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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O segredo de Leonardo - Arte

O SEGREDO DE LEONARDO - Arte



Ao pressentir a proximidade da morte, o curador do Museu do Louvre olha para as obras de arte ao seu redor e tenta encontrar uma maneira de passar adiante um segredo secular. Usando o próprio corpo como mensagem e o sangue como tinta, posiciona-se de maneira excêntrica ao lado de um intrigante texto, que fala em santas, números e demônios. Na escuridão do museu, ele exala seu último suspiro na esperança de que sua mensagem seja compreendida.

Assim começa um dos maiores fenômenos pop do ano. Com mais de 14 milhões de exemplares vendidos no mundo inteiro (160 mil só no Brasil, onde não saiu da lista dos mais vendidos desde que foi lançado, em março deste ano - são 25 semanas entre os bestsellers, segundo a revista Veja) e traduzido em mais de 40 países, O Código Da Vinci acertou em uma veia sensível do imaginário popular ao cruzar, em ritmo cinematográfico, personagens bíblicos, sociedades secretas e história da arte em uma trama de cenário real, com evidências que podem ser encontradas em algumas das mais famosas obras do herói renascentista que empresta o nome ao título desse thriller histórico.

Considerado anticristão ao ponto de ser banido do Líbano no mês passado, o livro do escritor inglês Dan Brown vem incomodando historiadores e grupos religiosos. Sua principal virtude é ir fundo nas teorias conspiratórias que desconstroem a realidade como a conhecemos, oferecendo uma versão convincente - e mais fascinante - da história da civilização. Adepta do silêncio em meio ao tiroteio de versões e contraversões, a Igreja Católica preferiu não comentar essas teorias, sobretudo aquela que a acusa de manipular e adulterar toda a história de Jesus Cristo.

Por seu lado, o mercado editorial não poderia estar mais radiante com o desempenho de O Código, que segue gerando filhotes sobre os temas abordados no romance original. Só no Brasil, já são três os descendentes dessa linhagem: Quebrando o Código Da Vinci, em que o professor Darrell L. Bock desmente as principais acusações de Brown; Revelando o Código Da Vinci, no qual o pesquisador Martin Lunn separa o que é verdade e o que é ficção no livro; e Decodificando Da Vinci, em que a inglesa Amy Welborn desconfia seriamente do original. Nos Estados Unidos, onde foi lançado em 2003 pela editora Doubleday, a febre já virou epidemia, com mais de meia centena de livros publicados na esteira do sucesso de Brown.

O dono dos direitos do livro no Brasil, Marcos da Veiga Pereira, da editora Sextante, tem na ponta da língua a explicação para o sucesso relâmpago: "Trata-se de um Harry Potter para adultos". Nada mau para um pequeno calhamaço de quase 500 páginas.

A Conspiração
Em O Código Da Vinci, o historiador da Universidade de Harvard Robert Langdon é envolvido em uma perseguição que tem início com o assassinato de Jacques Saunière, curador do museu do Louvre, em Paris. Encontrado morto em circunstâncias misteriosas dentro do museu, o curador deixa pistas cifradas que serão seguidas por Langdon e pela criptógrafa Sophie Neveu por toda uma noite em pontos turísticos de Paris e de Londres, como a Igreja de Saint Suplice, a Igreja do Templo, o túmulo de Isaac Newton, a Abadia de Westminster e o próprio Louvre.

O fascínio despertado pela aventura foi tamanho que levou a série de guias turísticos Fodor’s a lançar o "Itinerário Da Vinci", um roteiro com os locais citados em Paris. O museu do Louvre também entrou na onda e, ao preço de 133 dólares por cabeça, passou a oferecer uma turnê de duas horas e meia cujo tema é "Quebrando o Código Da Vinci". Na Itália, o fluxo de turistas aumentou na Igreja Santa Maria delle Grazie, em Milão, onde está A Última Ceia, de Da Vinci, e até mesmo a capela de Rosslyn, na Escócia, nunca foi tão visitada.

Ao longo da trama, Langdon, uma mistura de Sam Spade com Indiana Jones, e Sophie, uma atraente francesinha, seguem as pistas escondidas por Leonardo da Vinci em algumas de suas obras mais conhecidas, como a Mona Lisa, a primeira versão da Virgem das Rochas, o Homem Vitruviano e A Última Ceia. As indicações os levam ao Priorado de Sião, uma sociedade secreta cuja existência é incerta e que teria tido como grãos-mestres o alquimista Nicolas Flamel, o escritor Victor Hugo, o pintor Sandro Botticelli, o físico Isaac Newton, o compostor Claude Debussy e o cineasta Jean Cocteau, além de, é claro, o próprio Da Vinci.

O Priorado de Sião, que seria o braço intelectual da Ordem dos Cavaleiros Templários, um grupo igualmente sombrio e de atuação controversa, teria sido fundado para propagar um dos maiores segredos da história, a tal "conspiração de 2 mil anos". Segundo essa versão, a Igreja Católica foi fundada sobre uma grande mentira: que Jesus Cristo seria o filho de Deus. Para os defensores dessa tese, Jesus teve sua biografia manipulada durante a edição da Bíblia. E mais: que Cristo não morreu na cruz, mas fugiu para o sul da França, onde se casou com Maria Madalena e deu início a sua casa real, conhecida como Linhagem Sagrada.

Enquanto a dupla se ocupa de desvendar esses segredos (e descobrir o assassino do curador Saunière), a polícia francesa segue em seu encalço ao mesmo tempo que um misterioso monge da irmandade cristã Opus Dei inicia sua busca por algo que pode tornar sua organização mais poderosa do que nunca. Na versão de Brown, tanto a Opus Dei como a Igreja Católica são tratados como grandes conspiradores.

