que no ângulo apontado agitava no ar a sua copa
gigantesca, súbito ruído espantou o cavalo que por um triz não tirou o cabresto da mão do
Teodósio. Com o violento arranco, partiu
se a cilha da cangalha, e os dois cavaleiros vieram à terra.

- Diabo ! - exclamou o Teodósio contrariado e perturbado. - Foi alguma coruja que abalou
da pitombeira.

Não se havia partido só a cilha, mas também a armação da cangalha.

- Sabes que mais, Teodósio ? Acho melhor que não vás ao povoado.

- Por que não ?

- A cilha partida, a cangalha arrebentada, tudo me parece aviso para que não faças a viagem -
disse o Cabeleira.

- Estou já em outro acordo. Deixo
te o cavalo e vou a pé. Este cavalo é que me está encaiporando.

Enquanto o Teodósio seguia pela beira do rio, o Cabeleira, que havia tomado a direção da
engenhoca, dava a volta do caminho, e descobria a casa envolta em chamas cujo clarão sinistro
iluminava a estendida solidão. Em breves instantes achava
se entre os companheiros, e cortava, como vimos" a porfia do Trovão e do Mulatinho sobre a
posse de Luísa.

- Luisinha ! - exclamou o bandido. - Tu me pertences.

- Que dizes, Zé Gomes ? - interrogou Joaquim sem poder bem compreender o que ouvirá ao
filho, que lhe pareceu alucinado.

- Digo o que é. Houve tempo em que juramos, eu e ela, pertencer
nos na mocidade. Chegou a ocasião.

- Atreves
te a falar
me em juramento ! Não sabes o que estás dizendo. Esta mulher é minha, e quem for homem que
se meta a vir tomar
ma.

Ainda bem não havia proferido estas palavras quando o Cabeleira puxava da faca dando mostras
de querer ferir com ela o seu interlocutor.

- Zé Gomes, olha bem o que dizes ! - redargüiu Joaquim. - Teu pai ?

- Não tenho pai; só tenho mãe que me ensinou o caminho do bem; pai nunca tive nem tenho.
Não é meu pai aquele que só me ensinou a roubar e a matar.

- Zé Gomes, olha bem o que dizes! - redargüiu Joaquim, medindo o filho com olhar
ameaçador e terrível.


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- Já lhe disse - retorquiu o mancebo sobreexcitado pela oposição do velho, ao qual se atirou
com fúria brutal para lhe arrancar das mãos os pulsos de Luísa. afogada em prantos e soluços.

Joaquim resistiu. Outros malfeitores reuniram
se em torno daquelas duas hienas que ameaçavam despedaçar
se mutuamente. Mas não houve um só dentre tantos que tentasse compor os discordes.

Cabeleira brandiu enfim a faca contra o velho.

Neste momento voz chorosa e soluçada ressoou na solidão. Foi a voz de Luísa.

- Cabeleira - disse ela -, terás animo para ferir teu pai ?!

O braço do bandido descaiu incontinente como se aquela voz lhe tivesse cortado os músculos
atléticos.

- Meu pai! - exclamou o desgraçado. - Um pai não toma a mulher de seu filho. Mas já que o
queres, fica
te com ela - acrescentou voltando
se para Joaquim. - Cabeleira vai desaparecer para sempre, e sem o seu auxílio hão de cair nas
mãos da justiça todos os que me cercam. A tropa aí vem.

- A tropa ! - gritaram os malfeitores sobressaltados, olhando uns para os outros, e todos para a
solidão que, ao declinar do incêndio, retomava seu aspecto equívoco e medonho.

Tendo assim falado, Cabeleira deu o andar na direção da estrada. Seu espírito estava abatido, seu
coração despedaçado pelo golpe cruel que lhe havia vibrado a desgraça.

Então Luísa, vendo assim perdido o último raio de esperança, que ainda a guiava no meio das
trevas do seu infortúnio, exclamou:

- Meu Deus, meu Deus, que será de mim ?

Joaquim entretanto tinha
se atravessado diante do Cabeleira. Todo assassino é cobarde.

- Por que nos queres deixar ? - perguntou ele ao filho. - No momento em que mais
precisamos de ti, é que tu nos desamparas ? Não sejas mau, Zé Gomes. Eu te perdôo a
desobediência, e te restituo a mulher. Fujamos todos.

Cabeleira atirou
se a Luísa, e tomou
a nos braços com frenesi de alucinado.

Volvendo um instante depois os olhos ao redor, não viu um só sequer dos companheiros.
Penetrados de pânico terror, todos tinham corrido, sem exceção de Joaquim, a ocultar
se na mata.

- Vamos, Luisinha - disse o bandido à moça, com ternura. - Ninguém a ofenderá, ninguém.


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- E minha mãe ?! - soluçou Luísa caindo, que a eternidade se ia meter entre ela e Florinda, e
que sobre a terra estava tudo acabado para ela.

O bandido conchegou a ao peito e abafou lhe as últimas palavras com um beijo.

Capítulo X

Que valeu a Luísa ter-se libertado das mãos de Joaquim, se o Cabeleira a prendia em seus braços
possantes e atléticos ?

- Solte-me, solte-me - disse a moça ao bandido.

- Quer ficar aqui ? Não a deixarei só.

- Não se importe comigo. Siga seu pai, que eu irei para minha casa. Não preciso da companhia
de ninguém.

Com esforços sobre humanos Luísa tentou libertar-se das suas prisões. Foram inúteis esses
esforços.

- Se não me soltar, há de ver-me cair morta a seus pés.

Ela tinha podido apoderar-se do facão do malfeitor, e o voltava contra si mesma.

O Cabeleira parou, e soltou-a.

- Que pretende você fazer, Luisinha? Não tem pai, não tem mãe, não tem quem por si olhe. Para
onde quer ir ?

- Quero matar-me aos pés de minha mãe.

- Isso nunca.

Sem esforço nem luta ele a desarmou em um momento.

Depois perguntou, com a voz mais branda do mundo:

- Matar-se por que, Luisinha ? Não se lembra que me prometeu ser minha mulher quando um dia
nos encontrássemos ?

- Eu fiz esta promessa com uma condição, que você não cumpriu.

- Pois bem. Estou pronto a cumpri-la agora - tornou ele com ternura.

- Quer enganar-me, José ? Para que eu acreditasse em suas palavras fora preciso não o ter visto
levantar há pouco a faca para seu pai.

- É verdade; assim foi. Eu estava fora de mim - respondeu com ar pesaroso que indicava
remorso, vergonha e arrependimento do feio ato que tinha praticado. Mas que importa isso ?


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-continuou ele. - O tanto matar já me aborrece, e eu quero mudar de vida.

- Não creio, não posso crer no que você diz - observou Luísa.

- Nem se eu jurar ?

- Eu sei !...

- Que razão tem para duvidar tanto de mim, Luisinha ? Estou vendo que você nunca me quis
bem.

- Eu é que posso dizer isso de você.

- Se eu não lhe quisesse bem, não a tinha deixado livre como está. Se eu só a quisesse lograr
como fazem com as outras, quem me poderia impedir de realizar a minha vontade ? Ninguém.

- Podia, e pode ainda matar-me, mas fazer isso, nunca, nunca. Só depois de me haver tirado a
vida.

- Como se engana ! Assim o quisesse eu; mas não quero. Eu sei que você me quer bem, e por
isso não me vexo nem apresso.

Com os braços trêmulos o Cabeleira apertou Luísa novamente contra o peito onde lhe ardia o
coração em chamas de entranhado amor.

- Deixe-me, José. Aquela que você ofendeu, aquela que você arrancou dentre os meus braços,
dali o está vendo e amaldiçoando.

- Perdoe-me, não me odeie, Luisinha, por sua bondade, e pelo muito que nos queremos nos
primeiros anos. Se eu a privei de sua mãe, estou pronto a protegê-la de agora por diante. Pelo
corpo de sua mãe, juro que farei isso, Luisinha.

- Jurará também que não há de tirar mais a vida de ninguém, ainda que seja de um passarinho ?

O bandido refletiu um momento.

- E se me quiserem matar ? - perguntou depois.

- Fugirá - respondeu Luísa.

- E se não puder fugir?

- Eu quero que você jure, Cabeleira, que em caso nenhum derramará mais sangue sobre a terra,
ouviu ? Se não for assim, tudo estará acabado entre nós.

- Pois bem, Luisinha. Eu juro. O malvado será de hoje em diante homem de bem.

Luísa fitou-o como um anjo deve fitar um demônio que promete ser anjo. O Cabeleira, porém,
não lhe deu tempo para grande contemplação, porque de chofre a tomou pela terceira vez nos
braços febris, e desapareceu com ela no meio da escuridão.


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Saltar ao cavalo, vencer o vasto pátio, galgar a cerca, e, em vez de ir em demanda da mata, voltar
ao rio e descer pela margem esquerda na direção do norte, foi obra de um instante para o
destemido sicário. Luísa deixou-se conduzir em silêncio ao meio do fatal desconhecido.

