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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Entre a Terra e o Mar - Manguezais


ENTRE A TERRA E O MAR - Manguezais


Os bosques de mangues, regados pelas marés, protegem os continentes da erosão, reduzem a poluição das praias e, principalmente, garantem comida farta para a fauna dos oceanos.

Quando despencam tempestades em alto mar, a agitação repentina na superfície do oceano forma ondas quilométricas, cuja violência se reflete nas regiões costeiras. As águas salgadas, então, ameaçam avançar sobre o continente, em um avassalador fenômeno de ressaca. Essa fúria, no entanto, pode ser aplacada por uma rede de raízes esdrúxulas, suspensas sobre o chão lodoso, desenhando castiçais de ponta-cabeça. Nelas, apóiam-se árvores de até 30 metros de altura - os mangues, acostumados a periódicos banhos de mar. "Essa vegetação, típica das  regiões tropicais, evita que as ondas destruam tudo pela frente, ao alcançarem a terra", aponta o geógrafo Renato Herz, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. "Ela também protege as áreas ribeirinhas dos rios contra as enchentes, ao diminuir a força das inundações." Mas não pára por ai a importância das florestas de mangues, ou manguezais, que delineiam cerca de 25 % dos litorais do planeta.
"A cortina verde tramada por essas árvores é capaz de filtrar poluentes", assegura Herz. "Isso reduz a contaminação das praias." Ou seja, fronteiras entre aterra e o mar, os manguezais também funcionam como barreira no sentido inverso, impedindo que produtos do continente sejam despejados nas águas costeiras. "Quando há desmatamentos próximos às áreas litorâneas, as raízes aéreas dos mangues retêm os sedimentos do solo", exemplifica o biólogo carioca Mário Moscatelli. "Sem isso, toneladas de materiais seriam carregadas pelas chuvas até se acumularem no fundo do mar, o que impediria a aproximação de navios, por causa do risco de ficarem encalhados. Portanto, os manguezais tornam muitos portos viáveis." Há pouco mais de um ano, Moscatelli se viu forçado a abandonar a direção do Departamento de Controle Ambiental de Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro: "Fui ameaçado de morte, porque denunciava estragos nos manguezais daquele município", garante. Segundo o biólogo, no famoso arquipélago carioca, os manguezais correm o perigo de desaparecer do mapa devido à especulação imobiliária, que freqüentemente aterra esses bosques. "A destruição dos mangues já está provocando uma vertiginosa queda na captura do camarão", observa Moscatelli. "Isso prejudica a pesca artesanal, que sustenta inúmeras famílias brasileiras. Mas, sobretudo, mostra a total ignorância do papel dos manguezais como fonte de alimentos."
De fato, nove em cada dez peixes pescados no mundo inteiro provêm de áreas costeiras e balas que, juntas, não somam sequer 10% da superfície marinha. Não é história de pescador: a responsabilidade pela concentração de cardumes nesse espaço reduzido de mar cabe, mais uma vez, aos recém-valorizados manguezais. Só na década de 70, afinal, surgiram os primeiros estudos, realizados nos Estados Unidos, atestando sua importância para a ecologia. "A cadeia alimentar marinha começa nessas florestas", explica a bióloga Yara Scheaffer Novelli, da Universidade de São Paulo. Com mestrado em Oceanografia, a professora magra e agitada, que exibe a pele bronzeada sob uma maquilagem discreta, é considerada uma das maiores autoridades na discussão sobre o papel das florestas de mangues. Por isso, é sempre convidada para cursos e palestras em diversos países. Carioca, Yara herdou do pai, químico, a paixão pela ciência e pelos barcos. "Passei a infância velejando na Bala de Guanabara", recorda, hoje aos 48 anos. Não é de espantar que, ao chegar em São Paulo para cursar pós-graduação, em 1966, ela tenha optado por investigar a reprodução dos peixes. Dez anos mais tarde, começou a desenvolver um minucioso levantamento dos manguezais brasileiros, inédito até então.
Segundo a bióloga, ao ser atacada por fungos e protozoários famintos, a vegetação dos manguezais derruba folhas, frutos e flores, que começam a degradar-se; no chão lamacento, eles se combinam com uma série de proteínas e minerais transportados pela água doce dos rios, chuvas e lençóis freáticos. O calor do sol, finalmente, ajuda milhões de micróbios, presentes tanto no solo como na água salgada das marés, a terminarem a receita de um caldo nutritivo, que alimenta, por exemplo, os filhotes de camarões. "Essas moléculas de nutrientes são arrastadas pela maré, enquanto baixa, até as áreas costeiras", descreve Yara. "Dai, enchem a barriga de larvas e peixes pequenos que, por sua vez, alimentam espécies marinhas maiores e assim por diante." A fartura de comida típica dos manguezais torna possível sua superpopulação: convivem ali até 10000 indivíduos - entre peixes, moluscos e crustáceos - por metro quadrado. Por isso, nada irrita mais Yara do que confundir esse ecossistema com brejo - "o qual é, por definição, um lugar alagado por águas paradas e podres", trata de esclarecer.

