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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Policiais ganham reality shows e cadeira cativa na TV

14/12/2010 08h28 - Atualizado em 14/12/2010 12h46

Policiais ganham reality shows e cadeira cativa na TV
Em SP, 'Operação de risco' e 'Polícia 24 horas' acompanham rotina do crime.
No Rio, ex-capitão do Bope se destaca como comentarista do 'RJTV'


Seja comentando as megaoperações contra o tráfico na Vila Cruzeiro ou Alemão, no Rio, seja atendendo ocorrências de crimes passionais, em São Paulo, a figura do policial tem sido cada vez mais presente na TV brasileira. Mas o apresentador raivoso e barulhento, que esmurra a bancada para demonstrar sua indignação com a criminalidade, está saindo de moda.

Em um telejornal como o "RJTV", o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel analisa o lado técnico das ações policiais. E, nos programas sobre violência urbana, os novos astros são policiais em ação, num formato televisivo mais pop: o reality show.

Cenas do "Polícia 24 horas": programa segue equipes policiais em ocorrências por SP. (Foto: Divulgação)Diferente do caçador de traficantes fardado mostrado no cinema, o “capitão Nascimento da TV” dirige sua viatura em alta velocidade para perseguir ladrões de carros, apartar “desinteligências” entre vizinhos e até resgatar o gatinho da aposentada no telhado. Tudo acompanhado do produtor e do cinegrafista de uma emissora.

Seguem essa linguagem o “Operação de risco“, da Rede TV!, e o “Polícia 24 horas”, da Band. As duas atrações estrearam este ano e rendem índices significativos de audiência para os canais.

Apresentado por Alexandre Zakir, ex-delegado do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e atualmente corregedor da Secretaria Estadual de Saúde, o “Operação de risco” exibe o desenrolar de até três casos atendidos pelas polícias Militar, Civil e Científica.


Alexandre Zakir, que apresenta o "Operação de
risco" na Rede TV!. (Foto: Reprodução/Medialand)Segundo Zakir, semanalmente, são gravadas mais de 2.000 horas de ocorrências em diversos pontos de São Paulo e o roteirista Beto Ribeiro transforma os “QRUs” - chamados pelo rádio - em histórias interessantes para o espectador.

“Faço algumas adaptações no texto, com adequações de termos jurídicos. Os policiais têm seus neologismos, então também ajudo a traduzi-los para o público”, conta o apresentador.

Zakir explica o êxito do formato como “tendência que atende uma necessidade do público”. “Acho que as pessoas cansaram dos antigos policialescos, que só serviam para aumentar a sensação de insegurança. Mostravam-se os crimes, a revolta, mas nunca o que a polícia estava fazendo para acabar com aquilo”, opina o apresentador. “Agora o telespectador tem dimensão do problema, mas sabe que há policiais trabalhando empenhados, que se arriscam dia-a-dia para combater o crime”.

“Cops” brasileiro
Acompanhar a rotina policial em uma grande metrópole não é inovação da TV brasileira. Nos Estados Unidos, séries como “Cops” já usam o formato desde 1989.

Bem parecido com o "primo” americano é o “Polícia 24 horas”, da Band. Trazido pela produtora argentina Eyeworks Cuatro Cabezas – a mesma do humorístico “CQC” – o programa não tem apresentador, traz apenas os policias em campo, numa edição dinâmica e, dependendo da ocorrência, acrescentando até pitadas de humor.

“Acho que as pessoas cansaram dos antigos policialescos, que só serviam para aumentavar a sensação de insegurança. Mostravam-se os crimes, mas nunca o que a polícia estava fazendo para acabar com aquilo”Alexandre Zakir, ex-delegado do DHPP e apresentador do 'Operação de risco'Casos mais sérios, como perseguição a um chefão do tráfico, têm músicas de suspense como trilha sonora. Mas é comum o uso de sonoplastia engraçadinha em episódios como discussões acaloradas de trânsito ou jovens suspeitos que urinam nas calças ao serem abordados para revistas.

“Esses elementos são utilizados somente para reforçar as situações absurdas que a polícia deve enfrentar no dia-a-dia”, explica Juan José Buezas, diretor do “Polícia 24 horas”. “O programa mostra como a polícia pode intervir no cotidiano da comunidade não só em ações que incluem confrontos, mas também como peça-chave na vida dos bairros”, completa.