Ainda bem não tinham vencido uma milha na veloz corrida, quando o Cabeleira descobria uma
cinta escura que se desenhava e movia, como nuvem de tormenta, no confuso horizonte. Seu
primeiro cuidado, ao ver aquela visão aterradora, foi afastar-se da margem, e meter-se em um
alagadiço que ficava a alguma distancia do rio. Com a grande seca o brejo estava em pó, e a
poderosa vegetação aquática reduzida a raras touças que mal encobriam uma pessoa sentada.

- Esperemos aqui, Luisinha, que passe a tropa que vai para o povoado.

Luísa conheceu que estavam em perigo, e não fez a menor oposição. Atravessando o cavalo
diante de si, acomodaram-se ambos de pé, do melhor modo que puderam, Luísa a rezar como
costumava nos momentos arriscados, Cabeleira observando em profundo silêncio, através da
escuridão da noite, a mata que aparecia, como gigantesca e estendida mole, do lado oposto da
planície deserta e medonha.

O mancebo não se enganara. Era de feito uma tropa que vinha em busca dos salteadores.

Os pelotões encaminharam-se para as embocaduras das veredas. Não havia mais que duvidar. O
segredo da encoberta estava no poder da justiça.

- Estão perdidos - disse o Cabeleira comovido. - Se foram tomadas as saídas que ficam do
lado do poente, nenhum se salvará.

Como impelido por força irresistível, o Cabeleira deu o andar para o mato.

- Que vai você fazer? - perguntou-lhe a moça com inquietação, atravessando-se na frente dele.

- Não se assuste, Luisinha. Vou defendê-los.

- Diga antes que vai morrer.

- Não, o que eu vou fazer é matar gente sem piedade - acudiu o bandido.

- Matar gente ! - repetiu Luísa. - Que valeu então o juramento que fez há pouco ?

- Ah ! - disse ele, caindo em si. - É verdade, Luisinha. Mas que quer que eu faça ? Pois não
hei de ir ajudar os meus a saírem da tribulação em que se acham ?

- Eles são muitos e valentes - respondeu Luísa; - podem bem dispensar o seu adjutório.
Demais, você não pertence mais a eles, mas a mim, a mim só; ouviu, José ?

- Sim, eu sou seu, Luisinha; eu pertenço a você pelo coração, pelo amor.

Ouvindo estas palavras, ela inclinou ao chão seus olhos mais belos que as estrelas que brilhavam
no céu.



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- Mas, você fez bem em lembrar o juramento que há pouco fiz - prosseguiu o Cabeleira. -Eu
não podia ver meus companheiros em perigo sem correr para junto deles a defendê-los. Se não
fosse você, Luisinha, eu já não estava aqui. Mas agora me lembro: saiamos sem demora, que
talvez seja ainda tempo de os salvar por outro meio.

Em menos de um instante acharam-se montados no cavalo que o bandido pos a galope em
direitura ao rio.

- Para onde vamos nós ? - perguntou Luísa, agarrando-se, sobressaltada, ao destemido
matador.

- Aonde me leva você, José ?

- Não fale, Luisinha, não fale, que pelas suas palavras podem vir sobre nós.

Nesse momento a detonação de alguns tiros e as vozes de um clarim, pregoeiro de não sei que
operação militar, indicaram que a força tinha dado com os bandidos, e que qualquer aviso para
que fugissem seria inútil.

- É tarde - disse o Cabeleira. - Já não é possível a salvação. Mas hão de Ter-me ao pé de si na
sua derradeira - exclamou, saltando do cavalo abaixo e dando mostras de querer correr ao lugar
do perigo.

- Cabeleira ! - exclamou Luísa penetrada de terror. - Você terá animo de desamparar-me
neste deserto ? Não, não há de fazer isso comigo. Veja que eu sou hoje só no mundo.

O bandido parou incontinenti. Estas palavras foram grilhões que o prenderam aos pos da
adolescente.

- Tem razão, Luisinha.

- Fujamos sem perda de tempo - acrescentou ela.

Nesse momento uma das escoltas saía da mata.

Grande vitória tinha sido ganha pelas armas reais contra os destruidores da propriedade, honra e
vida de inofensivas povoações.

Inúmeras partidas militares já tinham sido expedidas contra os malfeitores sem resultado.

Pouco depois do canibalismo perpetrado no primeiro domingo de dezembro de 1773 na ponte do
Recife, o governador Manuel da Cunha de Meneses fizera seguir contra eles uma força
considerável.

Esta força chegou a Afogados alguns minutos depois da retirada dos autores da desordem; e daí
não passou, por não ter sido possível, apesar das mais minuciosas indagações, saber o rumo que
haviam tomado os criminosos.

O Timóteo, cuja taverna foi varejada, declarou unicamente que eles tinham de feito estanciado aí,
mas que se haviam retirado sem lhe dizerem para onde. Não houve promessas nem ameaças


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bastantes a obter dele declaração mais formal e menos lacônica do que esta.

Tempos depois novas partidas foram mandadas a ver se se conseguia o fim desejado.

Tanto a que seguiu ao norte, como a que seguiu ao sul, bateram matos, atravessaram rios cheios,
empregaram enfim os maiores esforços inutilmente. Em mais de um lugar, ou de um pouso
encontraram vestígios da recente passagem dos bandidos, ou da sua ação destruidora e fatal, mas
nunca lhes foi possível dar com os três personagem, tipos legendários que todos conheciam pelos
seus tristes feitos, que todos tinham visto, a quem quase todos tinham pago pesado tributo, mas
que iludiam a vigilância e zombavam dos esforços de todos, sem exceção do poder público.
Nuvem miraculosa envolvia-os, ocultava-os, aos olhos da justiça e da lei, que tem em toda parte
vistas penetrantes e perscrutadoras a que ninguém se encobre por muito tempo. Nos seus
tenebrosos antros saboreavam o corrosivo prazer que proporciona o roubo e a impunidade. Esta
animava-os à prática de novos crimes, e expunha ao público descrédito à administração menos
digna de temer-se, ao parecer deles, do que o particular que muitas vezes resistia, defendendo a
sua propriedade, e na defesa e resistência os feria, embora tivesse de cair aos golpes
descarregados por eles com tal firmeza, que nunca deixou de ser fatal.

Cunha de Meneses, convicto da ineficácia dos seus esforços contra os quais se levantava, além da
audácia e cinismo dos malfeitores, um tríplice embaraço que mais do que estes contrastava
aqueles esforços - a falta de população, de tropas e de estradas - , embaraço que era
favorecido indiretamente pela indiferença dos mais fortes, e diretamente pelo temor da maior
parte dos moradores, renunciou ao empenho, que por muito tempo alimentou de reivindicar os
foros da administração assim afrontados diária e ostensivamente pelos sobreditos malfeitores.

Com esta mudança de resolução coincidiu a sua promoção ao lugar de governador da Bahia. Em
31 de agosto de 1774 entregava ele a José César de Meneses, a quem já nos referimos, as rédeas
do governo de Pemambuco, então, como ainda hoje, difíceis de sopesar.

José César teve de voltar a sua atenção para a guerra com a Espanha; e quatro meses depois de
haver tomado conta do governo, fez partir para a Colônia do Sacramento, então novamente no
poder dos espanhóis, bem como os fortes brasileiros de S. Miguel, Santa Teresa e S. Pedro do Rio
Grande do Sul, um regimento de infantaria.

Em 1776 tinham seguido do Recife para aquela colônia cerca de 1100 pernambucanos.

A guerra seguiu-se a peste, e à peste a fome como vimos.

Quando se achava assim a braços com este tríplice flagelo, teve ciência de que diferentes
ambulâncias que, em parte às custas do régio erário, e em parte às custas dos negociantes mais
ricos da vila haviam sido expedidas por ordem sua para os pontos onde o mal se manifestava com
maior intensidade, tinham caído nas mãos dos salteadores.

O governador mal pôde dominar a sua cólera, e na prática íntima com os que tinham muito lugar
diante dele, declarou que daquele momento em diante o principal empenho do governo ficava
sendo dar cabo dos criminosos que devastavam a província.

Desgraçadamente faleciam-lhe gente e dinheiro para pôr por obra este louvável empenho.
A terrível epidemia tinha desolado povoações inteiras.



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A fome continuava a gerar os males que em toda parte são seus companheiros naturais e
inevitáveis.

A seca desvastava ainda o interior da província como chama que irrompe do seio da terra, e tudo
abrasa e destrói.

Mas José César era ativo, enérgico, esforçado e de grandes espíritos. Confiava no poder da
autoridade, e tinha por certo que havia de restaurar a tranqüilidade e a segurança privadas, e
restabelecer o domínio das leis.

Enfim, depois de haver pensado com madureza sobre o grave assunto, deu ordem a seu secretário
para que impedisse em seu nome aos capitães mores de Iguaraçu, Itamaracá, Várzea, S. Lourenço,
Santo Antão, Tracunhaém, Nossa Senhora da Luz, Jaboatão, Muriboca, Cabo, Ipojuca e
Serinhaém a circular seguinte:

"Ordena o Sr. Governador e capitão general que, para um negócio que entende altamente com a
paz pública, se ache vm. no dia oito do corrente mês, pelas nove horas da manhã, neste palácio,
onde se há de celebrar junta a fim de tratar-se do mesmo negócio.