Mas, para que as florestas de mangues cumpram sua função de primeiríssimo elo na corrente alimentar marinha, é preciso que haja um balanceamento entre a água doce e a salgada. Desse modo, qualquer alteração no ambiente, nas imediações de um manguezal - como, por exemplo, a construção de barragens - pode quebrar seu delicado equilíbrio - e prejudicar, no final das contas, boa parte da fauna dos oceanos. Os mangues, aliás, se adaptaram para acompanhar as variações naturais da salinidade no meio conforme o vaivém das marés. Isso porque suas raízes têm dificuldade em absorver água e nutrientes, quando a concentração de sal no meio externo faz com que a pressão do lado de fora seja maior do que a pressão no interior de suas células - daí o tamanho nanico dos mangues no Rio Grande do Norte, regados com água muito salgada.
Na tentativa de igualar as pressões, e assim conseguir absorver nutrientes, essas árvores têm a peculiar capacidade de estar sempre regulando sua dosagem interna de sais. "Outra forma de adaptação é a viviparidade", lembra Yara. "Ou seja, os frutos germinam grudados na árvore-mãe, evitando que as plantas pequeninas enfrentem o ambiente hostil, salgado e com pouco oxigênio disponível no solo."No Brasil, predominam três espécies de árvores: O mangue vermelho (Rhizophora mangle), O mangue siriúba ou mangue preto (Avicennia schaueriana) e finalmente o mangue branco (Laguncularia racemosa). Além destas, encontra-se o florido algodoeiro-da-praia (Hibiscus pernambucensis), embora não seja uma árvore exclusiva dos manguezais. "A diversidade de espécies não é característica dessas florestas", justifica Drude de Lacerda, professor de Geoquímica na Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. "Mas, no Equador, chegam a existir vinte espécies de mangues." Comodamente, sobre as árvores, crescem bromélias, samambaias e orquídeas, classificadas pelos botânicos como epífitas, porque vivem apoiadas em outras plantas. De seu lado, os troncos e as raízes dos mangues são colonizados por algas marinhas.
Os manguezais merecem ainda o título de berçários do mar: "Diversos peixes e invertebrados marinhos preferem desovar ali", conta Lacerda. Uma das razões dessa escolha é a temperatura quente, ideal para o desenvolvimento dos embriões O solo, escuro por causa da grande quantidade de material orgânico em sua composição, absorve praticamente toda a luz solar, liberando essa energia na forma de calor. Além disso, os manguezais podem oferecer mais segurança à prole. Tanto assim que a maioria dos filhotes espera chegar à idade adulta para se aventurar pelo mar. "Eles encontram comida suficiente para crescer e, eventualmente, despistam predadores, nadando pelo labirinto das raízes aéreas", descreve Lacerda.
Na realidade, as florestas de mangues não servem de maternidade apenas para espécies marinhas: fêmeas de aves como o pelicano e o guará passam a viver nos manguezais, durante a época de reprodução. Outros animais, porém, fixam residência nesses bosques litorâneos para o resto de sua vida. É o caso do aratu (Aratus pisonii), uma espécie de caranguejo que raramente desce das árvores, alimentando-se das algas agarradas nos troncos. As ostras, também? formam imensas populações sobre as raízes aéreas, na companhia de siris, camarões e uma série de moluscos, como o sururu, que carrega uma concha violácea.
Alguns bichos, é verdade, são moradores novos: "Os bosques à beira-mar acabam sendo o último refúgio para animais de outras florestas, quando ocorrem desmatamentos", diz Lacerda. "Nos Estados Unidos, certas espécies de jacaré acabaram correndo para os manguezais da Flórida", exemplifica. Na Índia, por sua vez, onde se localizam alguns dos maiores manguezais do mundo - junto com os da Malásia e os da costa atlântica da África - , estão se realizando campanhas para a preservação desse ecossistema que, danificado, leva trinta anos para se recompor. Os indianos se preocupam por causa de sua alteza o tigre-de-bengala, que também mudou de endereço, vivendo entre os mangues daquele país.