Porta-voz da Polícia Militar de São Paulo, o capitão Sérgio Marques é quem encaminha a emissora a rotina dos batalhões a serem filmados. “Os policiais recebem a orientação de agir naturalmente, seguindo os procedimentos operacionais padrão. Claro que ele terá que zelar pela segurança da equipe de TV que leva na viatura. Nós obrigamos todos a usar colete à prova de balas”, esclarece.


Rodrigo Pimentel conquistou cadeira cativa no 'RJTV'
(Foto: Reprodução/RJ TV)Marques descarta a possibilidade de os militares cometerem atos de heroísmo em frente às câmeras para ganhar mais visibilidade nos programas. “Nesse aspecto a gente fica bem tranquilo, porque o testemunho de uma equipe de televisão garante transparência às ações desses policiais. Se ele cometer alguma infração, sabe que será punido com rigor”.

Versão carioca
Especialistas em segurança pública concordam que ainda não existe a possibilidade de um “Cops” versão carioca. “Seria muito arriscado para uma equipe de TV acompanhar a nossa rotina. O policial do Rio de Janeiro enfrenta armas de guerra em confrontos”, opina o capitão Ivan Blaz, chefe de comunicação do Batalhão de Operações Especiais (Bope).

Acho que qualquer policial do Rio de Janeiro pode fazer uma boa análise do que acontece no dia-a-dia da cidade, com mais propriedade que um acadêmico"Rodrigo Pimentel, autor de 'Elite da tropa' e comentarista de segurança pública da TV GloboNo entanto, as recentes coberturas midiáticas das ações na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão tiveram efeito de um “Big Brother” na vida dos militares envolvidos. “A imprensa jogou luz para fatos até então desconhecidos pelos cidadãos. Foi mostrado o drama familiar do policial que ficou cinco dias sem voltar para casa e o quanto os moradores das comunidades ansiavam por aquelas operações”, cita Blaz.

O capitão cita como imagem mais forte mostrada pela imprensa aquela em que dezenas de bandidos fugiram desesperados do cerco policial na Vila Cruzeiro. “Aquelas cenas, transmitidas por diversas emissoras, nos ajudaram na operação seguinte: a realizada no Complexo do Alemão. Os marginais que assistiram àquele momento, certamente desistiram de apresentar alguma resistência à nossa chegada.”

A figura do policial ganhou os holofotes não apenas no acompanhamento in loco das câmeras, mas também como analista de tudo o que estava sendo mostrado nos telejornais. Caso de Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope e um dos autores do livro que inspirou o filme “Tropa de elite”, que se tornou comentarista de segurança pública nos programas jornalísticos da TV Globo.

“Acredito que, se essas ações no Rio tivessem acontecido há dez anos, certamente seria um sociólogo ou um antropólogo o convidado a comentar os fatos na TV”, opina Pimentel. “Sempre fui procurado para dar entrevistas, mas nunca para falar olhando diretamente para o espectador, em linha direta. Acho que qualquer policial do Rio de Janeiro pode fazer uma boa análise do que acontece no dia-a-dia da cidade, com mais propriedade que um acadêmico”.

Pimentel destaca que a polícia deve “aproveitar essa fase exposição midiática para se reaproximar da sociedade”. “Desde ‘Tropa de elite’ a autoestima do policial aumentou. Hoje, quando os policiais do Bope treinam na praia, são aplaudidos pela população”, afirma. “Nos meus comentários, tento aproveitar brechas para falar dos salários baixos da categoria, por exemplo. Esse é um reconhecimento que ainda falta para a nossa polícia”.

Claro que a polícia erra, mas ainda temos nossos herois"Capitão Sérgio Marques, porta-voz da Polícia Militar de São PauloO capitão Sérgio Marques, da Polícia Militar de São Paulo, confirma essa “boa fase”. Ele diz que houve aumento das inscrições para a Academia do Barro Branco, de formação de policiais em 2010. “O jovem gosta de adrenalina e isso é o que o cinema e a TV estão mostrando no cotidiano do policial”, explica. “Antes, a imprensa expunha o policial corrupto, cometendo atos de violência. Agora, finalmente, estamos passando por um processo de equilíbrio de informações. Claro que a polícia erra, mas ainda temos nossos herois”.

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