Vm. fará igual aviso aos coronéis das ordenanças que houver em seu distrito".

No dia designado acharam-se presentes onze capitães mores e outros tantos coronéis.

Depois do almoço, durante o qual lhes disse, explicou e particularizou todo o seu pensamento,
convidou-os o governador a chegarem até aos paços do senado da câmara de Olinda.

Uma galeota, que estava às ordens em uma das rampas do palácio, os recebeu e os conduziu à
capital ilustre.

A sessão da junta foi secreta.

Todos presumiram que a fome e a peste eram os motivos principais da reunião, mas dificilmente
conciliaram esses motivos, que estavam no público domínio, com o sigilo que se guardou durante
a sessão, e continuou a ser mantido depois do seu encerramento.

Seguiram-se, como é fácil imaginar, diferentes versões e fizeram-se longos e variados
comentários.

Falou-se de guerra no exterior, de geral recrutamento, e de novos impostos.

Veio logo a pelo lembrar igual ajuntamento que se verificou em 1727, sob o governo de Duarte
Sodré Pereira, e o imposto decretado nessa ocasião pelo dito ajuntamento, imposto calculado em
1 milhão e 50 mil cruzados, que se tornou efetivo em vinte anos, e foi destinado a ocorrer aos
gastos com o casamento dos príncipes de Portugal.

Cuidou-se em opor à forçada contribuição, caso viesse a verificar-se, a resistência que naquele
tempo apresentaram os povos da ribeira de S. Francisco.Mas passaram-se dias e semanas sem que
ato algum público, oficial, ou simples revelação particular viesse confirmar as suspeitas. A
deliberação continuou trancada debaixo dos selos do mais rigoroso segredo.



[Linha 3400 de 5692 - Parte 3 de 4]


Uma manhã um batalhão de infantaria, devidamente municiado, moveu-se, e pôs-se em ordem de
marcha na direção do sul.

Este batalhão fez alto em Afogados.

- Temos guerra - gritaram os meticulosos pelos ângulos da vila.

Alguns parasitas, plantas conhecidas e existentes em todas as regiões, mas muito mais abundantes
nas regiões oficiais, ou governativas, correram ao palácio a verem se podiam, pelos meios que
sabe a astúcia pérfida e servil, inferir das palavras de José César, ditas na intimidade, o destino a
que se dirigia a coluna militar, inesperadamente posta em armas e a caminho. O semblante do
governador, porém, semelhava uma superfície plana; não apresentava uma só roga que pudesse
trair oculto desgosto, ou indicar grave apreensão. Se da fronte passavam a estudar as palavras de
José César, não descobriam no sentido destas menos discrição e reserva do que tinham
encontrado na expressão daquela. Os lábios do governador guardavam com a severidade da
disciplina militar e das práticas do governo naqueles tempos silêncio absoluto a respeito do
acontecimento que preocupava os grandes e o popular.

A curiosidade pública mostrou-se dentro em pouco ainda mais excitada com certas notícias
trazidas do interior pelos boiadeiros, almocreves e estafetas. Em todos os distritos, por ordem dos
respectivos capitães mores, de acordo com os coronéis de ordenanças, se tinham levantado
milícias locais que evidentemente se aprestavam para um fim de grande importancia, a julgar
pelas aparências.

Das sedes de alguns desses distritos já os destacamentos haviam marchado para certos e
determinados pontos que os informantes não sabiam dizer.

Enfim, tendo reunido todos estes elementos de duvidar e de decidir, e os tendo pesado na
balança da crítica, arte ou ciência comum a todas as sociedades ainda as que se acham no estado
mais rudimentar, julgou-se o publico autorizado a afirmar que se tratava de efetuar uma diligência
de alta monta, para a qual tinham de concorrer simultaneamente as diferentes forças locais, de
combinação com algum destacamento da capital.

Capítulo XI

Antes de se haver movido da capital o destacamento que foi estacionar em Afogados, grande
confusão dominara nos espíritos dos habitantes desta localidade.

Foi o caso que pelas oito horas da noite, pouco mais ou menos, dois vultos se tinham ido colocar
defronte da taberna do Timóteo.

A alguns fregueses e freqüentadores do taberneiro causou reparo o misterioso par que ninguém se
animou a ir reconhecer, não obstante a todos parecer ele equívoco e digno de recear-se.

Não se podia confiar no tempo, principalmente nos lugares afastados da vila.

Roubos e assassinatos repetiam-se a cada canto. Na própria capital os habitantes não tinham por
seguras nem sua propriedade nem sua vida. Por isso, qualquer sujeito duvidoso suscitava, com
razão, desconfianças e medos nos homens pacíficos que por interesse próprio se apartavam sem
demora dos pontos onde tais sujeitos apareciam ou podiam aparecer.


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Quem menos se inquietou com os desconhecidos foi o Timóteo que, acostumado a tratar, de
instante a instante por assim dizermos, com essa espécie de gente, se considerava fora de todo
risco ainda quando este se desenhasse, como em certas ocasiões, com as mais vivas e medonhas
cores. A seu parecer, de indivíduos tais só tinha ele que esperar favor e proteção, visto que, sendo
sua taberna ponto obrigado das relações da capital com o centro, quer fosse de dia quer de noite,
assim de inverno como de verão, tinham eles, como ele próprio, grande interesse, se não maior do
que ele tinha, em conservar, defender, amparar esse poderoso ponto de apoio para os seus dolos,
violências e infames ciladas de que era vítima o matuto simplório, o sertanejo de boa fé, o
mascate, enfim quem quer que passava por aquela infernal estância.

Apontavam-se no lugar outras tabernas, das quais algumas tinham à sua frente patrões mais
hábeis do que o Timóteo; a do velho, porém, mestre no mister como nenhum outro, tinha fama
extensa, quase geral na província. Era uma taberna tradicional por ter servido muitas vezes de
teatro a cenas de sangue e morte.

Pelas festas de arraial, o jogo, a crápula aí se praticavam com prejuízo considerável da ordem
pública, da fortuna particular, do sossego e honra das famílias.

Estas circunstâncias, este passado davam-lhe certo prestígio que atraía para o imundo balcão, ou
para a lôbrega camarinha da tasca o vicioso por hábito, o filho da viúva, a rapariga infeliz, os
quais iam encontrar debaixo das quatro telhas do casebre largo campo onde dar expansão a suas
paixões reprovadas.

Quando algum freqüentador, exaltado pela cachaça, ameaçava esfaquear o vendeiro por alguma
das suas, respondia ele, abrindo a camisa, e mostrando o largo peito coberto de espessos e
avermelhados pelos:

- Pode fazer do peito do velho Timóteo bainha da sua faca. Já bebeu a minha aguardente, não
será para admirar que queira agora dar meu sangue a seu cachorro magro. Mas de uma coisa tenha
você certeza; ainda que me mate, ainda que me esfole, não passa o gadanho no meu zimbo.
Poderá comer mais sardinhas, chupar do meu vinho, mas de dinheiro nem ceitil há de cair na sua
unha.

Timóteo dizia a verdade. Ele tinha todo o seu haver amoedado em lugar só dele conhecido.

Ficara só no mundo depois da morte da Chica, e entesourava sem destino o que ilicitamente
adquiria. Seus únicos companheiros de casa eram um cão e dois gatos. Estes últimos comiam com
ele à mesa, quase no mesmo prato, e, para bem dizermos, dormiam na mesma cama.

Por isso, quando viu os misteriosos vultos parados defronte da taberna; quando os viu mais tarde
dirigir-se para esta no momento em que ele ia fechar as portas por se haver de uma vez retirado a
freguesia do dia, disse Timóteo com a maior fleuma:

- Podem entrar sem susto, que o Timóteo é amigo.

Os desconhecidos ganharam de um pulo a tasca, e trataram de fechar as portas.

- Fazem bem - disse-lhes o vendeiro, sem se dar por achado. - O tempo não está para graças.
Mas se vosmecês estão aqui de emboscada a algum tonante, será bom deixarem aberta esta


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janelinha da porta.

- Não estamos de emboscada a ninguém, porque quem queríamos já está seguro - disse um
deles, trancando com a taramela a janelinha indicada.

- Ah ! Já sei. Querem cear comigo. Não ponho dúvida.

Os desconhecidos entreolharam-se como se se consultassem.

- Não façam cerimônia, camaradas. Naquela mesinha, que ali vêem, muito fidalgo tem feito a
sua refeição. Tirem os capotes, se querem estar à vontade; e esperem um momento que não há
demora.

Sem esperar resposta, o velho tomou o interior do casebre, e voltou logo, trazendo pães, postas de
peixe frito, e uma cuia com farinha.

- Então ? Que fazem ? Vão sentando-se, e toca a comer.

Não esperem por mim, que sou de casa e não tenho etiquetas.

E entrou novamente, manifestando, pela prontidão com que tratava de pôr a ceia, a melhor
vontade de ser agradável aos entranhos hóspedes.

Não eram estes no todo simpáticos, mas também não eram mal encarados.