Mangues de Norte a Sul

No Brasil, existem cerca de 
25 000 quilômetros quadrados de florestas de mangue, que representam mais de 12% dos manguezais do mundo inteiro. Aqui, a destruição desses ecossistemas começou cedo, logo em seguida à chegada dos colonizadores. Com muita água, madeira à vontade e alimento farto, essas regiões pareciam ideais para povoados. Por isso é que as capitais da maioria dos Estados litorâneos brasileiros - as exceções, no caso, são Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo - ficam em áreas de antigos manguezais, aterrados ou destruídos indiretamente pelo processo de urbanização. Hoje em dia, os especialistas dividem em dez trechos as florestas de mangues que ainda resistem:
Amapá: entre o Oiapoque e o Cabo Norte estão as florestas de mangues mais bem preservadas do pais, porque a camada profunda de lama, nos períodos de maré baixa, dificulta o acesso do homem. As árvores chegam a ter 20 metros de altura.
Pará: no chamado golfão amazônico, há florestas de mangue preto e mangue vermelho, exploradas para a extração de lenha e carvão.
Maranhão: os manguezais se concentram na Bala de São Marcos e contornam a Ilha de São Luis, onde fica a capital do Estado. "Encontramos depósitos de lama tóxica, por causa da extração de alumínio na região, que podem contaminar todo esse trecho, como aliás aconteceu com os manguezais da Austrália", denuncia a bióloga carioca Norma Crud. "Para agravar, as plantações de arroz volumes enormes de defensivos agrícolas nos rios que banham os manguezais maranhenses."
Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará: no trecho de manguezais que engloba os três Estados, as vegetações são pouco desenvolvidas, porque a água é muito salgada. Certas áreas estão sendo desmatadas para a construção de salinas.
Pernambuco, Sergipe, Bahia: a região sempre se caracterizou pelo fato de os manguezais estarem separados por praias arenosas. No entanto, a distancia entre eles vem aumentando, por causa da ação do homem. Em Pernambuco, por exemplo, essas florestas já foram praticamente destruídas.
Espírito Santo: o crescimento da capital, Vitória, contribui para a poluição dos manguezais capixabas, que em algumas áreas chegam a ser aproveitados como aterro de lixo. Segundo Norma Crud, o projeto de construção de três barragens na foz do Rio Paraíba, para geração de energia, é uma grave ameaça. "Isso atrapalhará o balanceamento entre a água doce e a salgada" explica. "A manjubinha e o pitu, camarão de água doce, serão bastante prejudicados, pois costumam subir o rio para desovar nos manguezais. Ao chegarem ali, o desequilíbrio na salinidade poderá impedir a sua reprodução."
Rio de Janeiro: segundo estudos do passado, as florestas de mangue da Baía de Guanabara e da Ilha Grande, em Angra dos Reis, eram importantes refúgios de espécies marinhas. Hoje, quem diria, graças a aterros e à poluição, tornaram
se exemplos típicos da degradação dos manguezais.
São Paulo: no litoral sul do Estado, encontram
se manguezais praticamente intocados, na região de Cananéia e da Juréia. "No Brasil, eles talvez sejam os melhores bancos genéticos desse ecossistema" diz Norma.
Paraná: os manguezais, que se estendem até a região de Paranaguá, têm sido relativamente bem preservados.
Santa Catarina: é onde termina a faixa dos manguezais brasileiros. "Mas, infelizmente, ali se repete a situação carioca. Além da poluição, os manguezais vêm sendo sistematicamente aterrados para a construção de grandes projetos imobiliários", descreve Norma. "Não há mais bosques de mangues extensos, o que se vê apenas são manchas de manguezais no mapa do Estado."

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