A reação
"A idéia de que os primeiros cristãos não consideravam Jesus divino antes do Concílio de Nicéia em 327 não se sustenta e essa é a grande fraqueza da teoria bem amarrada de Dan Brown", afirma o pastor e doutor em teologia do Seminário Teológico de San Francisco, o americano Wesley Tracy. Na trama, a Igreja reuniu seus bispos e criou toda a teoria da suposta divindade de Jesus no encontro de Nicéia, na Turquia. "Apesar de ele colocar tais afirmações na boca de alguns personagens ‘acadêmicos’, a premissa é falsa. Há documentos pré-Nicéia e pré-Constantino (o primeiro imperador romano cristão) que asseguram a divindade de Cristo. A cópia parcial do evangelho de João do ano 125, que está na biblioteca Rylands, em Manchester, é uma dessas provas", diz.

"Sabemos que a Ordem de Sião realmente existiu na Idade Média, que era conectada aos templários e que foi santificada pela Igreja", afirma a pesquisadora Tracy Twyman, editora da revista Dagobert’s Revenge, cuja linha editorial aborda diferentes aspectos do mistério do Graal e da Linhagem Sagrada. "Podemos assegurar que existe ainda hoje um moderno Priorado de Sião, com uma agenda política atualizada e integrantes nos governos francês e inglês. Mas é impossível provar que o Priorado de Sião moderno é uma continuação da ordem original, assim como não há provas de que Da Vinci e Isaac Newton tenham sido seus grãos-mestres."

"Muita bobagem já foi e continua sendo escrita sobre os templários", diz Diarmaid McCulloch, professor de teologia na Universidade de Oxford, Inglaterra. "O que se sabe é que eles foram uma ordem militar de cavaleiros que acumulou uma grande quantidade de terras em nome de um projeto que visava proteger o caminho para a Terra Santa", diz. O fracasso da proposta e o crescimento do poder dos templários incomodou monarcas europeus, que decidiram destruí-los. "Foi quando surgiram acusações de crimes e heresias", afirma o professor.

Segundo McCulloch, a conspiração que inclui Jesus Cristo, o Priorado de Sião e o Santo Graal é produto de conflitos entre Igreja e Estado na França do século 19, apimentados por um curioso personagem, o padre Bérenger Saunière. Vigário em Rennes-le-Château, ele teria acumulado fortuna de forma rápida e suspeita. Para justificar o enriquecimento, Saunière fez circular histórias fantasiosas sobre a existência do tesouro dos templários e do cálice sagrado. "No frágil estado da política francesa, suas atividades misteriosas encaixaram-se bem na rede de conspirações de extrema direita da época", diz McCulloch. "Tais fantasias continuam a florescer até hoje", completa.

Para Nora Berend, professora de história medieval na Universidade de Cambridge, Inglaterra, as teorias do livro de Brown não passam de invenção. "É tudo especulação. Por que há tanta teoria da conspiração? Pela mesma razão por que as pessoas especulam sobre a morte de John Kennedy: a insaciável curiosidade sobre a vida de figuras históricas e pessoas famosas", diz Nora.

"O Código Da Vinci é um divertido passeio por todas essas histórias e conspirações num modelo que o italiano Umberto Eco já havia feito em O Pêndulo de Foucault", diz McCulloch. "Justamente por tudo se encaixar tão bem é que o livro deve ser tratado apenas como entretenimento, não história", diz.

O conspirador
Por mais que Dan Brown tenha sido tachado de herege, seus interesses parecem ser outros. Há pelo menos quatro anos, ele tenta ingressar no mercado de best sellers, tateando temas potencialmente explosivos como privacidade pessoal e vigilância digital (Digital Fortress, de 2000) e bastidores da política americana (Deception Point, de 2001). Sua veia histórico-conspiratória, no entanto, começou a despontar quando enviesou por temas obscuros, como os "iluminatti" (outra sociedade secreta do século 15) em Anjos e Demônios, sua primeira aventura com o professor Robert Langdon (2001), que chega às livrarias brasileiras este mês. O tão almejado estouro aconteceria em 2003, com o lançamento de O Código Da Vinci no mercado americano.

Atualmente, o autor, que aos 38 anos vive na Inglaterra, não dá entrevistas sob a justificativa de estar terminando seu novo romance, uma conspiração que interliga Washington e Maçonaria. De olho em um mercado ainda maior, Brown já vendeu os direitos de O Código para o diretor Ron Howard, que prevê o lançamento do filme em 2005. Entre os cotados para viver Langdon estão Russell Crowe, George Clooney e Hugh Jackman, ainda que o professor seja descrito pelo autor como "um Harrison Ford num terno tweed".
Em seu site, o escritor afirma que controvérsia é saudável. "A religião tem apenas um inimigo verdadeiro, a apatia, e o debate é um antídoto soberbo", diz. Filosofia à parte, o fato é que, com uma escrita leve e uma bagagem cultural considerável, Dan Brown descobriu uma fórmula capaz de interligar personagens históricos e religiosos num universo paralelo de paranóia e segredos semelhante a fenômenos do pop, como Arquivo X e Matrix. Assim, ainda que logo no início do romance o autor faça questão de avisar que todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos e rituais secretos correspondam "rigorosamente à realidade", O Código Da Vinci, com suas supostas verdades, não passa de um divertido livro de ficção. Ou não?

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