O que representava ser mais moço era seco de corpo, tinha boa estatura, cor fula, olhos cintilantes
e redondos, cabelo chegado ao casco. O nariz um pouco rombo estava em desarmonia com as
outras partes da cara onde se lia uma expressão de audácia, que respondia bem à agilidade do
corpo.

O outro era feio de feições, baixote e roliço. A cor, o ângulo facial, o cabelo carapinha estavam
claramente denunciando a sua proveniência africana.

Por baixo dos capotes, já velhos, cingia-lhe os rins um cinto de couro donde a cada um pendia
uma espada de ponta direita. Eram as espadas as únicas armas que traziam à vista. Sentaram-se à
mesa sem tirar os chapéus de palha com que estavam cobertos.

- Vinho ou cachaça ? - perguntou o velho, apontando, de volta, na porta, com uma penca de
bananas que lhe vinham caindo das mãos de maduras.

- Vinho - disse o mais moço.

- Traga da cana para mim - acrescentou o outro.

- Muito bem - respondeu Timóteo. - Olhem: o pão é da padaria do Zé Braga, o peixe é do
viveiro do Muniz, a farinha é de Muribeca, e as bananas são do meu quintal. A cachaça é do
engenho Mendonça, e o vinho é puro de Lisboa.

No fim da ceia, que as reiteradas libações prolongaram, e que correu animada, por mais de um
dito, um gracejo, uma sentença licenciosa, o Timóteo dirigiu estas palavras aos hóspedes:


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- Não está má esta. Dei-lhes da minha ceia sem saber quem são vosmecês. Agora, os seus
semblantes, se não me falta a memória, não me são de todo estranhos.

- Assim deve ser - disse o cabra. - Mais de uma vez tenho comprado aqui o meu vintém de
aguardente.

- Isto é outro cantar; já vejo que somos conhecidos velhos.

- Tão conhecidos somos, seu Timóteo - replicou o cabra - , que tomo a liberdade de o
convidar para um passeio agora mesmo por esta estrada afora.

- Nossa Senhora da Paz livre-me tal - disse Timóteo empalidecendo. - Sair a esta hora, por
este tempo, deixar a minha casa à revelia, Santo Deus! Nem pensem nisto, meus bons amigos.

- Não tem que recear, meu caro. Cada um de nós traz, como vê, uma espada à cinta, e a sabe
manejar.

- Bem estou vendo - disse Timóteo. - Mas sempre lhes quero dizer: o crioulo Gabriel sabia
muito bem jogar a espada, e melhor a faca, mas o Cabeleira o lambeu.

- Ah ! o Cabeleira? - disse o negro.

- Sim, senhor; ele aparece por aqui às vezes; eu o tenho visto fazer proezas de espantar.

- Seu Timóteo - disse o cabra, levantando-se - , fez bem em falar no Cabeleira. Eu quero
perguntar ao senhor uma coisa...

Antes que terminasse a sua oração fez-lhe um sinal o negro, e ele disfarçou por este modo:

- Mas é já tarde, e nós não podemos demorar mais. Vem ou não vem ?

- Para onde, senhor ? - perguntou o vendeiro, levantando-se aterrado por haver finalmente
compreendido que tinha diante dos olhos dois inimigos.

- Saberá depois. O essencial é que nos acompanhe.

- Não posso fazer tal coisa.

Timóteo recuou instintivamente quando ouviu as últimas palavras do desconhecido. Este porém,
em um instante o tinha segurado pelos pulsos enquanto o negro lhe passava uma corda nos
braços.

- Como é que me fazem isto ? - perguntou Timóteo - Querem matar-me ?

- Não, senhor - disse o cabra. - Você há de chegar vivo, bem vivo a seu destino, ainda que o
Cabeleira se meta a tirá-lo das nossas unhas, o que eu duvido.

- E a minha venda ?



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- A sua venda fica aí; nós não a levamos.

- Mas... roubam-me tudo, tudo.

- Não tem você roubado a tanta gente ?

- Ora ! Feche bem as portas, e avie-se que é tempo. Se não quer ir pelos pés, irá amarrado como
um porco.

Timóteo aceitou, contra vontade, já se vê, e por não ter outro remédio a situação que lhe afigurou
irrevogável.

-Vista o seu gibão, que você vai ser apresentado a gente nobre.

- Ah ! - disse o vendeiro,respirando, mas não sem grande espanto, que mal disfarçou.

Pouco depois os três convivas seguiam, a marcha batida, pela estrada de Santo Antão. Tendo
deixado a taberna, cujas chaves o Timóteo levava consigo por permissão dos desconhecidos,
haviam estes pouco adiante entrado com ele no mato para tomarem dois cavalos que ali tinham
deixado ocultos. Em um deles montou o negro, e no outro montaram o cabra e o vendeiro, este
passado de medo, que o acaso não era para menos, aquele guardando-o na garupa, e tendo uma
faca nua na mão. Tomaram novamente a estrada, e logo desapareceram como sombras fantásticas,
no fundo da escuridão.

Conforme a deliberação tomada no senado da câmara pelo governador, capitães mores e coronéis
de ordenanças, a busca dos malfeitores tinha de ser dada ao mesmo tempo nas matas dos
respectivos distritos.

- Estes bandidos - dissera o governador - fazem-nos maior dano do que a fome, a peste e a
guerra. Matam a sangue frio, para roubarem a fazenda àquele que pacificamente a ganhou com o
suor do seu rosto. Penetram nas casas, nas lojas, nos engenhos, nos próprios templos, e, tirando
daí o fruto da economia e o trabalho honesto e esforçado da propriedade alheia, vão consumi-lo
nas suas orgias e delírio. A sua passagem o pobre não fica privado somente das suas migalhas;
fica também privado da sua honra, da honra das suas filhas; se se não atrevem a fazer hoje o
mesmo aos ricos e nobres, amanhã o farão, animados por um longo passado para o qual não posso
volver os olhos senão com tristeza, porque ele diz que aos meus predecessores faltou animo para
esmagar a hidra do crime, ou que foram eles indiferentes aos males privados e publicados que
resultaram da sua impunidade dela. Não quero que o meu nome passe à história de envolta com
essa impunidade; há de passar com o lustre da autoridade que se faz respeitada por cumprir com
zelo e coragem os seus deveres, entre os quais se conta o de castigar os delinquentes. Fio que os
senhores capitães mores e coronéis hão de auxiliar a administração, que, nestes intuitos, não
atende senão à glória de sua majestade, que Deus guarde, e a paz e felicidade dos povos. A falta
de tropas será suprida pela criação de milícias provisórias, e locais para o fim único de acabar com
os coutos dos facinorosos; e a de dinheiro sê  pelo erário régio, que segundo me autorizou sua
majestade por carta firmada por sua real mão, adiantará por empréstimo a quantia necessária para
a mantença dessas tropas até que de todo se tenham aniquilado os coutos. O erário será ressarcido
das quantias que houver adiantado, por meio de um imposto que se lançará para o dito fim sobre
os povos dos distritos rurais, ou dos que ficam distantes desta vila duas léguas, atendendo-se a
que a estes o benefício da extinção dos coutos ocasiona particular proveito.



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Nenhum dos convocados teve que opor ao pensamento e vontade do governador, conhecido
como uma autoridade arbitrária. Todos, ao contrário, votaram por estas idéias, certos de que se
atendia por tais meios a uma necessidade pública da maior magnitude. "José César governou
arbitrariamente, é verdade, diz um historiador, mas as suas arbitrariedades raras vezes deixaram
de ter um fundo de justiça. Na punição dos delinqüentes foi infastigável".

Chegado a seu distrito, cada capitão mor tratou de levantar a milícia volante, a qual foi formada
dos indivíduos solteiros, maiores de vinte e menores de quarenta anos, com exclusão somente
daqueles que por si dessem outrem.

Não foram poucas as dificuldades que tiveram de vencer para que se formassem os contingentes,
destinados a pacificar o interior.

Não sabendo o verdadeiro fim que se propunha a autoridade com a fundação desses
contingentes, suspeitaram os povos uma grande leva para fora da terra para combater o
estrangeiro. Mas os capitães mores conseguiram desvanecer as suspeitas por meio de afirmações
sob palavra de honra. Naqueles tempos a palavra do homem equivalia a jurídica obrigação ou a
solene tratado, e a honra era digna e eficazmente representada por um cabelo da barba. Hoje, as
próprias palavras dos reis tornam atrás, as convenções diplomáticas não passam de ciladas
internacionais, a honra tem-se refugiado nos retiros com medo da publicidade, que a expõe a
geral pouco caso.

Temos subido muito nas ciências, indústrias e artes, sem exceção da arte de governar; mas, em
ponto de honra, em virtudes cívicas, em moral doméstica, a nossa decadência, impossível de
recusar, atesta que temos levado a obra da reformação além dos limites pertinentes, e prova a
necessidade de transplantarmos das ruínas do passado, onde vicejam esquecidas, algumas plantas
modestas, cujas flores purificam o ar com seus perfumes, e cujos frutos formam sangue novo e
são.

O capitão mor de Santo Antão, querendo avantajar-se aos outros, antecipou-se nos meios de por a
mão nos malfeitores.

Sabia ele das assíduas relações do Cabeleira com o velho taberneiro, a princípio por mera suspeita,
e posteriormente por informações que tomou de agregados e ordenanças seus, alguns dos quais,
de passagem para o Recife, entravam na taberna, bebiam nela o seu grogue, e algumas vezes até
ali pernoitaram. No dia fatal, em que o famigerado bandido tirava a vida aos dois meninos,
passara por Afogados o capitão mor momentos depois do dobrado delito.

O comércio ilícito do taberneiro, a sua má fama, as suas estreitas ligações com sujeitos mal vistos
de todos, principalmente com o Cabeleira, deram-lhe a convicção de que qualquer diligência, que
tivesse por fim a prisão dos delinqüentes não poderia surtir efeito se não fosse precedida da
prisão do taberneiro. Duas praças de sua confiança foram por ele encarregadas de levarem o velho
a sua presença sem que se soubesse para onde nem como ele fora. Alexandre, o negro, e
Valentim, o cabra que vimos ceando com Timóteo e que por sobremesa o prenderam foram as tais
praças; e a vista do modo como se houveram, cabalmente justificaram a confiança do capitão
mor.

Ia amanhecendo quando os três cavaleiros se apearam na porta deste.

As casas do povoado estavam ainda fechadas, e ninguém os viu entrar; o capitão mor que levara a


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noite em claro, à espera dos seus comissários, foi abrir-lhes a porta em pessoa.

Timóteo, posto em confissão, negou tudo ao princípio, saindo-se, com várias evasivas, das redes
que lhe lançava o capitão-mor, perito em interrogar.

Quando porém a sua vida ameaçada; quando formalmente se lhe declarou que a sua morte seria
inevitável se não auxiliasse com lealdade a ação da justiça na busca dos criminosos; quando o
Alexandre de espada desembainhada, e o Valentim de faca na mão, receberam do capitão mor
ordem para infligir-lhe a pena última dentro da capoeira próxima; quando se viu arrastado por eles
ao teatro onde se lhe destinara o trágico fim que horroriza todo homem - a morte natural, o
instinto da própria conservação retomou ao cálculo e às manhas do vendeiro os seus direitos.
Confuso e abatido, Timóteo aceitou o odioso papel que lhe foi distribuído naquela grave
representação em que importantes interesses e muitas vidas iam correr iminente risco.

Timóteo conhecia todos aqueles lugares onde tinha andado na sua mocidade em dias de feira de
gado.

A seca que estava desvastando a província tinha-lhe proporcionado ocasiões de conhecê-los
melhor. A escassa farinha, os poucos legumes e outros comestíveis que apareciam nas feiras gerais
eram logo comprados por atravessadores que os iam revender com usura no Recife. Nos primeiros
tempos Timóteo resignou-se a ver passar os produtos no poder dos atravessadores; mas
faltando-lhe esses produtos, não só para os expor na sua taverna, senão também para o próprio
uso, tomara o acordo de ir pessoalmente um sábado por outro a Santo Antão prover-se do
necessário para a semana. Quando o Cabeleira estava na mata, Timóteo ia ter com ele e lhe
comprava por quase nada o que muitas vezes tinha custado a vida do pobre roceiro, que deixava
mulher viúva e uma infinidade de filhos na orfandade.

Destarte estava ele senhor dos caminhos e carreiras que iam ter à encoberta onde entrava com
familiaridade, e donde saía como amigo.

Ele sabia que o Cabeleira se achava na terra por haver estado de passagem na sua taverna,
conforme vimos. De tudo informado, o capitão-mor aguardou ansioso a noite seguinte, para dar
começo à batida da mata. Com o fim de iludir porém a vigilância dos assassinos e escusar as suas
suspeitas, mandou notificar as praças do contingente para que se achassem em um ponto das
matas do seu engenho, ao qual cada um devia dirigir-se desacompanhado a fim de não dar na
vista de quem quer que fosse.

Tanto que anoiteceu, o capitão mor deu ordem para que Valentim, Alexandre e dez matutos
experimentados se trepassem em árvores próximas das quais pudessem observar o rumo que os
malfeitores tomassem depois do escurecer. Estas sentinelas perdidas deviam dar aviso à tropa que
estava no engenho, para que ela, guiada por Timóteo, corresse a tomar as entradas, e pudesse
prender os malfeitores em sua volta ao couto. Foi o que sucedeu. Quando Valentim viu os ladrões
tomarem, à boca da noite, pelo caminho da engenhoca, desceu-se da pitombeira onde se trepara,
montou no cavalo que tinha preso de prevenção dentro de uma moita, e correu ao engenho. A
tropa moveu-se incontinenti, sob o imediato comando do capitão mor.

Dividida a metade dela em tantos piquetes quantas eram as picadas secretas, tomou todas estas, e
achou-se em condições de interceptar a passagem daqueles para o ponto central. A outra metade,
colocada a um lado da mata a distancia conveniente, pôde acudir aqueles pontos logo que o
Valentim que depois do aviso havia voltado ao seu posto, foi informá-los da volta dos


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malfeitores. Assim, acharam-se estes, quando voltaram da engenhoca, entre duas colunas
inimigas, às quais forçado foi entregarem-se, quase todos com a morte. Ao Joaquim se poupou a
vida, a fim de se cumprir a determinação do governador, não só a respeito dele, mas também do
Cabeleira e do Teodósio para fins de alta justiça.

Quando o Cabeleira se afastou com Luísa da beira do rio para o alagadiço, o Valentim estava
dando o seu segundo aviso, e eles puderam, por isso, escapar à sua inspeção.

Tinha ele, porém, ouvido antes, de cima da pitombeira, o diálogo do Cabeleira com o Teodósio, e
sido causa do ruído que espantara o cavalo deste último. Tinha visto aquele encaminhar-se à
engenhoca, o que o fizera acreditar que entre os malfeitores, que tinham de tornar, e efetivamente
tornaram à mata, se achava o famigerado bandido, alma do couto, terror dos povos. Não lhe
parecendo, por isso, necessário vigiar o terrível salteador, que ele considerava seguro com os
outros na armadilha que lhes havia armado, consagrou-se todo a evitar que lhe escapasse o
Teodósio. E como queria ter grande parte na glória que resultasse da extinção dos célebres
assassinos, voltou sobre seus passos à estrada, e encaminhou-se ao povoado.

Valentim era bravo como uma onça, e tinha deste animal a agilidade e a destreza no mais alto
grau. Confiava, não só nestes dotes naturais, mas também na sua espada de ponta direita que
muitas vitórias já lhe havia proporcionado. Ele jogava com insigne habilidade esta arma.

Pouco adiante ouviu vozes. Apressou os passos, e encontrou-se face a face com o Teodósio, que,
nada sabendo do que havia, demandava o couto.

Com ímpeto de fera botou-se a ele, não para vencê-lo mas para matá-lo.

- O seu gracejo é pesado, camarada - disse o Teodósio, recuando ante a brutal investida.

- Valentim não graceja. Rende-te, cabra Teodósio; ou então reza o ato de contrição, que esta é a
tua derradeira.

- Se eu trouxesse a minha espada, não lhe enjeitada o bote. E se quer saber para quanto presta o
cabra Teodósio, embainhe o seu ferro, e vamos decidir da sorte pela faca.

- Não estou para tuas parolas, cabra safado. Se não te entregas já nas mãos do Valentim, que
nunca escolheu armas para provar que é homem, tiro-te o couro antes do amanhecer.

Teodósio, vendo aquela decisão ante a qual poucos ânimos, talvez unicamente o do Cabeleira,
deixariam de curvar-se; e conquanto nos recursos do seu gênio astucioso que nunca o havia
desamparado ainda nos maiores apertos, respondeu com voz melíflua:

- Não me mate, meu amo; o Teodósio rende-se.

No momento em que assim falava, o Valentim descarregou-lhe tamanha pranchada na cara, que
ele caiu redondamente no chão.

Quando voltou a si, tinha nos pulsos enrodilhada uma corda de couro cru, em cuja ponta segurava
o cabra.

- Levanta-te, que quero olhar para a tua cara - disse-lhe Valentim fustigando o prisioneiro com


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a ponta da espada. - Onde está a tua fama, cabra Teodósio ?

Este não respondeu.

Súbita tristeza invadira-lhe o espírito ordinariamente expansivo como o de uma criança.

Tinha ouvido tiros na mata, e conhecido que a situação era mortal.

Capítulo XII 

Ao amanhecer a região litoral da província desde Alagoas até Paraíba estava separada do sertão
por cordão sanitário formado pelas milícias volantes dos diferentes distritos rurais.

    Todas as matas compreendidas na zona que fica entre a costa e o sertão foram batidas ao
mesmo tempo.

    Os piquetes que penetram nas de Serinhaém, Água Preta, Muribeca, Merueira, S. Lourenço,
Catucá, Iguaraçu, Goiana, Pau d'Alho, Limoeiro, recolheram-se mais tarde às respectivas sedes,
depois de terem realizado importantes capturas.

    Assassinos de profissão e de fama, que, protegidos pelas trevas da noite e pelas sombras das
selvas virgens, tinham horrorizado durante muitos anos as povoações pacíficas, apareceram à luz
do dia, trazendo nos pulsos cordas e algemas que bem denotavam que a justiça dos homens,
reflexo ainda que pálido da justiça de Deus, cedo ou tarde restaura os seus foros e faz-se respeitar
como uma fatalidade reparadora.

    O capitão-mor de Santo Antão, justamente vangloriado por ver no seio de sua força o
Joaquim e o Teodósio, cuja fama ofuscava a de todos os criminosos, com exceção somente do
Cabeleira, seguiu imediatamente, à frente dela, para o Recife a apresentar-se ao governador.

    No caminho de Afogados reuniu-se ela com a força que, tendo aguardado nesse lugar aquele
dia, designado para a geral batida das matas, se movera pela manhã em direitura às que lhe
ficavam nos limites ocidentais. As duas forças chegaram ao Recife formando uma só expedição
que foi recebida pelos habitantes com inequívocas demonstrações de consideração e
reconhecimento pelo relevante serviço que haviam feito.

    Tantos eram os crimes cometidos pelo Cabeleira, e estes crimes haviam sido revestidos, na
sua maior parte, de circunstâncias tão odiosas, que, quando se divulgou que o afamado bandido
tinha escapado às malhas da rede da justiça, mostras de justo pesar vieram substituir-se nos
semblantes de todos à expressão do regozijo recente que havia manifestado a população.

    Com raras exceções, não se contava família, desde o Recife até o alto sertão, a quem a pela, a
faca ou o bacamarte do terrível matador não houvesse roubado uma existencia querida.

    Por isso, era ele o alvo em que todos haviam posto a mira, e perdê-lo montava perder a
diligência, ao parecer da maioria.

    Alguns, não sem razão, mostravam-se receosos de que, quando menos se esperasse, ele viesse
forçar a cadeia do Recife onde tinham sido postos a ferro os novos presos, e restituindo-lhes a
liberdade de que tão mau uso haviam feito, se pusesse com eles novamente em campo para matar


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com maior ferocidade que dantes, roubar sem tréguas, incendiar povoações, reduzir tudo a
sangue, ossos e cinzas.

    O governador entretanto mal podia conter a. sua satisfação diante do resultado das
providências que ele próprio havia indicado para a extinção dos bandos dos criminosos que
infestavam a província.
    Ele conhecia melhor do que o povo e os figurões da vila e da capital, as dificuldades,
algumas delas invencíveis, que se atravessam naturalmente diante de expedições semelhantes. Ele
sabia que perseguir através do deserto, para reduzi-los à prisão, homens que vivem como as feras,
e com elas, no seio de escusas brenhas, de regiões inóspitas e desconhecidas, é empresa para
grandes ânimos, raros em todos os tempos e em todas as terras, máxime naquelas terras em que,
como em todo o Brasil então, o importante serviço da polícia está por ser organizado, à míngua
de pessoal apto para isso, de recursos pecuniários, de vias de comunicação interior, de prisões e
de outros muitos elementos indispensáveis a este grande mister.

    A cadeia, que por poucas alterações passou há poucos anos a fim de servir, como serve, para
casa do júri e do tribunal da relação, tinha sido dada por pronta pelo coronel de engenheiros
Costa Monteiro, à câmara nos fins de 1732, e preenchia todas as condições de segurança pela sua
solidez. Não obstante, ordenou o governador que a sua guarda fosse confiada a forças duplas que
tornassem impossível qualquer tentativa de invasão ou de arrombamento. As vizinhanças
ofereciam o aspecto de uma praça de armas, principalmente dos lados do norte e leste onde a
vigilância nunca seria demasiada, por oferecer o rio destes lados fácil e natural acesso ao edifício.

    As pessoas de sua intimidade que lhe manifestavam descontentamento por não ter sido preso
o Cabeleira, respondia o governador:

    - Há de chegar a sua vez. Confio muito em Cristóvão de Holanda Cavalcanti que ainda não
deixou de corresponder aos intuitos do governo sempre que se trata do proveito da colônia.

    Cristóvão de Holanda Cavalcanti, que trazia, como se vê, o nome que seu pai, sargento das
ordenanças, ilustrara por ocasião da memorável Guerra dos Mascates, era o capitão-mor de
Itamaracá, e achava-se a esse tempo em Goiana.

    Goiana pertencia então à jurisdição de Itamaracá, que deixara de ser em 1763 capitania
independente, por havê-la comprado d. João V a José de Góis, para incorporá-la na capitania de
Pernambuco, vendida à coroa em 1716 pelo conde de Vimioso, d. Francisco de Portugal, único
genro de Duarte de Albuquerque Coelho, 4.° donatário de Pernambuco.

    Era uma modesta povoação em 1636, quando os esforços de Antônio Filipe Camarão que a
defendeu com o valor que o caracterizava, não foram bastantes a tolher que ela caísse no poder
dos holandeses, povo cheio de grandeza, e digno da admiração e do reconhecimento dos
pernambucanos. Tendo-se mudado em 1685 para esta povoação a câmara da capitania de
Itamaracá, passou ela por este fato à categoria de vila. Em 1742 deu-lhe d. João V um ouvidor
que foi substituído em 1808 por um juiz de fora. A sua crescente prosperidade foi parte para que
pela lei provincial de 5 de maio de 1840 fosse elevada à cidade.

    De presente é Goiana a cidade pernambucana de mais nota, depois do Recife, a capital, e de
Olinda que figurou, com brilho e bizarria inexcedíveis nos tempos coloniais.

    Está em condições, não só de competir com as primeiras cidades interiores do norte e do sul


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do Império, e de se avantajar às capitais de algumas províncias que, por motivos de alta
conveniência deixamos de apontar aqui, mas até de rivalizar com algumas cidades européias de
que não pouco se fala nas narrações de viagens.

E se não, vejamos.

    Tem um paço municipal muito decente na rua Direita, e uma matriz e mais oito templos que
podem pertencer sem desaire a uma capital.
    Tem uma praça de comércio, a qual se estende desde a rua chamada Portas de Roma
(denominação do tempo dos jesuítas) até ao Beco do Pavão, para não dizermos até à rua do
Meio, ou à rua do Rio.

    Tem um teatro onde já tive ocasião de ver representar-se o "D. César de Bazar", os "Dois
Renegados", a "Corda Sensível" e o "Judas em Sábado de Aleluia".

    Tem cafés e bilhares, brinca o Carnaval pelo inverno, toma sorvetes pelo verão, dá alguns
saraus pelo Natal; enfim, para estar inteiramente na moda, trata de iluminar-se a gás, de fundar
uma biblioteca popular, e tem já fundada uma loja maçônica, denominada Fraternidade e
Progresso, a qual tem prosperado notavelmente depois das últimas excomunhões que o público
sabe.

    É uma cidade onde se pode viver com poucos meios, porque os habitantes são hospitaleiros,
os senhores de engenho fazem pingues presentes, os negociantes vendem fiado e não executam
os devedores.

    É plana, limpa, elegante e espalhada. Dela não poderia dizer Ampère o que disse de
Goteborg, cidade da Suécia que tanto o encantou de tarde com suas casas altas e regulares,
quando o desiludiu pela manhã sendo vista da torre da catedral, por não ser mais do que uma rua.

    Goiana, não só tem muitas ruas, mas também muitos becos, verdade seja que alguns deles
sem saída. Merecem particular apontamento as suas casas brancas que lhe dão certos ares de
novidade, ou de noivado, ares que infundem indefinível alegria no espírito do hóspede. Se este é
lido, entrando em Goiana, logo sabe que não entrou por engano em Saint Jean de Luz, ilustre
cidade onde se celebrou por procuração o casamento de Luís XIV com Maria Teresa de Espanha,
e que, ao dizer de um escritor, apresenta uma fisionomia sanguinária e bárbara, em conseqüência
do extravagante uso de pintarem de vermelho antigo os batentes, as portas, as gelosias das suas
habitações.

Há um provérbio espanhol que diz:

Quien no ha visto Sevilla
 No ha visto maravilha.

    Teófilo Gautier pensa que mais justo fora que este provérbio se aplicasse a Toledo, ou a
Granada, do que a Sevilha, onde nada encontrou particularmente maravilhoso, exceto a catedral.

    O poeta sergipano, doutor Pedro de Calasans, que cedo foi arrebatado pelo infortúnio e pela
fatalidade às musas do norte, dizia outrora, parodiando o provérbio espanhol:

Quem não ama Olinda,


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Não a viu ainda.

    Assim será, assim é. Olinda semelha náiade gentil que adormeceu sobre arrelvado morro os
pés banhados pelo Atlântico, a cabeça à sombra das mangueiras odoríferas.

    Goiana, porém, tem também provérbio seu, e o seu provérbio é de tal significação, que, na
singeleza em que se expressa, e de que o povo tem o segredo, insinua irresistíveis feitiços a favor
dela.

    Vê tu, meu amigo, como são expressivas estas reticências duvidosas, ambíguas,
deliciosamente traidoras:
         Goiana...................
       Que a todos engana.

    Eu não conheço nenhum tão expressivo na ordem dos rifões populares.

    O vocábulo - enganar - não tem nos nossos dicionários o sentido que a inteligência rica e
lúcida do povo goianista lhe refere; tem somente a acepção ingrata que todos lhe sabemos.

    Mas logo ao primeiro exame se vê que semelhante acepção está muito distante da que a
imaginação deste grande povo liga ao sobredito verbo, quando emprega para exaltar o seu torrão
natal.

    A palavra - enganar, que faz parte do rifão, significa - seduzir, cativar, prender, mas
seduzir com mil agrados irre

sistíveis; cativar com benignidade tão doce e fagueira, que é impossível deixar de ficar dela
escravo; prender com tantas demonstrações afetuosas, com tamanha benquerença, que em vez de
buscar fugir, cada vez se sente o prisioneiro mais dese joso de estar nessa suavíssima prisão, de
não se desligar jamais dos seus deliciosos grilhões.

    Cristóvão de Holanda dirigira em pessoa, como haviam feito todos os outros capitães-mores,
o seu contingente na batida das matas do seu distrito.

    Não tendo porém encontrado o Cabeleira, mas somente ladrões de cavalos e negros fugidos,
recolheu-se à vila em paz com' a sua consciência, é verdade, mas descontente de não ver coroados
dos brilhantes sucessos, que esperava, os seus esforços.

    Não lhe custou pouco renunciar ao empenho de pôr nas cordas, como dizia ele, o maior
facinoroso que pisava em Pernambuco.

    Era presunção geral que a ele caberia, mais dia menos dia, a glória de prender o Cabeleira que
dava mostras de consagrar particular estimação às matas de Goitá, lugar em que nascera e que,
posto pertencia neste tempo a Santo Antão, ficava mais próximo do engenho Petribu que era
propriedade daquele capitão-mor; e pertencia então a Goiana.

    Mas o boato falso que correu a respeito da prisão do bandido pelo capitão-mor de Santo
Antão, desvaneceu toda a esperança que Cristóvão de Holanda alimentava a semelhante respeito.

E que era feito do Cabeleira ?


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    Por onde andava ele quando seu nome corria por milhares de bocas um milhão de vezes no
dia; quando sua imagem enchia o pensamento de um povo que o considerava um flagelo não
menos fatal do que a peste e a fome que o reduziam à dor extrema?

    Dizia-se que o Cabeleira, vendo-se perseguido tão estendidamente, tinha rompido, sem
deixar traços da sua passagem como costumava, o cordão sanitário, e se havia internado nos
sertões de Cimbres, ou de Pajeú, donde era impossível desentranhá-lo por serem então, como são
ainda hoje, quase de todo desconhecidos esses medonhos sertões.

    Dizia-se que, tomando para o norte, atravessara o Capibaribe e ganhara a ribeira do Pilar do
Taipu, na Paraíba, a qual muitas vezes percorrera, tendo-a deixado coberta de cadáveres e ruínas.
 
    Correram estes boatos e outros mais que com estes se pareciam.

O certo porém é que ninguém sabia do Cabeleira, ente incompreensível que surgia de súbito da
terra sem ser esperado, e pela mesma forma desaparecia, como se se metesse por ela adentro, por
partes do demo, segundo alguns acreditavam, ou por ter em toda a parte parciais, ou protetores,
segundo pensavam outros que se diziam melhor informados do que os primeiros.

Capítulo XIII

O Cabeleira entretanto atravessava matos, riachos e tabuleiros por novos caminhos que,
infatigável e ousado, ia abrindo, em direitura ao lugar do seu nascimento.

Sentia-se atraído para esse lugar por uma saudade infinda, por uma confiança enganosa e fatal.

Parecia-lhe que ninguém, nem a justiça dos homens nem a de Deus, na qual desde os mais verdes
anos o tinham ensinado a não acreditar, teriam poder para arrancá-lo desses sombrios e protetores
esconderijos, dessas grutas insondáveis, perpetuamente abertas às onças e a ele, perpetuamente
fechadas ao restante dos animais e dos homens que não se animavam a transpor-lhes o escuro
limiar com receio de ficarem sepultados para sempre em tão medonhos sarcófagos.

Tendo-se afastado do pé da mata onde haviam sido vencidos e capturados em seus redutos os
outros malfeitores, descreveu uma oblíqua de cerca de uma légua no rumo do ocidente e desceu
depois a uma distancia donde pudesse ter debaixo das vistas o Tapacurá, que lhe servia de guia
através do sertão.

Estava em pleno deserto. Do lado direito protegiam-no estendidos tabocais e profundas
gargantas de serra inacessíveis, sem habitação, sem viva alma; do outro lado do rio um espinhal
basto, alguns serrotes escalvados, catingas sem fim, brejos combustos do calor do sol
completavam o largo amparo que lhe abria em seu seio a natureza.

Com a seca abrasadora essa região, que nunca fora amena, ainda na forca do verde, estava
inóspita, árida, cruel.

Via-se a espaços um pé de xiquexique perdido nos alvos tabuleiros, ou entre serros alcantilados, e
junto do rio uma ingazeira com a folhagem coberta de samambaia, um juazeiro solitário e sem
fruto.



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Seria meio dia.

Bem que o Cabeleira pelo longo hábito de jornadear por dentro dos matos, e pelo cuidado que
tinha de escusar importunos encontros, só à sombra das árvores fazia a travessa do deserto;
contudo entraram ele e Luísa a experimentar o cansaço que o excessivo calor gera máxime
durante uma viagem de muitas horas.

Luísa mal se podia ter sobre o cavalo, que nem ao menos oferecia o cômodo de uma regular
montaria. A marcha do pobre animal tanto mais penosa tornava para os fugitivos quanto as forças
lhe iam faltando em conseqüência do longo jejum, e da puxada viagem.

Desde muito tempo afeito a viver no deserto, tinha o Cabeleira adquirido uma virtude - sóbria,
obra de longas privações, e fonte de admirável heroísmo; não assim Luísa, pobre menina, criada
com grande afeto, e maternal solicitude.

Não tivera ela uma existência de gozos e grandezas, mas nunca lhe faltaram os cômodos que
assegura a vida regrada da família, que, embora pobre, encontra no trabalho e na economia
recursos folgados para todas as necessidades até alguns confortos. A sombra de um jatobá o
Cabeleira parou, e, lançando o olhar por toda a natureza, que os abraçava como a imensidade
abraça um ponto:

- Estamos fora de perigo - disse para Luísa.

Esta chorava em silêncio. Em seu rosto abatido, mas sempre belo transparecia a mágoa profunda
que lhe minava o coração, onde se refletia a viva lembrança das cenas da noite anterior.

- De que chora, Luisinha ? - perguntou-lhe o bandido com doçura.

Só com a mudez e as lágrimas lhe respondeu a moça, em cujo espírito se haviam concentrado
todas as sombras da tristeza, sombras espessas em que o sol a pino não pode lançar um raio de luz
sequer.

- Está cansada, não é, meu amor? - perguntou o Cabeleira. - Estou para morrer. Sinto uma
pena imensa no coração, e dores insuportáveis na cabeça.

- Não me queira mal, Luisinha, por eu ter sido a causa de todo este destroço.

- Não lhe quero mal; quero-lhe bem, muito bem, Cabeleira. Mas não posso esquecer-me de
minha mãe, nem poderei resistir à minha desgraça, que eu considero muito maior do que a sua.

- Descansemos um pouco à sombra deste jatobá. Terei tempo de procurar algumas frutas para
você comer.

- Não tenho fome, só tenho sede.

- Vamos então arranchar-nos debaixo daquela ingazeira, que fica a poucos passos do rio.

Tendo-se apeado ao pé da árvore indicada, o Cabeleira peou o cavalo em uma baixa que formava
a margem, da qual não havia desaparecido de todo a grama nascida com o último inverno; e sem
demora desceu ao poço contíguo para apanhar água em uma casca de sapucaia que descobriu por


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acaso entre umas folhas secas.

Notou que quanto mais se estendia a depressão do terreno para o lado do rio, mais aumentava a
verdura que a revestia. Conheceu por fim que havia dado em uma vazante.

Semelhante achado pareceu-lhe coisa extraordinária naquelas alturas ínvias e desertas. Mas não se
tinha enganado; a região que se lhe oferecia à vista não era de todo desabitada; ali brilhavam
vestígios da mão do homem; ali havia o cunho de um esforço de que ele nunca fora capaz, o
cunho do trabalho.

Era pequena a plantação, mas tida, ao que parecia, em alta conta por quem quer lhe consagrava os
seus cuidados e vigilância.

Estava verde, limpa, matizada de frutos. Com os ramos do jerimunzeiro se confundiam as folhas
lanceoladas do batateiral. Ao lado da melancia lourejava o melão, de que recendia suave cheiro; e
dentre o entretecido de verdura formado pelo conjunto dos ramos rasteiros em que se achavam
presos estes deliciosos presentes da terra, levantavam-se ao céu, de covas eqüidistantes, os pés de
milho com seus pendões inclinados e suas corpulentas espigas, em torno das quais se esparziam os
fulvos cabelos que costumavam adornar estes abençoados frutos.

É indescritível o prazer que sentiu o bandido ao deparar com aquele tesouro.

Tinha a seu alcance com que matar a fome, cujos efeitos começava a sentir, tinha um presente que
oferecer à sua companheira, extenuada de fadiga.

Separar do pé com a faca, duas melancias, e quebrar algumas espigas foram operações que o
Cabeleira praticou em menos de um minuto. O estalar do milho despertou um rapazito, que,
achando-se ali para enxotar as maracanãs que destroem os milharais, adormecera ao calor do meio
dia na extremidade da vazante debaixo de uma latada formada pelos ramos de um pé de
maracujá que, com a frescura do solo, se mostrava verdejante e florido.

- Ladrão ! Ladrão ! - gritou o rapazito com valor e força superiores aos que o seu corpo e
estatura prometiam.

E armado com um pau, investiu contra o Cabeleira, que a inesperada aparição deixara um instante
perplexo com parte do furto em uma mão, e a faca nua na outra.

O rapaz ganhou em poucos passos a distância que o separava do bandido, e descarregou sobre a
cabeça deste, sem dizer tir-te nem guar-te, o pau que trazia alçado. O Cabeleira em represália
atirou-lhe um golpe com o intuito de cortá-lo de meio a meio, intuito que foi burlado por Luísa
que-lhe havia pegado do braço a tempo de evitar a desgraça iminente.

- Cabeleira ! Queria fazer uma morte ainda ? Meu Deus, abrandai-lhe o coração.

- Luisinha, eu não sei bem o que queria fazer - disse o moço caindo em si. - Mas este
dorminhoco deu-me com o seu graveto como se eu fosse algum pinto.

- Quero-lhe muito bem, meu amor - acrescentou a moça com a profunda ternura que, quando
verdadeiramente quer e sente o que quer, a mulher sabe ter no olhar, no gesto, na voz. - Mas
quando o vejo como agora de arma em punho, ameaçando com certeiros quais são os seus, a vida


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de alguém, sinto tão grande dor, que você não pode compreender o meu padecimento.

Cabeleira inclinou os olhos ao chão, meteu a faca na bainha e deu a andar com os frutos debaixo
do braço.

- Para que traz você estes frutos consigo ? - perguntoulhe Luísa. - Eles não nos pertencem, e
não podemos apossarnos, contra a vontade de seu dono, daquilo que não é nosso.

- Que vamos comer ? - perguntou muito naturalmente o mancebo.

- Comeremos o que nos der o mato. Deus está em toda parte, e não se esquece dos que invocam
a sua proteção.

Cabeleira submisso e humildemente depôs as frutas no chão sem mais reparo. Quanto ao rapazito,
guarda da vazante, havia desaparecido desde que ouvira pronunciar o nome, que de sul a norte
significava, para grandes e pequenos, roubo e atrocidade.

Nova surpresa os esperava na margem, onde o bandido foi dar com dois indivíduos que de pé o
olhavam do alto de uma pedra, tendo um deles pelo cabresto o árdego alazão, já livre da peia com
que o atirara ao campo o Cabeleira.

Defronte da árvore, a cuja sombra os fugitivos haviam descansado, formava o terreno uma
grande ribanceira.

Os desconhecidos estavam aí com a frente voltada para a vazante, o lado direito para o
continente, e o esquerdo para o rio, que nessa altura era largo e profundo.

- Parece que você veio enganado, camarada - disse o Cabeleira, saltando em um minuto aos
pés daquele que tinha pela mão o cavalo. - Este animal não lhe pertence.

- Este animal é meu no céu e na terra. Há dois dias o furtaram do meu roçado no Angico Torto.
Pus-me na batida do ladrão, e finalmente vim dar com o meu cavalo. Ele é meu, tão certo como
estou aqui. Tem o meu ferro na anca direita, e você o pode ver, se ainda não se quis dar a esse
trabalho.

- Pois o que eu lhe digo, camarada, é que fosse ele de quem fosse, por mais homem que seja,
ninguém será capaz de tirá-lo do meu poder.

- Isto agora é que havemos de ver - disse o desconhecido, batendo mão da faca que trazia no
cós da ceroula e fazendo-se prestes para lutar pela reivindicação da sua propriedade.

- Monta no teu cavalo, Marcolino - gritou o outro desconhecido  ao companheiro; - monta
no teu cavalo e vai-te embora, que eu só sou demais para lamber este cabra.

Ainda bem não tinha acabado, quando cortava os ares um corpo semelhante a tronco de árvore
que o furacão arrebata às florestas e arroja a distancias incomensuráveis. O fanfarrão fora jogado
com todos seus bélicos aprestos dentro do poço pelas mãos possantes do famoso matador.

- Cabeleira ! - gritou Luísa, correndo ao lugar onde em menos de um instante se passara a
inesperada cena.


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Marcolino, que a esse tempo se achava montado no alazão, tendo ouvido este fatal apelido, deu
de pernas ao cavalo e fugiu evidentemente aterrado como se a seus pés houvesse visto cair um
raio.

O Cabeleira, entretanto, tinha corrido ao pé da ingazeira onde havia deixado o bacamarte quando
se apeara. Mas não logrou levá-lo ao rosto para dispará-lo como pretendia, contra o fugitivo,
porque Luísa, unindo-se com ele, e buscando arrancar-lhe a arma das mãos, lhe disse com voz
magoada, entre exprobração e pranto:

- Por que não me tira a vida de uma só vez, Cabeleira ?

Diria que Luísa estava possuída de um espírito angélico.

- De ontem para cá - prosseguiu ela - tem jurado milhares de vezes não derramar mais sangue
sobre a terra, e milhares de vezes tem quebrado seus juramentos ! Sempre que falta à sua palavra,
atravessa sem o suspeitar o meu coração com sua faca. Não demore mais o meu penar, mate-me
de uma vez. Perdôo-lhe a morte, por Deus lhe juro, por Deus que nos está ouvindo no meio desta
solidão.

Luísa tinha-se insensivelmente ajoelhado aos pesdo bandido, e lhe abraçava as pernas com
mostras de irrepreensível afeto. Dos olhos rolavam-lhe lágrimas como contas de rosário
espedaçado.

Estático, e confuso, não achou José palavras para responder à exprobração e rogativas que aquele
coração generoso ditava inspirado pela piedade de uma alma grande e terna.

- Não me fale assim, Luisinha - respondeu enfim o bandido, levantando-a e
abraçando-a.-Quando eu a vejo chorar, sinto-me enfraquecer; quando você me pede alguma
coisa, sou incapaz de negar-lhe, ou de resistir à sua vontade.

- Mas de que serve o que me diz, se não se esquece da sua vida tão triste e infeliz ? Cabeleira,
por que não se há de tornar brando e terno como Luísa ? Olhe. A morte está mais perto de mim
do que...

- A morte ! - exclamou o bandido.

- Sim; dentro em pouco eu o deixarei, mas enquanto não nos separarmos, poupe-me estas cenas
que me transpassam o coração. Quando eu desaparecer de seus olhos, não se considere só no
mundo. No lugar que meu corpo deixar vazio ao pé de si, há de ver sempre a alma benévola da
pobre Luísa; ela o acompanhará por toda parte para inspirar-lhe os bons pensamentos e
aconselhar-lhe a prática das boas ações. Por que não me dá consolação de reconhecer em você
desde já um espírito arrependido dos passados erros ?

- Ah! Luisinha! Você me abranda com suas palavras, em sua presença eu me considero uma
criança.

- É Deus que me ajuda a quebrar seus ímpetos, a moderar sua cólera. Ele há de ouvir todos
meus rogos, há de inspirar-lhe horror ao sangue e aos instrumentos que o derramam.



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Cabeleira, como se tivesse recebido nestas palavras aviso celeste, replicou:

- Não levantarei mais minha mão contra ninguém, Luisinha. Quer uma prova desta resolução ?
Veja. É a maior que lhe posso dar.

Tirou o fuzil e a pedra do bacamarte, os quais meteu na algibeira da véstia.

E por um desses sublimes impulsos que só visitam o ho mem uma vez na vida, arremessou a arma
dentro do rio. Este ato foi seguido de outro que o completou e confirmou. Batendo com a faca
sobre uma pedra que ficava na ribanceira, fez saltar dentro da água metade da folha de aço que
tinha cortado o fio de muitas vidas preciosas, e feito correr muito sangue inocente sobre a terra.

O bandido obrou estas duas ações com tanta fé e grandeza d'alma, que Luísa correu a ele
dominada de peregrina comoção, e o apertou em seus braços.

Só o deserto foi testemunha desta grande cena, porque eles estavam, como havia poucos, sós.

O menino que guardava a vazante havia desaparecido logo que ouvira pronunciar o nome do
Cabeleira.


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O Cabeleira - Parte 1 de 4 - Franklin Távora


O Cabeleira - Parte 2 de 4 - Franklin Távora


O Cabeleira - Parte 3 de 4 - Franklin Távora


O Cabeleira - Parte 4 de 4 - Franklin Távora



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